A 9ª SINFONIA DE BEETHOVEN (1770 – 1827) – Da Inefável Graça da Música (Por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro)

Tanto já se falou e escreveu sobre a Nona Sinfonia de Beethoven a ponto de parecer tarefa condenada à irrelevância ou à redundância tentar traçar algumas novas linhas sobre essa realização colossal. O que dizer sobre o indizível?!? Eis uma peça musical já tratada em toneladas de textos e palestras, alvos de inumeráveis apreciações bem mais eruditas e bem-informadas do que eu jamais saberia escrever. Mas algo me compele ao esforço de expressar, ainda sob o impacto recente sobre meus sentidos deste tornado, desta estarrecedora obra de um genial orquestrador-dos-ventos. Algo me empurra a repetir o que todos estão carecas de saber: que esta é uma das obras-primas da história da música e uma das manifestações supremas do Gênio Humano através de nossa História. O tipo de magnum opus que nos deixa tagarelando este tipo de hipérboles dos altos cumes de nossa paixão incendiada.

Nona é tão carregada de belezas que a língua não sabe articular que pode servir de paradigma para explicar o que quer dizer aquela palavrinha escondida no fundo dos dicionários: inefável. Os encantos mil da obra-prima de Beethoven estão entre aquelas catedrais-de-sons dotadas de tamanha Graça e Beleza que não podem ser expressas verbalmente a contento. A palavra, ferramenta humana necessária mas limitada, parece pálida e fraca diante da chama incendiária da Música, linguagem universal capaz de afetar a sensibilidade humana em quaisquer latitudes do planeta.

Recentemente pude estar de tímpanos bem abertos para duas performances magistrais de Beethoven em Goiânia: primeiro, a Quinta Sinfonia, com a Filarmônica, no concerto de abertura para o show com Lenine no Centro Cultural Oscar Niemeyer; depois, a Nona apresentada pela Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás, no Teatro Escola Basileu França, em 11 de Outubro. Nas duas ocasiões, os teatros estavam lotados e, nem é preciso dizer, a aclamação ao fim foi estrondosa, com um escarcéu de palmas, gritos, urros e “bravos!” instaurando uma linda anarquia da alegria e da gratidão.

Fico pensando no velho Ludwig Van, já no fim de sua estadia entre os vivos, com a surdez avançando impiedosamente sobre sua audição, compondo algo que ele mesmo nunca iria ouvir de fato. Nas primeiras performances da Nona, ele deve ter recebido em seu corpo a onda de aclamação de modo bem diferente de nós hoje em dia: Beethoven, surdo, incapaz de ouvir em toda a sua potência a aclamação das platéias diante de seu último rebento sinfônico, ainda assim deve ter sentido em seu corpo, em sua consciência, em sua sensibilidade, as pessoas a produzirem sinais visíveis e sensíveis de que foram profundamente tocadas por aquela inefável criação do engenho humano.

É uma música capaz de instigar uma certa filantropia, um certo apreço pela humanidade, quase que um orgulho por pertencer à raça humana, servindo de antídoto contra as marés montantes de misantropia e pessimismo que temos todo o direito de sentir na era do Antropoceno e da Sexta Extinção em Massa na história da vida neste planeta (a primeira, como diz Elizabeth Kolbert, causada por uma espécie, o homo sapiens, que hoje transformou-se não só em força geológica, mas em cataclismo planetário…). Beethoven e sua Nona até permitem que a gente pense por alguns minutos que a estadia humana nesta esfera que roda em torno do Sol não foi totalmente em vão.

É uma daquelas coisas que nos faz eventualmente discordar daquele pessimismo tão sedutor que Shakespeare expressa em Macbeth e fala da vida como a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing. Depois da Nona, sentimos que ao menos algumas doses de Sentido foram injetados no mundo e que, para além do som e da fúria, há uma beleza capaz de nos fazer acreditar que todo sofrimento, ainda que não seja redimido, gera frutos dignos de toda nossa celebração.

Poderíamos usar a Nona, no eventual contato com civilizações alienígenas, para provar a estas que somos seres orgânicos capazes de algumas grandes realizações. O problema com este pensamento sci-fi um tanto surreal é que muito provavelmente os ETs teriam ouvidos e tímpanos bem diferentes dos nossos e talvez, ao contato com Beethoven, Schubert, Wagner, Beatles etc. talvez sentissem penas cócegas em seu aparelho auditivo. Ou pior: sentiriam uma ofensa semelhante à que motosserras e britadeiras produzem na sensibilidade de um ser humano. A música é humana, demasiado humana! Tanto que a nossa cadelinha Crackinha, notável Schnauzer de ancestrais alemães, não consegue encontrar graça nenhuma na música de Beethoven tocando no talo…

A Ode à Alegria, musicada por Beethoven a partir de um poema de Schiller escrito em 1785, faz sua entrada triunfal no 4º movimento da Nona e é uma daquelas ocasiões onde a Voz humana alça-se a suas mais incríveis alturas. Ouvir dúzias de vozes entoando em coro esta poderosa melodia, de ritmicidade contagiosa, leva-nos aos cumes da admiração pelas potencialidades da humanidade. Não duvido nem um pouco da capacidade humana para a estupidez mais tacanha, para as ações mais cegas e auto-destrutivas, para os massacres e guerras mais brutais, mas algo como a Nona revela o outro lado desta moeda, descortinando todo o sublime e toda a inefável e inesgotável beleza que é capaz de surgir da colaboração e da criatividade conjunta dos humanos. Ainda que a gente não entenda bulhufas de alemão, o canto nos toca e nos comove nas profundezas da carne. As vozes em uníssono fazem-se como uma força coletiva que irrompe coração adentro para despertá-lo do torpor, para varrer dali as teias de aranha, para tentar irradiar por ali o sol cálido da alegria de viver.

Transformada em hino oficial da União Européia, a Ode À Alegria de Beethoven foi alçada a outro patamar como “símbolo civilizatório” do Velho Continente. Os europeus fazem desta obra uma espécie de certificado de sua excelência – e não faltam, é claro, aqueles que, vítimas do velho eurocentrismo, a utilizam como prova da superioridade européia sobre todos os outros continentes deste triste planeta.

Jamais superaremos o estarrecimento, porém, diante da Alemanha, este país de tantos gênios artísticos, a pátria de Goethes e Schillers, de Beethovens e Heines, que pôde cair tão fundo no abismo da barbárie genocida sob o comando do Partido Nazista. Um povo supostamente tão culto e civilizado pôde cair sob o encanto fatal de uma ideologia racista, totalitária, praticante de extermínios em massa, e isso com a cumplicidade e mesmo a aprovação de boa parte da população alemã. O mais assustador do conceito de Banalidade de Mal formulado por Hannah Arendt está em revelar que toda a engenhoca horrenda da Solução Final não poderia ter trucidado tantos milhões de vida sem o auxílio da gente simples, dos reles funcionários, dos obedientes cordeiros do Estado que trabalhavam para que os trens saíssem no horário e com as cargas devidas (ainda que seus destinos fossem campos de concentração e câmaras de gás).

É um dos elementos mais interessantes do uso de Beethoven por Stanley Kubrick em Laranja Mecânica (1971): no filme, baseado no brilhante romance de Anthony Burgess, A Clockwork Orange, nada impede que o protagonista Alex, entusiasta de Beethoven, seja o líder de uma gangue de malfeitores que pratica inúmeras atrocidades. Há uma cena onde Alex e sua trupe, tomando seu leitinho no Korova, testemunham uma cantora entoando o Hino à Alegria. Alex, o delinquente cínico, agride um de seus companheiros que ousa zombar daquela música; diante de Beethoven, ele exige solene reverência.

 

Slavoj Zizek tem interessantes reflexões a fazer sobre o uso ideológico da Nona de Beethoven pela União Européia. Zizek diz que a Ode à Alegria, à primeira vista, é lida como uma celebração da fraternidade humana, da união de todos os povos. De fato, Schiller e Beethoven tingiram esta obra com altas doses de Romantismo e Idealização, sendo que a obra culmina em versos que falam sobre um Criador que mora por cima das estrelas e a quem o hino é dedicado. Segundo Zizek, o que é estarrecedor na obra é o quanto ela pode ser cooptada por movimentos políticos diametralmente opostos:

“Na Alemanha nazista, foi amplamente utilizada para celebrar grandes eventos públicos. Já na União Soviética, Beethoven era adorado e a Ode à Alegria era tocada quase como uma canção comunista. Na China, durante a grande Revolução Cultural, quando quase toda a música ocidental estava proibida, a Nona Sinfonia foi aprovada e permitida pelo regime por ser uma peça de música burguesa progressista. (…) Já o Presidente Gonzalo, líder do Sendero Luminoso, uma guerrilha de extrema esquerda do Peru, quando foi perguntado por um jornalista qual era sua música predileta, respondeu que era a Nona Sinfonia e sua Ode à Alegria.”

Zizek tira daí a seguinte lição sobre a ideologia veiculada pela Nona: ela pode até, da boca pra fora, em seu sentido mais explícito, pregar a unidade da raça humana, a fraternidade universal, a Brotherhood of Man sobre a qual cantará Lennon em “Imagine”. Mas sempre devemos nos questionar se, para além da mensagem idealizada, se a música, em seus usos sociais, não põe em ação um mecanismo de exclusão de vastos contingentes da população humana sobre a face da terra, aqueles sem acesso a bens culturais como esses, muito menos à formação artística que capacitaria a compreendê-los. Celebrar Beethoven pode virar uma tática elitista de certos grupos celebrarem seu próprio “bom gosto”, o primor estético de suas escolhas artísticas, sentindo-se assim superiores às massas incultas que chafurdam no kitsch da cultura de massas. Celebrar Beethoven pode virar uma espécie de “certificado de detentor de capital cultural” – e é com arrogância que Alex, em Laranja Mecânica, circula pela loja de discos, na pose de um dândi inglês que se sente totalmente superior à riff-raff, à ralé.

Não é que Beethoven seja de fato um ideólogo servindo às classes dominantes, apesar de ser cooptado, às vezes, para fins alheios às suas intenções originais. Para Zizek, Beethoven, nesta obra, não é o ingênuo celebrador da humanidade como Grande Família Feliz, como sua apropriação kitsch quer fazer supor, mas sim o gênio que lança em distúrbio todas as ideologias ortodoxas, que cria uma obra que não é encaixável em nenhuma caixinha previamente formulada, que em sua inefabilidade acaba por propiciar um tipo de experiência capaz de causar o naufrágio das ideologias oficiais no oceano tempestuoso dos afetos que mobiliza. A Nona Sinfonia é o tipo de rebento criativo de um gênio não-domesticado, jamais servil a interesses de Estados ou Mercados, um compositor quase-surdo que realiza um espantoso palácio de som, mais estrondoso para os tímpanos que muitas tempestades, mais encantador para a sensibilidade que a mítica lira de Orfeu, e visceralmente arredio a qualquer jaula ideológica em que possamos querer encarcerá-lo.

Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro – 12/10/2017

 

ODE À ALEGRIA – Schiller (Trecho)

Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais agradável
E cheio de alegria!

Alegria, mais belo fulgor divino
Filha de Elíseo
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu
Todos os homens se irmanam
Onde pairar teu voo suave

A quem a boa sorte tenha favorecido
De ser amigo de um amigo
Quem já conquistou uma doce companheira
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma
Uma única em todo o mundo
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!

Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza
Todos os bons, todos os maus
Seguem seu rastro de rosas
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

Alegres, como voam seus sóis
Através da esplêndida abóbada celeste
Sigam irmãos sua rota
Gozosos como o herói para a vitória

Alegria, mais belo fulgor divino
Filha de Elíseo
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Abracem-se milhões de seres!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos! Sobre a abóbada estrelada
Deve morar o Pai Amado
Vos prosternais, Multidões?
Mundo, pressentes ao Criador?
Buscais além da abóbada estrelada!
Sobre as estrelas Ele deve morar.

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Rainer Maria Rilke – Primeira Elegia de Duíno

 

PRIMEIRA ELEGIA DE DUÍNO

Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois o que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, que nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face – a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos – talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.

Sim, as primaveras precisavam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janela aberta,
uma viola d’amore se abandonava. Tudo isto era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, à espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vêm
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta às amantes;
ainda não é bastante imortal sua celebrada ternura.
Tu quase as invejas – essas abandonadas
que te pareceram tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma indefinidamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser – nascimento supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objeto amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detêm.

Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fôsses,
nas igrejas de Roma e Nápoles, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa…
O que pede essa voz? A ansiada libertação
da aparência de injustiça que às vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
às rosas e a outras coisas singularmente promissoras
não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medrosas,
não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. – Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentar Linos violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que ele abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações – que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.

Rainer Maria Rilke

P.S. – “Contam que Rilke, depois dos primeiros versos que o vento lhe ditou nas altas penedias de Duíno, viveu doze anos com aquele germe, em viagens, em mudanças, em desperdícios, em guerras, até o momento de realizar, em quatro dias, como quem morre, as suas elegias perfeitas. Não será sempre assim? Não será a própria vida uma longa e desarrumada atividade dos bastidores para uma fugaz apoteose?” In: GUSTAVO CORÇÃO, Lições de Abismo.

Rilke, 1906. Foto: George Bernard Shaw.

 

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Correspondência Rilke e Lou von Salomé – Audiobook

Os Navios Negreiros e os Camburões – Heine, Machado de Assis, Phillis Wheatley, Jorge Ben, O Rappa, Rugendas, Di Cavalcanti

O trágico drama dos Navios Negreiros – a escravização massiva de seres humanos transformados em mercadorias, roubados de suas terras natais, separados a força de raízes e ossos-de-ancestrais, massacrados sob a opressão mais dura – ganhou boa parte de seu poder de comoção pela via das poesias de H. Heine e Castro Alves.

Sobre este tema, dentre tantos, os poetas demonstraram amplamente a intensa preciosidade que são pra Humanidade, despertando a golpes de versos e rimas as nossas sensibilidades e intelectos às vezes apáticos e indiferentes.

São poesias que nos acordam, subitamente, como se martelassem em nossas cucas com estrondosos ritmos e imagens exuberantes, a grandiosidade épica e os crimes atrozes descomunais que ocorreram durante os séculos de “tráfico negreiro” praticado pelo capitalismo imperialista europeu.

Abaixo, compartilhamos uma tradução do potente e altamente impertinente poema de Heine que inspirará alguns dos versos mais célebres da poesia brasileira, na pena de Castro Alves. Lê-los enche-nos lábios e línguas de um sabor de cinzas. Pegamo-nos dizendo: ainda bem que a escravidão foi abolida, decerto; mas ainda mal andam das pernas as nossas supostas “democracias raciais”, no fundo ainda incapazes de construir algo realmente dessemelhante à escravatura…

O capitalismo atual ainda possui vários traços herdados de seu pseudo-passado escravocrata, e dele estamos longe de ter-nos livrado. Um exemplo é revelado pelo documentário Sangue No Celular, ou Blood on the Mobile, de Frank Poulsen, mostra os vínculos entre uma mercadoria campeã de vendas na economia global, o telefone celular, e a escravidão contemporânea. Os celulares de Nokias e Motorolas que carregamos nos bolsos, e que às vezes até podemos utilizar para conspirar revoluções e insurreições via Fêice e Zap, necessitam em sua confecção de certos minérios que as crianças escravizadas no Congo são responsáveis por coletar em jornadas de trabalho tenebrosas, atrozes. São neo-escravos nas minas de espoliação e exploração dos novos senhores de engenho e capEtões da mineração na Aldeia Global, ainda (mais que nunca!) tão desigual…

Diante da abolição da escravidão – escreve Machado de Assis em Memorial de Aires em 1908 – ele “sentiu grande prazer”: “Ainda bem que acabamos com isso. Era tempo.” Porém Machado destaca que a experiência histórica da escravidão é algo que deixa marca indelével e estigmas múltiplos sobre a carne do Brasil:

“Embora queimemos todas as leis, decretos e avisos, não poderemos acabar com os atos particulares, escrituras e inventários, nem apagar a instituição da história, ou até da poesia. A poesia falará dela, particularmente naqueles versos de Heine, em que o nosso nome está perpétuo. Neles conta o capitão do navio negreiro haver deixado 300 (trezentos) negros no Rio de Janeiro, onde a casa Gonçalves Pereira lhe pagou cem ducados por peça.” (MACHADO DE ASSIS, Via André Vallias, Heine Quem?, p. 383)

Seguem os fortes versos de Heine, um dos autores prediletos de Machado, Borges, Nietzsche, Marx, Castro Alves (dentre outros ilustres fãs):

O sobrecarga Mynheer van Koek
Calcula no seu camarote
As rendas prováveis da carga,
Lucro e perda em cada lote.

“Borracha, pimenta, marfim
E ouro em pó… Resumindo, eu digo:
Mercadoria não me falta,
Mas negro é o melhor artigo.

Seiscentas peças barganhei
— Que pechincha! — no Senegal;
A carne é rija, os músculos de aço,
Boa liga do melhor metal.

Em troca dei só aguardente,
Contas, latão — um peso morto!
Eu ganho oitocentos por cento
Se a metade chegar ao porto.

Se chegarem trezentos negros
Ao porto do Rio Janeiro,
Pagará cem ducados por peça
A casa Gonzales Perreiro.”

De súbito, Mynheer van Koek
Voltou-se, ao ouvir um rumor;
É o cirurgião de bordo que entra,
É van der Smissen, o doutor.

Que focinheira verrugenta!
Que magreza desengonçada!
“E então, seo doutor, diz van Koek,
Como vai a minha negrada?’

Depois dos rapapés, o médico,
Sem mais prolilóquios, relatando:
“A contar desta noite, observa,
Os óbitos vêm aumentando.

Em média eram só dois por dia,
Mas hoje faleceram sete:
Quatro machos, três fêmeas, perda
Que arrolei no meu balancete.

Examinei logo os cadáveres,
Pois o negro desatinado
Se finge de morto, esperando,
Lançado ao mar, fugir a nado!

Seguindo à risca as instruções,
Ao primeiro clarear da aurora,
Mandei retirar os grilhões
E — carga ao mar! — sem mais demora.

Os tubarões, meus pensionistas,
Acudiram todos, em bando.
Carne de negro é manjar fino
Que aparece de vez em quando.

Mal nos afastamos da costa,
Rastreiam o barco, na esteira,
Farejando de muito longe
Os eflúvios da pestiqueira.

Edificante é o espetáculo,
Pois o tubarão narigudo
Não escolhe cabeça ou perna
E abocanha, devora tudo!

Como se opíparo banquete
Fosse um simples aperitivo,
Põe-se a rondar, pedindo mais,
Sempre à espreita e de olho vivo!”

Mas o inquieto van Koek lhe corta
O relato em meio… Como há de
Remediar-se a perda, pergunta,
Combatendo a letalidade?

Responde o doutor: “Natural
É a causa; os negros encerrados,
A catinga, a inhaca, o bodum
Deixam os ares empestados.

Muitos, além disso, definham
De banzo ou de melancolia;
São males que talvez se curem
Com dança, música e folia.”

“O conselho é de mestre!”, exclama
Van Koek. O preclaro doutor
É perspicaz como Aristóteles,
Que de Alexandre era mentor!

Eu, presidente dos Amigos
Da Tulipa em Delft, declaro
Que, embora sabido, ao seu lado,
Não passo de aprendiz, meu caro.

Música! Música! A negrada
Suba logo para o convés!
Por gosto ou ao som da chibata
Batucará no bate-pés!”

O céu estrelado é mais nítido
Lá na translucidez da altura.
Há um espreitar de olhos curiosos
Em cada estrela que fulgura.

Eles vieram ver de mais perto
No mar alto, de quando em quando,
O fosforear das ardentias,
Quebra a onda, em marulho brando.

Atrita a rabeca o piloto,
Sopra na flauta o cozinheiro,
Zabumba o grumete no bombo
E o cirugião é o corneteiro.

A negrada, machos e fêmeas,
Aos pulos, aos gritos, aos trancos,
Gira e regira: a cada passo,
Os grilhões ritmam os arrancos

E saltam, volteiam com fúria incontida,
Mais de uma linda cativa
Lúbrica, enlaça o par desnudo —
Há gemidos, na roda vida.

O beleguim é o maitres des plaisirs,
É ele quem manda e desmanda;
Instiga o remisso a vergalho
E rege a grito a sarabanda.

E taratatá e denrendendém!
O saracoteio insano
Desperta os monstros que dormem nas ondas
Ao profundo embalo do oceano.

Tubarões, ainda tontos de sono,
Vêm vindo, de todos os lados;
Querem ver, querem ver para crer,
Estão de olhos arregalados.

Mas percebem que o desjejum
Longe está e logo, impacientes,
Num bocejo de tédio e fome
Arreganham a serra dos dentes.

E taratatá e denrendendém!
Não tem fim a coréia estranha.
Mais de um tubarão esfaimado
Sua própria cauda abocanha.

Eles não querem saber de música
Como outros do mesmo jaez.
“Desconfia de quem não gosta
De música”, disse o poeta inglês.

E denrendenrém e taratá —
A estranha festança não tem fim.
No mastro do traquete, van Koek,
De mãos postas, rezava assim:

“Meu Deus, conserva os meus negros,
Poupa-lhes a vida, sem mais!
Pecaram, Senhor, mas considera
Que afinal não passam de animais.

Poupa-lhes a vida, pensa no teu Filho,
Que ele por todos nós sacrificou-se!
Pois, se não me sobrarem trezentas peças,
Meu rico negocinho acabou-se!”

HEINRICH HEINE (1797 – 1856),
Navio Negreiro
1843
Tradução: Augusto Meyer

Rugendas, 1830

 

DiCavalcanti

 


 

INTERLÚDIO PICTÓRICO-MUSICAL

O Rappa – “Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro”

“Tudo começou quando a gente conversava
Naquela esquina alí
De frente àquela praça
Veio os homens
E nos pararam
Documento por favor
Então a gente apresentou
Mas eles não paravam
Qual é negão? qual é negão?
O que que tá pegando?
Qual é negão? qual é negão?

É mole de ver
Que em qualquer dura
O tempo passa mais lento pro negão
Quem segurava com força a chibata
Agora usa farda
Engatilha a macaca
Escolhe sempre o primeiro
Negro pra passar na revista
Pra passar na revista

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro

É mole de ver
Que para o negro
Mesmo a AIDS possui hierarquia
Na África a doença corre solta
E a imprensa mundial
Dispensa poucas linhas
Comparado, comparado
Ao que faz com qualquer
Figurinha do cinema
Comparado, comparado
Ao que faz com qualquer
Figurinha do cinema
Ou das colunas sociais

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro…”


LEIA TAMBÉM:

A poesia de Phillis Wheatley (1753-1784), “mulher-escritora-negra-desenraizada” que protagonizou um emblemático julgamento no Século das Luzes

“Uma negra pode ser poeta?” Com esta questão, ofensiva e racista em si mesma, Eleni Varikas inicia em chave irônica seu livro “A Escória do Mundo – Figuras do Pária” (Editora Unesp, 2014), evocando os versos impactantes e profundos de uma emblemática “mulher, escritora, negra, desenraizada”, trazida à força da África para a América, onde sofreu em Boston o destino de escrava doméstica. De sua pena saíram versos como os seguintes:

“Should you, my lord, while you peruse my song,
Wonder from whence my love of Freedom sprung,
Whence flow these wishes for the common good,
By feeling hearts alone best understood,

I, young in life, by seeming cruel fate
Was snatch’d from Afric’s fancy’d happy seat:
What pangs excruciating must molest,
What sorrows labour in my parent’s breast?

Steel’d was that soul and by no misery mov’d
That from a father seiz’d his babe belov’d:
Such, such my case. And can I then but pray
Others may never feel tyrannic sway?”

(Leia na íntegra em Poetry Fundation: http://bit.ly/2dOHSK2.)

(TRADUÇÃO: Se, Milorde, ao ler meus versos / Se indagar com surpresa sobre a origem de meu amor pela Liberdade, / De onde fluem meus anseios pelo bem comum, / Apenas compreensível pelos corações sensíveis, / Eu, ainda jovem, por destino cruel / Fui arrancada de minha querida África: / Que dores excruciantes torturaram, / Que tristezas acometeram o coração de meus pais? / Petrificada a alma, intocada pela piedade, / Daquele que subtrai de um pai sua criança amada: / É este, é este meu caso. E o que posso fazer senão rezar / Que outros nunca sejam submetidos a esse domínio tirânico?)

Phillis Wheatley chegou à América em um navio vindo do Senegal e Serra Leoa, desembarcado em Boston em julho de 1761; ela tinha cerca de 7 anos de idade e foi comprada por uma senhora que precisava de uma escrava doméstica. Nua e envolta em trapos sujos, com dentes faltando, ninguém sabia o nome da criatura. Acabou batizada com o nome do navio negreiro (Phillis) e o sobrenome de seus patrões (Wheatley).

“Na casa dos seus senhores, aprendeu inglês muito rapidamente. Um ano e meio após sua chegada, lia e comentava as passagens mais difíceis da Bíblia. Com 12 anos, tinha escrito seu primeiro poema…” (Varikas, p. 2) Corte para o tribunal de Boston onde Phiilis Wheatley, em 1772, é submetida a um “exame oral insólito”, por 18 juízes, em que a “jovem escrava de 19 anos, franzina e tímida”,

“carregava em seus ombros a responsabilidade de ‘provar’ diante dos mais eminentes representantes da cultura – e dos europeus que acompanhavam o caso com interesse acalorado – a racionalidade dos negros e sua capacidade de aceder à escrita literária. Na realidade, o que estava em jogo nessa audiência não era a autenticação de um manuscrito, mas a autenticação da humanidade plena de todo o povo negro e, por isso mesmo, a legitimidade da abolição da escravidão. Porque, como disse Robert Nickol em 1788, nunca se ouviu falar de um orangotango que tivesse composto uma ode.

O atestado do júri confirmou ‘ao mundo’ que os poemas haviam sido de fato escritos por ‘uma negra’ que, pouco tempo antes, ainda era uma ‘bárbara sem cultura’ vinda da África. Wheatley tornou-se, assim, a primeira pessoa de origem africana a publicar um livro, e a primeira poetisa negra norte-americana.” (Varikas, p. 3)

Abrindo caminhos que depois seriam trilhados por outras mulheres escritoras, em insurgência contra o machismo e o racismo do Patriarcado escravista hegemônico, Wheatley foi celebrada com entusiasmo por abolicionistas de vários continentes. Sua obra completa – Complete Writings – hoje faz parte da prestigiosa coleção Penguin Classics. E não é absurdo dizer que as raízes do reconhecimento literário contemporâneo de autoras afroamericanas como Toni Morrisson (vencedora do Prêmio Nobel de Literatura), Alice Walker (autora de “A Cor Púrpura”), Angela Davis (hoje respeitada socióloga e pensadora da geopolítica), estão lá na obra de Phillis Wheatley, destino diante do qual Eleni Varikas pergunta: “que relato das Luzes poderia dar conta dos feitos dessa criança ‘prodígio’, sem ocultar a violenta desumanização que marcou sua elevação ao patamar de humanidade pensante?” (Varikas, p. 5)

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“There is No Hierarchy of Oppression” – by Audre Lorde
Read by: Lauren Lyons

“I was born Black, and a woman. I am trying to become the strongest person I can become to live the life I have been given and to help effect change toward a liveable future for this earth and for my children. As a Black, lesbian, feminist, socialist, poet, mother of two including one boy and a member of an interracial couple, I usually find myself part of some group in which the majority defines me as deviant, difficult, inferior or just plain “wrong.”

From my membership in all of these groups I have learned that oppression and the intolerance of difference come in all shapes and sexes and colors and sexualities; and that among those of us who share the goals of liberation and a workable future for our children, there can be no hierarchies of oppression. I have learned that sexism and heterosexism both arise from the same source as racism.

“Oh,” says a voice from the Black community, “but being Black is NORMAL!” Well, I and many Black people of my age can remember grimly the days when it didn’t used to be!

I simply do not believe that one aspect of myself can possibly profit from the oppression of any other part of my identity. I know that my people cannot possibly profit from the oppression of any other group which seeks the right to peaceful existence. Rather, we diminish ourselves by denying to others what we have shed blood to obtain for our children. And those children need to learn that they do not have to become like each other in order to work together for a future they will all share.

Within the lesbian community I am Black, and within the Black community I am a lesbian. Any attack against Black people is a lesbian and gay issue, because I and thousands of other Black women are part of the lesbian community. Any attack against lesbians and gays is a Black issue, because thousands of lesbians and gay men are Black. There is no hierarchy of oppression.

I cannot afford the luxury of fighting one form of oppression only. I cannot afford to believe that freedom from intolerance is the right of only one particular group. And I cannot afford to choose between the fronts upon which I must battle these forces of discrimination, wherever they appear to destroy me. And when they appear to destroy me, it will not be long before they appear to destroy you.”

 

I AM NOT YOUR NEGRO
A film about James Baldwin (1924-87)‘s life and work

A COUPLE OF MEMORABLE QUOTES:

“Not everything that is faced can be changed, but nothing can be changed until it is faced.”

“Freedom is not something that anybody can be given. Freedom is something people take, and people are as free as they want to be.”

“Life is tragic simply because the earth turns and the sun inexorably rises and sets, and one day, for each of us, the sun will go down for the last, last time. Perhaps the whole root of our trouble, the human trouble, is that we will sacrifice all the beauty of our lives, will imprison ourselves in totems, taboos, crosses, blood sacrifices, steeples, mosques, races, armies, flags, nations, in order to deny the fact of death, the only fact we have. It seems to me that one ought to rejoice in the fact of death–ought to decide, indeed, to earn one’s death by confronting with passion the conundrum of life. One is responsible for life: It is the small beacon in that terrifying darkness from which we come and to which we shall return.” ― In: “The Fire Next Time”


Historic debate between James Baldwin vs. William F. Buckley Jr., in 1965, at Cambridge University on the question: “Is the American Dream at the expense of the American Negro?”


SIGA VIAGEM:

O ATLÂNTICO NEGRO, JUIZ DA MODERNIDADE

O ARCO E A LIRA, de Octavio Paz [1914-1998] (Cosac Naify, 2012) @ LIVRARIA A CASA DE VIDRO (Compre via Estante Virtual)

A imagem do arco e da lira foi extraída, por Octavio Paz  [1914-1998], da obra de Heráclito e “alude à luta dos opostos que a poesia transforma em harmonia, ritmo e imagem” (p. 14).

Celebrado por Julio Cortázar  como “o melhor ensaio sobre poética que já se escreveu na América” (p.11), O Arco e a Lira é uma obra onde Paz, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1990, busca “elucidar a natureza da vocação poética e a função da poesia nas sociedades” (p. 13).

Ele não parte de um interesse meramente teórico, já que Octavio Paz é um poeta praticante, que pensa “criação e reflexão como vasos comunicantes” (p. 14).

Seu interesse por poesia é visceral, existencial, e as perguntas que visa responder lhe perseguem desde a primeira juventude: “Que sentido havia na obstinação de escrever poemas? Diante da vida, não era uma deserção? E diante do desmoronamento de todos os absolutos, não eram um consolo mentiroso e uma magia culpada?” (p. 14)

Definir o poético em uma frase seria como querer pôr arame farpado no oceano: a poesia transborda todas as definições que tentarmos dar dela. Octavio Paz prefere explorar à fundo, com a mente livre, ao invés de petrificar o poético num conceito fixo, mas arrisca generalizações misteriosas como: “Cada poeta é um pulsar no rio da linguagem.” (p. 13)

Tudo flui, diria Heráclito, e isso certamente vale também para a linguagem: o fato de ser um mexicano escrevendo poesia em espanhol no século conhecido como XX depois de Cristo é algo que coloca, no epicentro da reflexão de O Arco e a Lira, a relação do poeta individual com uma tradição histórica.

Se há um “rio da linguagem”, a paisagem que ele atravessa é o da história. “Sinto-me parte de uma tradição que começou junto com a língua espanhola; nossa língua e nossa poesia, por sua vez, são um afluente da grande tradição que começou com os primeiros homens e que só acabará quando nossa espécie emudecer.” (p. 13)

ENTREVISTA – PROGRAMA “AL FONDO” (1h24min)

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Shiva – a divindade que dança

TRECHOS DE O ARCO E A LIRA:

“Toda vez que se procura explicar as noções de Yin e Yang – os dois ritmos alternantes que formam o Tao – recorre-se a termos musicais. Concepção rítmica do cosmos, o par Yin e Yang é filosofia e religião, dança e música, movimento rítmico impregnado de sentido. Do mesmo modo, não é um abuso da linguagem figurada, mas alusão ao poder significante do som, o emprego de expressões como harmonia, ritmo ou contraponto para qualificar as ações humanas. (…) Não há cores nem sons em si, desprovidos de significação: tocados pela mão do homem, eles mudam de natureza e adentram o mundo das obras. E todas as obras desembocam no significado; o que o homem toca se tinge de intencionalidade: é um ir para… O mundo do homem é o mundo do sentido. Ele tolera a ambiguidade, a contradição, a loucura ou o embuste, não a carência de sentido. O próprio silêncio é povoado de signos.” (p. 28)

“Na prosa a palavra tende a se identificar com um de seus possíveis significados, em detrimento de outros: pão, pão; queijo, queijo. Essa operação é de caráter analítico e não se realiza sem violência, já que a palavra tem vários significados latentes, é determinada potencialidade de direções e sentidos. O poeta, em compensação, jamais atenta contra a ambiguidade do vocábulo. No poema a linguagem recupera sua originalidade primeira, mutilada pela redução que a prosa e a fala cotidiana lhe impõem… A palavra, finalmente em liberdade, mostra todas as suas vísceras, todos os seus sentidos e alusões, como um fruto amadurecido ou como os fogos de artifício no momento em que explodem no céu. O poeta põe sua matéria em liberdade. O prosador a aprisiona.” (p. 30)

OS LIRISMOS INCATALOGÁVEIS DO VALDERUNDESTEIN: 12 POEMAS ILUSTRADOS – Por Vitor Hugo Lemes & Bergkamp Magalhães

1

Ilustrações: Bergkamp Magalhães.

I

o amor é eterno, claro.
expressão maior de um deus
fora do tempo e espaço
substrato sensorial da metafísica
como tal, embora seja possível que não exista
há que se investigar, por deixar pistas
marcas imprecisas em quem precisa
e em quem não precisa…

um conceito vazio preenchido pelos sentidos
intriga o amante e o amigo
aquém de quem compreende pois sente-se
estende-se em busca de um tempo perdido
manter contudo a velha opinião formada sobre tudo
ajuda, quem diria
o amor é o calor num mundo de entropia
desvanece e esfria
ou então esquece-se
e recria…

Versos: Vitor Hugo Lemes
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* * * * *

II

2

não há mundo possível – quântico ou metafísico
ao qual eu pertença, não há para mim
máxima ou sentença
desajustado irrompi e o exílio fez-se em mim
o lugar comum
não há regra geral ou meta que me estabeleça
nasci assim, estranho
como um ombro acima da cabeça
e não há perda ou ganho
em ser aos mundos todos simultâneo
e incatalogável

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III

4

lendo Sartre num parque qualquer da cidade
de seu lado burguês vendo à tarde
“Verão. O ar estava morno e denso”
aqui primavera, calor imenso
intenso por um momento
o vento sopra, as folhas se movem
o sol encontra minha alcova
a leitura avança densa e prazerosa
jocosa a vida é âmbar sobre as lentes
desses óculos
periscópios que divisam o nada
de lugar nenhum
desatento contemplo o lago
vago e comum existo
“Existir é isto: beber-se a si próprio sem sede”.
vede que fede aquele que cede
ao cômodo sua liberdade
essa sim, cômodo de vaidade
que te prende a tarde lendo livros em parques
nas grandes áreas de especulação imobiliária da cidade
mas és livre, é verdade
vives tua brevidade
Sem deixar nenhum espaço a sanidade
ou deidade qualquer das tantas banalidades
de que se compõem convicções
e verdades

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IV

5 reak

ao som do jazz
sou como uma máquina de escrever
que trabalha incansavelmente

ao som do jazz e do soul – sou!
uma máquina, bem operada

soo como uma máquina com bons suprimentos,
são bons sentimentos
a dissolver
em cada berro ou nota aguda do trompete
minh’alma grita e repete pela escrita
a dor do instrumentista
e isso mexe
“lágrima é dor derretida”
e ela derrete
cai, borra a folha
e embora a vida seja escolha
nesse momento sou eu instrumento
isento de trava
não por minha escolha
cultivo e planto palavra
e quem quiser que colha…

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* * * * *

V

3

João bobo, mais uma engrenagem na grande máquina do povo
Vivendo e sendo bem a margem o admirável gado novo
João, coragem, trabalha com afinco, se acordas já as cinco
As seis têm condução, lotada, e a condição é nenhuma
Aos poucos logo se acostuma com essa tal situação
As oito em ponto já te esperam na função que te puseram
Pra cumprir sua missão. Quem a escolheu, João?
Qual o seu papel no mundo? Qual seria o do Raimundo?
Qual seria o do Tião? Não! Trabalhas…
“Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, onde as formas e as ações no encerram nenhum exemplo.”
E tu já tens tão pouco tempo
Não pense tanto, pois é tão moço, até as duas tem o almoço
E o tempo nunca foi tão bom, mas dura pouco, João
A lida se estende e você compreende que é “necessário” meu irmão
Já deram seis, e é a sua vez, com uma a mais de deslocamento
E esse horário é só tormento, mas tu já vai chegar em casa
As vezes o trânsito te atrasa, mas vê se esqueça esse ranço
Que agora é hora do descanso e o tempo nunca foi tão bom
Mas dura pouco, João. E dói um pouco também
Pensar que ele, o tempo, meio que se perdeu
Que nesse meio tempo o dia ainda não foi seu… E o tempo te fodeu!
Meu, não! Não pense tanto, João, descansa a mente
Eu sei que às vezes ela mente, mas bão é ver televisão
Novelas e telejornais, nas grandes telas os mais sensacionais
Sensacionalistas banais, cumprindo a risca
O tom do bom vigarista num plano pensado e uniformizado
Para todos nós – olha que lindo, João
Mas deu por hoje, deu por hoje, agora já é meia noite
E amanhã é cedo a ralação… Êh João
Antes de adormecer, será que podes me dizer que raios é viver?
Viver em função de um trabalho, caralho, que no fim das contas não é pra você…
João ninguém, sem identidade, vivendo aquém de quem tu és
Pois é João, põe a cabeça no travesseiro e se acalma
Se tu vendeu sua pobre alma pra esse imenso mundo cão…

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* * * * * *

VI

5

em meio ao modo impróprio de um ópio absurdo
hasteio pálpebras ao insólito do mundo
película após película compõe o casulo
que adentra um tempo cego, donde exergo tudo
o que há para ser visto, conforme me dispo
de todo sentido ao tal imprevisto

buscando saída para esta que “do fim” é a vinda
esquece-se que a vida permanece linda
por eras e eras ainda,
a busca é que finda…

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* * * * *

VII

7

 ultimamente tenho vivido
em pleno exílio de mim
tenho existido num sonho,
esquecido de ser o futuro
do que fui ante ao escuro
de mim

perdi-me, tal qual Pessoa
na afeição que afeiçoa
a tal máscara que é a pessoa
de mim

tão rota como a roupa
da fantasia que vesti
“Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti”

observo a vida em riste
sempre com olhos tristes
sem poder sorrir
sem gozar da verdade
de uma felicidade
por chorar a saudade
que carrego de mim

ser, parece-me ser, às vezes,
tão difícil
aparentar parecer aparece-me
como ofício
que então satisfaria…
um vício impresso
nos belos versos
de “Tabacaria”…

“Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.” – Álvaro de Campos

-vitorhLemes

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VIII

8

denso mundo de opiniões
desse modo de ser

intenções
à passeio
permeiam espaços vazios
em meio a palavras
em camas de gato
no cio,
recobertas de nada
prelúdio a um mal-estar febril
no fio dessa estada
imbecil

muito se fala
pouco se diz
na sala da fala
caminham senis
com bengalas
signos sem significado
insignificantes
em presente
ou passado

ultrajantes palavras
que escapam pelo vão
da porta
e se vão, doravante
viajantes de uma estrada morta
onde more sentido algum
rios de nada que correm
e desaguando em lugar nenhum

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IX

9

você
precisa aprender inglês
precisa aprender o que eu sei
e o que eu não sei, mas…
o que eu pensei traz
sede, fome
sangue e carne de bicho homem
comer – digerir
como um velho estômago canibal faria
cultivando novos sonhos de antropofagia

antropófaga alteridade
cultivada por homens de cidade
letrados
sorvendo e absorvendo
pensamentos variados
no simultâneo estranho
onde tudo coexiste
interno e externo
em riste
se confundem
num futuro presente triste

a alegria se desenvolve
sendo a prova dos nove
sendo a prova do novo
de novo e de novo
no desconhecido outro
conhecer destroça
viva a bossa
viva a palhoça
viva troça
cultura nossa

se o que se cria, se transforma
se apropria noite e dia
sintetizando dicotomias

antropofagia
literal
literária
visceral, não contrária
que por hora
me devora
hilária
assimila e vem
sempre bem servida
e degusta enaltecida
como é gostosa a vida…

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X

10

Na cama de gato da vida
Num jogo sem saída
Rolando de um lado pro outro
À procura do sono, dos sonhos
Que já não mais encontro
No entanto
Só no encontro das palavras transcritas
Experiências vividas encontram consolo
Palavra após palavra
Tijolo após tijolo
Forjando construções de nada
Onde há sempre escadas pro novo

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XI

11

e a vida segue seu curso natural
até quando e por quanto
é impossível dizer
pois o possível tornou-se irrelevante, onde
somos todos sombras irrelevantes
do que gostaríamos de ser
enquanto o simples “dizer algo”
tornou-se mais importante
do que se ter algo a dizer

me destes papel e um estímulo
lhe dei um poema despido de senso
despedida, não ao que está morto
mas ao que nunca nasceu para que pudesse morrer
poema dilema intenso àquele que fantasiou-se vivo
embora nunca de fato existido
nunca de fato
existido
viver

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XII

12

Converti-me em um peixe de terra salgada
Acostumado ao trabalho, mais nada
É só o que eu valho? Caralh*…
Vestindo retalho
Me arrasto, sou arrastado
Pelas águas de março a março
Chumaços de tabaco,
Cultuo Baco
Num barco furado, naufragado
No céu opaco
Dentro de mim
Há inquietude, há tempestade
Bebendo soma
Mais um cigarro, contemplo à tarde
Verdade escarro
“Palavras calcificadas, poemas presos”
São pedras, são peso
Excesso – que tantos carregam
Envolto em medo
Me nego
A envelhecer tão cedo
Engolindo sapos me sinto obeso
Colar cacos?! Jamais
É preciso o novo
Aliás, escamas dorsais já me doem demais
É preciso libertar-se, encantar-se
De novo e de novo
Respirar ares mais elevados
Explorar mares inabitados
Desfazer-se dessa carcaça abjeta
Derrubar moinhos-gigantes,
Conquistar a ilha de Creta
Viver o instante
Aprender com estetas
O contemplar – pra ser poeta.

* * * * *

POESIA VERBAL & VISUAL
POR VITOR HUGO LEMES & BERGKAMP MAGALHÃES

Va
Siga o trabalho deles em VALDERUNDESTEIN

Em breve: vem aí a revista de poesia Algaravia d’A Casa de Vidro. Sigam antenados!

A Sociedade do Espetáculo – Guy Debord (1973)

A Sociedade do Espetáculo – Guy Debord [1973]
(legendado em português)

“Filme feito a partir de excertos do livro homônimo de 1967, de Guy Debord (1931 – 1994), um dos pensadores da Internacional Situacionista. Contém as idéias que nortearam as revoltas de maio de 1968 na França. O livro é uma obra de grande influência entre os críticos da contemporaneidade, como Jean Baudrillard. O filme, dirigido por Debord e lançado em 73, é uma versão audiovisual do livro, onde, ao expor seus conceitos, ele utiliza um recorte de imagens incessante e, a primeiro momento, aleatório, mas que dá suporte à teoria apresentada no livro.”

Via Filosofia em Vídeo

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Cito Vinícius Siqueira na Obvious:

Guy Debord foi um filósofo, cineasta e crítico cultural francês. Dentro de toda sua participação política, principalmente nos eventos de Maio de 68, esteve envolvido com a fundação e manutenção da Internacional Situacionista – grupo dedicado à crítica daquilo que ele chamou de sociedade do espetáculo, uma sociedade mediada por imagens, onde a lógica do intercâmbio mercantil atingiu toda a vida cotidiana.

O livro “A Sociedade Do Espetáculo” pode ser descrito como uma crítica feroz à sociedade contemporânea, isto é, à sociedade do consumo, à cultura da imagem e à invasão da economia em todas as esferas da vida. É sua obra principal e fundadora de uma corrente de crítica renovada que não estava satisfeita com o capitalismo ocidental e nem com o socialismo bolchevique russo.

Foi lançado em 67 e causou um imenso estardalhaço, ficando popular entre a esquerda alternativa, artistas e estudantes. Vale lembrar que o Maio de 68 teve um enorme suporte universitário.

Neste livro, ele apresenta seu conceito de espetáculo como uma “relação de pessoas mediada por imagens”. Imagens seriam representações imediatas que adquirem autonomia e fazem das pessoas meros espectadores contemplativos. Um exemplo é a moral religiosa, que se coloca como natural, divina, absoluta, inquestionável e se impõe de maneira que não pode ser nem percebida como uma construção social – só pode ser contemplada e obedecida.

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“O que queremos, de fato, é que as ideias voltem a ser perigosas” dizia Guy Debord em meio às revoltas estudantis e à greve geral na França de 68.

O que começou como um protesto em Nanterre tornou-se um contágio em todo o território francês e deu impulso para revoltas nos países vizinhos, como Alemanha, Tchecoslováquia, Itália e Polônia. No dia 20 de Maio já não havia como segurar o caos organizado em que o Estado francês se tornara: não havia metrô, ônibus, telefone, fábricas, nada estava funcionando. Greve geral, literalmente.

O que mais chama a atenção nesses eventos é sua presença e desenvolvimento majoritariamente popular, pois não foi uma ação política tomada por grupos pequenos com algum poder de condução de massas, foi uma ação popular de estudantes que alastrou para trabalhadores e tendeu a modificar uma França conservadora que ainda não havia se recuperado dos traumas da Segunda Grande Guerra.

Na França comandada pelo general Charles De Gaulle, o lugar das mulheres era em casa, o lugar dos estudantes era dentro das universidades, que os preparavam para um mundo de moral rígida e trabalho dignificador. A homossexualidade era considerada doença e a liberdade democrática era, ainda, uma vontade reprimida. Tudo mudou depois daquele ano.

Se os anos 60 foram a base para toda a forma de contestação cultural e base para a exigência de visibilidade para grupos minoritários, os trabalhos de Guy Debord foram o recheio teórico desta época. Sua obra ainda é tema de debates e reflexões anarquistas e marxistas, além de ter uma importância destacada na teoria da comunicação.

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A Sociedade Do Espetáculo, O Filme

O filme, dirigido por Debord e lançado em 73, é uma versão audiovisual do livro, onde, ao expor seus conceitos, ele utiliza um recorte de imagens incessante e, a primeiro momento, aleatório, mas que dá suporte à teoria apresentada no livro. É, na verdade, um anti-filme. Uma forma de desvio: a utilização da cultura para fins subversivos. Nele, a imagem não obedece ao narrador, não o segue.

É importante dizer que a França da década de 60 e 70 respirava o cinema – os cineclubes, antros de estudantes e amantes da arte, sempre iniciavam bons debates sobre os filmes apresentados. Utilizar o cinema como meio para sua obra não era, então, uma questão de “facilitar” a assimilação do conteúdo do livro (coisa que, realmente, não acontece), mas de utilizar de uma nova forma de arte. De explorar o visual. No fundo, parte do ápice de um cinema político.

É uma maneira completamente diferente de se fazer cinema: não-acadêmica e não-comercial. Não se trata de uma tentativa de vender uma história, mas de apresentar uma crítica à sociedade em que vivemos.

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Leia também: Naranjas de Hiroshima

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Voilà:

BAIXAR “A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO” EM EBOOK

A incontornável evidência do sofrimento animal: Safran Foer, Jacques Derrida, Isaac Bashevis Singer, Peter Singer etc.

A incontornável evidência
do sofrimento animal


“Para que este estufado indivíduo degustasse seu presunto, uma criatura viva teve de ser criada, arrastada para sua morte, esfaqueada, torturada e escaldada em água quente. O homem não dava um segundo de pensamento ao fato de que o porco era feito do mesmo material e que este tinha de pagar com sofrimento e morte para que ele pudesse saborear sua carne. Pensei mais uma vez que, quando se trata de animais, todo homem é um nazista.” –
 ISAAC BASHEVIS SINGER (1904-1991), Prêmio Nobel de Literatura.

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 Um pertinaz e impertinente antropocentrismo (ou, dito melhor, narcismo-de-espécie!) parece ter sobrevivido às 3 feridas narcísicas que, segundo Freud, foram infligidas à humanidade: não mais acreditamos que a Terra é o centro do Universo e o Sol gira a nosso redor, nem esperneamos escandalizados contra Darwin e a teoria da evolução das espécies, tampouco recusamos o peso e a importância de motivos inconscientes e desejos sexuais em nossa Psique; o problema é que ainda tendemos a enxergar a Humanidade como pico de uma pirâmide hierárquica, como algo de essencialmente distinto e superior à Animalidade, como se fôssemos o legítimo “rei” da Natureza e destinados ao domínio, como queria Francis Bacon (1561-1626) – que, imagino, não veria problema  ético algum em organizarmos um sistema de pecuária industrial destinado a transformar porcos em bacon

Nosso narcisismo ferido procura defender-se na trincheira daquela posição cartesiana – demolida por O Ponto de Mutação, de Fritjof Capra – que vê nos animais apenas “bestas desalmadas” e que concede ao ser humano o privilégio de ser o animal supremo e divino, a ponte entre o bicho e o anjo, o supra-sumo biológico sobre a face da Terra… Porém, pesemos as consequências planetárias de agirmos na base de fábulas auto-congratulatórias e racionalizações do nosso poderio sobre os viventes extra-humanos.

French Philosopher Jacques Derrida Holding His Cat

Um vínculo que une filósofos como Peter Singer e Jacques Derrida, ambos defensores de uma revolucionária mudança de paradigmas conhecida como Libertação Animal, é algo de muito simples: o reconhecimento de que o sofrimento solidariza-nos. Podemos negar que os outros animais possuam Razão e Linguagem, porém é bem mais difícil que alguém possa sustentar de modo crível que os animais não sofrem. O sofrimento animal, do qual existem tantas avalanches de provas empíricas (for those who care to look through the walls of factory farms), é de incontornável, de inegável, constituindo um problema ético e político de alta relevância e urgência.

 À questão “os animais sofrem?”, a resposta incontornável de qualquer mente lúcida é o reconhecimento, que têm necessariamente de fazer qualquer testemunha de boa-fé, do fato bruto enunciado por Derrida: “ninguém pode negar o sofrimento, o medo ou o pânico, o terror ou o pavor que podem se apossar de certos animais e que nós, os homens, podemos testemunhar.” (p. 56)

derrida

JACQUES DERRIDA

É uma ousada crítica contra a filosofia “logocêntrica” (“que se mantêm de Aristóteles a Heidegger, de Descartes a Kant, de Levinas a Lacan…” – pg. 54) o que Jacques Derrida empreende em O Animal Que Logo Sou (Ed. Unesp). A acusação que Derrida lança contra os “fanáticos da lógica” (aqueles que, segundo Nietzsche, “são insuportáveis como vespas”), é a de ter posto a questão errada: os filósofos logocêntricos se perguntam “os animais têm razão, têm linguagem, têm lógos?”, porém o principal, o fundamental, o mais essencial a se perguntar, “a questão prévia e decisiva seria a de saber se os animais podem sofrer. Can they suffer?” (p. 54)

Galinhas no Brasil

 A questão é urgente e colossal pois o sofrimento animal, longe de diminuir, parece estar em aumento exponencial nos últimos séculos: “além da caça, da pesca, da domesticação, do adestramento ou da exploração tradicional da energia animal” (animais de tração escravizados aos fins humanos, por exemplo), Derrida destaca:

“No decurso dos últimos 2 séculos estas formas tradicionais de tratamento do animal foram subvertidas pelos desenvolvimentos conjuntos de saberes zoológicos, etológicos, biológicos e genéticos, (…) pela criação e adestramento a uma escala demográfica sem nenhuma comparação com o passado, pela experimentação genética, pela industrialização do que se pode chamar a produção alimentar da carne animal, pela inseminação artificial maciça, pelas manipulações cada vez mais audaciosas do genoma…” (DERRIDA, p. 51)

 Exemplos dentre muitos deste empreendimento humano colossal de exploração e escravização dos viventes animais, ainda silenciado e pouco percebido, em especial em suas gigantescas proporções: a violência do “assujeitamento do animal” atingiu, segundo Derrida, “proporções sem precedentes.” (p. 51) Será tão absurda assim a ideia, que Isaac Bashevis Singer propagava, de que aos olhos de um animal “todo homem é um nazista”? Em outros termos: será que nossos sistemas econômicos, políticos, culturais, morais e jurídicos não conduzem a tratarmos os animais de uma maneira similar ao tratamento imposto pelo III Reich aos viventes que encerrou e dizimou nos campos de concentração?

 “Os homens fazem tudo o que podem para dissimular ou para se dissimular essa crueldade, para organizar em escala mundial o esquecimento ou o desconhecimento dessa violência que alguns poderiam comparar aos piores genocídios. Existem também os genocídios animais: o número de espécies em via de desaparecimento por causa do homem é de tirar o fôlego. (…) Todo mundo sabe que terríveis e insuportáveis quadros uma pintura realista poderia fazer da violência industrial, mecânica, química, hormonal, genética, a qual o homem submete há dois séculos a vida animal.” (DERRIDA, pg. 53)

 Não se trata, pois, de fazer qualquer apelo sentimentalóide e patético às consciências humanas para que “sintam pena” dos pobres bichinhos. O que se pede é bem mais que mera compaixão: o pensamento de Derrida é tão ousado e demandante pois ele nos exige uma completa subversão dos paradigmas logocêntricos e antropocêntricos que infestam nosso modo de pensar. A presunção humana de uma superioridade inata que decorria da humanidade possuir o Lógos, ser capaz de linguagem, ser dotada de racionalidade: eis o que está em questão.

O animal que se auto-denomina “racional”, e que presume-se superior às “bestas privadas de razão”, dá-se o privilégio de poder escravizar e subjugar todos os outros viventes. Os animais não são reconhecidos como Outros dotados de interesses e sentimentos, viventes finitos e vulneráveis como nós, dotados de senciência e de automotricidadem, organismos com sensibilidade, palco complexo de afetos, capazes não só de ser vistos mas de nos verem. A racionalidade instrumental dos humanos, rejeitando a animalidade en masse, acabe por eles reduzir – como mostram as atitudes de alguns entusiastas das churrascarias e dos açougues, a presunto, bacon, frango-assado…

A questão é: seria possível a existência das churrascarias sem os matadouros ou há um vínculo necessário que os une? A demanda do consumidor de carne não é aquilo que faz “brotarem” no mundo estas gigantescas “fábricas de opressão animal”, onde milhões de vidas são reduzidas ao status manipulável e explorável de mercadoria? Nestes locais, protegidos do nosso olhar pelos muros (“se os abatedouros tivessem paredes de vidro”, diz Paul McCartney, “todo mundo seria vegetariano), bilhões de viventes, que compartilham conosco o destino de serem sensíveis-sofrentes, são expostos aos mais intensos e prolongados sofrimentos existenciais, do parto ao abate, infligidos por nós. A isto Pete Singer chama “especismo”, uma espécie de fascismo aplicado por uma espécie (a nossa) sobre outras.

 Temos o direito de impor uma vida de terríveis sofrimentos a bilhões e bilhões de criaturas viventes, em quem reconhecemos ao menos a capacidade de sofrer, ainda que neguemos a elas a posse de faculdades racionais, e só porque tendemos a gostar do gosto de sua carne? O “aprecio muito o sabor da linguiça” justifica que tratemos seres vivos como meios e que se imponha a eles a prisão, o engordamento forçado, o abate impiedoso? Quem é que acredita, ainda hoje, que o presunto “brota” no supermercado como “produto industrializado”? Quem é que ignora que as fatias do presunto são partes de um cadáver que a Indústria tratou de matar e cortar em pedacinhos, devidamente refrigerados, para o conforto e bem-estar do consumidor? E quem é que se ilude pensando que este vivente morreu de velho? Não nos esqueçamos que nós impomos a morte: não nos contentamos em esperar que aconteça. Nem mesmo a fome é nossa desculpa: muitos animais são mortos, não por causa da humana fome, mas da humana gula.

 “Diante da negação organizada dessa tortura, algumas vozes de levantam (minoritárias, fracas, marginais…) para protestar, para apelar ao que se apresenta ainda de maneira tão problemática como os direitos do animal.” (pg. 53). E é de se notar que nos últimos anos o cenário filosófico têm se preocupado mais com estes ainda incipientes e frágeis Direitos Animais, por exemplo através da obra de Peter Singer, autor de Libertação Animal e Ética Prática, e do Eating Animals, de Jonathan Safran Foer, dentre outros livros. Inserem-se, talvez, no quadro das tentativas de “nos acordar para nossas responsabilidades e nossas obrigações em relação ao vivente em geral, e precisamente a essa compaixão fundamental que, se fosse tomada a sério, deveria mudar até os alicerces da problemática filosófica do animal.” (pg. 53)

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A relação dos animais humanos com aqueles que eles, os homens, chamam de “animais”, quase sempre tentando diferenciar-se deles, abrir um abismo que os separa, esteve marcada, através da História, pela violência. A violência da caça e da pesca, é claro: é inimaginável, de tão colossal, a quantidade de flechas e de balas que destroçaram vidas de animais na história deste animal genocida que somos – o animal que atira, que constrói bombas, que põe sua tecnologia no fabrico de matadouros high-tech. Estes viventes que os homens gostam de chamar de “animais” foram escravizados, oprimidos, mal-tratados, forçados ao trabalho, abatidos sem piedade, na presunção de que fossem “inferiores” e na presunção de que foram criados para “servirem” a nós, os auto-proclamados Senhores da Terra.

 É óbvio que isso não surpreenderá muito àqueles que conhecem os modos como os homens tratam-se uns aos outros: os europeus que invadiram a América a partir de 1492, por exemplo, adoravam agarrar-se àquelas doutrinas que diziam, dos africanos e dos indígenas, que eram “desprovidos de alma” e “não passavam de animais”, o que era justificativa suficiente para acorrentá-los, deportá-los em massa, enfiá-los em navios superlotados, levá-los para trabalhar até a morte longe de suas casas, debaixo do chicote e do sol inclemente. A justificativa do genocídio frequentemente passa por uma presunção de superioridade. Se o homem pôde cometer tamanhos horrores contra outros homens, realmente não surpreende que tenha podido agir diante dos chamados “animais” com um grau de violência inaudito no mundo humano.

 A filosofia, até hoje, pelo menos em suas “correntes dominantes”, desde Aristóteles e Agostinho, desde Sócrates e Platão a Descartes e Kant, chegando em Lévinas, Lacan e Heidegger, é marcada por um logocentrismo antropocêntrico que trata os viventes ditos “animais” como inferiores, já que são desprovidos de tudo aquilo que julga-se privilégio e glória do humano. São seres sem Razão, sem Lógica, sem Intelecto, sem Lógos, sem télos…

 Uma das muitas originalidades que Nietzsche trouxe à filosofia, como aponta Derrida, consiste numa “reanimalização” do pensamento: Zaratustra fala, em suas parábolas e paródias, do camelo, do leão e da criança – e um transmuta-se no outro! Há também a águia e a serpente povoando de animalidades os cenários do filosofopoema zaratustriano. O perspectivismo ameríndio não está distante destas epifanias místico-poéticas do autor d’A Gaia Ciência. Em sua solidão e isolamento de montanhês apaixonado pelas alturas, Nietzsche povoou seus arredores com figuras animais, até o colapso em Turim, episódio-esfinge de difícil decifração mas que parece essencial na compreensão deste destino singularíssimo do animal Nietzsche, ele “que foi suficientemente louco para chorar junto de um animal, sob o olhar ou contra a face de um cavalo. Por vezes, creio vê-lo tomar esse cavalo por testemunha, e sobretudo para tomá-lo como testemunha de sua compaixão, pegar sua cabeça entre as mãos…” (DERRIDA: 1999, pg. 67)

 O homem inventou a palavra “animal” – é esta uma das hipóteses derridianas – para se referir a “todos os viventes que o homem não reconheceria como seus semelhantes, seus próximos ou seus irmãos.” (p. 65). Os filósofos adoram enumerar as privações dos ditos animais, tudo o que lhes falta para serem como nós: eles são desprovidos de linguagem, não sabem dar respostas, não se comunicam em nossa língua, não conheciam ritos de luto nem têm a potencialidade de dar risada. Por essas e outras são tidos por inferiores, escravizáveis, transformáveis em bacon.

 O termo “animal”, que “dispõe um grande número de viventes sob esse único conceito” (p. 61), é algo que desagrada a Derrida, sempre tão “atento à diferença, às diferenças, à heterogeneidades e às rupturas abissais” (p. 58). Colocar todos os viventes não-humanos debaixo do guarda-chuva conceitual “animal”, como se fossem farinha do mesmo saco, é uma grosseira falsificação de uma realidade onde “espaços infinitos separam o lagarto do cão, o protozoário do golfinho, o tubarão do carneiro, o papagaio do chimpanzé, o camelo da águia, o esquilo do tigre, ou o elefante do gato… Interrompo minha nomenclatura e peço socorro a Noé para não esquecer ninguém na arca.” (p. 65)

 Os limites, traçados por humanos, entre homens e animais, são no mínimo suspeitos de serem artificiosas criações linguísticas que agem em causa própria. Um animal quis contar-se a confortadora fábula de que ele não era um animal. O animal homem sofre, pensa e sente tão pouco sobre os sofrimentos em geral, os sofrimentos dos viventes que não lhe assemelham, os sofrimentos que não são seus, a ponto de escamotear, reprimir e se esquivar do que Derrida não teme chamar, peremptório, de inegável. A filosofia é fiel à sua missão de busca da Verdade se não admitir e se não se predispor a enxergar esta incontornável evidência do sofrimento animal?

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 Na mitologia judaico-cristã, a presunção narcísica do Homem atinge uma culminância que prossegue até hoje a assombrar nossa cultura, nossa filosofia, nossas convicções sobre nosso estatuto cósmico. Derrida relembra que o homem, descrito como “réplica de Deus”, criado à sua imagem e semelhança, antes do Pecado Original,

 “recebe imediatamente a ordem de sujeitar os animais. Ele deve, para obedecer, marcá-los com sua ascendência, sua dominação, (…) seu poder de domar. (…) [Deus] criou o homem à sua semelhança para que o homem sujeite, dome, domine, adestre ou domestique os animais nascidos antes dele, e assente sua autoridade sobre ele. Deus destina os animais a experimentar o poder do homem, (…) para ver o homem tomar o poder sobre todos os outros viventes.” (pg. 35 e 37)

 Não demoraram a começar os sacrifícios, as hecatombes, os bodes expiatórios: o sangue animal jorrando para agradar aos deuses inventados pelos homens. Ouçamos a própria palavra “divina”, o verbo deste Javé sanguessuga que criou os homens para que eles reinassem sobre os vivos com presunçosa violência: “Iahvé Elohim diz: ‘Que tenham autoridade sobre os peixes do mar e sobre os pássaros dos céus, sobre os animais a domesticar, sobre todas as feras selvagens e sobre todos os répteis…” (pg. 35).

 Há só um passinho da presunção judaico-cristã, referendada nos livros “sagrados”, do Homem como ápice da Criação e filho predileto de um Deus que teria criado todos os animais para que servissem e fossem usados, à presunção dos filósofos de que a presença do Lógos no humano é sinal inconteste de um abismo imensurável entre nós, nesta margem, e eles, les animots, que são doravante segregados à outra margem, reduzidos a serem subjugados por nossa augusta superioridade suposta e pouco questionada.

 Derrida parte, em sua reflexão, da experiência de estar pelado diante de seu gato. Sente vergonha de sua nudez, e vergonha de sentir vergonha, enquanto o gato que nunca vestiu roupas está em plena naturalidade em sua peladice. O gato sem pudor olha o homem, acostumado a andar vestido, e o homem cora de vergonha diante do olhar felino. Esta experiência me remete ao dito de Camus: “o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.” Nós vestimos roupas e “cobrimos nossas vergonhas”, coisa que nenhum outro animal faz: é de se suspeitar que a raiz desse costume seja a nossa tentativa de negar nossa similitude e nossa fraternidade em relação ao que chamamos, com ímpetos segregacionistas, de animais?

 O gato que está diante do filósofo pelado, o gato que observa com Jacques Derrida enquanto este se envergonha de estar nu diante de um olhar animal, é uma abertura para o abismo fecundo da alteridade e da diferença. O gato é um outro que me olha, e não apenas um outro olhado por mim; uma existência independente da minha, e que relaciona-se comigo de modos que, na maior parte dos casos, são ilegíveis, indevassáveis, misteriosos. “Ele [o gato] tem seu ponto de vista sobre mim. O ponto de vista do outro absoluto, e nada me terá feito pensar tanto sobre essa alteridade absoluta do vizinho ou do próximo quanto os momentos em que eu me vejo visto nu sob o olhar de um gato.” (pg. 28)

 Mas dizer “um gato” já é uma traição, já é tentar grudar uma palavra, que serve de direito a um gato qualquer, a este “vivente insubstituível”. Nenhuma onça é idêntica a outra onça: não podemos deixar que a linguagem, ou seja, o fato de utilizarmos a mesma palavra para nos referirmos a dois animais semelhantes, nos cegue para as evidências inegáveis da diferença – ou, como prefere dizer Viveiros de Castro, da diferOnça. “Nada poderá tirar de mim, nunca, a certeza de que se trata de uma existência rebelde a todo conceito.” (DERRIDA: p. 26).

 Derrida, filósofo que assinala e sublinha, sempre que pode, a “insubstituível singularidade”, convida-nos a enxergarmo-nos como animais entre animais, re-inseridos na fervilhante e complexa teia das alteridades, em relação fecunda com outras perspectivas sobre a realidade, sem impormos a nossa como absoluta. O acolhimento à diferença, a meditação junto ao Outro, inclusive um Outro-gato ou um Outro-ouriço, é um convite que Derrida nos estende: é um convite à ampliação da consciência e uma demanda de uma ética mais vasta, que supere o logocentrismo e o narcisismo que fundamentam os múltiplos genocídios animais de que os últimos milênios estiveram tão repletos. Nu diante do gato, pergunta-se um animal filosófico: “esse gato não pode ser, no fundo de seus olhos, meu primeiro espelho?” (pg. 92)

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