Sátira cinematográfica repleta de sacrilégios e blasfêmias, “O Novíssimo Testamento” narra a Queda do Patriarcado em um sci-fi teológico

“O Novíssimo Testamento”
(Le Tout Nouveau Testament, Bélgica, 2015, 1h 54min),
Um filme de Jaco Van Dormael

Esta sátira cinematográfica é repleta de sacrilégios e blasfêmias entregues mais ao estilo O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain do que na vibe Monty Python em A Vida de Brian. Um roteiro cheio de malícia, fruto talvez de uma convivência fecunda com a obra de um Buñuel (em especial o extraordinário A Via Láctea, de 1969), de um Pasolini, de um Jodorowksky – três dos mais ousados blasfemadores da sétima arte.

Em Le Tout Nouveau Testament, ou O Testamento Novinho Em Folha, conhecemos uma família nuclear – Pai, Mãe e Filha – que são nada mais nada menos do que Deus-Pai, sua esposa e a irmãzinha de Jesus Cristo. Vivem num cafofo de classe-média-baixa em Bruxelas e o cotidiano deles não é nada celestial. Só treta e mutreta.

O Deus-Pai é um perfeito calhorda, agressivo, destemperado, espancador de crianças, personificação bem grosseirona do Patriarcado e da Dominação Masculina. Uma figura que parece incorporar todas as características sórdidas atribuídas a Jeová, Alá, Baal e outros deuses do panteão transcultural de deuses besta-fera. As feministas que estudam a fundo os temas da presença histórica da Supremacia do Macho talvez julguem este personagem muito caricatural para dar conta de representar a contento o real. Mas de todo modo “O Novíssimo Testamento” dá pano pra manga às discussões sobre opressão sexista e seus vínculos com a religião instituída.

A filha, Ea, rebelando-se contra o Pai e o tudo que ele pratica e simboliza, organiza um pequeno levante feminista que abalará toda a vida sobre o planeta Terra. A mocinha dá uma de hacker e invade o sistema computacional com o qual Deus-Pai realiza sua tosca gerência do mundo. Trata-se de um gerente que diverte-se vendo mocinhas tendo seus braços amputados. Um gerente que produz uma guerra para poder assistir a um bom filme de guerra. 

A menina tem muitas outras razões para estar em aberta rebelião contra o pater-theos: este é um daqueles canalhas sádicos que inventou terremotos e tempestades em seu divino tédio somente para divertir-se de seu enfado celestial. Aquele mesmo, enfurecido contra a diferença das expressões do amor humano, que lançou bolas de fogo  para exterminar as populações de Sodoma e Gomorra. Ou aquele que mandou Abraão cortar a garganta do seu próprio filho Isaac, na gag sádica perpetrada por uma autoriedade sedenta por obediência mais célebre do Testamento do Antigo Regime – aquele mesmo que este filme propõe-se a destronar a golpes de sarcasmo. Que pretensão impertinente! De uma arrogância que poderia ser dita Nietzschiana… com a verve pontiaguda de Diderot ou Voltaire, esclarecedores-bufões…

Boa parte da graça desta comédia sacrílega do cineasta belga Jaco Van Dormael (o mesmo de “Mr. Nobody / Sr. Ninguém”) está em imaginar Deus-Pai como o criador da Lei de Murphy, aquela que diz “nada é tão ruim que não possa piorar”. É tão sádico este Deus-Pai crudelíssimo que instituiu como lei: que nenhuma desgraça despenque sobre os seres humanos chegue sozinha. As desgraças vem sempre em manadas, por favor do escroto lá em cima.

Instituiu Ele também pequenas sacanagens cotidianas contra os humanos: decretou que as torradas sempre caiam com a geléia ou o requeijão de cara no chão; decretou que o telefone toque sempre que alguém acaba de entrar na banheira; decretou temporais que tornam o mundo intransitável e que chovem justo quando o sinal de libertação da escola tocou. É um Deus-Pai que mais parece com o Fradim do Henfil. É um Deus-Pai, para falar na linguagem atual dos interneteiros, que é um baita trollador. 


Diante disso, a mocinha se rebela, inflama-se em seu peito o ímpeto anarco-libertário que também estava em seu irmão Jesus segundo Leminski. Ela, a Ea do levante mirim anti-patriarcal, invade o bunker paterno e zoa todo o rolê: decide enviar as datas de morte de todas as pessoas sobre a face da Terra para que todos saibamos quantos anos, meses e vida cada um tem pela frente. É um transtorno geral.

Todo mundo, de repente, sente-se com os dias contados, tem a revelação incontornável da sua finitude. A notícia celestial, a revelação do prazo vital de cada um, cai do céu na forma de torpedos de celular. É o teatro do absurdo na era da cibercultura… Até as obras de ficção científica teológico-satírica no cinema atual parecem querer honrar às problematizações propostas por uma das melhores séries dos últimos anos: Black Mirror.

O espectador mais inquisitivo fica se perguntando como é que os bilhões de terráqueos humanos que não possuem um aparelho celular ficam sabendo da notícia que os céus – ou melhor, a hacker do céu – querem comunicar. Assim como no peito dos desafinados também bate um coração, e por isto os desafinados também têm direito à expressão musical, também no peito dos des-celulariados bate um coração com prazo de validade, e se todos agora ganharam acesso a uma informação que sempre nos foi tão misteriosa, também teriam pleno direito a ela por sua pertença à estirpe humana.

Os sem celulares, símiles sociais dos sans papiers, se não entram no círculo de receptores das mensagens celestiais, é pois são vítimas de um sistema de comunicação Deus-Homens que estabelece privilégios de classe absurdíssimos. Privilégios que tornam Deus-Pai, além de sexista e autoritário, também um baita dum capitalista selvagem, daqueles que só se comunica com “gente de classe”…

O filme, daí em diante, divide-se em 6 capítulos, quase como se fossem meia-dúzia de breves e poéticos contos, devotados aos 6 discípulos que Ea, em seu Êxodo, descendo à Terra como seu brother J.C. fizera um dia, busca aliciar.

Os 6 apóstolos novos terão suas histórias bizarras, quase sempre de teor e vibe bittersweet, contadas com muita graça – incluindo um impensável romance de Catherine Deneuve com um gorila.

Uma coisa esplendorosa em seu desprezo pelo bom gosto, em sua afronta ao kitsch, e que evoca também os experimentos estéticos de um dos melhores filmes brasileiros da década (2010-2019): Animal Político, do Tião lá do Recife.

No caso de ambos os filmes, apesar da forte presença do cômico às mancheias, tudo vem tingido por certa melancolia. Nisso também há uma atmosfera afetiva que lembra o delicioso Mary e Max (2009), animação australiana genial realizada por Adam Elliot. Estes filmes fazem uma mescla bem dosada de comédia inteligente e sondagem aflita dos mistérios existenciais desta coisa esquisitíssima que é a condição humana. Nisso, são algumas das comédias que melhor se conectam ao espírito e ao legado do grande gênio da comédia cinematográfica Woody Allen, por sua vez discípulo fértil de Buster Keaton.

No final de O Novíssimo Testamento – cuidado com os spoilers! – o que desenha-se no firmamento do filme é uma espécie de Queda Brutal do Patriarcado: Deus-Pai rebaixado ao status de um reles refugiado no Uzbequistão. Expulso do Éden como um dia fizera com Adão e Eva. A vitória do Matriarcado, porém, é descrita de modo altamente kitsch, beirando o mal gosto das demagogias de filmecos crowd-pleasing, o que quase que estraga a experiência estética que Van Dormael construiu. Um filme tão provocativo quase se afundou, em seu desfecho, no lodaçal de vender-se ao happy end comercialmente rentável. O final, aliás, prejudica muito o filme pois lança uma luz retrospectiva sobre a obra inteira como se sua meta fosse primordialmente ser um crowd pleaser muito mais que um crowd provoker.

Não tenho nada, absolutamente, contra a vitória do Matriarcado sobre o Patriarcado que o filme narra. Porém o filme parece comunicar de modo subliminar alguns preconceitos sexistas sobre a mulher, sobre o feminino, sobre o que seria um “mundo comandado pelas mulheres”, já que projeta nos céus de seu ideal supostamente feminista apenas o ímpeto decorativo, a vontade de adorno e boniteza, que vincula à figura da Mãe-Divina.

Poucos segundos antes da Revolução Teológico-Doméstica que a Teo Mama realiza nos céus, que ela torna livres do tirano Deus pintudo, ela passava o aspirador de pó no gabinete de trabalho do Pai-Marido-Patrão… A mãe, hackeando o Sistema, utiliza-o somente para usar o céu do mundo como parede em branco onde espalhar papéis-de-parede coloridos. Ainda está apegada à persona submissa e doméstica que o Patriarcado historicamente impôs. A autêntica revolução feminista que mandasse para o túmulo o sádico, horrendo e longevo Pesadelo do Patriarcado jamais poderia se limitar a atos tão estreitos e toscos quanto a personagem da Mãe faz no finzinho do filme.


Por isso senti que a real heroína do filme, aquela que mais entusiasma, aquela que é mais adorável (“endearing“, como diz uma bela palavra em inglês), é a criança, a menina rebelde, a insurgente Ea, a desobediente anarquistazinha Emma Goldmaniana, a rubra e ousada contestadora, a Mafalda belga, a Eva sem medo de pecar. Ela é a “filha de Deus” que, subvertendo o estereótipo Freudiano, ergue-se em levante contra a dominação masculina e o patriarcado teológico-político, ousando propor um Novíssimo Testamento.

A subversão da pirralha não só tem muita graça; tem chance de ser influência salutar nas lutas feministas atuais e na demolição de preconceitos machistas e sexistas que perpetuam o Pesadelo do Patriarcado. Isso que pra nada presta senão para aporrinhar o mundo todo, mulheres e homens em conjunto. O feminismo é algo cuja vitória deve ser desejada por todos nós pois envolve o aprimoramento do mundo e das relações para além da barbárie teológico-política da Dominação Masculina amparada em sagradas mentiras. Longe de causa apenas feminina, o feminismo é uma causa humana. Que nela nos engajemos todos pois nela todos temos a ganhar.

Que o cinema siga ensinando-nos, quando ousa, o caminho da subversão, da contestação e da superação – e, se puder, que o faça com graça, verve e fina sátira! “Le Tout Nouveau Testament”, neste contexto, é uma jóia artística que, através da comédia, retira o peso esmagador de seriedade com que costumamos envolver o tema dos deuses. Os deuses, longe de reverência, merecem nosso escárnio; longe de abaixarmos nossas tristes cabeças em obediência, devemos nos libertar da subserviência a eles que nos enclausura na melancolia da heteronomia.

Através de suas caricaturas, o filme mostra um Deus-Pai odioso, digno apenas de nossa revolta; um deus que é como um espelho distorcido dos próprios vícios humanos, e mais especificamente os masculinos. Subliminarmente, o filme sugere vias de pesquisa para aqueles que gostariam de desvendar como se deu, na História, a comunicação dos malefícios comportamentais destes humanos-de-testículos aos produtos de suas imaginações que eles projetaram no céu divino ou no Olimpo celestial, para assim sentirem-se melhor justificados para exercer, na Terra, a dominação opressiva.

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Crítica Livre por Eduardo Carli de Moraes.

#CinephiliaCompulsiva2017 @ A Casa de Vidro >>> Leia outros artigos: http://www.acasadevidro.com/cinephilia-compulsiva-resenhas-sobre-filmes/

Ficha do filme em IMDb: http://www.imdb.com/title/tt3792960/?ref_=nm_knf_i2

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PÓ DE SER: “A DANÇA DA CANÇÃO INCERTA” – Conheça um dos álbuns de estréia mais incríveis da música brasileira em 2015

A DANÇA DA CANÇÃO INCERTA

por Eduardo Carli de Moraes

“A vida é mais bela quando a surpresa a espreita.”
PÓ DE SER

Do pó viemos e ao pó retornaremos, não há escapatória. Porém, nesse meio tempo, estes seres incandescentes que provisoriamente somos têm na ARTE uma das aliadas mais preciosas para que o viver, ainda que efêmero e repleto de incertezas, valha a pena. Neste ano de 2015, repleto de sensacionais lançamentos na música brasileira (Elza Soares, Bixiga 70, Cidadão Instigado, Lenine, Karina Buhr, Emicida, Siba, Mari Aydar, Rodrigo Campos, Boogarins, BNegão, Los Porongas, dentre outros) – uma bandaça de Goiânia, o Pó De Ser, lançou um belíssimo disco de estréia, A Dança da Canção Incerta (2015, 54 minutos, baixe já). Abrir-se ao influxo destas canções tão cheias de vida, deixar-se penetras por estas músicas que parecem ter sangue quente correndo em suas veias de som, leva a dar razão a Nietzsche: de fato, “sem música a vida seria um erro!” 

Pó de Ser

Gravado no Rocklab Produções Fonográficas e produzido pelo “Mestre” Gustavo Vazquez (responsável por premiados trabalhos com Macaco Bong, Black Drawing Chalks, Violins, Overfuzz, dentre outros), o disco da Pó de Ser é uma viagem estética exuberante, que expande os horizontes da Canção ao explorar suas múltiplas potencialidades sonoras e poéticas. Segundo a libertária concepção do Pó De Ser, a canção tem vocação pra ser de tudo: reflexão filosófica, confissão existencial, crítica social, crônica do cotidiano, retrato da metrópole, balada erótica, lisergia surreal, exercício de ufologia… Em suma: “tudo pode ser”.

Por ser uma banda sem ortodoxia e que não se agarra a nenhum gênero específico, a Pó de Ser escapa de ser capturada por qualquer rótulo. Tanto que a tarefa de encontrar uma etiqueta se torna uma divertida pilhéria: “Pó de Ser é vintage futurista, vanguarda ‘dodecafona’, pop experimental, cultbrega, regional intergaláctico”, arrisca Kleuber Garcez.

As letras por Diego de Moraes e Kleuber Garcez – dupla de parceiros responsáveis pelas composições – são repletas de referências e citações, mas nem por isso deixam de soar originais e autênticas, mesmo quando a tática posta em prática é a do pot-pourri. Em “Cuidado”, por exemplo, eles amarram as idéias através de menções a clássicos da música popular brasileira: “Iracema”, de Adoniran Barbosa; “Chão de Estrelas”, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa (já gravada pelos Mutantes); “Na Terra Como No Céu”, de Geraldo Vandré; e “Nego Dito”, de Itamar Assumpção (uma figura idolatrada pelos integrantes da banda e que mereceu ainda uma releitura de sua canção “Leonor”).

Uma das virtudes mais evidentes da banda está em seu esmero poético e em seu lirismo multifacetado. Da utopia antropofágica de Oswald de Andrade às renovações estéticas do Tropicalismo, dos poetas marginais da geração mimeógrafo (Torquato Neto, Waly Salomão, Capinan, Leminski, Nicolas Behr etc.) aos compositores-cantores “malditos” (Sérgio Sampaio, Jards Macalé, Itamar Assumpção…), tudo entra no liquidificador linguístico da banda, onde as palavras pegam fogo e ganham inusitados sentidos. “Afina a viola e vai tocar o seu destino!”, cantam logo nos primeiros minutos do disco, na ousada “Pode Apostar”, que conta com participação guitarrística de Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, que toca também na faixa de encerramento, “Pó de Ser”.

Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, é um dos convidados especiais do Pó de Ser: o músico toca guitarra na primeira e na última faixa de "A Dança da Canção Incerta"

Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, é um dos convidados especiais do Pó de Ser: o músico toca guitarra na primeira e na última faixa de “A Dança da Canção Incerta”

A brasilidade é explícita pelo disco afora – que por vezes remete também à obra de Raul Seixas, Luiz Tatit, Odair José ou André Abujamra – mas isso não impede o Pó de Ser de dialogar também com a (contra)cultura gringa, em especial hippies, beatniks e gurus da psicodelia. Em “Venha Ver O Sol”, por exemplo, eles saúdam os Beatles com uma canção que parece misturar a vibe de “Here Comes The Sun” (de George HarrisonAbbey Road) e “Lucy In The Sky With Diamonds” (de Lennon e McCartney @ Sgt. Peppers), mas que acolhe também menções ao clássico de Bob Dylan (“Like a Rolling Stone”), ao James Dean de Juventude Transviada, ao romance de Kerouac On The Road, e por aí vai.

O disco estabelece uma densa teia sônica e poética que enreda o ouvinte, carregando-o numa montanha-russa que mais parece uma viagem de LSD por uma Goiânia Cósmica e Alucinógena. Somando forças a Diego e Kleuber estão as guitarras certeiras de Fernando Cipó, os batuques groovados de Danilo Rosolem (com participação de Fred Valle), além de belos teclados e flautas por Hermes Soares: com intrincado entrosamento, os músicos constroem um lindo sonho delirante, um fluxo musical delicioso, que recompensa repetidas audições. Essa é uma daquelas raras “bolachas” já que vai revelando novos encantos a cada nova “orelhada”.

Um certo tom satírico e humorístico marca presença em canções como “Refrão dos Diabos” – comentário irônico sobre os refrões que, por piores que sejam, grudam na memória feito chiclete – e “Captou?” – um lúdico e ca(p)tivante experimento que lembra o trabalho magistral de Diego & o Sindicato, Parte de Nós. Várias das músicas do Pó de Ser tem uma irreverência e uma jovialidade que têm tudo para agradar aos que curtem “etc.

Já em “Fantasia ao Pé do Ouvido” é uma balada erótica que enraíza o amor na corporalidade (“gosto do seu gosto e do seu cheiro, gosto do seu gozo por inteiro”) e traz o Pó de Ser mostrando que também sabe ser sexy, com a ajuda dos vocais de Bebel Roriz. Outra cantora goiana formidável, Cristiane Perné, faz dueto com Diego na faixa-título, “A Dança da Canção Incerta”, um verdadeiro tratado existencialista em formato canção.

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“O risco é a conta que eu pago por ser vivo”, cantam eles nesta canção que parece ecoar Guimarães Rosa e seu “viver é perigoso”. Assumir os riscos todos que a vida nos lança ao caminho, e abrir-se às surpresas que estão à nossa espreita, é a parte essencial da filosofia de vida de uma banda que, a golpes de batuques e melodias, demole qualquer tendência inércia e conformismo. Por isso é tão inspirador deixar-se influenciar por esta atitude exploratória e nômade destes humanos que encaram, tendo instrumentos e vozes como armas, todos os riscos – da bala perdida ao rastro de cobra no mato.

Já “Bicho Urbano” merece decerto o troféu de uma das obras-primas musicais já escritas sobre Goiânia. O eu-lírico assume uma postura ambivalente diante de uma cidade que percebe como “bela e medonha”, como mescla de rural e de urbano, como coexistência de cosmopolitismo e provincianismo. Longe do tom celebratório, o eu-lírico canta a partir de uma posição marginal (“ninguém me socorre nessa capital / que me deixa à margem… marginal!”), descrevendo-se como “mais um louco na multidão” que inclui putas, camelôs, hippies, fiéis; é um “mosaico de nós a se desatar”.

Goiânia atravessa um prisma poético e reaparece mais exuberante e bizarra do que nunca. Com “Bicho Urbano”, a Pó de Ser alçou-se ao nível do comentário sociológico de alto nível, proeza também realizada pelo Carne Doce em “Sertão Urbano”. Na canção do Pó de Ser, alguns dos locais mais célebres da capital de Goiás são evocados por alguém que “rumina a cidade em seu pensamento”, numa atitude de “antropofagia” com o Eixo Anhanguera, o Cererê, a Praça Tamandaré… Soma-se a isso a peraltice da menção aos onipresentes propagandistas  ambulantes de pamonha (“quentinha, caseira, é o puro creme do milho verde!”), tudo misturado, sem pudor, a referências à contaminação radioativa com Césio 137, que tornou a cidade uma espécie de “Chernobyl Brasileira” em 1987.

Encarte 1

Sem pudor de botar viola no rock and roll, de tecer elos entre brasilidade e estrangeirismo, de aliar o trágico e o cômico, o Pó De Ser consegue a proeza de ser, a um só tempo, altamente experimental e saborosamente palatável. Há todo um “microcosmo” escondido dentro dessa minigaláxia chamada “A Dança Da Canção Incerta”, uma obra-de-arte que chega com força para fazer parte do “cânone” da MPB goiana, merecendo até ser caracterizado por aquele delicioso paradoxo: o do “clássico instantâneo”. Figuras como Juraildes da Cruz, Umbando, Cristiane Perné, Carlos Brandão, Gustavo Veiga Jardim, dentre outros artistas seminais do cenário, devem estar felizes, saudando a aterrissagem entre nós desta preciosa música, que vem para deixar nossas vidas mais belas e poéticas, mais surpreendentes e pulsantes, mais delirantes e diferentes…

Como escreveu Cristiano Bastos, o disco é “uma poção sonora cuja alquimia vai além da música e derrama-se em fartas doses de cinema, literatura, poesia, cultura popular e tantas outras linguagens artísticas presentes na louca infusão sonora.” Eis uma banda que, mesmo tropeçando nos astros, siderada por estar de olhos postos nos OVNIs, não perde nunca a harmonia, o ritmo, o groove, o lirismo, o ímpeto aventureiro e exploratório. Mergulhe de cabeça na dança da canção incerta sem medo de overdose: esta música é, para lembrar Manoel de Barros, um baita “esticador de horizontes”. Corra o risco! 

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OUÇA JÁ!

PÓ DE SER
A Dança Da Canção Incerta (2015)

01. PODE APOSTAR
02. CUIDADO
03. A DANÇA DA CANÇÃO INCERTA
04. BICHO URBANO
05. FANTASIA AO PÉ DO OUVIDO
06. VOU NÃO VOU
07. REFRÃO DOS DIABOS
08. LEONOR
09. PRISMA
10. CAPTOU
11. VENHA VER O SOL
12. PÓ DE SER

Faça o download do álbum completo:
http://migre.me/siavg

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https://www.facebook.com/podeserbanda

Ouça o primeiro EP da banda:
http://soundcloud.com/podeser

Integram a banda Pó de Ser: Diego De Moraes, Kleuber Amora GarcezFernando Assis, Hermes Soares Dos Santos, Danilo RosolemO álbum inclui ainda participações especiais de Fernando Catatau (do Cidadão Instigado), Cristiane Perné, Bebel Roriz, Frederico Valle, Leo Pereira (Terrorista da Palavra), dentre outros convidados. A arte da capa é de arte de Natália MastrelaNo vídeo abaixo, confira trechos da faixa-título e da canção “Bicho Urbano”, além de cenas das gravações do álbum no Rocklab de Pirenópolis (GO). O vídeo foi bolado para a divulgação da première do álbum, que rolou na Evoé Café Com Livros, em Goiânia.

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Confira também, na sequência, “De Repente” e “Ypsilone”, ambas canções do EP de estréia do Pó De Ser, Tudo Torto Em Linha Reta:

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Ouça também os álbuns de Diego de Moraes, Parte de Nós e Diego Mascate. Confira também seus clipes para “Dia Bonito”, “O Show Vai Continuar” e “Todo Dia”.


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P.S. A Casa de Vidro também tem a alegria de anunciar que o Diego de Moraes é o mais novo colunista do site e escreverá por aqui no ano de 2016. Aguardem!!!

A NAU DOS LOUCOS de Hieronymus Bosch + POEMA “Tu és o louco da imortal loucura…” de CRUZ E SOUZA (1861 – 1898)

Hieronymus Bosch (1450–1516) - LOUVRE

“A Nau dos Loucos” (à esq.), de Hieronymus Bosch (1450–1516) – LOUVRE

O ASSINALADO

Tu és o louco da imortal loucura;
O louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma desventura extrema;
Faz que tu’alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o poeta, o grande assinalado;
Que povoas o mundo despovoado
De belezas eternas, pouco a pouco.

Na natureza prodigiosa e rica,
Toda a audácia dos nervos justifica,
Os teus espasmos imortais de louco!

Cruz e Sousa

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leminski-by-cesinhaPAULO LEMINSKI BIOGRAFA 4 VIDAS: CRUZ E SOUSA, BASHÔ, JESUS E TRÓTSKI

“O Terceiro Olho”, Um Ensaio Gonzo sobre Bob Dylan (+ Discografia Básica Para Downloadar)

“Do not go quietly into that good night!
Rage, rage against the dying of the light!”

Dele se dizia que “tinha sua mão sobre o pulso de sua geração”. Com a sabedoria que foi pescar em Steinbeck, Walt Whitman e Woody Guthrie, cantou aquela América que não está no cartão-postal: a América com a história conspurcada pela Klu Klux Klan e pelo ódio racista; a América da Guerra Fria, com seu arsenal nuclear pavoroso, ávida por Vietnãs a invadir e morta de pavor diante do espectro do comunismo; a América que acredita ter Deus a seu lado e que por isso se sente justificada a santos morticínios (“you don’t count the dead when God’s on your side…”).

Garoto judeu nascido nos EUA enquanto a Europa era assolada pelo Holocausto (em 1941), Robert Zimmermann tinha menos de 5 anos de idade quando seu país natal lançou as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki (detalhe sinistro: com três dias de distância entre os dois massacres). Uns vinte anos depois, mostraria com algumas de suas canções – “A Hard Rain’s Gonna Fall” e “Masters of War”, por exemplo – que soube transformar sua indignação em crítica ferina. Nascia um artista cujas poesias e melodias traziam a marca de uma singularidade sem par. A música de protesto jamais seria a mesma. AMúsica jamais seria a mesma.

Robert Zimmerman despontou como “menino prodígio” na cena do Greenwich Village, Nova Iorque, com vinte e poucos anos de idade, com seu violãozinho surrado e sua gaitinha de boca, celebrizando-se rapidinho com uma escrita esperta e ousada que flertava com a dos beatniks. Revolucionou a vazia verbolatria da mídia-de-massas levando o “espírito” de Ginsberg, Kerouac e Cassady para as letras de música.  Além de um vasto conhecimento literário, o jovem folkie, que havia assumido o codinome “Dylan” em homenagem ao poeta Dylan Thomas, parecia haver devorado antropofagicamente todo o passado da música popular americana: era admirador de Hank Williams, Robert Johnson, Little Richards e Elvis Presley, sem estabelecer fronteiras entre o country, o blues e o rock. Os amores não respeitam os departamentos.

Para cantar a América – aquela de As Vinhas da Ira, não a da Disney! – Bob Dylan conquistou seu arsenal nas mais variadas fontes, enraizou-se fundamente no solo fecundo da cultura popular americana, aquela criada espontaneamente pelos folks que jamais assinam contratos com mega-gravadoras. Soube ouvir, longa e profundamente, ao que dizia a Voz do Povo. É por isso – esta capacidade de “escutar” aquilo que expressa sua geração e sintetizar isto numa expressão criativa – que Dylan foi um marco tão crucial nos anos 1960, inspirando “gentinha” miúda como… Jimi Hendrix e John Lennon. Bob Dylan faz parte da rara estirpe de artistas que desdenham de fronteiras, inventam novas misturas e redefinem tudo o que será feito depois deles. Como marcos divisores que racham a História em duas: uma antes deles, outra depois.

Dylan misturava sem dó nem pudor as referências mais eruditas com as mais popularescas gírias. Não acreditava nesta invenção de letrados que é o muro intransponível entre os cultos e os analfabetos, a Academia e o povo. Levou as tretas entre Rimbaud e Verlaine para suas canções de amor, e elevou canções de amor ao status de obras-primas da literatura (“Visions of Johanna” é ou não é um dos mais belos poemas do século?).

Diante de um artista tão audaz nas transformações que impôs a seu som e à sua identidade lá pelo meio dos anos 1960, os puristas, é claro, levantaram-se ofendidíssimos: que heresia eletrificar seu folk e lançar-se elétrico na Era dos Beatles! “Judas! Traidor!”, bradavam do público. Ele não queria nem saber e, numa atitude proto-punk de fodam-se os puristas, dizia para a The Band, debaixo das vaias dos indignados: “toquem alto pra caralho!” Porque o artista não existe só para agradar, mas tem que ousar agredir. Para dizer às pessoas o que elas querem ouvir já existem as religiões e as propagandas, os best-sellers de auto-ajuda e os mercadores de ilusões reconfortantes. O artista será um dedo na ferida, alguém que nos abre o olho, ainda que à nossa revelia, ou não será um artista.
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Bob Dylan, me parece, foi um dos homens mais cultos da história de seu país, um colosso em relação à norma: escrevia aos 20 e poucos anos de idade algumas quilométricas canções narrativas que remetiam às peças de Brecht (“Only A Pawn In Their Game”) e que às vezes atingiam a beleza poética de William Blake (“Gates of Eden”, “Highway 61 Revisited”…). Usava como personagens tanto figuras bíblicas quanto trágicos heróis e heroínas de Shakespeare (como Ofélia, que transita por “Desolation Row” na companhia ilustre de Ezra Pound, T.S. Eliot e o Fantasma da Ópera). Bob Dylan, décadas antes do procedimento ser “viralizado” por Beck e pelo Rap, inventou um tipo de composição altamente “linkada”, que se assemelha a uma rede, repleta de setas apontando para fora dela mesma. Uma canção de Dylan era uma janela que se abria para um horizonte cultural mais amplo, que nos retirava os véus e as pálpebras que, bem em cima da testa, mantêm fechado o que Nietzsche gostava de chamar  “O Terceiro Olho”.

Não à toa, Dylan, nos 1960, foi defensor da cannabis – que, conta a mitologia, ele teria apresentado aos Beatles… – e teve a desfaçatez de iniciar seu  Blonde on Blonde com o mais lúdico e brincalhão de seus sons, clamando: “Everybody must get stoned!” Dylan, além do elogio explícito das substâncias químicas que abrem o Terceiro Olho, nos mostrou que a poesia também podia ser um barato embriagante:a poesia, este bem gratuito e disponível a todos, também é uma espécie de dispositivo psicodélico que, se consumido em doses adequadas, com os olhos corretos abertos, com o coração suficientemente vulnerável para que seja afetado e chaqualhado e impactado, abre-nos, súbito, na testa, um 3º olho.

Leminski, quando especula sobre a razão que explica porquê os povos amam seus poetas, esquece de comentar que a expansão de consciência sempre foi considerada pelo homo sapiens um bem em si mesmo, sempre foi acompanhada por um êxtase diretamente proporcional à abertura de horizonte conquistada, amada por todos aqueles que conquistavam o sentimento oceânico, ou órfico, ou dionisíaco, ou místico, chamem como quiser este Inefável. Não é por outra razão que a ayahuasca chegou até nossos dias, com sua receita milenar transmitida de geração em geração: é pela mesma razão que Shakespeare, Heine ou Fernando Pessoa prosseguem entre nós, consumidos como se fossem ácido, por mentes esfomeadas por enxergar mais longe do que permitem os cabrestos que nos enfiam na mente os Senhores.

Esse garoto judeu que vemos no festival folk de Newport em sua primeira ascensão, este Dylan cheio de energia juvenil, que não se envergonha de sua tosquice no afinamento do violão nem do nasalamento patolino de sua voz, é a convicção encarnada de que o poder da palavra importa mais do que ornatos, adornos e fogos de artifício. Ninguém foi menos glitter do que Dylan: ao invés de posar de estrelinha, ele preferia parecer-se com um andrajoso cigano, caroneiro de trens de carga, vadio cheio de dignidade, pobre em roupas mas rico em poesia. Dylan nunca foi realmente um showman e sempre esteve mais para um rapsodo vadio e esfarrapado. Tom Waits soube aprender muito com ele – assim como Nick Cave.

Victor Hugo dizia: “os poetas são milionários de estrelas”. Dylan é a riqueza interior que se afirma com as aparências exteriores mais humildes. Às vezes quer me parecer que em algumas de suas músicas há um ideal, não muito distante daquele de Alexander Supertramp, que consiste em crer que  mesmo sem ter no bolso um vintém, mesmo sem ter no mundo qualquer propriedade, é possível sentirmo-nos plenos simplesmente por estarmos vivos diante de um céu estrelado que se recusa a responder a nossos assombros.

“A resposta, meu amigo, está soprando no vento…”

* * * * *

Bob Dylan não cessa de fascinar e desconcertar pois é um vivente que talvez nenhum outro vivente entenda por completo – nem ele mesmo. Quando entramos no mundo destas canções que ele criou, a sensação que nos toma é a de uma alteridade misteriosa, como se ele próprio gostasse de se vestir de Esfinge e fazer se multiplicarem nossas dúvidas sobre ele. Não é possível definir Dylan com nenhum rótulo: a própria torrente infindável de suas canções, este caudaloso rio poético de mil faces, é uma correnteza que arrasta, como teias de aranha, toda tentativa de fixá-lo, esgotá-lo, domesticá-lo.

O que tantos evocam para explicar o charme, a graça e o talento de um David Bowie ou um Raul Seixas – o fato deles serem “mutantes”, metamorfoses ambulantes, homens-iguana… – também vale para Dylan: ele se revoltou contra a idéia de uma identidade única, fixa, imutável, e dissolveu-se em muitos eus, muitas faces, muitas cores, muitos Dylans, que formam um caleidoscópio que a Razão não entende por completo, mas que a sensibilidade sabe admirar, espantada e atingida.

É isso, me parece, que explica o poder de “Like a Rolling Stone”, aquilo que a faz ser considerada uma das melhores canções populares já compostas, digna de ser esmiuçada por livros inteiros (como o de Greil Marcus, por exemplo). Há toda uma “corrente afetiva” subterrânea que anima a canção e que convence o ouvinte que Dylan está falando sobre algo de crucial sobre a condição humana. Dylan usa a imagem poética da pedra que rola – que integra o que eu chamaria de “mitologia do rock and roll” em muitas versões, em Muddy Waters e nos Rolling Stones, por exemplo – mas não está falando somente sobre pedaços de matéria rolando por aí: não se trata somente de deslocamento no espaço, mas de mudanças no tempo. Não se trata somente de correr mundo, mas de correr de si mesmo. Dylan tematiza esta imposição cósmica que o Universo obriga todo eu a suportar como um Destino: mudar, transformar-se, correndo como o rio de Heráclito. E o Dylan dos anos 1960 marcou época por abraçar a mudança com um sábio amor fati: isso de transformar-se inexoravelmente em outra coisa sem nunca estagnar-se e conformar-se a ser o que já se é. A tragédia e a glória da pedra que rola é que ela não possui nenhum freio possível. É como na vida mesma, onde não existe como puxar o freio-de-mão, a não ser pelo suicídio – que aniquila qualquer possibilidade da vida re-aventurar-se em novos aceleramentos. O tempo não pára: ninguém énada, de uma vez por todas, mas sempre estamos sendo.

“Once upon a time you dressed so fine / Threw the bums a dime, in your prime, didn’t you?” Aí já se desenha, nos primeiros versos, um quadro de apogeu e decadência, de mudança brusca no curso dos tempos, algo que ele tematizou de modo poderoso também em “The Times They A-Changin'”. Ser um rolling stone é estar sempre na estrada, em busca de um lar que parece nunca se encontrar. É um sentimento (“without a home… a complete unkonwn…”) que dá o tom daquela melancolia saturnina que assombra os blues de Son House. Mas em Dylan sempre houve também uma paixão pelas raízes, por algo como um home sweet home que nos livre da sina de vagar, vadios, a procurar. É como se sua alma fosse um cabo-de-guerra entre o enraizamento e a vontade de correr mundo. Como se suas canções fosse um testemunho e um tributo deste fecundo diálogo existencial entre a atração do desconhecido e a vontade de settle down.

Estou longe de ser um dylan-maníaco que bate palmas para tudo que o “gênio” fez – estou convicto, aliás, que ele fez muita porcaria e que a Musa faltou ao encontro em numerosas ocasiões. Uma discografia tão imensa certamente comporta muitos álbuns fracos, desnecessários, que talvez ele tivesse feito melhor em engavetar. Olho com um pouco de desdém, mesmo, para os anos 80 de Dylan, marcados pela infame conversão ao cristianismo e por alguns flertes desavergonhados com a música gospel, mas logo me belisco para me acordar e percebo o absurdo que é ousar desdenhar de Bob Dylan sem ter feito um centésimo do que ele fez, sem ter criado porcaria nenhuma que chegue aos pés do que ele já criou. Minha admiração irrestrita se restringe àquela que considero a Fase de Ouro de Dylan – aquela que se extende mais ou menos de 1963 a 1976 e que inclui obras-primas como Freewheelin, The Times They Are-A Changin’, Another Side, Bringing It All Back Home, Highway 61 Revisited, Blonde on Blonde, Nashville Skyline, Blood on the Tracks, Desire… O “resto” é algo ainda por explorar, mas que não me atrai com um magnetismo tão forte: é como se eu soubesse que vou me decepcionar e preferisse a companhia daquele jovem Dylan que preencheu, plenificou e fascinou tantos inquantificáveis momentos da minha juventude.

Sei bem que Dylan ainda está vivo, e por sinal acaba de soltar seu novo álbum, Tempest. Mas costumo falar dele como se ele estivesse no passado, como se já tivesse se transmutado em mito. São poucos os vivos, hoje, que já sabemos do status mítico que terão quando baterem as botas – caso, no Brasil, de um Chico Buarque ou um Tom Zé. O velhinho Dylan, hoje por aí, espanta-me um pouco com a falta de vergonha que ele demonstra em relação à sua voz, que por mais de uma década está estragadaça: quanto mais o tempo passa, ele se transmuta de Pato Donald em Bruxa do 71. Mas logo me lembro que uma das maiores graças de Dylan sempre foi isso: o fato dele colocar o conteúdo, a mensagem, a letra, muito acima dos ornamentos externos. Se ele acha que tem uma boa letra, ele irá cantá-la, mesmo com a pior voz do mundo, pois julga que aquilo precisa ser dito.
Dylan só marcou época como cantor de protesto pois seus ouvintes e admiradores reconheceram que aquilo que ele disse precisava ser dito: ele é uma figura que encarna, como Kurt Cobain nos 90, o status de “voz de uma geraão”. Depois, lançou por terra todos os rótulos que quiserem grudar nele: enfiou a guitarra elétrica no folk, abandonou a seriedade do engajamento político e abraçou a poesia surrealista e dadaísta, dando vazão ao homo ludens que trazia dentro de si. Atravessou a vida sendo um criador e morrerá um criador. E suas criações são tão complexas, multifacetadas e crípticas que Dylan é um homem indecifrável – daqueles que não permitem que a gente termine um ensaio sobre ele com satisfação, mas sim com a frustração de não ter dado conta de compreender e explicar um destino que escapa à Razão. Mas talvez todos os destinos escapem ao domínio da Compreensão? Talvez todos levaremos para o túmulo uma fatia imensa de Mistério? Sei lá eu… Sei que Dylan, pedra rolando pelo mundo, sempre se re-inventando, obcecado por sua mania criativa, sempre me inspirou o sentimento de que viver é inventar, que viver é mudar, que viver é não se conformar, que viver é saber que o nascimento não é algo que ficou pra trás, mas uma tarefa ainda por cumprir. É como se Dylan quisesse morrer ainda em pleno trabalho de parto criativo – em suma: morrer ainda nascendo. “Get Born!” é, talvez, o slogan dylanesco que mais adoro. E meu verso predileto das Obras Completas de Mr. Zimmermann talvez seja aquele: “he not busy being born is busy dying“. Pois, como diria o poeta Murilo Mendes, “nascer é muito comprido”. E pra ninguém é missão cumprida.
 
Eduardo Carli
Goiânia, Setembro de 2012
Originalmente publicado no Depredando

Este é o 3º ensaio que dedico a tentar decifrar Dylan. 
Eis os outros dois: X e Y.

“Murray Lerner’s documentary features Bob Dylan’s performances at the Newport folk festival between 1963 and 1965 – the time when Dylan changed the music of the world and changed himself from the fresh-faced cherub singing “Blowin’ in the Wind” to the rock ‘n’ roll shaman who blew pop music apart when he went electric. The film No Direction Home told the story of how Dylan affected the world and the world affected Dylan, but this film brings you face to face with the work itself. Like the discovery of a hitherto unknown manuscript or an unseen masterpiece, this is a treasure trove, newly opened up.”

BOB DYLAN
DISCOGRAFIA BÁSICA
Another Side (1964) [download]
Blonde on Blonde (1967) [download]
Blood on the Tracks (1975) [download]
The Freewheelin’ (1963) [download]
The Times… (1964) [download]
Highway 61 (1966) [download]
Bringing It All Back Home (1965) [download]