Duas doses de Denis Villeneuve: crítica dos filmes “Arrival – A Chegada” e “Sicário – Terra de Ninguém”, duas obras mais recentes do diretor canadense

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#CinephiliaCompulsiva2017

Em “Arrival – A Chegada”, de Denis Villeneuve, alienígenas invadem a terra (de novo!) e o enredo até tenta dar ares de originalidade a tema tão batido. O filme evita a fórmula da conflagração clichê de uma “Guerra dos Mundos”, aliás já re-filmada não faz muito tempo por Steven Spielberg. Mas aquilo que prometia tornar-se algo tão impactante quanto excelentes sci-fis recentes como “Children of Men – Filhos da Esperança” (de Alfonso Cuarón), “Distrito 9”, de Neil Blomkamp ou “Ex Machina” de Alex Garland, chafurdou na lama de seu desfecho. O que não impede que a expectativa seja enorme em relação ao mega-projeto de ficção científica que Villeneuve terá a responsa de realizar em 2017: Blade Runner 2049, sequência do memorável filme de 1982 dirigido por Ridley Scott, baseado na obra de Philip K. Dick.

Com ares de filme cult, “Arrival” não quer apenas gastar milhões de dólares da produção em estonteantes carnificinas e explosões em que soldados terráqueos digladiam-se com ETs dotados de armas laser. A vibe de “Arrival” lembra mais a de “Contato”, de Robert Zemeckis, baseado em romance de Carl Sagan e estrelado por Jodie Foster – e não somente pela protagonista ser uma mulher nos dois casos. Ambos tendem para o drama psicológico ao pôr em relevo o problema da linguagem de comunicação utilizável em encontros de criaturas de diferentes proveniências galácticas: em que idioma possível conversaríamos com visitantes do espaço sideral? Como desenvolveríamos uma língua comum que nos permitisse algum tipo de mínima compreensão mútua? Como transpor o abismo do incomunicável?

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No filme, baseado no conto “Story of Your Life”, de Ted Chieng, que integra o livro História da Sua Vida e Outros Contos (Intrínseca, 369 pgs, R$40 na Amazon), a personagem de Amy Adams é convocada para integrar a Equipe-EUA que lidará com o misterioso pouso dos OVNIs. A protagonista tem um pedigree acadêmico-científico vinculado àsua prodigiosa capacidade com línguas estrangeiras – ela fala chinês e farsi sem dificuldades, acha fácil dominar línguas já mortas e não tardará em bater um papo com os ETs (mais parecidos com gigantes polvos do que com aquele adorável feioso cor de cocô inventado por Steven Spielberg em E.T.).

Tudo ia indo muito bem no filme, com sua narrativa interessante e seus “contatos” que vão num crescendo de proximidade e de experimentação. Porém… o fim! Que decepção. “Arrival” até arrisca pôr em questão o tema das relações internacionais em nosso globo, instaurando um desafio diplomático sem precedentes entre as 12 nações que têm as espaçonaves alien pousadas em seus territórios. Afinal, o tema da linguagem comum que possibilite algum tipo de troca ou convívio, com algum grau de inteligibilidade, é algo que não diz respeito somente às relações humanos-ETs, mas às relações humanos-humanos.

Pareceu-me que os ETs foram demasiado otimistas ao acharem que iriam fornecer-nos um quebra-cabeças de 12 peças, entregando estas peças a 12 países diferentes, com línguas oficiais diferentes, na expectativa de um concerto sinfônico harmônico das nações… Eu acreditaria muito mais na verossimilhança de alienígenas misantropos. O filme vai num crescendo que dá a entender que tudo acabará em catástrofe, para o bem das bilheterias – um “blockbuster” sem espetaculares desgraças não é digno deste nome. Vamos nos aproximando do fim do filme e parece que aquela entidade ancestral e sempre nossa contemporânea, a Estupidez Humana, irá lidar novamente com a chegada do estranho, do irrotulável, do incatalogável, do queer, do diferentão, em suma, da alteridade radical, apelando para seu antiquíssimo comportamento psicótico: a solução militar, o destravamento da agressão bélica, a violência nuclear contra aqueles rapidamente rotulados pelo preconceito paranóico como maus e inimigos.

Mas não: com o perdão do spoiler, digo que a improvável vitória da paz, no contexto que o filme narra, foi um tiro no pé na verossimilhança (que também é um valor digno de respeito em um sci-fi). O meu problema com o desfecho da obra não é tanto uma frustração pueril de cinéfilo colonizado que ficou com apetite insaciado de mega-catástrofes, não é uma irritação com o discurso pacifista ou de conciliação diplomática neles mesmos. O meu problema é com a solução totalmente deus ex machina, altamente inverossímil. “Arrival” vinha como um interessante filme sobre os desnorteios da ciência e linguagem comuns diante de um fenômeno novo e sem precedentes, mas por fim transforma-se em uma espécie de manifesto new-age, afirmador de poderes parapsíquicos miraculosos, mobilizador de protagonista canonizada como salvadora-do-mundo – um happy ending que, pro meu gosto, soa altamente supersticioso. E por isso suspeito de ter agido com propósito de mistificação.

Dirão os sarcásticos que a superstição vende muito bem, e às vezes rende mais críticas elogiosas do que as destruições blockbostistas empreendidas por Michael Bays em “Independence Days”. Sim, é vero, se há tanta superstição impregnando tantas obras da indústria do entretenimento também é por razões mercadológicas: superstição é sucesso, superstição é crowd pleaser. O problema é que Denis Villeneuve, que até merece seu status como um dos principais cineastas “cult” hoje em atividade, dada a qualidade de sua filmografia (Enemy, adaptação de O Homem Duplicado de Saramago, e Incêndios estão entre seus filmes prévios mais interessantes), parece que quis impor um happy end a “Arrival” que acaba por transformá-lo em algo muito menos memorável do que poderia ter sido.

Pensávamos que nossa protagonista era uma esforçada pesquisadora e intelecual, uma linguista que fica suando os miolos até atingir a maestria; descobrimos, por fim, que tratava-se de nada menos que uma profetisa, uma semi-divindade, uma magic woman, alguém que tornou-se dotada de um super-poder fantástico de que os outros mortais estão desprovidos. A heroína de fantasia super-heróica vence sobre cientista de carne-e-osso. A reflexão sobre linguagem e comunicação, com os mil percalços que temos que encarar pelos caminhos cheios de sangue de nossa realidade geopolítica globalizada atolada em antagonismos, perde de lavada para a afirmação de “dons sobrenaturais” que nossa privilegiada protagonista adquire após seu intercâmbio salvífico com aliens pedagógicos, uns ETs que são tudo gente fina… Dá pra engolir?

Fantasia consolatriz demais, seu Villeneuve, chega a dar asco. Para o meu gosto, um filmaço mesmo, em contraste, é o “Ex Machina” de Alex Garland, que também debate ciência e linguagem com profundidade, mas também tem a coragem de ser mais distópico, ousando avançar nas reflexões sobre inteligência artificial rumo a domínios nunca dantes explorados e mostrando que há ainda muito a dizer, muito além de Matrix e suas desastradas sequências.

Por fim, a questão crucial dos filmes deste gênero – a chegada alienígena é hostil ou benigna? eles vêm em paz ou querem guerra? – acaba respondida por “Arrival” com extremo otimismo. O final feliz, saído com um ás da manga de um mágico, é muito semelhante a muitos outros desfechos do mau cinema comercial para que o filme termine satisfazendo os apetites que ele mesmo despertou. Ao invés de falsas soluções salvíficas e milagrosas, que desenham auras de miraculosidade sobre a protagonista, Villeneuve poderia ter encerrado a obra mais “em aberto”, deixando algo à imaginação e a encucação do espectador. Do jeito que terminou, “Arrival” estragou o gosto do belo banquete que havia preparado pois não teve a coragem de mandar o espectador embora do cinema com muito mais problemas e enigmas do que aqueles que tinha ao entrar.

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Amy Adams como Louise Banks em “ARRIVAL” (Paramount Pictures)


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TERRA DE NINGUÉM?

A fronteira entre os EUA e o México tem mais de 3.100 km de extensão e é uma zona de intensas atividades migratórias, com cerca de 10 milhão de pessoas atravessando-a legalmente todos os anos (os dados são da Wikipedia: http://bit.ly/2kM9wqe), com números também estratosféricas de migrações clandestinas.

Neste ano de 2017, que nasce sob a sombria tirania de Donald J. Trump nos EUA, re-assistir um filme como “Sicário – Terra de Ninguém” [http://www.imdb.com/title/tt3397884/], de Denis Villeneuve, pode ser uma experiência interessante pelas reflexões que pode suscitar sobre uma área do globo terrestre que promete, no futuro próximo, passar por ainda mais graves turbulências do que as já violentas conflagrações vigentes.

Como tem sido amplamente noticiado, Trump tinha como uma de suas promessas de campanha o fortalecimento dos muros do apartheid que já separam os dois países. Não demorou muito para que ele, assumindo o poder, desse continuidade à sua insânia de psicopata, sugerindo que o México pagasse pela construção do Muro (saiba mais na BBC: http://bbc.in/2jz4CLk). Em seu primeiro mês na Casa Branca, as atitudes supremacistas, xenófabas e racistas do novo mandatário – que também está tentando banir o ingresso de imigrantes proveniente de países de maioria islâmica – já foram o suficiente para destravar uma crise diplomática severa entre México e EUA.

Além disso, Trump rapidamente já conseguiu despertar a fera semi-adormecida dos mega-protestos cívicos e contestatórios (como a Women’s March on Washington e o Occupy Wall St.), tacando combustíveis fósseis nas chamas da desobediência civil por parte daqueles setores da população estadunidense que não acatarão calados os desmandos do bilhardário. A ascensão de Trump também será resistida, em casa, por uma galera que tem adotado, como sintoma significativo da crise de representatividade que assola as democracias liberais, o slogan/hashtag#NotMyPresident.

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Dirigido por um cultuado cineasta do Québec, “Sicário” traz Villeneuve em modo thriller, apostando na estética sangue-nos-olhos, com cenas dignas de Tarantino ou de Peckinpah, sem escassez de tiroteios e SWAT teams. Mas o filme, que pretende ser um retrato realista dos conflitos fronteiriços, peca em inúmeros aspectos, em especial por sua completa incapacidade de realizar uma crítica da Guerra às Drogas e seus efeitos sócio-culturais.

O cineasta canadense poderia muito bem ter realizado uma obra onde a perspectiva mexicana e latina tivesse mais espaço e preponderância; pelo contrário, finca sua câmera somente no meio social ultra-militarizado e hiper-brucutu das forças de repressão aos cartéis do narcotráfico. Filma de modo estiloso as caçadas policiais aos narcotraficantes, em cenas que lembram “Tropa de Elite” e a atitude do BOPE pelos morros do Rio. Mas acaba por não oferecer mais que um filme de guerra pouco original, que passa ao largo das grandes questões geopolíticas atuais, cometendo ademais a imperdoável canalhice de reafirmar velhos preconceitos sobre um México sem lei e sem ordem, que os xerifões das “Terras Desenvolvidas” buscam pôr no lugar e nos eixos, ainda que seja utilizando métodos dignos do Coringa de “Cavaleiro das Trevas”, o agente do caos.

Tudo bem que “Sicário” pode servir como um retrato sombrio e sinistro de práticas policiais cotidianas em áreas consideradas como “de ninguém” e onde os soldadinhos tem licença para apertar o gatilho à vontade – são as “zonas de sacrifício” de que fala Naomi Klein, onde a vida humana é considerada indigna de respeito e onde os direitos humanos viram uma baboseira humanitária a tacar na lata de lixo da história. De fato, há algo de inerentemente revoltante nas atitudes dos “hômi” cabra-macho que “Sicário” retrata, mas isto não basta para que o filme seja satisfatório enquanto crítica social. O cinema mexicano, aliás, parece-me ter feito muito melhor neste quesito através de dois filmes de Luis Strada, “A Ditadura Perfeita” e “O Inferno”.

O mesmo incômodo que sinto diante do retrato do México na série “Breaking Bad” dá as caras em todo o canto de “Sicário”: os personagens mexicanos não são considerados dignos de muita atenção, muito menos compreensão, sendo não mais que caricaturas que operam no contexto dramatúrgico como bonecos de carne e osso, retratados como selvagens e sanguinários, e por isso livremente matáveis e extermináveis pelas forças da Lei e da Ordem.

Em “Breaking Bad”, Walter White é um senhor de densidade psicológica, complexidade existencial, mutabilidade comportamental, que vai de um pacato professor de química a um mega-comerciante internacional de metaanfetamina; já seus símiles do lado Mexicano merecem apenas o retrato rápido devotado as feras raivosas de incurável ferocidade. As caricaturas confessam as ideologias que animam, talvez semi-conscientemente, os criadores dos personagens.

“Sicário” também foca em um trio de personagens principais que são todos policiais do lado Yankee – e somente um arremedo de diversidade é fornecido pelo fato de que há algumas notas destoantes na atitude de uma mulher, agente do FBI (Emily Blunt), que têm lá seus atritos com os machões que chefiam a operação (Benicio Del Toro e Josh Brolin). Ela pode até desaprovar os métodos que testemunhou em ação, mas é obrigada a calar-se; o que o filme desperdiça, ou seja, deixa de aproveitar, é tudo o que também foi obrigado a calar-se aí: o fato de que o caos no “lado mexicano da Fronteira” não é autóctone, não é autogerado, não é “culpa do próprio México”, mas está intimamente imbricado com as políticas impostas por Tio Sam. Em especial as insanas políticas proibicionistas, militaristas e xenofóbicas que atingem agora um novo cume sob Trump.

De resto, o filme passa todo o tempo retratando a carnificina e o morticínio que são diretamente conectados às políticas proibicionistas do DEA, além do obsceno armamentismo que tantos lucros traz a magnatas do comércio de trabucos e munições, sem ousar uma crítica mais aprofundada da situação – sem nem mesmo fornecer ao espectador a perspectiva daqueles que morrem nesta guerra, como moscas, sem nunca terem estado envolvidos com tráfico de narcóticos ou com cruzadas supostamente heróicas de xerifões hi-tech da Yankeelândia trigger-happy. Os “danos colaterais” de que falam Bauman ou Chomsky parecem não existir no mundinho fechado do filme. Afinal de contas, parece que Denis Villeneuve quis embarcar na onda de hype gerado pelos filmes de Kathryn Bigelow e buscou sacramentar-se como figurão do cinema através de um alinhamento aos temas e aos enfoques tipicamente Yankees.

De todo modo, “Sicário” é um filme-lodaçal, uma espécie de pântano de sangue que não doura a pílula, mostrando o tamanho do desastre humanitário que se passa nesta fronteira. Teria feito melhor, porém, se tivesse tido a coragem de questionar, Quebrando o Tabu, as responsabilidades por esta mega-tragédia, que estão em larga medida na falida e genocida Guerra às Drogas. Ela mesma que, na Era Trump, promete prosseguir entre nós, continuando a erigir um monumento à estupidez humana e ao sangue derramado em vão.

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“CRISE IMIGRATÓRIA – PERGUNTAS E RESPOSTAS” – Reproduzido da Carta Capital

Imagens: acima, em uma praia do Marrocos, uma manifestação presta tributo ao menino sírio Aylan Kurdi, pequeno refugiado da guerra civil cujo corpo humano foi “washed ashore” (shame, shame, shame), como escreveu nas areias um outro manifestante (abaixo). Fonte: The Mirror.UK.

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CRISE IMIGRATÓRIA – PERGUNTAS E RESPOSTAS
Reproduzido da CartaCapital

O mundo vive a maior crise de migratória de refugiados, por motivos de guerra ou perseguição política e étnica, desde a Segunda Guerra Mundial. Segundo a ONU, em 2014, 59,5 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar seus países devido à violência. Neste ano, a expectativa é de um número ainda maior.

Países com histórico recente de guerras lideram a lista dos que mais exportam refugiados. Em primeiro lugar vêm o Afeganistão, seguido pela Síria, Somália e Sudão, com o Iraque em sexto lugar. Nas últimas semanas, os refugiados têm se deslocado para a Europa, continente que apoiou intervenções militares no Afeganistão, Iraque e Síria. Leia, abaixo, algumas perguntas e respostas sobre o tema.

PERGUNTA: Por que muitos sírios estão deixando a Síria?

A imensa maioria dos sírios que se dirige à Europa para escapar da guerra civil em seu país, iniciada em 2011, com a repressão imposta pelo ditador Bashar al-Assad às manifestações da chamada Primavera Árabe. Atualmente, diversas cidades sírias estão destruídas e o país se encontra dividido entre grupos pró-Assad, rebeldes anti-governo, forças curdas, o Estado Islâmico e outras facções jihadistas, entre elas a Frente al-Nusra, ligada à Al-Qaeda.

PERGUNTA: A família do menino Aylan Kurdi, encontrado morto em uma praia turca, vinha de onde?

Desde 2011, mais de 4 milhões de pessoas deixaram a Síria, cerca de um quarto da população. Aylan Kurdi, o menino cuja fotografia comoveu o mundo, havia fugido com sua família de Kobane, cidade síria palco de violentos confrontos entre militantes do Estado Islâmico e forças curdas no início do ano.

FILE - In this Sept. 2, 2015 file photo, a paramilitary police officer investigates the scene before carrying the lifeless body of Aylan Kurdi, 3, after a number of migrants died and others were reported missing when boats carrying them to the Greek island of Kos capsized near the Turkish resort of Bodrum. The tides also washed up the bodies of the boy's 5-year-old brother Ghalib and their mother Rehan on Turkey's Bodrum peninsula. Their father, Abdullah, survived the tragedy. (AP Photo/DHA, File) TURKEY OUT

Sept. 2, 2015. A paramilitary police officer investigates the scene before carrying the lifeless body of Aylan Kurdi, 3, after a number of migrants died and others were reported missing when boats carrying them to the Greek island of Kos capsized near the Turkish resort of Bodrum. The tides also washed up the bodies of the boy’s 5-year-old brother Ghalib and their mother Rehan on Turkey’s Bodrum peninsula. Their father, Abdullah, survived the tragedy. (AP Photo/DHA, File) TURKEY OUT

PERGUNTA: (…) Por que pessoas que procuram asilo na Europa estão sendo impedidas de embarcar em trens na Hungria?

Diante da chegada de um grande número de refugiados, o governo húngaro optou por impedi-los de acessar a estação central de trem de Budapeste, uma das vias para a Alemanha. O bloqueio era restrito apenas a refugiados. O governo húngaro se justificou dizendo que tentava cumprir as regras da União Europeia, que só permite o livre fluxo entre os países-membros para quem possuir passaporte europeu e visto de entrada…

PERGUNTA: Como os governos europeus estão reagindo à questão?

Não existe uma resposta unificada dos governos. Alemanha e Suécia, por exemplo, têm se mostrado receptivas aos refugiados. Por outro lado, Hungria e Reino Unido defendem um número limite de refugiados e políticas de deportação. Outros têm alertado refugiados que não estão preparados para recebê-los. Este é o caso do governo da Dinamarca, que publicou anúncios em três jornais libaneses pedindo para que eles não se dirijam para o país.

PERGUNTA: O bloco busca um entendimento sobre esta questão?

Sim. O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, pediu na quarta-feira 9 aos países da UE que recebam 160 mil refugiados e adotem ações “corajosas” para responder à mais grave crise migratória em décadas na Europa. Diante do Parlamento Europeu, Juncker disse que vai avançar com uma proposta que prevê a distribuição com “urgência” e com carácter “obrigatório” de mais 120 mil refugiados, além dos 40 mil já propostos, que hoje estão espalhados pela Hungria, Itália e Grécia. Conforme adiantou o jornal inglês Financial Times, a proposta irá prever multas para os países que rejeitem a sua quota. Segundo a ONU, a Europa deveria receber 200 mil refugiados.

PERGUNTA: Como resolver este problema?

Por definição, um refugiado é alguém que teve de deixar seu país natal por causa de sua etnia, religião, nacionalidade, convicção política ou pertencimento a certo grupo social, segundo a convenção de Genebra sobre refugiados. No caso dos refugiados sírios, por exemplo, a guerra civil é o principal motor da migração. Na Eritreia, por outro lado, a repressão e a perseguição política por parte do governo são as causas. Por isso, uma solução para a crise humanitária dos refugiados passa obrigatoriamente pela paz e estabilidade democrática nos países de origem.

Conflitos armados decorrentes da invasão do Iraque e Afeganistão, em países africanos ou pós Primavera Árabe respondem, em grande medida, pelo maior número de refugiados no mundo desde a Segunda Guerra Mundial. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), o número de deslocados e refugiados alcançou, em 2014, um recorde de 59,5 milhões de pessoas. Há uma década o número era de 37,5 milhões.

Como o Brasil tem se colocado diante da crise migratória?

Na segunda-feira 7, Dilma Rousseff disse que o Brasil está de “braços abertos para acolher refugiados”, apesar dos “momentos de dificuldade como o que estamos passando”. Desde o início da guerra civil até agosto deste ano, o Brasil já concedeu asilo a 2.077 sírios, segundo dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), órgão ligado ao Ministério da Justiça. Com isso, os sírios já representam 25% do total de refugiados no Brasil.

Este número é superior ao pedido de asilo de sírios aceitos por Estados Unidos (1.243) e países no sul da Europa, que recebem sírios vindos pelo Mediterrâneo. Segundo a Eurostat, entre os países europeus banhados pelo Mediterrâneo, a Espanha é a que mais aprovou solicitações de asilo, acolhendo 1.335 sírios. Em seguida, vêm a Grécia (1.275), Itália (1.005) e Portugal (15). Apesar de acolher um grande número de refugiados, o Brasil é criticado por oferecer poucas oportunidades para que eles consigam subsistir. “Eles têm grandes desafios para conseguir uma colocação profissional, moradia, mesmo que provisória, e ter acesso aos serviços públicos”, afirma Manuel Furriela, presidente da Comissão da OAB-SP para os Direitos dos Refugiados.

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OUÇA: MANU CHAO, “CLANDESTINO” (FULL ALBUM)

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“Raízes e Frutos da Rebelião” – Comentários sobre a luta dos Zapatistas mexicanos contra o Capitalismo Neoliberal

CddeMexico

“To kill oblivion with a little memory,
we cover our chests with lead and hope.”

SUBCOMANDANTE MARCOS,
Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN).
In: ‘Our Word is Our Weapon: Selected Writings’,
Foreword: José Saramago (Nobel Prize In Literature)
Published by Seven Stories Press (New York, 2003, Pg. 100.)


PART I – THE BIG-BELLIED BEAST
AGAINST THE GRASS-ROOTS RESISTANCE

 

CHAPTER I – CHIAPAS LOSES BLOOD THROUGH MANY VEINS

“We are a product of 500 years of struggle: first, led by insurgents against slavery during the War of Independence with Spain; then to avoid being absorbed by North American imperialism; then to proclaim our constitution and expel the French empire from our soil; later when the people rebelled against Porfirio Diaz’s dictatorship, which denied us the just application of the reform laws, and leaders like Villa and Zapata emerged…” – First Declaration of the Lacandon Jungle, January 2, 1994

EZLNIn the mountains and jungles of the Mexican southeast, an insurrection explodes in January 1st, 1994. Several municipalities in the province of Chiapas are taken over by the armed rebels that call themselves Zapatistas, followers of the legacy of Mexican revolutionary Emiliano Zapata (1879-1919).

Led by the campesinos and the indigenous populations of Chiapas, this neo-zapatist movement blossoms into the spotlight of the world’s arena in exactly the same day of the implementation of NAFTA, the Free Trade Agreement of the North American countries.

From day one, it was made quite clear by the rebels that one of the objectives of EZLN’s uprising was to be an obstacle to the implementation of Free Trade policies in Mexico. The economical set-up of Neoliberalism (based on privatization, free competition, consumerism etc.), argues the Zapatistas, is nothing but an authoritarian imposition of rules made-up by “the world of money”:

“The world of money, their world, governs from the stock exchanges. Today, speculation is the principal source of enrichment, and at the same time the best demonstration of the atrophy of our capacity to work. Work is no longer necessary in order to produce wealth; now all that is needed is speculation. Crimes and wars are carried out so that the global stock exchanges may be pillaged by one or the other. Meanwhile, millions of women, millions of youths, millions of indegenous, millions of homosexuals, millions of human beings of all races and colors, participate in the financial markets only as a devalued currency, always worth less and less, the currency of their blood turning a profit. The globalization of markets erases borders for speculation and crime and multiplies borders for human beings. Countries are obliged to erase their national border for money too circulate, but to multiply their internal borders.” – (Marcos, Unveiling Mexico, p. 117)

Wall Street and Washington join hands and try to persuade Mexicans that “Free Trade” will be a marvel for Mexico, but Mexicans have every reason to be suspicious of their neighbor who stole from it a big slice of territory in bygone years. Today, at the frontier that separates the countries, the yankees have built up a huge Wall of Segregation, and soldiers with license to kill can deal with illegal immigrants in very unbrotherly ways.  The same country responsible for La Migra (and Guantánamo Bay, and Abu Ghraib detention facility…) preaches the Free Trade gospel as if it was salvation.

The men and women who have arisen to speak out their discontent in Chiapas are yet to be fully heard by the world-at-large. Artists and writers have helped spread their voices, from Manu Chao and Rage Against the Machine, to José Saramago and Eduardo Galeano. 20 years later, the Zapatistas are still struggling against the powers that want to crush human dignity in the bloody altars of profit. And if the Zapatistas’ scream has the potentiality to be heard and comprehended all around the world, it’s because they accuse the established capitalist system of committing crimes that are visible worldwide, in many different countries: ecological devastation; ethnical genocide of indigenous populations and destruction of their cultures; concentration of capital in the hands of a few multinational corporations etc.

Zapatismo has been called the first revolutionary movement of the Internet-era, the avant-garde guerrilla that’s pioneering the ways to be followed by the guerrillas of tomorrow. But reactionary political powers have been violently trying to silence their voices – and the “money world”, also referred to by Marcos as “The Beast”, doesn’t refrain from methods such as military agression, police repression,  institutionalized murder, and para-military militias. All in order to maintain the Order imposed by The World of Money and to bury the voices of these “indians”, covered in masks and carrying guns, that insist in demanding social justice, autonomy and real democracy.

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Marcos describes Chiapas’s tragedies very vividly in his poetry-filled words: “This land continues to pay tribute to the imperialists”, writes the insurgent Zapatista, “and there’s a thousand teeth sunk into the throat of the Mexican Southeast” (Unveiling Mexico, 1992, pg. 22-23). Would the indigenous populations of southeast Mexico have risen in rebellion if the suffering they endured hadn’t become unbearable?

“In times past, wood, fruits, animals, and men went to the metropolis through the veins of exploitation, just as they do today. Like the banana republics, but at the peak of neoliberalism and ‘libertarian revolutions’, the Southeast of Mexico continues to export raw materials, just as it did 500 years ago. It continues to import capitalism’s principal product: death and misery.

The health conditions of the people of Chiapas are a clear example of the capitalist imprint: 1.5 million people have no medical services at their disposal. There are 0,2 clinics for every 1.000 inhabitants, 1/5 of the national average. There are 0,3 hospital beds for every 1.000 Chiapanecos, 1/3 the amount in the rest of Mexico… Health and nutrition go hand in hand with poverty. 54% of the population of Chiapas suffers from malnutrition, and in the highlands and forest this percentage increases to 80%…. This is what capitalism leaves as payment for everything that it takes away. (…) Chiapa’s experience of exploitation goes back for centuries. ” – Sub Marcos, Unveiling Mexico

In Subcomandante Marcos’ political tought, which seems to be deeply rooted in an understanding of Latin America’s reality similar to Eduardo Galeano’s, Imperialism is the name of the beast which has it’s thousands of teeths sunk into Chiapas neck – and so many numberless others places on this Earth where 85 flesh-and-blood earthlings retain the same amount of wealth as half of the world’s population (according to Oxfam). Welcome to the established economical and political orden in 3rd planet from the Sun, a place of extreme inequality in which the criminal status quo is defended by armies and warmongers, for the profit of speculators, gangsters and banksters.

“A handful of businesses – one of which is the Mexican state – take all the wealth out of Chiapas and in exchange leave behind their mortal and pestilent mark..(…) Pemex has 86 teeth sunk into the townships of Estación Juárez, Reforma, Ostuacán, Pichucalco, and Ocosingo. Every day they suck out 92.000 barrels of oil and 517.000.000.000 cubic feet of gas. They take away the petroleum”, states Marcos, “and in exchange leave behind the mark of capitalism: ecological destruction, agricultural plunder, hyperinflation, alcoholism, prostitution, and poverty.”

It’s easy to delineate the image of the Enemy in the Zapatistas’ hearts: the face of the big-bellied beast of Greed. Imperialism is dirty business, greediness in action, devastating egotism that turns nations into vampires that suck the life-blood of others. Besides the petroleum that gets sucked out of Chiapas by greedy oil companies, another similar process affects the production of coffee: 35% of Mexico’s coffee is produced in Chiapas, but more than 50% of Chiapas’ coffee production is exported. The campesinos that work in the fields to produce it have terribly inadequate life-conditions of nourishment, health, education etc. The true producers are dying of hunger and disease while foreign powers ride on golden streets of robbed privilege.

The list can be enriched with many other “commodities” that are sucked-out of Chiapas to feed, elsewhere, the belly of the beast. There are 3.000.000 animals waiting to be slaughtered for beef in Chiapas: “the cattle are sold for 400 pesos per kilo by the poor farmers and resold by the middlemen and businessmen for up to 10 times the price they paid for them.” (Unveiling Mexico, p. 23) Chiapas’ forests are also among the culinary preferences of the greedy hungry beast: whole woods are cut down by capitalism’s chainsaws, and this precious wood is then shipped out of Chiapas to be sold elsewhere for huge profits. Similar histories could be told about honey, corn or hydrelectric energy – goods that Chiapas produces in large quantities, but get eaten away by this beastly creature which Marcos denounces and summons to answer: “what does the beast leave behind in exchange for all it takes away?” (pg. 24)

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CHAPTER II – THE TIME TO HARVEST REBELLION INSTEAD OF DEATH

John Lennon asked us in his era-defining song to “imagine a brotherhood of man”, but Chiapas isn’t the place to look for it. It ain’t brotherly treatment to exploit, repress and steal fellow humans – and that’s what businessmen and fancy capitalists have been doing against the Chiapanecos. “1.000.000 indigenous people live in these lands and share a disorienting nightmare with mestizos and ladinos: their only option, 500 years after the “Meeting of Two Worlds”, is to die of poverty or repression.” (Marcos: p. 26)

There are 300.000 Tzotziles, 120.000 Choles, 90.000 Zoques, and 70.000 Tojoales, among other indigenous populations, that inhabit the land of the poorest state in Mexico. Chiapas could be rich, but it’s wealth is sucked away and taken abroad, to bank accounts of greedy capitalists, and if you join the Zapatista up-rising against this reality you might end up killed by the repression. How many people has the Mexican Army killed in order to silence the voices that question the undoubtable goodness of the so-called “Free Market”? I leave the question unanswered, for now, and move on, from exploitation to rebellion.

At the dawn of the New Year, in January 1st 1994, the Zapatista National Liberation Army descended from the Lacandon Jungle to take over the power in several cities of Chiapas, including San Cristobal de Las Casas and Ocosingo. They believed to be “professionals of hope”, “transgressors of injustice”, “History’s dispossessed”, finally raising their voices to demand liberty, justice, democracy, dignity. This is the moment when they became visible, when they stepped out of the shadows, when they shouted for the whole World to hear.

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January 1st, 1994: EZLN takes power over San Cristobal de las Casas. Photo by Antonio Turok.

“Death does not hurt; what hurts is to be forgotten. We discovered then that we longer existed, that those who govern had forgotten about us in their euphoria of statistics and growth rates. A country that forgets itself is a sad country. A country that forgets its past cannot have a future. And so we took up arms and went into the cities, where we were considered animals. We went and told the powerful: “We are here!” And to the whole country we shouted: “We are here!” And to all the world we yelled, “We are here!”…”

This movement is deeply rooted in History: far from being immediatist and pragmatic, the Zapatista movement demands respect for the rights of human populations who descend from the occupants of this land prior to the European’s invasion. This scream of rebellion raises from an ocean of blood: the genocide of the Indians and the destruction of their civilizations is still an open wound in the Zapatistas hearts, and they won’t allow the world to forget these past misdeeds. In January 1994, Subcomandante Insurgent Marcos reminded us than in Mexico

“during these past ten years (1984-1994), more than 150.000 indigenous have died of curable diseases. The federal, state, and municipal governments and their economic and social programs do not take into account any real solution to our problems; they limit themselves to giving us charity every time elections roll around. Charity resolves nothing but for the moment, and again death visits our homes. That is why we think no, no more; enough dying this useless death; it is better to fight for change. If we die now, it will not be with shame but with dignity, like our ancestors. We are ready to die, 150.000 more if necessary, so that our people awaken from this dream of deceit that holds us hostage.” (pg. 17)

Seen from the capitalists’ perspective, there’s a dispensable strata of the population labeled as “Indians” (so called because Columbus thought, more than 500 years ago, that the land where he had arrived was India…). “Check out the text of the Free Trade Agreement, and you will find that, for this government, the indigenous do not exist.” (p. 66) Social inequality and marginalized people go hand in hand in Mexico: “on a national level there are 2,403 municipalities. Of these, 1.153 have a level of marginalization considered high or very high. States with high indigenous population have the majority of their municipalities with high and very high levels of marginalization: 94 out of 111 in Chiapas; 59 out of 75 in Guerrero; 431 of 570 in Oaxaca…” (p. 67)

 For 10 years the Zapatista uprising had been fermenting in the woods, since 1984, and at the beginning of 1994 time had arrived for their voice to be heard, not only in Mexico, but throughout the world, amplified by the Internet, sending its shout throughout the Global Village.  One of the easiest ways to understand the emergence of Neo-Zapatism is to look at the consequences of the NAFTA (North American Free Trade Agreement) agreement becoming active: free market had kicked out the barriers and products from abroad were about to flood into Mexico, like a tsunami, drowning out Mexican campesinos with the devastating power of a Dust Bowl Storm. The Zapatistas knew very well that NAFTA would certainly enrich some big corporations, mainly american and canadian, but would wreck the equilibrium of the local economies – especially in southeast Mexico. NAFTA was inforced with “dictatorial” fashion: it’s a fact that neither civil society nor the indigenous populations of Mexico were consulted on the matter, even tough they would be tremendously affected by the transformations in the National Constitution.

 “The preparations for NAFTA included cancellation of Article 27 of Mexico’s constitution, the cornerstone of Emiliano Zapata‘s revolution of 1910–1919. Under the historic Article 27, Indian communal landholdings were protected from sale or privatization. However, this barrier to investment was incompatible with NAFTA. With the removal of Article 27, Indian farmers feared the loss of their remaining lands, and also feared cheap imports (substitutes) from the US. Thus, the Zapatistas labeled NAFTA as a “death sentence” to Indian communities all over Mexico. Then EZLNdeclared war on the Mexican state on January 1, 1994, the day NAFTA came into force.” – Wikipédia

According to Marcos, NAFTA “only means freedom for the powerful to rob, and freedom for the dispossessed to live in misery.” (p. 73) We’ve heard this real-life story many times: everytime a Wal-Mart opens in a city, lots of smaller stores go bankrupt because they can’t compete with Wal-Mart’s prices. That’s why it’s possible to considerer EZLN as a movement demanding national sovereignty; from the Zapatistas perspective – which arises from the experience of thousands of Mexicans – what is called “neoliberalism” is just a fancy name for imperialist capitalism, for foreign domination, for the sad reality known for centuries in Latin America of wealth being robbed from a country and getting transformed in capital that enriches some big-shot abroad.

In Ana Carrigan’s excellent article “Chiapas: The First Postmodern Revolution”, she reminds us that years before NAFTA forced itself into North America there was already a lot of rebellion by campesinos in Mexico: in April 10, 1992, for example, 4.000 indigenous campesinos marched to the country’s capital and read a letter adressed to President Carlos Salinas, in which “they accuse him of having brought all gains of the agrarian reform made under Zapata to an end, of selling the country with the North American Free Trade Agreement (NAFTA), and of bringing Mexico back to the times of Porfirio Díaz.” (pg. 36)

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“You are in Zapatista territory: here the People rules and the Government obeys.”

“The Zapatistas made their first, spectacular public appearance in San Cristobal de Las Casas. On October 12, 1992, amid demonstrations marking ‘The Year of The Indian, 500 Years of Resistance’, 4.000 young men and women armed with bows and arrows suddenly appeared out of the crowd. Marching in military formation, they advanced to the central plaza where they attacked the monument to the founder of San Cristobal, the 16th century Spanish encomendador, Diego de Mazariegos. As the symbol of 500 years of opression crashed from its pedestal, the Indians hacked it to pieces and pocketed the fragments before disappearing. In the annals of indigenous resistance, the toppling of Mazariego’s statue had a symbolic resonance equivalent to the destruction of the Berlin Walls.” (ANA CARRIGAN)

The communities in Chiapas who have embraced the EZLN program were bound to clash with Mexican establishment. The powers that be, unbrotherly as usual, sent Army soldiers in great numbers in a bloody attempt to silence the rebels. As Juana Ponce de León states,

“for the government, the issue is simple. There are vast oil reserves, exotic wood, and uranium on the autonomous indigenous lands of Chiapas; the Mexican government wants them, but the indigenous communities, who have no currency in the world’s markets, are in the way. While projecting through the national and international press an image of concern for the human rights issues and the intention to resolve them, the government orchestrates the privatization of the Mayan lands and a low-intensity war to weaken and divide the communities.” (Traveling Back for Tomorrow, XXV).

Eduardo Carli de Moraes

A graffiti at City Lights Books, Lawrence Ferlinghetti’s bookstore in San Francisco

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Galeano and Jean Ziegler discussing “The World’s Criminal Order”
(In Spanish, Portuguese subs)

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To be continued…

“Esta pirâmide absurda e invertida que é a América Latina…” – Uma jornada com o Subcomandante Marcos (EZLN)

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CHAPTER III – THE CLASH BETWEEN OBLIVION AND MEMORY

“…there once was a man named Zapata who rose up with his people and sang out: ‘Land and Freedom!’ The campesinos say that Zapata didn’t die, that he must return… They say that hope is also planted and harvested. They also say that the wind and the rain and the sun are now saying something different: that with so much poverty, the time has come to harvest rebellion instead of death.” – Sub Marcos, Our Word is Our Weapon: Selected Writings, pg. 33, Seven Stories Press. All following quotes are from this source.

ezln 1 (1)The Zapatistas know their task is Herculean: the Mexican federal Army, certainly backed-up by Washington and Wall Street, greatly outnumbers the army of the Zapatista rebels. The power of destruction of the Establish Capitalist Powers is crushing: they own the police and the prisons, and they pay the soldiers and militias to persecute the Mexicans who join EZLN. The defeat of this insurrectional movement is something that has been aimed at by established powers for the last 20 years – according to Marcos, the enemy would like to see “democracy washed with the detergent of imports and water from antidemonstration cannons.” (pg. 54)

In 1994 Mexico’s president Carlos Salinas de Gortari is considered by EZLN as “the sales manager of a gigantic business: Mexico, Inc.” (pg. 63) Free Trade, for the Zapatistas, is nothing but capitalism’s “law of the jungle”, and it generates a couple of millionaires while throwing millions into hunger, sickness and death. To use Occuppy Movement’s imagery, the top of the social pyramid, the richest 1% of the country, don’t give a fig about defending the rights of the Mexican people as a whole (the 99%): “the only country mentioned with sincerity on that increasingly narrow top floor is the country called money.” (pg. 63)  “On every street corner misery knocks on the windows of the car.” (pg. 64)

Even tough they see peace and social justice as an ideal to accomplish, the Zapatistas feel they would remain powerless if they were Gandhian pacifists. Thus they take arms, just like the guerrillas led by Fidel and Che in Sierra Maestra in late 1950’s Cuba. EZLN, as the name itself sufficiently states, is an armed rebellion and doesn’t comply with what Marcos called, in Aguascalientes, august 1994, “pacifist complicity with injustice” (p. 56) and “fraudulent unconditional pacifism” (p. 58)

EZLN is quite aware that military victory is rather unlikely against such a powerful army as that of Mexico’s established powers, backed-up by Washington and Wall Street. So Marcos tends to underline the symbolical importance of the Zapatista’s up-rising, its capacity to inspire similar movements throughout Latin America. The 4th Declaration of the Lacandon Jungle, January 1996, states: “Brothers and sisters of other races and languages, of other colors, but with the same heart, now protect our light, and in it they drink of the same fire.” (p. 87)

“To confront an army superior to ours in weapons and personnel, although not in morality, nullifies the possibilities of sucess. But to surrender has been expressly forbidden; any Zapatista leaders who opt to surrender will be decommissioned. No matter the outcome of this war, sooner or later this sacrifice – which today appears useless and sterile to many – will be compensated by the lightning that will illuminate other lands. For sure, the light will reach deep into the South, shimmer in the Mar de Plata, in the Andes, in Paraguay, and the entirety of this inverted and absurd pyramid that is Latin America…” (74)

The future of Latin America lies not only in its ability to build international solidarity, planting the seeds of a future of social justice and true democracy, but also in its struggle against oblivion. The Zapatistas claim that memory has been progressively wipe-out by the forces of a capitalist production, distribution and consumption system that runs on shallow foresight and narrow hindsight. In other worlds: the system wants us to buy like crazy, and think only of immediate enjoyment of products sold in the markets, thus imposing to our minds oblivion of future and past generations. This is one of the most important ideas to understand if we want to grasp what these more than 20 years of the Neo Zapatista movement in Mexico means:

“On the side of oblivion are the multiple forces of the market. On the side of memory is history.” This thesis of the markets’ attempted murder against memory is illustrated by the treatment conferred upon indigenous populations by capitalists and their accomplices among politicians. The Zapatistas are saying: the past is not to be forgotten, consumed down to ash, thrown in the garbage can, in order for us to “enjoy” the here-and-now of mass society, mass production, mass consumption, and mass ecological catastrophes. The Zapatistas see the past as “a guide to be learned from and upon which to grow”. The problem is:

“the past doesn’t exist for technocrats, under whose rule our nation suffers. The future can be nothing more than a lengthening of the present for these professional amnesiacs. (…) What better example of this phobia of history is there than the attitude of the Mexican government toward the indigenous peoples? Are not the indigenous demands a worrisome stain on history, dimming the splendor of globalization? Is not the very existence of indigenous people an affront to the global dictatorship of the market?” (MARCOS, pg. 147)

The sad thing is: instead of learning from the past in order to build a better future, the authorities in charge of markets and governments complicit to them are basically waging war against those who are labeled by the repression forces and portrayed by the plutocratic media as “The Terrorists”. The inner enemy. The war against the Zapatistas waged by the Mexican Federal Army, with the aid of the Yankees, is simply an attempt to silence by massmurder those who are demanding freedom, dignity, and social justice. In March, 1995, EZLN writes “to the people of Mexico and to the peoples of the world”:

“Our voice was silenced all at once by the noise of the machines of war. Terror was unleashed again in the Mexican lands by the one who, from arrogance and power, looks at us with contempt, denies our name, and gives us death in answer to our thought. (…) With the complicity of big money and a foreign vacation, he wanted to force us with bayonets to deny our history. (…) For that reason, our past went to the mountains. We went into the caves of those who came before us. Death cornered us… Death came to wield its knife-edged oblivion. It came to kill memory. Again, our hand filled with the fire to avenge our own pain, again being animals eating dirt, dying persecuted and forgotten.” (pg. 81)

The name Zapatistas then gains the meaning of a very powerful symbolical weapon: a “collective name”, that any individual can claim for himself, and by adhering to it he goes away from the forgetfullness that his individual self lies buried in.  A campesino who haves always felt as nobody, as one of the many who History will forget, now can call himself a Zapatista and thus believe he’s part of a collective entity that won’t be so easily brushed away to oblivion. Every zapatista will die, but zapatismo will live, beyond the duration of individual lives. When an individual leaps from being an unrelated isolated atom and joins his forces with the supra-individual movement, it’s as if his heart has been connected to a vaster entity and now pulsates with a collective heart.

 “No longer are we the unmentionables. We the forgotten have a name. (…) Having now a collective name, we discovered that death shrinks and becomes small before us. The worst death, that of oblivion, flees so that the memory of our dead will never be buried together with their bones.(…) “They, our ancestors, taught us to be proud of the color of our skin, of our language, of our culture. More than 500 years of exploitation and persecution have not been able to exterminate us. (…) If they destroy us, the entire country will plummet and begin to wander without direction or roots… Mexico would negate its tomorrow by denying its yesterday.” (October 12, 1995, pg. 82-83)

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Read chapters 1 and 2

TO BE CONTINUED…

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