Emblema de uma época, a peça “Roda Viva” (1968) de Chico Buarque renasce em 2019 no templo dionisíaco do Teatro Oficina

Em 1967, a canção “Roda Viva”, de Chico Buarque, pousou no cenário cultural causando estrondo. Sem ser panfletária, esta música atravessou os tempos da ditadura, entrou na era democrática e transformou-se, junto com “Cálice” e “Apesar de Você”, num dos emblemas da época.

Com ela o jovem cantor-compositor conquistou o 3º lugar no III Festival da TV Record, consagrando-se ainda mais no cenário cultural no qual já havia faturado, com “A Banda”, reconhecimento prévio significativo no fervilhante front dos festivais. 

Hoje é cada vez mais evidente que a canção ganharia este caráter emblemático, esta característica de canção que encapsula toda uma época, só após os episódios polêmicos e explosivos envolvendo a encenação da peça teatral homônima pelo Teatro Oficina, com Zé Celso Martinez Côrrea e sua trupe agindo de modo altamente irreverente e provocativo.

Endiabrados nas suas travessuras em louvor a Dionísio, em suas antropofagias à la Oswald de Andrade, em suas invenciones inspiradas por Artaud, Brecht ou Meyerhold, o pessoal do Oficina lançou Roda Viva para as trincheiras da vanguarda do desbunde. 

Quando foi, diante das câmeras de TV, interpretada por Chico Buarque na companhia do coro poderoso do MPB-4, a canção decerto rendeu uma performance antológica, digna de figurar no documentário Uma Noite de 67 (lançado em 2010), ótimo retrato dos agitos da Era dos Festivais (também esmiuçada no livro de Zuza Homem de Melo).

Porém, Chico lá esteve com sua performance de bom moço, sem arroubos selvagens (como havia sido aquela de Sérgio Ricardo destruindo seu violão). A “Roda Viva” que foi transmitida pela TV ainda não havia se alçado a seu destino maior: os anseios de liberdade que esta canção continha em seu centro pulsante só foram amplamente libertadas no teatro, no terreiro dionisíaco do Oficina.

Coro da peça em 1968, com nomes como Zezé Motta e Pedro Paulo Rangel.

“A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar!” Versos assim empolgavam a juventude libertária daqueles tempos de trevas e de chumbo. Diante da opressão institucionalizada desde o advento da Ditadura com o golpe de 1964, muitos jovens artistas e intelectuais debatiam intensamente os caminhos possíveis diante da tirania militarizada, e os dois principais caminhos constituíam aquela encruzilhada fundamental: guerrilha ou desbunde?

 Os anseios de liberdade reprimidos, que vinham sendo sistematicamente pisoteados pelo regime opressor, tinham que se manifestar por vias menos explícitas, por vias mais sutis. Uma arte de que Chico Buarque era, na poesia musicada, incontestável mestre, driblando a tesoura dos censores com sua inteligência lírica ímpar.

Segundo Franklin Martins, a música tinha um subtexto poderoso que remetia a essa gente que queria ter voz ativa e em seu destino mandar estava sendo amordaçada pela tirania ditatorial: “a roda-viva, aquela que ‘carrega o destino pra lá’, poderia ser vista como um símbolo da máquina repressiva que asfixiava a sociedade.” (MARTINS, Franklin: Quem foi que inventou o Brasil – Volume 2 (1964 a 1985) – Ed. Nova Fronteira, 2005, pg. 95)

Ao coletar 50 curiosidade sobre a peça, Miguel Arcanjo Prado enfatizou com justiça que Roda Viva, a canção que originaria a peça, não existiria sem o impacto causado sobre Chico Buarque de sua experiência diante de O Rei da Vela, oswaldiana experiência antropofágico-dionisíaca que marcou a trajetória do Oficina nos anos 1960.

Em Roda Viva, a peça, Chico Buarque elege como protagonista

“um cantor popular chamado Benedito Silva, logo transformado em Ben Silver, que era obrigado a mudar constantemente de personalidade para sobreviver na selva dos espetáculos. A montagem inovadora do diretor Zé Celso, que já trazia em seu currículo a revolucionária encenação de O Rei da Vela de Oswald de Andrade, provocou muita polêmica.

Na noite de 27 de julho de 1967, o Teatro Ruth Escobar, onde a peça era encenada, foi invadido pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC), organização terrorista de extrema-direita. Os agressores destruíram cenários e espancaram atores e técnicos.” (Martins, op cit, p. 95)

Roda Viva em montagem de 1968, dirigida por José Celso Martinez Corrêa

Uma espécie de jocosa e absurdista denúncia da sociedade do espétaculo, Roda Viva não era obra de alguém que estivesse de fora da engrenagem. Chico Buarque estava no processo de não se deixar moer pela maquinaria do show biz.

Roda Viva, vale lembrar, era uma criação teatral nascida das inquietações e provocações dum pop star brasileiro de apenas 24 anos, alçado subitamente ao posto de celebridade após seu hit “A Banda” – que catapultou o filho de Sérgio Buarque de Hollanda (autor de Raízes do Brasil) para os píncaros da fama.

Na figura de Ben Silver, Chico Buarque exercita, de modo esperto e sarcástico, seu pleno direito de crítica à máquina-de-moer-gente usualmente conhecida como showbusiness. 

Roda Viva representa uma espécie de ethos punk que toma conta de Chico, com ele mandando às favas o bom-mocismo, como escreveu Bruno Hoffman:

“Garotas de classe média – e de cabelos impecáveis – lotaram o auditório do Teatro Princesa Isabel, no Rio de Janeiro. Afinal, era a estréia da peça Roda Viva, escrita pelo genro ideal de seus pais, Chico Buarque. As meninas suspiravam ao imaginar o que o ‘cantor dos olhos de ardósia’ e símbolo do bom-mocismo havia criado. Quando as cortinas se abriram, entretanto, todas ficaram espantadas. A peça era extremamente provocativa, quase violenta.”

Sabemos que Chico acabou indo pro exílio em Roma quando o chumbo esquentou demais no período de vigência do AI-5 (1968 a 1978).

Mesmo de maneira cifrada, como em “Cálice”, suas críticas ao regime dos milicos rendiam-lhe dissabores e conflitos, inclusive com tentativas de sabotagem de seus shows.

O documentário Phono 73 revela um pouco de como eram altamente iconoclastas e perturbadoras as performances buarquianas sobre os palcos por volta de 1973. Revela também que, para além da tesoura e da mordaça impostas pelos censores, por vezes nos shows, misteriosamente, sumia o som do microfone de Chico:

Roda Viva é um ataque a todo o star system, mas sem aquela seriedade Frankfurtiana de Adorno e Horkheimer. Perdendo sua autenticidade e autonomia, Benedito Silva é transformado à força em mercadoria: Ben Silver, um peão no xadrez (only a pawn in their game, para lembrar do folkster Dylan) manuseado pelos empresários da mídia e da indústria fonográfica!

Em excelente artigo para a Revista Cult, Marcelo Sotello Felipe destacou os nexos entre a vivência de Chico Buarque, sob o risco de ser “mercantilizado” e vendido às massas como sabão em pó, e a reação criativa e subversiva que Chico realiza com a obra Roda Viva:

“O cantor se torna Ben Silver. Produzido, vestido, maquiado. Embalado. Tal qual uma marca de sabão em pó ou uma geladeira. A troco de 20% para o “anjo” (o empresário), a mercadoria é posta no mercado e a massa aprende a consumi-la. Mas um dia Ben Silver já não rende tanta grana. Desaparece para surgir Benedito Lampião, produzido, vestido e maquiado novamente, outra mercadoria. Que também um dia precisa desaparecer para que outro produto garanta o tamanho dos 20%. É a roda viva que carrega pra lá o destino de Ben Silver e Benedito Lampião.”

Roda Viva faz parte das efervescências daqueles anos seminais e prenhes de consequências, 1967 a 1969, quando explode no Brasil a renovação estético-cultural-política, altamente subversiva, do Tropicalismo. A novidade tinha a potência de um movimento que, ainda que profundamente inovador, estava bem enraizado no passado: a Antropofagia de Oswald de Andrade, que remetia ao caldeirão do Modernismo dos anos 1920, inspirava ativamente o trampo dos tropicalistas.

Mas era um Oswald que os tropicalistas não respeitavam como um ente sagrado, que não faziam de ídolo intocável: era um Oswald devorado e vomitado pelo Teatro Oficina, onde Zé Celso Martinez Côrrea e sua trupe encenavam O Rei da Vela em meio aos transtornos sócio-políticos daqueles anos danados, de chumbo-grosso e mordaças impostas a todas as canções de protesto contra o regime ilegítimo nascido da derrubada militar do governo João Goulart.

Neste contexto é que surgem algumas das mais emblemáticas canções de Caetano Veloso – que admitiu sentir-se profundamente transtornado pela experiência estética que teve com a ressurreição de Oswald através do Teatro Oficina.

Presente no disco-manifesto Tropicália ou Panis e Circensis (1968), “Enquanto Seu Lobo Não Vem” é um retrato daquele país que havia entrado em erupção após a morte de Edson Luís, com comícios-relâmpago e protestos estudantis, culminando com grandes manifestações cívicas como a Passeata dos Cem Mil, em Junho. Era uma época em que o movimento estudantil e os trabalhadores organizados puderam sentir muitos artistas e intelectuais aliando-se à luta contra a ditadura.

Que lobo seria este que está para vir, na canção de Caetano? Hoje, com nosso olhar retrospectivo, a canção pode soar profética, como se previsse a chegada do AI-5 e da fase mais brutal do terrorismo de estado:

“A canção misturava símbolos da guerrilha – florestas, veredas, cordilheiras – com o dia a dia das manifestações estudantis – passeatas, desfiles, ruas, avenidas, bombas, botas e bandeiras. O lobo, claro, era a repressão policial, com suas garras cada vez mais afiadas e ameaçadoras.

Em breve, advertia Caetano, seria necessário esconder-se debaixo da cama para não ser comido por ele. Para deixar claro de onde vinha o perigo, em boa parte da canção Gal Costa repetia em contraponto o estribilho “os clarins da banda militar”. (MARTINS, pg. 86)

Nos palcos do Brasil, em 1968, o regime dos milicos não só mandava proibir, mas fazia vista grossa ou apoio implícito a grupos paramilitares que utilizavam-se da força bruta para silenciar artistas. A canção Roda Viva, de Chico Buarque, composta em 1967,

“ganhou nova conotação política ao subir aos palcos em 1968 na peça homônima. O protagonista – um cantor popular chamado Benedito Silva, logo transformado em Ben Silver – era obrigado a mudar constantemente de personalidade para sobreviver na selva dos espetáculos.

A montagem inovadora de Zé Celso provocou muita polêmica. A peça estreou no início de 1968 no Rio. Meses depois chegou a São Paulo. Na noite de 17 de Julho, o Teatro Ruth Escobar, onde a peça era encenada, foi invadido pelo CCC, organização terrorista de extrema-direita. Os agressores destruíram cenários e espancaram atores e técnicos. Chico Buarque, mais tarde, levantou a hipótese de que o CCC, ao atacar Roda Viva, teria errado de alvo. Seu objetivo seria atingir o espetáculo Feira Paulista de Opinião, dirigido por Augusto Boal, apresentado em outra sala do mesmo teatro. Numa das cenas, um capacete militar era usado como penico, o que teria despertado a ira dos terroristas.

Se o CCC errou de alvo em São Paulo, insistiu no erro em Porto Alegre. No início de outubro, o grupo de extrema-direita atacou o Teatro Leopoldina, onde a peça estava sendo apresentada na capital do Rio Grande do Sul. Atores e atrizes foram agredidos e depois enfiados num ônibus, com ordens expressas para não voltar a pisar em terras gaúchas. O espetáculo, é claro, saiu imediatamente de cartaz.

A violência contra Roda Viva não era um fato isolado – e sim mais um episódio na escalada de violência protagonizada pelo CCC contra estudantes, artistas e intelectuais de oposição. Bombas foram jogadas no Teatro Opinião, na Associação Brasileira de Imprensa, no Correio da Manhã e na editora Civilização Brasileira.

Também em outubro, membros do CCC, infiltrados entre os estudantes de direita da Universidade Mackenzie, atacaram a tiros a Faculdade de Filosofia da USP, onde funcionava a União Estadual de Estudantes. Na chamada Batalha da (Rua) Maria Antônia, foi morto com um tiro na cabeça o secundarista José Guimarães, de 20 anos, que defendia a Filosofia.

Atuando em estreita dobradinha com os órgãos de repressão e multiplicando suas ações, o CCC ajudou a preparar o clima para a instauração da ditadura terrorista aberta que viria ao mundo com a edição do AI-5, em 13 de Dezembro de 1968. Mas o CCC não passava de uma linha auxiliar, um grupo de paus-mandados. Era no núcleo do regime militar, cada dia mais dominado pela linha-dura, que o coração da violência batia forte e marcava o ritmo da radicalização.

No segundo semestre, o país assistiu a uma escalada de arbitrariedades e provocações, que desembocaria no AI-5. Em agosto, a UnB foi invadida por tropas. Em outubro, a polícia prendeu cerca de 700 líderes estudantis no XXX Congresso da UNE, em Ibiúna (SP). Em todo o país, os estudantes saíram às ruas pedindo a libertação de seus dirigentes. No Rio, uma manifestação em frente à Faculdade de Ciências Médicas foi dissolvida à bala. Na ação da polícia, o estudante de medicina Luiz Paulo Nunes morreu com um tiro na cabeça.” (MARTINS, p. 96)

Não há dúvida de que no turbilhão de 1968, artistas fizeram história com sua participação política e com suas canções engajadas (acima, Chico Buarque e Gilberto Gil marcam presença na Passeata dos 100 Mil… 50 anos depois, estariam novamente reunidos no showmício Lula Livre, nos Arcos da Lapa/RJ, que reuniu mais de 50 mil pessoas).

Muito antes do AI-5 ser promulgado em Dezembro, a brutalidade dos milicos já havia se tornado explícita – e o mês de Junho não nos deixa mentir. Na chamada Sexta-Feira Sangrenta, 28 estudantes e trabalhadores foram assassinados nos conflitos de rua entre manifestantes e policiais; centenas de pessoas ficaram feridas; pelo menos 15 viaturas foram incendiadas. Foi esse massacre perpetrado pelos militares que gerou a onda de comoção que culminaria na Passeata dos 100 Mil, quando a maré de participação cívica intimidou a repressão, que permitiu a manifestação sem dissolvê-la no porrete e na escopeta como era de praxe.


Eis que, passados 50 anos, em 2019, nesta época de fascistas estúpidos e empoderados, o assassinato da liberdade se faz novamente presente.

Em 1968, quando a ditadura militar instaurada com o golpe de 1964 preparava-se para entrar em seus anos de chumbo, a peça Roda Viva fez história pela fúria que despertou no regime dos generais e nas milícias que o escudava (como o CCC).

É portanto altamente significativo e explosivo que Zé Celso e sua trupe re-encenem a peça escrita por Chico Buarque de Hollanda nestes nossos tempos de tenebrosas transações que culminaram com a tomada do poder pelo Bozonazismo.

Obviamente, o desgoverno Bozoasnal é o alvo principal da sátira impiedosa dos artistas no Roda Viva 2019 que o Teatro Oficina encenou em seu antológico espaço no Bixiga/SP. Eles não poupam artilharia contra figuras-de-proa da corja de Bozo: de Olavo de Carvalho a Sergio Moro, aos ministros e ao chanceler, não faltam poéticos bofetes que o Oficina distribui com seu radicalismo e irreverência de praxe…

Entrar naquele estranho edifício, com projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi, sempre torna explícita pra mim a sensação de não estar exatamente em um teatro, ou melhor, de não ter adentrado nada que se assemelhe a um teatro tradicional ou canônico: eis um espaço de desconforto, ou melhor, um lócus que visa incrementar nosso inconformismo. Um espaço de liberdade, cheio de convites à nossa libertação, coletivamente forjada no improviso de mênades e sátiros que juntos, dançando e tocando-se, tornam-se uma coisa só. “Todos juntos numa pessoa só”, como cantava a utopia d’Os Mutantes.

Zé Celso, antes da peça se iniciar “de verdade”, sendo o MC deste terreiro hightech, pede que o público se encoste, se toque, se mescle, se molhe com o suor uns dos outros, num rito de superação do eu separador. Quer que nos tornemos uma coisa só, uma centopéia de diversidade, envolvida num rito dionisíaco que celebra a renovação do mundo através da arte.

Benedito Silva, alçado ao status de pop star como Ben Silver, depois recauchutado como Lampião, serve como emblema do ídolo diante do qual as massas alienadas se prostram, subservientes, boquiabertas, demitindo-se de sua autonomia. A idolatria é uma face de uma moeda que do outro lado possui a face horrenda do poder pastoral. O pastorado, para reinar sobre nós impondo suas nefastas e desnecessárias opressões e mortificações, necessita, como de oxigênio, da idolatria. Quem idolatra é subserviente. 

Fazer de Ben Silver, ou de Boçalnaro, figuras míticas e pessoas idolatráveis, é desvelado em Roda Viva em todo o seu ridículo. Quem não é mané nem otário sai do teatro sabendo: paga o maior mico todo e qualquer sujeito que trate esses boçais como mitos.

Não lambamos as botas de ídolos de barro, ou pior: as botas daqueles que querem pisotear a dignidade humana e que focalizam a sua própria idolatria na direção mais sórdida (Bolsonaro, idólatra, idolatra sabe quem? Ustra e o “exército de Caxias”!).

Neste início da desgovernança Bozoasnal, já começam a pipocar os Youtubbers que, motivados por um desejo de se portarem como homens e mulheres “de bem”, denunciam o Teatro Oficina como sendo, basicamente, um antro do demônio, onde a platéia é agredida e os atores praticam assédio sexual contra pessoas que estão ali querendo assistir uma peça de boa (exemplo).

A verdade, acessada por aqueles que estão de corpo e alma dentro do Teatro Oficina, deixando-se afetar e transformar pela experiência, consiste na descoberta: viver é tão melhor fora dos cárceres do conformismo! É assim que a trupe mobiliza todo o seu arsenal de sarcasmos e de corpos nus, todo o seu repertório de canções e batuques, para afrontar o mau-gosto petit bourgeois e partir para a porrada com seu teatro de desmistificação e de escárnio com os atuais usurpadores do poder.

O Oficina segue sendo nosso farol-guia cultural que aponta rumos melhores para que o Brasil prospere espiritualmente para fora do pântano e lodaçal do autoritarismo e da ditadura, por aqui tão recorrentes.  Tragédias e farsas repetindo-se sem cessar, sendo o Bolsoasnismo apenas a mais recente máscara de um velho monstro.

O Oficina está antenadíssimo com o contemporâneo. Insere no cast de canções coisas como “Caravanas”, canção da safra recente de Chico, obra-prima da poética (uma letra que fica linda impressa num livro de poesia!).

O Oficina também faz de Roda Viva algo em sintonia com o antológico Desfile de Carnaval da Tuiuti no Rio de Janeiro em 2018. O drama sanguinolento e sofrido da escravidão e da diáspora africana marcam a criação cultural coletiva dessa trupe indomável.

À pergunta “existe uma cultura dionisíaca, subversiva, transgressora, hoje em atividade no Brasil?”, teríamos necessariamente que respondem que sim!

 Vejam a obra de Ângela Carneosso, por exemplo, ou alguns clipes calientes e hedonistas do Francisco El Hombre; confiram as ousadias que se permitem mulheres como Ava Rocha, Salma Jô, Larissa Luz; notem quão desbocada e subversiva é uma obra como “Gasolina” do Teto Preto ou como é explode-limites o álbum e filme Bluesman de Baco Exu do Blues.

Assistam aos clipes deliciosamente provocadores, repletos de explosão libidinal, da Flaira Ferro em seu “Coisa Mais Bonita” e em seu “Revólver” de frevo frenético libertário; ou deliciem-se com o sexoralismo desinibido de Karol Conka e sua língua quase tão pansexual quanto a de Janelle Monae. Notem quão bacântica é a estética de Juliana Perdigão em uma música como essa:

HINO DA ALCOVA LIBERTINA

Sim, o Brasil ainda é o palco onde a utopia antropofágica oswaldiana se expressa em meio à tirania sinistra dos caretas e dos milicos.

Neste contexto, Zé Celso e a trupe do Teatro Oficina continuam na vanguarda do desbunde, na barricada do dionisíaco, na trincheira libertária, como um bando de cabras desgarradas dos rebanhos, maravilhosos hippies que são ovelhas nuas pintando-se de preto, ébrias sob a Lua e os bilhões de sóis, bacantes sempre pentelhando o reinado sombrio de Penteu.

Com “Roda Viva”, Zé Celso reconquista a proeza histórica já alcançada ano passado em “O Rei da Vela”: poder dirigir 50 anos depois uma nova versão para um espetáculo que o consagrou na história do teatro brasileiro e mundial. Qual outro diretor teve tamanho privilégio em vida? E, ao fazê-lo com vigor e o mesmo atrevimento artístico de sua juventude, Zé Celso prova que está mais vivo e forte do que nunca, pronto para a batalha em prol de sua arte livre da qual jamais abriu mão, custe o que custar. Assim, ele faz de “Roda Viva” um espetáculo altamente emocionante, performativo e, obviamente, obrigatório de se ver e de se aplaudir de pé. (ARCANJO)

Se fosse para escolher uma cena emblemática, eu lembraria daquela que, em Roda Viva 2019, opõem dois grupos de brasileiros que chegam às vias de fato, Pas beiras à guerra civil: o exército dos agroboys financiados pela Bancada da Bala e da Bíblia e do Boi, todos com seus rifles em punho e berrando “Bolsonaro é mito!”, diante dos aguerridos guerreiros herdeiros do Quilombo de Palmares e de Canudos, que hoje entoam em coro: “Quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro! Aqui está o povo sem medo… sem medo de lutar!”

Zé Celso e sua trupe não fogem do ringue. Ao invés de armas, levam à batalha uma tempestade de poesia, relâmpagos radicais de sarcasmo e uma baita disposição para a polêmica. Encaram o trago e assumem a responsa, tentando ensinar ao Brasil os caminhos dificultosos e selvagens que levam ao Reino da Liberdade: onde tudo é criação e recriação infindável fora do cárcere estreito e injusto em que querem nos encerrar tacanhos milicos e fanáticos caretas, idolatradores de torturadores e que cagam bolsas de colostomia sobre o legado de Marx e Gramsci, de Paulo Freire e Florestan Fernandes, de Voltaire e de Jesus, de Darwin e de D2, de Marielle e de Jean Wyllys. 

Nestes tempos que nos condenam às trincheiras culturais, que nos convocam às batalhas ideológicas, o Teatro Oficina segue berrando suas luzes em tempos de obscurantismo. Dizendo-nos verdades cruéis que não podem ser silenciados. Abrindo nossos olhos à força. Quebrando nossas couraças e nossas porcupine skins a golpes de poesias e de canções. Berrando em nossos ouvidos, com vozes diversas e sintônicas, em lindo coro que comove até os ossos, para que ouçamos:

“A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira pra lá…
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração…”

Eduardo Carli de Moraes, São Paulo / Goiânia, Fevereiro de 2019.

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RODA VIVA DA TV CULTURA COM ZÉ CELSO

 

A CASA QUE JACK CONSTRUIU – Lars Von Trier nos provoca a pensar sobre Mal e a Carnificina em tempos de Neofascismo

“O truque mais esperto do Diabo é convencer nos de que ele não existe.”
Charles Baudelaire

Nesses tenebrosos tempos de neofascismo, os artistas que estão à altura de seu tempo têm reagido com obras importantes e significativas que nos nos provocam a pensar sobre o Mal e a Carnificina na atualidade.

Lars Von Trier, por exemplo, transforma seu filme de serial killer, um gênero já tão surrado depois de tantas repetições de suas fórmulas, em uma ousada tese fílmica de psicologia social e de sociologia quase-de-boteco. Com pitadas de teologia herética.

Aborda, como Dogville e Manderlay já faziam, os vínculos entre a encarnação atual do fascismo nas Américas (por exemplo, nos EUA de Trump e no Brasil sob a batuta do Bolsoasnismo) e as atrocidades do III Reich hitlerista. Enquanto narra os assassinatos em série cometidos por seu protagonista Jack, Lars Von Trier dá uma aula magna de pensamento crítico em forma de cinema.

Jack (Matt Dillon), que começa o filme massacrando a personagem de Uma Thurman, éum homem branco, um arquiteto ambicioso, todo aprumado em seu terno-e-gravata, com a carteira e a conta bancária repletos de dólares em excesso. Esse riquinho e engomadinho é também um canalha sádico irremediável e nefasto. Um ícone do elitismo agressivo e desumanizador.

Como este cineasta, organizando seu enredo em “5 Incidentes” somados a um epílogo, é também um dramaturgo de muita experiência e fina ironia pontiaguda, The House That Jack Built torna-se uma obra-de-arte das mais significativas e perturbadoras.

É um filme que merece nossa consideração na companhia dos também incríveis Psicopata Americano de Mary Harron; O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme; A Síndrome de Stendhal, de Dario Argento; Onde os Fracos Não Têm Vez dos brothers Coen; das obras-primas de David Fincher: Clube da Luta Seven; dentre outros.

Lars Von Trier é um enfant terrible e sua última diabrura deixará muita gente perturbada. Digo de experiência própria, pois somente 1/3 das pessoas que entraram comigo na sessão no Lumière, no Bougainville / Goiânia, resistiram à sessão e ficaram no cinema até os créditos finais.

Como sabe quem viu outros filmes chocantes de Trier, como Anticristo ou Os Idiotas,este artista não tem pacto com nosso conforto emocional, não tem pudor de impiedosamente esmurrar nosso anseio de consolo.

Trier faz filmes que causam um grau de perturbação que faz com que muitos sujeitos fujam do cinema quase que aos gritos, saturados de tantas atrocidades. É uma espécie de estética do choque, onde ainda pulsa um pouco do espírito transgressor do movimento Dogma 95, que Trier iniciou junto com seu parceiro Thomas Vinterberg.

O cineasta genial, autor dos emocionalmente devastadores dramas Dançando no Escuro Ondas do Destino, irá focar sua atenção sobre a mente perturbada de um assassino serial que, acreditem ou não, é uma espécie de Encarnação do Fascismo.

A Casa Que Jack Construiu demonstra a inesgotável capacidade deste genial cineasta dinamarquês de construir, através de seu cinema perturbador e chocante, enredos que nos comovem e que provocam reflexões filosóficas e estéticas absolutamente mind-blowin’: neste caso,Trier nos convida a pensar a fundo, e radicalmente, sobre os vínculos entre arte e política.

Vejamos, por exemplo, o anseio de beleza que estava neste idealismo psicótico que subjaz à ideologia nazista.

Lars Von Trier hackeia a história das artes plásticas, sobretudo da pintura e da arquitetura, para propor neste seu filme-tese, de ousadia impressionante, algumas reflexões importantes sobre Civilização e Barbárie. Em muitos pontos da obra, ele parece dialogar com as teses de um documentário muito importante na história do cinema de não-ficção: Arquitetura da Destruição, de Peter Coen, narrado por Bruno Ganz (ator que já interpretou HItler em A Queda e que foi encarnou o equivalente do poeta romano Virgílio neste novo filme de Trier).

Hitler era um aspirante a artista, mas foi um fiasco e não concretizou suas aspirações. Hitler era uma espécie de pintor frustrado, que nunca obteve reconhecimento ou glória por suas obras, muitas delas umas kitschy-aquarelas que realmente não chegam nem aos pés de um Van Gogh ou um Delacroix. No poder, os hitleristas iriam perseguir, queimar e incinerar o que consideravam “arte degenerada”. Já a “arte boa” eles iriam saquear de museus por toda a Europa em que conseguiram penetrar com a força bruta de seu militarismo.

É dessa bizarra conjunção entre artista frustrado e líder autoritário, que se encarna em Hitler, que Lars Von Trier parece partir para exercitar seus dons para a dramaturgia provocativa.

Pois o protagonista de A Casa Que Jack Construiu é um arquiteto, mas que fracassa sempre na construção de sua super-casa, sempre demolida para que ele possa recomeçá-la. Um loser na arquitetura, mas também incapaz para o amor e as satisfações sexuais em todas as suas relações. Um caráter cheio de couraças e escudos que o separam das alegrias do encontro, Jack torna-se esta mescla bizonha de homem culto com psicopata agressivo.

Devo dizer que a escrita de Lars Von Trier é impressionante: pela qualidade de seu inglês, este cara nascido na Dinamarca evoca a lembrança do polonês Joseph Conrad, que manejava a pena na língua inglesa com uma maestria muito superior à de 99% dos cidadãos nativos de uma nação que fala inglês. Lars Von Trier também escreve roteiros maravilhosos em inglês, onde usa técnicas e táticas aprendidas com alguns dos mestres supremos da dramaturgia como Ibsen, Strindberg, Brecht, Shakespeare, O’Neil, Arthur Miller, Harold Pinter, dentre outros.

Um exemplo do  hacking cultural que Lars Von Trier pratica a torto e a direito nesta obra é o quadro de Delacroix que retrata Dante e Virgílio na barca para o Inferno, ao início da Divina Comédia. 

Lars Von Trier vai praticar sobre a obra de Delacroix e de Dante Alighieri uma subversão cultural que o fará merecer pelo resto da história das revistas à la Cahiers du Cinéma o epíteto, muito merecido, de enfant terrible supremo da 7ª arte. Em uma versão transgressora, a Divina Comédia e sua representação gráfica por Delacroix são inseridos sem maiores pudores no tecido narrativo.

A visionária cineasta Mary Harron já havia percebido quando filmou Psicopata Americano que o fascista pode tornar-se um serial killer sem nunca abandonar o nimbo de seus privilégios.

No caso de Von Trier, seu protagonista Jack, um cara que sofre de TOC, obcecado com higiene, incapaz de suportar uma manchinha de sangue no carpete, é super skilfull na arte de ocultar cadáveres dentro de um mega-freezer.

Jack é o retrato da branquitude privilegiada que com tanta recorrência fornece quadros aos movimentos fascistas e de extrema-direita. Jack mata mais de 60 pessoas, mas seu terno-e-gravata comprados por milhares de dólares num shopping center onde só circula a casta burguesa está perfeitamente limpo e apurado. Um cidadão-de-bem aos olhos da alta sociedade.

Até mesmo a semelhança física entre os atores – Christian Bale, em American Psyco, e Matt Dillon – acaba por estabelecer uma analogia entre estas duas obras notáveis e os dois protagonistas das obras-irmãs de Harron e Trier. A psicopatia analisada por Trier é colocada no epicentro de um debate muito relevante, o da estetização da política. 

Lars Von Trier esforça-se, em certo momento do filme, para criar o seguinte ícone: a árvore sob a sombra da qual o grande escritor Goethe escreveu algumas de suas obras-primas, agora está dentro do território onde foi erguido o campo de concentração de Buchenwald.

Esta oak tree que deu sombra e guarida para Goethe criar seus poemas, peças e romances acabou sendo “testemunha” vegetal dos horrores de um campo de extermínio em pleno funcionamento. Com as fumaças vomitadas pelas chaminés sendo provenientes não da lenha, como é justo e legítimo, mas da queima de cadáveres de seres humanos que haviam sido deportados, concentrados e exterminados em massa pelo III Reich racista e antisemita em delírio de aplicação da “Solução Final”.

Goethe: o gênio alemão, o artista em todo seu esplendor, o autor de Fausto Werther, mente admirada por toda a Europa civilizada, uma espécie de Übermensch em carne viva (e que pôde inspirar o próprio Friedrich Nietzsche), aparentemente nada tem a ver com Buchenwald, onde o III Reich criou um de seus macabros experimentos na industrialização do assassinato. Mas Von Trier nos pede: pense melhor. Será que (parafraseando Benjamin e seu alerta) em todo monumento da civilização se escondem as marcas das patas sujas da barbárie?

A pátria de Goethe e Beethoven é também aquela cujo Estado, na época nazi, criou a destruição em massa nos campos da morte industrializada espalhados, por exemplo, pela Polônia (ex: Auschwitz). Ter parido Goethe não livrou a Alemanha da desgraça de cometer tais mega atrocidades.

Glenn Gould photographed on Oct. 26, 1965. By Harold Whyte / Toronto Star.

Outro exemplo é o modo como Von Trier se utiliza de vídeos do pianista canadense Glen Gould, um músico prodigioso, um dos intérpretes mais renomados de Bach e Chopin, conectando-o às atrocidades cometidas por seu Jack. A tese de Von Trier, se eu o entendi bem, não é a de que Glen Gould ou Johann Goethe são culpados por associação com aqueles que cometem atrocidades em nome da arte. Não se trata somente, para Trier, de praticar uma tolo jogo de culpabilização geral, um simplório modelo de aplicação do guilty by association. 

O jogo de Lars Von Trier é muito mais pesado. Tanto que ele prepara para o espectador uma espécie de sinistro happy end. Sim: os que ainda não assistiram e não querem saber o fim do filme, que corram do spoiler! Mas é preciso, para apreciar o filme, ler seu último ícone: Jack caindo no mar de fogo do círculo mais baixo do Inferno.

É óbvio que se trata de uma interlocução com Dante Alighieri, como fica óbvio pelo hacking que Von Trier pratica com a Divina Comédia e obras que esta inspirou (Delacroix, dentre outros). Mas no fundo é mais que mera interlocução: o cineasta está trabalhando com os afetos de sua platéia, e neste contexto a condenação ao inferno é quase um alívio que nos permite sair da sala de cinema um tanto quanto reconfortados.

Jack termina queimando no quinto dos infernos e isso, para nós espectadores médios de cinema dentro de shopping, é um consolo afetivo salutar. Ufa! Existe um Deus vigilante que garante as piores penas e punições aos serial killers e dementes psicóticos semelhantes! Ufa! Não há, in the long run, o triunfo da impunidade!

Ora, o grande tema subterrâneo deste genial ironista Von Trier é justamente o triunfo da impunidade por boa parte da trajetória-de-atrocidades de Jack. Por isso o final também deve ser lido numa chave sarcástica.

Numa cena brilhante, em que toda a mordacidade da ironia Lars Von Trieriana se manifesta com maior esplendor, o assassino Jack acabou de arrastar o cadáver de uma mulher recém-assassinada, que ele havia amarrado em sua van, para conduzi-la ao seu freezer. Só ao chegar a seu destino percebe que a cabeça da mulher, arrastada sobre o asfalto por muitos quilômetros, deixou um rastro de sangue na estrada que lhe entregaria de mão beijada para a polícia.

Aí é que – intervenção divina ou deux ex machina filtrados por um diabólico sarcasmo – começa a chover de maneira súbita. De um jeito tão providencial para salvá-loo dos tiros que aquela chuva é lida em chave supersticiosa: a água caindo do céu, que limpa o sangue alheio que ele derramou nas ruas, instiga Jack a sentir-se “abençoado por Deus”.

Tenham muito cuidado com homens, brancos e privilegiados que se acreditem “abençoados por Deus” e superiores ao resto dos humanos por seus dons e méritos artísticos.

No caso de Jack, isso acabou gerando esta monstruosidade-humana de alguém que é caçador-de-pessoas, carniceiro de seus contemporâneos, cujo freezer vai  se tornando, conforme o filme progride, numa espécie de mass grave somado a uma espécie de bunker-nazi em microcosmo.

Afinal de contas, o Jack interpretado por Matt Dillon fracassa tão grotescamente em fazer desabrochar algo de bom com sua existência que sua única obra arquitetônica, sua contribuição artística, seu magnum opus, é uma casinha macabra feita com os cadáveres entrelaçados de suas vítimas.

Vale ressaltar que Jack é um cara que tem TOC e seu transtorno de compulsão tem a ver com higiene. Podemos chamá-lo, provisoriamente, de um fanático higienista. O sangue que ele derrama, ele limpa. São inúmeros os seus crimes de feminicídio, vinculados a sua atitude de machão arrogante, que se acha muito mais esperto do que as mulheres. Ele é de tamanha grosseria e indelicadeza que jamais seria capaz de estabelecer vínculos libidinais satisfatórios, com pleno exercício da Função do Orgasmo tão salutar para os organismos psícofísicos e para as coletividades harmônicas humanas, segundo a teoria de Wilhelm Reich.

Jack é um cara que nunca aprendeu a amar, só sabe odiar. E o contexto cultural ao seu redor contribui para aprofundar sua tragédia ao conceder a ele um mundo econômico repleto de armas de fogo e munições comercializadas, com lobby forte por parte de corporações como a NRA (National Rifle Association), com celebridades lobistas como Charton Herston etc. Jack é descrito como um “doidão” pela caça, e o filme retrata a psicopatologia do caçador humano que mata animais à toa, somente para que tenha troféus de sua capacidade para a atrocidade.

WILLIAM BLAKE: Satan Arousing the Rebel Angels. Saiba mais sobre esta obra.

Von Trier constrói seu personagem explicitamente como figura diabólica. “Você lê William Blake como o Diabo lê a Bíblia”, diz Verge a Jack em uma das frases mais geniais do filme.

Jack chama seu “guia turístico infernal” de Verge, e não de Virgil – o que seu destino final explica. Jack, on the verge of hell, decide por fim tentar dar um golpe no próprio Deus. Vai tentar enganar o pai de todos os enganos e todas as armadilhas. Vai tentar ludibriar o Pai do próprio ex-anjo Lúcifer. Jack, é claro, se fode. No quinto dos infernos.

Alguns sairão do cinema reclamando que Lars Von Trier pode ser um excelente cineasta, mas é um péssimo teólogo. Na verdade, estamos diante de um herege impertinente, um artista profanador.

Para compreender estas diabruras de cineasta, é preciso focar mais ainda num dos mais importantes artistas da história humana, William Blake. No filme, Blake é uma presença recorrente, uma evocação constante. Suas gravuras pululam na tela do cinema e nos obrigam a pensar na representação humana dos deuses, do sagrado, do angelical, do diabólico.

Lars Von Trier, na construção de seus simbolismos, inspira-se muito em Blake, citando explicitamente os dois poemas de Songs of Innocence: “The Lamb” e “The Tyger” (esmiuçado pelo The Guardian), essenciais para a compreensão de cenas-chaves de A Casa Que Jack Construiu.

 

THE LAMB – William Blake

Little Lamb who made thee
Dost thou know who made thee
Gave thee life & bid thee feed.
By the stream & o’er the mead;
Gave thee clothing of delight,
Softest clothing wooly bright;
Gave thee such a tender voice,
Making all the vales rejoice:
Little Lamb who made thee
Dost thou know who made thee

  Little Lamb I’ll tell thee,
Little Lamb I’ll tell thee:
He is called by thy name,
For he calls himself a Lamb:
He is meek & he is mild,
He became a little child:
I a child & thou a lamb,
We are called by his name.
Little Lamb God bless thee.
Little Lamb God bless thee

 

THE TYGER – William Blake

Tyger Tyger. burning bright,
In the forests of the night:
What immortal hand or eye,
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies.
Burnt the fire of thine eyes!
On what wings dare he aspire!
What the hand, dare sieze the fire?

And what shoulder, & what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?
What the hammer? what the chain,
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp,
Dare its deadly terrors clasp!

When the stars threw down their spears
And water’d heaven with their tears:
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?
Tyger, Tyger burning bright,
In the forests of the night:
What immortal hand or eye,
Dare frame thy fearful symmetry?

O horrendo Jack é o veículo de uma metafísica, seus atos tem a ver com uma ideologia religiosa que subjaz às justificativas em que ele crê para as carnificinas que comete. Jack encarna uma espécie de cosmovisão em que crimes são benfeitorias, pois purgam a terra do que não presta. Seus assassínios consequências de uma espécie de higienismo metafísico (mas de efeitos bastante físicos). É a cosmovisão conexa ao extermínio em massa. A cosmovisão do III Reich, da Ku Klux Klan, do Bolsonarismo.

A noção – que é pura Necropolítica, para usar o conceito criado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe – de que pode ser belo você forjar um outro mundo utilizando-se como instrumento da violência fatal imposta a outrem. A muitos outros.

Jack, como Hitler, é um artista fracassado e sua obra arquitetônica é um fiasco. Ele não consegue levantar porra nenhuma e é tão incompetente como arquiteto que jamais seria contratado para exercer a profissão. Como fotógrafo, é também horrendo e de mau-gosto, mas leva fotografias de seus crimes como troféus, imaginando que há ali alguma beleza que sirva como justificativa para o seu injustificável morticínio seriado.

No fim das contas, não é à sabedoria cristã que Lars Von Trier adere de fato, mas sim à sabedoria trágica dos gregos, que este gênio artístico dinamarquês reativa com a potência impressionante e provocadora de seu cinema. Pois o grande ensinamento da história de A Casa Que Jack Construiu é similar aquela transmitida pelos maiores gênios da dramaturgia trágica (Ésquilo, Sófocles, Eurípides): a húbris é sempre punida pela nêmesisLei do cosmos. Lei do Humano.

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 27/11/2018

A POESIA EFERVESCE EM GOIÂNIA – Um minidoc A Casa de Vidro (2018, 9 min)

A POESIA EFERVESCE EM GOIÂNIA – Saiba mais sobre o atual cenário de poesia, literatura e artes integradas neste documentário curta-metragem realizado por A Casa de Vidro (2018, 9 min). Um filme de Eduardo Carli de Moraes.

Ultimamente, novas iniciativas vem contribuindo pra aumentar as doses de lirismo e criatividade verbal que circulam nas veias da capital de Goiás. Para sondar estas efervescências poéticas, ontem documentamos alguns destes agitos em vídeos filmados com esta trupe bacaníssima: Mazinho SouzaRaissa PagaldayRosa Neves e Gabi Rodrigues, galera que vem participando ativamente deste cenário.

Este curta-metragem, de 9 minutos e pouco, ainda serve para contrabandear versos do Bruno Brogio (declamado por Mazinho), de Maha Iza (declamada por Raissa), de  Paulo Manoel, de Rosa Neves, de Pio Vargas.

COM CATUPIRY

Já se pensou que o homem comum poderia
mudar tudo
que o homem comum não é um
é um milhão
e que da força dessa união se formaria uma
muralha
com corpos de sonho e margarida

mas o homem comum tá distraído
pela bola rolando
a novela passando
o pastor que não é santo
e de vez em quando
pela própria vida
os amores, os terrores
a dificuldade, a delícia
a falta de perspectiva
e de um salário justo

o homem comum tá preocupado demais pra pensar
o homem comum gosta mesmo é de coxinha de frango.

Bruno Brogio

Já pra trilha sonora convidei meu queridíssimo Sergio Moraes Sampaio, com “Cada Lugar na Sua Coisa”:

Um livro de poesia na gaveta não adianta nada
Lugar de poesia na calçada
Lugar de quadro é na exposição
Lugar de música é no rádio

Ator se vê no palco e na televisão
O peixe é no mar
Lugar de samba enredo é no asfalto
Lugar de samba enredo é no asfalto

Aonde vai o pé arrasta o salto,
Lugar de samba enredo é no asfato
Aonde a pé vai se gasta a sola
Lugar de samba enredo é na escola

A Poesia, pra quem está antenado ao que vem rolando no cenário artístico underground, vem marcando presença cada vez mais forte em Goiânia, tomando conta de festivais como o já tradicional Juriti – Festival de Música e Poesia Encenada e o novo-em-folha Goiânia Clandestina (que já realizou 2 edições e ainda realizará mais 3 até Dezembro).

Espaços como Evoé Café com LivrosLivraria Palavrear e a nova Casa Liberté são alguns dos points onde você corre o sério de risco de ser atropelado, de repente, por um caminhão de poesia. Apesar dos percalços, a Poesia mostra-se resiliente em propostas culturais louváveis como o Sarau das Minas GO, organizado pela Carol Schmid, ou a Feira E-cêntrica da Larissa Mundim & Rico Lopes.

Em saraus e slams, em feiras de economia alternativa ou em batalhas de MCs, a Poesia, vibrante e multiforme, toma conta dos espaços e praças da cidade. Está colada nos lambes pelos muros, gritando nos pixos, multicor e psicodélica na poesia visual dos muros (como expusemos no filme Gastrite, lindo trampo dirigido pelo Hugo Brandão, uma obra essencial para pensar o presente e o futuro das poéticas visuais na nossa urbe).

A Poesia, indomável, vem circulando também em zines punk (que o digam Matheus Germano e Gil Célio) e em antologias de poetas goianos, como é o caso “Antologia Clandestina” – que já esgotou suas 500 cópias iniciais e está com inscrições abertas para a 2ª Edição.

Ffiquem atentos, escritores locais: as inscrições encerram em 03 de Outubro; envie já seus versos para

curadoriagoianiaclandestina@gmail.com

e corra o risco de ir parar na coletânea mais chocantemente poética que será lançada neste ano cá na Goiânia véia do Cerrado.

Na antologia #1, 22 poetas inéditos dividem as páginas deste poderoso artefato literário clandestino. É o caso de poetas como Paulo Manoel, que manda versos direto no queixo, nos levando quase a um nocaute estético, como estes:

AÇÕES AFIRMATIVAS

Quando não tem ninguém olhando
Os três malucos das três raças
Saem da Praça, sobem a Goiás
E dão uma surra no bandeirante

A Poesia, irreverente e incansável, está também nos livros publicados recentemente por Walacy Neto, pela Nega Lilu Editora, pelo Adérito Schneider e a galera do Cidade Sombria

E não poderíamos deixar de mencionar as letras de música, em que a Poesia também hoje efervesce lindamente no caldeirão da arte goianiense. A Poesia, sempre tornando a vida mais doce e tragável apesar de suas muitas amarguras, vem usando como seu veículo as canções maravilhosas de Salma JôDiego De MoraesKleuber Divino GarcezDiego W’anderCamilo LuizaAdriel ViníciusVitor Hugo LemesFlávia Carolina AlmeidaPaula de Paula, Dinho Fernando Almeida FilhoBruno BrogioJordana LuzNegra, Carlos BrandãoNina SolderaA Jay Ajhota, dentre muitos outros.

Poucas cenas musicais alternativas no Brasilk atual, creio eu, possuem tanto alimento a proporcionar aos que tem fome de poesia, ânsia de beleza, sede de lirismo, vontade de criatividade e colaboratividade. É fenomenal que coexistam no mesmo-espaço tempo sócio-cultural estes fenômenos, sincrônicos e complementares, que fazem de Goiânia um dos maiores centros latino-americanos para a música alternativa: Boogarins, Carne DoceDiego MascateChá de GimAveEva, @CambrianaPó de SerBanda, Shotgun WivesTerra CabulaBanda Mundhumano etc. Porra, QUE CENA!

É poesia pra dar com o pau. É poesia que ameaça em breve pôr em estado de delírio lírico toda essa metrópole. E não tenham medo de overdose… pois de Poesia em excesso nunca se morre.

* * * * *

P.S. – Evocações de Pio Vargas (fantasma de poeta defunto-vivo, pretérito-presente), para quem “o acaso é uma empresa para a qual tudo conspira”:

considerações necessárias

é preciso tirar a poesia da clausura dos concursos, das gaiolas do acaso, do exílio das gavetas, trazê-la para o sabor do consumo rápido e fácil, envolvê-la de popularidade, sem o vulgarismo perigoso do que é descartável, mas também sem a absurda pretensão do que se quer eterno.

poesia para fazer rir e refletir, evoluir e incomodar, propor e decompor. poesia para os botecos, para os gabinetes, para as praças, para os salões de festas, para os mocambos, para as favelas, estúdios, vídeo clipes e palanques.

poesia sem medo, poesia sem trauma, poesia-pão, poesia-sim, poesia-não. pois ia ousar um dia popularizar a poesia.

viva a poesia viva!”

https://acasadevidro.com/?s=Pio+Vargas

Pio Vargas (1964-1991)

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Aproveito o gancho e convido vocês a assistirem também meus outros filmes recentes:

“Afinando o Coro dos Descontentes”: PLAY >>> https://bit.ly/2NmELK9

“O Futuro nos Frutos: As Semeaduras do Encontro de Culturas”: PLAY >>> https://bit.ly/2pihvib.

Valeu a todos os artistas que estiveram colaborando e somando com meu trabalho. A gratidão não cabe em palavras. Sigamos adiante, contando com as benesses do Acaso, aquela empresa para a qual tudo conspira.

Por Eduardo Carli de Moraes / Goiânia, Setembro de 2018

A MÚSICA EXISTE POIS A VIDA NÃO BASTA – Na Escola da Vida, os aprendizados e benfeitorias de levar uma Existência Musicada (por Eduardo Carli de Moraes)

Assim como “a arte existe pois a vida não basta” (como diz Ferreira Gullar), daria pra dizer que a música existe pois o silêncio e o ruído nunca são suficientes aos nossos vorazes corações. A Humanidade tem ânsia de sentido e beleza, ela não se conforma apenas com o estrondo e a fúria. Temos vontade de algo melhor que a mera anarquia sônica.

Não conheço doido que julgue que o estrondo de uma bomba ou o barulho de uma britadeira seja preferível às melodias deliciosas e ao beat contagiante dos Beatles. E pouca gente além de monges, em busca da iluminação búdica, acham que o mutismo completo das bocas ao nosso redor seja mais propício a uma vibe nirvânica que Nina Simone ou Jeff Buckley cantando e encantando com seus gogós de ouro.

O ser humano não sabe se resignar a ser vítima de seu ambiente sonoro: ele quer intervir ativamente, transformar o seu arredor sônico, forjar pra si um ninho de sons. O ser humano quer infundir ao ar em que está mergulhado, éter através do qual transita e atravesse por toda a vida, aqueles salutares doses de ritmo, pulso, cadência, melodia, coro, consonância…

A Música – aquilo que, segundo Nietzsche, se não existisse transformaria a vida em um erro – é uma arte que acompanha o caminhar humano, infundindo à caminha da espécie aquilo que é quintessencial para que a nossa existência possa ter um sentido, ainda que este sentido seja estético. O sentido da vida estaria em sua beleza, e esta é nossa responsa inventarmos como pudermos. Sem a bela dança dos sons a vida seria bem mais parecida com um pesadelo.

“O mesmo fluxo de vida que corre por nossas veias, noite e dia, corre pelo mundo da dança em pulsações ritmadas.” – RABINDRANATH TAGORE, Prêmio Nobel de Literatura, poeta e músico da Índia

Fazer música é como esculpir com um mármore invisível. Os sons animam e entusiasmam quaisquer cegos! É como criar arquiteturas sem pedras, usando tijolos que os olhos não enxergam pois são ondas e vibrações a se irradiarem pelo éter. Os autofalantes vão lançando ao nosso redor as vibrações esculpidas que se movimentam no ar como se dançassem. Produzir música é como lançar no ar um remédio que se consome pelas orelhas, salutar para a saúde de coração e mente.

Pesquisas garantem que a música é reguladora do bioritmo: interfere no batimento cardíaco e é capaz de realizar proezas pelo aparelho respiratório e motor daqueles que a praticam. Para além desta utilidade visceral – a música é terapêutica desde antes de existirem farmácias e antidepressivos – a música pode ser (e anseia ser) bela. E será sempre suspeito de ser tosco e tacanho aquele que disser que a beleza é inútil… Beleza também é vida. Tente não querer se matar quando tudo ao seu redor é feio, fedorento, ruidoso.

Não serei eu o primeiro a sugerir que certas sinfonias são como catedrais, nem o primeiro a apontar as imensas dificuldades para uma autêntica escrita sobre a música, já que isso equivaleria a “dançar sobre arquitetura” (como disse Elvis Costello). Mas Costello, que desde sua estréia com o álbum (que tanto adoro) My Aim Is True nunca foi um poeta-cantor de economizar palavras (que nerd mais verborrágico!!!), não está falando que a escrita musical é inútil, só está frisando o quanto ela é difícil e desafiadora.

Animais obstinados e criativos, não só musicamos nosso mundo, mas também tentamos explicar com palavras e símbolos isto que nos fascina para além da razão, a Música. Escrevem-se tratados e sumas musicológicas, de lógicas intrincadas e assustadoras, tentando explicar o que é, por exemplo, a Harmonia – como o calhamaço aterrador de Arnold Schoenberg.

Humanos ficam escrevendo sobre os meios para a transmissão, a reprodução e a transfiguração dos nossos tesouros musicais. E há ainda desses doidos que escrevem, sabe-se-lá porque transtorno mental, um caudaloso rio de palavras infindáveis, aparentemente bastante inúteis, sobre os fascínios que a música é capaz de propiciar. Um destes agora vos escreve – e saúda ao raro leitor que, se está lendo até aqui, deve padecer também de alguma estirpe de melomania incurável.

Nesta minha torta e aflita jornada de aprendiz, em que caminho, por Amor à Música, nas páginas de manuais de Teoria Musical (Bohumil Med, Almir Chediak, Pozzolli etc.), vou compreendendo o quanto a Música é complexa, e o quanto sua linguagem específica é um imenso quebra-cabeças cognitivo. A experiência de aprendizado da linguagem musical é similar ao do aprendizado de uma língua estrangeira. Eu, que tenho facilidade com estas (em especial o inglês, o francês e o espanhol), literalmente quebro a cabeça com o idioma musical das partituras, um pouco como se estivesse diante do desafio cognitivo de aprender uma língua gringa que tem um alfabeto diferente do nosso – o grego, o russo ou o chinês, por exemplo.

A música é a arte da diferença, tão mais bela quanto melhor souber celebrá-la. A diferença é o ídolo do músico: ela não é “o oposto da harmonia, mas sua condição” (como explica Debray).

Ainda que possa conter palavras, isto é, utilizá-las como uma de suas ferramentas, a música transcende o verbo escrito. A música, apesar de a certo momento de sua trajetória histórica, ter encontrado meios para se fixar em pergaminho, em papel, em telas digitais (um assunto desvendado com maestria por Régis Debray, criador da Midialogia), existiu milênios e milênios descolada da escrita. Colada, isso sim, aos tambores rituais ou lúdicos, às gargantas ressonantes, às mãos batendo palmas percussivas – enfim às ritualidades da humanidade em sua ânsia de significação e deleite.

Por isso, a música é bem mais ancestral, no caminhar do gênero humano, do que a escrita. E creio que não há quem ponha seriamente em dúvida o fato de que terá um longo futuro pela frente. Não há sinal de que os humanos vão parar com o vício incurável da Música tão cedo! E como eu gostaria de saciar minha curiosidade sobre que sonzeiras estarão sendo realizadas e ouvidas no século 28 ou 29 da Era Corrente! Pena: não me sobrarão ouvidos nem mesmo para ouvir a música do século 22! 😦

A música, ao proporcionar uma vivência sensorial que transcende – em beleza, excitação e capacidade de mobilização! – tudo aquilo que um ambiente sonoro quieto ou ruidoso nos propiciam, acaba tornando-se uma parte integrante da condição humana. Está na condição dos artefatos, das criações humanas, das modificações que impomos à natureza, que destina-se a mudar o meio ambiente em que estamos inseridos de modo a que ele atenda melhor às nossas necessidades e vontades. E nossa vontade inclui a de uma vida que não seja atroz – a ânsia de beleza que em nós demanda e suplica, como a poetisa moçambicana Noémia de Souza: “tirem-nos tudo, mas deixem-nos a música!”

Nossa vontade de música parece ser insaciável. E para explicá-la seria preciso convocar um arsenal de argumentos de biólogos, de antropólogos, de artistas, de médicos. Pelos melômanos e musicoterapeutas, a música será descrita como um remédio para a alma; os médicos concordarão, com comprovações de cardiologistas, que ela é um auxílio na regulação dos batimentos cardíacos e do bioritmo em geral; antropólogos podem vir até com o papo de que seja um utensílio simbólico para a coesão grupal daqueles que compartilham de um mesmo território e pertencem a uma mesma etnia, cuja identidade está também conectada à unicidade de sua musicalidade… De olhos fechados, é possível diferenciar entre Fulni-Ôs e Yawalapitis somente pela música de seus ritos.

A música, se é fenômeno tão disseminado em toda parte do globo e através de toda a história humana (e esta diversidade tem sido muito bem exposta e explicitada por empreendimentos louváveis como a Putumayo Records), tem que ser por algumas de suas benfeitorias concretas, por aquilo que ela faz de bem aos seus beneficiários.

Temos que levar a sério a noção da música como terapia, como remédio, como saúde para os afetos… Mas ela também pode, como o pharmakon dos gregos, converter-se de remédio em veneno, de acordo com a dose. Tudo tem sua medida ótima, e alguém que amasse tanto a música, e que quisesse ouvi-la cada vez mais alto, ao subir o volume ao seu redor para uns 200 decibéis se arriscaria a ter seu tímpano rompido. Há quem diga que é possível inclusive causar a morte de um ser humano usando sons como punhais, manejando decibéis como balas.

Alguém pode ter uma hemorragia cerebral caso se lance pelo seu organismo adentro doses gigantescas de ruído excessivo – pensemos num torturador de Abu Ghraib ou Guantánamo Bay, que tortura até a morte os suspeitos de terrorismo sob seu jugo, impondo-lhes 12 horas diárias com 600 decibéis ininterruptos de Slipknot, Korn e Limp Bizkit… é de derreter qualquer cérebro após uma agonia das mais dolorentas!

A Música, enfim, com suas melódicas sucessões, suas harmônicas simultaneidades, suas rítmicas noções de sutis sincronicidades, cheia de ascensões e quedas, saltitando aos pinotes e pulos, sabendo cortejar também o silêncio, fluindo nas diferenças de alturas e durações, indo da quietude ao estrondo, pondo em ação a transa dos timbres, enche a nossa Vida daquela excitação que é essencial para que não sejamos mortos-vivos.

A Música é um agente intensificador da energia vital, da nossa capacidade de conexão com outros, da vivificação da convivência humana através da luz de nossos enlaces. Pois orquestra e coro são prodígios da colaboratividade humana que, caso um dia sejamos visitados por agentes extraterrestres de inteligência superior, que nos colocam como condição para que não sejamos exterminados que provemos que a Aventura Humana valeu a pena, faríamos bem em sentar os aliens diante de uma vitrola e deixá-los julgarem se merecemos seguir em existência com boas doses de Música.

PARTE 2

Como quem adiciona uma gotícula a um oceano dos escritos sobre música, quis com estas mau traçadas linhas falar também um exemplo específico disso tudo que tentei expressar em termos gerais – ou seja, quis expor um pouco do bem que me tem feito ouvir, descobrir, degustar, tocar e me inspirar com Perotá Chingó.

Escrevo para compartilhar um pouco das vivências que fizeram com que esta experiência musical, originária da Argentina, entrasse tão forte em minha vida neste 2018 – a ponto de eu já inseri-las no rol das bandas prediletas, pois das mais significativas com que já convivi. Isso tem conexão com viagens, nomadismos, descobertas territoriais e culturais, inseparáveis do clima existencial daqueles que circulam pelo mundo, que são rolling stones que não querem juntar limo, vibe dos que não querem ser imóveis e preferem ser errantes.

São as almas ciganas a imagem que sempre pinta em minha mente quando busco explicitar um pouco do afeto que me desperta a audição do Perotá. Nas andanças por Chile, Peru, Bolívia e Argentina, fui me encantando com artistas que passei a chamar de prediletos – Anita Tijoux e Quilapauyn, por exemplo – e agora o Perotá Chingó entrou neste time de artistas veneradas.

A banda explicita sua vibe viajeira, sua alma cigana, seu cosmopolitismo, ao confessar que nasceu de uma viagem: as amigas Lola e Julia, de Buenos Aires, combinaram de fazer uma viagem pelo Uruguai, tocando e cantando canções latino-americanas em bares, pubs e praias por aí. Viajaram animadas pela vontade de viver com arte, de levar arte aonde quer que fossem. Esse estilo-de-vida do artista-nômade, que quer conhecer várias culturas e construir sua obra a partir dessas influências que a jornada lhe trouxe, marca profundamente os afetos e a ambiência geral do Perotá.

Nos primórdios do projeto, Lola e Julia, acompanhadas por um videomaker, filmaram alguns vídeos desta gira musical uruguaia e um deles, “Rie Chinito”, viralizou na Internet (já contam-se mais de 18 milhões de plays). Fenômeno surpreendente para um singelo vídeo, sem sinal de efeitos especiais, gravado num único plano sequência, onde duas amigas cantam juntas, só vozes e violão. De fato, havia algo de especial e único naquele clipe de tamanha simplicidade: o espírito de contemplação reverencial da natureza se plasmou ali, na atitude das musicistas, e uma capacidade de expressão ali estava em botão que raras vezes podemos experenciar. Era o som da autenticidade da experiência vivida, a música que fazem aqueles que estão despertos para o aqui e o agora. 

RIE CHINITO

PEROTÁ CHINGÓ É:
Dolores Aguirre (Lola Membrillo)
Julia Maju Ortiz
Martín Dacosta
Diego Cotelo

Um site que serve de enciclopédia do Rock Argentino soube bem destacar os charmes do Perotá Chingó:

Perotá Chingó es aprendizaje y rasga el velo de la vida perfecta del artista, del músico, del viajero, y evidencia un estado humano de improvisación, transición y cambio que invita a compartir y adentrarse en procesos muy íntimos, exponiendo estados personales y grupales que hacen a una identidad musical en continuo proceso de transformación. (…) Perotá  es el vínculo entre tensión y armonía de dos poderosas voces y el milagro resultante de esa unión; es la relación entre seres que excede lo concretamente musical. Perotá es movimiento, es el viaje, es el amor por nuestra tierra y sus paisajes, el intercambio cultural y la integración de lo distinto; y todo eso se refleja fielmente en los primeros discos y años de su carrera donde aparece esa música fresca y descontracturada, de cara al viento, absuelta de géneros y desentendida de formas, poco pretenciosa desde la complejidad, pero capaz de hacer resonar fibras internas y profundas de quien se entregue a escucharlos.” – ROCK.COM.AR

Lembro-me muito bem que conheci realmente o som do Perotá a caminho da Chapada dos Veadeiros, de carona no Uno da Lígia, quando ela tocava uma playlist repleta de Anelis Assumpção, Quatro Cântaros, Gorillaz, e por aí vai. Era “La Cumplicidad”, que naquela ocasião me acachapou por sua beleza, pela força e sapiência dos afetos que usam a canção como veículo. Tornou-se subitamente uma de minhas canções latino-americanas prediletas, nesta muito comovedora interpretação do Perotá Chingó, que conecta-se a uma prece maconheira-rastafari (“Jah”); depois descobri que originalmente “La Cumplicidade” é uma canção do Cultura Profética, banda de Porto Rico, que com este hit caribenho atingiu mais de 80 milhões de plays no Youtube.

 

Depois de ouvir “La Cumplicidad” algumas dúzias de vezes, sem sentir seu impacto emocional diminuir, peguei o violão e tentei verter para o português aquela que eu considerava uma bela poesia-pop, de sabor um tanto idílico, sobre o amor e suas metáforas, o amor compreendido como cumplicidade. “A Cumplicidade” é uma canção sobre a rara e preciosa vivência de estar com alguém e sentir: “nossas vibrações de complementam”, “miro a teus olhos e já sei o que pensar”.

É o amor como um arrebatamento deleitoso de intimidade e confiança, o que nos conecta não só ao outro e suas vontades e necessidades, mas nos acorda para o todo da natureza. É uma espécie de folk panteísta, que corteja o silêncio de maneira zen, mas que sabe extravasar-se numa catarse de beleza. Uma canção que me parece transmitir uma sábia e lúcida poesia da interconexão. É uma canção que fala um pouco sobre aquilo que Paulo César Pinheiro, em um de seus poemas, define lindamente como “a luz de nosso enlace.”

(Versão caseira / demotape, a ser gravada com melhor qualidade no futuro)

A CUMPLICIDADE

SOU:
Um verbo que dá ação a uma boa conversação,
Sempre que me chamas sentes ganas. SOU:
A nova alternativa contra contaminação,
Tu és a energia que recarga. SOU:
Um arvoredo que dá sombra à tua casa
A brisa suave que sopra tua cara
Dos teus sonhos, nêga, sou a manifestação
Tu és a liberdade tão sonhada.

Sou a serenidade que leva à meditação,
E tu és aquele tão sagrado mantra. SOU:
Esses carinhos, Pacha, que te baixam a pressão,
E sempre que ela sobe ‘cê me chama e VOU.
Tu abres teus lençóis, vamos à cama.
Vamos conquistar toda a galáxia.
De tudo que acostuma sou contradição.
Das nossas cinzas reacendo chamas.

REFRÃO
A cumplicidade é tanta
Que nossas vibrações se complementam
O que tenho te faz falta
E o que tens me faz ser mais completa
A afinidade é tanta
Miro a teus olhos e já sei o que pensas
Te quero porque és tantas
Coisinhas belas que me fazer crer que SOU

SOU:
A levedura que faz crescer o amor-pão,
Tu és a vitamina que me falta. SOU:
Orvalho repousando à noite em tua plantação,
Tu és a terra fértil tão escassa. SOU:
A branca areia que alfombra tua praia,
Toda a folhagem que dá vida a teu mapa.
De toda idéia criativa sou a gestação,
Tu és a utopia liberada.

REFRÃO

Sou a loucura que estremece, tua adicção
Tu és a bússola pr’um frágil náufrago
Sou uma colônia que vai em busca de libertação
Tu és aquela dose de esperança, SOU
A Cordilheira que, lá na distância,
Cura teu olhar com sua elegância
De todo doido que contesta sou celebração
A nossa vida é um mistério que me encanta.

Testemunhar a interação entre Lola e Julia nos videos musicais do Perotá Chingó nos leva a refletir sobre entrosamento, interatividade, sincronia, solidariedade, joie de vivre, felicidade de conviver, sabedoria compartilhada, experiência vivida do convívio, utopia micropolítica, e por aí vai. O canto delas nos encanta pois carrega uma carga de cumplicidade, de expressividade, de abertura à colaboratividade, que nos aponta para um viver mais sábio.

“La Complicidad” é um tratado de filosofia condensado em 5 minutos de canção. Uma canção que desnuda a existência humana como conectividade, que celebra a possibilidade, rara mas existente, de uma boa conexão: aquela de cúmplices na criação. Aquela de amigos unidos pela busca infindável da sabedoria. Aquela de viajantes que estão felizes por terem se juntado para irem juntos pela estrada por este efêmero pedaço do caminho.

É também uma arte que, para mim, inspira uma modéstia maravilhada diante da majestosidade da Natureza, do Cosmos. Os dois álbuns que elas já lançaram – Perotá Chingó (2013) Aguas (2017) – são o tipo de música que pode ser usada para meditação ou contemplação diante de uma paisagem acachapante. São trilha sonora pra ouvir em Machu Picchu, diante da Cordilheira dos Andes, ou diante do Lago Titicaca.

Uma música que celebra os fluxos, os aguaceiros, as montanhas que nos curam a visão com sua exuberância… É uma música que quer plantar sementes de árvores cujos frutos no futuro brotarão. É um pouco o clima emocional que também tanto me comove na canção de Muerdo, cantor-compositor espanhol, chamada “Semillas”, e gravada ao vivo com Lola do Perotá. Também busquei expressar algo de meu em uma re-leitura e interpretação desta canção, “Somos Sementes”:

SOMOS SEMENTES

Terei que caminhar onde não há sendas
Onde ninguém cantou já meu cantar
Irei atravessar espinhentas veredas
Rumo a um tempo que amanhã nascerá

Atirarei sementes à terra
Sementes que de pronto brotarão
Com frutos de amor, e não de guerra
Com sabor de redenção e “Libertad!”

Te deixes sentir como vai entrando tudo em ti
Todo o Cosmo brilhoso explode por aqui
Posso ver a Raiz, sentir-me Terra também
Quero sentir marés vertendo sobre mim
Catarata que empurra tudo que não quer sair
E o que não me faz bem, vou enxotando de mim
AFUERA!

Quero navegar contra a Maré (ai ai)
Que trata de arrastar-me até o final
Terei que decolar com asas novas
Ícaro de acordes, ao compasso do ritmo

Atirarei sementes à Terra
Sementes que de pronto brotarão
Com frutos de amor, e não de guerra
Com sabor de redenção e “Libertad!”

Te deixes sentir como vai entrando por ti
Todo o Cosmo brilhoso explodindo por aí
Posso ver a Raiz… Sentir-me Terra também.
Quero sentir o Cosmo adentrando por mim
Catarata cósmica que não quer mais sair
E o que não me faz bem, vou enxotando daqui
E o que não nos faz bem, vamo enxotando daqui
E o que não nos faz zen, vamo enxotando daqui
AFUERA!

No embalo das vivências do Encontro de Culturas na Chapada, apaixonado por outra canção das hermosas hermanas do Perotá, dei sequência ao projeto com “Piel”, outra música-de-amor do Perotá que nos coloca para dançar a Valsa do Adeus e do Reencontro. Quando vi as duas cantando ao vivo, me encantei com tanta simplicidade e singeleza: trata-se de dizer ao outro que ele vale por inteiro, inclusive e sobretudo por sua pele. Pele: instrumento do abraço (que é, por sua vez, quando envolve de fato, o caminho para tornar-se um alguém total). Pele: o que entra em festa no sexo. Pele: o sensível por nosso corpo todo disseminado.

Não se trata de mera superfície: a pele do outro é o calor de que a gente precisa pra nos aquecer por dentro. A pele é subestimada por milênios de culto ascético de uma suposta alma desencarnada (miragem dos idealismos e das religiões…). A pele é aquilo que vale a pena preferir às miragens do amor platônico, pois contato sem tato é algo desconexo, não tem base… Contato é com tato – aí inclusos beijos, amplexos, transas, e etecétaras.

Acredito que as hermosas cantoras do Perotá Chingó são veículo de uma sabedoria afetiva e existencial que está muito bem manifesta neste minitratado sobre o amor sensual: o desejo por um outro com todo o seu corpo, aí incluso o território imenso da pele. Contra qualquer platonismo – idolatria do outro transformado em ideal descarnado -, a música fala das doçuras e dos calores do tocar, do roçar das peles calientes, do CONTATO COM TATO.

A canção fala sobre um amor que, longe de ficar aprisionado nas catacumbas escuras de uma subjetividade inacessível, vem para se manifestar à flor da pele. Na ausência do tocar – como sugere o belo livro de Ashley Montagu (Tocar: O Significado Humano da Pele) – o ser humano não consegue florescer. Chegou a era de sermos de novo os espíritos livres, hippie-dionisíacos, superficiais por profundidade!


PARTE 3 – MÚSICA NA ESCOLA DA VIDA, PARA ALÉM DOS ACESSÓRIOS PEDAGÓGICOS

Tanto pelo fato de ser, há pelo menos uns 15 anos, um melômano incurável e um músico amador, alguém que ouve muita música e que tenta sempre aprender mais sobre a feitura, sobre o métier do compositor, cada vez mais percebo a música como algo visceralmente conectado à educação.

O vínculo pode parecer um pouco absurdo para muitos leitores: acostumamos a pensar que a música pode ser, no máximo, uma espécie de coadjuvante em uma aula, utilizada por um professor de modo eventual, como material complementar ou como momento de descontração em relação à disciplina mais férrea que a transmissão dos conteúdos obriga a impor.

Já eu venho pensando que música e educação podem ter relações muito mais expandidas do que sonha nossa tradicional pedagogia. Digo isso por muitas razões: a primeira delas é que aprendo uma imensidão com a música, e se ela serve para mim como uma preciosa escola, que não cessa de produzir excelentes ensinamentos, por que não compartilhar no ambiente escolar os saberes e as práticas que se utilizam da música como veículos?

Alguns acharão ainda mais absurda a proposta deste aprendiz-de-educador de que a Filosofia, na escola, pode e deve ter na música uma de suas melhores aliadas. Explico: a filosofia costuma ser vista como algo destinado a cultivar a razão, o intelecto, as capacidades de raciocínio lógico. Mas isto está muito longe de esgotar seus potenciais, já que a filosofia é também cultivo da sensibilidade, da atenção às nossas percepções, da reflexão sobre aquilo que nos estimula, nos adentra, nos transforma ao fluir através de nós.

Mais ainda: alunos de filosofia, ao assistirem um videoclipe musical, são colocados concretamente na posição de sujeitos da experiência sensível, sob o impacto da arte, e podem assim aprender com as portas dos sentidos, que são assim escancaradas, aquelas lições que jamais se entregam aos que trazem os seus sentidos com as portas trancadas a cadeados (o que é o caso, creio eu, das maiorias – quantos de nós estão adormecidos, autômatos, teleguiados, auto-enclausurados, para tão poucos despertos Budas!).

Para além disso, creio que pode-se falar muita coisa interessante sobre ética e política, durante as aulas de filosofia, a partir da música.

A música pode auxiliar imensamente no aprendizado, desenvolvendo a rítmica corporal, a apreciação estética e as capacidades sinestésicas. Descobri recentemente que estas são sendas de interconexão entre música e educação que vem sendo exploradas por alguns inovadores como Emile Jacques Dalcroze (1865 – 1950), Carl Orff ou Lucas Ciavatta. Uma pedagogia das Eurhythms está em emergência e pode ser conhecida através do livro The moving body in the aural skills classroom, de Diane J. Urista (Oxford, 2016).


A música pode e deve invadir a sala-de-aula não apenas nas aulas de artes ou de ciências humanas, mas também (por que não? por que não?) em plena Física. Afinal, o material que a música utiliza como sua obra-prima são os sons, fenômenos físicos, evidentemente, como sabe quem já tentou quebrar vidro ao gritar bem alto. É possível quebrar vidraças ouvindo Rage Against The Machine em volume suficientemente extremo (e era isso que eles queriam dizer com Guerrilla Radio?).

Sem falar que a ação desse fenômeno físico sobre nossa realidade biológica e psíquica é uma ampla estrada repleta de ensinamentos e mistérios. A música pop, em inúmeros formas, já adorou explorar a conexão entre a pulsação rítmica intensa e a possibilidade de deixar o coração aos pinotes, ao ponto de explodir em shattered glass, como ocorre quando curtimos adoidado aquela lá do Blondie:

Na Escola da Vida, os aprendizados e benfeitorias de levar uma Existência Musicada são inúmeros. Nietzsche tinha razão: que tremendo equívoco seria, para qualquer ser humano, diante da chance única e insubstituível de ser quem é neste momento do tempo e neste local do espaço, passar pela vida sem ligar o mínimo para a Música, esta deusa majestosa e invisível que faz de nosso percurso do berço ao túmulo algo além de estrondo e fúria – ou seja, cadência, melodia, ritmo, sincronicidade, harmonia, coligação, diferença em dança, Beleza Que Flui…

por Eduardo Carli de Moraes, Setembro de 2018


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A TRILHA SONORA DA INSURREIÇÃO: A Renovação da Revolta na Música Brasileira Atual – A Saga do Cavaco Profano do Machete Bomb

“Aqui ninguém nasceu pra ser domesticado (aqui não!)”
MACHETE BOMB, “Fatcap”

Há quem se recuse a ser o colonizado submisso, o conformado domesticado, o oprimido calado. Ainda pulsam, aqui e ali, nos subterrâneos da cultura, aquelas expressões subversivas que, apesar de não circularem no mainstream, são máquinas sônicas enraivecidas contra o Sistema. São artistas flamejantes e indiespensáveis (com a licença do neologismo estrangeirista).

É o Emicida pondo o dedo na ferida e convocando a neo-guerrilha de Panteras Negras. É o Baiana System falando de uma Sociedade do Lucro que é “máquina de louco”. É a esplêndida Larissa Luz, musa-afro, cheia-do-axé, que manifesta todo o poderio de uma mulher empoderada e descolonizada. Os exemplos poderiam ser multiplicados.

Neste cenário, contrariando a tendência do rock brasileiro de tornar-se um tiozão bundão de Direita (como viraram o Lobão e o Roger do Ultraje A Rigor), chegou ao cenário, vinda do Paraná, a Machete Bomb. E declararam aberta a “Temporada de Caça”.

violência expressiva que se manifesta na sonoridade do Machete é reflexo da sociedade ultra-violenta que somos, com seus mais de 60.000 homicídios anuais e o maior índice global de mortes por arma de fogo.

Só faça o favor de não confundir a violência lírica e musical, estratégia dos oprimidos em seu processo de partejar um mundo menos opressivo, com a violência concreta e brutal perpetrada pelos opressores.

O Machete Bomb encena uma espécie de teatro insurrecional (falo aqui inspirado por Augusto Boal e sem sombra de intenção pejorativa ao evocar o “teatro”). Esses caras estão fazendo um som que parece convidar as massas ao levante de indignação, estão dizendo que aquilo que o Brasil precisa é de uma injeção, na veia, de altos decibéis de rebeldia. É uma sonzeira que fala daquele momento em que a “paciência do violentado” se esgota, a taça transborda, o vulcão entra em erupção, e a lava é feita de fúria.

O que domina é uma vibe de vendeta-dos-violentados, o som daqueles que se cansaram de serem esculhambados. Resolvem virar a mesa e tornarem-se os agentes da transformação social radical, utilizando-se das armas a seu dispor no vasto arsenal anarco-lírico.

É um tipo de música que parece embebida nas atitudes guerrilheiras de figuras como Malcolm X, Marighella, Che Guevara. É Guerrilla Radio. E os alvos da vendeta são muitos: “o colarinho branco com o poder da caneta”, “o empreiteiro bilionário que compra a licitação”, “o tribunal de faz-de-conta que aprova a corrupção”, “o bispo com os dedos pretos de contar notas de cem”, “o vendedor de milagre que faz o povo de refém” (acesse a letra completa).

A poética de “Temporada de Caça” deleita-se em espalhar imagens de figuras que merecem ser “caçadas”, instaurando uma explicitação de cenário convulsionado e bélico. Rompendo com o mito dourado do Homem Cordial, o Machete Bomb revela o Brasil como um caos e como um caso grave de guerra civil não-declarada. E eles vão elencando aqueles que são considerados como adversários políticos – políticos escrotos, pastores ricos, juízes injustos etc. -, que passam a estar na mira do mic, feito patinhos numa estande de tiro.

É uma atitude que faz pensar na Revolução dos Escravos no Haiti. Que lembra uma trilha sonora criada para acompanhar a leitura de Franz Fanon ou de Eduardo Galeano. É verdade que a banda aborda temas já “batidos”, em especial para quem acompanha o Movimento Hip Hop: a violência policial em “Giroflex”, a resistência aguerrida dos que “ocupam e resistem” em “Tiro e Queda”, mas quem disse que isso não é bem-vindo quando, na realidade concreta, estes continuam temas urgentes e atuais?

“Uma mente consciente engatilhada é um perigo!”, cantam eles nesta última, em estado de auto-celebração por serem uma frente anarcolírica anti-sistêmica. É o tipo de atitude que, lá fora, os críticos musicais podem descrever como guys who are proud to be rebels. 

MACHETE BOMB é: Vitor Salmazo (vocal), Rodrigo Spinardi (percussão), Rodrigo Suspiro (baixo), Daniel Perim (bateria) e Madu (cavaco).

São bandas assim que me fazem pensar que daria para escrever um livro inteiro sobre A Revolta na Música Brasileira. Uma trajetória do Homem Revoltado em sua encarnação tropical, ausente das explorações de Albert Camus no seu L’Homme Revolté. Poderíamos viajar nas ondas sonoras insurrecionais destas terras, indo do samba ao rap, do frevo ao punk, do baião ao manguebeat. Daria para explorar as múltiplas vertentes da canção de protesto: tão arrojada e cosmopolita na Tropicália, tão bruta e chuta-bundas nas mãos do Movimento Punk, tão malandra e periférica nos cronistas da marginalidade (de Bezerra da Silva a Planet Hemp…).

Daria para explorar diferentes períodos históricos, em seus contrastes e similaridades: na Ditadura Vargas do Estado Novo (1937-1945), os rebeldes eram aqueles que celebravam a boêmia, a vida “improdutiva” do artista-malandro, que não é otário de ficar amassado no Bonde de São Januário… prefere viver cantando e tocando, embriagado.

Mas na Ditadura Civil-Militar de 1964 a 1985, a rebeldia é outra, e aliás multiforme: a lírica buarquista, que combina a denúncia de tenebrosas transações, mas que insufla utopia e esperança (“amanhã vai ser outro dia”), difere bastante do clima de folk nacionalista de Vandré (que seguimos cantando enquanto caminhamos: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer), que também difere radicalmente daquela irrupção do Maio do 1968 parisiense no caldo tropicaliente de Caetano e Os Mutantes em uma das obras-primas da Tropicália (“É Proibido Proibir”!).

Mas o que nos interessa sondar aqui, no entanto, não é nosso passado, mas o presente e o futuro das canções revoltadas entre nós. E nesse contexto, precisamos sim falar do Machete Bomb e A Saga do Cavaco Profano.

Conheci a sonzeira destes caras no Goiânia Noise 2018, lá dentro daquela Panela de Pressão em formato de teatro que é o Pyguá do Martim Cererê. O Machete Bomb derrubou todo o suor que tinha – honrando o lema do Macaco Bong: artista = pedreiro – e fez um show que deixou uma excelente impressão.

O mais óbvio a dizer é que enfim o Brasil possui uma banda com potência comparável ao Rage Against the Machine. Mas com uma originalidade notável que é aquele cavaco endiabrado, plugado numa pedaleira de efeitos, cheia das pirotecnias. Quando tocaram no Estúdio Showlivre, o  Madu foi descrito como “O Tom Morello do cavaco”. E, naquela ocasião, o vocalista Vitor Salmazo também se definiu como anarco-indígena (porra, meu!) e falou de uma sintonia não só musical, mas também ideológica, com o R.A.T.M.

SHOW COMPLETO – ESTÚDIO SHOWLIVRE

É verdade que já existiu muita inovação nesta mescla de cavaco endemoniado com rock abrasileirado, e só lembrar do Mundo Livre S.A., uma das mais geniais bandas do manguebeat, que tem na comissão de frente o cavaco de Fred Zero Quatro.

Mas o Madu está explorando uma outra senda, uma trip mais extrema, é um músico extraordinário que está explorando a via inovadora do cavaco heavy. O cavaco com os sinais transtornados por uma pedaleira cheia das pirotecnias e dos scratches típícos de DJ, mas com uma potência que, quando o som está rolando ao vivo, ficamos de fato com a impressão de que Tom Morello está no recinto. Mas ao invés de uma guitarra elétrica preferiu algo de uma brasilidade mais explícita. A voz à la Zack de La Rocha de Salmazo só torna mais forte a impressão de combatividade da banda.

Também há algo de uma celebração das afrobrasilidades, com certas evocações da capoeira, dos tambores africanos. Um dos grandes momentos do show do Machete, segundo meu paladar, é quando eles decretam (com o som no talo, como de praxe): “o agogô chegou!”, com tambores de batuques afro mesclando-se linhas de baixo que não ficariam incoerentes dentro de um groove dos Chili Peppers. É aí que fica claro que o Machete Bomb veio para se pôr no campo-de-jogo cultural como uma daqueles expressões artísticas que Marcelo Ridenti chama de “brasilidade revolucionária”. E, como o Baiana System também promete, a Babilônia vai cair… se depender desses músicos.

Os vocais na confluência entre o rap e o hardcore não só evocam o Rage Against the Machine e o System of a Down, mas recuperam no cenário cultural brasileira pós-2013 um certo sabor de Planet Hemp. As letras de confrontação violenta do status quo (com o mais sincero “foda-se a vocês” que defendem o estabelecido) sugerem que no Brasil ainda sobrevive uma estética da resistência em que a música é vista não como entretenimento, mas como ferramenta para a motivação prática de nossas mobilizações coletivas.

E é bom saber que nosso povo não é achincalhado e fica calado. Nas voltas intermináveis que o mundo dá, a música múltipla e multiforme que não cessa de nascer sobre o planeta segue sendo uma roda viva rumo a novas paragens. Mais do que espelhar a época, a música às vezes dá voz e alto-e-bom-som às fúrias e rebeldias dos que não aceitam nem acatam que a época prossiga como está sendo. A música faz como Brecht dizia que a arte tinha que fazer: não ser espelho que reflete o mundo, mas um martelo com o qual escupi-lo.

A música às vezes atinge graus de intensidade impressionantes, capazes de desvelar as contradições sociais e explicitar as vontades e afetos complexos daqueles que levam a sério o direito humano fundamental: resistir à opressão. É um alento saber que ainda há produção cultural desta potência vinda daqueles que estão engajados em transformar esta época do mundo com as armas da linguagem. As munições sendo rimas, os tiros sendo de riffs! Tempos históricos catastróficos como os nossos exigem expressões artísticas de radicalidade.

E me parece que, por onde quer que passem – como fizeram no festival Psicodália (SC) – o Machete Bomb transforma o recinto numa Zona Autônoma Temporária (Hakim Bey). Numa área provisoriamente liberada. Num espaço de potencial insurrecional. E nele as lições de um dos mais geniais dos músicos revoltados que já viveu – Joe Strummer, do The Clash – seguem ecoando:

“Let fury have the hour
Anger can be power
Don’t you know that you can use it?”
THE CLASH – Clampdown


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Escrito por Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro.com || Setembro de 2018

“Tirem-nos tudo, mas deixem-nos a música!” – Poesias de Noémia de Sousa em “Sangue Negro” (Kapulana, 2016)

SÚPLICA

Tirem-nos tudo,
mas deixem-nos a música!

Tirem-nos a terra em que nascemos,
onde crescemos
e onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um tabuleiro de xadrez…

Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a tua lírica de xingombela
nas noites mulatas
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota – humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor de lume
(que nos é quase tudo)
– mas não nos tirem a música!

Podem desterrar-nos,
levar-nos
para longes terras,
vender-nos como mercadoria,
acorrentar-nos
à terra, do sol à lua e da lua ao sol,
mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!
Que onde estiver nossa canção
mesmo escravos, senhores seremos;
e mesmo mortos, viveremos.
E no nosso lamento escravo
estará a terra onde nascemos,
a luz do nosso sol,
a lua dos xingombelas,
o calor do lume,
a palhota onde vivemos,
a machamba que nos dá o pão!

E tudo será novamente nosso,
ainda que cadeias nos pés
e azorrague no dorso…
E o nosso queixume
será uma libertação
derramada em nosso canto!

– Por isso pedimos,
de joelhos pedimos:
Tirem-nos tudo…
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a música!

* * * *

SE ME QUISERES CONHECER

Se me quiseres conhecer,
estuda com os olhos bem de ver
esse pedaço de pau preto
que um desconhecido irmão maconde
de mãos inspiradas talhou e trabalhou
em terras distantes lá do Norte.

Ah, essa sou eu:
órbitas vazias de possuir a vida,
boca ragada em feridas de angústia,
mãos enormes, espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameça,
corpo tatuado de feridas visíveis e invisíveis
pelos chicotes da escravatura…
Torturada e magnífica,
altiva e mística
África da cabeça aos pés,
-ah, essa sou eu:

Se quiseres compreender-me
vem debruçar-te sobre minha alma de África,
nos gemidos dos negros no cais
nos batuques frenéticos dos muchopes
na rebeldia dos machanganas
na estranha melancolia se evolando
duma canção nativa, noite dentro…

E nada mais me perguntes,
se é que me queres conhecer…
Que não sou mais que um búzio de carne,
onde a revolta de África congelou
seu grito inchado de esperança.

(1949)

* * * * *

NOSSA VOZ

NOSSA VOZ

Ao J. Craveirinha

Nossa voz ergueu-se consciente e bárbara
sobre o branco egoísmo dos homens
sobre a indiferença assassina de todos.
Nossa voz molhada das cacimbadas do sertão
nossa voz ardente como o sol das malangas
nossa voz atabaque chamando
nossa voz lança de Maguiguana
nossa voz, irmão,
nossa voz trespassou a atmosfera conformista da cidade
e revolucionou-a
arrastou-a como um ciclone de conhecimento.

E acordou remorsos de olhos amarelos de hiena
e fez escorrer suores frios de condenados
e acendeu luzes de esperança em almas sombrias de desesperados…

Nossa voz, irmão!
nossa voz atabaque chamando.

Nossa voz lua cheia em noite escura de desesperança
nossa voz farol em mar de tempestade
nossa voz limando grades, grades seculares
nossa voz, irmão! nossa voz milhares,
nossa voz milhões de vozes clamando!

Nossa voz gemendo, sacudindo sacas imundas,
nossa voz gorda de miséria,
nossa voz arrastando grilhetas
nossa voz nostálgica de ímpis
nossa voz África
nossa voz cansada da masturbação dos batuques da guerra
nossa voz gritando, gritando, gritando!
Nossa voz que descobriu até ao fundo,
lá onde coaxam as rãs,
a amargura imensa, inexprimível, enorme como o mundo,
da simples palavra ESCRAVIDÃO:

Nossa voz gritando sem cessar,
nossa voz apontando caminhos
nossa voz xipalapala
nossa voz atabaque chamando
nossa voz, irmão!
nossa voz milhões de vozes clamando, clamando, clamando.

 

NOÉMIA DE SOUSA (1926 – 2002),
Poetisa Moçambicana
Do livro “Sangue Negro”
Ed. Kapulana