FARDOS E PRÊMIOS DA SOLIDARIEDADE INTERNACIONALISTA: Cuba acolhe os doentes de Chernobil no filme “O Tradutor” (2018)

OS FARDOS E PRÊMIOS DA SOLIDARIEDADE INTERNACIONALISTA

por Eduardo Carli de Moraes – #CinephiliaCompulsiva @ A Casa de Vidro

O desastre na usina nuclear de Chernobil, no norte da Ucrânia (então pertencente à URSS), no ano de 1986, foi tema d’uma mini-série lançada em 2019 pela HBO e d’um livro da vencedora do Nobel de Literatura Svetlana Alexiévich.

Cerca de 25.000 pessoas, que tiveram graves impactos na saúde ao serem expostas à radiação, foram acolhidas em Cuba para tratamentos médicos gratuitos através de um programa de parceria, criado por Fidel Castro, que se estendeu até o ano de 2011 (reportagens sobre o tema podem ser acessadas em UOL, O Globo, Revista Fórum, Granma etc).

O Ministério da Saúde de Cuba estima que 21.378 crianças, atingidos pela hecatombe nuclear, que receberam cuidados médicos e amparo psicológico na Ilha – que se notabilizou, sobretudo após a revolução comunista de 1959, pela construção de um dos melhores sistemas públicos de saúde do planeta.

Médica cubana posa com uma das chamadas “crianças de Chernobil”, em foto dos Anos 90. Fonte: Revista Fórum.

Em circunstâncias históricas de crise humanitária, Havana acolheu como pôde os doentes de Chernobil, mostrando na prática o que significa o conceito, que muitos permitem que seja apenas teórico (ou nem isso…), de solidariedade internacionalista: “(Este programa) é um exemplo do que pode fazer um povo que, sem ter grandes riquezas materiais, tem a grande riqueza espiritual de haver-se educado na solidariedade”, disse o ministro de Saúde cubano, José Ramón Balaguer, durante cerimônia do projeto em Tarara, a 20 quilômetros de Havana. [O GLOBO]

Ator Rodrigo Santoro e os irmãos que dirigem este filme baseado na trajetória dos próprios pais.

No filme “O Tradutor” (2018), co-produção Cuba-Canadá, realizado pelos irmãos Rodrigo e Sebastián Barriuso, os cineastas contam a história dos próprios pais, Malin e Isona, no fim dos anos 1980. Malin – interpretado por Rodrigo Santoro (Bicho de Sete Cabeças) – é um professor de literatura russa de uma universidade de Havana que assume a responsabilidade de ser tradutor na ala infantil de um hospital que atende crianças adoentadas devido à hecatombe ucraniana. Já sua esposa Isona – interpretada por Yoandra Suárez – é uma curadora de arte, merchant de pinturas, que está grávida do segundo filho do casal. As duas crianças da família – a já nascida e aquela ainda em gestação – crescerão para se tornarem os diretores do filme que o espectador assiste.

O casal, durante o filme, tem vários problemas de incompreensão mútua e de conflitos conjugais que parecem devidos à dificuldade que cada qual tem de traduzir para o companheiro os sentimentos vivenciados em seu respectivo trabalho. Malin está imerso num ofício que, além de novo para ele (como avançar em um território inexplorado e sem mapas prévios), é tremendamente angustiante, doloroso, saturado com a angústia dos pais à beira da cama de seus filhos doentes, alguns agonizantes.

Ao servir de intermediário entre médicos e enfermeiras cubanas, de um lado, e as vítimas ucranianas e russas que batalham contra o câncer e a leucemia, de outro, ele é incapaz de simplesmente fazer o seu serviço como um “técnico” da linguagem. É-lhe impossível a frieza maquínica do Google Tradutor.

O envolvimento afetivo é incontornável, e logo Malin está dominado pela empatia. Acaba servindo também como contista que traduz contos populares cubanos na linguagem das crianças estrangeiras, sendo uma espécie de agente de intercâmbio intercultural. Acaba investindo também numa espécie de arte-terapia, em que incentiva a expressão mirim através de desenhos e poemas. Sem nenhum conhecimento sobre os trabalhos pioneiros de figuras como Nise da Silveira, aplica, a seu modo, a noção de uma terapia pela arte que ajude aquelas crianças a atravessem o inferno na terra que lhes foi dado viver sem que o tenham escolhido.


De tom melancólico, fugindo do melodrama exagerado, o filme foca suas atenções na dureza da lida cotidiana deste tradutor que subitamente se vê lançado a situações que antes não imaginava: ele estava acostumado à cátedra universitária, às suas aulas sobre autores como Gógol e Tolstói, e de súbito uma crise humanitária em outra parte do globo o faz envolver-se com os destinos sofridos dos atingidos pelo desastre nuclear.

Na medida do seu possível, ele fornece sua ajuda amiga – enquanto médicos e enfermeiras administram morfinas, realizam cirurgias ou drenam pulmões, ele também realiza o trabalho importante da comunicação e da construção do sentido. Envolver aquelas crianças num ambiente onde a narratividade e a expressividade são incentivadas é um modo que ele encontra para tentar evitar que todos naufraguem no horrendo abismo do sem-sentido, do absurdo, do “em vão”.

A situação matrimonial de Malin e Isona não é muito harmônica ou satisfatória no decorrer do filme, e isto talvez por um abismo que há entre eles: Malin, que em seu trabalho exercita seus dons de tradutor, indo do russo ao castelhano e vice-versa, parece pouco capaz de traduzir para a esposa as vivências e os afetos que tem vivenciado no hospital, inclusive o luto pelas crianças com quem conviveu e que não sobreviveram.

É só mais para o fim do filme, quando a esposa Isona vai ao hospital e encontra um mural repleto de desenhos da criançada, que ela de fato percebe a densidade das vivências que Malin, no cotidiano doméstico, tratava como incomunicáveis. Há algo mesmo de inefável no sofrimento humano excessivo, sobretudo quando atinge crianças e quando nos dá a clara sensação de ser um sofrimento imerecido.

As crianças da nação euroasiática danificadas pela catástrofe nuclear desfrutam da praia de Tarará como parte de sua reabilitação. Foto: Pedro Beruvides. Fonte: Granma.

Na crítica do Trem do Hype, destaca-se ainda que

“em pleno final dos anos 80, Cuba viveu uma profunda crise social e política. O governo do líder Mikhail Gorbatchev começou a entrar em colapso, com Gorbatchev defendendo o liberalismo econômico na URSS como a única solução para os graves problemas econômicos e sociais. Dessa maneira, as reformas inseridas (chamadas perestroika e glasnost) tiveram o objetivo de traçar caminhos para mudanças estruturais na economia, mas funcionavam como uma crítica aberta ao regime soviético. Logo, o declínio do comunismo provocou uma crise financeira que atingiu toda a população, alterando a vida e rotina das famílias. E dentro disso, o país ainda precisou lidar com as consequências do acidente nuclear de Chernobyl, uma das maiores catástrofes mundiais. Nesse contexto sócio-político que acompanhamos a trama de ‘O Tradutor’.”

De fato, estamos em uma Cuba afetada pela conjuntura internacional, onde há escassez de combustível – os postos fechados exibem cartazes que avisam “no hay gasolina”. Na TV chegam imagens do colapso do Muro de Berlim no início do processo de re-unificação da Alemanha. O ocaso da União Soviética afeta diretamente a realidade cubana, lançando nubladas nuvens de incerteza ao horizonte.

É neste contexto que “O Tradutor”, filme contido, triste, de “temperatura” afetiva tendendo para os tons frios, tem algo de belo e valioso a ensinar: para Malin, o seu trabalho cotidiano não é uma delícia, um deleite, uma festa, mas sim um ofício vivido como duro fardo, difícil de carregar, que pesa em seus ombros. Mas que também tem seus prêmios – colhidos não em ganhos financeiros, mas no que eu chamaria de sabedoria afetiva.

Apesar dos pesares de seu trampo, que é dureza braba e emocionalmente extenuante, Malin é guiado por uma espécie de farol ético que lhe indica seu deve-ser: em uma época marcada pela crise humanitária severa de Chernobil, em que a União Soviética vivia seus estertores e a revolução cubana via-se também ameaçada com a queda do bloco socialista a ela aliado, a solidariedade internacionalista ganha outro sentido. Outra premência. Outro senso de urgência.

Por isso eu diria que o filme fala sobre os fardos e os prêmios de uma solidariedade internacionalista que tem a ver com o compartilhamento de uma tragédia. Uma solidariedade difícil, pesada, que obriga à melancolia e à coragem. Seria muito mais fácil para Malin abandonar-se ao conforto comum do egoísmo; ele, no entanto, escolhe a rota mais difícil, que é a de oferecer os ombros para que outros depositem ali uma parte de seus fardos.

Em artigo sobre o filme, Lisandra Detulio, do site Vertentes do Cinema, enxergou similaridades com “Patch Adams – O Amor é Contagioso”, de Tom Shadyac, e afirmou que “Un Tradutor” é “um filme que busca nos humanizar pela delicadeza”.

De fato delicado e humanizador, o filme também tem importância pedagógica e educativa para os brasileiros. Assistir ao filme em 2020 inevitavelmente fez com que eu me lembrasse de toda a indelicadeza e desumanidade do “Seu Jair”, que em uma de suas primeiras medidas enquanto presidente do Brasil cometeu a atrocidade estúpida de expulsar os médicos cubanos que aqui desenvolviam seus trabalhos, levando cuidados médicos à população que habita em rincões que os médicos brasileiros, formados em uma cultura elitista e aristocrática, não aceitam trabalhar.

Por Vitor Teixeira

A delicadeza do filme, seu clima de empatia (mesmo que dolorida) e de solidariedade (ainda que pesada), contrasta de modo radical com a atrocidade perversa que constitui o cerne da doença coletiva do Bolsonarismo. De modo doentio e desumano, um sujeito infectado por Bolsonarismo é capaz de agir na cegueira sectária mais brutal, como fez o próprio “führer” da seita, a ponto de condenar milhares de brasileiros à ficarem desassistidos e abandonados, chutando a bunda dos profissionais cubanos que foram educados em uma cultura da solidariedade internacionalista (e que aqui a praticavam), como se não passassem de cães pulguentos.

O documentarista e ativista Michael Moore, em seu filme Sicko, já alertou sobre os horrores de um sistema econômico que privilegia as privatizações do que antes eram serviços públicos: nos EUA, a saúde não é direito, mas privilégio acessível por aqueles que puderem pagar por ela (apesar dos esforços de Obama, através do programa Obamacare, os States ainda possuem um sistema de saúde dominado por interesses corporativos e cego aos direitos humanos fundamentais). No Brasil, o estrupício que nos desgoverna desde 2018, com a rasidão de pensamento e a secura de coração que lhe é característica, dentre centenas de exemplos que já deu de sua execrável incapacidade para o discernimento ético e sua completa ausência de empatia, chegou a fazer pose com uma camiseta onde se lia que “direitos humanos são o esterco da vagabundagem”.

Um macho tóxico, racista e elitista, defensor de torturadores e milicianos, sendo sem pudores um escrotildo sorridente em um Tweet de seu filhão Carlos, um dos filhinhos-de-papai que enriqueceu pelas vias sórdidas do nepotismo.

No começo de 2020, o Coiso voltou a cagar pela boca e usar nosso ouvido como privada. Relincha de novo a besta quadrada: o presifake, acostumado a mentir, agora tenta justificar a expulsão dos médicos cubanos do Brasil a partir da lorota absurda de que “havia um montão de terrorista” entre eles. Não é só uma mentira, é uma estupidez. Ao invés de governar, o energúmeno distribui ofensas e coices contra profissionais da saúde que aqui estavam nos ajudando e exercendo a solidariedade internacionalista que é valor basilar da revolução cubana.

As lamentáveis desumanidades perversas de Bolsonaros e Bolsominions – que implicam também o colapso no financiamento do SUS e o aparelhamento do Ministério da Saúde por lobbystas favoráveis aos conglomerados corporativos como a Unimed (o Ministro Mandetta que o diga!) – precisam ser curadas também pela arte. E “O Tradutor” funciona sim, para aqueles que souberem se deixar emocionar e esclarecer por ele, como antídoto contra a queda-sem-fim-no-sadismo que define a seita dos bestificados patriotários que se prestam a serem os imprestáveis seguidores do pseudo-mito.


Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 05/01/2020

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Maiakóvski: O Poeta da Revolução

maiakóvski

CORAÇÃO EM CHAMAS

Reflexões sobre vida e obra de um dos mais importantes poetas do século 20, Vladimir Maialóvski (1893–1930)

mikhailovEle foi um dos mais magis­trais reno­va­do­res da poe­sia no século 20 e um dos mais bri­lhan­tes porta-vozes da Revolução Russa, que abra­çou com ardor e lou­vou em ver­sos imor­tais. Vladimir Maiakóvski (1893–1930) só pre­ci­sou de 37 anos de vida para incen­diar o mundo como um coque­tel molo­tov humano. Explodiu sol­tando cha­mas de lirismo e rebel­dia que ainda hoje con­ti­nuam a arder. O lei­tor bra­si­leiro agora tem a chance de mer­gu­lhar em sua vida através da bio­gra­fia O Poeta da Revolução, de Mikhailov (Ed. Record, 560 pgs).

“A vida de Maiakovski se desen­vol­veu num período de entu­si­asmo irrefreável, de crença plena no futuro, herança da ide­o­lo­gia do pro­gresso cul­ti­vada durante todo o século 19”, comenta Alexei Bueno no pre­fá­cio. Poeta revol­tado, agres­sivo e infla­mado, Maiakóvski segu­rava a caneta como se fosse uma metra­lha­dora. Seus ini­mi­gos? Muitos: a explo­ra­ção ope­rá­ria, a arte desen­ga­jada, os hábi­tos pequeno-burgueses, os últi­mos ester­to­res do cza­rismo, a alvo­rada som­bria da buro­cra­cia totalitária.

Maiakovski foi uma personalidade controversa, provocativa, extremada. Testemunhas oculares chegaram a descrever seu surgimento assim: “como se um hipopótamo chegasse numa loja de louças e aprontasse excessos messiânicos…” (Kniazev). Roberto Goldkrin, no prefácio de Como Fazer Versos, o descreve como “um ser contraditório e fascinante, que ao mesmo tempo que destronou a poesia e o poeta do alto de um Olimpo elitista e classicizante, elevou-se a dimensões aquém dos formulários e especificações do fabricante”. Já Boris Schaiderman, professor de língua russa na USP e autor de A Poética de Maiakovski, descreve-o como uma criatura “vibrante e polêmica, toda agressividade e ímpeto”. E o próprio poeta descrevia-se como alguém em quem a anatomia enlouqueceu:

“nos demais – eu sei,
qualquer um o sabe –
o coração tem domicílio
no peito.
comigo
a anatomia ficou louca.
sou todo coração –
em todas as partes palpita.”

maiaSeja à frente da vanguarda futurista, trabalhando em revistas de esquerda, fazendo propaganda para o Estado ou se derramando em efusões líricas, Maiakovski se entregava a tudo com extrema intensidade. “Na força e na fraqueza, ele surgiu como um homem que se entregava a tudo de corpo e alma. A nenhuma idéia, a nenhum trabalho ele se dava pela metade”, diz Alexei Bueno.

Poeta das mas­sas, aban­do­nou a torre de mar­fim para des­cer ao meio das tur­bu­lên­cias soci­ais. “É neces­sá­rio par­tir em mil peda­ços a fábula da arte apo­lí­tica!”, recla­mava. Maiakóvski escre­via sem­pre cen­trando fogo na trans­for­ma­ção con­creta da vida das mul­ti­dões. Para ele, a poe­sia não é menos bela por ser útil. “O poeta incita à rebe­lião e está pronto para mar­char na pri­meira fileira dos rebel­des”, des­taca Bueno. O pró­prio poeta reconhecia-se como um perigo à ordem cons­ti­tuída: “O nariz capi­ta­lista fare­java em nós a dina­mite”, escre­veu. Em vários poe­mas incita à insur­rei­ção: “Retirem as mãos vaga­bun­das das calças/ Peguem a pedra, a faca ou a bomba / E aquele que não pos­sui mãos / Venha e lute com a testa!”

“Maiakovski transfere toda a força de negação para a sociedade burguesa. Nela vê o mal que degrada a moral e a própria idéia da arte”, comenta Mikhailov. “O ‘abaixo!’ de Maiakovski era um gesto característico do russo rebelde, estivesse ele pegando em machado, em tocha ardente de incendiário, ou em bomba caseira – e expressava sua prontidão de ir para a batalha e morrer.”

Quando os bolcheviques concretizam sua “grande heresia” e tomam o poder, Maiakovski aplaude com entusiasmo e se entrega ao posto de poeta da revolução, engajadíssimo em fazê-la perseverar e vencer. “Ao encontro de Outubro de 1917, Maiakovski caminhou de peito aberto”, comenta Mikhailov, “pois não assumira, como significativa parte da intelectualidade russa, compromisso com as tradições e outras ligações com a velha cultura. Por isso, quando aconteceu a Revolução, pôde com toda sinceridade dizer: ‘A minha revolução’.”

Liderando a van­guarda futu­rista, Maiakóvski e seus com­pa­nhei­ros colo­ca­ram em ebu­li­ção a cul­tura russa. O escân­dalo foi enorme. Foram acu­sa­dos de terem uma rela­ção nii­lista com a cul­tura clás­sica, de não pos­suí­rem uma base teó­rica sólida ou de serem meros arru­a­cei­ros. O mani­festo futu­rista era mesmo extre­mista e man­dava “ati­rar fora Puchkin, Dostoievski e Tolstoi do Navio da Modernidade!” Burliuk, um dos líde­res do movi­mento, se jus­ti­fi­cava dizendo: “Não dese­ja­mos virar para trás nos­sas cabe­ças, que­brar nos­sas vér­te­bras cer­vi­cais para olhar a poe­sia com a naf­ta­lina dos perversos!”

Apesar das idéias des­tru­ti­vas em rela­ção à herança cul­tu­ral, Maiakóvski era um grande conhe­ce­dor da lite­ra­tura clás­sica. “Ele ouvia a voz viva dos clás­si­cos, mas negava as impo­si­ções dos seus câno­nes para a arte do seu tempo”, sugere Mikhailov. Ou, como o pró­prio Maia dizia: “Eu vos amo, mas vivos, não como múmias.”

leninEsse poeta de cora­ção ardente e impa­ci­ente não pode­ria durar muito e virar uma das “velha­rias” que tanta ener­gia pôs em com­ba­ter. “Não tenho nenhum fio gri­sa­lho em minha alma!”, escre­veu. Quando deu um tiro no peito, em 1930, pôs um san­grento ponto final em um des­tino trá­gico e fas­ci­nante. 150 mil pessoas passaram na frente de seu caixão nos 3 dias em que ele ficou exposto. A União Soviética chorava a morte precoce de um de seus maiores poetas. Sua vida e obra per­ma­nece um emblema deste que foi um dos mais impor­tan­tes acon­te­ci­men­tos his­tó­ri­cos do século 20: a Revolução Russa.

Da bio­gra­fia de Mikhailov conclui-se que den­tro da alma de Maiakóvski desenhou-se uma con­tra­di­ção cruel entre a uto­pia e a decep­ção. De um lado, uma vida inteira dedi­cada à Revolução, à gló­ria de Lênin e ao enga­ja­mento na cons­tru­ção do soci­a­lismo. De outro, o sur­gi­mento do espec­tro do sta­li­nismo, que tra­zia a dita­dura, a buro­cra­cia e o eclipse do sonho. Dividido entre os ver­sos de lou­vor às con­quis­tas revo­lu­ci­o­ná­rios e as sáti­ras ácidas con­tra as ano­ma­lias do novo poder, Maiakóvski viu-se ras­gado entre o entu­si­asmo da entrega total a uma uto­pia e a tra­gé­dia da perda do ideal.

Nos seus últimos anos de vida, Maiakovski parece ter chegado a uma cruel encruzilhada – ele que sempre as enfrentou de peito aberto e palavras em punho. Mikhailov, em sua biografia, arrisca uma especulação magistral a respeito das frustrações de Maiakovski:

maiacartaz

Cartaz de Maiakóvski onde se lê: “Ucranianos e russos gritam – Não haverá senhor sobre o trabalhador, Milorde!”

“Em tudo o que ele escreveu durante estes anos, de um lado, estava a glória à Revolução, e do outro, a sátira sobre a sua continuação. O mundo realmente, como afirma Heine, partiu-se em duas metades e a rachadura atravessou o coração do poeta. (…) Sobre a mesa do escritório, bastava levantar a cabeça, estava a fotografia de Lênin, que continuava a personificar para Maiakovski o ideal de líder e de ser humano, a sua crença. Já nos corredores do poder encontra pessoas bajuladoras, burocratas, corruptas e pomposas. (…) É muito significativo que associe o seu ideal somente àqueles que já estão mortos e a nenhum dos vivos.” Já em 1926, quatro anos antes de seu suicídio, “Maiakovski percebe que o nepotismo, a corrupção, a mesquinhez, a burocracia perpassam a nova sociedade de cima para baixo. (…) Percebe que estavam sendo traídos os ideais de Outubro. (…) No coração precipita-se a amargura que minava a crença na justiça social, na vida…”

Mas havia algo mais empur­rando o cora­ção do poeta para o des­pe­nha­deiro. Ele, que escre­veu algu­mas das mais pun­gen­tes poe­sias líri­cas que conhe­ce­mos, entrou em deses­pero por não con­se­guir abo­ca­nhar, neste mundo, sua fatia de amor. As pai­xões que viveu Maiakóvski, quase todas não cor­res­pon­di­das, pare­cem nunca ter con­se­guido saciar seu cora­ção faminto. Na nota de sui­cí­dio, a frase lapi­dar: “O barco do amor espatifou-se con­tra o cotidiano”.

Em uma carta à Lília Brik, amor de sua vida, escre­veu: “O amor é vida. O amor é o cora­ção de tudo. Se ele inter­rom­per o seu tra­ba­lho, todo o resto morre, faz-se exces­sivo, des­ne­ces­sá­rio. (…) Sem você não há vida.” Esmagado sob o peso da uto­pia que se esfa­re­lava e do amor que não con­quis­tou, bus­cou no sono eterno o des­canso para um per­curso ter­res­tre que foi, de fato, exaustivo. Mas por ter sido intenso, extremo, infla­mado, con­tra­di­tó­rio — e apaixonante.

Como resume Roman Jakobson em A Geração Que Esbanjou Seus Poetas: “A angústia diante dos limites fixos e estreitos e o desejo de superação dos quadros estáticos constituem um tema que Maiakovski varia sem cessar. Nenhum curral no mundo poderia conter o poeta e a horda desenfreada de seus desejos.”

Maiakovski, que sem­pre teve uma ban­deira de luta has­te­ada em seu cora­ção incen­di­ado, saiu com estrondo do mundo para entrar, tam­bém estron­do­sa­mente, na História. Como um dos mais autênticos e vigorosos poetas da Revolução.

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Maiakóvski & Lília Brik

Alguns poemas:

A FLAUTA VÉRTEBRA

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

(Tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

* * * * *
LÍLITCHKA!
Em Lugar de Uma Carta
(Petrogrado, 1916)De qualquer forma
o meu amor
– duro fardo por certo –
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.

Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.

Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos – rodopiante carnaval –
dispersarão as folhas dos meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

(trad. Augusto de Campos)

 

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seu corpo um dia viverá na erva, na pedra, num sapo…


Quando um homem de pensamento alcança a idade viril e atinge uma consciência lúcida, ele se sente involuntariamente como que apanhado numa armadilha, da qual não há saída. De fato, contra a sua vontade, ele é chamado por certas casualidades do não-ser para a vida… Para quê? Ele quer conhecer o sentido e a finalidade da sua existência, e não lhe dizem nada, ou então dizem bobagens; ele bate à porta, e ninguém lhe abre; a morte chega, e é também contra a sua vontade. Pois bem, assim como na prisão os homens ligados pelo infortúnio comum sentem-se aliviados quando se reúnem, assim também na vida não se percebe a armadilha quando as pessoas que tendem para a análise e as generalizações reúnem-se e passam o tempo na troca de idéias livres, altivas. Neste sentido, a inteligência constitui um prazer insubstituível…

“Oh, por que o homem não é imortal?”, pensa ele. “Para que existem os centros cerebrais, as circunvoluções, para que a visão, a fala, a autoconsciência, o gênio, se tudo isto está destinado a ir para debaixo da terra e, por fim, esfriar junto com a crosta terrestre e depois, durante milhões de anos, girar sem sentido e sem um objetivo, com a Terra, ao redor do Sol? Para esfriar e depois girar, é de todo desnecessário retirar do nada o homem, com a sua inteligência elevada, quase divina, e depois, como que por zombaria, transformá-lo em barro.”

“A troca de substâncias! Mas que covardia é consolar-se com este sucedâneo da imortalidade! Os processos inconscientes, que ocorrem na natureza, são inferiores mesmo à estupidez humana, pois na estupidez existe, apesar de tudo, consciência e vontade, e nos processos não há absolutamente nada. Apenas um covarde, que tem mais medo da morte que dignidade, pode consolar-se com o fato de que o seu corpo um dia viverá na erva, na pedra, num sapo… Ver a sua imortalidade numa troca de substâncias é tão estranho como predizer um futuro brilhante à caixa de um violino caro, depois que este se quebrou e inutilizou.”

— trecho da novela “Enfermaria Número 6”, de Anton Tchekov (1860-1904). in: O Beijo e Outras Histórias. Tradução de Boris Schnaiderman. Ed. 34. Pg 205-206.

Obcecado por Dom Quixote e Jesus Cristo, Dostoiévski teceu seu intrincado romance “O Idiota”, marcado pela vivência de sobreviver ao patíbulo

O IDIOTA || Dostoiévski (1821 – 1881)
Trad. Paulo Bezerra || Ed. 34 || 681 pgs.

“Sem dúvida alguma, ao criar o príncipe Míchkin, Dostoiévski estava obcecado pelas figuras de Cristo e Dom Quixote“, escreve Boris Schnaiderman. O protagonista de O Idiota seria, pois, uma tentativa de síntese entre estas figuras que “obcecavam” o autor de Crime e Castigo? Mas o que haveria de Cristo em Míchkin, figura que não prega nem reza? E que semelhança haveria com o cavaleiro da triste figura que vagamundeia alucinado lutando pseudo-monstros que enxerga nos moinhos de vento?

Desde os primeiros contatos que o leitor tem com Míchkin, fica-se com a certeza: apesar de rotulado como “idiota” com frequência, Míchkin nada tem de retardamento mental, mongolismo, dano cerebral. Nem mesmo se pode dizer que sua inteligência esteja abaixo da média. A etiqueta depreciativa é fruto muito mais de julgamento dos outros sobre ele –  e que nada garante que seja um juízo justo e merecido. Talvez seja mais um preconceito do que um diagnóstico psiquiátrico lúcido. Na verdade, Míchkin representa não só uma projeção literária de seu criador Dostoévski, suas obsessões com arquétipos (como Cristo ou Quixote), mas também manifesta um pouco da frutificação literária conexa à vivência de sobreviver ao patíbulo.

Mítchkin está alerta aos “pontos de comum” que nos unem numa mesma condição humana, apesar de tantas diferenças aparentes: “Com muita frequência apenas parece que não há pontos em comum [entre pessoas muito diferentes na aparência], no entanto eles existem muito… é por causa da indolência humana que as pessoas se classificam umas às outras a olho e não conseguem chegar a nada…” (p. 48)

É verdade que Míchkin esteve doente de fato. Ele mesmo confessa sem grandes pudores que teve seus ataques de nervos, que esteve internado por anos num sanatório suíço, que teme sofrer recaídas. Aqueles ao seu redor logo notam que há nele uma certa estranheza, um comportamento destoante da regra, algo que, visto de fora e com olhar apressado, pode parecer um “abobalhamento”.

Mas isso não passa de um desnorteio vivenciado por um frágil homem que sabe ser propenso a nervous breakdowns. Dostoiévski parece ter projetado tantas de suas traumáticas experiências com a epilepsia em Mítchkin, personagem que é tão hiper-sensível que qualquer situação mais tensa carrega-lhe às beiras do desfalecimento e dos incontroláveis tremores. No entanto é justamente esta sensibilidade extremada que o torna capaz de transes místicos, de agir com gentileza rara e de às vezes aparecer aos olhos do leitor como a poesia encarnada.

Aquilo que transforma Míchkin em um “idiota” (aos olhos dos que assim o rotulam) é também a ausência nele de malícia, cinismo, dissimulação, traquejo mundano. Ele não possui o que no Brasil se conhece por malandragem e “jogo-de-cintura”. Não tem o rebolado maroto que dribla a ética para deixar o adversário humilhado no chão. É um cordeiro isolado num mundo repleto de lobos.

É um estranho manancial de pureza e doçura numa sociedade em que todos parecem estar saltando sobre as carótidas uns dos outros. “Tem-se aí o tema do indivíduo puro, superior, que acaba sendo para os demais, numa sociedade corrompida, um idiota, um inadaptado”, como diz Schnaiderma. Em nenhum momento Míchkin se coloca numa posição de superioridade arrogante em relação aos outros: ele parece desconhecer estes vícios tão difundidos em seu círculo social, a arrogância e o orgulho.

Michkin é um “crédulo”, mas não de um deus qualquer: ele crê no coração humano. Ingênuo, deposita sua confiança até mesmo naqueles que obviamente não a merecem. Tem a fala franca e não sabe se esconder detrás de hipocrisias fabricadas. É simples, mas não simplório. Não ostenta qualidades que não possui, mas possui muitas qualidades que jamais ostenta. É como que inconsciente de suas próprias virtudes, mas muito capaz de perdoar nos outros seus vícios. Órfão desde a infância, parece carregar a herança de um certo abandono afetivo em sua fragilidade emocional tão patente. É um homem que parece fácil de quebrar como uma taça de cristal.

O Idiota foi um livro escrito “com deleite e inquietação”, nas palavras do próprio autor. Minha impressão é que Míchkin é uma das criaturas por quem seu criador nutria um enorme afeto, e por esta razão o leitor também se afeiçoa facilmente a ele. Raskolnikóv – em Crime e Castigo – é um sujeito bem mais difícil de se apreciar (apesar de ser, ele também, um personagens dos mais memoráveis da literatura universal). É como se Dostoiévski mudamente proclamasse que idiota mesmo não é Míchkin, mas todos que assim o rotulam e desprezam, nem notando o quanto Míchkin é admirável e o quanto conviver com ele pode ser uma experiência rica.

“A falta de originalidade existe em toda parte, em todo o mundo, desde que o mundo é mundo sempre foi considerada a primeira qualidade e a melhor recomendação do homem de ação… Os inventores e gênios, no início de sua trajetória (e muito amiúde também no final), não eram vistos quase sempre pela sociedade senão como imbecis…” (p. 366)

A “idiotia” que atribuem a Mítchkin também nada tem de futilidade: desde os primeiros capítulos ele mostra-se capaz de versar sobre graves assuntos com apontamentos não raro sensíveis e profundos. É o que ocorre quando ele debate a pena de morte, tema também de outra novela célebre do século XIX: O último dia de um condenado, de Victor Hugo (1829). Dostoiévski decerto projetou em Míchkin muito de sua própria experiência de vida, seu insuperável trauma por ter sido condenado à morte, ainda em plena juventude (antes dos 30 anos de idade). A pena foi comutada poucos minutos antes da execução de Dostoiévski. Àqueles que sustentam ser a guilhotina um modo muito humano de se matar um sujeito, já que “a cabeça pula fora de um jeito que não dá tempo de piscar um olho” (42), Míchkin argumenta:

“…a dor principal, a mais forte, pode não estar nos ferimentos e sim, veja, em você saber, com certeza, que dentro de 1 hora, depois dentro de 10 minutos, depois dentro de meio minuto, depois agora, neste instante – a alma irá voar do corpo… Esse quarto de segundo é o mais terrível de tudo… Matar por matar é um castigo desproporcionalmente maior que o próprio crime. A morte por sentença é desproporcionalmente mais terrível que a morte cometida por bandidos. Aquele que os bandidos matam, que é esfaqueado à noite, em um bosque, ou de um jeito qualquer, ainda espera sem falta que se salvará, até o último instante…

Mas, no caso de que estou falando, essa última esperança, com a qual é 10 vezes mais fácil morrer, é abolida com certeza; aqui existe a sentença, e no fato de que, com certeza, não se vai fugir a ela, reside todo o terrível suplício, e mais forte do que esse suplício não existe nada no mundo. (…) Quem disse que a natureza humana é capaz de suportar isso sem enlouquecer? Para quê esse ultraje hediondo, desnecessário, inútil?” (43)

Em outra ocasião, Míchkin não somente demonstra ser um ótimo narrador, muitíssimo capaz de concatenar idéias e comover aqueles que o ouvem, como mostra ter colhido sabedoria junto de homens que passaram pelos mais horríficos sofrimentos. Na adaptação para o cinema de Akira Kurosawa, o próprio Míchkin é transformado num sobrevivente do patíbulo, que teria aprendido ao pé da forca sobre o valor inestimável da gentileza (“the milk of human kindness”, diria Shakespeare) e sobre a urgência de viver que apenas um contato íntimo com a morte desperta. É o que Dostoiévski faz seu personagem expressar no “contículo” que segue:

“…um homem foi condenado com outros ao patíbulo e foi lida para ele a sentença de morte por fuzilamento por crime político. Uns 20 minutos depois foi lido também o indulto e designado outro grau de punição; mas, não obstante, no intervalo entre as duas sentenças, ele passou na indiscutível convicção de que alguns minutos depois ele morreria de repente. Eu tinha uma vontade terrível de ouvi-lo quando vez por outra ele recordava as suas impressões daquele momento… ele se lembrava de tudo com uma nitidez incomum e dizia que nunca iria esquecer nada daqueles instantes.

A uns 20 passos da forca, haviam sido fincados 3 postes, uma vez que eram vários os criminosos. Os 3 primeiros foram levados aos postes, amarrados, vestidos com vestes mortuárias e fizeram cair-lhes sobre os olhos os barretes brancos para que eles não vissem os fuzis; em seguida puseram diante de cada poste um pelotão de alguns soldados. Meu conhecido era o oitavo da fila, logo, teria de marchar para os postes na 3a fileira… Restavam não mais que 5 minutos de vida. Ele dizia que esses 5 minutos lhe pareceram uma eternidade, uma imensa riqueza; parecia-lhe que nesses 5 minutos ele estava vivendo várias vidas… Estava morrendo aos 27 anos, sadio e forte… no momento ele comia e vivia, mas dentro de 3 minutos já seria um nada…

Por perto havia uma igreja e sua cúpula dourada brilhava sob o sol claro. Ele se lembrava de que havia olhado com uma terrível persistência para essa cúpula e para os raios que ela irradiava; não conseguia despregar-se dos raios: parecia-lhe que esses raios eram a sua nova natureza, que dentro de 3 minutos ele se fundiria a eles de alguma maneira… O desconhecido e a repulsa causada por esse novo, que estava prestes a acontecer, eram terríveis; mas ele dizia que naquele momento não havia nada mais difícil para ele do quem pensamento contínuo: ‘E se eu não morrer! E se eu fizer a vida retornar – que eternidade! E tudo isso seria meu! E então eu transformaria cada minuto em todo um século, nada perderia, calcularia cada minuto para que nada perdesse gratuitamente!’ Ele dizia que esse pensamento acabou se transformando em tamanha raiva dentro dele que teve vontade de que o fuzilassem o mais rápido possível.” (p. 83-84)

Os atores Iúri Iakóvlev, como Príncipe Michkin, e Iúlia Borísova, como Nastassia Filíppovna

Nastácia Fillipóvna, uma das mais marcantes mulheres da literatura russa, de “olhar incandescente” e espírito febril, de uma “beleza estonteante” (p. 106) e uma quase completa falta de apreço por si mesma, capaz das mais histéricas gargalhadas e das mais abissas melancolias, é outra criatura marcada pelo sofrimento crônico. “Aquela mulher infeliz está profundamente convencida de que é o ser mais decaído, o ser mais depravado de todos na face da terra…” (p. 486)

Sem esta magnética, misteriosa e exuberante figura feminina, que “fascina a ponto de fazer homens esquecerem a razão”, a trama de O Idiota careceria da matéria-prima para as “crises, fraturas e catástrofes” que, segundo Bakhtin, Dostoiévski tanto gosta de retratar. E não são poucos os transtornos que Nastácia semeia nos homens do romance, endoidecendo-os como uma fogueira faz com as mariposas. O “combate” entre Rogójin, Gánia e o próprio príncipe Míchkin pela “posse” da deslumbrante donzela é como que um fio condutor que conduz a narrativa, em que não faltam tentativas de homicídio, fortunas lançadas ao fogo, doenças cruéis geradoras de discursos niilistas (quanto fel vomita o tísico Hippolit!), dentre outras desgraceiras em série.

O príncipe é quem sofre com o rótulo, mas idiotas são quase todos os homens do romance, em especial em suas maneiras pouco escrupulosas de lidar com propostas de casamento. Rogójin, por exemplo, tenta subornar o amor de Nastácia com 100 mil rublos, o que só faz com que ela se revolte por ser “mercadejada” desta maneira. Alguns dos “delírios” que acometem Nastácia Fillipóvna tem muito de uma indignação ardente contra os homens crassos que encontra ao redor, abusivos e escrotos, que babam por ela e não concebem outro meio de seduzi-la a não ser lançar-lhe como isca a maior quantia possível de dinheiro.

Ela se recusa a se vender. “De pura fanfarronice pisoteou um milhão e um principiado e está indo para a favela” (p. 202). Muito simbólica disto é a cena, das mais marcantes do livro, em que ela lança na lareira os 100 mil rublos destinados a comprá-la e ordena a Gánia que os resgate das chamas, alfinetando-o com pontudo ferrão. Provocativa, diabólica, incandescente, Nastácia revoltada proclama: “Me deliciarei vendo como tu te metes no fogo atrás do meu dinheiro!” (p. 204) É o príncipe Míchkin, como Kurosawa fez questão de enfatizar em sua melodramatização desta cena, que demonstra ser o homem sonhado, honesto e bom, aquele que diz a Nastácia: amo-te com ou sem sua fortuna; se você estivesse em farrapos, quase mendiga, eu cuidaria de você.

Mas Dostoiévski nada tem de um romancista cheio de lições edificantes, que louvaria o triunfo final da virtude e da “ordem moral” em um mundo harmonioso. O caótico mundo de seus romances é sempre assombrado por crimes, vícios, podridões, loucuras, dilaceramentos, erros fatais, tragédias irremediáveis. O Idiota não é tão diferente, como sabem todos aqueles que atingiram o “final alucinado do romance” onde “tem-se um paroxismo difícil de aceitar, uma situação-limite extrema”, como diz Schnaiderman.

O desfecho “desconcertante e abissal, verdadeiro desafio à nossa capacidade de aceitar as ações de uma personagem literária”, faz-nos fechar o livro e logo sentir que ele nos cravou uma adaga no coração. Será o mundo um grande hospício a céu aberto, onde os santos são taxados de loucos e os  autênticos idiotas possuem as coroas reais e promulgam as bulas papais? Será com desnorteio, angústia e indignação que nos lembraremos desta trama que reduziu Rogójin, Nastácia e Mítchkin a uma situação tão desoladora e aflitiva. Carregaremos essa ferida por muito tempo depois da última frase. Pois há livros que deixam cicatrizes inapagáveis.

 E.C.M.
A Casa de Vidro

O Idiota