A Aprendizagem da Liberdade segundo Clarice Lispector – Por Eduardo Carli de Moraes

“Ao contrário de Eva, ao morder a maçã entrava no paraíso.”
CLARICE LISPECTOR

Nascer livre é inconcebível. Livre tornar-se é muito mais plausível. Nascemos inacabados, conectados ao corpo materno e nutriz por um cordão umbilical cujo corte dá início à nossa vida extra-uterina. Depois deste corte, a aventura do devir-livre começa por uma condição de extrema dependência e vulnerabilidade. A independência e a fortaleza são também o resultado de muito esforço – e um fruto que demanda tempo até que mature. A essa aprendizagem de uma liberdade dolorosa e difícil a obra de Clarice nos convida, pedindo que aceitemos o risco. Que o tema da libertação esteja presentíssimo em sua obra, a seguinte citação será suficiente para evidenciar:

“Agora lúcida e calma, Lóri lembrou-se de que lera que os movimentos histéricos de um animal preso tinham como intenção libertar, por meio de um desses movimentos, a coisa ignorada que o estava prendendo – a ignorância do movimento único, exato e libertador era o que tornava o animal histérico: ele apelava para o descontrole – durante o sábio descontrole de Lóri ela tivera para si mesma agora as vantagens libertadoras vindas de sua vida mais primitiva e animal: apelara histericamente para tantos sentimentos contraditórios e violentos que o sentimento libertador terminara desprendendo-a da rede, na sua ignorância animal ela não sabia sequer como,

estava cansada do esforço de animal libertado.”

LISPECTOR. Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Rocco: 1998, Pg. 15

Como psicóloga de seus personagens de profundezas abissais, Clarice sonda em Loreley (vulgo Lóri) este processo de aprendizagem da liberdade. Mais especificamente: Lóri quer aprender como amar mais livremente. No trecho citado há pouco, a histeria é descrita de modo metafórico, bem longe do linguajar científico e um tanto descolorido de Breuer e Freud nos primórdios da Psicanálise. Para Clarice, a histeria é descrita como algo que transcende a mulher e também o âmbito do humano: até mesmo um animal – como um tigre aprisionado em uma jaula estreita, pode tornar-se histérico no próprio processo de movimentação de si que faz visceralmente para libertar-se de uma condição que lhe é intragável.

O livro é também a descoberta, por parte deste animal-mulher em processo de aprender a ser mais livre, de algo precioso: ninguém precisa se libertar sozinho. Os seres humanos se libertam juntos, e isso é também uma das verdades do amor. Em outro momento da obra, Lóri “pensou que essa fosse uma das experiências humanas e animais mais importantes: a de pedir mudamente socorro e mudamente este socorro ser dado”:

“Lóri se sentia como se fosse um tigre perigoso com uma flecha cravada na carne, e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem lhe tiraria a dor. E então um homem, Ulisses, tivesse sentido que um tigre ferido não é perigoso. E aproximando-se da fera, sem medo de tocá-la, tivesse arrancado com cuidado a flecha fincada. (…) Ela, o tigre, dera umas voltas vagarosas em frente ao homem, hesitara, lambera uma das patas e depois, como não era a palavra ou o grunhido o que tinha importância, afastara-se silenciosamente. Lóri nunca esqueceria a ajuda que recebera quando ela só conseguiria gaguejar de medo.” (p. 124)


CAETANO VELOSO – “Tigresa” [letra]

Esta instigante e complexa personagem feminina que é Lóri tem um nome de batismo repleto de significados ocultos e ressonâncias míticas: Loreley, como informa Ulisses à sua querida Lóri, é “um personagem lendário do folclore alemão, cantado num belíssimo poema por Heinrich Heine. A lenda diz que Loreley seduzia os pescadores com seus cânticos e eles terminavam morrendo no fundo do mar…” (p. 98).

“Lorelei” de Carl Joseph Begas (1835)

“Loreley Amaldiçoada Pelos Monges” de Johann Köler (1887)

A LORELAI

Eu não sei como explicar
Porque ando triste à beça;
Uma história de ninar
Não me sai mais da cabeça.

Dia ameno, a noite cai
Sobre o Reno devagar;
Na montanha, a luz se esvai
Faiscando pelo ar.

Uma chuva de centelhas
Repentina alumbra o céu;
A mais linda das donzelas
No penhasco apareceu.

Com escova de ouro escova
Seus cabelos incendidos;
E as canções que cantarola
Arrebatam os sentidos.

Uma dor logo fulmina
O barqueiro num batel;
Ele olha para cima:
Os escolhos esqueceu.

No final, creio que o reio
Engoliu o batel e – ai! –
O barqueiro que caiu
No canto de Lorelai.

H. HEINE traduzido por A. VALLIAS
Heine Hein? – pg. 99

A Lóri de Clarice Lispector não é a mera repetição deste arquétipo mítico. Na verdade, a escritora brasileira pratica uma literatura que subverte vários cânones ocidentais. O mito da Loreley evoca, é claro, o episódio da Odisséia de Homero em que Ulisses e os tripulantes de seu barco vão atravessar um local onde muitos navegantes já naufragaram devido ao canto sedutor das sereias. O sagaz herói homérico, naquela ocasião, pediu para que todos os marinheiros tapassem os ouvidos com cera para não ouvirem o perigoso e irresistível chamado musical, enquanto ele mesmo, Ulisses, decide-se a ouvir a deleitosa melodia, mas amarrado ao mastro do navio.

Em A Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, o Ulisses – carioca e professor de filosofia – faz um papel muito mais semelhante ao de Penélope, a esposa do Ulisses homérico, que aguarda o retorno do esposo em Ítaca. Assim como Penélope, o Ulisses de Clarice é um homem de paciência aparentemente inesgotável, que não força a barra com Lóri para possuí-la, preferindo aguardar que ela amadurecesse para o amor, aprendesse a liberdade necessária para a consumação das entregas carnais supremas.

Clarice Lispector é mestra na descrição das dinâmicas subjetivas complexas que comovem, transtornam e modificam os seres humanos por dentro, ainda que pouca coisa de monta esteja acontecendo por fora. Lóri é uma dessas personagens que possui um corpo físico onde digladiam-se os afetos num imenso escarcéu de vontades conflitantes.

É uma compreensão do “espírito” ou da psiquê que muito se assemelha àquela de Nietzsche, que buscou alargar o nosso conceito de “vontade” para incluir nele uma luta entre os impulsos, uma guerra sem armistício senão a morte. A cada momento, esta guerra interior tem como resultante um afeto dominante, erroneamente considerado como idêntico à vontade em geral, quando não passa de uma vontade específica que está provisoriamente em uma posição dominante.

Em palavras mais comuns: nossos corpos são um campo de batalha para a guerra das vontades. Lóri passa boa parte do livro tentando decidir-se afetivamente: entrega-se ao amor carnal com Ulisses, o professor de filosofia sedutor mas um pouco pedante? Ou prossegue resguardando-se e poupando-se? Ela sente estar apenas “semivivendo”, e esta lucidez quanto à baixa intensidade de seu viver é também o que lhe instiga a tentar superar-se.

Pois não é apenas o corpo do outro, a fusão erótica com Ulisses, que ela enxerga como possibilidade de graça e de êxtase. No decorrer do livro, em suas reflexões sobre “o Deus”, ela vai adquirindo uma visão panteísta e Spinozista do cosmos: “chegara ao ponto de acreditar num Deus tão vasto que ele era o mundo com suas galáxias” e “por causa da vastidão impessoal era um Deus para o qual não se podia implorar: podia-se era agregar-se a ele e ser grande também.” (p. 82)

Na prática, esta cosmovisão panteísta prevê que o sujeito possa perceber-se como integrante do “corpo cósmico” do Deus-Natureza. Isso se manifesta quando Lóri, acordando antes do sol nascer, desce à praia ainda vazia, invisível aos olhos que pudessem olhá-la de maiô. Em uma espécie de ritual solitário e autopoiético, ela entra no mar para fundir-se com as águas salgadas e as estrelas sobre sua cabeça.

“Aí estava o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E ali estava a mulher, de pé, o mais ininteligível dos seres vivos… Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões. (…) Seu corpo se consola de sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite tornar-se quente e delimitado, e o que a tornava pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio da madrugada. A mulher não está sabendo, mas está cumprindo uma coragem.” (p. 78-79)

Esta cena memorável, em que Lóri funde-se com os elementos da natureza e acaba até mesmo por beber a água salgada em goles grandes – “o mar por dentro como o líquido espesso de um homem” – é parte deste aprendizado do corpo em meio a um cosmos absurdo, ininteligível, que evoca a filosofia existencialista de Albert Camus.

Lançando-se às águas selvagens de um mar ilimitado, rodeada pela noite que finda e pelo sol que nasce, Lóri está em pleno processo de fundir-se com a maravilhosidade absurda do Todo que ela integra. Apesar de estar sozinha, a cena é de intenso erotismo, pois este contato com seu lado mais selvagem, esta aquiescência ao convite Lou Reediano (“hey babe, take a walk on the wild side), é o que vai capacitando a personagem para o amadurecimento de sua capacidade erótica-orgástica.

No livro, Clarice também debate as máscaras vestimos para nos fingirmos de civilizados e fingirmos que nada temos de selvagens. Lóri é culta o bastante para saber que as personas eram as máscaras que, “no antigo teatro grego ou romano”, “os atores, antes de entrar em cena, pregavam ao rosto”, cada uma delas “representava pela expressão o que o papel de cada um deles queria exprimir” (p. 86).

Lóri é uma mulher que reflete muito, em seu processo que não é só de auto-conhecimento mas também de auto-poiésis, sobre as máscaras que veste, sobre as personas conectadas às suas poses, vivendo num constante conflito entre pintar-se ou não: a maquiagem lhe faz sentir-se pseudo, mas o rosto sem retoques também lhe dá uma sensação de nudez e vergonha. Nos encontros com Ulisses, ela é uma gangorra: às vezes se maquia e se ajeita, outras vezes prefere ir de pele nua. E faz as seguintes reflexões psicológicas baseadas em suas próprias vivências:

“Escolher a própria máscara era o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivelava a máscara daquilo que se escolhera para representar-se e representar o mundo, o corpo ganhava uma nova firmeza, a cabeça podia às vezes se manter altiva como a de quem superou um obstáculo: a pessoa era.” (p. 87)

Já Ulisses, por todo o livro, é descrito como uma espécie de santo da paciência, um homem totalmente avesso àquela pressa truculenta típica do macho-estuprador. Ulisses parece encarnar um ideal-de-homem nutrido pela mulher em processo de maturação sexual-afetiva e que, ainda desconfiada das entregas sexuais totais, pede do outro um tempo para que a relação amadureça.

A metáfora do fruto é a todo momento evocada através deste livro que nos pinta a liberdade de amar como uma fruta madura. É preciso saber colhê-la a tempo, para que não fique inutilizada, como um fruto que, passado o tempo de sua madureza, cai do galho e no chão apodrece. É preciso muito tempo de dedicação ao cultivo para que essa fruta de fato atinja seu ápice e possa então nos conceder toda a força vivificante de seu sumo íntimo, por nós incorporado na devoração conjunta da maçã outrora proibida. Como notou com perspicácia Cláudio Dias em seu livro Clarice Lispector e Friedrich Nietzsche – Um Caso de Amor Fati, há um intenso sabor nietzschiano em uma frase como esta: “ao contrário de Eva, ao morder a maçã entrava no paraíso.” (p. 134)

“O medo maior que Lóri tinha”, nos informa Clarice, era o de “perder Ulisses por se atardar tanto” (p. 68). Ela vive, durante o tempo que o romance dura, no temor de que seu comportamento, tímido e esquivo, acabe por cansar Ulisses. Ele aguarda que ela amadureça para o grau de carnalidade do amor que é essencial para suas consumações mais intensas e totais. Lóri vive no temor de resguardar-se demais, por um tempo demasiado longo, transformando o que havia entre ela e Ulisses – magnetismo, atração, tesão, vontade de mútua interpenetração! – em algo que, por erro de timing, apodrece por não ter sido sorvido em tempo ótimo.

“Surpreendeu seu próprio pensamento: então ela planejava de fato um dia ser sua? Pois enganava-se sempre pensando que se tratava de uma espécie estranha de amizade e que assim continuaria sempre, até murchar como uma fruta que não é colhida a tempo e cai apodrecida da árvore para o chão. (…) O que temia era exatamente uma das qualidades de Ulisses: a da franqueza. Temia que, se ela conseguisse avançar a ponto de ficar mais pronta e viesse a aceitar aproximar-se dele, ele com franqueza pudesse simplesmente dizer-lhe que já era tarde. Porque até as frutas têm estação.” (p. 69 e 89)

A liberdade de amar também exige seu kairós, o aproveitamento do momento oportuno, o abraço da ocasião propícia quando esta se mostra, o que significa que a sabedoria é também indispensável nas questões do coração. “Mesmo no amor tinha-se que ter bom senso e senso de medida”, reflete Lóri (p. 149). Mesmo quando atinge, por meio do amor, uma espécie de consumação da liberdade-a-dois, ela prossegue lúcida sobre o quão precária e vulnerável é esta conquista – como tudo na condição humana, este amor-fruto é frágil e destrutível. Demanda de nós coragem para mantê-lo vivo, resiliência para continuar a alimentá-lo.

A aprendizagem de Lóri, que conduz esta personagem à soleira da porta que conduz à uma vida nova, é também uma espécie de trajetória dionisíaca, onde ela abandona alguns das travas repressoras e apolíneas que a mantinham naquele estado avesso ao amor que é a avareza de si.

“Sempre se retinha um pouco como se retivesse as rédeas de um cavalo que poderia galopar e levá-la Deus sabe aonde. Ela se guardava. Por que e para quê? Para o que estava ela se poupando? Era um certo medo de sua capacidade, pequena ou grande. Talvez se contivesse por medo de não saber os limites de uma pessoa. (…) Ulisses não tivera medo do tigre ferido e lhe tirara a flecha fincada no corpo. Oh Deus! Ter uma vida só era tão pouco!

O amor por Ulisses veio como uma onda que ela tivesse podido controlar até então. Mas de repente ela não queria mais controlar. E quando notou que aceitava em pleno o amor, sua alegria foi tão grande que o coração lhe batia por todo o corpo, parecia-lhe que mil corações batiam-lhe nas profundezas de sua pessoa. Um direito-de-ser tomou-a, como se ela tivesse acabado de chorar ao nascer. Como? Como prolongar o nascimento pela vida inteira?” (p. 131)

Lóri e Ulisses, ao fim desta pequena epopéia que Clarice retrata em seu romance, vivenciam um ápice vivencial: o êxtase do deslimite, o amplexo íntimo com o outro, a festa do amor consumado. Mas, como tudo na condição humana é fluido e precário, o livro se inicia com uma vírgula e termina com dois pontos. Sem início nem fim, a obra é o retrato de um entremeio, um filme de uma trajetória, um corte temporal em vidas que transbordam os limites do texto. Enquanto dura a leitura, é o próprio leitor que, cúmplice de Lóri e Ulisses, encantado com a música e a sabedoria da sereia Clarice, tem a chance de uma preciosa aprendizagem sobre o cultivo e o gozo dos mais salutares frutos da terra.

por Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro || Novembro de 2018
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MUITO PELO CONTRÁRIO: Poeta Walacy Neto lança seu livro de estréia

“confesso
tenho medo
que a morte
me pegue no roteiro
e que o filme da minha vida
seja parado no meio.”
walacy neto

 

Se liga, meu povo, que já está circulando “Muito Pelo Contrário”, livro de estréia do poeta e letrista Walacy Neto. Com prefácio de Marcelino Freire e ilustrações de Pedro Kastelijns, a obra foi lançada pela Nega Lilu Editora (Goiânia, 2017). Neste vídeo produzido pel’A Casa de Vidro e filmado na Evoé Café com Livros, Walacy declama alguns de seus poemas, elenca algumas influências que o inspiram – que vão de Belchior e Raul Seixas até Manoel de Barros – poeta das miudezas e Pio Vargas – e explica um pouco do processo criativo que o guiou nos trabalhos de parto do livro.

Vale lembrar que Walacy também atua como letrista de canções, sendo co-autor das composições “Zé” e “Samba Verde” da banda Chá de Gim.


Além disso, atua como redator do caderno de cultura do jornal goianiense Diário da Manhã.

* Compre o seu exemplar pela Internet via A Casa de Vidro na Estante Virtual (R$ 28 + frete): https://www.estantevirtual.com.br/…/inf…

SINOPSE OFICIAL – O estranho prazer de sentir medo de tudo e de todos motiva o autor-narrador a botar seus demônios para fora, na escrita de seu primeiro livro. Enquanto ele se coloca em perigo, o bocó, o avião, o silêncio, entre outros signos, vão abrindo trilhas sutis entre a poesia e a prosa. Viver é assim mesmo e, num deslize, tudo pode sair ao contrário. Para o leitor, é acesso ao íntimo afetado pela realidade externa. Para Walacy Neto, pura valentia.

SAIBA MAIS: http://www.negalilu.com.br/…/muito-pe…/…

Vídeo também disponível no Vimeo, em duas versões, a sintética (de 6 min) e a expandida (de 17 min):


LIMA BARRETO (1881-1923) – Homenageado da FLIP 2017, o autor de “Policarpo Quaresma” tem “Diário do Hospício” e “Cemitérios dos Vivos” relançados pela Companhia das Letras [EXTRA >> Faça o dowload de 32 de suas obras]


Lima Barreto (1881-1923) – Comprar livro na Amazon: “Internado por duas vezes em instituições psiquiátricas por delírios alcóolicos, Lima Barreto documentou em Diário do hospício sua passagem pelo Hospício Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro, de maneira lúcida e contundente. No romance inacabado O cemitério dos vivos, o autor transpôs para a chave ficcional a mesma vivência. Os dois textos foram publicados em conjunto postumamente, em 1953 e em 2010, receberam nova e cuidadosa edição organizada por Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura e prefaciada por Alfredo Bosi. Relançada agora pela Companhia das Letras, esta edição conta com notas e imagens inéditas, que oferecem nova contextualização do ambiente manicomial, além de incluir ao final uma nova reportagem de Raymundo Magalhães datada de 1920.”


OUTRO LANÇAMENTO RELEVANTE:

TRISTE VISIONÁRIO (Comprar na Amazon) – “Durante mais de dez anos, Lilia Moritz Schwarcz mergulhou na obra de Afonso Henriques de Lima Barreto, com seu afiado olhar de antropóloga e historiadora, para realizar um perfil biográfico que abrangesse o corpo, a alma e os livros do escritor de Todos os Santos. Esta, que é a mais completa biografia de Lima Barreto desde o trabalho pioneiro de Francisco de Assis Barbosa, lançado em 1952, resulta da apaixonada intimidade de Schwarcz com o criador de Policarpo Quaresma — e de um olhar aguçado que busca compreender a trajetória do biografado a partir da questão racial, ainda pouco discutida nos trabalhos sobre sua vida. Abarcando a íntegra dos livros e publicações na imprensa, além dos diários e de outros papéis pessoais de Lima Barreto, muitos deles inéditos, a autora equilibra o rigor interpretativo demonstrado em Brasil: Uma biografia e As barbas do imperador com uma rara sensibilidade para as sutilezas que temperam as relações entre contexto biográfico e criação literária.  Escritor militante, como ele mesmo se definia, Lima Barreto professou ideias políticas e sociais à frente de seu tempo, com críticas contundentes ao racismo (que sentiu na própria pele) e outras mazelas crônicas da sociedade brasileira. Generosamente ilustrado com fotografias, manuscritos e outros documentos originais, Lima Barreto: Triste visionário presta um tributo essencial a um dos maiores prosadores da língua portuguesa de todos os tempos, ainda moderno quase um século depois de seu triste fim na pobreza, na doença e no esquecimento.”


LEIA TAMBÉM: CONTOS COMPLETOS

SIGA VIAGEM:

policarpo-quaresma-heroi-do-brasilPOLICARPO QUARESMA – HERÓI DO BRASIL (1998)
Direção: Paulo Thiago; Com Paulo José e Giulia Gam.

Lima Barreto: um grito brasileiro (Mestres da Literatura)

ARTIGOS E POSTS: Obvious

AUDIOLIVROS: Cemitério dos VivosClara dos Anjos 


VEJA TAMBÉM: FLIP 2017


[EXTRA >> Faça o dowload de 32 obras de Lima Barreto – Via Farofa Filosófica]

Clara dos Anjos – Download | Os Bruzundangas – Download | Marginália – Download | O homem que falava Javanês – Download | O triste fim de Policarpo Quaresma – Download | Contos – Download| Crônicas – Download | A mulher de Anacleto – Download | A Nova Califórnia – Download | Carta de um defunto rico – Download | Eficiência Militar – Download | Foi buscar lã… – Download | Histórias e Sonhos… – Download | Manel Carpinteiro – Download | Milagre do Natal – Download | Numa e Ninfa – Download | O caçador doméstico – Download | O cemitério dos vivos – Download | O falso Dom Henrique V – Download | O filho de Gabriela – Download | O número da sepultura – Download | O pecado – Download | O subterrâneo do Morro do Castelo – Download | O Único Assassinato de Cazuza – Download | Quase Ela deu o “sim”, mas… – Download | Recordações do Escrivão Isaías Caminha – Download | Três Gênios de Secretária – Download | Um especialista – Download | Um que vendeu sua alma – Download | Vida Urbana – Download | O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos – Download | Diário – Download

A vida de Carolina Maria de Jesus, autora de “Quarto de Despejo”, em quadrinhos – Saiba mais @ A Casa de Vidro Livraria

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SINOPSE – Carolina Maria de Jesus foi um dos grandes fenômenos literários do Brasil nos anos 1960. Seu livro de estreia, Quarto de Despejo, ficou no topo da lista de mais vendidos e foi publicado em mais de 13 países. Negra, pobre, moradora da favela do Canindé, zona norte de São Paulo, e mãe de três, Carolina narrava no livro seu cotidiano na favela. Foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, que a ajudou a publicar o trabalho. A história de luta, fama e declínio de umas das mais marcantes vozes femininas da literatura brasileira está em Carolina, biografia em quadrinhos de João Pinheiro e Sirlene Barbosa. O livro narra sua infância pobre em Minas Gerais, sua vida sofrida em São Paulo, a fama, as ilusões, as decepções e o esquecimento. 128 páginas. Sirlene Barbosa é doutoranda em Educação pela PUC-SP e professora de língua portuguesa. João Pinheiro é artista visual e autor de histórias em quadrinhos, publicou os álbuns Kerouac (2011, Devir) e Burroughs (2015, Veneta). Já colaborou para revistas como Hipnorama (Argentina), Inkshot (Eua), Serafina, Rolling Stone e Bill.

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“Embora em princípio qualquer um possa fazer literatura ou fazer política, o reconhecimento de um discurso como literário ou como político passa pela adequação aos códigos consagrados no campo. (…) Tomando como base os romances publicados pelas editoras de maior prestígio entre 1990 e 2004, verifica-se que 93,9% dos autores são brancos, 78,8% têm diploma universitário, 72,7% são homens. As personagens também são quase todas brancas, heterossexuais e pertencentes às elites econômicas ou às classes médias, com uma significativa maioria do sexo masculino, disparidades acentuadas quando são isolados os protagonistas. Num universo de 258 romances analisados, aparecem apenas 3 mulheres negras como protagonistas e uma única é narradora. Nesse cenário, surgem, vez por outra, vozes diferenciadas. O caso mais emblemático é o de Carolina Maria de Jesus, negra, pobre, favelada, mãe solteira, catadora de papel, descoberta por um jornalista e que publicou seu diário – Quarto de Despejo – em 1960.” (LUIS FELIPE MIGUEL, Democracia e Representação, Ed. Unesp, p. 228-29) – SAIBA MAIS

OUÇA:
Carolina Maria de Jesus – Quarto de Despejo (1961) Álbum Completo

VEJA:
Poética da diáspora – Pesquisa Fapesp

“Meus Desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras” – Um livro de Eliane Brum

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“Meus Desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras” – Um livro de Eliane Brum

Livraria A Casa de Vidro >>> http://bit.ly/2lOk375

“Viver, Catarina, é rearranjar nossos cacos e dar sentido aos nossos pedaços, novos ou velhos.”

Revista Fórum – Em “Meus desacontecimentos”, Eliane revisita sua própria história em busca dos sentidos que a palavra escrita assumiu, em várias etapas de sua vida

Em “Meus desacontecimentos”, a jornalista revista cenas e detalhes simples, mas marcantes, do seu passado, como a “casa-túmulo” em que morava, um jardim de flores caótico, a mulher acidentada embrulhada no plástico, o desconforto com a lembrança sempre presente da irmã morta, a luta contra a ditadura com uma caixinha de fósforos e, claro, os seus primeiros textos.

A palavra é o instrumento de Eliane para tecer significados para a própria existência, construir a sua narrativa. “Nossa vida é nossa primeira ficção”, afirma. Para criá-la, é preciso sempre interrogar os seus significados. “Parece-me que viver uma vida viva é ter a coragem de perder os sentidos duramente construídos e ter que mais uma vez pactuá-los, recriá-los, negá-los e reinventá-los.” Ela completa: “se fossem imutáveis, estáticos, nós seríamos mortos que respiram”. Logo, se a palavra escrita salvou Eliane Brum, foi para ela se perder de novo – ser “(des)salvada”. “Essa perda, ao mesmo tempo que me mata, me salva de uma vida morta”, conclui. No livro, a personagem Luzia sussurra o que parece ser a síntese desse raciocínio: “ser é perder-se”.

A relação da jornalista com a escrita é intrínseca, quase intravenosa. Para ela, cada frase, cada parágrafo, “são como carne”, viscerais. “Neste [livro] estou me sentindo nua, mais ainda do que me senti nos outros. Se tivesse colocado a tarja de ficção, talvez me sentisse um pouco vestida. Não muito, também”, confessa.  Não é somente a história de Eliane que está exposta, é também seu corpo, seus sentimentos, seus significados. E, com a publicação de “Meus desacontecimentos”, ela tem um novo dilema para resolver: “Agora que me desvesti, que talvez tenha inclusive me arrancado a pele, como eu me apresento diante dos outros?”


Eliane rejeita o rótulo de “autobiografia” para seu novo trabalho. “Penso que cada leitor vai dar a ele seus próprios sentidos, a partir de suas circunstâncias. E, assim, tornar o meu livro o seu livro”, explica. O compromisso da autora é dar ao leitor as suas verdades, das quais ele vai se apropriar. “Eu cumpro o meu pacto de estar nele por inteiro. O que o leitor vai fazer com isso escapa ao meu controle, ainda bem. Não há duas leituras iguais”, completa.

A obra também é um convite para olhar para trás de maneira mais verdadeira – sem o clichê do passado “cor de rosa”. “Acho que essa idealização da infância é uma grande perda para todos”, provoca. “Olho para ela como o momento da vida em que, ao nos confrontarmos com o real, costuramos nosso ‘monstruário’ pessoal, começando a identificar os monstros que assombram apenas a nós”.

[http://www.revistaforum.com.br/2014/04/11/palavra-salva-de-eliane-brum/]

 livro-meus-desacontecimentos-a-historia-da-minha-vida-com-as-palavras-eliane-brum-2972195

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LEIA MAIS ELIANE BRUM

MURILO MENDES, “As Metamorfoses” (1938 – 1941) e “Convergência” (1970) – 2 livros de poesia @ Livraria A Casa De Vidro

MURILO MENDES, “As Metamorfoses” (1938 – 1941)
Adquira o seu na Livraria A Casa De Vidro
(Cosac Naify, 2015, novo, 160 pgs)

murilo-meta“Escrito entre 1938 e 1941, durante alguns dos momentos mais dramáticos da Segunda Guerra Mundial, este livro de Murilo Mendes aponta para a necessidade da poesia e da transcendência em um mundo em que elas pareciam ter desaparecido por completo. Foi publicado em 1944, quando a 2ª Guerra Mundial encaminhava-se para o seu final, deixando porém um rastro de destruição nunca antes visto pela humanidade. Figuras da poesia de Murilo Mendes como a mulher, o pássaro, os peixes, o piano e as nuvens, chocam-se com a antipoesia de tanques, granadas e populações emigradas. O poeta dedica seu livro ao gênio da música Wolfgang Amadeus Mozart, pois queria avançar posições simbólicas em território ocupado e dizer que a Áustria não era somente a terra natal de Adolf Hitler – ambos são aludidos no verso em que “as espadas dos tiranos retalham as partituras das sinfonias austríacas”. Através de um lirismo que evoca “auroras que se levantam de muletas”, Murilo Mendes evoca táticas de criação que remetem ao surrealismo e ao mesmo tempo dialoga com momentos altos de nossa lírica moderna (Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade etc). Editado pela Cosac Naify, este volume reúne as obras “As Metamorfoses” (1938) e “O Véu do Tempo” (1941), e contêm ainda um artigo de Lauro Escorel e um posfácio de Murilo Marcondes Moreira.

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Confira abaixo alguns poemas, na íntegra:

O POETA FUTURO

O poeta futuro já se encontra no meio de vós.
Ele nasceu da terra
Preparada por gerações de sensuais e de místicos:
Surgiu do universo em crise, do massacre entre irmãos,
Encerrando no espírito épocas superpostas.
O homem sereno, a síntese de todas as raças, o portador da vida
Sai de tanta luta e negação, e do sangue espremido.
O poeta futuro já vive no meio de vós
E não o pressentis.
Ele manifesta o equilíbrio de múltiplas direções
E não permitirá que algo se perca,
Não acabará de apagar o pavio que ainda fumega,
Transformando o aço da sua espada
Em penas que escreverão poemas consoladores.

O poeta futuro apontará o inferno
Aos geradores de guerra,
Aos que asfixiam órfãos e operários.

* * * * *

FIM

Eu existo para assistir ao fim do mundo.
Não há outro espetáculo que me invoque.
Será uma festa prodigiosa, a única festa.
Ó meus amigos e comunicantes,
Tudo o que acontece desde o princípio é a sua preparação.

Eu preciso presto assistir ao fim do mundo
Para saber o que Deus quer comigo e com todos
E para saciar minha sede de teatro.
Preciso assistir ao julgamento universal,
Ouvir os coros imensos,
As lamentações e as queixas de todos,
Desde Adão até o último homem.

Eu existo para assistir ao fim do mundo,
Eu existo para a visão beatífica.

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PATERNIDADE

Desce dos pensamentos de ódio e maldição,
Desce da fronteira do tédio:
Eu te dedicarei uma vida de espanto,
Eu te dedicarei um buquê de estrelas.
Espero-te continuamente no limiar do universo
Com todas as formas acesas,
Com a sinfonia dos elementos e o coro solene.
Por que não te vestes com a roupa das flores,
Por que não prendes ao pescoço o colar da manhã
Para vires até mim?
Ó filha pródiga,
Sei que procuraste o bem no mal.
Sei que procuraste o infinito no finito.
Vem, filha pródiga,
Encontrarás em mim o pai que não tiveste,
Encontrarás em mim, fundidas para sempre,
A loucura e a lucidez.

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“Convergência” (1970) é o último livro de poesia que Murilo Mendes publicou em vida. Ele já era um veterano reconhecido como um dos maiores poetas brasileiros, mas o volume possui o frescor da novidade. Traz formas e tons completamente novos na trajetória do já então consagrado poeta. Visto como referência central para nossa literatura moderna – assim como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto – Murilo Mendes tomava, desse modo, um caminho paralelo ao da geração dos concretistas, que haviam renovado a cultura brasileira ao longo da década de 60. Ele era personalidade ecumênica, e é justamente a partir de Convergência que esse traço se expõe abertamente no conjunto da sua obra. Por meio dos muitos “murilogramas” que formam um dos núcleos do livro, ele se dirige a um amplo leque de artistas de sua estima, incluindo Bach e Anton Webern, Li-Po e Fernando Pessoa, Maiakóvski e Ezra Pound.  (COSAC NAIFY – 2014 – 254 pgs – COMPRE NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO @ ESTANTE VIRTUAL)

LEIA TRECHOS DE CONVERGÊNCIA

GRAFITO SEGUNDO KAFKA
K:
Todos falam da morte paralém:
Eu falarei da morte paraquém.

Os dois K do meu nome: num só nome.
O F comprimido entre dois A, dois K.
Pobre deste nome sem esfera. Só ângulo.

Nada se explica. Tudo se destrói
E tudo se transforma – para outrem.

Sinto-me a desprazer na casa de um qualquer.
Toda casa é uma praça, e na praça quem sou?

Não pedi para nascer, não escolhi meus pais.
Fui imposto a mim próprio. O enigma permanece.

Murilo Mendes
Roma, 1964
p. 74

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MURILOGRAMA A FERNANDO PESSOA

Regressando sempre do não-chegar,
O gume irônico da palavra
Pronto a estimular-te o sólido ócio
De guarda-livros do Nada.
Não dás o braço a. Dás-te o braço.

Guardas o cansaço de quem palmilhou
Quilômetros de palavras camufladas
Em Ode adversativa: a ti adere
Sob o látego dum céu que não consentes
Donde se debruçam Parcas eruditas:
E ainda a contrapelo atinge o cosmo.

Exerces o fascínio
De quem autocobaia se desmembra
A fim de conhecer o homem no duro
Da matéria escorchada.
Ninguém alisa teu corpo e teu cabelo.

Sebastianista duma outrora gesta, dramaturgo
Retalhas o não-acontecido que te oprime
E determina o eterno contingente
Na área do sem-povo, já que o povo
Ao Fatum reduzido, desnavega.

Por sono sustentado e aspirina,
Sofista manténs a música que não tens
Entre dez dedos dividida. Morse transmitindo o não do sim,
Já isento em vida do serviço de viver. Anúmero.

Quanto a mim adverso ao Nada, teu ímça,
Eis-me andando nas ruas do gerúndio.
Ensaio o movimento, voo portátil.
Devolvo-te grato o que não me deste,
Admiro-te por não dever te admirar,
Na linha da atração reversível dos contrários
Contrapassantes.”

Murilo Mendes
Roma, 1964
Convergência – p. 99
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