A ARTE DE DINAMITAR BINÔMIOS: Sobre as revoluções epistemológicas, filosóficas e ético-políticas propostas por Preciado || A Casa de Vidro

“Não creio na nação nem em Deus. Se sou homem ou mulher? Esta pergunta reflete uma obsessão ansiosa do ocidente. Qual? A de querer reduzir a verdade do sexo a um binômio. Eu dedico minha vida a dinamitar esse binômio. Afirmo a multiplicidade infinita do sexo!” – PRECIADO [1]

A pessoa nunca se reduz a seu nome – “e se a rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume”, como ensinou o bardo Bill Shakespeare. Mas comecemos por aí, pelas relações entre nomes e identidades, a questionar algo crucial para o desvendamento e transformação do mundo de que somos contemporâneos: aquela que um dia chamou-se Beatriz, e que hoje atende ao chamado de Paul, mantendo-se neste entretempo da transição de gênero com o sobrenome Preciado, é uma pessoa que revoluciona a filosofia?

À primeira vista, a originalidade de Preciado estaria num devir-trans da filosofia, na revelação confessional e reflexiva da experiência de transexualização através de testosterona em gel que ela realiza pondo em prática a ética da cobaia-de-si. Mas para além destas vivências, é preciso perguntar mais a fundo: como Preciado faz para transtornar e tirar de órbita toda a história do pensamento “ocidental” hegemônico? Quais são as práxis subversivas que ela propõe no âmbito da filosofia prática, ou seja, da ética – considerada como campo dos “estilos de vida”, das múltiplas artes do viver?

Preciado diz que está devotada à tarefa “dinamitar os binômios” que tentam dizer a verdade definitiva sobre o sexo. Para levar a bom termo o processo de dinamitar os binômios redutores (como macho/fêmea, homem/mulher, homo/hetero etc.), como procede Preciado em sua obra e em sua vida? Como faz para propor ao futuro humano as alternativas práticas e as metodologias táticas para que, no real concreto, possamos de fato “afirmar a multiplicidade infinita do sexo”?

Se a ética é uma estilística da existência, como dizia Foucault, Preciado ilumina as revoluções em curso nesta área em nossa época – esta que é por ela intitulada “farmacopornográfica”. Uma obra que revela toda a extensão do choque dos dissidentes sexuais contra os conservadorismos heteropatriarcais que desejariam manter tudo em estado estacionário. A obra de Preciado fornece alguns mapas para navegar neste confuso clash entre os subversores da heteronormatividade (com seu reinado de binômios opressores), digladiando com os defensores da velha ordem maniqueísta-teocrática do patriarcado impositor da heterossexualidade compulsória e de uma redutora leitura do sexo legítimo: aquele que se destina unicamente à procriação – situação descrita ironicamente pela banda God Is My Co-Pilot em seu álbum de título sarcástico, Sex Is For Making Babies.

A n-1 edições tem feito um trabalho primoroso na divulgação da obra de Preciado no Brasil, tendo já publicado o Manifesto Contrassexual: Práticas subversivas de identidade sexual (2017, 224 pgs) e Testo Junkie: Sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica (2018, 448 pgs). Ao ler estes livros, ficamos impressionados pela inteligência crítica que manifestam – e mais impressionados ainda pelos possíveis efeitos práticos que estas obras podem produzir. Em especial no que diz respeito a revoluções culturais, que são sempre também revoluções comportamentais. 

Nascida na Espanha, hoje Preciado é uma potência intelectual-prática no cenário francês, onde seu destino cruza-se e entremescla-se com o da escritora e cineasta Virginie Despentes.  Com um texto provocativo, de sabor literário subversivo, mobilizando uma sagaz prosa que eu apelidaria de beatnik-queer, Preciado vem levantando debates também entre os amantes de literatura – pois o tratamento literário da sexualidade que produz evoca similaridades mas também dissonâncias com a obra de figuras como Michel Houllebecq.

Transitando entre Barcelona e Paris, Preciado é hoje uma espécie de encarnação do parisiense cosmopolita. Destaca-se no cenário filosófico como herdeiro e subversor de Derrida, Foucault, Deleuze, Guattári, Judith Butler, Wittig etc. Segundo Marie-Hélène Bourcier, “o que Preciado faz com a filosofia se parece com o que o punk ou mesmo o rap fizeram com a música.” Bourcier – autora dos três livros da série Queer Zones – avalia que:

“O trabalho de desconstrução contrassexual realizado por Preciado, alinhado com projetos alternativos de modernidade, como o empirismo radical ou o espinosismo, rompe com toda uma série de binômios oposicionistas: homossexualidade / heterossexualidade, homem / mulher, masculino / feminino, natureza / tecnologia, que serviram até agora não só de fundamento da filosofia moderna, mas também como centro de reflexão das teorias feministas, assim como de certas teorias gays, lésbicas e inclusive queers. (…) Preciado utiliza com agilidade os recursos da desconstrução derridiana (…) e perfila-se em sua obra uma filosofia do corpo em mutação…” (BOURCIER, p. 13) [2]

Se Preciado de fato realiza algo capaz de “fazer com a filosofia” algo similar ao que o rap e o punk fizeram com a cultura, talvez seja pelo efeito de contestação das identidades fixas e das caixinhas binárias onde costumamos encerrá-las como que em gaiolas. Pensemos, por exemplo, no que põe Preciado em sintonia com o Punk.

Sabe-se que o movimento Punk é um dos mais libertários em relação à inclusão das mulheres nos espaços de expressão e no acolhimento espontâneo das dissidências sexuais e subversões de gênero. Tendo sido marcado por bandas pioneiras lideradas por travestis (o The New York Dolls, banda-matriz de onde nasce também a obra do ícone Johnny Thunders), ou que continham mulheres na liderança tanto nos vocais quanto nas composições (X-Ray Spex, The Slits, Blondie etc.).

Além disso, nascem dentro do punk sub-estilos inteiros – como o riot grrl de grupos como Bikini Kill, Sleater-Kinney, L7, Hole, Lunachicks, Babes In Toyland, Six Year Bitch etc. – marcados por uma revolta contra a heteronormatividade, o machismo e a opressão patriarcal.

riot grrrl transcendia a música pois, inspirando-se no ethos punk, desejava ser uma força de transformação social, demolindo uma hegemônica divisão sexual na arte que queria impor o rock and roll como algo exclusivamente acessível aos homens urrantes e ogros. Com o surgimento do riot grrrl, na esteira do estouro grunge, por volta de 1991-1992,

“a new generation of feminist musicians stopped accepting the “beergutboyrock” status quo and started making their voices heard. As loudly as possible. Riot Grrrl sent a ripple effect through culture with an influence that can be seen today in the proliferation of zines, pro-inclusivity spaces and plenty of sharp, hard-rocking all-girl bands to carry the torch.” (PAGET, Erika.) [3]

As atitudes de Kurt Cobain – criticando os rednecks escrotos, os machistas, os racistas, os homofóbicos, dizendo a eles no encarte de In Utero para que não comprassem os discos nem consumissem ingressos para shows do Nirvana – é uma das principais encarnações grunge-punk deste ethos de afirmação dos desviantes e outsiders. Assim como, no cenário contemporâneo, a impressionante trajetória do Against Me!, à frente de um cenário queercore que tem no álbum Transgender Dysphoria Blues um marco contemporâneo (um guia pode ser encontrado na Revista O Grito).

A transição identitária-corpórea envolvida em processos de transexualização tem cada vez mais exemplos encarnados de gente que tem a coragem de fazê-la em público: o Against Me!, que um dia foi uma banda punk liderada por um cara cis chamado Tom Gabel, e que hoje quer ser conhecido como a banda punk liderada por uma mina trans chamada Laura Jane Grace, faz parte do mesmo processo sócio-cultural complexo revolucionante de que Preciado participa.

Beatriz ou Paul? A própria confusão sobre como nomear esta pessoa, a proliferação de contraditórias descrições desta pessoa que a certo ponto foi “filósofa” e hoje é “pensador”, serve à esta dinamitação de certezas, dogmas e identidades com pretensão ao status pétreo de estátua. Ler a obra de Preciado, escutar Against Me! ou assistir à série True Trans (com Laura Jane Grace) é essencial para quem quiser, nesta vida, ser mais como mel do que como estátua.

Se Preciado tem algo de punk no âmago não é somente pois gosta de ir aos shows de Lydia Lunch e não tem pudores de escrever em seus livros expressões nada acadêmicas como “dar o cu”. Sua punkidade está essencialmente na sua “rebelião de gênero” que aponta para “o crepúsculo da heterossexualidade”; aquela que foi declarada, no nascimento, como mulher cis, chamada de Beatriz, criada com brinquedos “femininos” como bonecas e panelas, cresceu para tornar-se dinamitadora deste sistema, como evidencia o seguinte trecho de Testo Junkie, de impressionante radicalidade, em que ela segue os rastros de Butler, Federici e Fanon:

“Podemos dizer que a heterossexualidade feminina branca é, antes de tudo, um conceito econômico que designa uma posição específica no centro das relações biopolíticas de produção e de troca baseadas na transformação do trabalho sexual, do trabalho de gestação, do cuidado dos corpos e outras atividades não remuneradas no capitalismo industrial. É próprio desse sistema econômico sexual funcionar por meio do que Judith Butler chamou de coerção performativa: processos semiótico-técnicos, linguísticos e corporais de repetição regulada que são impostos por convenções culturais.

É impossível imaginar a rápida expansão do capitalismo industrial sem o comércio de escravos, a expropriação colonial e a institucionalização do dispositivo heterossexual como modo de transformação em mais-valia dos serviços sexuais não remunerados historicamente realizados pelas mulheres. É razoável falar de uma dívida de trabalho sexual que os homens heterossexuais teriam historicamente contraído com as mulheres da mesma forma que países ocidentais deveriam, de acordo com Franz Fanon, ser forçados a ressarcir os povos colonizados com uma dívida colonial. Se houvesse interesse em pagar a dívida por serviços sexuais e saques coloniais, todas as mulheres e povos colonizados do planeta receberiam uma renda vital que os permitiria viver sem trabalhar durante o resto de suas vidas.” (p. 133) [4]

Preciado, que dá a impressão de conhecer a fundo todas as vertentes de dissidência sexual, todas as marés do feminismo, todas as propostas de descolonização, também é uma grande conhecedora da arte underground dos dissidentes sexuais, dos outsiders da caixinha do gênero binarizado. Uma pequena lista de produções artísticas audiovisuais, literárias, performáticas e musicais fornece um panorama da riqueza e da diversidade desta produção cultural dinamitadora de binômios:

Preciado & Butler

“Por meio dos filmes pornôs feministas de Annie Sprinkle; dos documentários e ficções de Monika Treut; da literatura de Virginie Despentes, Dorothy Allison e Kathy Acker; das tirinhas cômicas de Alison Bechdel; das fotografias de Del LaGrace Volcano e Axelle Delauphin; das performances de Diana Pornoterrorista, POst-op e Lady Pain; das performances queer de Tim Stüttgen; das políticas zine e ready made de Dana Wise; dos shows selvagens dos grupos Tribe 8, Le Tigre ou Chicks on Speed; das pregações neogóticas de Lydia Lunch; e dos pornôs transgêneros de ficção científica de Shu Lea Cheang, cria-se uma estética feminista feita de um tráfico de signos e artefatos culturais e da ressignificação crítica de códigos normativos que o feminismo tradicional considerava como impróprios à feminilidade.” [5]

Não tenho dúvida de que Preciado quer contribuir para a libertação humana em relação à opressão dos binômios que nos trancam em uma vida que não flui. Em entrevista a Jesús Carrillo, Preciado afirma-se conectada à toda a galáxia da interseccionalidade: “Trata-se de estarmos atentos, diria Bell Hooks, ao entrecruzamento de opressões (interlocking opressions)”:

“Não é simplesmente questão de se ter em conta a especificidade racial ou étnica da opressão como mais uma variante junto à opressão sexual ou de gênero, mas de analisar a constituição mútua do gênero e da raça, o que poderíamos chamar a sexualização da raça e a racialização do sexo, como dois movimentos constitutivos da modernidade sexo-colonial.

Kimberly Crenshaw indicará a necessidade de evitar a criação de hierarquias entre as políticas de classe, raça, nação, sexualidade ou de gênero e, ao contrário, apelar ao estabelecimento de uma ‘interseccionalidade política’ de todos esses pontos de estratificação da opressão.

Trata-se, disse Avtar Brah, ‘de pensar uma política relacional, de não compartimentar as opressões, mas formular estratégias para desafiá-las conjuntamente, apoiando-se na análise de como se conectam e se articulam’.” (PRECIADO @ Revista Poiésis da UFF) [6]

por Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro, Janeiro de 2020
A ser continuado…

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] PRECIADO, Paul B. Manifesto Contrassexual. In: “Entrevista a Víctor Amela, La Vanguardia, 1 de abril de 2008″. N-1 Edições, pg. 223.

[2] BOURCIER, Marie-Hélène. Prefácio ao Manifesto Contrassexual. Pgs 9, 13.

[3] PAGET, Erika. The 10 Best Riot Grrrl Albums To Own On Vinyl. 2017. Acesse no site Vinyl Me Please.

[4] PRECIADO, Paul B. Testo Junkie: Sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica.N-1, 2018, p. 132.

[5] Ibidem, p. 359.

[6] PRECIADO. Entrevista a Jesús Carrillo. In: Revista Poiésis / UFF, n 15, p. 47-71, Jul. de 2010. Acesse PDF.

Filme chileno “Uma Mulher Extraordinária”, vencedor do Oscar de filme estrangeiro, retrata uma jovem mulher trans que enfrenta intensa hostilidade social

A transexualidade é encarada com um olhar sensível e empático neste drama chileno primoroso. Dirigido por Sebastián LelioUna mujer fantástica [IMDB] consagrou-se ao vencer o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2018 – e um de seus feitos históricos é o de ser “o primeiro filme estrelado por uma mulher transexual a ganhar esse prêmio”, destacam a Wikipedia [1] e o G1 [2].

Além de testemunhar a força impressionante da produção cinematográfica do Chile, que recentemente havia emplacado outra nomeação ao Oscar com “No” de Pablo Larraín, “Uma Mulher Fantástica” é exemplar em seu trato cuidadoso e delicado da vida e atribulações de sua protagonista.

A trama gira em torno de uma estranha espécie de viuvez: Marina Vidal (interpretada por Daniela Vega), uma mulher trans, tem que lidar com a morte de seu namorado mais velho, Orlando, um sujeito que manteve este caso extraconjugal escondido de sua família normal.

“O que dá o brilho ao filme é o extraordinário retrato que Vega faz de Marina, uma jovem mulher trans que enfrenta uma intensa hostilidade social”, classifica o jornal britânico The Guardian.

Marina não só perde para a intransigência da morte o seu namorado. Tem daí em diante infelicidades em série dada a impossibilidade de chorar publicamente esta perda. Este luto impedido é o cerne do filme, que mostra Marina esforçando-se para ser aceita no velório e no enterro dos quais é escorraçada pela família do morto.


O filme é brando em violências explícitas, mas repleto de uma teia de violências simbólicas que se manifestam em atitudes, palavras e olhares. Revela-se, numa Santiago fotografada com primor, uma teia de transfobia que parece perseguir Marina aonde quer que ela vá, causando-lhe angústias que ela depois expressa na catarse de seu canto lírico.

Em uma cena chave, aliás muito poética, irrompe na tela uma metáfora visual do destino da protagonista: uma ventania ameaça arrastá-la para longe, carregada no torvelinho, enquanto ela resiste bravamente, em um esforço hercúleo para seguir indo contra a corrente.


Não sei qual teria sido a intenção do artista, mas li a metáfora como expressão da resiliência daqueles que ousam encarar, fora dos armários da normose, a aventura identitária da radical transformação. No caso, temos a metáfora visual de uma transexualização que o sujeito se aventura a encarar em uma sociedade de entranhada LGBTfobia.

A crítica em À Pala de Walsh destaca que o cineasta teve a intenção, com sua obra, de trabalhar com o conceito de obra polimorfa:

Sebastián Lelio assumiu em diferentes entrevistas que quis contar a história de uma mulher tránsgenera, e todas as complexidades que essa condição acarreta numa sociedade conservadora, através de um “gender-fluid film”, um filme sem género definido, que move-se entre diferentes estilos, para equivaler a protagonista e a estrutura do filme. O filme, que começa por ser próximo de um romance, atravessa as estruturas gerais de diferentes estilos, como o filme de suspense ou o thriller hitckcockiano, a comédia absurda com toques fantasiosos à Almodóvar ou o drama convencional, como um verdadeiro filme polimórfico. [3]

Em outra cena chave, a metáfora visual se dá num divã onde ela se deita desnuda e olha-se num espelho colocado como obstáculo que impede a sua visão – e a de nós, espectadores – da genitália. Seu reflexo naquele “espelho genital” é uma das imagens do filme que nos persegue muito tempo depois de findos os créditos finais.


O filme, aliás, se esquiva de mostrar a genitália da protagonista e não menciona terapias hormonais ou cirurgias que teriam marcado sua transição de homem cis a mulher trans. Mesmo na cena em que o médico a analisa em busca de lesões, a câmera se esquiva de mostrar de modo explícito o que se esconde por trás da calcinha – e o que outrora se escondia por trás da cueca. Faz-se desta genitália uma espécie de tabu, aquilo que não se quer mostrar, talvez por um desejo da obra de apostar muito mais numa estética da sugestão do que da explicitação.

No fundo, pouco importa a genitália, e mais importante é a jornada identitária de uma mulher que só é “fantástica” pois enfrenta, de cabeça erguida, uma saraivada de maus-tratos dos seres humanos ao seu redor, tão ciosos de sua “normalidade” que nem percebem o quanto há de doentio na construção social de uma ideologia que normaliza a homofobia e que constrói a pessoa transgênero como “sub-humana” ou como pária.

Lamentavelmente, no Brasil, este filme meio que passou batido, não reverberou nem repercutiu como merecia. Talvez seja sintoma de que o circuito comercial não lida tão bem com a entrada em cartaz de filmes que questionem a normose dominante. Mesmo com toda a sensibilidade e empatia, com toda a delicadeza e brandura, o filme de Lélio deve ter sido classificado por muitos cinemas como indigno de ser exibido e promovido por tratar com temas tabu.


Lamentável, pois este é um filme que contribuiria muito, caso fosse visto por milhões de brasileiros, para uma espécie de “educação sentimental” que nos ajudasse a sair do lodaçal horripilante em que hoje estamos chafurdados: em nosso país, líder global de homicídios de pessoas transgênero, a expectativa de vida de um ser humano que se transexualizou é de 35 anos, menos que a metade da média nacional. Segundo o site do Senado Federal: “O Brasil é o líder mundial de violência contra transgêneros. Entre janeiro de 2008 e dezembro de 2014, foram registrados 1.731 homicídios.” [4]

No Brasil, país onde mais se assassina por homofobia em todo o planeta, a horda normótica de Cidadãos-de-Bem elegeu em 2018 o excrementíssimo Sr. Jair Messias Bolsonaro, notório homofóbico e disseminador de apologias à violência contra a população LGBTQ.

A brandura de “Uma Mulher Fantástica”, que se passa no Chile, soaria falsa e pouco realista caso a história se passasse no Brasil. Se Marina fosse brasileira, seu destino seria sangrar até à morte em alguma sarjeta após ter sido esfaqueada, aos 30 e poucos anos, por um Cidadão-de-Bem que vai à igreja ou ao culto aos domingos e votou com muito gosto no “Mito”.

Por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro
10 de Agosto de 2019 – #CinephiliaCompulsiva


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NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] Wikipedia – https://pt.wikipedia.org/wiki/Una_mujer_fantástica

[2] G1 – https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/oscar/2018/noticia/uma-mulher-fantastica-e-primeiro-filme-estrelado-por-transexual-a-levar-oscar.ghtml

[3] À pala de Walsh – http://www.apaladewalsh.com/2018/03/una-mujer-fantastica-2017-de-sebastian-lelio/

[4] Senado Federal – https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/especial-cidadania/expectativa-de-vida-de-transexuais-e-de-35-anos-metade-da-media-nacional/expectativa-de-vida-de-transexuais-e-de-35-anos-metade-da-media-nacional

LEIA TAMBÉM E EXPLORE ALÉM – HuffPost Brasil: No passado, outros filmes sobre pessoas trans já venceram em outras categorias no Oscar: Clube de Compras Dallas (2015), que rendeu o Oscar a Jared Leto, A garota dinamarquesa (2016), que Alicia Vikander ganhou como melhor atriz coadjuvanete, Traídos pelo desejo (1992), que venceu na categoria de melhor roteiro, e Meninos não choram (1998), em que Hillary Swank ganhou como melhor atriz. Mas esta é a primeira vez na história da premiação que um filme que conta a história de uma pessoa trans é, de fato, interpretada por uma pessoa trans, e não por um interprete cisgênero (pessoa que se identifica com o próprio gênero e sexo biológicos). Além do Oscar, já em 2018, o filme levou o Goya (festival espanhol de cinema) como melhor filme iberoamericano. O longa, também já havia passado pelo Festival de Berlim, em 2017, onde levou o Prêmio Teddy e o Urso de Prata na categoria melhor roteiro.


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