A Eternidade está apaixonada pelas produções do Tempo – Sobre Van Gogh, interpretado por Willem Dafoe, no filme de Julian Schnabel

“Eternity is in love with the productions of time.”
William Blake, The Marriage of Heaven and Hell

Cambaleando pra fora do cinema após ser atropelado pelo carrossel fílmico desnorteante de Julian Schnabel, me lembrei desta frase do poeta-pintor William Blake que afirma: “a Eternidade está apaixonada pelas produções do Tempo.”

A mirada Van Goghiana sobre o mundo, tal como fica manifesto em algumas de suas obras, era de estarrecimento pela luz inexaurível que o Sol espraia sobre tudo, girassóis e gentes.

Parece ter sido também uma mirada cheia de fascínio, entremesclado de ansiedade e angústia, diante do dínamo estrelado da noite. Algo que evoca o famoso frisson que atravessava a espinha de Blaise Pascal diante do “silêncio eterno dos espaços infinitos”. Só que para Vincent, o que estarrecia não era o silêncio espacial, mas sim os fluxos cheios de potência da Luz, mãe de todas as cores.

Só alguém capaz de estar com todos os sentidos boquiabertos diante do espetáculo natural seria capaz de representar, filtrado por seu enigmático e idiossincrático eu, o devir em sua acontecência.

O filme de Schnabel (o mesmo diretor de Basquiat e O Escafandro e a Borboleta), com sua câmera propositalmente inquieta, saltitante, que nos leva numa bumpy ride como se acompanhássemos um câmera meio ébrio, procura nos colocar no cerne da vivência do pintor em seu contato íntimo com as forças do cosmo.

Em meio aos elementos, deixando-se afetar pela natureza exuberante à sua volta, este enamorado-pela-luz parecia ser também extremamente sensível às dinâmicas da energia vibratória que a tudo anima e que todos os entes, dos mais minúsculos ao mais grandiosos, exalam e emanam em consonância com as estrelas. Viver é vibrar.

O filme No Portal da Eternidade (At Eternity’s Gate) representa, em várias cenas, uma espécie de transe místico de pendor naturalista, em que um sujeito desesperadamente em busca de transcender o Pensamento se taca em um mergulho imersivo no Cosmos que o abriga e de que faz parte.

A certo momento, dando demonstração de que sua fé era panteísta, assim como tinha sido a de seu conterrâneo Baruch Spinoza, Van Gogh sentencia: “God is Nature, and Nature is Beauty”. Aos meus ouvidos, soou assim: só a Natureza é divina, e sua essência é bela. Resta que estejamos alertas e despertos o suficiente para enxergá-lo.

Atravessando seu tempo entre os vivos como uma consciência hipersensível, maravilhada com as luzes, as cores, as sombras, as formas, os fluxos, Van Gogh nos coloca o ponto de interrogação, profundo e irrespondível, do Tempo que ele habitava e que suas obras representam.

Que tipo de Tempo, subjetivamente filtrado, habitava este pintor-poeta, frequentemente estigmatizado como louco, o hoje célebre holandês Vincent Van Gogh?

N atualidade, é claro, já nos acostumamos a ele como um morto que foi transformado em uma celebridade mundial e cujos quadros valem milhões nas mãos de marchands em elegantes leilões. Um sujeito sobre quem já foram feitos muitos filmes e sobre quem já se escreveram muitos livros, mas que em seu tempo de vida passou por peculiares experiências existenciais que tornam seu destino inimitável e como que inexaurível em seus mistérios.

Enquanto viveu, frequentemente na penúria, salvo da fome apenas pelas esmolas mensais pagas por seu irmão Theo, o Van Gogh de carne-e-osso  viveu um destino onde podemos ler o emblema daquele “matrimônio do Céu e do Inferno” que William Blake evocava em um de seus maiores livros.

Van Gogh esteve no inferno das instituições psiquiátricas. Esteve preso na camisa-de-forças e foi alvo de mortificantes hidroterapias. Teve seus quadros escorraçados pelos cidadãos-de-bem respeitáveis. Teve pastores xingando pinturas suas de lixo feio e desagradável. Foi mal-compreendido e apedrejado. A professorinha das crianças da vila podia xingá-lo de pintor incompetente diante de um quadro onde representava raízes de uma árvore. Assim, forjou-se uma figura que, no isolamento sofrido, concebeu um estilo de vida que produziu como frutos algo de inimitável e único.

Seu temperamento antisocial – “passam-se dias sem que eu converse com ninguém”, confessa ele a Gauguin a certo ponto – é notório. Com frequência, Van Gogh prefere estar só em meio à Natureza Selvagem, deixando seus sentidos entrarem em transe diante do dinamismo sem parada que constitui aquilo que os filósofos chamam de “experiência empírica”. Ele não é um devoto do lógos, mas sim um praticante da stésis. Não um contemplador passivo do mundo, mas um agente expressivo que cria imagens insólitas e inéditas, de efeitos misteriosos e atordoantes sobre a percepção de seus contemporâneos e daqueles cujos olhos ainda nem nasceram…

Este, que foi chamado de louco, testemunha o quão mentecaptos são os normais, que enxergam tão pouco das belezas e horrores do mundo, perdidos em mesquinharias e vilezas. Ele, o louco de tão sábio olhar, ensina-nos sobre o ridículo e o horroroso de um olhar domesticado, como o de um cavalo sob antolhos, que é tantas vezes, e por tanto tempo repleto de desperdício de forças vitais, o nosso – nós, os medíocres.

Assim como Nietzsche, Van Gogh fugiu do rebanho, quis ser uma ovelha negra para destoar da brancura monótona dos rebanhos monocromáticos, e acabou por se tornar um subversivo, um transtornador das fronteiras e dos limites, alguém que abre caminhos novos que depois os sábios, ao menos os mais ousados, seguirão. Em um momento do filme, lhe perguntam: “todos os pintores são loucos?” Com uma quase divina ironia, ele responde: “Não, apenas os melhores.”

Tal qual Nietzsche, Van Gogh é um pedagogo de outros viveres possíveis, distanciados da mesmice em que se comprazem os tolos normais, apalermados diante de futilidades e agressividades, sem perceber tudo o que há de grandioso e cheio de mistério da vida que nos rodeia e que nos habita.

Nietzsche dizia que sua obra só seria compreendida pela posteridade, por “espíritos livres” dionisíacos que ainda estavam por nascer, e assim endereçou sua filosofia ao futuro. Afinal, “alguns homens já nascem póstumos.” O gesto de Van Gogh é semelhante. Ele prodigalizou suas forças, pôs em ação suas exuberantes energias criativas, para ser uma espécie de sementeiro de um amanhã onde os humanos estivessem com os sentidos mais abertos, onde seríamos mais vivos e conectíveis pois mais sensíveis e despertos.

Na sua luta por viver uma existência com sentido, Van Gogh se entrega ao transe criativo da pintura como um sementeiro. Van Gogh semeava imagens que um dia abririam milhares de pessoas aos espetáculos reais e concretos das luzes, das formas, das energias, tudo em eterna e móvel interação inexaurível.

Em uma conversa bem significativa com o padre, compara-se a Jesus de Nazaré: ele, Van Gogh, sentia que os contemporâneos iriam, em sua maioria, ignorá-lo tal qual fizeram com o futuro Cristo. A cena leva a supor que ele já sabia disso: de seu destino de “homem póstumo”, nietzschiano.

Só depois da morte é que ele, Van Gogh, assim como Jesus, renasceria e permaneceria entre nós como uma espécie de artista-mártir cujo destino não consegue mais cair no olvido. Pois nos fascina e nos atormenta. Estas imagens agora acompanham o andar da carruagem humana, ainda que tantos de nós ainda não tenham realmente parado de enxergá-las senti-las em toda a profundidade e em toda a maravilha sublime e difícil que contêm.

Pelo gesto desesperado de auto-mutilação com que rompeu com seu próprio corpo, pela orelha ensanguentada que endereçou a Gauguin após uma dramática cena de despedida, Van Gogh entrou também para o rol daqueles capazes de atos trágicos.

Assim como Édipo, furando seus olhos diante do cadáver de sua mãe e esposa Jocasta, Van Gogh decepa sua orelha – ação que o psicólogo que o analisa se apressa a interpretar com a mais simples das hipóteses: o pintor, apegado emocionalmente a seu amigo Gauguin, dependente do afeto deste, padecendo de uma enorme solidão e isolamento social, não se sente capaz de encarar o amargo fardo de ser deixado a sós.

No filme de Schnabel, somos convidados a observar o drama existencial de Vincent sem julgá-lo com o subterfúgio arrogante dos covardes: aquele de estigmatizar como louco alguém que colocamos abaixo de nós, os normais. Pelo contrário, os normais é que ficam parecendo ultra-medíocres diante das produções-de-vida deste artista em que confluíram genialidade e loucura. Que nos convida a pensar que não há genialidade em muitas gramas de loucura mesclada ao caldo que o artista prepara para uma humanidade ingrata.

Em outra cena adorável, Van Gogh pinta flores e filosofa: as flores reais vão murchar e desaparecer (wither and fade), mas a pintura das flores produzida por Van Gogh tem ao menos a chance de penetrar pelos umbrais da eternidade. A moça a quem este pensamento é endereçado então lhe faz um pedido, um convite: “pinte-me”. Ela parece manifestar uma recém-descoberta libido que se volta ao tempo futuro desconhecido, uma vontade de não submergir no destino de apodrecimento, desaparecimento e olvido que é o quinhão comum de todas as flores, e de quase todos os humanos entes.

Van Gogh lhe diz que ele poderia não só fazer a tentativa de inseri-la na eternidade, legando às futuras gerações uma pintura imorrível, como também poderia fazê-la parecer mais jovem do que é. Ela não gosta da idéia e reclama: “Isto não seria justo.” Fica sub-entendido que a moça desejaria ser pintada com realismo, como alguém diante da máquina fotográfica, pois seria uma violação da justiça, ou seja, da justa representação, que ela fosse retratada com uma juventude que já perdeu.

Van Gogh, pintando com todo furor, abandona a sociedade que o maltrata e adere a uma espécie de exílio interior, se faz um peregrino sem lar, um contemplador e pintor dos dinâmicos mistérios cósmicos, perdido na imensidão que seus quadros expressam. No filme de Schnabel, somos lançados ao turbilhão de suas vivências, fluímos com ele por um mundo trágico e confuso, onde orelhas decepadas e tiros no estômago nunca tem um sentido claro, unívoco, facilmente descobrível. Van Gogh é um destino-esfinge, e é assim tão misterioso pois viveu nesta intensa troca com o Eterno.

Pois o umbral da Eternidade não é outro senão o aqui-e-agora. Van Gogh diz que, diante de uma paisagem, ele enxerga o Eterno. Ele não diz o imutável, muito pelo contrário. O Eterno é móvel e mutante. O Eterno é a dança que o vento faz com o trigo, é o disparo de uma estrela cadente no céu tal qual o enxergamos, é a semeadura e a colheita abrigados no mesmo ninho que tem o tamanho de tudo.

Para o Nietzsche que pariu as estrelas cintilantes que são os discursos de Zaratustra, o instante era uma espécie de colisão de duas eternidades. Tudo que já foi, tudo o que será, amalgamado neste agora que não passa de um elo em uma corrente de um cosmo-serpente, a devorar seu próprio rabo. Ouroboros. O Tempo devorou a carne de Nietzsche e Van Gogh, as produções destas vidas atravessaram o umbral do agora para vir dialogar com nós, que somos deles os pósteros.

Estes mortos seguem tendo muito a nos dizer, e nós seguimos muito ruins de escuta e péssimos de visão. Míopes inclusive por opção. Como novos Édipos, furamos nossos próprios olhos para não enxergar as verdades que intentam nos comunicar. Como na cegueira branca de que o romance de José Saramago nos narra, há uma pandemia de cegueiras estranhas, e muitos perdidos na contemplação maníaca de pequenas telas brilhantes, seus celulares e tablets, já estão perfeitamente alienados do gigantesco acontecimento cósmico que nos circunda com sua explosão de energia infinita e onivibrante.

Van Gogh é necessário, pois, para nos re-despertar para uma experiência de stésis mais profunda, que no limite nos entrega ao perigo e ao risco do transe místico, da unio mystica, de uma imersão panteísta em que o eu individual se dilui no Todo e no Outro que o transcende e que o contêm. Fugindo do lógos como do demônio, Van Gogh quis viver na hipersensibilidade de uma consciência estética acesa e alerta a um Cosmos cuja única lei é a mudança. Um Universo que só tem uma coisa que nunca muda: o fato dele ser eternamente móvel e fluido, como a dança de uma criança cuja energia fosse inexaurível.

No canvas de Van Gogh, o que rebrilha é um fragmento desta energia inexaurível que, sob o sol que derrama-se sobre os girassóis ou debaixo das estrelas que povoam como enxames a noite, nos rodeia e nos habita, tornando possível o misterioso processo de estar vivo e ser perceptivo.

A este homem, a quem se grudou o estigma de alienado, a quem julgou-se como doido varrido por seu tresloucado gesto auto-mutilatório, que boatos dizem que suicidou-se, talvez seja um sábio disfarçado de maluco. Um professor nas vestes de um mendigo sujo de tinta e com olhos pela angústia aterrorizante marcados. Um mestre que, depois de morto, é uma fonte de onde jorra luz infindável que vem bater nas portas de nossos sentidos gritando a plenos pulmões, com suas esculturas de tinta em celebração das luzes e cores: “despertem! o espetáculo do mundo só está acessível aos mortais por pouco tempo! Não o desperdicem! Pois a Eternidade pode até ter todo o tempo do mundo, mas nós, meros mortais, não.”

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 05 de Março de 2019

* * * *

LEITURA COMPLEMENTAR SUGERIDA

SETE EXCERTOS DE
“VAN GOGH: SUICIDADO DA SOCIEDADE”
De Antonin Artaud
Seleção: A Casa de Vidro

[1]: “…o que é um autêntico alienado? É um homem que preferiu tornar-se louco, no sentido em que isto é socialmente entendido, a conspurcar uma certa idéia superior da honra humana. Foi assim que a sociedade estrangulou em seus asilos todos aqueles dos quais ela quis se livrar ou se proteger, por terem recusado a se tornar cúmplices dela em algumas grandes safadezas. Porque um alienado é também um homem que a sociedade se negou a ouvir e quis impedi-lo de dizer insuportáveis verdades. Mas, neste caso, a internação não é a única arma, e a união concertada de homens tem outros meios para vencer as vontades que ela deseja quebrar. Fora das pequenas bruxarias das feiticeiras de província, há os grandes passes de enfeitiçamentos globais dos quais toda consciência vigilante participa periodicamente. (…) É assim que algumas raras boas vontades lúcidas que se têm debatido sobre a terra encontram-se, em determinadas horas do dia ou da noite, no fundo de certos estados de pesadelo autênticos e despertos, rodeados da formidável sucção, da formidável opressão tentacular de uma espécie de magia cívica que se verá logo aparecer exposta nos costumes.”

[2]: “… uma sociedade deteriorada inventou a psiquiatria para se defender das indagações de certas mentes superiores, cuja capacidade de adivinhar a incomodava. Gérard de Nerval não era louco, porém disso foi acusado com o propósito de lançar ao descrédito certas revelações capitais que estava prestes a fazer…”

[3] – “…é crapulosamente impossível ser psiquiatra sem estar ao mesmo tempo marcado em definitivo da mais indiscutível loucura: a de não poder lutar contra este velho reflexo atávico da turba que torna qualquer homem de ciência, submetido à multidão, uma espécie de inimigo-nato e inato de todo gênio. (…) A psiquiatria nasceu da turba plebéia de seres que quiseram conservar o mal na fonte da doença e que, assim, extirparam de seu próprio nada uma espécie de guarda suíça para deter em seu nascedouro o impulso de rebelião reivindicador que está na origem do gênio. Há em todo demente um gênio incompreendido em cuja mente brilha uma idéia assustadora…”

[4] – “No fundo de seus olhos de carniceiro, que parecem depilados, Van Gogh se entregava sem interrupção a uma dessas operações de alquimia sombria, que tomam a natureza por objeto e o corpo humano por caldeirão ou cadinho.”

[5] – “Eu mesmo passei nove anos num asilo de alienados e nunca sofri da obsessão do suicídio, mas sei que, a cada conversa que tinha com um psiquiatra, de manhã, na hora da consulta, sentia vontade de me enforcar por ver que não podia estrangulá-lo.”

[6] – “Ninguém se suicida sozinho. Ninguém jamais esteve sozinho ao nascer. Ninguém tampouco esteve sozinho ao morrer. Mas, no caso do suicídio, é necessário um exército de gente má para levar o corpo a fazer o gesto contra a natureza de se privar da própria vida.”

[7] “quanto à orelha cortada, é lógica direta,
e, repito,
quanto a um mundo que, dia e noite,
e cada vez mais,
come o incomível,
para levar até o fim sua má intenção,
nada se tem a fazer, chegado a este ponto,
senão tapar-lhe a boca.”

Roger Bastide se debruça sobre o sonho, o transe e a loucura – por Reginaldo Prandi em Folha de S. Paulo

Roger Bastide se debruça sobre o sonho, o transe e a loucura

por Reginaldo Prandi em Folha de S. Paulo

O sonho desconserta, do transe se desconfia, a loucura amedronta: três processos psíquicos com os quais o homem ainda convive sem muito entender, e às vezes sem aceitar, como lixo que a vida comum faz transbordar sem sentido.

A psicanálise e outras ciências, ao tomar como objeto essas três manifestações não raro situadas nos limites da morte, nas sombras do que somos e fazemos quando “acordados” ou “conscientes”, procuraram entender, cada uma a seu modo, o que somos a partir daquilo que aparentemente nos nega. Para essas ciências, sonho, transe e loucura podem ser explicados pela história do indivíduo.

Ao interpretar o sentido social dos resquícios de antigas civilizações, sobretudo africanas, que encontrou ao estudar a formação do Brasil, o sociólogo Roger Bastide (1898-1974) de certo modo rompeu com as interpretações científicas correntes formulando uma instigante compreensão sociológica desses processos.

Roger Bastide, membro da missão que instituiu a USP

Para entendê-los, ele postulava o sonho, o transe e a loucura como canais de comunicação entre o mundo profano e o universo mítico, sobrenatural. A história do indivíduo não basta. É preciso entender o sentido de ser e agir no cotidiano à luz da mitologia do grupo, ou seja, do mito ancestral. Desobstrui-se, dessa forma, a passagem simbólica entre o individual e o coletivo.

Em populações africanas e afro-brasileiras e nas instituições por essas aqui constituídas como meio de inserção numa sociedade branca, adversa, de origem ocidental e religião católica, Roger Bastide reconheceu o sonho, o transe e a loucura como mecanismos que ligam a vida cotidiana trivial do homem comum ao universo mitológico e atemporal das divindades.

Não por acaso, na cultura híbrida desse Brasil negro moldado pela escravidão, o sonho pode ser decifrado pelo sacerdote como mensagem divina, orientação oracular para a vida comunitária. O transe é o artifício pelo qual a própria divindade se revela num corpo ritualmente preparado para se apresentar diante da comunidade. A loucura sobrevém quando as pontes entre esses mundos em permanente comunicação sofrem algum tipo de bloqueio, separando os humanos de suas origens sagradas.

SER LOUCO

A restauração do equilíbrio rompido, mediada pelo sacerdote, só pode ser alcançada com a renovação dos pactos religiosos negligenciados referidos à comunidade: ser louco é situar-se fora das referências coletivas.

Em nossa sociedade a própria visão de mundo está nas mãos de profissionais a serviço de grupos de pressão ou de um Estado separado da “comunidade”. Esse novo universo que nos é imposto enfraquece nosso interesse pela vida coletiva, pela família: o homem acha-se reduzido a si mesmo, explica Bastide.

No mundo de hoje, o homem e a mulher estão submetidos à condição de puro indivíduo, ensimesmado, sozinho, sem poder se apoiar numa gramática social que lhe permita a leitura de sua posição entre os outros, que dê um sentido social à sua vida.

Publicado na França em 1972 e somente agora no Brasil, com preciosa tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura, “O Sonho, o Transe e a Loucura” reúne ensaios publicados entre as décadas de 1930 e 1970 por Bastide, membro da missão francesa que instituiu a Universidade de São Paulo e um dos pais dos estudos afro-brasileiros.

Sua obra foi decisiva para dar ao candomblé o status de religião, respeitável como qualquer outra, numa época em que as religiões afro-brasileiras eram vistas como desprezível magia de negros.

REGINALDO PRANDI é professor sênior do Departamento de Sociologia da USP e autor de “Os Mortos e os Vivos” (ed. Três Estrelas) e “A Religião dos Orixás” (Companhia das Letras). Artigo originalmente publicado na Folha de São Paulo em 2016.



NA SEQUÊNCIA, A CASA DE VIDRO COMPARTILHA UMA SELEÇÃO DE TRECHOS DA OBRA:

SOCIOLOGIA DO SONHO
Por Roger Bastide

A sociologia se interessa apenas pelo homem desperto, como se o homem adormecido fosse um homem morto. Ela deixa à etnologia o cuidado de estudar o lugar do sonho nas civilizações tradicionais e à psicologia o de descobrir na trama de nossos sonhos as motivações profundas de nossa ação.

Para a sociologia, de acordo com as injunções de nossa cultura que atravessam todas as cortinas, de ferro ou de bambu, isto é, uma cultura da produtividade, o que se coloca em primeiro plano é a práxis, que supõe a tensão do homem desperto em luta contra o meio, físico e social, para mudá-lo. A sociologia considera que o trabalho exorciza os fantasmas nascidos da longa noite, caso eles venham a perturbar o ato de Prometeu.

A questão que me coloco é a de saber se os sociólogos tem o direito de ignorar a outra metade de nossa vida, de só querer encarar o homem que está em pé ou sentado e não o homem que se deita e sonha.

Ambos partindo de Bergson e quase na mesma época, o doutor Blondel definia a consciência mórbida como uma consciência não socializada ou mal socializada, e Halbwachs rejeitava as lembranças do sonho que se situavam fora dos quadros sociais da memória.

O sonho era para Bergson a memória pura, não a memória social – exatamente como a loucura era para Blondel a cinestesia pura, não a afetividade socializada. Esse corte radical entre o psíquico e o social, que é como o reflexo, no nível da ciência, dessas duas metades do homem – o sonho e o trabalho -, é fundamentado? E não convêm restabelecer entre esses dois mundos redes de intercomunição? Ver como os estados crepusculares, como a metade obscura e sombria do homem prolonga o social, da mesma forma que o social se nutre de nossos sonhos? Em poucas palavras, tentar um sociologia do sonho. (p. 55-56)

CONTINUA…

FOUCAULT E A NAU DOS LOUCOS – por Esther Díaz

FOUCAULT E A NAU DOS LOUCOS

Por Esther Díaz, doutora em filosofia pela Universidade de Buenos Aires e professora da Universidade Nacional de Lánus, na Argentina.

In: “A Filosofia de Foucault”, Ed. Unesp.

A filosofia de Foucault é uma ontologia histórica. Ontologia, porque se ocupa dos entes, da realidade, do que ocorre. Histórica, porque pensa a partir dos acontecimentos, de dados empíricos, de documentos…

“A História da Loucura” começa com um cenário vazio: os lugares de exclusão na Europa no início do século XVIII. Ao final da Idade Média, desapareceu a lepra, provavelmente em razão da forte segregação à qual os leprosos haviam sido condenados. Convém acrescentar a isso o fato de que, com o fim das Cruzadas, enfraqueceu-se o contato com o Oriente, provável fonte de infecção. (…) A verdade da lepra era a manifestação de Deus na Terra. Era uma amostra da cólera e da bondade divinas. Deus castiga os pecados dos homens com a lepra. Mas é tão misericordioso que não os priva de sua graça. O leproso é separado da Igreja. No entanto, pode conseguir sua salvação na exclusão, e graças a ela.

(…) A exclusão não é uma invenção moderna… Na Idade Média, uma das formas de excluir os loucos era embarcá-los em certos navios. A nau dos loucos é tematizada por pintores e escritores. Não foi somente um espaço de exclusão imaginário, mas existiu realmente. Contudo, esse tipo de supressão ou era mais virtual que real ou se produzia esporadicamente. De qualquer forma, não ocorreu como fenômeno social generalizado.

(…) A exclusão do leproso era uma manifestação de que há seres vivos cuja presença aterrorizante antecipa os espantos da morte. Mas a loucura presta-se melhor ao jogo. A lepra altera o corpo, a loucura transtorna o espírito. Agora, a articulação é dupla. No seu pano de fundo, o discurso sobre a loucura é discurso sobre a morte. Mas o louco, em última instância, ri da morte. Os gritos dos loucos são mais fortes que os cantos triunfais da morte. Eis aqui a apoteose da loucura.

A mudança da temática da morte para a da loucura é a descoberta de que a negação da vida não está somente em seu final, ou seja, na morte biológica. Manifesta-se, até mesmo, no macabro da loucura, como antes se manifestou no fato aterrorizante da lepra. A Idade Média considerou prudente alertar o homem sobre a imanência da morte. Sua presença espreitava cada ato vital. A morte está sempre disposta a ganhar o jogo.

O Renascimento descobriu que existe uma presença da morte, que se mostra nos olhos fixos, na carne fria e nos músculos rijos do defunto. Mas há outra, mais próxima, que está presente nos olhos vidrados, nas bocas repletas de baba e nas palavras delirantes dos insensatos.

(…) As viagens às quais os loucos estavam submetidos, seja como exclusão real, seja como expulsão ritual – no imaginário das naus dos loucos -, tinham um sentido de viagem ao além, de onde não se volta. Havia uma forte relação entre loucura e morte… Em alguns lugares da Europa, nas portas das cidades, existiam casas de prisão para loucos. O louco é alojado nos limites. Está no limite entre a cidade e o inabitado, entre a terra e a água, entre a evidência da verdade e a nulidade do não ser.”

DÍAZ, Esther. A Filosofia de Foucault.
Ed. Unesp, 2012, Pg. 2-24-26. Trad. César Candiotto.

Pinturas:

* Jheronimus Bosch, “A Nau dos Loucos”

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* Sebastian Brant, “Narrenschiff”, 1499

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* Oskar Laske, “Das Narrenschiff” (Ship of Fools), 1923

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Pintura da abertura do post: Thomas Bühler, Narrenschiff (Ship of Fools). Fonte.

A ARTE VISIONÁRIA DE SERGIO SAMPAIO (1947-1994): Labirintos negros de um doido que não se situa [OUÇA A DISCOGRAFIA COMPLETA!]

OS LABIRINTOS NEGROS DE UM DOIDO QUE NÃO SE SITUA: EXPLORAÇÕES DA OBRA VISIONÁRIA DE SERGIO SAMPAIO (1947 – 1994)

 por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

Talvez um dos adjetivos mais oportunos para definir o indefinível artista Sergio Sampaio seja visionário. Melhor, talvez, do que outro termo que costuma pintar pra dar conta do trampo difícil de rotulá-lo: maldito. 

Auto-definido como “um doido que não se situa”, Sérgio Sampaio parecia seguir os passos de Torquato Neto e estava aí para “desafinar o coro dos contentes”. Chamá-lo de visionário e de maldito já o inclui numa tradição artística que atravessa a História com as multiformes vozes da discórdia. Tanto que desde a Grécia Antiga já atuava esta figura do artista visionário, dionisíaco,

“aquele que elaborava em seu corpo as angústias de seu tempo, daí ser simultaneamente adorado e excluído, mitificado e marginalizado, sintoma e remédio das doenças e mazelas sociais.

Sem precisar ir às pulsões de vida e de morte estudadas por Freud, suspeito que talvez seja o convívio radical, por dentro, com o fracasso e o sucesso, com o paraíso e o inferno, com a criação e a destruição, que faz com que nos sintamos meio órfãos desses heróicos marginais que, parece, viveram intensamente por nós nossos desejos recalcados.

Recordá-los, como agora a Sérgio Sampaio, que quis procurar ‘viver além de mim’, não deveria ser um alimentar-se de ingênuas nostalgias e heroicizações, mas um ter na mente que o tempo é este agora eterno. Evoé.”

(SALGUEIRO, Wilbert. “Poesia e Vida, Enfim”. Ed. UFES, Vitória-ES, 2007, p. 27)

Em uma canção como “Ninguém Vive Por Mim”, Sérgio Sampaio revela-se como um dos maiores poetas na história do cancioneiro brasileiro, um rebelde avesso a todas as catalogações, um “boêmio cantor da lua”, pintor dos labirintos líricos de uma subjetividade incandescente, complexa, multifacetada: “eu, simples cantor solitário / entre malandros e otários / vivo o que sou / ninguém vive por mim.”


“Fui tratado como um louco, enganado feito um bobo
Devorado pelos lobos, derrotado sim
Fui posto de lado e fui um marginal enfim
O pior dos temporais aduba o jardim
Como um rato de bueiro, como um gato de calçada
Velho mendigo da rua, cão de butiquim
Disse adeus e fui embora, nada é mais ruim
O pior dos temporais aduba o jardim

E eu, boêmio cantor da lua
Doido que não se situa
Fui procurar viver além de mim
E eu, simples cantor solitário
Entre malandros e otários
Vivo o que sou, ninguém vive por mim

Tudo tem seu preço exato, ninguém vai pagar barato
Tudo tem seu peso certo, tudo tem seu fim
Escapei da armadilha, agora estou aqui
O pior dos temporais aduba o jardim
Fui pro mato sem cachorro, numa de “ou mato ou morro”
Enfrentei um osso duro, duro de roer
Escapei dessa quadrilha, agora estou aqui
O pior dos temporais aduba o jardim.”

Diante de figuras assim, que flertam com a loucura Rimbaudiana do “desregramento de todos os sentidos”, ficamos tentados a enxergar o grande artista como aquele que tem a capacidade de experimentar céu e inferno, delícia e fossa, ordem e caos, Apolo e Dionísio, para depois expressarem suas complexas experiências vividas enquanto criadores contra a corrente. 

Tal rebeldia é salutar. E uma sabedoria que aceite as borrascas e temporais por aquilo que podem nos legar de aprendizado (“o pior dos temporais aduba o jardim”) é inequívoca evidência de que estamos diante de um espírito livre Nietzschiano:

“Mesmo guiando carro na contramão esses quase-loucos legaram às gerações seguintes o desejo sadio da rebeldia criativa, sobretudo em tempos de nhenhenhém como os que vivemos. Rebeldia, diga-se pela justiça, rejuvenescida em vozes como as de Cazuza e Cássia Eller, por exemplos.” (SALGUEIRO, W. op cit, p. 19)


Estas últimas palavras, que evocam a salutar e sadia rebeldia criativa, são de um dos melhores artigos já escritos sobre a obra de Sérgio Sampaio, no qual Wilberth Salgueiro inspira-se no pensamento de José Miguel Wisnik para refletir sobre o legado artístico de Sampaio. Salgueiro faz “aproximações entre a obra musical do compositor capixaba e a Poesia Marginal, em especial a partir de aspectos temáticos comuns a ambos, como as drogas, a loucura, a morte, a repressão ditatorial, o amor e a solidão.” (op cit, p. 11)

Alguns poemas florescidos na sarjeta, nascidos da pena imunda dos poetas ditos “marginais”, servem para expressar um pouco do ambiente literário tão libertário quanto aquele que podemos nos deliciar em nossos encontros com a obra de Sergio Sampaio.

O poeminha (e também poemaço, pois tamanho não é documento!) de Guilherme Mandaro, aquele que diz “que não seja o medo da loucura / que nos obrigue a baixar / a bandeira da imaginação”, pode dialogar perfeitamente com o clima um tanto beatnik-hippie-carioca de “Que Loucura”, canção-de-hospício do Sérgio Sampaio dedicada a Torquato.

Uma canção, aliás, que também parece ter pitadas daquele mood que anima Um Estranho no Ninho, o romance de Ken Kesey adaptado ao cinema por Milos Forman e estrelado por Jack Nicholson, que deu voz eloquente ao movimento da “anti-psiquiatria” e propôs caminhos para os defensores da psicodelia místico-terapêutica.

Sérgio-Sampaio

“Fui internado ontem na cabine cento e três
Do hospício do Engenho de Dentro
Só comigo tinham dez
Eu tô doente do peito, eu tô doente do coração
A minha cama já virou leito, disseram que eu perdi a razão

Eu tô maluco da idéia, guiando o carro na contramão
Saí do palco e fui pra platéia, saí da sala e fui pro porão.”

Diante de figuras seminais na história de nossa cultura como Sérgio Sampaio e Raul Seixas, é incontornável colocar o tema da relação entre genialidade, loucura e consumo de drogas. Em outros termos: como é que alguém se torna “artista visionário”, uma chama viva de “rebeldia criativa”, senão através de uma experimentação, que pode beirar a temeridade, com a própria consciência?

É possível alguém tornar-se uma fonte jorrante de criatividade e originalidade se não vive numa busca permanente de expansão dos horizontes sensíveis e intelectuais? E que preço paga, em seu corpo e em sua mente, por metamorfosear-se neste médium que “elabora em seu corpo as angústias de seu tempo”, como diz Salgueiro?

O efeito da escuta atenta e prolongada das músicas de Sérgio Sampaio, alguém que “guia o carro na contramão” (“Que Loucura”), um “doido que não se situa” (“Ninguém Vive Por Mim”), é fazer-nos mais abertos à possibilidade que o gênio artístico muitas vezes avizinha-se do que a normopatia reinante concebe como loucura, a-normalidade. Mas o que seria da música brasileira sem nossos sublimes doidos, nossos deliciosos malucos beleza?


“Enquanto você se esforça pra ser
Um sujeito normal e fazer tudo igual
Eu do meu lado, aprendendo a ser louco
Um maluco total, na loucura real
Controlando a minha maluquez
Misturada com minha lucidez
Vou ficar, ficar com certeza
Maluco beleza!”
Raul Seixas


“Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu e brrrrr…
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
Que não é feliz, não é feliz!”
Os Mutantes

Enlouquecer, para o poeta visionário, vira “enloucrescer” (para emprestar um neologismo cunhado por Drummond). Ou seja, enloucrescer é crescer para além dos muros da normalidade, para um grau superior de percepção do espaço-tempo: não faltam “malucos-beleza” tupiniquins, como Raul Seixas e Arnaldo Baptista, somando-se aos gringos, como Syd Barrett e Skip Spence (entre outros), que apostam na via lóki de libertação da criatividade. Sérgio Sampaio merece um lugar de destaque entre estes sagrados doidões.

Com suas doiduras geniais demais eles questionam a validade e o mérito dos atuais modelos de representação do normal e do patológico. Verdadeiros gênios da arte e da filosofia – de Van Gogh a Artaud, de Nietzsche a Genet – podem ser depreciados por detratores como meros doidos e junkies. Mas eis uma má apreciação que muitas vezes provêm dos demasiado apegados aos modelos de sanidade vigentes, quando sabemos muito bem, depois de Arendt e Milgram, quão horrendamente cruéis foram aqueles “cidadãos normais e respeitáveis” como os Eichmann, os Pinochets, os Fleurys…

Que holocaustos, que chacinas do Carandiru, que Ditaduras sanguinárias e Pinochetescas, já não cometeram estes homens que se achavam “normais” – e mais que isso: dotados da missão celestial de impor aos outros os esteréotipos de normalidade com que foram nutridos e dos quais eram crédulos defensores!

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“Em brilhante ensaio intitulado Iluminações Profanas  – poetas, profetas, drogados, José Miguel Wisnik vincula ao ‘olhar visionário’, como experiência concreta, um radical deslocamento da noção temporal. Do estar sob a ação da droga ao discursar sobre os efeitos dela, em especial no campo da dicção poética, um caminho complexo se percorre. O que aproximaria poetas, videntes e drogados seria exatamente esta visão diferenciada do tempo e do espaço: ‘toda distância ou nenhuma’.

Remontando à Grécia antiga, Wisnik recorda que o visionário, “enquanto canalizador (e formulador) da angústia e da violência social” (p. 285), é adorado e excluído, mitificado e marginalizado, sintoma e remédio das doenças e mazelas sociais. (…) Historicamente, no entanto, o neo-romantismo hippie (herdeiro da geração beat) alimenta a vontade contracultural dos anos 1960 e 70, avessa à regularidade e à ordenação do tempo capitalista, firmado numa ideologia que soma desempenho e produtividade.

Hoje, em suma, verificamos uma quase completa banalização do mundo da droga, já desinvestida de aura e transcendência, e tornada um rentável negócio pelos conglomerados do tráfico globalizado e bélico. Os belos paraísos artificiais de Baudelaire viraram paraísos financeiros para uns, e infernos sem saída para uns outros.” (SALGUEIRO, op cit, p. 13-14)

Qualquer discussão lúcida e aprofundada sobre a função social da arte precisa abordar de modo livre-de-tabus a questão dos phármakons, das substâncias de alteração da percepção, dos expansores de consciência que instauram “uma visão diferenciada do tempo e do espaço”. Temos que enxergar a questão das drogas para além dos discursos policialescos que pretendem criminalizar todos os usuários de entorpecentes ilegais (discurso proibicionista que pede o favor de consumir somente drogas legais, ou seja, àqueles que sirvam aos interesses de mega-corporações farmacêuticas! Dê dinheiro, por favor, à Bayer-Monsanto e não ao brother que planta cannabis no quintal…). 

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Raul Seixas e Sérgio Sampaio

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Talentos imensos como os de Sérgio Sampaio ou de Raul Seixas são uma afronta “patológica” aos cabrestos e dogmas reinantes, inclusive aqueles que querem confinar nossas personalidades nos estreitos moldes de nacionalismos, patriarcados, racismos, sectarismos e outros ismos limitantes. E colocam em debate a questão da qual não se pode desviar se quisermos alguma compreensão de que como foi possível o nascimento de obras tão inacreditáveis, tão magníficas: até que ponto estas obras nunca teriam acontecido a não ser em dependência relativa das experiências com drogas de seus cantautores? O quão “visionários” poderíamos nos tornar caso nos fosse dado o direito de sermos psiconautas em cosmológica exploração, nas asas dos vegetais acachapantes e dos psicodélicos sintéticos?

Jorge Luis do Nascimento, doutor em literatura pela UFRJ, pontua que Sergio Sampaio tem como de seus traços marcantes uma poética caracterizada por um

“lirismo existencial e possibilidades utópicas que aparecem compondo um retrato interessante do homem contemporâneo. (…) A paisagem urbana em geral, e a carioca em particular, na poética de Sérgio Sampaio possui a fúria modernista, porém o espelho futurista já é um retrovisor, e o que o presente reflete é a impossibilidade de assimilação de todos os índices / ícones da paisagem urbana contemporânea.”  (NASCIMENTO, p. 32)

Quando Sampaio escreve sobre “Brasília”, a capital federal, em canção presente no disco póstumo Cruel, evoca “o olho do amor” que “desconhece a armadilha” – “assim ver Brasília”. Ele enxerga a cidade modernista, os monumentos de Niemeyer e Lúcio Costa, o mamute arquitetônico e urbanístico dos Anos JK, o emblema daqueles  50 anos supostamente condensados em 5, a cidade-avião com suas asas abertas no território, através de um viés muito peculiar:

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“esse olho do amor, desejoso de outridade, percebe algo – vislumbrado na natureza da lua, do sol, da noite, ou mesmo na artificialidade do lago fabricado, atrás das quadras, as quadrilhas que infestam aquela cidade futurista do Planalto Central, que tão bem simboliza a busca da modernidade desenvolvimentista perdida. E que tão bem representava – e representa – o poder das quadrilhas oficiais que tomaram o poder no Brasil ditatorial, e que continuam formadas e impunes a governar nossas vidas…” (NASCIMENTO, op cit, p. 40)


“Quase que ando sozinho por todos os bares
Freqüento lugares, Namoro suas filhas, Brasília.
E posso dizer que começo a voar sossegado em seu avião,
E mesmo com o ar desse jeito, tão seco, consigo cantar no seu chão.
Quase que me sinto em casa em meio a suas asas
E “Ws” e “Ls” e eixos e ilhas, Brasília!

Cidade que um dia eu falei que era fria, sem alma, nem era Brasil,
Que não se tomava café numa esquina
Num papo com quem nunca viu.

Sei que preciso aprender, quero viver pra saber, e conhecer, Brasília.

Ver o que há, Paranoá
Lago de sol, noite, lua.
O olho do amor desconhece a armadilha .
Assim vim ver Brasília…

Quase que me sinto bem distraído em suas quadras,
tão bem arrumadas, c
om suas quadrilhas, Brasília.
Concreto plantado no asfalto do alto, o céu do planalto onde estou
Aqui na cidade dos planos conheço um cigano que não se enganou.
Sei que preciso aprender, quero viver pra saber, e conhecer, Brasília…” 

Já sobre a “Cidade Maravilhosa”, para onde mudou-se em 1967 em busca de uma carreira como radialista e músico, Sérgio Sampaio também nos legou interessantes retratos, caso daquele Rio de Janeiro que aparece em “Filme de Terror” ou “Pavio do Destino”. Na primeira, Sérgio Sampaio passa o clima dos anos 70 do Brasil que vive sob o jugo do AI-5, decretado em 1968 no “golpe dentro do golpe” que fez recrudescer a ditadura militar-empresarial instituída pelos tanques em 1964:

Já “Filme de Terror” traz “dados pontuais da Cidade Maravilhosa” que estão “potencialmente vinculados ao momento histórico, quando o terror de Estado estava em seu ápice no Brasil”, destaca Nascimento.

“O refrão, além de ser foneticamente muito rico, trata de dois lugares específicos: o cemitério do Caju (bairro pobre da zona portuária) e o Cine Império da Tijuca (cinema do bairro de classe média da zona norte da cidade). A mim a alusão me parece clara: no bairro da Tijuca também situado o quartel da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, para onde os suspeitos e inimigos do Estado eram levados para serem interrogados, torturados e/ou mortos. Assim, notamos que o filme de terror que ‘passava’ no Cine Império da Tijuca ‘se passava’ também no quartel da P.E…” (NASCIMENTO, op cit, p. 43)

Já Silvio Essinger, que citaremos na sequência em extensão, discute muitas coisas interessantes, a começar pela atribuição do selo de maldito à Sérgio Sampaio e seu antagonismo em relação ao mundo do pop-stardom de que é emblemática a Jovem Guarda e seu conterrâneo Roberto Carlos:

“Integrante de um grupo de artistas que, à revelia (principalmente) deles próprios, acabariam sendo rotulados de “malditos” ao longo dos anos 70 (Jards Macalé, Jorge Mautner, Luiz Melodia, Tom Zé e Walter Franco incluídos), Sampaio não teve tempo de esperar a redenção, por mais secreta que fosse. O disco que planejava lançar em 1994, depois de 12 anos sem gravar, esbarrou num problema: a morte do artista, no dia 15 de maio, após uma crise de pancreatite, previsível diante das angústias e abusos alcoólicos cometidos ao longo de 47 anos de vida. Foram necessários mais 12 anos para que as derradeiras (e incompletas) gravações chegassem ao CD “Cruel”, empreitada de um aplicado discípulo, o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro, que com esse lançamento inaugura seu selo independente Saravá Discos.

Sérgio Sampaio nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo. Como lembra Essinger,  “esta cidade que entraria para a história da música brasileira por causa de um primo do cantor, Raul Sampaio Crocco (que compôs “Meu Pequeno Cachoeiro”, sucesso na era de ouro do rádio), e principalmente, claro, de Roberto Carlos (que, inclusive, regravou o “Cachoeiro”). Sérgio se beneficiou bastante da discoteca do primo, onde podia complementar a sua dieta de Orlando Silva e Sílvio Caldas que crescera ouvindo no rádio.

Ao mesmo tempo, acompanhava o crescimento artístico de Roberto a uma certa distância – inicialmente, a sua pretensão não era a de ser cantor, mas locutor de rádio, e assim poder viver toda a boemia que Cachoeiro (e mais tarde o Rio de Janeiro) pudessem lhe proporcionar. Quando veio o sucesso com “Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua”, vieram também as comparações com o conterrâneo – Sampaio seria “o sucessor de Roberto”, segundo uma revista popular. Não poderiam ser mais antagônicos os dois personagens.

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O ANTI ROBERTO CARLOS – “Nunca imaginei uma coisa dessas, porque o que Roberto canta é totalmente diferente do que eu canto. Inclusive, acredito que os objetivos de Roberto na canção sejam totalmente diferentes dos meus”, diria Sérgio Sampaio em 1989. “No entanto”, pontua Essinger, “ele não deixou de alimentar o desejo de ter uma música gravada pelo Rei, com quem poucas vezes cruzou, mas que mandara a ele um pedido de canção por meio de um assessor, no calor do sucesso do disco Eu quero é botar meu bloco na Rua (1973)”

Essinger prossegue:

“De uma conversa com Odair José (o “cantor das empregadas”, maldito da MPB por diferentes razões, que também sonhava em ser gravado por Roberto) veio a Sérgio a idéia de “Meu Pobre Blues”, uma canção amarga, feita não para o astro gravar – mas para ele ouvir e botar a mão na consciência. “E agora que esses detalhes/ já estão pequenos demais /e até o nosso calhambeque não te reconhece mais/ eu escrevi um blues/ com cheiro de uns dez anos atrás/ que penso ouvir você cantar”, cantava ele, reconhecendo a impossibilidade de compor para o Rei.

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O PRIMO, RAUL SAMPAIO, CANTA CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM:

O “REI” MIDIÁTICO E POP STAR, ROBERTO CARLOS:

O CANTAUTOR “MALDITO” E SEU “POBRE BLUES” – SÉRGIO SAMPAIO ENDEREÇA-SE AO “REI”:

Mas se Roberto Carlos era o antípoda e o antônimo de Sérgio Sampaio, um futuro nome cultuadíssimo da nossa música pode ser considerado como uma espécie de alma gêmea de Sérgio Sampaio: Raul Seixas. Em 1971, época em que o capixaba vivia como mendigo-hippie no Rio, em busca do sustento e de alguma chance como músico, ele esbarrou com o roqueiro baiano, dois anos mais velho que ele, à época empregado na CBS como produtor de artistas do núcleo comercial da gravadora, como Jerry Adriani, Renato & Seus Blue Caps, dentre outros.

“Eu fui à gravadora apenas acompanhar no violão um rapaz que ia fazer teste para cantor e compositor [Odibar, parceiro de Paulo Diniz]”, contou Sérgio em entrevista de 1973. “Senti que Raulzito não gostou da composição do cara. Realmente, era fraca. Mais do que depressa, apresentei uns trabalhos meus. Ele gostou e eu fiquei.”

Tornaram-se amigos imediatamente. Promoviam insólitos concursos de magreza (que Sérgio vencia) e influenciavam-se mutuamente, com Raul mostrando o rock a Sérgio e este tentando lhe mostrar o samba (consta que deu ao amigo um disco de Paulinho da Viola que o baiano tirou da vitrola logo no primeiro chiado da agulha).

Sampaio seria o cúmplice de Raul numa traquinagem perpetrada por ele enquanto o diretor da CBS viajava: o disco “Sessão das 10”, de uma tal Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, composta pelos dois, a sambista paulistana Miriam Batucada e o baiano desbundadíssimo (e assumidamente homossexual) Edivaldo dos Santos Araújo, o Edy Star.

Esse disco, que a matriz da CBS mandou de volta ao Brasil com um telegrama perguntando “what is this?”, acabou sendo a estréia de Sérgio Sampaio em LP. Uma colagem anárquica, influenciada tanto pelo tropicalismo quanto por Frank Zappa e os Mothers of Invention, trouxe  “Chorinho Inconseqüente”, “Todo Mundo Está Feliz” e “Eu Não Quero Dizer Nada”, algumas das mais sarcásticas músicas do compositor (ao menos, as que conseguiram passar pela Censura…).

Compreensivelmente, o disco foi recolhido e tanto ele quanto Raul logo estariam fora da gravadora. Sampaio tinha uma música nova, “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, um grito surdo contra o estado de coisas na ditadura, que inscrevera no Festival Internacional da Canção de 1972, junto com “Let Me Sing, Let Me Sing” e “Eu Sou Eu, Nicuri é o Diabo”, de Raul.

“Fiz a canção num momento de angústia bastante grande, eu sozinho comigo cantando, e sentia que ela tinha um poder. Depois, mostrei para Raul e ele mesmo disse: ‘Pomba, é isso aí, dá pé, esse negócio aí é legal’”, disse Sérgio, que gradualmente a viu se transformar num sucesso.

O “Bloco” abriu as portas da Philips para a gravação de um compacto (que vendeu mais de 500 mil cópias) e de um LP, produzido por Raul Seixas (que já estava lá por causa do “Let Me Sing”), a ser batizado com o título da música. “A grande importância dessa canção é ter sido lançada numa época em que as pessoas estavam muito amordaçadas e bastante medrosas de abrirem a boca para falar qualquer coisa”, dizia o artista, que viu sua vida mudar de uma hora para outra. De repente, virara um astro, com toda a tietagem, espaço absurdo de mídia e dinheiro a que tinha direito.

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Quanto ao LP, um dos mais surpreendentes da MPB daquele 1973 – ano em que também estrearam no bolachão nomes como Raul, Secos & Molhados, Luiz Melodia e Walter Franco -, nada aconteceu. Mesmo com músicas do quilate de “Filme de Terror”, “Cala a Boca, Zebedeu” (samba do maestro Raul G. Sampaio, pai de Sérgio), “Pobre Meu Pai” (depois da homenagem, uma crítica ao autoritarismo do progenitor), “Viajei de Trem” e “Raulzito Seixas”, a adversidade da crítica (que o comparou a Caetano), a irritação com as cobranças por um novo “Bloco”, o cansaço do artista com a fama e a simples falta de vontade de promover o lançamento (o que foi agravado pelo fato de Sérgio viver seu momento mais tresloucado, em noites viradas de pó e bebida) acabaram por sabotar o trabalho.

“Esse disco fez um estrago danado lá em casa. Ele tem uma mágica, até hoje eu ouço e me emociono, ele me remete à infância, aquele ambiente familiar, dos meus irmãos tocando ‘Cala a Boca, Zebedeu’, o ‘Bloco na Rua’… É um daqueles discos da vida”, conta Zeca Baleiro, um dos poucos (mas felizes) a quem o disco atingiu na época.

Anos mais tarde, Sampaio deu sua explicação para o fracasso: “O que pode ter existido, talvez, tenha sido a minha proposta de vida, de não ser aquela pessoa que me deixasse levar, profissionalmente falando, pela estrutura da máquina. Mas eu não fazia isso conscientemente, era apenas uma postura de vida”.

Daí em diante, ele e Raul Seixas seguiriam caminhos distintos, mas paralelos. O roqueiro viveria alguns anos de estrondoso sucesso nacional (com “Ouro de Tolo”, “Mosca na Sopa”, “Metamorfose Ambulante”, “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”) e em seguida o ostracismo, a morte (em 1989, pelos mesmos excessos de bebida, drogas e paixão de Sérgio) e a posterior ressurreição, como uma lenda ainda maior do que era em vida. Já o amigo…

“Essa história de margem, acho que sempre vou correr por aí, até o fim da minha vida”, dizia Sampaio. Inspirado pelo poeta suicida Torquato Neto, ele compôs logo em seguida “Que Loucura”. Apesar do que se dizia, dado que Sérgio jamais abdicara da boemia selvagem, transferida em meados dos anos 70 para o Baixo Leblon, ele se considerava absolutamente são. “Se um dia acontecer de eu ser internado num hospício, uma coisa certa, bastante certa, é que é uma tramóia, é uma armação”, disse.

17-de-maio-sergio-sampaio-em-1981-um-ano-antes-de-lancar-sinceramente-foto-4Um confesso não-músico (“toco no violão como quem toca o corpo de uma mulher sem saber as zonas erógenas”), que buscava inspiração nas vidas alheias mais que na sua (“As intrigas, as cafajestadas, as manifestações de hombridade, de generosidade, carinho, gosto de tudo o que vem do ser humano, do pior ao melhor, do mais gostoso ao mais tétrico…”), Sérgio saiu da sala e foi para o porão: encontrou seu espaço nos centros culturais da Zona Norte e Baixada Fluminense, onde seguiu fazendo shows enquanto as casas nobres da MPB o desprezavam.

Gravou, pela Continental, em 1976, o disco “Tem Que Acontecer” (mais voltado para o samba, com clássicos como o “Que Loucura”, “Velho Bandido” e a faixa-título) que também não aconteceu em sua época. Mas ele foi adiante. Teve música gravada por Erasmo Carlos (“Feminino Coração de Deus”), conheceu novos parceiros como Sérgio Natureza (que o definiu como “um peixe muito vivo, nadando contra a correnteza”) e a arquiteta Angela Breitschaft, mãe de seu único filho, João (nascido em 1983), e grande batalhadora para que ele lançasse seu último disco em vida, o independente “Sinceramente” (1982), que conseguiu vender poucas de suas 4 mil cópias devido à falta de divulgação.

Mesmo desanimado com sua situação e a da música popular brasileira em geral (em 1989, dizia: “eu gosto muito de Lobão, de Cazuza… Mas a música de hoje é muito mais para chatura do que pra interessante”), Sérgio continuava compondo e chegou a gravar em Salvador, com voz e violão, algumas das músicas para aquele que seria seu disco de 1994, a ser lançado pelo selo paulista Baratos Afins, de Luz Calanca.

A essa altura, Zeca Baleiro deixara de ser o garoto fã e se tornara cantor e compositor – quatro anos depois, faria bastante sucesso com a regravação de “Tem Que Acontecer”, lançada no disco-tributo “Balaio do Sampaio”, organizado pelo parceiro (e grande amigo) Sérgio Natureza.

Zeca conhecera Sérgio em 1989 num show no Rio de Janeiro. “A gente tomou umas cervejas e, na época, eu e mais quatro amigos estávamos editando uma revista cultural lá no Maranhão que se chamaria ‘Umdegrau’”, conta. “E a gente queria um entrevistado, um nome nacional. Fiz o convite e ele topou. A gente mandou as perguntas e ele levou tanto tempo para responder que quando ele mandou as respostas a revista já tinha saído (risos). No fim da fita com a entrevista, ele gravou uma música, sem que a gente pedisse. Uma amostra do que ele estava fazendo. É uma canção linda, uma espécie de samba-canção meio Cartola, mas com uma letra moderna.”

Era “Maiúsculo”, música que encerra “Cruel”, o disco que o maranhense lançou depois de recuperar eletronicamente as gravações originais de Sérgio e vesti-las com um instrumental contemporâneo mas sóbrio. Os sambas “Roda Morta (Reflexões de um Executivo)”, “Polícia Bandido Cachorro Dentista” e “Rosa Púrpura de Cubatão” (que João Bosco tirara do ineditismo no “Balaio”) vieram da gravação de boa qualidade da Bahia. Os registros de outras como “Pavio do Destino” (dolorosa reflexão sobre as vidas dos meninos das favelas) e “Quem é do Amor”, por sua vez, vieram de uma fita cassete, já que as matrizes haviam se perdido.

Já a faixa-título (que o amigo Luiz Melodia transformara em sucesso no disco “Acústico”, de 1999 – o primeiro de sua carreira a vender mais de 100 mil cópias) teve voz e violão extraídos de uma gravação caseira de qualidade ainda pior. Zeca optou por organizar as músicas no disco de forma a que os registros de Sérgio mais precários – meio como se ele fosse sumindo – ficassem para o final. Coube a “Maiúsculo”, cheia de barulhos da rua e de portas batendo ao fundo, encerrar “Cruel”, com um pungente efeito de despedida.

“Acho que se o Sérgio tivesse sobrevivido, hoje ele estaria num lugar muito mais confortável, como aconteceu com o Tom Zé e com o próprio [Jards] Macalé. Sem aquela ilusão do grande sucesso”, acredita Zeca Baleiro. “Um lugar confortável, um lugar minimamente justo. Porque o Sérgio amargou um ostracismo muito grande nos anos 80. O trabalho que ele fazia, apesar de ter informações do rock e do pop, era muito out para aquela época. Quando veio um tempo de maior tolerância e respeito, de uma coexistência possível entre os gêneros, que foi a partir dos anos 90, seria o momento de ele se estabelecer.” No entanto, Sérgio Sampaio era o primeiro a exprimir a impressão, típica do poeta romântico, de que o seu sucesso poderia ser póstumo: “O importante é fazer, é estar feito, estar registrado. O próprio Fernando Pessoa, em vida, ninguém lia. E hoje Fernando Pessoa é o que nós sabemos”. Mas Zeca sonhava com um pouco mais de generosidade do pavio curto do destino: “Sérgio não parecia ter vocação para o sucesso, porque era um cara muito temperamental, irascível. Mas talvez agora a idade trouxesse para ele uma serenidade”. ” – SILVIO ESSINGER, “O mais maldito dos malditos”

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Em seu artigo Nos Trilhos Sonoros de Sérgio Sampaio (Jornal Opção), o Diego de Moraes, cantor e compositor muito influenciado pela obra e pela persona de Sampaio, destaca a canção “Viajei de trem”, “com seus versos angustiados e sintomáticos de um período histórico obscuro”, onde o eu lírico lastima: “minha lucidez nem me trouxe o futuro”.

 Nos três álbuns já lançados pelo Diego – Parte de Nós, da banda Diego e o Sindicato; Diego Mascate; A Dança da Canção Incerta, da Pó de Ser; – fica evidente a intensa influência exercida pelo lirismo Sampaiano sobre uma das obras mais geniais já gravadas em Goiás. Através das gerações, Sergio Sampaio segue sendo semente e, como escreve Diego, “o sucesso do Bloco permanece, agradando a gregos e troianos e divulgando esse gênio, poeta do riso e da dor”.

Como prova de que um artista é fecundo e imorredouro está a possibilidade de múltiplas e renovadas interpretações de sua obra. Sérgio Sampaio passa folgado neste teste, pois suas canções seguem capazes de despertar em nós uma ampla gama de reações, diferentes daquelas que evocavam na época em que pintaram na praça e tomaram de assalto as ruas.

Emblemática não só de uma carreira, mas também de uma época, é a canção-título do classicaço Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua (1973)é uma daquelas músicas que merece que nos demoremos nela e enxerguemos seus detalhes, suas sutilezas, suas aberturas à nossa contribuição, seu caráter de obra aberta. Sérgio da Fonseca Amaral, professor de teoria literária da UFES, escreveu um bom roteiro de exploração da canção.

“Partindo em definitivo para o Rio em 1967, Sérgio Sampaio procurava iniciar uma carreira de locutor de rádio, mas o que prevaleceu foi o músico em busca de sua chance. Esse ano ainda não conhecia o AI5, marco do recrudescimento da ditadura militar. A carreira efetiva do cantor/compositor seria de fato iniciada na fase mais implacável da ditadura do governo Emílio Garrastazu Médici. Época de perseguições, torturas e assassinatos de opositores em escalada progressiva. No Brasil, naquele momento em que a juventude dos países mais industrializados vivia o sonho do desbunde, do flower-power, do faça amor não faça a guerra, do maio de 68, do I’m Going To San Francisco, dos Beatles, entraríamos numa atmosfera cinza de um mundo em que a desconfiança, a vigilância, a perseguição e a violência lhe eram imputadas antecipadamente pelos aparelhos repressivos. O Estado olhava o sujeito de esguelha. Era-se culpado por suspeita.” (AMARAL, p. 54)

Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou

Há quem diga que eu não sei de nada
Que eu não sou de nada e não peço desculpas
Que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
E que Durango Kid quase me pegou

Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender

Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos nisso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
Eu quero todo mundo nesse carnaval…
Eu quero é botar meu bloco na rua

Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender

Quando Sampaio finca esta pérola no imaginário artístico dos anos 1970, botar o bloco na rua, no caso, não era mera celebração festiva do carnaval. Estávamos em um cenário cultural que havia sido efervescido pela irrupção do Tropicalismo, pela “era dos festivais” e pelos fenômenos midiáticos como os pop stars da Jovem Guarda, e é neste contexto que “Bloco Na Rua” explode como uma espécie de samba-dinamite, crônica de seu tempo, em que manifesta-se, segundo Amaral, a terceira das

“três vertentes ou caminhos tomados por alguns nomes da música brasileira naquele momento: 1) o da simples inserção no chamado sistema comercial, sem veleidades críticas; 2) o do combate, direto ou alegórico, com músicas denunciando o ambiente de sufoco; e 3) o do desbunde, desapontando caminhos. Arrisco a enquadrar Sérgio Sampaio àquele terceiro grupo em que o desbunde foi o caminho encontrado para, de um lado, desprezar tanto a ditadura quanto a guerrilha política ou cultural, e, de outro, procurar uma saída pela música e por um comportamento no qual o espectro da contracultura dinamizava a ação.

É nessa interseção que uma sociedade alternativa se revelava como uma idéia a ser conquistada: no fora de tudo que cercava aquele contexto sócio-cultural. Dessa maneira, gerava-se uma contradição gritante: recusava-se o aparato da lógica empresarial, mas os arautos de uma nova ordem só ultrapassariam as fronteiras do mundo constituído pela reprodutibilidade técnica implantada pela indústria fonográfica. É dentro de tal lógica que Sérgio Sampaio foi para o Rio de Janeiro batalhar por uma carreira artística, mas, ao conseguir o feito, em seguida driblava e fugia da pompa circense que a indústria requeria: quer dizer, o artista se recusava a ceder aos holofotes espetaculares da indústria cultural e da embalagem que envolve toda e qualquer obra ao ser transformada em mercadoria. (…) O refrão da música se apresenta como um desbunde, estar pronto para a entrega do corpo ao erótico, ao lúdico, à alegria da festa popular. No entanto, pode-se também ler a estrofe sob o signo da conotação política, do grito de guerra solto no ar, conclamando que a rua é o lugar de encontro e ajuntamento e ação.” (AMARAL, op cit, p. 58)

O carnaval, nesse sentido, não é mera fuga de um cotidiano asfixiante, efêmera folia que depois nos deixa o amargor de ver “tudo se acabar na quarta-feira”; o carnaval tem potencial político, algo que Wilson das Neves escancarou em um dos sambas mais revolucionários da história, “O Dia Em Que O Morro Descer E Não For Carnaval” (parceria com Paulo César Pinheiro). Em seu artigo, Amaral destaca, sobre a canção de Sergio, que

“sendo o carnaval uma festa popular e a única atividade que movimenta uma quantidade grandiosa de gente num espaço aberto, colocar o bloco na rua pode significar que a força popular se faz, primeiro, no encontro, depois na multiplicação e na inteligência de um grupo com suficiente química para fazer o bloco passar e perseguir um objetivo comum: gingar, para dar e vender. A rua, de qualquer maneira, seria o único lugar para se resgatar e construir a liberdade de expressão. (…) Há uma proposta de transformação radical misturada com uma alegria arrebatadora que só a festa pode dar, pois ali é onde todos costumam se desarmar. (…) Não é uma louvação da pura rebeldia, mas de um mundo anárquico cujo poder seria horizontal e serpenteante como a evolução de um bloco.” (AMARAL, op cit, p. 58)

Quando Sergio Sampaio conclama “eu quero é todo mundo neste carnaval” – em radical contraste ao futuro Bloco do Eu Sozinho dos Los Hermanos – está desfraldando as bandeiras de uma utopia radical-democrática, horizontalizada, em que o lúdico é visto em todo seu potencial libertário. Parece-me que isso faz uma provocação àquelas vertentes da esquerda que são mais ascéticas sérias; Sérgio Sampaio parece assinar embaixo do que dizia Emma Goldman (1869 – 1940): “Se não posso dançar, não é minha revolução.

Através da canção, através da série de “há quem digas”, Sérgio Sampaio debate com as vertentes de ação política que, durante a ditadura, pregavam a guerrilha armada. “Há quem diga que eu fugi da briga / Que eu caí do galho / E que não vi saída / Que eu morri de medo / Quando o pau quebrou.” Segundo a interpretação de Amaral, o apelo para “botar o bloco na rua” também tem um significado de contestação da própria mensagem guerrilheira – Sérgio Sampaio parece mais próximo a Garrincha do que de Marighella!

“Colocar o bloco na rua passa a significar me deixem em paz! Quero seguir meu próprio caminho. Tal escolha num momento que qualquer laivo de preocupação consigo mesmo corria o risco de ser taxado, com desprezo, de pequeno-burguês é agressivamente libertado, pois a ação política requeria encerrar fileiras num projeto de demanda coletiva contra a violência do Estado. Pelo lado oposto, não havia um maior interesse de se dar bem na boquiaberta boca do milagre da euforia econômica do Brasil Grande da ditadura. Qualquer mundo ofertado dentro do esquema tradicional de poder constituído e de quem queria derrubá-lo não era aceito como uma verdade incontestável. Por isso, maldito, por isso, porra louca, por isso, marginal. A inalcançável terceira margem.

Creio que se pode afirmar, a partir de tal composição, que para uma situação alvoroçada como aquela, só mesmo ficando perturbado da idéia para encontrar um ponto de fuga onde se firmar para bem longe das certezas que petrificavam tanto uns, quanto outros postos em cada margem do naufrágio. (…) A letra traz, como um caleidoscópio, todos os lados envolvidos naquele conflito: do existencial ao político, do partidário ao econômico.” (AMARAL, op cit, p. 61-62)

Disseminador de poesia libertária, este gênio criativo que se auto-entitulou ironicamente “Velho Bandido”, este sábio-louco que vivia por si (“Ninguém Vive Por Mim”), parece-me também um tanto similar em espírito a Leminski (o bandido que sabia latim) na profundeza de seu amor fati e sua vivência fiel ao “não discuto com o destino / o que pintar / eu assino”. Sérgio Sampaio também é alguém que sempre ajuda-nos a aliviar os fardos das barras pesadas que esta vida insiste em nos aprontar (“o que pintar pintou / no que pintar eu tô, minha nêga / mesmo que a barra pesou”).

Num país que teve tantos poetas-da-música brilhantes-refulgentes (Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Renato Russo, Cazuza, Gilberto Gil etc.), Sérgio Sampaio até mereceria um lugar neste panteão caso ele não tivesse, ao que parece, um pouco de asco pelo pop-stardom, pela canonização. Foi um artista em estado de selvageria e efervescência, alguém em busca permanente e avesso a todas as petrificações, um compositor popular que sabia da solidão (“ninguém vive por mim”), da morte (“não ligue que a morte é certa”), das aflições e delícias do amor e seu périplo de dor – e que viveu botando nas ruas e nas rádios os blocos utópicos com os quais pretendeu estabelecer o nexo, o abraço, o laço, a confluência cotidiana de Poesia e Vida. Indissociáveis.


“Não fui eu nem Deus
Não foi você nem foi ninguém
Tudo o que se ganha nessa vida
É pra perder
Tem que acontecer, tem que ser assim
Nada permanece inalterado até o fim
Se ninguém tem culpa
Não se tem condenação
Se o que ficou do grande amor
É solidão
Se um vai perder
Outro vai ganhar
É assim que eu vejo a vida
E ninguém vai mudar…”

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Setembro de 2016

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMARAL, Sérgio da FonsesaFugir (pras veredas). In: Eu Sou Aquele Que Disse – Estudos e Impressões Sobre a Obra e a Vida de Sergio Sampaio, org. João Moraes. Vitória: Ufes, 2007.

ESSINGER, SilvioO Mais Maldito Dos Malditos.

MORAES, Diego. A sinceridade de Sérgio Sampaio (Senhor F) Nos trilhos sonoros de Sérgio Sampaio (Jornal Opção).

MOREIRA, Rodrigo. Biografia em Viva Sampaio.  Ele é o autor da biografia Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua – Edições Muiraquitã, 2000.

NASCIMENTO, Jorge LuizLugares suspeitos, terras de ninguém: alguns territórios de Sérgio Sampaio. In: Eu Sou Aquele Que Disse – Estudos e Impressões Sobre a Obra e a Vida de Sergio Sampaio, org. João Moraes. Vitória: Ufes, 2007.

SALGUEIRO, Wilbert. Notas: Tentando ouvir-me em Sérgio Sampaio nos anos 70. Revista Contexto, #11 – Vitória: UFES, 2004. In: Eu Sou Aquele Que Disse – Estudos e Impressões Sobre a Obra e a Vida de Sergio Sampaio, org. João Moraes. Vitória: Ufes, 2007.

WISNIK, José Miguel.Iluminações Profanas  – poetas, profetas, drogados”In: O Olhar, Cia das Letras, org. Adauto Novaes.

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SERGIO SAMPAIO >>> DISCOGRAFIA
OUÇA / BAIXE:

SOCIEDADE DA GRÃ-ORDEM KAVERNISTA (1971), COM RAUL SEIXAS [DOWNLOAD]

EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA (1973) [DOWNLOAD]

TEM QUE ACONTECER (1976) [DOWNLOAD]

AO VIVO (1991)

AO VIVO (1992)

sinceramentecapaSINCERAMENTE (1982)
[DOWNLOAD]

CRUEL (2006, póstumo, prod. Zeca Baleiro) [DOWNLOAD]

CACHOEIRO EM TRÊS TONS (DOCUMENTÁRIO)

A NAU DOS LOUCOS de Hieronymus Bosch + POEMA “Tu és o louco da imortal loucura…” de CRUZ E SOUZA (1861 – 1898)

Hieronymus Bosch (1450–1516) - LOUVRE

“A Nau dos Loucos” (à esq.), de Hieronymus Bosch (1450–1516) – LOUVRE

O ASSINALADO

Tu és o louco da imortal loucura;
O louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma desventura extrema;
Faz que tu’alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o poeta, o grande assinalado;
Que povoas o mundo despovoado
De belezas eternas, pouco a pouco.

Na natureza prodigiosa e rica,
Toda a audácia dos nervos justifica,
Os teus espasmos imortais de louco!

Cruz e Sousa

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Michel Foucault e a “Microfísica do Poder” [Leia trechos do livro e assista documentários]

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Foucault e Delze

690440_Ampliada“O perigo maior contra o qual a burguesia, sobretudo depois da Revolução Francesa, devia prevenir-se, o que ela tinha a todo custo que evitar, era a sedição, era o povo armado, eram os operários na rua e a rua investindo contra o poder. E ela pensava reconhecer na plebe não proletarizada, nos plebeus que recusavam o estatuto de proletários ou nos que estavam excluídos dele, a ponta de lança do motim popular.

A burguesia criou determinados procedimentos para separar a plebe proletarizada da plebe não proletarizada… Estes três meios são, ou eram, o Exército, a colonização, a prisão.

O Exército, com o seu sistema de recrutamento, assegurava a extração, sobretudo da população camponesa que superpovoava o campo e que não encontrava trabalho na cidade; e era o Exército que se lançava, se fosse preciso, sobre os operários…

A colonização constitui um outro meio de extração. As pessoas enviadas para as colônias não recebiam um estatuto de proletário; serviam de quadros, de agentes de administração, de instrumentos de vigilância e controle dos colonizados. E era sem dúvida para evitar que entre esses ‘pequenos brancos’ e os colonizados se estabelecesse uma aliança, que teria sido aí tão perigosa quanto a unidade proletária na Europa, que se fornecia a eles uma sólida ideologia racista: “atenção, vocês vão para o meio de antropófagos!”

Quanto ao terceiro tipo de extração da população, ele era realizado pela prisão. EM torno dela e dos que para lá vão ou de lá saem, a burguesia construiu uma barreira ideológica (que diz respeito ao crime, ao criminoso, ao roubo, à gatunagem, aos degenerados, à sub-humanidade) que tem estreita relação com o racismo.”

* * * * *

“Hoje a colonização já não é possível na sua forma direta. O Exército já não pode desempenhar o mesmo papel que outrora. Por conseguinte, reforço da polícia, ‘sobrecarga’ do sistema penitenciário, que deve por si só preencher todas essas funções. O esquadrinhamento policial quotidiano, os comissariados de polícia, os tribunais (e singularmente os de flagrante delito), as prisões, a vigilância pós-penal, toda a série de controles que constituem a educação vigiada, a assistência social, os ‘abrigos’, devem desempenhar, no próprio local, um dos papéis que outrora o Exército e a colonização desempenhavam, transferindo e expatriando indivíduos.

Nessa história, a Resistência (contra a Ocupação Nazi), a guerra da Argélia, Maio de 68 foram episódios decisivos: significaram o reaparecimento, nas lutas da clandestinidade, das armas e da rua; significaram, por outro lado, a implantação de um aparelho de combate contra a subversão interna.

Se colocarmos o problema: como tem funcionado o aparelho judiciário e, de uma maneira geral, o sistema penal? Eu respondo: ele sempre funcionou de modo a introduzir contradições no seio do povo. (…) Ele teve um papel constitutivo nas divisões da sociedade atual.

É preciso distinguir a plebe tal como a vê a burguesia e a plebe que existe realmente. A justiça penal não foi produzida nem pela plebe nem pelo campesinato, mas pura e simplesmente pela burguesia, como um instrumento tático importante no jogo das divisões que ela queria introduzir.

A luta contra o aparelho judiciário é uma luta importante… O aparelho judiciário teve efeitos ideológicos específicos sobre cada uma das classes dominadas. Há em particular uma ideologia do proletariado que se tornou permeável a um certo número de ideias burguesas sobre o justo e o injusto, o roubo, a propriedade, o crime, o criminoso. Isso não quer dizer que a plebe não proletarizada se manteve tal e qual. Pelo contrário, a essa plebe, durante um século e meio, a burguesia propôs as seguintes escolhas: ou vai para a prisão, ou para o Exército, ou para as colônias…

De modo que a plebe não proletarizada foi racista quando foi colonizadora; foi nacionalista e chauvinista quando foi militar; foi fascista quando foi policial.

As formas de aparelho de Estado que o aparelho burguês nos legou não podem em nenhum caso servir de modelo às novas formas de organização. O tribunal, arrastando consigo a ideologia da justiça burguesa e as formas de relação entre juiz e julgado, juiz e parte, juiz e pleiteante, parece-me ter desempenhado um papel muito importante na dominação da classe burguesa. Quem diz tribunal diz que a luta entre as forças em presença está, quer queiram quer não, suspensa; que, em todo caso, a decisão tomada não será o resultado desse combate, mas o da intervenção de um poder que lhes será, a uns e outros, estranho e superior; que esse poder está em posição de neutralidade…

Todas essas ideias são armas de que a burguesia se tem servido no exercício do poder… Há duas formas às quais o aparelho revolucionário não deverá obedecer em nenhum caso: a burocracia e o aparelho judiciário; assim como não deve haver burocracia, não deve haver tribunal; o tribunal é a burocracia da justiça…

As massas – proletárias ou plebeias – sofreram demasiado com essa justiça, durante séculos, para que se continue a impor-lhes sua velha forma, mesmo com um novo conteúdo. Elas lutaram desde os confins da Idade Média contra essa justiça. Afinal de contas, a Revolução Francesa era uma revolta antijudiciária. A primeira coisa que ela explodiu foi o aparelho judiciário. A Comuna foi também profundamente antijudiciária.”

12121

MICHEL FOUCAULT
em MICROFÍSICA DO PODER
Pg. 105-107. Ed. Graal. 25ª ed

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