“THE STORY OF STUFF” (BY Annie Leonard) – Completo e legendado em português

StoryOfStuff_logo

Clube da Luta, o filme de David Fincher baseado no romance de Chuck Palahniuk, é como um holograma de nossa época. Um tempo em que zumbis, infectados pelo vírus do capitalismo descerebrado, vagam por aí, em shoppings e hiper-mercados, sem perceber que the things you own end up owning you (“as coisas que você possui acabam por te possuir”).

Na era do Antropoceno, na iminência de colossais catástrofes climáticas, pisamos no acelerador de um sistema que está em rota de colisão com os limites naturais de um planeta finito e já tão detonado pela humanidade (nada sapiens!). A maquinaria da propaganda comercial nos faz correr atrás de quinquilharias e gadgets, “trabalhando em empregos que odiamos para que possamos comprar trecos que não precisamos.” Florestas derrubadas, rios assassinados, atmosferas irrespiráveis, ecocídios e genocídios são os subprodutos do capitalismo neoliberal globalizado que transforma a terra em trash.

tumblr_nm4ul9O7MW1tg095eo2_1280

Em 20 minutos, o vídeo-sensação The Story of Stuff, de Annie Leonard, oferece uma sintética explicação for dummies sobre o funcionamento deste sistema insano que atualmente nos consome e que era missão de Tyler Durden e seus macacos confrontar (by all means necessary). Didático porém contundente, The Story of Stuff revela um planeta devastado pela extração predatória de recursos naturais, pela poluição atmosférica e hídrica, pela obsolescência programada e o consequente excesso de lixo que emporcalha a terra.

O filme é preciso em seu diagnóstico das responsabilidades: governos subservientes a mega-corporações; mega-corporações que tratam a destruição ambiental como mera “externalidade”; consumidores alienados que deixam-se fisgar pelas iscas do marketing; desastrosas lideranças políticas que dirigem recursos para a guerra (vejam, por exemplo, o obsceno orçamento militar dos EUA) enquanto sucateiam e quase extinguem o sistema de saúde e educação etc.

A tão propalada “globalização” recebe bordoadas sarcásticas: o famoso “livre-mercado” consiste na liberdade das empresas de se instalarem em países do dito Terceiro Mundo, onde podem poluir a terra alheia e explorar o trabalho proletário através do pagamento de salários de fome. Todo e qualquer Wal-Mart fede à escravidão: os produtos baratinhos que perfilam-se nas prateleiras são o resultado dos sweat shops escravocratas – na China ou no México, na Nigéria ou em Bangladesh… – onde os direitos trabalhistas são espezinhados e a produção segue em frente como um gigantesco moedor de carne humana.

Ironia da História: após os atentados de 11 de Setembro nos EUA, a recomendação do presidente-psicopata George W. Bush a seus compatriotas não foi outro senão continuem comprando! Que nada – nem as guerras imperialistas por petróleo capitaneadas pelo “Ocidente” oil-junkie, nem a maior crise de refugiados desde a 2ª Guerra Mundial, nem o aquecimento global antropogênico galopante… – que nada impeça a zumbilândia de prosseguir consumindo.

É esta a civilização que se auto-proclama “desenvolvida” e que empurra-nos para uma nova era geológica – e o Antropoceno não é boa notícia – onde será nosso destino encarar uma crise ambiental planetária sem precedentes. Perante a neo-barbárie consumidora, faz-se urgente demolir o novo cogito delirante que parece entranhado em tantas mentes colonizadas: Eu consumo logo existo.

Barbara Kruger

Barbara Kruger

Diante desse cenário, vale criticar impiedosamente, como faz Márcia Tiburi, a farsa da felicidade publicitária e a necessidade urgente de recuperação de uma concepção “ético-filosófica” de felicidade, já que qualquer pessoa lúcida, diante do sistema hegemônico, percebe o quanto ele é perverso e insustentável:

“Tornou-se perigoso o emprego da palavra felicidade desde seu mau uso pelas publicações de autoajuda e pela propaganda. Os que se negam a usá-la acreditam liberar os demais dos desvios das falsas necessidades, das bugigangas que se podem comprar em shoppings grã-finos ou em camelôs na beira da calçada, que, juntos, sustentam a indústria cultural da felicidade à qual foi reduzido o que, antes, era o ideal ético de uma vida justa.A felicidade sempre foi mais do que essa ideia de plástico. Tirá-la da cena hoje é dar vitória antes do tempo ao instinto de morte que gerencia a agonia consumidora do capitalismo. Por isso, para não jogar fora a felicidade como signo da busca humana por uma vida decente e justa, é preciso hoje separar duas formas de felicidade: uma felicidade publicitária e uma felicidade filosófica…

A propaganda vive do ritual de sacralização de bugigangas no lugar de relíquias, e o consumidor é o novo fiel. Nada de novo em dizer que o consumismo é a crença na igreja do capitalismo. E que o novo material dos ídolos é o plástico. (…) A felicidade publicitária apresenta-se como mágica dos gadgets eletrônicos que se acionam com um toque, dos “amigos” virtuais que não passam de má ficção. A felicidade publicitária está ao alcance dos dedos e não promete um depois. Ilude que não há morte e com isso dispensa do futuro. Resulta disso a massa de “desesperados” trafegando como zumbis nos shoppings e nas farmácias do país em busca de alento.” TIBURI

ASSISTA: “THE STORY OF STUFF”

Versão legendada:

Versão dublada:

CONTRIBUIÇÕES PARA UM NATAL VERMELHO! – Leminski, Boulos, Freixo

Natal
Natal2
Jesus Cristo segundo Paulo Leminski

Profeta, poeta, utopista: Jesus aparece a Leminski como tudo isso junto e misturado. Este messias, tão incômodo quanto um Spartacus (ambos terminaram pregados na cruz pelos romanos), demandava um outro mundo e teve sua boca calada com violência. Em uma interpretação que talvez soe herética aos ouvidos daquelas seitas cristãs mais conservadoras e elitistas, Leminski reclama que a utopia de Jesus seja inserida na galeria do socialismo utópico. E denuncia os inúmeros desvios e perversões que transformam a mensagem de Jesus de Nazaré em algo capaz de produzir Cruzadas, Inquisições e Massacres.

“O Reino de Deus era a restauração da autonomia nacional do povo hebreu. Sobre isso, a autoridade romana não se equivocou, ao pregar o profeta na crux, exemplar suplício com que os latinos advertiam os rebeldes sobre os preços em dor da sua insurreição. Esse o suporte material, sócio-econômico-político, da pregação, por Jesus, de um (novo) Reino, um (outro) poder. Nessa tradução/translação do material para o ideológico, Jesus forneceu um padrão utópico para todos os séculos por vir. As duas grandes revoluções, a Francesa e a Russa, estão carregadas de traços messiânicos de extração evangélica. Ambas prometeram a justiça, a fraternidade, a igualdade, enfim, a perfeição, o ideograma da coisa-acabada projetada sobre o torvelinho das metamorfoses. Natural que seja assim. Afinal, as utopias são nostálgicas, saudades de uma shangrilá/passárgada, estado de excelência que lá se quedou no passado, Idade de Ouro, comunidade de bens na horda primitiva, antes do pecado original da divisão da sociedade em classes, plenitude primitiva, paleolítica, intra-uterina, antes do pesadelo chamado História.

A revolução é o apocalipse, o Juízo Final de uma ordem e de uma classe social: o cristianismo primitivo cresceu à sombra da expectativa da segunda vinda, quando Jesus, vitorioso sobre a morte, voltaria, apocalipticamente, para julgar, ele que foi julgado e condenado pelas autoridades: o retorno do reprimido, a vendeta, o acerto de contas entre os miseráveis da terra e seus prósperos opressores e exploradores. (…) O programa de vida proposto por Jesus é, rigorosamente, impossível. Nenhuma das igrejas que vieram depois invocando seu nome e cultuando sua doutrina o realizou. Religião saída de Jesus não poderia ter produzido Cruzadas, inquisição, pogrons e as guerras de religião entre católicos e protestantes, que ensangüentaram a Europa nos séculos XVI e XVII. O programa de Jesus é uma utopia. Curioso que, na frondosa bibliografia sobre os socialismos utópicos, nunca apareça a doutrina de Jesus como uma das mais radicais.” (PAULO LEMINSKI, Vida, Cia das Letras, p. 221)

* * * * *

Natal3

Natal Sem Hipocrisia
Guilherme Boulos

“Jesus Cristo, do modo como nos apresenta a Bíblia, não era um apologeta da ordem e da tradição. Enfrentou os poderosos de seu tempo e defendeu ideias que a consciência dominante não podia admitir.

Não por acaso morreu na cruz, depois de perseguido, preso e torturado. Como gosta de lembrar Frei Beto, Jesus não morreu de hepatite na cama nem atropelado por um camelo em alguma esquina de Jerusalém. Morreu como preso político nas mãos do prefeito Pôncio Pilatos e dos sacerdotes judeus. Isso, as escrituras nos dizem.

Nos falam também sobre as razões que fizeram de Jesus tão odiado pelos poderosos. Defendeu a igualdade e os mais pobres, condenando aqueles que se apegavam demais às riquezas: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus 19-24).

Defendeu a divisão dos bens, como signo da igualdade social: “Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos” (Lucas 1, 53). E assim o fez, partilhou o pão e os peixes entre todos (Marcos 6,41).

Jesus enfrentou também decididamente os preconceitos, como mostra o caso bíblico da mulher samaritana (João 4, 1-42). Acolheu os marginalizados (Marcos 7, 31) e foi misericordioso com as prostitutas (Lucas 7, 36-50). Combateu o ódio e intolerância.

Hoje, mais de dois milênios depois, nosso mundo permanece profundamente desigual. Os 2% mais ricos da população mundial detêm mais da metade de todas as riquezas, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas 1%. Os donos do poder, via de rega, continuam atuando para manter esta estrutura de privilégios e reprimir o povo quando ousa enfrentá-la.

Muitos dos que hoje se dizem cristãos consideram a desigualdade como fato imutável e a legitimam pelo discurso hipócrita da meritocracia. Sem falar no ódio e na intolerância. Defendem o linchamento público de “marginais”, silenciam como cumplicidade ante a chacina da juventude negra nas periferias, ofendem homossexuais e toleram a agressão à mulheres.

Jesus dedicou sua vida à igualdade, justiça e paz entre os povos. Se reaparecesse em 2014, no Brasil, ficaria espantado com o que dizem e fazem muitos dos cristãos. Seria achincalhado com palavras inomináveis nas seções de comentários da internet. Seria chamado de bolivariano na avenida Paulista. Certa comentarista de telejornal o mandaria levar para casa a mulher adúltera que ele salvou do apedrejamento. E alguém, de dentro de algum carro no Leblon, gritaria a ele:”Vai pra Cuba, Jesus!”

LEIA O ARTIGO NA ÍNTEGRA

* * * * *

Natal4

O NATAL DOS COVARDES
Marcelo Freixo

O que diriam os pregadores da intolerância, os obreiros do justiçamento, os apóstolos do olho por olho dente por dente sobre um homem que manifestou seu amor por um ladrão condenado e lhe prometeu o paraíso? Brandiriam o velho sermonário: bandido bom é bandido morto?

(…) Jesus optou pelos oprimidos e renegados, pelos miseráveis, leprosos, prostitutas, bandidos. Solidarizou-se com o refugo da sociedade em que viveu, contestou a ordem que os excluiu.

O Cristo bíblico foi um dos primeiros e mais inspiradores defensores dos direitos humanos e morreu por isso. Foi perseguido, supliciado e executado pelo Império Romano para servir de exemplo.

Assim como servem de exemplo os jovens que são espancados e crucificados em postes, na ilusão de que a violência se resolve com violência. Conhecemos a mensagem cristã, mas preferimos a prática romana. Somos os algozes.

Questiono-me sobre o que seria dele em nossa Jerusalém de justiceiros. Não sei se sobreviveria. É perigoso defender a tolerância, o amor ao próximo e o perdão quando o ódio é tão banal. Como escreveu Guimarães Rosa: “quando vier, que venha armado”.

Não é difícil imaginar por onde ele andaria. Sem dúvida, não estaria com os fariseus que conclamam a violência e fazem negócios, inclusive políticos, em seu nome.

Caminharia pelos presídios, centros de amnésia da nossa desumanidade, onde entulhamos aqueles que descartamos e queremos esquecer, os leprosos do século 21. Impediria que homossexuais fossem apedrejados, mulheres violentadas e jovens negros linchados em praça pública. Estaria com os favelados, sertanejos, sem tetos e sem terras.

Por ironia, no próximo Natal, aqueles que defendem a redução da maioridade penal, pregam o endurecimento do sistema prisional, sonham com a pena de morte e fingem não ver os crimes praticados pelo Estado contra os pobres receberão um condenado em suas casas.

Diante da mesa farta, espero que as ideias e a história desse homem sirvam, pelo menos, como uma provocação à reflexão. Paulo Freire dizia que amar é um ato de coragem. Deixemos então o ódio para os covardes.

Navidad

Natal6

Laerte

“…sempre que os governos decidem impor programas radicais de livre mercado, o tratamento de choque tem sido o seu método preferido.” (Naomi Klein)

chile2

Neoliberalismo e Violência: o golpe militar no Chile em 1973
& outras reflexões sobre a imposição brutal do “Livre Mercado”

Leia a matéria completa e inédita @ Depredando o Orelhão: http://migre.me/ccfUI

“In order to stablish conditions for free-market,
and in order to sustain free-market,
you need quite a lot of violence.”

SLAVOJ ZIZEK

O neoliberalismo, antes de ser implantado nos países capitalistas avançados, capitaneado por Tatcher no Reino Unido, Reagan nos EUA e Deng Xiaoping na China – como exposto em minúcia no livro Neoliberalismo de David Harvey (2008) – utilizou o Chile como seu “laboratório” experimental. Salvador Allende, desde sua eleição à presidência em 1970, havia realizado transformações amplas na sociedade chilena, pavimentando o caminho para uma sociedade socialista. Suas ações iam na direção oposta ao que recomendam os cânones neoliberais: ao invés de privatizações e desregulamentações favoráveis ao livre-mercado, o governo Allende trabalhou em prol da nacionalização de empresas, minas e terras.
Allende expropriou 15 milhões de hectares de terras que estavam concentradas nas mãos de latifundiários e as redistribuiu [vide nota 01 no fim do texto].Estatizou todos os bancos e retornou o controle de quase todas as fábricas ao comando dos próprios operários. Defendeu com punho-de-ferro a autonomia do Chile diante dos exploradores estrangeiros, em especial os EUA, que viam com muita desconfiança estas “iniciativas marxistas” que se assemelhavam a muitas instauradas em Cuba após a Revolução de 1959. Os militares, o partido Democrata-Cristão e os yankees fizeram tudo para boicotar e desestabilizar o regime de Allende, que resistiu por mais de 3 anos, respaldado por um apoio popular tão intenso e imenso. Com frequência massas que superavam 100 mil pessoas tomavam as ruas bradando a uma só voz: “Allende, Allende, el pueblo te defiende!” ou “Allende, tranquilo, o povo está contigo!”

O Chile havia vivido 41 anos de regime democrático quando, no fatídico 11 de Setembro de 1973, o presidente democraticamente eleito Allende é assassinado, o palácio de La Moneda em Santiago é bombardeado e um golpe militar instaura a ditadura Pinochet. Como nos lembra Naomi Klein, foi determinante neste evento histórico a ação nos bastidores de Milton Friedman, “considerado o economista mais influente do último meio século” (KLEIN: 2007, p. 15), um dos papas da doutrina neoliberal:

“Milton Friedman aprendeu a explorar os choques e as crises de grande porte em meados da década de 1970, quando atuou como conselheiro do ditador chileno, o general Augusto Pinochet. Enquanto os chilenos se encontravam em estado de choque logo após o violento golpe de Estado, o país sofria o trauma de uma severa hiperinflação. Friedman aconselhou Pinochet a impor uma reforma econômica bastante rápida – corte de impostos, livre-comércio, serviços privatizados, corte nos gastos sociais e desregulamentação. (…) Ficou conhecida como ‘a revolução da Escola de Chicago’, pelo fato de que muitos economistas de Pinochet tinham estudado sob a orientação de Friedman na Universidade de Chicago. (…) Desde então, sempre que os governos decidem impor programas radicais de livre mercado, o tratamento de choque [the shock doctrine] tem sido o seu método preferido.” (KLEIN, A Doutrina do Choque, p. 17)

* * * * *

PROSSIGA LENDO… http://migre.me/ccfUI. O post inclui FILMES COMPLETOS como o curta-metragem de KEN LOACH sobre o 11 de Setembro Chileno; 3 documentários de “A BATALHA DO CHILE”, de Patricio Guzman, legendandos em português; A DOUTRINA DO CHOQUE, filme de M. Winterbottom baseado no livro de Naomi Klein… e muito mais! Siga viagem >>> http://migre.me/ccfUI