O ANTIPETISMO LUNÁTICO E O ANALFABETISMO POLÍTICO: Mobilizado pela extrema-direita, a ideologia da demonização do lulopetismo é uma falsificação histórica e uma abominação ética

Querem nos convencer que o PT é um câncer a ser extirpado, uma “organização criminosa” a ser banida do país, um antro de “vermelhos” que querem legalizar a pedofilia e o incesto, um bando de “abortistas” e maconheiros destinados a transformar o Brasil numa “ditadura bolivariana” como a Venezuela – em suma, a própria existência do Partido dos Trabalhadores é descrita como algo equivalente à peste bubônica.

Diante da disseminação tresloucada de um antipetismo fanático e feroz, mobilizado incessantemente pelo populismo odiento da candidatura da extrema-direita (chapa Bolsonaro / Mourão), é preciso ter o mínimo de sensatez e atentar, com respeito à verdade, aos ensinamentos dos fatos históricos e dos legados atuais do ciclo de governos petistas (2002 a 2016). Vamos a eles.

Os dados oficiais referentes aos principais indicadores sócio-econômicos do Brasil, antes e depois dos 13 anos de PT à frente do poder executivo federal, indicam claramente a qualquer cidadão lúcido e bem-informado: a tese de que “o PT quebrou o Brasil” é uma lorota monumental.

Afirmar que o PT “destruiu nossa nação” é uma das maiores fake news de um processo político repleto de enganação e falsidade – em que, como no 1984 de George Orwell, busca-se reescrever a História para que dela sejam apagados os méritos e avanços inegáveis que ocorreram durante as gestões de Lula e Dilma. Uma pesquisa realizada pelo professor Pablo Vieira Florentino aponta os seguintes índices:

SALÁRIO MÍNIMO:

Em 2003: R$240,00
Em 2016: R$880,00

Um aumento de 266% no período enquanto a inflação acumulada foi de 123%. Fazendo a correção, o salário de 2003 equivale a R$535,39 em 2016. Ou seja, um aumento real de 2003 pra 2016 de incríveis 64%.

Fontes: Min. Fazenda, IBGE e FGV.

IDH – ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO

Em 2003: 0,695
Em 2016: 0,755

Fonte: PNUD – ONU

DISTRIBUIÇÃO DE RENDA (GINI)

Em 2003: 0,586
Em 2016: 0,491

O índice GINI mede o grau de desigualdade de um país. Quanto mais próximo de 1, mais desigual é.

Fonte: IBGE

EXTREMA POBREZA

Em 2003: 10,5% (Banco Mundial) 17,5% (IBGE)
Em 2016: 4,2% (Banco Mundial) 9,2% (IBGE)

O Banco Mundial e o IBGE usam rendas diferentes para critério de extrema pobreza. Em ambos percebemos uma queda acentuada (60% e 47,4% respectivamente) no percentual da população que vive em extrema pobreza.

Fontes: Banco Mundial e IBGE

TAXA DE MORTALIDADE INFANTIL (a cada mil nascidos)

Em 2003: 21,5
Em 2016: 14

Uma queda de 34,8% no período. Vale ressaltar que em 2016 tivemos uma epidemia de Zika no país q elevou a taxa de mortalidade infantil, o que torna essa queda mais expressiva.

Fonte: IBGE

TAXA DE ANALFABETISMO

Em 2001: 12,4%
Em 2016: 7,2%

Uma queda de 42% no período.

Fonte: INEP – MEC

ENSINO FUNDAMENTAL
(jovens de 16 anos com ensino fundamental concluído)

Em 2003: 57%
Em 2014*: 74%

Um crescimento de 29,8%.

*O estudo do PNE com base no PNAD que serviu de fonte para estes dados era de 2014, portanto não trazia dados de 2016.

Fonte: Observatório do PNE

PIB

Em 2002: 1,48 trilhões
Em 2016: 6,26 trilhões

Corrigido pelo IGP-M, o PIB de 2002 equivale a 3,53 trilhões em 2016. Ou seja, tivemos um aumento de 323% que, considerando as correções, representa um aumento real de quase 80% no nosso produto interno bruto.

Fonte: IBGE e FGV

RESERVAS INTERNACIONAIS

Em 2003: U$ 37,6 bilhões
Em 2016: U$ 370 bilhões

Um aumento de 884%. Quase 10 vezes maior de quando pegou pra quando entregou o governo.

Fonte: Banco Central

ENSINO SUPERIOR

Em 2002: 466,2 mil alunos concluiram
Em 2014: 837,3 mil alunos concluíram

De 1995 a 2002: 2,4 milhões concluíram
De 2003 a 2014: 9,2 milhões concluíram

O aumento de pessoas com nível superior reflete o sucesso de políticas públicas como o ProUni e também é consequência da melhora da renda da população em geral que passou a ter condição de pagar pelos estudos.

Fonte: MEC

DESEMPREGO

Em 2003: 13%
Em 2014: 4,3% (Fim do 1o mandato da Dilma)
Em 2016: 11,3%
Hoje: 12,3%

A redução da taxa de desemprego do início do governo PT até o início da crise, quando a Dilma ganhou a reeleição, havia sido de 67%. Com a crise que vivemos até hoje este indice subiu bastante, mas mesmo assim se encontra abaixo de 2003 quando o PT entrou. Ou seja, apesar da nossa percepção de que nunca esteve tão ruim, de desesperança e de caos, de fundo do poço, ainda assim está melhor que antes do PT entrar.

Fonte: IBGE – PNAD

Mortalidade infantil para crianças até 1 ano

2003: 27,48% 
2015: 13,08% 
a menor em 11 anos. IBGE.
(contribuição de Jonice Oliveira / Suzanne Xavier)

A isso soma-se os inegáveis avanços em matéria de empoderamento feminino e políticas públicas em prol da igualdade de gênero. Nesta publicação, compartilhada por Meu Voto Será Feminista, são destacadas 6 políticas públicas praticadas pelo PT no período em que esteve no poder executivo federal (2002 a 2016) e que incidiram positivamente sobre a vida das mulheres: 

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O ex-presidente Lula encerrou seu mandato (2002 a 2010) batendo recorde de aprovação e popularidade: atingiu um índice de 87% de avaliações “bom/ótimo” por parte da população (fonte: G1/Ibope). Em Outubro de 2018, na condição de preso político, impedido de disputar as eleições que tinha alta probabilidade de vencer, Lula publicou uma carta ao povo brasileiro onde reflete sobre seu legado e sobre o ódio antipetista hoje mobilizado pelas forças reacionárias, saudosas da Ditadura Militar:

De onde me encontro, preso injustamente há mais de seis meses, aguardando que os tribunais façam enfim a verdadeira justiça, minha maior preocupação é com o sofrimento do povo, que só vai aumentar se o candidato dos poderosos e dos endinheirados for eleito. Mas fico pensando, todos os dias: por que tanto ódio contra o PT?

Será que nos odeiam porque tiramos 36 milhões de pessoas da miséria e levamos mais de 40 milhões à classe média? Porque tiramos o Brasil do Mapa da Fome? Porque criamos 20 milhões de empregos com carteira assinada, em 12 anos, e elevamos o valor do salário mínimo em 74%? Será que nos odeiam porque fortalecemos o SUS, criamos as UPAS e o SAMU que salvam milhares de vidas todos os dias?

Ou será que nos odeiam porque abrimos as portas da Universidade para quase 4 milhões de alunos de escolas públicas, de negros e indígenas? Porque levamos a universidade para 126 cidades do interior e criamos mais de 400 escolas técnicas para dar oportunidade aos jovens nas cidades onde vivem com suas famílias?

Talvez nos odeiem porque promovemos o maior ciclo de desenvolvimento econômico com inclusão social, porque multiplicamos o PIB por 5, porque multiplicamos o comércio exterior por 4. Talvez nos odeiem porque investimos na exploração do pré-sal e transformamos a Petrobrás numa das maiores petrolíferas do mundo, impulsionando nossa indústria naval e a cadeia produtiva do óleo e gás.

Talvez odeiem o PT porque fizemos uma revolução silenciosa no Nordeste, levando água para quem sofria com a seca, levando luz para quem vivia nas trevas, levando oportunidades, estaleiros, refinarias e indústrias para a região. Ou talvez porque realizamos o sonho da casa própria para 3 milhões de famílias em todo o país, cumprindo uma obrigação que os governos anteriores nunca assumiram.

Será que odeiam o PT porque abrimos as portas do Palácio do Planalto aos pobres, aos negros, às mulheres, ao povo LGBTI, aos sem-teto, aos sem-terra, aos hansenianos, aos quilombolas, a todos e todas que foram discriminados e esquecidos ao longo de séculos? Será que nos odeiam porque promovemos o diálogo e a participação social na definição e implantação de políticas públicas pela primeira vez neste país? Será que odeiam o PT porque jamais interferimos na liberdade de imprensa e de expressão?

Talvez odeiem o PT porque nunca antes o Brasil foi tão respeitado no mundo, com uma política externa que não falava grosso com a Bolívia nem falava fino com os Estados Unidos. Um país que foi reconhecido internacionalmente por ter promovido uma vida melhor para seu povo em absoluta democracia.

Será que odeiam o PT porque criamos os mais fortes instrumentos de combate à corrupção e, dessa forma, deixamos expostos todos que compactuaram com desvios de dinheiro público?

Tenho muito orgulho do legado que deixamos para o país, especialmente do compromisso com a democracia. Nosso partido nasceu na resistência à ditadura e na luta pela redemocratização do país, que tanto sacrifício, tanto sangue e tantas vidas nos custou.

Neste momento em que uma ameaça fascista paira sobre o Brasil, quero chamar todos e todas que defendem a democracia a se juntar ao nosso povo mais sofrido, aos trabalhadores da cidade e do campo, à sociedade civil organizada, para defender o estado democrático de direito.

Se há divergências entre nós, vamos enfrentá-las por meio do debate, do argumento, do voto. Não temos o direito de abandonar o pacto social da Constituição de 1988. Não podemos deixar que o desespero leve o Brasil na direção de uma aventura fascista, como já vimos acontecer em outros países ao longo da história.

Neste momento, acima de tudo está o futuro do país, da democracia e do nosso povo. É hora de votar em Fernando Haddad, que representa a sobrevivência do pacto democrático, sem medo e sem vacilações”.

Luiz Inácio Lula da Silva

Curitiba, 24 de outubro de 2018

* * * * * 

Acredito que a ideologia do antipetismo foi disseminada em nossa sociedade nestes últimos anos pelas elites econômicas, ressentidas com a ascensão social das classes mais vulneráveis. Foi uma estratégia recorrente de perseguição política-partidária por parte de vários órgãos da mídia burguesa (como a Rede Globo, Record, Revista Veja, dentre outros órgãos conhecidos como P.I.G. – Partido da Imprensa Golpista). Somou-se a isto parte do Judiciário partidarizado (como naqueles, como Moro e Dallagnol, que praticaram uma suja lawfare na Lava Jato).

Além disso, o antipetismo tornou-se o talismã de muitos cidadãos da classe média, capturados pelo discurso meritocrático e neoliberal que visa nos convencer que cota é esmola, políticas de combate à desigualdade “sustentam vagabundos”, dentre outros argumentos já demolidos pela belíssima canção de Bia Ferreira:

O antipetismo, nos últimos tempos, vem sendo fortemente mobilizado pela extrema-direita: o petismo é utilizado como uma grande “bode expiatório”. Atribuindo ao PT todas as mais absurdas culpas, como a de ter “quebrado o Brasil”, de ser uma “organização criminosa”, de querer instaurar no país uma “ditadura comunista bolivariana”, dentre outros delírios, esta ideologia tornou-se essencial para a decifração do que o psicólogo social Wilhelm Reich chamava de Psicologia de Massas do Fascismo. Um dos mais perspicazes intérpretes desse fenômeno, o Breno Altman (de Opera Mundi) aponta:

Não se trata, para combater a demonização do petismo, de desenhar um halo de santidade sobre o partido. No Brasil, não faltam excelentes análises sobre a experiência do lulopetismo do poder, em que são feitas as devidas críticas e contestações em relação às falhas e insuficiências das políticas petistas. Faz parte da essência da democracia que um partido político esteja aberto a ouvir a voz da discórdia, realizando a auto-crítica e transformando suas práticas para melhor (o que Fernando Haddad sempre fez de modo magistral e exemplar).

Sobre o PT, há um mergulho aprofundado e uma reflexão digna deste nome nas obras de figuras respeitáveis das ciências sociais e humanas: André Singer (autor de Os Sentidos do Lulismo O Lulismo em Crise), Francisco de Oliveira, Rudá Ricci, Ruy Braga, Marilena Chauí, Vladimir Safatle, Edson Teles, dentre muitos outros. Além de coletâneas como esta da Editora Boitempo:

O problema é que o antipetismo, como fenômeno de massas no Brasil Bolsonarizado de 2018, nada possui de sensato, racional, estudado ou bem-informado. O antipetismo vem transformando um número altíssimo de cidadãos brasileiros em cães raivosos, quase um exército de Zumbis, que só sabem vomitar ofensas e xingamentos contra os “petralhas”, o “luladrão”, os “marginais vermelhos” que vão ser “exterminados como ratos” (sim, recebi material desse teor em meu zap…).

Similarmente ao anti-semitismo na Alemanha do III Reich, o antipetismo (e também algo mais amplo que ele, o “antiesquerdismo”) vem sendo mobilizado de modo a construir unidade entre as massas de manobra do campo fascista brasileiro, hoje liderado pelo pretende a führer Bolsonaro, que usa e abusa do discurso de demonização do outro para depois prometer extermínio, perseguição e repressão aos adversários, em uma horrenda linguagem higienista.

O resultado é esta pavorosa onda de violência, intolerância e psicose instigada pelas lideranças Bolsonaristas. Ao incitar a violência contra os “marginais vermelhos”, Bolsonaro funde o autoritarismo fascista com o antipetismo fanático, o que se manifesta na insanidade coletiva que acomete o eleitorado do péssimo e fraudulento candidato do PSL.

Em muitos casos, longe de ser resultado de uma crítica realizada de modo sensato, longe de ser fruto de uma avaliação ponderada sobre a experiência do lulopetismo no poder, o antipetismo raivoso, cheio de uma ira irracional, mais parece um sintoma de psicopatologia, de colapso do senso ético do sujeito. Por ódio contra um partido, defende-se o indefensável: a tortura, o racismo, a violência contra as mulheres, o massacre de lgbts, a discriminação contra indígenas, a aniquilação de direitos trabalhistas, o elogio do terrorismo de Estado sob a Ditadura militar etc.

O seguinte cartaz diz tudo isto de modo sintético e pedagógico:

O antipetismo fanático hoje tornou-se sinal de analfabetismo político. As massas de manobra, bestificadas pelo populismo de extrema-direita, aderem a uma ideologia simplista, maniqueísta, alterofóbica, que criminaliza em massa a esquerda, seus partidos e seus movimentos sociais. Segundo o antropólogo e cientista social Luiz Eduardo Soares, as atuais manifestações de neofascismo no Brasil tem íntima vinculação com uma “atmosfera envenenada por um antipetismo patológico”:

“O impeachment, na atmosfera envenenada por um antipetismo patológico, abriu caminho para que saíssem do armário todos os espectros do fascismo. O anti-petismo é o ingrediente que faz as vezes do anti-semitismo na Alemanha nazista. O anti-petismo identifica O CULPADO de todas as perversões, o monstro a abater, o bode expiatório, a fonte do mal. O anti-petismo gerou o inimigo e gestou a guerra político-midiática para liquidá-lo, guerra que se estende, sob outras formas (mas até quando?), às favelas e periferias, promovendo o genocídio de jovens negros e pobres, e aniquilando a vida de tantos policiais, trabalhadores explorados e tratados com desprezo pelas instituições.

(…) Ser contrário ao anti-petismo, mesmo não sendo petista, é necessário para resistir ao avanço do fascismo. Os que votaram pelo impeachment e, na mídia, incendiaram os corações contra Lula e o PT – Partido dos Trabalhadores, sem qualquer pudor, não tendo mais como recuar, avançam ao encontro da ascensão fascista, que ajudam a alimentar, voluntária e involuntariamente. Não podemos retardar a formação de ampla aliança progressista pela democracia, uma frente única anti-fascista.” – Luiz Eduardo Soares no texto “O tweet do General”

Em 2018, o antipetismo abandonou todos os escrúpulos democráticos e fez uso de uma massiva campanha de assassinato de reputações, fazendo uso das mídias sociais e de uma memética mentirosa e agressiva, tudo com o intuito de moer impiedosamente a honra de Fernando Haddad, Manuela D’Ávila, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Gleisi Hoffmann, dentre outras lideranças da esquerda.

A candidatura da extrema-direita militarista  atacou a candidatura Haddad e Manu com uma enxurrada grotesca de fake news. E só o também grotesco analfabetismo político, desconhecimento histórico e alienação ético-cognitiva explica a credulidade odienta de tantos eleitores que não só acreditaram nas mentiras, mas as disseminaram, fazendo com que se propagassem absurdos inacreditáveis. Na imaginação paranóide e psicótica destes cidadãos imbecilizados por Bolsonaro, o Haddad legalizaria o incesto e a pedofilia, distribuiria kit gay nas escolas, enquanto Manu andaria por aí, cheia de tatoos celebrando Stálin, ensinando com camisetas que “Jesus é travesti”.

As crenças do eleitorado Bolsonarista são uma espécie de pesadelo coletivo e delírio de massa bizarro, onde estão reunidas as noções mais disparatadas e as credulidades mais absurdas. Além de atiçar a violência contra as minorias, o candidato a tirano, o pseudo-Messias quer que o povo brasileiro aperte o botão DELETE em relação ao passado recente do país: seu plano é retornar o Brasil ao estado que tinha há 50 anos atrás, ou seja, quando a Ditadura Militar entrou em seus anos-de-chumbo e promulgou o AI-5 (1968 a 1978).

Recuperar a verdadeira história do que foi o Brasil na era lulista tornou-se, hoje, um ato de cidadania, de justiça, de solidariedade com os oprimidos. Diante da grotesca campanha Bolsonarista, que segue à risca o conselho nazistóide do chefe de propaganda do III Reich, Goebbels – “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” -, é preciso que todos levantemos nossas vozes em prol da verdade hoje amordaçada. Pois, como ensina George Orwell, em tempos onde a mentira tenta se tornar universal, dizer a verdade é um ato revolucionário.

por Eduardo Carli de Moraes
para A Casa de Vidro
27/10/2018

A extrema-direita fascista e nosso colapso civilizacional: sobre o delírio coletivo que se apossa do Brasil

Estamos doentes. Não sei se encontraremos a cura a tempo. A maioria dos eleitores do Brasil continua sem enxergar o horror de nossa própria desumanização.

É chocante testemunhar quando uma parcela tão grande de um povo caminha, como um rebanho de ovelhas subservientes a um pastor insano, rumo ao sacrifício grotesco de todos os valores humanos que, desde o Iluminismo, fazem parte do que se considera uma convivência civilizada.


Neste cartaz, com design de Rodrigo Nunes, temos uma coletânea de frases do candidato Jair Bolsonaro. Diante delas, em qualquer situação histórica normal, seria desnecessário explicar aos cidadãos de qualquer país que não estivesse doente, alucinado, em estado grave de “psicopatização” (Maria Rita Kehl), o porquê é uma atitude inaceitável, irracional, temerária e auto-destrutiva, para qualquer povo, escolher para si mesmo o jugo de um tirano impiedoso e sanguinário.

Mas não estamos em uma situação histórica normal, mas sim numa daqueles épocas de insanidade coletiva em que não se enxerga o óbvio, em que os lúcidos não são ouvidos, onde os alertas batem em ouvidos trancados. A disseminação de fake news plantou tanto ódio e paranóia antipetista que a capacidade de reflexão e juízo de dezenas de milhões de brasileiros está profundamente comprometida.

Hoje, há multidões inumeráveis de Bolsonaristas que estão profundamente convictos de que o melhor caminho para a pátria é entregar o leme do cargo supremo do Executivo Federal a um sujeito desequilibrado e violento, que entre suas promessas de campanha fala em “fuzilar a petralhada”.

Entre nós, isso não causa mais choque. É “normal” que um candidato prometa o genocídio de seus adversários durante uma eleição num país que ainda seria, ao menos formalmente, uma democracia. Ao invés de repúdio geral da população por suas posturas de desprezo completo pelo jogo democrático, o facínora recebe os urros de celebração de uma horda de fanáticos a cada declaração racista, truculenta, militarista, pró-chacina, que profere de maneira irresponsável e inconsequente.

No Brasil, o sadismo tornou-se um fenômeno de massas: os eleitores do Bozo gozam perversamente com o sofrimento alheio, deleitam-se com as violências racistas, homofóbicas, misóginas e belicistas proferidas por aquele que chamam Mito.

E muitos Bolsominions já agem de acordo com os ditames de seu führer – o assassinato a facadas de Moa do Catendê, mestre de capoeira, não é um caso isolado. Houve o sequestro de uma garota para impor a ela a tatoo horrenda de uma suástica. Houve espancamento de estudante pelo “crime” de vestir um boné do MST. Aonde vamos parar? Hoje, se eu sair na rua com uma camiseta vermelha com estampa Lula Livre, corro o risco de não voltar vivo para casa. É esse o país que queremos?

Nunca pensei que viveria para testemunhar meus concidadãos descendo a tal nível de baixeza ética e cognitiva a ponto de se tornarem os servis propagadores de sórdidas mentiras – como aquela, disseminada para milhões de pessoas, que afirma que Haddad iria legalizar a pedofilia. É tão evidente que isso é uma mentira deslavada, é tão explícito que se trata de uma suja difamação sem nenhum ponto de contato com a realidade, que fico me perguntando qual a motivação afetiva por trás da colaboração ativa de tantos cidadãos na disseminação de absurdos como esses.

O Bolsonarismo apela para o que há de mais ignóbil e sórdido nas pessoas: o sadismo delas, o desejo de rebaixar o outro, o gosto pela humilhação e pela sub-humanização da alteridade que difere da norma que se coloca dogmaticamente como sagrada (a norma do homem, branco, cis, hetero, rico, conservador, tradicionalista, que vai trucidar tudo que se desvie disso.)

Suspeito que só a psicologia de massas do fascismo possa lançar alguma luz sobre esta doença coletiva. Considero o fascismo um sistema político baseado numa espécie de Crueldade Organizada. As satisfações que o fascismo fornece às hordas de cidadãos que aderem a ele são da ordem da crueldade deleitosa: tratar o outro demonizado como se fosse um verme, a ser humilhado, pisoteado, privado de direitos humanos, reduzido a animal.

Nestas eleições, vi com repugnância e indignação que os Bolsonaristas circulavam memes, disseminados por milhões de pessoas, onde se dizia que os petistas eram “ratos” e que as eleições eram o momento de “exterminar as pragas”. A propagação desse tipo de discurso vinha muitas vezes acompanhada de risinhos e de “kkkkkk”s, sintoma de que o sujeito está de fato gozando com a idéia de que o outro é um rato a ser exterminado, e que uma urna de votação deve ser usada como instrumento para empoderar justamente o Estado Genocida que nos livrará dos ratos.

O antropólogo Luiz Eduardo Soares fez um diagnóstico comparativo que vale a pena citar: para ele, o antipetismo funciona hoje de maneira análoga ao antisemitismo na Alemanha da época em que o Partido Nazista subiu ao poder e produziu o Holocausto (o assassínio em massa de mais de 6 milhões de judeus europeus).

 

“O impeachment, na atmosfera envenenada por um antipetismo patológico, abriu caminho para que saíssem do armário todos os espectros do fascismo. O anti-petismo é o ingrediente que faz as vezes do anti-semitismo na Alemanha nazista. O anti-petismo identifica O CULPADO de todas as perversões, o monstro a abater, o bode expiatório, a fonte do mal. O anti-petismo gerou o inimigo e gestou a guerra político-midiática para liquidá-lo, guerra que se estende, sob outras formas (mas até quando?), às favelas e periferias, promovendo o genocídio de jovens negros e pobres, e aniquilando a vida de tantos policiais, trabalhadores explorados e tratados com desprezo pelas instituições.

(…) Ser contrário ao anti-petismo, mesmo não sendo petista, é necessário para resistir ao avanço do fascismo. Os que votaram pelo impeachment e, na mídia, incendiaram os corações contra Lula e o PT – Partido dos Trabalhadores, sem qualquer pudor, não tendo mais como recuar, avançam ao encontro da ascensão fascista, que ajudam a alimentar, voluntária e involuntariamente. Não podemos retardar a formação de ampla aliança progressista pela democracia, uma frente única anti-fascista.”

– Luiz Eduardo Soares no texto “O tweet do General”. SOBRE O AUTOR: É antropólogo, cientista político, especialista em segurança pública e escritor brasileiro. Compartilhar.

Nos dois casos, dissemina-se pelo corpo social a noção de inimigo interno: a demonização do outro – judeu ou petista – se dá através do recurso às mentiras mais sórdidas e vis; o outro é a encarnação de Satanás, de tudo que há de mais sujo e mais corrupto, de tudo o que precisa desaparecer da face da terra, de tudo que merece ser preso em campos-de-concentração ou ser fuzilado sem dó (Bolsonaro já disse: “precisamos matar uns 30 mil”).

Como professor de filosofia, estou consciente de que muitos pensadores já atentaram para estes fenômenos, a começar por Étienne de la Boétie, com seu clássico tratado “Sobre a Servidão Voluntária”, precursor de estudos realizados no século 20 por figuras como Wilhelm Reich, Erich Fromm, Hannah Arendt, Stanley Milgram. Há de fato nos seres humanos uma tendência ao sacrifício da autonomia, da liberdade, da responsabilidade, que muitas vezes são sentidas como fardos pesados demais para se carregar e que o cidadão prefere depositar, para sacrifício, no altar do tirano.

É mais simples seguir as ordens do ditador do que encarar a aventura difícil da auto-determinação. É mais fácil ser ovelha que vai com as outras, para onde quer que mandem os pastores, do que organizar as ovelhas em assembléia para que deliberem sobre os melhores rumos para a coletividade.

É mais rápido, diante das ovelhas negras, chamar o carrasco para conduzi-las ao cadafalso, onde serão decapitadas, ao invés de ouvir a voz da discórdia que tanto pode fazer para qualificar o debate público.

É com muita tristeza que vivo no Brasil de hoje diante do tamanho assustador das hordas que apoiam Bolsonaro. Pois apoia-lo é um sinal inconteste de que a pessoa está doente. Eticamente, perdeu algo de essencial: a capacidade de empatia e de solidarização. Aderiu ao ódio que fere, que mata, que segrega. Fez-se instrumento de um projeto autoritário que nos separa e nos desumaniza.

Quem adere ao Bolsonarismo, pelo gozo sádico e perverso de participar de uma horda que humilha e maltrata aqueles que são estigmatizados como “escória do mundo” (não só petistas, mas negros, feministas, comunistas, LGBTs, ativistas de movimentos sociais, sem-terras, sem-tetos etc.), está jogando no lixo uma parte preciosa de si: sua humanidade. Filia-se aos algozes que cavam a cova de nosso futuro, sem ver o perigo que corre entre nós a própria civilização democrática que com muito suor e lágrimas construímos.

Só uma sociedade em que entrou em colapso massivo o bom-senso, a lucidez e a sensibilidade poderia seguir, rumo a um abismo de onde não sei quando sairemos, este sub-Führer, grotesco e patético, que é Bolsonaro. Um psicopata completamente despreparado para uma função de tamanho poder quanto a de presidente da República. Um tirano dos mais abomináveis e que promete, entre nós, “extirpar os ativismos”, usar o “lança-chamas” contra Paulo Freire, purgar a pátria através da tortura e da guerra civil onde sejam mortos “uns 30 mil”.

Escolhendo Bolsonaro, vocês escolhem o morticínio e a carnificina. Vocês escolhem Tânatos e a necropolítica. Vocês escolhem a ignorância, a estupidez e a colheita nefasta dos massacres administrativos. Vocês escolhem o sangue derramado dos inocentes e a profanação mais grotesca de todas: a da infância. Escolhendo Bolsonaro, vocês são cúmplices de um projeto de desumanização em que crianças são ensinadas a atirar armas e a odiar as diferenças. Fazendo uma tão péssima escolha, dando um tal tiro no pé, vocês escolhem o pior opressor para nos tiranizar e enterram o sonho de um Brasil mais justo e solidário, melhor educado e mais culto, respeitado internacionalmente e capaz de propor ao globo um caminho alternativo à hecatombe que é o capitalismo neoliberal globalizado.

Ganhando Bolsonaro, perdemos todos.

#EleNão

* * * * *

Um texto importante, viralizado nas redes, de Rafael Azzi, tinha como título: “Sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada.” Manipulada por fascistas. Manipulada para agir como um fascista. Com aval de Trump e o poderio da Cambridge Analytica. Com o poder de enganação massivo que há na Deep Web.

As infelizes vítimas da Lavagem Cerebral e da Programação Robótica de Subjetividades, processos perpetrados hoje pelas forças da extrema-direita no Brasil, caminham, feito um exército de zumbis lobotomizados, para o abismo. E querem arrastar o país inteiro com eles para um buraco que não temos ideia de quão fundo, nem de como dele depois sairemos. Enfim: é uma baita ideia de jerico, um trágico projeto de suicídio coletivo. É a guerra dos estúpidos contra os sensatos, e os estúpidos estão vencendo. É escolher entre um Opressor racista, machista, homofóbico, armamentista, ditador, obscurantista, e um Professor sensato, iluminista, republicano, democrático, conciliador e sádio – e a maioria tem tendido a preferir o pior. É loucura de massas num hospício a céu aberto, e logo vão mandar pro pau-de-arara ou pra cadeia justamente aqueles, dentre nós, que estão diagnosticando a “psicopatização” da sociedade brasileira, para emprestar a expressão de Maria Rita Kehl.


A turma que vomita conteúdos e slogans com a obsessão do “PT NÃO” normalmente é composta por pessoas que confundem xingamentos e memes mentirosos com argumentos, coisa que lhes falta. São pessoas que puxam o nível do debate político para o nível deles, isto é, para a baixeza dos ataques ao inimigo em que não vigora nem uma gota “fair play”. São brasileiros que desconhecem não só a História do país, como também a travessia do Partido dos Trabalhadores nestes seus 38 anos de existência. Não são capazes de fazer uma lúcida avaliação dos governos petistas, mas aderem à simplificação grotesca que consiste em atribuir todos os males do Brasil àquilo que se quer pintar como Organização Criminosa equivalente à peste bubônica. Esta criminalização e demonização do PT disseminou-se como uma doença no corpo social e o ovo da serpente é o movimento militar-teocrático que venho chamando de Bolsonazismo.

O fascismo sempre necessitou da demonização do outro, e hoje os fascistas utilizam-se do antipetismo como sua ferramenta predileta de mobilização de suas massas-de-manobra.Os Bolsominions, pagando Mico ao idolatrar tão abjeto “Mito”, estão sendo coagidos, por uma campanha lotada de fake news e que manipula os afetos de modo vil, a usar as urnas como um instrumento para autodestruição da Democracia.

Votar em um ditador: que loucura é essa, ô 49 milhões de cidadãos de meu querido Brasil? Vocês estão tentando puxar o país inteiro com vocês para a hecatombe dos direitos civis e das liberdades democráticas? Enquanto celebram, acéfalos e manipulados, este Sub-führer tropical que ameaça nos lançar ao mais completo caos e convulsionamento social?

Temos poucos dias para conseguir disseminar um “Choque de Conscientização” que consiga iluminar ao menos uma parcela destas mentes fanatizadas e estupidificadas pelas propagandas nível-Goebbels que vem sendo utilizadas para difamar e satanizar o Partido dos Trabalhadores, todos os seus quadros, todos os seus apoiadores, todos os seus eleitores, mesmo aqueles que são críticos construtivos do PT.

Os Bolsominions, aqueles que participam ativamente da campanha pró-Bolsonaro, aqueles que tem realmente convicções quanto a isso, são muitas vezes cidadãos que nos fazem lembrar daquela frase de Simone de Beauvoir: “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.” Se os considerarmos incuráveis, totalmente imunes à argumentação, indignos de diálogo, então de fato estaremos entregando de mão beijada as suas consciências sequestradas aos ideólogos da Direita.

Eu, trabalhador da educação, servidor docente da rede federal de ensino, acho que a práxis do educador só tem sentido na perspectiva de que cada um de nós é transformável pois perfectível. Jamais seremos perfeitos, mas caminhamos juntos rumo às melhores versões de nós mesmos que em comum podemos colaborar criando. Por isso, não “essencializo” o Bolsominion: ele não nasceu isso, isso tornou-se. Trata-se de tentar convencê-los de que estão equivocados, trata-se de seduzi-los para uma aliança mais humana e solidária. Missão quase impossível? Não importa, é preciso dar tudo a esta luta neste momento tão urgente de nossa história, pois como nos olharíamos no espelho sem nojo, sem repugnância, caso tivéssemos nos acovardado no momento em que o país exigia de nós a coragem, a lucidez e o amor para ir ao embate contra o fascismo e suas atrocidades?

O cyberativismo agora é um campo de batalha, e a extrema-direita está vencendo aí, neste campo, através da viralização do falso e do imoral mergulho na era da Pós-Verdade. Não se trata de jogar tão sujo quanto eles, mas sim da tentativa de fazer a Verdade falar mais alto. Provavelmente perderemos, mas estaremos estado sempre do lado da dignidade, da responsabilidade, da defesa incansável do direito de todas as pessoas humanas ao florescimento, contra a horrenda política de segregação, humilhação e extermínio das diferenças proposta pelo totalitarismo Bolsonarista.

O que hoje nos estarrece é a extensão da cumplicidade dos oprimidos com esse projeto de tirania encarnado pela teocracia militarizada do Bozonazismo. Aqueles que ainda filiam-se a Bolsonaro estão inconscientes de que agem como cúmplices de um projeto político desumano, opressor e potencialmente genocida. Acredito que só uma parcela dos eleitores de Bozo é composta de psicopatas sádicos que querem gozar perversamente com os horrores que serão cometidos contra a população negra e periférica, contra LGBTs, contra feministas, contra comunistas, contra ativistas de esquerda de todos os coloridos. Uma boa parte do eleitorado é simplesmente irresponsável e inconsequente, vê a política como uma brincadeira sem muita importância, e vai à urna para nela depositar ódios mesquinhos, implantados ali por mídia, família e pastores, que nada tem a ver com uma autêntica deliberação cidadã sobre o futuro da gestão do Bem Comum.

Política, para eles, é ferramenta para a raiva recalcada poder manifestar-se por procuração, com um certo gozo que há de cair-de-joelhos diante de um Grande Pai, que faça sofrer e berrar a “todos os vagabundos” (os outros, demonizados, que nos garantem que somos “cidadãos-de-bem”). Pobres Bolsominions, pensam que serão poupados da derrocada civilizacional que o fascismo entre nós propaga! Pensam que não perdem eles também com a desumanização e a brutalização geral de nossa sociedade! Estão perdendo todos.

Muitos dos eleitores de Bolsonaro não conseguem atingir aquele grau de reflexão e auto-crítica necessário para colocarem a questão: será que estou sendo manipulado, como uma marionete, por elites egoístas e interesseiras que só querem nos usar de trampolim para chegar ao poder? Não foram ensinados, na escola, sobre os mecanismos pelos quais as ideologias se alojam nas consciências, como parasitas, fazendo-nos achar que são “nossos” algumas idéias e afetos que nos foram inculcados e implantados por poderes externos, interessados na vantagem deles, e não na nossa.

É uma situação histórica que também traz à lembrança os ensinamentos de Hannah Arendt, que ficou estarrecida, diante do Julgamento de Eichmann em Jerusalém, com a estupidez e a irreflexão daquele ser humano que havia contribuído enormemente com o Holocausto, ou seja, com “o massacre administrativo” de milhões de pessoas pelo III Reich alemão.

Hoje, 15 de Outubro, dia do Professor, reflito com melancolia sobre a difusão assustadora da estupidez e da irreflexão entre tantos de nossos concidadãos, mas me recuso a considerá-los como causa perdido. Sei de muitos companheiros que seguem em incansável atividade: estamos trabalhando dia e noite na tentativa de alertá-los sobre o perigo que as instituições democráticas correm entre nós. Infelizmente são demasiado numerosos os atingidos pela “contaminação fascista” para que o trabalho que temos pela frente não seja sentido, dolorosamente, como um trampo de Sísifo.

Algo com gosto desesperador e absurdo. Por isso, ler Albert Camus tornou-se novamente, para mim, uma necessidade orgânica – hoje almoço arroz, feijão, ovo e “O Homem Revoltado”.

Sobre os cidadãos que votarão em Bolsonaro, cegos quanto à catástrofe que isso representa para o conjunto de nosso povo brasileiro, vale lembrar o genial poema, todo feito de neologismos, escrito por José Paulo Paes, que profeticamente descreve os males de que sofrem e os infelizes desumanizados que eles estão sendo:

“economiopia
desenvolvimentir
utopiada
consumidoidos
patriotários
suicidadãos”

CONFIRA TAMBÉM:

SUCURSAIS DO INFERNO – Documentário “Sem Pena” reflete sobre o sistema carcerário brasileiro e expõe as entranhas do sistema de justiça no país [assista na íntegra]

SEM PENA

(Documentário, longa‐metragem, 87min, cor, 2014)
Direção: Eugenio Puppo. Produção: Heco Produções. Distribuição: Espaço Filmes. Codistribuição: Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

SINOPSE: “Com um cenário crescente de violência urbana é comum na sociedade um discurso punitivo, que clama por penas cada vez mais altas. Nesse contexto há uma evidente incompreensão dos direitos e garantias do outro, afetando sensivelmente o exercício do direito de defesa de acusados de crimes.

O documentário Sem Pena retrata as adversidades vividas pelas pessoas presas e processadas criminalmente e para tanto apresenta vários depoimentos. O filme traz ainda testemunhos de juízes, promotores, advogados e especialistas do sistema de justiça criminal. A partir de imagens impactantes de prisões brasileiras, o documentário pretende estimular uma análise crítica da realidade do sistema de justiça, destacando temas relativos à alta taxa de encarceramento e a falta de acesso à justiça no Brasil.

Nenhuma população carcerária cresce na velocidade da brasileira, que já é a terceira maior do mundo. Sem Pena desce ao inferno da vida nas prisões brasileiras para expor as entranhas do sistema de justiça do país, demonstrando como morosidade, preconceito e a cultura do medo só fazem ampliar a violência e o abismo social existente.”

ALGUNS PERSONAGENS ENTREVISTADOS:

‐ Nilo Batista ‐ Advogado e Professor Titular de Direito Penal na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, foi Secretário de Estado (Segurança e Justiça), Vice‐governador (1990‐1994) do Estado do Rio de Janeiro, e Governador do Estado entre abril de 1994 e janeiro de 1995. É autor de vários artigos e livros sobre Direito Penal e Criminologia. É fundador do Instituto Carioca de Criminologia sediado no Rio de Janeiro.

‐ Luiz Eduardo Soares ‐ Antropólogo, autor dos livros “Justiça” e “Elite da Tropa”, foi Secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro e ocupou a Secretaria Nacional de Segurança Pública. É um dos maiores especialistas em segurança pública do país.

‐ Alvino Augusto de Sá ‐ professor de Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no Departamento de Direito Penal, Medicina Forense e Criminologia. Foi, durante 30 anos, psicólogo do sistema penitenciário paulista, chegando a fazer mais de dez mil exames criminológicos na carreira, inclusive de grandes casos retratados pela mídia.

‐ Carlos Dias – Artista plástico. Andava na rua quando foi abordado por dois flanelinhas. Foi espancado e levado de camburão à delegacia. A vítima o “reconheceu” pela janela do camburão, pois estava com a mesma roupa do autor de um estupro que acabara de acontecer. No ambiente hostil da prisão, o rapaz que já era tímido, retraiu‐se ainda mais. Levou mais de um mês para a “confusão” ser esclarecida e a vítima assumir que não tinha visto o rosto do sujeito dentro do carro. A sua vida foi completamente influenciada por este episódio.

‐  Verônica Espíndola – Mulher de 42 anos, ficou presa sete anos e meio e, durante o cumprimento de sua pena, perdeu a guarda de seus filhos. Esse caso mostra o peso da prisão na vida de uma mulher, as consequências, os traumas advindos da perda da guarda de seus três filhos.

Sem Pena foi filmado em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre, nos principais locais relacionados à justiça criminal, como Penitenciárias (algumas nunca antes filmadas), Defensorias Públicas, Centros de Ressocialização, Instituto Psiquiátrico, Fórum Criminal e Tribunal de Justiça.

Sem Pena 4
Sem Pena 2
Sem Pena 3
Sem Pena 5

ASSISTA O FILME NA ÍNTEGRA:

A VIVACIDADE DA CULTURA BRASILEIRA SEGUNDO IVANA BENTES [UFRJ/MinC] (Leia matéria da Revista Cult e vídeos selecionados de TEDs, ENTREVISTAS E PALESTRAS)

REVISTA CULT – #188
Matéria de capa com Ivana Bentes (Docente da UFRJ / Parceira do Ministro Juca Ferreira (acima) na Secretaria da Cidadania e Diversidade Cultural do MinC

Ivana Cult“Inocente, pura e besta”. É assim que a ensaísta e professora Ivana Bentes diz ter chegado ao Rio de Janeiro, em 1980, família de comerciantes, sem sobrenome para ostentar, nascida em Parintins, no Amazonas, e tendo passado a juventude em Rio Branco, no Acre. Foi a entrada em uma universidade pública, a Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que mudou sua trajetória.

Segundo ela, frequentar um espaço que ainda forma uma elite não foi uma inclusão, mas uma intrusão social, daquelas que fazem uma pessoa dar um salto astronômico. Foi naquele ambiente universitário borbulhante de oportunidades e desafios que Ivana foi traçando sua carreira profissional. Primeiro como redatora e ensaísta no Caderno Ideias, do Jornal do Brasil, onde teve a oportunidade de se conectar com centenas de escritores, intelectuais e pensadores. E antes escrevendo sobre cinema na revista TABU,do Grupo Estação Botafogo, o icônico cinema carioca, que deu a ela a chance de se formar cinematográfica e culturalmente e mais tarde protagonizar polêmicas como a que lançou em torno do filme Cidade de Deus e sua “cosmética da fome”. No Jornal do Brasil, entendeu o jogo de influência cultural, política e de intervenção no mercado da mídia e suas engrenagens.

No início dos anos 1990, engatou um mestrado e um doutorado na ECO, mas foi com a formação em grupos de estudo de filosofia, onde mergulhou no pensamento de Gilles Deleuze, Michel Foucault e mais recentemente Antonio Negri, que pôde perceber o poder de mobilização dos conceitos. Na ECO, onde entrou como aluna, se tornou professora da pós-graduação e diretora, tendo como professores e depois colegas Muniz Sodré, Márcio Tavares d’Amaral, Emanoel Carneiro Leão, Heloísa Buarque de Hollanda. Percebeu rapidamente que a Universidade só faria diferença se fosse o ambiente para o surgimento de formadores de opinião, críticos, pensadores e agentes de transformação e não formar o profissional fordista substituível das redações. Entre 2006 e 2013, ela assumiu a direção da ECO decidida a usar o grande laboratório universitário para radicalizar práticas democráticas, estimulando os alunos a participarem de ações de ativismo, movimentos culturais e sociais da cidade, redes de mídia e cultura.

Nesta entrevista, Ivana Bentes discute as novas diretrizes para os cursos de jornalismo, política e comunicação, o midialivrismo, a sociedade em rede e as mutações pós-mídiasdigitais. Para ela, se o capitalismo é comunicacional, a revolução terá que ser também midiática. Ciente da importância do campo das Comunicações nos dias de hoje, para muito além dos bancos universitários, a professora afirma que há momentos em que é preciso sair do figurino acadêmico para poder se comunicar e falar para o público fora da academia. Talvez por isso a jovem “inocente, pura e besta” topou posar para a foto dessa reportagem numa pose que ela chama de “respeitosamente vândala”.

Ivana Bentes 8

Qual a sua avaliação sobre os parâmetros curriculares recém-instituídos pelo Conselho Nacional de Educação para os cursos de jornalismo?

Um retrocesso e uma quase tragédia. Surge na contramão do entendimento de pensadores e teóricos da comunicação que fizeram o movimento oposto décadas atrás, procurando incluir o jornalismo como parte de uma formação mais ampla. Foge ao contexto atual de convergência das mídias e de produção da informação nas redes sociais que exige um profissional com múltiplas habilidades, um analista simbólico, um ensaísta, um ativador e produtor de desejos. Esse perfil não tem nada a ver com o profissional adestrado por uma formação fordista e extremamente limitada, do “quê, quem, como, onde”, e que passa longe de todos os clichês que construímos em torno desse personagem.

As novas diretrizes respondem a uma crise de mediação. Mas o jornalista não é mais o mediador privilegiado, o “gatekeeper”, o guardião do que é ou não é notícia, do que é ou não noticiável. As corporações de mídia e o jornalismo nunca foram tão questionados e buscam manter de pé uma mística da excepcionalidade da atividade jornalística. Com ou sem formação especializada, a mídia somos nós. O que não acaba com a necessidade de formação, mas a estende para toda a sociedade. O jornalismo é importante demais para ficar na mão de corporações, cartórios e especialistas.

Midialivrismo

A sra. começou afirmando que vê um retrocesso e uma quase tragédia…

É uma quase tragédia porque acredito que o paradigma das redes, do midialivrismo, do jornalismo-cidadão, a comunicação pós-mídias digitais, os estudantes, professores, ativistas e teóricos que lutam por uma formação des-engessada, todos eles vão canibalizar as diretrizes (do CNE) e subvertê-las. Pode ter retrocesso, mas não tem volta. As novas diretrizes são fruto de uma disputa por poder de um grupo de professores e especialistas a quem chamo de “as viúvas de Gutemberg”, extremamente corporativos e que funcionam no campo da Comunicação como a “vanguarda da retaguarda”, para sermos gentis. O que está em curso é a tentativa de manter uma excepcionalidade para a atividade jornalística e também uma manobra para a volta da exigência do diploma de jornalista para exercer a profissão, que foi derrubado em 2009 e até agora não fez a menor falta.

A sra. é contra o diploma de jornalista?

Sempre fui contra. O fim da obrigatoriedade não acabou com os cursos de Comunicação, nem diminuiu a busca pela habilitação em Jornalismo, campos que nunca foram tão valorizados. Os jornais sempre burlaram a exigência de diploma pagando muitas vezes os maiores salários aos não-jornalistas, cronistas, articulistas, vindos de diferentes campos. As universidades não precisam formar os “peões” diplomados, mas jovens capazes de exercer sua autonomia, liberdade e singularidade, dentro e fora das corporações. Não precisamos de profissionais “para o mercado”, mas capazes de “criar” novos mercados, jornalismo público, pós-corporações, produção colaborativa em rede.

O mais importante nenhuma entidade corporativa defendeu nem pensou: uma seguridade nova para os freelancers, os precários, aqueles que não têm e nunca terão carteira assinada. Essas são as novas lutas no capitalismo. A ideia de que para ter direitos é preciso se “assujeitar” a uma relação de patrão-empregado, de “assalariamento”, é francamente conservadora.

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“Se o capitalismo é comunicacional, a revolução terá que ser também midiática.” (Ivana Bentes). Acima, um clássico da história do cinema que debate a mídia, “Network – Rede de Intrigas”, de Sidney Lumet

Sem a obrigatoriedade do diploma, qual o sentido de um jovem ingressar em uma faculdade de Comunicação?

O capitalismo, as revoluções dentro do capitalismo e as ações anti-capitalistas, a publicidade, a economia imaterial, tudo isso depende desse domínio midiático e da posse dessas linguagens. O capital já entendeu isso faz tempo. E se quisermos pensar jornalismo público, jornalismo do comum, a produção de um midiativismo capaz de ativar os desejos por mudanças sociais, tudo isso passa por um outro tipo de formação. A comunicação é central na sociedade de redes. Se o capitalismo é comunicacional, a revolução terá que ser também midiática. É um campo fascinante, que não para de mobilizar os jovens.

Há duas décadas, a sra. iniciou sua vida acadêmica. Já formoucentenas de jornalistas que estão no mercado. Eles estão cumprindo seu papel social?

A Escola de Comunicação da UFRJ formou e forma desde a Fátima Bernardes, que até pouco tempo atrás dividia a bancada do Jornal Nacional com William Bonner, até o Rafucko, que acabou de lançar um vídeo com mais de 800 mil visualizações. Esse vídeo desconstruía, criticava e escrachava um editorial da Globo sobre as manifestações e a liberdade de expressão. Formamos a elite que reproduz o poder e os que lutam por mudanças radicais e se arriscam e inovam. Essa disputa é feita dentro da universidade. Somos criticados por formarmos editorialistas, jornalistas que colocam sua inteligência a serviço do capital ou nos entretendo com perfumaria. E, ao mesmo tempo, um blog da Veja, me acusou de ser uma “blackblocteacher”, de formadora de blackblocs e ativistas radicais, em um texto ressentido e equivocado, mas que não deixa de ser um elogio.

Ivana na Veja

A Revista Veja (Editora Abril) escreveu, sobre Ivana Bentes, os artigos “Mídia Ninja no MinC” e “Tom Crítico”. A revista também atacou o Fora-do-Eixo, o Ninja e outras iniciativas culturais e jornalísticas em artigos publicados por Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo.

Quais são as implicações do surgimento da chamada nova classe média do ponto de vista comunicacional?

As periferias são laboratórios de mundos e a riqueza do Brasil. Não mais os pobres assujeitados e excluídos de certo imaginário e discurso, mas uma ciberperiferia, a riqueza da pobreza (disputada pela Nike, pela Globo, pelo Estado) que transforma as favelas, quilombos urbanos conectados, em laboratórios de produção subjetiva. A carne negra das favelas, os corpos potentes e desejantes, a cooperação sem mando, inventando espaços e tempos outros (na rua, nos bailes, lanhouses e lajes), estão sujeitos a todos os tipos de apropriação. É que as favelas e periferias são o maior capital nas bolsas de valores simbólicas do país, pois converteram as forças hostis máximas (pobreza, violência, Estado de exceção) em processo de criação e invenção cultural. Além disso, o midialivrismo ganha força na periferias, em projetos como a ESPOCC, Escola Popular de Comunicação Crítica da Maré, Viva Favela, Agência Redes Para a Juventude, que formam comunicadores populares e midiativistas.


MARCELO D2, “A MALDIÇÃO DO SAMBA”

Isso tudo é muito novo no Brasil.

O Rio de Janeiro serve de exemplo. É um termômetro da difícil e paradoxal tarefa de calibrar essa euforia pós-Lula, do presidente Macunaíma que turbinou a periferia, e os retrocessos no governo Dilma, que trouxe os “gestores de subjetividade”, que revertem e monetizam a potência das favelas e periferias para o turismo, corporações, bancos e para o consumo. O que vemos na publicidade das UPPs, da Copa do Mundo e dos shoppings é o que chamo de inclusão visual dos jovens negros ou da cultura da periferia. Mas os mesmos jovens são mortos pela polícia como elementos “suspeitos” nas favelas ou impedidos de entrar nos shoppings para dar um rolezinho.

Cartum do sátiro Carlos Latuff

Cartum do sátiro Carlos Latuff

A ascensão social de jovens das periferias tem deixado parte da sociedade em transe. Eles estão no centro da profunda transformação social…

EspetaculoAí vem a reação da Casa Grande, e a mídia em geral amplifica esse discurso, colocando travas e controle na mobilidade urbana e no direito de ir e vir da juventude popular. A juventude negra e periférica vira uma “classe ameaçadora”, que não é bem-vinda nos espaços de consumo da classe média branca. Ao estado de exceção e à violência contra os pobres se acrescenta uma polícia que reprime o funk e os rolezinhos. Essa incapacidade de entender as novas formas de sociabilidade e mobilidade dos jovens traz à cena o velho horror das classes populares e o apartheid racial, social e cultural. A ascensão social expôs a crise das cidades, a privatização dos espaços públicos e o desinvestimento nos equipamentos de lazer. O esquema de segurança dos shoppings, revistando e controlando os pobres, é a ostentação do fracasso do Estado e da sociedade na partilha da cidade.

As maiores publicações do país, como Veja, Folha de S.Paulo, Estado de S. Paulo, TV Globo, vieram a público explicitar seus critérios editoriais. Trata-se de uma resposta às inúmeras críticas que a imprensa vem recebendo da população?

A mídia no Brasil parece querer substituir o Estado de direito, se vê como braço do Estado, podendo, inclusive, colocá-lo em crise a qualquer momento. Negocia denúncias, pessimismo e otimismo, reputações. Mal disfarça a editorialização dos fatos. Mas o mais preocupante é quando infundem o medo das ruas, da política, dos pobres, da juventude, da “esquerda”. Interferem e direcionam fatos e investigações, produzem histeria coletiva e ódio a grupos e movimentos sociais inteiros. Ao mesmo tempo são espaços de controvérsias e disputas necessárias e estratégicas, por isso repito sempre: critica a mídia? Odeia a mídia? Torne-se mídia!

DKennedys

“NÃO ODEIE A MÍDIA, TORNE-SE A MÍDIA” – Um dos gritos-de-batalha de Jello Biafra, artista punk e anarco-ativista Californiano, que cantava no Dead Kennedys e hoje segue ruidoso com a banda Guantanamo School of Medicine

A morte do cinegrafista Santiago Andrade e a posterior perseguição de parte da imprensa aos blackblocs são um sintoma de um discurso midiático perdido ou, ao contrário, posicionado estrategicamente?

Já vimos essa história da construção de inimigos: os comunistas, os subversivos, maconheiros e agora os blackblocs, a ameaça que vai destruir a democracia, a Copa, a moral e os bons costumes. É redutor demais. Vidas são demolidas nesse jogo de demonização, como vimos na repressão brutal da polícia aos manifestantes, nas prisões arbitrárias e mortes, nas capas sensacionalistas da Veja e primeiras páginas e editoriais de jornais e televisões. O nível de manipulação dos fatos foi grosseiro depois da morte do cinegrafista da TV Bandeirantes. A lei que tipifica terrorismo, que querem votar a toque de caixa, e a pauta do medo buscam esvaziar e mudar foco das justas reivindicações para o comportamento dos manifestantes. E a mídia vem legitimando a desproporcional repressão policial, pouco questionada nos noticiários corporativos.Temos uma polarização das ruas contra a associação Mídia-Estado-Polícia, um confronto que produz avanços e retrocessos.

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A Mídia Ninja, que podemos chamar de filha pródiga do movimento Fora do Eixo, nasceu e ganhou muita evidência durante as manifestações de junho de 2013. A sra. vê a Mídia Ninja e suas derivações como o futuro da comunicação?

Um dos efeitos dos protestos de 2013 no Brasil foi a explosão das ações midiativistas. A Mídia Ninja fez essa disputa de forma admirável, amplificando a potência da multidão nas ruas. Ela passou a pautar a mídia corporativa e os telejornais ao filmar e obter as imagens do enfrentamento dos manifestantes com a polícia, a brutalidade e o regime de exceção. O papel dos midialivristas e dos coletivos e redes de mídias autônomas não pode ser reduzido ao campo do jornalismo, mas aponta para um novo fenômeno de participação social e de midiativismo (que usa diferentes linguagens, escrachos, vídeos, memes, para mobilizar). A cobertura colaborativa obtém picos de milhares de pessoas online, algo inédito para uma mídia independente. Nesse sentindo a comunicação é a própria forma de mobilização.

Abaixo: Cobertura fotográfica realizada pela Mídia Ninja do protesto feminista de 28 de Outubro de 2015 no Rio de Janeiro (#ForaCunha)

E o Fora do Eixo?

OFDE Fora do Eixo é um laboratório de experiências culturais e de invenção de tecnologias sociais radicais, que conseguiu transformar precariedade em autonomia. Ele inventou uma forma de viver coletiva e restituir o tempo que o capital nos rouba de uma forma que me toca e mobiliza. As causas políticas que defendem são as minhas e as de muitos: mídia livre, governança, democracia direta, combate a desigualdade e aos preconceitos, defesa da vida, potencialização da autonomia, da liberdade, economia colaborativa, invenção de mundos.

O Fora do Eixo possibilita que jovens dispensem empregos “escravos” ou precários na mídia tradicional, em produtoras comerciais, agências de publicidade, ou qualquer emprego fordista, e passem a inventar a sua própria ocupação. Conheço o Fora do Eixo desde 2011. Na prática,são uma rede de mais de mil jovens que revertem seu tempo e vida para um projeto comum com um caixa coletivo único que paga comida, roupa e casa coletiva, sem salário individual e um projeto comum. Eles não têm medo de dialogar com os poderes instituídos, ao contrário de um certo discurso midiático que procura criar um grande horror à política, que só afasta os jovens e muitos de nós das disputas.

E isso tem muito a ver com as suas pesquisas não se intimidam em enxergar novos dispositivos, conceitos e instrumentais, redes sociais. Qual é a resposta que a sra. procura?

Antes de tudo, viver e lutar por uma vida não fascista, no sentido colocado por Michel Foucault, de lutar contra o “fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora”. Quero experimentar uma vida menos “normopata”, uma erótica do contato que restitua o prazer de vivermos juntos. Sou fascinada pelos dispositivos e a forma como co-evoluímos com eles, reinventando o social, produzindo novos prazeres e angústias, sem deixar de perceber como também expropriam o nosso tempo, nossa libido, nossa energia e nos colocam para trabalhar num novo regime de exploração da vida, brutal.

Tudo isso está provocando uma mutação antropológica. Acompanho e vivo de dentro esses atravessamentos. Recuso transformar os conceitos em juízes das experiências, o intelectual “justiceiro” que se vê ao largo, acima, distante dos fenômenos que analisa e estuda. Não tenho mais objetos de estudo, mas parceiros que me estimulam. Fiz a passagem para o que chamo de teoriativismo ou o tédio da erudição. No que faço está implicado todo o meu corpo e a minha vida. Como diria Nietzsche, ignoro o que sejam problemas puramente intelectuais.

Não lhe preocupa a difusão generalizada de manifestações rancorosas, preconceituosas, de baixíssima qualidade nas redes sociais?

As redes sociais têm tudo o que a sociedade tem: discursos de ódio, racismo, preconceito, desinformação, mas trazem a possibilidade veloz e massiva de combate e de embate. Não vejo os jornais e a mídia supereditorializada como “mais qualificada”. Ao contrário, um erro, uma distorção de análise, a manipulação de fatos, o sensacionalismo são questionados nas redes e não nas redações… Se esse novo ambiente produz venenos, ele cria com a mesma velocidade os anticorpos.

Há pouco, a sra. tangenciou o tema da Copa do Mundo no Brasil. Qual a sua opinião sobre esse tema? #NãoVaiTerCopa é algo a ser defendido?

O #NãoVaiTerCopa deixa irada a direita, a esquerda clássica e o governo ao seu simples enunciado. Eles e a mídia corporativa vão errar de novo, como erraram feio no inicio das manifestações em junho de 2013, com a histeria repressora e condenatória. O #NãoVaiTerCopa alarga o campo da democracia ao explicitar o dissenso, ao arriscar pensar diante de um fato consumado e de um processo que colocou os interesses empresariais, lobbystas e midiáticos acima dos direitos básicos. Vai ter Copa sim, mas não vai ter a Copa sonhada pela polícia de ordenamento e pelo ufanismo e desenvolvimentismo ultrapassado.

Os “idiotas da objetividade”, como dizia Nelson Rodrigues, são os que não conseguem ver que pós-junho de 2013 o Brasil provou que não existe incompatibilidade entre torcer pelo Brasil no futebol e fazer política. Ou seja,Vai Ter Copa e Não Vai Ter Copa. Particularmente vou torcer e participar para que ocorram manifestações e vou torcer pelo Brasil em campo. Essa é uma das formas de consolidar e aprofundar a jovem e provocativa democracia brasileira.

Tivemos um beijo gay numa novela global, casamento entre homossexuais é defendido abertamente por jornais, novas formações familiares passaram a ser aceitas. Já podemos comemorar ou ainda falta muito para termos uma sociedade mais tolerante?

O beijo gay na novela global faz parte das expressões da luta por direitos e narrativas afetivas novas. Em terra de Marco Feliciano, o beijo gay é político, é “fashion”, mas ainda estamos muito aquém de uma cultura não homofóbica, não racista, menos patriarcal e machista, ou que aceite a autonomia e liberdade das mulheres.O gay família, a lésbica fashion, o traveco amigo, os homens, as mulheres, os jovens, só têm um destino: o amor romântico em casal. Tabu é ter um relacionamento livre e autônomo.Está faltando um Nelson Rodrigues, mas um Lars von Trier também serviria, para fazer a narrativa dos novos tempos e nos atualizar de nós mesmos.

Cartum de Laerte

Cartum de Laerte

A sra. citou a necessidade de uma sociedade menos patriarcal e machista. A mulher continua tendo muito mais obrigações do que direitos.

Os homens continuam em pânico com a autonomia das mulheres. Um dia sexo vai ser considerado modalidade esportiva e prostituição (masculina e feminina), serviço e profissão de utilidade pública. Essa era uma das causas da Gabriela Leite, mulher e ativista admirável que criou a ONG Davida e a grife Daspu e morreu aos 62 anos. Moça de classe média que escolheu ser puta.O deputado Jean Wyllys apresentou no Congresso o projeto dela, que regulamenta a atividade dos profissionais do sexo. Uma causa que vale uma vida. E além dos evangélicos e cristãos ainda tem feminista que é contra regulamentar a profissão.

Tomo esse exemplo para dizer que as lutas das mulheres passam por aceitar essas diferenças. Admiro as meninas do funk que ressignificaram o feminismo nas favelas, ao fazerem a crônica sexual a quente da periferia de forma explícita, como Tati Quebra Barraco, que considero uma Leila Diniz dos novos tempos. Há os que pensam que ao se colocarem como protagonistas da cena sexual, as meninas do funk só ocupam o lugar de poder dos homens. Na verdade, é um discurso radical de autonomia e de liberdade que, vindo das mulheres, subvertendo o sentido de “cachorras” e “popozudas”, coloca o preconceito e o machismo de ponta cabeça. Vivemos um tempo difícil, mas apaixonante.

Fies e Prouni

A educação no Brasil melhorou ou piorou durante a administração petista?

Melhorou e muito. Não tem comparação os investimentos que foram feitos na educação pública e nas universidades públicas no governo do PSDB e na administração do PT. Fiz concurso público e comecei a dar aulas na UFRJ no governo de FHC e foram 8 anos de sucateamento com as universidades à míngua. O governo Lula reinvestiu nas universidades públicas criando 14 novas universidades federais e 100 campi pelo interior do país e também investiu fortemente nas Escolas Técnicas e Institutos Federais. O programa do Reuni de reestruturação do espaço físico, expansão das vagas e criação de novos cursos foi vital para as universidades federais. Só a Escola de Comunicação ampliou em mais de 30 o número de professores por concurso público, ampliou vagas, contratou-se técnicos etc. Claro que existem problemas nessa expansão, mas foi decisiva e mudou o cenário radicalmente.

Outras duas ações decisivas foram o Prouni (que abriu 700 mil vagas para jovens nas universidades particulares) e as cotas raciais e sociais, que trouxeram novos sujeitos sociais, vindos das camadas populares, para dentro da universidade. Ao contrário dos que temiam os defensores de uma abstrata “meritocracia”, que o nível de ensino iria “cair”, que iria se “nivelar por baixo” para atender aos pobres, os cotistas surpreenderam e o que estamos vendo é o contrário. Adisputa na produção do conhecimento feita por novos sujeitos políticos. Poderia ainda falar do Enem que articulou a entrada unificada para a rede de universidades públicas. Hoje recebemos na ECO estudantes de todo o Brasil.

Sobre o ensino básico e fundamental acompanhei alguns debates e desafios enormes que precisam ser enfrentados, entre eles o fato da escola fordista e disciplinar, a “creche da tia Teteca”, o ensino sem corpo, sem desejo, sem participação dos estudantes ter se tornado obsoleto e ineficaz. O desafio de diminuir drasticamente o analfabetismo no país passa não só por mais investimento na carreira e salário dos professores, mas por uma mudança de mentalidade, não dá mais pra insistir no modelo da decoreba e do “vovô viu a uva” num contexto de ampliação de repertórios e de universalização da cultura digital, em que oralistas dominam, sem passar pelo letramento, a cultura audiovisual e digital.

Dilma

A sra. votou em Dilma Rousseff? Qual a sua avaliação do primeiro governo dela?

Votei na presidenta Dilma esperando uma radicalização e aprofundamento das políticas iniciadas no governo Lula, mas o círculo virtuoso se rompeu em diferentes pontos. Tivemos retrocessos absurdos nas políticas culturais, enfraquecimento do Programa Cultura Viva, que deu protagonismo à produção dos Pontos de Cultura, vinda das bordas e periferias, retrocesso no diálogo com os movimentos sociais e culturais. O Brasil que estava na vanguarda de alguns processos, com a estabilidade econômica e emergência de novos sujeitos sociais e políticos pós-redistribuição de renda, apresenta uma reconfiguração do campo conservador, minando todo um capital simbólico e real construído.

Estou falando de projetos engavetados como a Reforma da Lei dos Direitos Autorais, os retrocessos no Marco Civil para a Internet, a Lei Geral das Comunicações, obsoleta e concentracionista, que continua intocável, o plano de barateamento e universalização da Banda Larga pífio, o retrocesso no Código Florestal, a inexistência de propostas para a legalização do aborto e legalização das drogas.

O projeto nacional-desenvolvimentista, fordista, da presidenta Dilma, que investe em automóvel, hidrelétrica, petróleo, passando por cima da maior riqueza brasileira, que é seu capital cultural, ferindo direitos, destruindo o meio-ambiente, é insustentável. O maior paradoxo do desenvolvimentismo é querer transformar a cosmovisão indígena, a produção da periferia, em “commodities”, faturar a riqueza cultural, vender as favelas e sua cultura como pitoresco, os indígenas como exóticos, a carne negra como produto desejável e fashion, mas deixar isolados e sem autonomia esses mesmos sujeitos políticos, destituídos dos seus direitos, assujeitados, ou tornados corpos dóceis.

Nesse momento, continuo filiada ao PT, partido para onde entrei em 2011, no auge da crise do Ministério da Cultura, com a nomeação catastrófica da ministra Ana de Hollanda. Entrei para criticar e disputar de dentro avanços nas políticas públicas e para discutir as novas relações de poder nas cidades, a emergência do trabalho informal e do precariado em diferentes campos, a produção social que é a nova força de transformação dentro do próprio capitalismo e para pensar a cidade e a sociedade que queremos.

O governo Dilma é sustentado hoje por uma coalizão conservadora. Então oscilo entre o hiperativismo pessimista (não vai avançar, mas vamos tensionar ao máximo) e o otimismo crítico, que vai guinar para esquerda, sob a pressão das ruas.

É com angústia que vejo o PT, partido com a maior base social do Brasil, abandonar pautas e avanços históricos. Por isso, estou no PT criticando de dentro, mas, ao mesmo tempo, faço parte do conselho do mandato do deputado Jean Wyllys, parlamentar extraordinário. E votei em Marcelo Freixo, ambos do PSOL. Acredito cada vez mais em frentes suprapartidárias em torno das pautas e questões que nos interessam e na transformação dos partidos e do Estado em redes de colaboração e num Estado-Rede, co-gerido pela sociedade.

Vejo a democracia direta e participativa como horizonte da política, mas enquanto isso, luto para que o atual sistema partidário, inclusive o governo Dilma, incorpore as pautas e questões urgentes que emergiram nas ruas. Temos que sair do infantilismo político e purista que é o compromisso atávico com o inviável, pois a governança e a democracia direta vão brotar da remediação e ruptura com o atual sistema partidário. Votando ou não votando no PT, as ruas são ingovernáveis e temos que lutar contra a financeirização da vida.

Revista Cult

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“IVANA BENTES é professora e pesquisadora da linha de Tecnologias da Comunicação e Estéticas do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ. É Doutora em Comunicação pela UFRJ, ensaísta do campo da Comunicação, Cultura, Cinema, Estética, Cultura Digital. É coordenadora do projeto Laboratório Cultura Viva, projeto de apoio e fomento à produção audiovisual dos Pontos de Cultura, em parceria com o MinC. É coordenadora do Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ, ponto de articulação de ações em Cultura Digital. Atualmente desenvolve as pesquisas: “Estéticas da Comunicação: Novos Modelos Teóricos no Capitalismo Cognitivo” (pesquisa CNPQ) e “Periferia Global”: sobre o imaginário em torno das favelas e periferias, na cultura brasileira e no cenário global, e suas redes de articulação e produção bio-políticas. É diretora da Escola de Comunicação da UFRJ desde 2006. Atualmente suas pesquisas têm se voltado para os temas relacionados às periferias globais, o devir estético na cultura digital e capitalismo cognitivo e o campo da mídia-arte, arte e ativismo, redes colaborativas, arte e cognição.” – Via Vida Secreta dos Objetos

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Bate-papo com Luiz Eduardo Soares (1h17min)

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Leia os artigos de Ivana Bentes:

Ivana Artigo 1

LEIA: Redes Colaborativas e Precariado Produtivo

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Na Imprensa:
O Poder Simbólico do Funk (Portal Fórum)

“O sistema penitenciário brasileiro é uma máquina monstruosa, torpe e brutal.” – Luiz Eduardo Soares (antropólogo e cientista político)

Lui

Para enriquecer ainda mais nossas discussões sobre o tema da redução da maioridade penal, eis a opinião do antropólogo, cientista político e escritor Luiz Eduardo Soares:

“Que sentido haveria em defender a ampliação das responsabilidades de um sistema falido? Que sentido haveria em propor a extensão do espectro de abrangência de um modelo que sabidamente não funciona, pelo contrário, produz o inverso do que lhe cumpriria? Não soa absurdo a qualquer pessoa sensata, independentemente de sua ideologia e de seus valores éticos, que uma instituição consensualmente reconhecida como degradada, perversa, irracional, violenta e contraprodutiva, seja encarregada de assumir mais atribuições, ainda mais exigentes e complexas? Pois é isso o que está acontecendo no Brasil, quando se propõe a redução da idade de imputabilidade penal. É exatamente este contrassenso. Afinal, reduzir a idade significa nem mais nem menos do que ampliar o âmbito de atuação e responsabilidade do sistema penitenciário, essa máquina monstruosa, cada vez mais refratária à LEP, cada ano mais torpe e brutal, que custa caríssimo para piorar as pessoas e a sociedade. Ou alguém discorda que o sistema penitenciário esteja falido, seja fonte de reincidência, escola do crime e agência de destruição em massa de corpos e espíritos? Não importa nenhuma querela sobre psicologia de adolescente, nenhum debate filosófico sobre ética, nenhuma ponderação jurídica, nenhuma análise sobre criminalidade praticada por jovens de idades precoces. Cessa tudo o que a antiga musa canta. Só interessa o óbvio ululante.

Vamos propor que o que não funciona para os adultos seja aplicado aos adolescentes? Vamos sustentar que aquilo que destrói adultos passe a destruir também adolescentes? Por quê? Como isso pode passar pela cabeça sadia de uma pessoa que se supõe racional?

 E o movimento alucinatório não para aí. Alguém acha que faz sentido mudar uma lei em razão de seus maus resultados sem que ela jamais tenha sido aplicada? Pois é isso o que ocorre quando se deseja modificar o Estatuto da Criança e do Adolescente. Saibam todos e todas que ainda não sabem: o ECA nunca foi seriamente, rigorosamente aplicado no Brasil. Como lhe atribuir resultados? Não parece mais sensato testar a lei antes de defender sua substituição? Sanciona-se uma lei, não se a aplica, anos depois se a critica por ineficiente e propõe-se outra. Tem cabimento? Proponho o contrário: façamos uma cruzada pela aplicação do ECA e voltemos a discuti-la quando houver resultados para avaliar.

Se dependesse de mim, proporia a ampliação da abrangência do ECA para que se teste sua aplicação também aos adultos, com as adaptações pertinentes.

* Luiz Eduardo Soares é antropólogo, cientista político e escritor.
Autor dos livros “Elite da Tropa”, “Elite da Tropa 2” e “Cabeça de Porco”, dentre outros.

Leia também: Que País É Esse? (A Casa de Vidro)

Assista também: Medo, violência e política de segurança,
café filosófico com Vera Malaguti Batista

Eliane Brum opina sobre a Redução da Maioridade Penal: nossos jovens precisam é de Educação, não de Caveirão e Prisão!

FOucault Futuca

Cito a Eliane Brum (e assino embaixo!):

“Eu acredito na indignação. É dela e do espanto que vêm a vontade de construir um mundo que faça mais sentido, um em que se possa viver sem matar ou morrer. Por isso, diante de um assassinato consumado em São Paulo por um adolescente a três dias de completar 18 anos, minha proposta é de nos indignarmos bastante. Não para aumentar o rigor da lei para adolescentes, mas para aumentar nosso rigor ao exigir que a lei seja cumprida pelos governantes que querem aumentar o rigor da lei. Se eu acreditasse por um segundo que aumentar os anos de internação ou reduzir a maioridade penal diminuiria a violência, estaria fazendo campanha neste momento. Mas a realidade mostra que a violência alcança essa proporção porque o Estado falha – e a sociedade se indigna pouco. Ou só se indigna aos espasmos, quando um crime acontece. Se vivemos com essa violência é porque convivemos com pouco espanto e ainda menos indignação com a violência sistemática e cotidiana cometida contra crianças e adolescentes, no descumprimento da Constituição em seus princípios mais básicos. Se tivessem voz, os adolescentes que queremos encarcerar com ainda mais rigor e por mais tempo exigiriam – de nós, como sociedade, e daqueles que nos governam pelo voto – maioridade moral.

Se é de crime que se trata, vamos falar de crime. E para isso vale a pena citar um documento da Fundação Abrinq bastante completo, que reúne os estudos mais recentes sobre o tema. Mais de 8.600 crianças e adolescentes foram assassinados no Brasil em 2010, segundo o Mapa da Violência. Vou repetir: mais de 8.600. Esse número coloca o Brasil na quarta posição entre os 99 países com as maiores taxas de homicídio de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos. Em 2012, mais de 120 mil crianças e adolescentes foram vítimas de maus tratos e agressões segundo o relatório dos atendimentos no Disque 100. Deste total de casos, 68% sofreram negligência, 49,20% violência psicológica, 46,70% violência física, 29,20% violência sexual e 8,60% exploração do trabalho infantil. Menos de 3% dos suspeitos de terem cometido violência contra crianças e adolescentes tinham entre 12 e 18 anos incompletos, conforme levantamento feito entre janeiro e agosto de 2011. Quem comete violência contra crianças e adolescentes são os adultos.

Será que o assassinato de mais de 8.600 crianças e adolescentes e os maus tratos de mais de 120 mil não valem a nossa indignação?

Diante desse massacre persistente e cotidiano, talvez se pudesse esperar um alto índice de violência por parte de crianças e adolescentes. E a sensação da maioria da população, talvez os mesmos que clamam por redução da maioridade penal, é que há muitos adolescentes assassinos entre nós. É como se aquele que matou Victor Hugo Deppman na noite de 9 de abril fosse legião. Não é. Do total de adolescentes em conflito com a lei em 2011 no Brasil, 8,4% cometeram homicídios. A maioria dos delitos é roubo, seguido por tráfico. Quase metade do total de adolescentes infratores realizaram o primeiro ato infracional entre os 15 e os 17 anos, conforme uma pesquisa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). E, adivinhe: a maioria abandonou a escola (ou foi abandonado por ela) aos 14 anos, entre a quinta e a sexta séries. E quase 90% não completou o ensino fundamental.

Será que não há algo para pensar aí, uma relação explícita? Não são a escola – como lugar concreto e simbólico – e a educação – como garantia de acesso ao conhecimento, a um desejo que vá além do consumo e também a formas não violentas de se relacionar com o outro – os principais espaços de dignidade, desenvolvimento e inclusão na infância e na adolescência?

É demagogia fazer relação entre educação e violência, como querem alguns? Mas será que é aí que está a demagogia? É sério mesmo que a maioria da população de São Paulo acredita que tenha mais efeito reduzir a maioridade penal em vez de pressionar o Estado – em todos os níveis – a cumprir com sua obrigação constitucional de garantir educação de qualidade?

Não encontro argumentos que me convençam de que a redução da maioridade penal vá reduzir a violência. E encontro muitos argumentos que me convencem de que a violência está relacionada ao que acontece com a escola no Brasil. A começar pelo recado que se dá a crianças e adolescentes quando os professores são pagos com um salário indigno.   Aqueles que escolhem (e eles são cada vez menos) uma das profissões mais importantes e estratégicas para o país se tornam, de imediato, desvalorizados ensinando (ou não ensinando) outros desvalorizados. Será que essa violência – brutal de várias maneiras – não tem nenhuma relação com a outra que tanto nos indigna?

Teríamos mais esperança de mudança real se, diante de um crime bárbaro, praticado por um adolescente a três dias de completar 18 anos, o povo fosse às ruas exigir que crianças e jovens sejam educados – em vez de bradar que sejam enjaulados mais cedo ou com mais rigor nas prisões que tão bem conhecemos…”

Eliane-Brum3

PROSSIGA LENDO O ARTIGO
Revista Época, 22/04/2013

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BONUS TRACKS COM ANGELI E LAERTE:

Angeli1
Angeli2
Laerte
Laerte
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CONFIRA TAMBÉM:

Violência e fragmentação social
Conferência de Luiz Eduardo Soares
Gravada no dia 15/6/2004

“Luiz Eduardo Soares parte de dados estatísticos para mostrar que antes da violência que acomete a sociedade, existe a injustiça social. Jovens pobres de 15 a 24 anos são as principais vítimas. Sem perspectivas, educação e convivência familiar eles são arregimentados pelo tráfico, onde encontram valores. Por outro lado, a sociedade pede às autoridades medidas de segurança pública que os afastem; gerando assim mais injustiça. Para Soares essa fragmentação não pode ser explicada somente por fatores econômicos e sociais, ela está numa cultura que segrega. Segundo ele “não se dá mecanicamente o salto da indigência, da desigualdade, do sofrimento econômico para a posse da arma, o assalto e o tráfico. (…) Há mediações culturais”.

Luiz Eduardo Soares é mestre em antropologia social, doutor em filosofia e em ciência política, especialista em segurança pública. Ex-secretário de segurança do Rio de Janeiro e Ex-secretário nacional de segurança pública. É autor de Elite da TropaTudo Ou Nada, Legalidade Libertária, dentre outros livros.

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juizot

JUÍZO 
Documentário de Maria Augusta Ramos
(Jovens infratores no Brasil)
1h 30min

Juízo acompanha a trajetória de jovens com menos de 18 anos de idade diante da lei. Meninas e meninos pobres entre o instante da prisão e o do julgamento por roubo, tráfico, homicídio. Como a identificação dos jovens infratores é vedada por lei, no filme eles são representados por jovens não-infratores que vivem em condições sociais similares. Todos os demais personagens de Juízo – juízes, promotores, defensores, agentes do DEGASE, familiares – são pessoas reais filmadas durante as audiências na II Vara da Justiça do Rio de Janeiro e durante visitas ao Instituto Padre Severino, local de reclusão dos jovens infratores. Juízo atravessa os mesmos corredores sem saída e as mesmas pilhas de processos vistas no filme anterior de Maria Augusta Ramos, o premiado Justiça. Conduz o espectador ao instante do julgamento para desmontar os juízos fáceis sobre a questão dos menores infratores. Quem sabe o que fazer? As cenas finais de Juízo revelam as consequências de uma sociedade que recomenda “juízo” a seus filhos, mas não o pratica.


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