Rainer Maria Rilke – Primeira Elegia de Duíno

 

PRIMEIRA ELEGIA DE DUÍNO

Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois o que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, que nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face – a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos – talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.

Sim, as primaveras precisavam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janela aberta,
uma viola d’amore se abandonava. Tudo isto era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, à espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vêm
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta às amantes;
ainda não é bastante imortal sua celebrada ternura.
Tu quase as invejas – essas abandonadas
que te pareceram tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma indefinidamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser – nascimento supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objeto amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detêm.

Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fôsses,
nas igrejas de Roma e Nápoles, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa…
O que pede essa voz? A ansiada libertação
da aparência de injustiça que às vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
às rosas e a outras coisas singularmente promissoras
não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medrosas,
não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. – Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentar Linos violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que ele abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações – que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.

Rainer Maria Rilke

P.S. – “Contam que Rilke, depois dos primeiros versos que o vento lhe ditou nas altas penedias de Duíno, viveu doze anos com aquele germe, em viagens, em mudanças, em desperdícios, em guerras, até o momento de realizar, em quatro dias, como quem morre, as suas elegias perfeitas. Não será sempre assim? Não será a própria vida uma longa e desarrumada atividade dos bastidores para uma fugaz apoteose?” In: GUSTAVO CORÇÃO, Lições de Abismo.

Rilke, 1906. Foto: George Bernard Shaw.

 

SIGA VIAGEM:
Correspondência Rilke e Lou von Salomé – Audiobook

LIVRARIA A CASA DE VIDRO – Novidades no Acervo (Julho de 2017)

Foo Fighters – Learning to Fly, a Biografia Definitiva da Banda
Mick Wall

Tipo: novo
Editora: Planeta
Ano: 2017
Estante: Biografias
Peso: 680g
Idioma: Português

A biografia de Dave Grohl e os Foo Fighters, uma das maiores bandas de rock da atualidade: “Há um motivo pelo qual Dave Grohl é conhecido, ainda que ingenuamente, como o cara mais legal do rock. Um motivo que explica por que milhões compram os CDs e DVDs do Foo Fighters, os ingressos de shows e de festivais; por que gerações acreditaram na história, no sonho e nas profecias deles, que se realizaram. Dave é generoso. Ele pode não ter o glamour culto de Kurt Cobain, do Nirvana, mas Kurt era alguém que tirava em vez de doar. Kurt afundou na escuridão, no lado escuro da lua. Dave é um adorador do Sol, um amante e não um solitário, um canal de luz, defende o biógrafo Mick Wall, o mesmo autor de Led Zeppelin – When Giants Walked the Earth.

Sinopse, via Travessa: Foo Fighters – Learning to Fly é a verdadeira história do Foo Fighters – como nunca foi contada antes. Desde o tempo de Dave como um garoto novo do Nirvana até se tornar o Ringo Grunge do Foo Fighters, onde ele está agora –  talvez o maior e mais popular astro mundial do rock na categoria masculina. Nada disso aconteceu por acidente. E o internacionalmente famoso crítico de rock Mick Wall nos conta como e por que, em um estilo que pulsa com os próprios ritmos do rock, ao entrevistar amigos, antigos colegas de bandas, produtores, executivos de gravadoras de discos e as pessoas mais íntimas de Dave Grohl e dos Foos… Essa explosiva biografia – a primeira, completa e sem censuras literárias – explica por que.”



Kurt Cobain: a Construção do Mito
Charles R. Cross

Tipo: novo
Editora: Agir
Ano: 2014
Estante: Música
Peso: 450g
Idioma: Português
Comprar em Estante Virtual

Do mesmo autor de “Mais Pesado Que o Céu”, este livro foi lançado mundialmente em Abril de 2014, vinte anos após o suicídio do líder do Nirvana. Em Tenho Mais Discos Que Amigos, uma boa síntese do livro: contextualiza o impacto de Cobain e sua obra não só no cenário do rock, mas também como tem influenciado, desde então, a moda, o papel dos gêneros, o feminismo, a forma com que o mundo encara o suicídio, o vício em drogas, e o papel de Seattle e do grunge na cultura pop. Livro novo, sem grifos, 176 pgs. Relembre:



Na Livraria A Casa de Vidro:
Ray BradburyFarenheit 451 (2016, 165 pgs, capa dura): http://wp.me/pNVMz-1Sb.
Compre em Estante Virtualhttp://bit.ly/2eL96lm.
Adaptado para o cinema por François Truffaut.
Saiba mais: https://acasadevidro.com/2015/06/23/a-distopia-de-truffaut-adaptada-de-bradbury-livros-ardem-a-451-graus-fahrenheit/



GEORGE ORWELL (1903 – 1959) – “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro)

“A liberdade de expressão, que era definida por George Orwell (1903-1950) como “o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir”, é um dos ingredientes que torna tão cativantes os escritos do autor de 1984 Revolução dos Bichos. Sem papas na língua, com uma prosa lúcida e sem firulas, sempre corajoso na manifestação de suas opiniões e impressões, o escritor inglês também tem uma significativa produção jornalística e ensaística que se torna cada vez mais disponível ao público brasileiro.

Com o lançamento de “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, compre por R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro), que contêm 24 artigos selecionados por Sérgio Augusto, já gozamos de acesso a 3 livros que coletam os ensaios políticos de Orwell – os outros dois são Como Morrem Os Pobres Dentro da Baleia. Além disso, podemos nos deliciar com relatos autobiográficos como Na Pior Em Londres e Paris e com romances excelentes, ainda que menos conhecidos, como A Flor da Inglaterra A Filha do Reverendo. 

Frequentemente descrito como um dos críticos mais perspicazes do totalitarismo, George Orwell defendia o que chamava de “socialismo democrático”. Tal tomada de posição não torna seus artigos na imprensa culpáveis de panfletarismo ou proselitismo. Sem afetar nenhum tipo de neutralidade angelical, aliás inacessível aos animais políticos que somos, Orwell mantêm-se fiel a certos parâmetros éticos que norteiam sua conduta na ação e na escrita, em especial sua convicção de que é preciso respeitar a verdade objetiva e sua noção de que a missão do socialismo é a invenção de uma sociedade baseada na fraternidade humana.” – Saiba mais



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A PAIXÃO SEGUNDO A REVOLUÇÃO: Leon Trótski (1879 – 1940) biografado por Paulo Leminski (1944 – 1989)

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Haja proteína para lutar pelos famintos, pelos escravos, por todos os que são esmagados pela opressão multiforme! Neste ano de 2017, em que celebra-se o centenário da Revolução Russa, ou seja, aquilo que o autor do Catatau afirmou ser “o máximo acontecimento político do século XX” (p. 263) -, as proteínas literárias não são de se desprezar. Vale muito a pena redescobrir uma obra, cativante e de vasta relevância, que Paulo Leminski publicou, em 1986, sobre Trótski (1879 – 1940).

Graças ao excelente livro Vida (Companhia das Letras, 2013, 390 pgs), hoje o leitor brasileiro tem acesso fácil às imperdíveis biografias que Leminski devotou às vidas de Jesus de Nazaré, Cruz e Souza, Bashô e Trótski. São obras-primas não somente dentro da estreiteza do gênero biográfico, mas dignas de figurarem no cânone da literatura brasileira ou mesmo da ensaística especulativa universal, já que neles Leminski revela-se não só como poeta magistral, mas como livre-pensador dos mais preciosos já nascidos em terra brasilis. 

“Diante da brutalidade milenar da sociedade de classes, para lançar as bases do socialismo, era preciso concentrar séculos de horror em décadas. Os bolcheviques, conforme uma fantasia erótico-heróica de Trótski, em seu ‘Minha Vida’, cultivavam a fantasia de estar vingando Spartacus e todos os escravos da Antiguidade, os servos da Idade Média, os operários ingleses do século 18, todos os oprimidos, os explorados, os diminuídos. Sem saber, perseguiam aquilo do Evangelho: ‘bem-aventurados aqueles que têm sede e fome de justiça, pois eles serão saciados’. Mas não eram as belíssimas abstrações do Sermão da Montanha que os bolcheviques buscavam. Eles queriam a industrialização, a plenitude material, o fim da fome, o fim da ignorância, a vida sem medo nem insegurança, o cessar das guerras, o término da pré-história, a célebre passagem do Reino da Necessidade para o Reino da Liberdade…” (LEMINSKI, p. 326-327)

Por estes trechos já se percebe que o “polaco loco paca” não se limita a falar sobre a vida e a obra de Trótski, mas engaja-se com entusiasmo em debates, mete o bedelho onde não é chamado, sai filosofando sobre os destinos do marxismo-leninismo e da revolução, sempre com ousadia e espírito livre, criticando também os erros nefastos cometidos através da história do bolchevismo, entre eles o que chama de “monopólio do poder” e “unanimidade compulsória”:

Fragmento de um mural de Diego Rivera com retrato do revolucionário bolchevique Vladimir Ilitch “Lênin” ao centro

“O Partido Bolchevique pretendia não apenas o monopólio do poder, dos cargos de mando, da administração do país. Para manter e justificar esse monopólio, teve que assumir o monopólio ideológico, a ortodoxia doutrinária mais severa, sem margens para divergências e contestações. Qualquer diferença em relação às determinações partidárias será, doravante, considerado um gesto contrarrevolucionário. O império da unanimidade compulsória, característica dos tempos de Stálin, começou já nos tempos de Lênin e Trótski.

Filosoficamente, em termos de pensamento, essa ortodoxia manifestou-se na consagração e canonização do pensamento de Marx e Engels, com os acréscimos posteriores das ideias de Lênin e do pensamento de Stálin. Esse estranho amálgama filosófico-ideológico, que acabou se chamando marxismo-leninismo, é, em boa parte da terra, sinônimo de Razão, Verdade absoluta, ‘o saber supremo da nossa época’, como disse Sartre num de seus momentos mais vermelhos. De método vivo de pensar, em Marx, a dialética viria a se transformar numa escolástica congelada e repetitiva: de 1917 pra cá, a URSS não produziu um só pensador original, só comentadores dos clássicos. As reais contribuições a um avanço do pensamento marxista ocorreram fora da URSS: Adorno e Walter Benjamin, Sartre e Marcuse, até hoje gente não grata na Santa Rússia…” (LEMINSKI, p. 318)

O mais célebre dos divergentes e contestadores da unanimidade, que destoou o coro dos contentes na Era Stanilista, que fez ouvir as notas de sua canção dissonante de exilado e de perseguido político, é o próprio Trótski. Leminski busca desvendá-lo munido de excelente companhia. Ilustram o livro algumas gravuras e cartuns da pena de Vladimir Maiakóvski, com seu espevitado gênio poético, que manifestou-se não só em verso mas também de forma gráfica bem punk, proto-Henfilesca.

Leminski também baseia-se em um estudo exaustivo que fez dos livros de Isaac Deutscher (1907 – 1967), que devotou três grossos volumes a Trótski – a trilogia O Profeta Armado, Desarmado e Desterrado. É uma jornada em que Leminski consegue honrar o revolucionário russo com um livro à altura de sua estatura histórica.

Além disso, como ótimo poeta que é, Leminski amplia seu poder de evocação de imagens memoráveis com um arsenal que colhe nos filmes de Eisenstein. O histórico Outubro de 1917 e seus prelúdios no Encouraçado Potemkin de 1905 servem como armazéns inestimáveis de poesia audiovisual sobre aqueles dias que “abalaram o mundo” (John Reed) – e o autor sabe se aproveitar, de maneira interdisciplinar, de múltiplas obras nascidas em conjunção com a revolução.

“Os três principais chefes da Revolução de Outubro e da implantação do comunismo começaram a conspirar desde cedo. Todos conheceram a prisão, a deportação, a fuga, o medo da delação, as reuniões secretas, o uso de documentos falsos, todas as agruras de uma intensa vida de criminosos políticos.

Essa militância clandestina está inscrita no próprio nome com que os conhecemos. Lênin, Trótski e Stálin não são seus nomes. São apelidos, codinomes de militância subversiva, dois deles diretamente ligados a vicissitudes da vida de um criminoso político. Vladimir Ilitch chamou-se Lênin porque esteve preso numa colônia penal no interior da Sibéria, às margens do rio Lena. Quanto a Trótski, era o nome de um dos carcereiros de Liev Davidovitch, em uma de suas inúmeras prisões, e que Liev adotou quando fugiu da prisão, uma vez que seu verdadeiro nome já era conhecido em todas as delegacias da Rússia. Irônico o caso deste obscuro carcereiro cujo nome entrou na história através de um acidente da luta política entre os irmãos Karamázov e o Grande Pai Castrador.

Esse que nós conhecemos como Tróstki era filho de um judeu fazendeiro do sul da Ucrânia, proprietário da fazenda Yanovka… que ficava muito longe de qualquer sinagoga. Liev cresceu, ‘menino de engenho’, entre trabalhos de campo e rudes lavradores ucranianos, livre, como seu pai, das amarras do judaísmo ortodoxo tradicional.

Talvez esteja aí a raiz da extraordinária liberdade de pensamento crítico que sempre lhe foi característica, como teórico, como orador e como homem de ação. Nessa liberdade, seu estilo de pensar tem algo que lembra o pensar de Marx, outro judeu desjudaizado, um pensar de essências e medulas, com a coragem de ir até as últimas consequências do seu movimento inicial, passando por cima de preconceitos, lugares-comuns e verdades estratificadas…

A máquina mental e intelectual de Trótski era mais completa que a de Lênin. Seus interesses eram mais plurais. Suas leituras, mais diversificadas. Seu horizonte, muito mais amplo. Leia-se por exemplo o voo utópico do final do ensaio ‘Arte revolucionária e arte socialista’, capítulo 8 do seu livro Literatura e Revolução. Lênin jamais poderia ter escrito essas páginas de um sopro verdadeiramente épico-utópico sobre o novo homem que o socialismo poderia criar.” (LEMINSKI, p. 264-265)

As relações íntimas e intensas de Trótski com a literatura são um dos temas prediletos de Leminski. Ele nutre veneração tanto pelos talentos trotskianos como crítico literário, quanto por grandes autores da literatura russa que Trótski e Leminski consideram como mestres. Entrando em uma querela sobre o valor das contribuições à compreensão da Rússia, Leminski opõe historiadores a artistas, prestando no tribunal da história seu tributo de artista à sua estirpe de “antenas da raça”, dizendo que julga muito mais valiosos artistas como Dostoiévski do que aqueles historiadores que são “colecionadores de dados e datas”.

Os romances de Dostoiévski, seus dilemas existenciais e éticos, escritos por alguém que sofreu todas as aflições do aprisionamento na Sibéria e do pelotão de fuzilamento, também marcam profundamente a reflexão leminskiana. Rompendo com qualquer dogma sobre a escritura de biografias, Leminski fala ao leitor como se estivesse no boteco, dando conselhos de amigo-sábio aos novatos:

“Se você quer entender a Rússia, não perca tempo lendo manuais de história. Comece logo lendo Os Irmãos Kazamázov, de Dostoiévski. Esse romance, de 1880, é a história de um parricídio, o assassinato do velho Karamázov por um de seus 4 filhos… Os Irmãos Kazamázov não só retrata com perfeição a Rússia passada e presente, em suas estruturas mais profundas, mas ainda prefigura uma Rússia por vir. Quando Dostoiéski escreveu esse romance, Freud apenas engatinhava. Mas nele já se encontra todo o fundamental da teoria freudiana. Para Freud, é o parricídio primordial que funda a civilização. E toda revolução social de grandes proporções é uma luta dos filhos contra a tirania dos pais (pais, padres, patrões, padrões). (…) Quando um dos Karamázov mata o pai, começa a Revolução Russa, esse terremoto histórico, onde Trótski teve um papel decisivo.” (p. 246)

Leminski alça Trótski ao estatuto de herói épico, de uma epopéia revolucionária, que destaca-se também por sua extraordinária capacidade de criação intelectual em meio às batalhas da vida política, o que talvez explica que “envelheceu precocemente: aos 50 anos, parecia ter 70. Lutou contra Stálin e o stalinismo até o último momento. Foragido e perseguido, jamais deixou de denunciar as deformações que Stálin introduzia no socialismo da URSS, que ele tinha ajudado a criar. Sua vasta produção jornalística e literária é um combate contínuo contra a traição da Revolução que ele via no stalinismo triunfante.” (p.  344)

Preocupado com o destino histórico do pensamento de Marx e Engels tal como este encarna-se na história afora, Leminski percebe bem a complexidade do caso de Trótski, que foi líder revolucionário bolchevique e chefe militar supremo durante a Guerra Civil pós-revolucionária, e depois foi transformado por Stálin em pária, inimigo a ser caçado e liquidado, tanto fisicamente (Trótski foi assassinado em 1940, no México, por punhos servindo o stalinismo) quanto historicamente (nas fotografias, antes do Photophop, Trótski foi liquidado, num processo que inspirará George Orwell para retratar o totalitarismo em 1984).

Em 1984, livro publicado em 1949, a noção de um Partido Único, monopolizador de poder, impositor de uma unanimidade ideológica, também busca de maneira visceralmente stalinista manter o Passado sob seu controle. Fabrica uma ficção após outra sobre o que já se passou na fase histórica pregressa, sempre talhando o passado que mais convêm a seus interesses atuais, the past that suits you best. Se em Stalin vemos o protótipo do Grande Irmão, um autêntico Big Brother Bolchevique, em Trótski não é difícil reconhecer a figura do inimigo público número 1, bode expiatório, alvo supremo da perseguição da polícia política, que em Orwell é Emmanuel Wallerstein.

“Dor toda especial para Trótski deve ter sido a obliteração sistemática do seu nome na historiografia soviética, ou simpática a Stálin. Nesse terreno, não há dúvidas: a historiografia soviética sobre a Revolução é uma mentira deslavada, completamente deturpada por Stálin. Quem quiser saber uma opinião contemporânea e isenta leia John Reed em Os 10 Dias Que Abalaram O Mundo, o jornalista americano, comunista, estava lá, em 1917. O nome e a atuação de Trótski estão presentes em todas as páginas, onde Stálin não aparece nenhuma vez. Pois vem: o livro de Reed, com prefácio de Lênin, só pôde ser traduzido e editado na URSS depois da morte de Stálin. Durante sua vida, nenhum historiador russo se atreveria a mencionar sequer o nome de Trótski num trabalho sobre a Revolução. Essa gracinha poderia lhe custar, no mínimo, o emprego e, no máximo, a vida.

Essa institucionalização da mentira não se limitou aos textos. Até de fotografias históricas foi raspada e apagada a imagem de Trótski!  Não há exemplo no mundo moderno de uma conspiração da memória semelhante. O paralelo mais próximo seria a prática dos faraós do antigo Egito que costumavam mandar apagar dos monumentos os nomes dos faraós anteriores, para botar o seu no lugar…” (p. 345)

“Quatro pernas, bom. Duas pernas, ruim.” O lema provisório da fazenda comunista em “A Revolução dos Bichos”. Saiba mais: Capitalismo em Desencanto, A Casa de Vidro.

Este embate entre Stálin e Tróstki, tão determinante nos rumos e descaminhos da Revolução Bolchevique, também marca a alegoria orwelliana de A Revolução dos Bichos (Animal Farm), obra de 1943-1944,onde estes personagens históricos estão representados pelos porcos Napoleão (Stalin) e Bola-de-Neve (Trótski). 

O desenlace final do duelo também ganhou a tela do cinema através de The Assassination of Trotsky (1972), dirigido por Joseph Losey e com Richard Burton no papel principal, onde são revelados detalhes dos últimos dias da vida de Trótski, no México, sob a proteção de Diego Rivera e Frida Kahlo, dentre outros camaradas.

“Escorraçado por toda parte, encontrou precário refúgio no México, onde viveu nos arredores da capital, sempre ameaçado por atentados encomendados por Moscou. Passou seu últimos dias numa verdadeira fortaleza, em Coyocán, nas proximidades da Cidade do México, protegido por partidários leais que funcionavam como uma verdadeira guarda pessoal… Stálin tinha determinado sua eliminação. O fim de Trótski foi tão rocambolesco quanto sua vida. Stálin, através do Partido Comunista Mexicano, conseguiu infiltrar na fortaleza de Coyocán um agente seu, J. Monard, que se fez passar por jornalista de esquerda, interessado nas ideias de Trótski. Um dia, sozinho com Liev, Monard agarrou a pequena picareta que trazia sob o casaco, e a cravou na cabeça do velho líder. Trótski, que era homem vigoroso, ainda conseguiu lutar com o agressor. E só veio a morrer quando levado ao hospital.” (p. 346)

Leminski não canoniza Trótski: não silencia, por exemplo, sobre o episódio do Kronstadt, frequentemente citado como uma prova de que Trótski, que tanto acusou Stálin de ter traído a revolução, teria também praticado uma nefasta traição, afogando em sangue a dissidência através de “métodos brutais”, já que “mandou massacrar a guarnição rebelada de Kronstadt” (p. 334). Sem esconder os erros e contradições do homem, ao refletir sobre o legado de Trótski para a posteridade, ao avaliar sua relevância no âmbito do marxismo e da ação revolucionária, Leminski destaca como elementos cruciais o internacionalismo e a revolução permanente que são marcas do trotskismo, mas as critica com ideias próprias:

“Para Marx e os marxistas do século XIX, a revolução proletária era um fenômeno mundial, transnacional, baseada na igualdade da condição oprimida dos trabalhadores de qualquer latitude. As nações eram artifícios geopolíticos das classes dominantes. Entre um operário inglês e um operário alemão, deveria prevalecer a condição de operário sobre a diferença de nacionalidade. Na realidade, as coisas seriam um pouco diferentes. O ser humano, operário ou não, não é uma entidade genérica, abstrata. É um indivíduo concreto, com certos traços físicos comuns aos seus, falando determinada língua, orgulhoso de seus signos culturais, sua culinária, seu folclore, seus mitos fundantes. A certeza, porém, da iminência de uma revolução proletária em todos os países, a começar pelos mais industrializados, era esperança muito viva nos revolucionários do século XIX e primórdios do XX. Do ouro falso dessa esperança, Trótski forjou sua teoria da revolução permanente: uma vez iniciada num país, a revolução proletária não deveria parar aí, mas se irradiar numa reação em cadeia.

Durante a Revolução Russa, Trótski e os outros esperavam, para qualquer hora, a eclosão da Revolução na Alemanha. No poder, os trabalhadores alemães, mais desenvolvidos que os russos, dariam a mão a seus irmãos do Leste, dando início a uma sucessão de revoluções proletárias, que acabariam tomando conta do mundo todo. Sem essa fé, dificilmente os bolcheviques teriam tido tanta coragem para arrostar as incríveis dificuldades com que começou a Revolução Russa. Mas os fatos quiseram diferente. A incipiente revolução alemã foi facilmente tomada pela classe dominante, Rosa Luxemburgo e Liebknecht, seus líderes, sumariamente executados… Adeus, revolução permanente. Em meados dos anos 1920, Stálin começa a patrocinar a ideia do ‘socialismo num só país’, teorização de uma realidade histórica irremediável.” (p. 337)

Detalhe de um mural de Diego Rivera que retrata Trótski e Marx. Saiba mais.

Em 27 de fevereiro e 03 de Março de 1940, em Coyocán, México, Trótski escreve em seus últimos dias entre os vivos algumas palavras que lhe servem de testamento:

“Nos 43 anos de minha vida consciente, permaneci um revolucionário; durante 42 destes combati sob a bandeira do marxismo. Se tivesse que recomeçar, procuraria evidentemente evitar este ou aquele erro, mas o curso principal de minha vida permaneceria imutável. Morro revolucionário proletário, marxista, partidário do materialismo dialético e, por consequência, ateu irredutível. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é menos ardente; em verdade, ela é hoje mais firme do que foi nos dias de minha juventude… A vida é bela. Que as gerações futuras a limpem de todo o mal, de toda opressão, de toda violência e possam gozá-la plenamente. (…) Sejam quais forem as condições de minha morte, morrerei com uma fé inquebrantável no futuro comunista. Esta fé no homem e em seu futuro dá-me, mesmo agora, uma tal força de resistência como religião alguma poderia me fornecer.” – Leon Trótski

GEORGE ORWELL (1903 – 1959) – “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro)

por Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro

A liberdade de expressão, que era definida por George Orwell (1903-1950) como “o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir”, é um dos ingredientes que torna tão cativantes os escritos do autor de 1984 Revolução dos Bichos. Sem papas na língua, com uma prosa lúcida e sem firulas, sempre corajoso na manifestação de suas opiniões e impressões, o escritor inglês também tem uma significativa produção jornalística e ensaística que se torna cada vez mais disponível ao público brasileiro.

Com o lançamento de “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, compre por R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro), que contêm 24 artigos selecionados por Sérgio Augusto, já gozamos de acesso a 3 livros que coletam os ensaios políticos de Orwell – os outros dois são Como Morrem Os Pobres Dentro da Baleia. Além disso, podemos nos deliciar com relatos autobiográficos como Na Pior Em Londres e Paris e com romances excelentes, ainda que menos conhecidos, como A Flor da Inglaterra A Filha do Reverendo. 

Frequentemente descrito como um dos críticos mais perspicazes do totalitarismo, George Orwell defendia o que chamava de “socialismo democrático”. Tal tomada de posição não torna seus artigos na imprensa culpáveis de panfletarismo ou proselitismo. Sem afetar nenhum tipo de neutralidade angelical, aliás inacessível aos animais políticos que somos, Orwell mantêm-se fiel a certos parâmetros éticos que norteiam sua conduta na ação e na escrita, em especial sua convicção de que é preciso respeitar a verdade objetiva e sua noção de que a missão do socialismo é a invenção de uma sociedade baseada na fraternidade humana.

“A história é escrita pelos vencedores”, escreve Orwell em 1944. “Em última análise, nossa única reivindicação de vitoriosos é que caso ganhemos a guerra contamos menos mentiras sobre ela do que nossos adversários. O que é realmente assustador quanto ao totalitarismo não é que ele cometa ‘atrocidades’, mas que agrida o conceito de verdade objetiva: ele proclama que controla o passado tão bem quanto o futuro.” (p. 77)

É só lembrar que, em 1984, o Partido Único que governa a distópica sociedade que têm à sua testa o Grande Irmão também pratica a mentira em escala massificada: o protagonista Winston Smith trabalha no Ministério da Verdade, onde passa seus dias adulterando notícias de jornal e registros históricos de acordo com as ordens da elite, adaptando o passado conforme os interesses da ocasião.

Propondo-se a não mentir sobre nada do que acredita, ponto em ação sua notável capacidade de parrhesía, Orwell tem como um de seus principais temas o pensamento e a prática utópicos. No artigo Socialistas podem ser felizes? (p. 63 a 72), Orwell tece certas reflexões importantes sobre a utopia (“a propósito, a palavra não significa ‘um lugar bom’, mas ‘um lugar inexistente'”) e estabelece sua própria perspectiva socialista democrática em bases sólidas, nada quiméricas, bastante pé-no-chão, sugerindo que as lutas contra as distopias reais são o primeiro passo de qualquer mobilização sócio-política rumo a uma sociedade mais fraternal:

“Sugiro que o verdadeiro objetivo do socialismo não é a felicidade. O verdadeiro objetivo do socialismo é a fraternidade humana. Homens passam suas vidas em dolorosas lutas políticas, ou são mortos em guerras civis, ou torturados em prisões secretas da Gestapo, não para estabelecer algum paraíso com aquecimento central, ar condicionado e iluminação fluorescente, mas porque eles querem um mundo no qual homens amem uns aos outros em vez de trapacearem e se assassinarem reciprocamente. E eles querem esse mundo como um primeiro passo. (…) Neste Natal, milhares de homens estarão sangrando até morrer nas neves da Rússia, ou se afogando em águas geladas, ou fazendo uns aos outros em pedaços com granadas nas ilhas pantanosas do Pacífico; crianças sem-teto estarão vasculhando as ruínas de cidades alemãs em busca de comida. Fazer com que esse tipo de coisas seja impossível é um bom objetivo.” (ORWELL, 2017, p. 70-71)

Estas palavras mostram bem que George Orwell não era um utopista, ou seja, alguém que tivesse proposto um modelo ou arquétipo de sociedade idealizada, mas muito mais um crítico mordaz dos pesadelos reais de que foi contemporâneo em seu tempo histórico. A distopia é o seu terreno, muito mais que a utopia, e certamente ele não fabricou com uma imaginação sem freios os sistemas políticos opressivos e totalitários de 1984 Revolução dos Bichos, mas partiu de realidades que pôde conhecer e nas quais se engajou. Sabe-se bem que Orwell não foi autor de exilar-se das turbulências do mundo em um torre de marfim. Por exemplo: ele fez parte das milícias do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM) que insurgiu-se contra a tirania de Franco na Espanha, tendo lutado durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), tendo sido baleado no pescoço (sobre o tema, escreveu Homenagem à Catalunha).

Com sua inteligência vigilante e seu senso crítico sempre ativo e operante, Orwell, vivendo na primeira metade do século XX, testemunhou a ascensão de lideranças nazi-fascistas como Franco (Espanha), Mussolini (Itália) e Hitler (Alemanha), mas também viu a Revolução Russa de 1917 trair as suas promessas ao transformar-se no pesadelo stalinista, denunciado na literatura por romances como O Zero e o Infinito (Darkness At Noon), de Arthur Koestler, autor que Orwell comenta longamente em um magistral ensaio de 1946, incluído em O Que É o Fascismo? (pgs. 102 a 116).

Somado ao monumental estudo de Hannah Arendt em As Origens do Totalitarismo, a obra de Orwell condensaria a tese de que teriam existido dois totalitarismos neste século que Hobsbawn apelidou A Era dos Extremos: um totalitarismo de direita e outro de esquerda. Seria indigno que nos indignássemos, por exemplo, apenas contra o pesadelo do III Reich e todos os seus holocaustos e atrocidades bélicas, caso silenciássemos sobre os gulags e os expurgos do regime de Stálin; seria indigno criticarmos somente o autoritarismo e a arbitrariedade cruel dos regimes de um Mussolini ou de um Pinochet, mas sem criticar o autoritarismo soviético que esmagou a Primavera de Praga em 1968..

A atitude de Orwell é de crítica ampla e ilimitada a todas as faces da tirania, mas nota-se que ele não menospreza seus adversários: boa parte dos ensaios é dedicado a um debate com poetas reacionários e conservadores, alguns francamente fascistas, como é o caso de Ezra Pound (que aliou-se ao regime de Mussolini). Orwell analisa de modo crítico a obra de um T.S. Eliot e um Yeats, sem cair na falácia de repudiar totalmente suas obras literárias por discordar de suas posições políticas. Chega a admitir que aprecia Louis-Ferdinand Céline como escritor, apesar de seu vociferante e inaceitável anti-semitismo.

Orwell também fala sobre o Mein Kampf de Hitler, destacando que “o que impressiona é a rigidez de sua mente, o modo como sua visão de mundo não evolui”, mas admitindo que “Hitler não teria tido sucesso contra seus muitos rivais não fosse a atração de sua própria personalidade”. Em frases capazes de chocar alguns, escreve: “nunca fui capaz de não gostar de Hitler. Desde que ele chegou ao poder, acho que decerto o mataria se pudesse ter acesso a ele, mas sem sentir nenhuma animosidade pessoal. O fato é que há nele algo que é profundamente atraente…” (p. 29)

Pode parecer estranhíssimo que Orwell confesse que havia em Hitler algo de “profundamente atraente”, mas de fato é um enigma importante de se decifrar: o que constitui o fascínio do fascismo? Como é possível que tanta gente se filie a movimentos fascistas, que tantos soldados tenham sido obedientes às ordens de seus líderes fascistas e que tenham marchado para campos de batalhas onde massacrariam e seriam massacrados?  Que atração é esta que Hitler, Mussolini, Franco ou Pinochet – alguns dos mais célebres estadistas fascistas – puderam exercer sobre seus acólitos? Para Orwell, Hitler sabia fazer uma pose heróica, como se a história fosse uma epopéia, era cheio de posturas “napoleônicas”:

“Se estivesse matando um camundongo ele saberia fazer com que parecesse estar matando um dragão. Sente-se, como no caso de Napoleão, que ele está lutando contra o destino, que ele não tem como vencer, mas que de certa forma ele o merece. A atração de uma pose assim é, obviamente, enorme; metade dos filmes a que assistimos trata desse mesmo tema… Hitler também  captou a falsidade da postura hedonista diante da vida. Quase todo o pensamento ocidental desde a última guerra, com certeza todo o pensamento ‘progressista’, assumiu tacitamente que os seres humanos não desejam nada além de ter facilidade, segurança e evitar o sofrimento. Em tal visão da vida não há espaço, por exemplo, para o patriotismo e para as virtudes militares. O socialista que surpreende seu filho a brincar com soldadinhos costuma ficar aborrecido, mas nunca é capaz de pensar em um substituto para soldados de chumbo; pacifistas de chumbo, de certa forma, não iam funcionar.

Hitler, por sentir isso com força excepcional em sua própria e triste mente, sabe que seres humanos não querem apenas conforto, segurança, poucas horas de trabalho, higiene, controle de natalidade e, no geral, bom senso; eles também, ao menos intermitentemente, querem luta e autossacrifício, e isso sem falar em tambores, bandeiras e desfiles demonstrativos de lealdade. O que quer que possam ser como teorias econômicas, o fascismo e o nazismo são, em termos psicológicos, muito mais sensatos do que qualquer concepção hedonista da vida.” (New English Weekly, 1940, p. 30)

Este é um dos trechos mais questionáveis de todos os que já li de Orwell e sinto necessidade de debatêlo, e até contestá-lo: quando ele busca demolir a “concepção hedonista da vida”, parece compreender por esta expressão algo que pouco tem a ver com a ética epicurista (como se expressa também na obra de Lucrécio ou Horácio) ou com as propostas do materialismo iluminista (Helvétius, por exemplo). Ao falar contra o hedonismo, Orwell parece estar dizendo que o ser humano, longe de ser uma máquina simplória de perseguir o prazer pessoal e imediato, tem uma psiquê mais complexa e que pode admitir o martírio e o autossacrifício, caso acredite que através disso aumentará seu valor pessoal, seja no mercado intersubjetivo dos afetos humanos terrenos, seja no mercado transcendental em que alguns crêem e que pode incluir a noção de que compramos o tíquete de entrada no Paraíso através de certas afrontas que fazemos ao nosso próprio egoísmo.

Para Orwell, os líderes fascistas sabiam muito bem que as pessoas não desejam apenas conforto, segurança e entretenimento – em suma, sofás luxuosos onde deitarem-se para assistir TV enquanto comem salgadinhos com Coca-Cola. As pessoas têm necessidade íntima de sentido e não só prazer, e por isso fascinam-se por projetos que proponham aventura coletiva, heroísmo nacional, filiação e lealdade a projetos que transcendem a individualidade e a vida privada – e esta predisposição psíquica as conduziria a abraçar lideranças fascistas como Hitler. A tese orwelliana, bastante debatível, parece-me um pouco simplista, em especial quando a comparamos com aquilo que foi realizado pela psicologia de massas através de autores como Erich Fromm (O Medo à Liberdade),  Stanley Milgram (Obediência à Autoridade), Wilhelm Reich (Psicologia de Massas do Fascismo). Todas as reflexões de Hannah Arendt sobre o conceito de banalidade do mal parecem-me também de suma relevância.

fascínio do fascismo, segundo estes autores, tem a ver também com uma espécie de auto-demissão da autonomia, praticada por um sujeito que deleita-se em abandonar-se ao comando de algo mais forte que ele, gozando com a hedonê perigosa que é o alívio do senso de responsabilidade. Esta prazeirosa leveza da des-responsabilização, o hedonismo fácil que consiste em seguir o rebanho e ir com o fluxo, Orwell parece não ter considerado em suas incursões rápidas no território da psicologia social. Não se trata, para as massas arrebanhadas pelo fascismo, de anti-hedonismo, mas sim de um irracionalismo grávido de atrocidades onde os sujeitos sentem prazer no aniquilamento da própria autonomia e responsabilidade, mas o fazem, sim, em busca de um prazer pessoal por vezes bastante mesquinho e atroz, já que baseado em larga medida no prazer perverso ou sádico do ódio à alteridade  que o fascismo possibilita que se expresse, dando-lhe o estatuto de legalidade e garantindo-lhe os louvores e as salvas-de-palmas do regime.

Estes temas ganharam uma nova ocasião para reflexão em 1940 quando chegou aos cinemas O Grande Ditador (The Great Dictator), de Charlie Chaplin, obra que é objeto de um dos mais interessantes ensaios de Orwell em O Que É Fascismo?. No filme, Chaplin interpreta dois personagens: Hynkel, o ditador da Tomânia, inspirado em Hitler; e um barbeiro judeu que se torna soldado durante a 1ª Guerra Mundial, sobrevive à queda de seu avião e é trancafiado num hospício por 20 anos. Ao sair do hospício, retornando à sua barbearia, este personagem não sabe dos horrores que estão sendo praticados por Hynkel em seu frenesi antisemita e imperialista.

Após uma série de peripécias, repletas de humor pastelão entremeado com as ocorrências do lodaçal bélico em que a Europa chafurdou, a semelhança física entre Hynkel e o pobre barbeiro oferece ocasião para uma das cenas mais célebres da história do cinema e “o grande momento do filme”:

“A invasão de Osterlich (a Áustria) está prestes a acontecer, e Charlie, que foi preso por resistir às tropas de choque, foge do campo de concentração num uniforme roubado bem no momento em que Hynkel está para cruzar a fronteira. Ele é confundido com o ditador e levado à capital do país conquistado em meio à multidões que o aclamam. O pequeno barbeiro judeu vê-se guindado a um enorme palanque, com cerradas fileiras de dignitários nazistas atrás dele e milhares de soldados abaixo, todos esperando para ouvir seu discurso triunfal. Em vez de proferir a solene fala que dele se espera, Charlie faz um poderoso e combativo discurso em prol da democracia, da tolerância e da decência. É realmente um tremendo pronunciamento, uma espécie de versão do discurso de Gettysburg de Lincoln num inglês de Hollywood, uma das mais fortes peças de propaganda que ouvi em muito tempo.

(…) Qual é o dom peculiar de Chaplin? É seu poder de representar uma espécie de essência concentrada do homem comum, a inerradicável crença na decência que existe no coração de pessoas normais, pelo menos no Ocidente. (…) Mais do que qualquer truque humorístico, assim creio, o poder de atração de Chaplin reside em sua capacidade de reiterar o fato, encoberto pelo fascismo e, muito ironicamente, pelo socialismo, de que vox populi é vox Dei, e que gigantes são uma praga. Não é de admirar que Hitler, a partir do momento em que chegou ao poder, tenha banido os filmes de Chaplin da Alemanha!” (p. 39)

CHARLIE CHAPLIN, O Grande Ditador

Discordo do tom um pouco populista que Orwell utiliza-se para falar que o “homem comum”, as “pessoas normais”, teriam uma “inerradicável crença na decência”: não se trata, aí, de idealização excessiva das classes populares, quando sabemos que existem cúmplices do fascismo em todas as classes e que muitos daqueles que eram funcionários em campos-de-concentração e apertavam botões para soltar o gás letal Zyklon B não eram de classes economicamente privilegiadas?

Ademais, Orwell tem certos arroubos anti-marxistas que parecem inacreditáveis de tão toscos, como quando ele diz que “uma educação no marxismo e em credos similares consiste grandemente em destruir o senso moral” (p. 39), algo que poderia ter sido escrito por algum reacionário direitista apoiador de C.C.C.s (Comando de Caça aos Comunistas). Este “socialista democrático” parecia descrente de qualquer possibilidade de construir uma sociedade onde a felicidade pudesse ser permanente – e boa parte dos artigos reunidos em O Que É Fascismo revelam a crítica orwelliana dos pensamentos e práticas dos utopistas:

“Todos os esforços para descrever uma felicidade permanente têm fracassado, desde a história mais primeva”, sugere Orwell, relembrando alguns intentos utópicos nas obras de H. G. Wells nos anos 1920 como The Dream e Men Like Gods. “Ali se tem uma imagem do mundo como Wells gostaria de vê-lo. É um mundo cujas tônicas são um hedonismo esclarecido e a curiosidade científica.Todos os demônios e todas as misérias que agora nos afligem desapareceram. Ignorância, guerra, pobreza, sujeira, doença, frustração, fome, medo, sobrecarga de trabalho, superstição – tudo desapareceu. Expresso dessa maneira, é impossível negar que é o tipo de mundo que todos nós queremos. Todos queremos abolir as coisas que Wells quer abolir. Mas será que existe alguém que realmente quer viver numa utopia wellsiana?

Ao contrário, não viver num mundo como esse, não acordar um dia num higiênico subúrbio-jardim infestado de rigorosas professorinhas nuas tem se tornado de fato uma consciente motivação política. Um livro como Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley é uma expressão do verdadeiro medo que o homem moderno sente da sociedade hedonista racionalizada que ele tem o poder de criar. Um escritor católico disse recentemente que, em termos técnicos, utopias são agora factíveis e que, por consequência, como evitar uma utopia tornou-se uma questão séria. Com o movimento fascista bem à nossa vista, não podemos descartar isso como se fosse uma mera e tola observação. Pois uma das fontes do movimento fascista é o desejo de evitar que se crie um mundo racional demais e confortável demais…” (ORWELL, 2017, p. 65).

A tentativa de construir uma sociedade perfeita pode acabar atingindo justamente o inverso: a instauração de uma distopia totalitária. Orwell insiste neste tema, comentando livros como o Nós de Zamyatin (pg. 141 a 146) e o Brave New World de Huxley, dizendo que a felicidade permanente de todos não é um objetivo factível, não é algo que possa ser de fato concretizado, é somente uma quimera inútil da qual ele pretende desenganar-nos:

“Quase todos os criadores de utopia se parecem com o homem que está com dor de dente e, por isso, pensa que a felicidade consiste em não ter dor de dente. Eles querem produzir uma sociedade perfeita mediante uma interminável continuação de algo que só foi valioso porque era temporário. Mais sábio seria dizer que há certas linhas ao longo das quais a humanidade tem de se movimentar, que a grande estratégia está mapeada, mas que profecia em detalhes não faz parte de nosso negócio. Quem quer que tente imaginar perfeição simplesmente revela seu próprio vazio.” (p. 72)

Orwell, portanto, está bem distante daquele dreamer evocado por Lennon em “Imagine”. O autor de 1984, vivendo em uma época histórica conturbada por conflagrações bélicas gigantescas, só podia mesmo enxergar com sarcasmo a proposta de que o ser humano chegaria um dia a constituir uma utopia sobre a face da Terra. Sua denúncia das realidades distópicas, porém, segue fornecendo alimento para nossa lucidez e permitindo-nos pensar em lutas necessárias e urgentes por um mundo menos pior. 

A perfeição, de fato, é inacessível, sonhá-la só nos trará desilusão. Trata-se de fazer com que tornem-se impossíveis os horrores e atrocidades que existem de fato nesta realidade em que convivemos e que muitas vezes nos faz pensar em James Joyce e sua frase lapidar: “a História é um pesadelo do qual estou tentando acordar”. Ao evocar um socialismo que é devotado à fraternidade humana, Orwell não fecha a porta à possibilidade de que esta fraternidade também possa manifestar-se como solidariedade no infortúnio, união na miséria, congregação coletiva que imperfeitamente improvisa o improvement de um mundo que, se nunca será perfeito, será sempre aperfeiçoável. Façamos juntos com que torne-se impossível aquilo que hoje é o mais horrível. E que esse seja nosso primeiro passo rumo a outro mundo possível.

Distopia que denuncia o totalitarismo, “1984” de George Orwell não era um manual de instruções…

“Durante parte de 1941-1942, quando a Luftwaffe estava ocupada com a Rússia, a rádio alemã brindou sua audiência com histórias de devastadores ataques aéreos a Londres. Hoje, estamos cientes de que esses ataques nunca aconteceram. Mas que uso teria esse nosso conhecimento se os alemães houvessem conquistado a Grã-Bretanha? Para os fins de um futuro historiador, esses bombardeios aconteceram ou não? A resposta é: se Hitler sobreviver, eles aconteceram; se ele cair, eles não aconteceram.

O mesmo ocorre com inúmeros outros eventos dos 10 ou 20 anos passados. Serão os Protocolos dos Sábios de Sião um documento autêntico? Será que Trótski tramou com os nazistas? Quantos aviões alemães foram abatidos na Batalha da Grã-Bretanha? A Europa dará as boas vindas à nova ordem? Em nenhum desses casos você obterá uma resposta que seja aceita universalmente por ser verdadeira: em cada caso você terá um número de respostas totalmente incompatíveis, uma das quias é por fim adotada como resultado de algum embate físico. A história é escrita pelos vencedores.

Em última análise, nossa única reivindicação de vitoriosos é que caso ganhemos a guerra contamos menos mentiras sobre ela do que nossos adversários. O que é realmente assustador quanto ao totalitarismo não é que ele cometa ‘atrocidades’, mas que agrida o conceito de verdade objetiva: ele proclama que controla o passado tão bem quanto o futuro.” (ORWELL, 2017, p. 77)

“O Que é Fascismo? E Outros Ensaios”
(Companhia das Letras, 2017, 160 pgs)
Compre por R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro)

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20 anos após a obra-prima da literatura contemporânea “O Deus Das Pequenas Coisas”, Arundhati Roy está de volta com o novo romance “O Ministério da Felicidade Absoluta” (Cia das Letras, 2017)

A literatura de Arundhati Roy está profundamente animada por seu ativismo e sempre em intensa dialogação com seus livros de teor político. Em vários momentos de suas histórias, o leitor depara-se com situações históricas que a escritora evoca com tintas fortes e dando a impressão de que escreve, como recomendava Nietzsche, usando como tinta o próprio sangue.

Momentos históricos vultuosos povoam os exuberantes caminhos da narrativa, altamente digressiva, que Arundhaty tece neste novo romance que, 20 anos após sua estréia como romancista, chega ao mundo com a responsabilidade de ser o sucessor de “O Deus Das Pequenas Coisas” (The God Of Small Things), uma das obras-primas máximas da literatura contemporânea.

Cito na sequência 3 trechos que revelam a capacidade impressionante de Arundhati Roy: não satisfeita com pinturas sociológicas complexas e dignas da pluralidade que é “a lei da terra” (Hannah Arendt), ela faz a mágica de tecer histórias a um só tempo altamente idiossincráticas e densas de historicidade.

O primeiro trecho (I) fala sobre o trauma de nascimento que rolou, em 1947, quando nasceram, em guerra, a Índia e o Paquistão como Estados separados; o segundo (II), rememora episódios do governo de Indira Gandhi e seu filho Sanjay em 1976; o terceiro (III), evoca o atentado em Nova York em 11 de Setembro de 2001 e o conecta habilmente aos massacres ocorridos posteriormente em Gujarat, onde centenas de pessoas foram massacradas numa onda de pogroms anti-muçulmanos que vieram na esteira da Guerra Contra o Terror capitaneada pelos EUA…

Com vocês, uma gênia viva da literatura indiana, fiel ao legado de Tagore e Ambedkar, novamente tomando de assalto o cenário literário com uma obra de intensa relevância:

I) “Então veio a Partição. A carótida de Deus explodiu na nova fronteira entre Índia e Paquistão e um milhão de pessoas morreu de ódio. Vizinhos se voltavam uns contra os outros como se não se conhecessem, nunca tivessem ido aos casamentos uns dos outros, nunca cantado as canções uns dos outros…” (p. 23)

(II) “O incidente ocorreu em 1976, no ápice da Emergência declarada por Indira Gandhi e que durou 21 meses. O mimado filho mais novo dela, Sanjay Gandhi, era líder do Congresso Jovem (a ala jovem do partido do poder), e de certa forma conduzia o país, tratando-o como se fosse um brinquedo seu. Suspenderam os Direitos Civis, jornais eram censurados e, em nome do controle populacional, milhares de homens (sobretudo muçulmanos) foram recolhidos a campos e esterilizados à força…” (p. 26)

(III) “Estava todo mundo reunido diante da TV, os rostos iluminados pelo tremeluzir da tela. Um avião comercial tinha se chocado com um alto edifício. Metade da aeronave ainda estava espetada para for, pendurada no ar como um precário brinquedo quebrado.Momentos depois, um segundo avião bateu num segundo edifício e se transformou em uma bola de fogo. (…) Pessoas minúsculas saltavam dos altos prédios e flutuavam como flocos de cinzas. Não era um filme, dizia o pessoal da televisão. Está acontecendo de verdade. Nos EUA. Numa cidade chamada Nova York… Zainab, que não estava familiarizada com os replays da televisão, contou 10 aviões caindo em cima de 10 edifícios.

Os aviões que se chocaram com os prédios altos nos Estados Unidos vieram como um bônus para muita gente na Índia. O primeiro-ministro poeta do país e diversos de seus ministros principais eram membros de uma antiga organização que acreditava que a Índia era essencialmente uma nação hindu e que, assim como o Paquistão havia se declarado uma república islâmica, a Índia devia declarar uma república hindu. Alguns de seus apoiadores e ideólogos admiravam abertamente Hitler e comparavam os muçulmanos da Índia aos judeus da Alemanha. Agora, de repente, como as hostilidades contra os muçulmanos tinham aumentado, começou a parecer para a Organização que o mundo inteiro a apoiava…” (p. 52 – 54)

LEIA MAIS: “O MINISTÉRIO DA FELICIDADE ABSOLUTA” (2017, 488 páginas), de Arundhati Roy – Lançamento da Companhia das Letras​, Tradução: José Rubens Siqueira. Comprar livro na Amazon.com.br.

SINOPSE – “Após exatos vinte anos longe da ficção, a autora do best-seller “O deus das pequenas coisas”, publicado em 42 idiomas com mais de 8 milhões de exemplares vendidos no mundo, volta ao romance com “O ministério da felicidade absoluta”. Pela emocionante história do jovem Aftab, que mais tarde se torna a bela Anjum, descortina-se uma Índia repleta de conflitos e beleza. Dos bairros sinuosos e pobres aos shoppings reluzentes de Delhi, passando pelas montanhas nevadas da Kashmira, onde guerra e paz se mesclam em ciclos de vida e morte, a vida de Anjum transcorre e, com ela, a história de um país. A um só tempo história de amor e protesto, este romance tem como heróis pessoas que foram destruídas pelo mundo no qual vivem e em seguida resgatadas por atos de amor e esperança. Dessa forma, por mais frágeis que pareçam ser, elas nunca se rendem. Aos entrelaçar vidas complexas, este romance arrebatador e profundamente humano reinventa o que um romance pode ser e fazer. E demonstra a cada página o talento de Roy para contar histórias.”

Saiba mais: https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=14329

LEIA NA IMPRENSA:

  • “Arundhati Roy returns to fiction after 20 years – but can she move on from The God of Small Things?” – NewStateman

Os Navios Negreiros e os Camburões – Heine, Machado de Assis, Phillis Wheatley, Jorge Ben, O Rappa, Rugendas, Di Cavalcanti

O trágico drama dos Navios Negreiros – a escravização massiva de seres humanos transformados em mercadorias, roubados de suas terras natais, separados a força de raízes e ossos-de-ancestrais, massacrados sob a opressão mais dura – ganhou boa parte de seu poder de comoção pela via das poesias de H. Heine e Castro Alves.

Sobre este tema, dentre tantos, os poetas demonstraram amplamente a intensa preciosidade que são pra Humanidade, despertando a golpes de versos e rimas as nossas sensibilidades e intelectos às vezes apáticos e indiferentes.

São poesias que nos acordam, subitamente, como se martelassem em nossas cucas com estrondosos ritmos e imagens exuberantes, a grandiosidade épica e os crimes atrozes descomunais que ocorreram durante os séculos de “tráfico negreiro” praticado pelo capitalismo imperialista europeu.

Abaixo, compartilhamos uma tradução do potente e altamente impertinente poema de Heine que inspirará alguns dos versos mais célebres da poesia brasileira, na pena de Castro Alves. Lê-los enche-nos lábios e línguas de um sabor de cinzas. Pegamo-nos dizendo: ainda bem que a escravidão foi abolida, decerto; mas ainda mal andam das pernas as nossas supostas “democracias raciais”, no fundo ainda incapazes de construir algo realmente dessemelhante à escravatura…

O capitalismo atual ainda possui vários traços herdados de seu pseudo-passado escravocrata, e dele estamos longe de ter-nos livrado. Um exemplo é revelado pelo documentário Sangue No Celular, ou Blood on the Mobile, de Frank Poulsen, mostra os vínculos entre uma mercadoria campeã de vendas na economia global, o telefone celular, e a escravidão contemporânea. Os celulares de Nokias e Motorolas que carregamos nos bolsos, e que às vezes até podemos utilizar para conspirar revoluções e insurreições via Fêice e Zap, necessitam em sua confecção de certos minérios que as crianças escravizadas no Congo são responsáveis por coletar em jornadas de trabalho tenebrosas, atrozes. São neo-escravos nas minas de espoliação e exploração dos novos senhores de engenho e capEtões da mineração na Aldeia Global, ainda (mais que nunca!) tão desigual…

Diante da abolição da escravidão – escreve Machado de Assis em Memorial de Aires em 1908 – ele “sentiu grande prazer”: “Ainda bem que acabamos com isso. Era tempo.” Porém Machado destaca que a experiência histórica da escravidão é algo que deixa marca indelével e estigmas múltiplos sobre a carne do Brasil:

“Embora queimemos todas as leis, decretos e avisos, não poderemos acabar com os atos particulares, escrituras e inventários, nem apagar a instituição da história, ou até da poesia. A poesia falará dela, particularmente naqueles versos de Heine, em que o nosso nome está perpétuo. Neles conta o capitão do navio negreiro haver deixado 300 (trezentos) negros no Rio de Janeiro, onde a casa Gonçalves Pereira lhe pagou cem ducados por peça.” (MACHADO DE ASSIS, Via André Vallias, Heine Quem?, p. 383)

Seguem os fortes versos de Heine, um dos autores prediletos de Machado, Borges, Nietzsche, Marx, Castro Alves (dentre outros ilustres fãs):

O sobrecarga Mynheer van Koek
Calcula no seu camarote
As rendas prováveis da carga,
Lucro e perda em cada lote.

“Borracha, pimenta, marfim
E ouro em pó… Resumindo, eu digo:
Mercadoria não me falta,
Mas negro é o melhor artigo.

Seiscentas peças barganhei
— Que pechincha! — no Senegal;
A carne é rija, os músculos de aço,
Boa liga do melhor metal.

Em troca dei só aguardente,
Contas, latão — um peso morto!
Eu ganho oitocentos por cento
Se a metade chegar ao porto.

Se chegarem trezentos negros
Ao porto do Rio Janeiro,
Pagará cem ducados por peça
A casa Gonzales Perreiro.”

De súbito, Mynheer van Koek
Voltou-se, ao ouvir um rumor;
É o cirurgião de bordo que entra,
É van der Smissen, o doutor.

Que focinheira verrugenta!
Que magreza desengonçada!
“E então, seo doutor, diz van Koek,
Como vai a minha negrada?’

Depois dos rapapés, o médico,
Sem mais prolilóquios, relatando:
“A contar desta noite, observa,
Os óbitos vêm aumentando.

Em média eram só dois por dia,
Mas hoje faleceram sete:
Quatro machos, três fêmeas, perda
Que arrolei no meu balancete.

Examinei logo os cadáveres,
Pois o negro desatinado
Se finge de morto, esperando,
Lançado ao mar, fugir a nado!

Seguindo à risca as instruções,
Ao primeiro clarear da aurora,
Mandei retirar os grilhões
E — carga ao mar! — sem mais demora.

Os tubarões, meus pensionistas,
Acudiram todos, em bando.
Carne de negro é manjar fino
Que aparece de vez em quando.

Mal nos afastamos da costa,
Rastreiam o barco, na esteira,
Farejando de muito longe
Os eflúvios da pestiqueira.

Edificante é o espetáculo,
Pois o tubarão narigudo
Não escolhe cabeça ou perna
E abocanha, devora tudo!

Como se opíparo banquete
Fosse um simples aperitivo,
Põe-se a rondar, pedindo mais,
Sempre à espreita e de olho vivo!”

Mas o inquieto van Koek lhe corta
O relato em meio… Como há de
Remediar-se a perda, pergunta,
Combatendo a letalidade?

Responde o doutor: “Natural
É a causa; os negros encerrados,
A catinga, a inhaca, o bodum
Deixam os ares empestados.

Muitos, além disso, definham
De banzo ou de melancolia;
São males que talvez se curem
Com dança, música e folia.”

“O conselho é de mestre!”, exclama
Van Koek. O preclaro doutor
É perspicaz como Aristóteles,
Que de Alexandre era mentor!

Eu, presidente dos Amigos
Da Tulipa em Delft, declaro
Que, embora sabido, ao seu lado,
Não passo de aprendiz, meu caro.

Música! Música! A negrada
Suba logo para o convés!
Por gosto ou ao som da chibata
Batucará no bate-pés!”

O céu estrelado é mais nítido
Lá na translucidez da altura.
Há um espreitar de olhos curiosos
Em cada estrela que fulgura.

Eles vieram ver de mais perto
No mar alto, de quando em quando,
O fosforear das ardentias,
Quebra a onda, em marulho brando.

Atrita a rabeca o piloto,
Sopra na flauta o cozinheiro,
Zabumba o grumete no bombo
E o cirugião é o corneteiro.

A negrada, machos e fêmeas,
Aos pulos, aos gritos, aos trancos,
Gira e regira: a cada passo,
Os grilhões ritmam os arrancos

E saltam, volteiam com fúria incontida,
Mais de uma linda cativa
Lúbrica, enlaça o par desnudo —
Há gemidos, na roda vida.

O beleguim é o maitres des plaisirs,
É ele quem manda e desmanda;
Instiga o remisso a vergalho
E rege a grito a sarabanda.

E taratatá e denrendendém!
O saracoteio insano
Desperta os monstros que dormem nas ondas
Ao profundo embalo do oceano.

Tubarões, ainda tontos de sono,
Vêm vindo, de todos os lados;
Querem ver, querem ver para crer,
Estão de olhos arregalados.

Mas percebem que o desjejum
Longe está e logo, impacientes,
Num bocejo de tédio e fome
Arreganham a serra dos dentes.

E taratatá e denrendendém!
Não tem fim a coréia estranha.
Mais de um tubarão esfaimado
Sua própria cauda abocanha.

Eles não querem saber de música
Como outros do mesmo jaez.
“Desconfia de quem não gosta
De música”, disse o poeta inglês.

E denrendenrém e taratá —
A estranha festança não tem fim.
No mastro do traquete, van Koek,
De mãos postas, rezava assim:

“Meu Deus, conserva os meus negros,
Poupa-lhes a vida, sem mais!
Pecaram, Senhor, mas considera
Que afinal não passam de animais.

Poupa-lhes a vida, pensa no teu Filho,
Que ele por todos nós sacrificou-se!
Pois, se não me sobrarem trezentas peças,
Meu rico negocinho acabou-se!”

HEINRICH HEINE (1797 – 1856),
Navio Negreiro
1843
Tradução: Augusto Meyer

Rugendas, 1830

 

DiCavalcanti

 


 

INTERLÚDIO PICTÓRICO-MUSICAL

O Rappa – “Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro”

“Tudo começou quando a gente conversava
Naquela esquina alí
De frente àquela praça
Veio os homens
E nos pararam
Documento por favor
Então a gente apresentou
Mas eles não paravam
Qual é negão? qual é negão?
O que que tá pegando?
Qual é negão? qual é negão?

É mole de ver
Que em qualquer dura
O tempo passa mais lento pro negão
Quem segurava com força a chibata
Agora usa farda
Engatilha a macaca
Escolhe sempre o primeiro
Negro pra passar na revista
Pra passar na revista

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro

É mole de ver
Que para o negro
Mesmo a AIDS possui hierarquia
Na África a doença corre solta
E a imprensa mundial
Dispensa poucas linhas
Comparado, comparado
Ao que faz com qualquer
Figurinha do cinema
Comparado, comparado
Ao que faz com qualquer
Figurinha do cinema
Ou das colunas sociais

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro…”


LEIA TAMBÉM:

A poesia de Phillis Wheatley (1753-1784), “mulher-escritora-negra-desenraizada” que protagonizou um emblemático julgamento no Século das Luzes

“Uma negra pode ser poeta?” Com esta questão, ofensiva e racista em si mesma, Eleni Varikas inicia em chave irônica seu livro “A Escória do Mundo – Figuras do Pária” (Editora Unesp, 2014), evocando os versos impactantes e profundos de uma emblemática “mulher, escritora, negra, desenraizada”, trazida à força da África para a América, onde sofreu em Boston o destino de escrava doméstica. De sua pena saíram versos como os seguintes:

“Should you, my lord, while you peruse my song,
Wonder from whence my love of Freedom sprung,
Whence flow these wishes for the common good,
By feeling hearts alone best understood,

I, young in life, by seeming cruel fate
Was snatch’d from Afric’s fancy’d happy seat:
What pangs excruciating must molest,
What sorrows labour in my parent’s breast?

Steel’d was that soul and by no misery mov’d
That from a father seiz’d his babe belov’d:
Such, such my case. And can I then but pray
Others may never feel tyrannic sway?”

(Leia na íntegra em Poetry Fundation: http://bit.ly/2dOHSK2.)

(TRADUÇÃO: Se, Milorde, ao ler meus versos / Se indagar com surpresa sobre a origem de meu amor pela Liberdade, / De onde fluem meus anseios pelo bem comum, / Apenas compreensível pelos corações sensíveis, / Eu, ainda jovem, por destino cruel / Fui arrancada de minha querida África: / Que dores excruciantes torturaram, / Que tristezas acometeram o coração de meus pais? / Petrificada a alma, intocada pela piedade, / Daquele que subtrai de um pai sua criança amada: / É este, é este meu caso. E o que posso fazer senão rezar / Que outros nunca sejam submetidos a esse domínio tirânico?)

Phillis Wheatley chegou à América em um navio vindo do Senegal e Serra Leoa, desembarcado em Boston em julho de 1761; ela tinha cerca de 7 anos de idade e foi comprada por uma senhora que precisava de uma escrava doméstica. Nua e envolta em trapos sujos, com dentes faltando, ninguém sabia o nome da criatura. Acabou batizada com o nome do navio negreiro (Phillis) e o sobrenome de seus patrões (Wheatley).

“Na casa dos seus senhores, aprendeu inglês muito rapidamente. Um ano e meio após sua chegada, lia e comentava as passagens mais difíceis da Bíblia. Com 12 anos, tinha escrito seu primeiro poema…” (Varikas, p. 2) Corte para o tribunal de Boston onde Phiilis Wheatley, em 1772, é submetida a um “exame oral insólito”, por 18 juízes, em que a “jovem escrava de 19 anos, franzina e tímida”,

“carregava em seus ombros a responsabilidade de ‘provar’ diante dos mais eminentes representantes da cultura – e dos europeus que acompanhavam o caso com interesse acalorado – a racionalidade dos negros e sua capacidade de aceder à escrita literária. Na realidade, o que estava em jogo nessa audiência não era a autenticação de um manuscrito, mas a autenticação da humanidade plena de todo o povo negro e, por isso mesmo, a legitimidade da abolição da escravidão. Porque, como disse Robert Nickol em 1788, nunca se ouviu falar de um orangotango que tivesse composto uma ode.

O atestado do júri confirmou ‘ao mundo’ que os poemas haviam sido de fato escritos por ‘uma negra’ que, pouco tempo antes, ainda era uma ‘bárbara sem cultura’ vinda da África. Wheatley tornou-se, assim, a primeira pessoa de origem africana a publicar um livro, e a primeira poetisa negra norte-americana.” (Varikas, p. 3)

Abrindo caminhos que depois seriam trilhados por outras mulheres escritoras, em insurgência contra o machismo e o racismo do Patriarcado escravista hegemônico, Wheatley foi celebrada com entusiasmo por abolicionistas de vários continentes. Sua obra completa – Complete Writings – hoje faz parte da prestigiosa coleção Penguin Classics. E não é absurdo dizer que as raízes do reconhecimento literário contemporâneo de autoras afroamericanas como Toni Morrisson (vencedora do Prêmio Nobel de Literatura), Alice Walker (autora de “A Cor Púrpura”), Angela Davis (hoje respeitada socióloga e pensadora da geopolítica), estão lá na obra de Phillis Wheatley, destino diante do qual Eleni Varikas pergunta: “que relato das Luzes poderia dar conta dos feitos dessa criança ‘prodígio’, sem ocultar a violenta desumanização que marcou sua elevação ao patamar de humanidade pensante?” (Varikas, p. 5)

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“There is No Hierarchy of Oppression” – by Audre Lorde
Read by: Lauren Lyons

“I was born Black, and a woman. I am trying to become the strongest person I can become to live the life I have been given and to help effect change toward a liveable future for this earth and for my children. As a Black, lesbian, feminist, socialist, poet, mother of two including one boy and a member of an interracial couple, I usually find myself part of some group in which the majority defines me as deviant, difficult, inferior or just plain “wrong.”

From my membership in all of these groups I have learned that oppression and the intolerance of difference come in all shapes and sexes and colors and sexualities; and that among those of us who share the goals of liberation and a workable future for our children, there can be no hierarchies of oppression. I have learned that sexism and heterosexism both arise from the same source as racism.

“Oh,” says a voice from the Black community, “but being Black is NORMAL!” Well, I and many Black people of my age can remember grimly the days when it didn’t used to be!

I simply do not believe that one aspect of myself can possibly profit from the oppression of any other part of my identity. I know that my people cannot possibly profit from the oppression of any other group which seeks the right to peaceful existence. Rather, we diminish ourselves by denying to others what we have shed blood to obtain for our children. And those children need to learn that they do not have to become like each other in order to work together for a future they will all share.

Within the lesbian community I am Black, and within the Black community I am a lesbian. Any attack against Black people is a lesbian and gay issue, because I and thousands of other Black women are part of the lesbian community. Any attack against lesbians and gays is a Black issue, because thousands of lesbians and gay men are Black. There is no hierarchy of oppression.

I cannot afford the luxury of fighting one form of oppression only. I cannot afford to believe that freedom from intolerance is the right of only one particular group. And I cannot afford to choose between the fronts upon which I must battle these forces of discrimination, wherever they appear to destroy me. And when they appear to destroy me, it will not be long before they appear to destroy you.”

 

I AM NOT YOUR NEGRO
A film about James Baldwin (1924-87)‘s life and work

A COUPLE OF MEMORABLE QUOTES:

“Not everything that is faced can be changed, but nothing can be changed until it is faced.”

“Freedom is not something that anybody can be given. Freedom is something people take, and people are as free as they want to be.”

“Life is tragic simply because the earth turns and the sun inexorably rises and sets, and one day, for each of us, the sun will go down for the last, last time. Perhaps the whole root of our trouble, the human trouble, is that we will sacrifice all the beauty of our lives, will imprison ourselves in totems, taboos, crosses, blood sacrifices, steeples, mosques, races, armies, flags, nations, in order to deny the fact of death, the only fact we have. It seems to me that one ought to rejoice in the fact of death–ought to decide, indeed, to earn one’s death by confronting with passion the conundrum of life. One is responsible for life: It is the small beacon in that terrifying darkness from which we come and to which we shall return.” ― In: “The Fire Next Time”


Historic debate between James Baldwin vs. William F. Buckley Jr., in 1965, at Cambridge University on the question: “Is the American Dream at the expense of the American Negro?”


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O ATLÂNTICO NEGRO, JUIZ DA MODERNIDADE