FLUTUANDO NAS ÁGUAS RASAS DO PLÁGIO: Sobre o conto-de-fadas zoofílico de Guillermo Del Toro, vencedor de 4 Oscars (incluindo Filme e Diretor)

Sabem aquele conto-de-fadas zoofílico que faturou as estatuetas do Oscar para Melhor Filme e Diretor? Bem, preparem-se para ouvir muitos gritos de “plágio!” dirigidos contra “A Forma da Água(The Shape Of Water), de Guillermo del Toro, que de fato tem similaridades em exagero com “Splash – Uma Sereia Em Minha Vida”, filme de 1984 de Ron Howard, estrelado por Tom Hanks e Daryl Hannah (confira as evidências no vídeo a seguir, dos Screen Junkies):

Sintoma de uma cultura da reciclagem interesseira, o filme investe numa fórmula-de-sucesso já testada e aprovada por outros blockbusters: não há de escapar a alguns milhares de espectadores o quanto o “design” da criatura do filme de Toro lembra (muito mais que vagamente) os monstrengos azuis de Avatar, o arrasa-quarteirão de James Cameron que subiu ao topo das maiores bilheterias da história um punhado de anos atrás. Nada se cria, tudo se transforma? Na máquina de vender sonhos e fazer fortuna$ de Roliúdi, deveras!

Com seu maniqueísmo raso e simplificador, o filme consagrado pela Academia dos Yankees tem um vilãozão dos mais caricatos: Richard Strickland (interpretado por Michael Shannon) é um baita dum racista, torturador, falocêntrico, um tipo de personagem tão explicitamente canalha que deixa-nos a pensar que os roteiristas não quiseram perder tempo criando um bocadinho de ambiguidade, uma pitadinha de complexidade humana. Não: o cara é 100% vilão, sem um mísero grão de santidade ou decência. É vilania fast food, esqueçam-se de Macbeths ou Jokers!

Supremacista patronal, humilha as empregadinhas (que chama de “limpadoras-de-merda”, “secadoras-de-mijo”, dentre outras gentilezas). Considera-se feito à imagem e semelhança de Deus, não deixando de mencionar à empregada negra: “Deus se parece mais comigo do que com você”. Também é plausível supor que se trate de um estuprador, já que ele aborda sua funcionária Elisa, que é muda, perguntando se ela é mudinha-silenciosa ou daquelas mudinhas-que-gritam, sugerindo que gosta mais da primeira opção, que faria da moça uma vítima fácil para este predador sexual…

Este escroto notório, machão truculento, com sua fé narcísica num Deus cara-pálida e com pica grossa (um W.A.S.P. caricato e bélico), é evidente que (atenção ao spoiler!) perderá o jogo fantasioso que o filme encena. Pois um bom crowd-pleaser não pode deixar de celebrar o “triunfo dos bons”.

No regime maniqueísta do filme, a protagonista Elisa Esposito (encarnada por Sally Hawkins) é a heróica pessoa do bem, capaz de enfrentar o monstro pondo em risco sua própria vida, uma personagem que acaba contrastando de maneira 8 ou 80 com a vilania absoluta de seu rival. Ela é a encarnação da empatia pela pobre criatura presa no tanque e acorrentada ao lab, ela é a fonte jorrante de compaixão, de conexão comunicativa para além do verbal, do heroísmo moral que salva o ser senciente em perigo das garras do Mal Total…

É claro que pode ser lida também como uma moça tão solitária e isolada, tão carente afetivamente, que não perde a oportunidade de envolver-se com sexo zoofílico, aparentemente sem camisinha, encenando uma versão bastante literal do Amor Líquido, de um modo que o Zygmunt Bauman nunca tinha imaginado…

A premiação da The Academy para “The Shape of Water” poderia ter servido para a consagração de Guillermo Del Toro e como prova adicional do poderio dos cineastas mexicanos no atual mercado cinematográfico norte-americano (nos últimos anos, Alejandro Gonzalez Iñarritu e Alfonso Cuarón também faturaram estatuetas de Melhor Diretor…). Recebendo a estatueta, o diretor mexicano deu suas alfinetadas em Trump e a noção segregacionista e xenófoba que o atual ocupante da presidência nutre em relação ao vizinho do Sul.

Mas para além da consagração, Toro vai ser alvo de considerável esculhambação. Pois este pode até ser um filme delicioso de ver, que flui bem, que entretêm e envolve, que tem bela fotografia, mas não sobrevive a uma abordagem crítica mais apurada. Sobretudo pois tem muitos clichês e plágios para que possamos respeitá-lo como obra minimamente original.

Descrevendo o romance inter-espécies entre a criatura fantástica, “idolatrada como um deus pelos povos da Amazônia”, e uma humilde empregada de limpeza, o filme perde a oportunidade de debater temas importantes e fica empacado na vibe de crowd-pleasing. Ou seja, para agradar o público a todo custo deixa de lado qualquer exploração mais aprofundada dos temas que evoca e depois deixa de lado, largados num canto. O filme não quer perder mais de 30 segundos falando sobre os povos da Amazônia que cultuam a criatura: seria esperar demais do roteiro que incluísse alguma mínima pesquisa sobre as fascinantes e multidiversas culturas ameríndias e seus mitos tão desprezados pelo establishment roliúdiano?

O filme deixará sem respostas quaisquer espectadores que se perguntem, diante das sugestões do enredo: afinal, qual das etnias amazônicas o cultua como um deus? Por meio de que ritos e mitos? Baseados em que cosmovisão? Qual a origem e o sentido que esta etnia ameríndia concebe para a extraordinária criatura aquática? Como se deu o processo geopolítico de saque desta preciosidade biológica pelo imperialismo yankee? Como organizou-se a resistência indígena contra o roubo de sua deidade? Tudo isso fica no escuro depois de ter sido evocado brevemente, en passant, por um filme que escolhe ser mais fofinho do que forte, lembrando um pouco “Amélie Poulain” ou “A Bela e A Fera”, perdendo a chance de ser mais contundente e relevante.

Fica a impressão que os envolvidos na produção não quiseram perder tempo com etnografia, com geopolítica, com mitologia comparada, muito menos com cosmovisão ameríndia… Isso acarreta certos furos crassos no roteiro: a criatura, por exemplo, foi raptada da Amazônia, onde supõe-se que vivia em águas doces, e agora exige para sua sobrevivência que esteja em águas salgadas? Os militares confessam que roubaram o bicho na América Latina e que ele virou objeto de contenda entre estadunidenses e russos, mas onde está o esmero em desenhar melhor uma trama geopolítica minimamente crível?

“O Labirinto do Fauno” (Pan’s Labyrinth) ao menos era mais ambicioso nisso e realizava nexos mais interessantes entre o conto-de-fadas e a realidade pé-no-chão, de modo que a obra acabava servindo como denúncia do fascismo espanhol na 2a Guerra Mundial, tal qual experimentado pela perspectiva meio alucinógena de uma criança mergulhada em mitos e encontros iniciáticos com seu Fauno.

Ficando muito aquém de obras recentes sobre o “contato com a alteridade”, como Arrival – A Chegada de Denis Villeneuve, o filme de Toro não ousa mergulhar mais fundo em temas sci-fi: não põe em questão o “método de produção” do prodígio biológico, ou seja, como ele veio a ser. Não coloca questões sobre genética e eugenia, sobre clonagem e manipulação humana de outras espécies. Tudo isso fica relegado e esquecido. Não ficamos sabendo, pois o filme não se interessa em nos contar, se o bicho provêm do espaço sideral (se é um alien que aqui chegou num ovni), se é fruto da evolução biológica por seleção natural gerando resultados inesperados, se é um artefato da tecnologia humana na era do Antropoceno e da manipulação de genes, se é um mutante gerado pelas mudanças climáticas no ecossistema amazônico etc. Ele acaba sendo um mito num conto-de-fadas. Um mitinho muito fedendo a clichê e plágio.

Claro que a arte envolve apropriações criativas, intertextualidades e referências diretas ou cifradas. Concedo que a pirataria criativa às vezes dá bons resultados e pastiches aclamáveis. O modo como o roteiro se apropria de velhos mitos é até interessante, como nas ocasiões em que Del Toro evoca o mito grego de Tântalo, condenado a jamais poder saciar sua sede e sua fome, ou o mito bíblico de Sansão e Dalila, evocado nos combates entre o vilãozão racista e sua oponente afroamericana.

Também sei bem que o deleite e a graça de uma sessão de cinema envolve a “suspensão da descrença”, um certo desligamento dos filtros críticos, que nos permitem embarcar no fluxo e curtir a viagem. Mas finda a sessão, no meu caso, o senso crítico (que nunca se desliga por inteiro) volta à tona com toda a força, julga o assistido e aprecia o valor da obra, um procedimento essencial caso queiramos ser sujeitos autônomos diante da arte ao invés de consumidores acéfalos de produtos de uma Indústria Cultural capitalista que – Escola de Frankfurt ensina – temos razões de sobra para suspeitar que atua no ramo do Comércio de Alienações Em Massa.

Haveria decerto o que dizer também sobre “O Poder do Mito” na cultura de massas e sobre o quanto Joseph Campbell, apesar de sua maestria e erudição, não foi capaz de criticar devidamente o potencial alienante e mistificador – a disseminação de falsa consciência e pseudo-soluções para problemas imaginários – que ocorre nesses conluios entre Hollywood e Mitologia, em prol dos milhões de tickets e pipocas vendidos com lucros exorbitantes…

Temos que ir além do sorridente Campbell, confortável no rancho de George Lucas, pagando pau pra saga Star Wars em suas conversas com Bill Moyers. Para além do Herói de Mil Faces, temos que recuperar a verve de Marcuse, Adorno, Horkheimer, Benjamin, para criticar a reciclagem interesseira (e altamente lucrativa) dos mitos que a indústria do espetáculo hoje opera, implantando em nossos olhares as cataratas da alienação mistificadora, da fantasia agradável e maniqueísta, tão rentável aos oligarcas do cinema.

Além do mais, para além dos plágios perpetrados contra “Splash” e “Avatar” (dentre outros exemplos que podem ser elencados), “A Forma da Água” também me parece ter um outro grave defeito que surge da comparação com obras prévias de intenções similares: já existe no mundo, por exemplo, um filme estupendo chamado “A Mosca” (The Fly), do grande cineasta canadense David Cronenberg, lançado em 1986, que já provou com maestria, décadas atrás, que é possível discutir genialmente alguns temas tecno-científicos relevantes, num sci-fi crowd-pleaser de alta originalidade e memorabilidade, que não perdeu nem um átomo de sua potência fílmica e de sua atualidade.

Ali, o cientista intrépido vivido por Jeff Goldblum, brincando de deus ao realizar a des-materialização seguida por re-materialização equivalente a teletransporte, vê o seu barco naufragar quando mistura acidentalmente seu DNA com a de uma mosca intrusa em seu pod, transmutando-se assim em monstro pós-humano que ilustrar bem melhor que A Forma da Água a frase mais legal deste último filme: “life is but the shipwreck of our plans” (“a vida não passa do naufrágio de nossos planos”).

Quando as palmas do hype pararem de soar devido a estes Oscares equivocados (eu prefiro, sem dúvida, Três Anúncios Para Um Crime e Get Out como melhores filmes!), talvez a história do cinema vá registrar Del Toro como um mago-pop capaz de realizar filmes vistosos mas um pouco rasos, e vá conceder a Cronenberg a merecida auréola do autêntico artista genial, provocador penetrante e inestimável cine-pensador dos dilemas da biopolítica.

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Por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

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:: Decifra-me ou devoro-te! ::


:: COSMOS ::


There is no refuge from change in the cosmos”
Carl Sagan

Nos últimos tempos, mergulhei de cabeça em duas séries de TV antigas que me cativaram, maravilharam e fizeram refletir um bocado: O Poder Do Mito (que contêm 6h de entrevistas concedidas por Josephn Campbell a Bill Moyers sobre “temões” como mitologia, sabedoria e o sentido da vida…) e Cosmos (“Épico Científico” de Carl Sagan em 13 fascinantes episódios!). Já não sei decidir quem destes dois instigantes mestres tem mais a nos ensinar, se Sagan ou Campbell. Mas ainda bem que não precisamos escolher um e excluir o outro: ouçamos (e sejamos alunos…) de ambos! Pois um dos maiores privilégios daqueles que assumem na terra a humilde condição de aprendizes-da-vida (e na-vida!) é o fato de nada impedir que aprendam de vários professores. E que possam aprender até mesmo das estrelas que não falam e dos espaços escuros entre elas: “the great dark between the stars”, aquele misterioso negrume que deixava Pascal apavorado mas que parece chamar Sagan com a força encantatória de uma esfinge imensa…

Carl Sagan e Joseph Campbell, me parece, são ambos mestres na arte do maravilhamento. Eles chaqualham nossa apatia esparramando diante de nossas consciências uma procissão de mistérios. “Há mais estrelas no universo que grãos de areia em todas as praias do planeta Terra…”. Sagan nos convida para olhar para cima: não para louvar um Deus que estaria sentado em sua nuvemzinha, gerenciando sua obra, mas para que tomemos ciência da incomensurável grandeza do Mistério que temos diante de nossas consciências. Como não se assombrar com a vastidão de tudo e a pequenez de cada um de nós, seres humanos, como que esquecidos como um trapo num canto remoto de uma das bilhões de galáxias que compõe isto que nenhuma palavra ou conceito explica: o “Universo”, o “Ser”,  o “Todo”… (Ah, miséria das palavras!!!)

Partir na jornada de decifração dos enigmas do cosmos é também partir numa jornada de auto-conhecimento: o que somos nós nesta misteriosa maquinaria cósmica? Como pôde acontecer esta espantosa coisa que é existir um Universo assim tão imenso e, dentro dele, contidos nele, criaturas tão estranhas e desnorteadas como nós?!?

Estes dias deparei com um assombro semelhante no livro de Thomas Nagel que estou lendo, o Visão a Partir de Lugar Nenhum (The View From Nowhere, lançado pela Martins Fontes):

“Eras se passaram sem que existisse algo como eu, mas graças à formação de um organismo físico particular, num lugar e tempo particulares, repentinamente passei a existir, e existirei enquanto esse organismo sobreviver. No fluxo objetivo do cosmos, esse evento subjetivamente estupendo (para mim!) mal chega a produzir uma leve ondulação… Somos todos sujeitos do universo sem centro… sou um sujeito que pode ter uma concepção do universo sem centro na qual Thomas Nagel não passa de um pontinho insignificante que facilmente poderia nunca ter existido.”

Até os que sabem mais não sabem muito. O Universo – eis talvez a principal “moral da história” para quem assiste Cosmos… – prossegue sendo um gigantesco mistério.

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II. ALUMBRAMENTO

Não acho que seja lá muito proveitoso rotular um ser humano com “etiquetas intelectuais”, rótulos classificatórios… Por isto vou tentar não cometer nenhum tipo de reducionismo preguiçoso ao lidar com a figura de Carl Sagan, imprimindo nele um “carimbo” para melhor identificá-lo no meu mumificado mundinho mental ressecado… Quero uma mente desperta, que nada tenha de burocrática, e o próprio Sagan é exemplo vivo de que este estado de lucidez de consciência só se conquista quando evitamos ceder às tendências preguiçosas de nossos cérebros acomodatícios e olhamos nossos entornos com a curiosidade viva e espantada de uma criança – ou de uma criatura que acabou de chegar do espaço…

Sagan, pra mim, é antes de tudo uma pessoa que procura despertar nos outros um “senso de maravilhamento”. A sense of wonderment. Apesar de ser possível interpretar sua “atitude” como a de um cientista muito “convencido” e seguro de si que fala com a duvidosa autoridade de quem pensa ter descoberto todas as respostas, isto seria uma falsa imagem. Acompanhar Sagan através da série é descobrir um homem que observa o Cosmos com um olhar assombrado, boquiaberto, plenamente ciente de que há profundos mistérios irresolvidos e outros ainda sequer sondados…

O que Sagan mais quer é que a gente se deslumbre —- e um programa de TV como o Fantástico, que eu assistia direto quando pivete, antes de ter chegado à conclusão de que a Rede Globo era uma ofensa ao meu cérebro, deve muito ao “espírito” de Sagan (apesar de carecer de 90% de seu insight e talento). O principal efeito que Sagan procura gerar em nossas consciências com seu Cosmos não é a submissão a teorias que ele nos imporia como verdades inegáveis, mas sim um espanto deslumbrado diante do novo, do inefável, do imensurável, do nebuloso, do misterioso, do enigmático e do sublime…

Em vários momentos da série  isto chega a beirar o piegas, o kitsch, o corny… Em seus momentos menos inspirados, Sagan pode até aparecer a um espectador mais irônico como um caricato abraçador-de-árvores, que fica dando beijinhos nas rosas e falando hipponguices de eco-chato: um cara assim, meio Greenpeace e P.V., que talvez nutra simpatias pelo hare krishna e pelas músicas do George Harrison que contêm cítaras… Estou chacoteando, mas juro que é com carinho…

É que, por mais que eu o admire, não consigo conter minha ironia quando, em vários momentos, irrompe aquela bizarra trilha-sonora meio new age, meio Kitaro e Enya (blargh!), tudo rodeado por um colorido artificialesco que lembra O Mágico de Oz e os primórdios da computação gráficaMas não dá para exigir de um cientista que possua bom gosto estético, certo? Mas suas duvidosas escolhas estéticas não são desprovidas de uma certa magia: pois Sagan parece não se deslumbrar somente com o Universo, mas também com a magia do cinema, por vezes tentando assumir na tela uma atitude de Indiana Jones ou Luke Skywalker da vida-real… Infelizmente, Sagan não é nem metade tão bom ator quanto é bom pensador. Mas ao menos isto deixa Cosmos com um certo sabor humorístico involuntário que é um de seus charmes. E não falta charme mesmo nas cenas mais “metidas a bonitinhas” onde vemos borboletinhas pousando em rosas, vaga-lumes piscando na noite como pequenas estrelas aladas ou dandelions soprados pela brisa matinal… É, confesso, um guilty pleasure irresistível.

Já os efeitos de computação gráfica, para nós da era de Avatar e da trilogia Toy Story, são aquela “tosqueira” que dos anos 1970 e 80 que hoje lamentamos (“tão primitivos! E tão feiosos!”, seria tentado a queixar-se um amante dos eye-candys da nossa atual Sociedade do Espetáculo circa 2.010…). Mas não acho que estraguem o caldo. Ao contrário: o conteúdo, de longe, compensa pelas limitações da forma.

Pois não há como negar que a série é, em geral, muitíssimo bem-sucedida em elucidar para o espectador de modo cativante, compreensível e sedutor várias dos mais importantes empreendimentos científicos da jornada humana, do átomo de Demócrito ao heliocentrismo de Copérnico, do mapeamento das órbitas planetárias de Kepler à decifração do Genoma humano, do evolucionismo de Darwin à relatividade de Einstein…

Em seus melhores momentos, Carl Sagan parece alçar-se ao nível de alguma das maiores mentes do Iluminismo francês, como uma espécie de Voltaire norte-americano, capaz de ferinas ironias e aparentemente apto a reter em sua mente um conhecimento tão vasto que mereceria um adjetivo bem à la Diderot e D’Alembert: “enciclopédico!”

Mas há outras sociedades que, bem mais que a sociedade francesa circa-1789, que Sagan parece ver com extrema simpatia quando faz um “passeio histórico” pelo passado humano. As civilizações que ele parece descrever com maior carinho são aquelas da Grécia pré-socrática, entre 400 e 200 a.C., quando viveram e pensaram Demócrito, Tales de Mileto, Anaxágoras e tantos outros precursores da ciência moderna; a Alexandria durante os anos de profundo cosmopolitismo e discussão científica e filosófica, antes da queima da Grande Biblioteca; e a Holanda do século 17 – aquela de Rembrandt, Vermeer, Huysgens etc.

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III. WE ARE STARDUST

The cosmos was originally all hydrogen and helium. Heavier elements were made in red giants and supernovas and then blown off to space, where they were available for subsequent generations of stars and planets. Our sun is probably a 3rd generation star. Except for hydrogen and helium, every atom in the sun and the Earth was synthesed in other stars. The silicon in the rocks, the oxygen in the air, the carbon in our DNA, the gold in our banks, the uranium in our arsenals, were all made thousands of light-years away and billions of years ago. Our planet, our society and we ourselves are built of star stuff…”

A série tenta dar respostas sensatas e ponderadas para muitos temas de vasto interesse popular (e que encheram por décadas as páginas de revistas como a Superinteressante, a Galileu e a Mundo Estranho, que muito devem ao “espírito” de Sagan, ainda que também deixem a desejar em termos de aprofundamento…): da possibilidade de uma viagem no tempo aos OVNIs, da origem da vida à composição química das estrelas, de futuras missões inter-estelares a cálculos sobre o número de civilizações inteligentes possíveis no Universo, a série não se recusa a averiguar hipóteses. E até afirma que é verdade certas “coisas” de deixar bestificado de espanto qualquer um de nós: somos, afinal de contas, feitos de poeira estelar! Nenhum dos átomos que compõe nossos corpos, nenhum dos átomos que compõe tudo o que existe neste planeta, foi gerado por aqui mesmo. Tudo o que conhecemos é construído com “tijolinhos” gerados nos bilhões de úteros das estrelas e depois esparramados pelo vasto, escuro e frio espaço…

We’re all stardust, harvesting star light!

Mas nem tudo é poesia e alumbramento nesta jornada: a série foi produzida com a adrenalina dos tempos de crise e em muitos momentos nota-se uma certa “tensão” no ar, natural de um seriado concebido e gravado nos anos 70, não muitos anos depois da Crise dos Mísseis em Cuba que ameaçou esquentar a Guerra Fria, pondo assim em risco a sobrevivência de todo o planeta. Cosmos é um seriado assombrado pelo fantasma do Apocalipse Nuclear. De modo que soa às vezes como uma espécie de “levante” de um grande cientista norte-americano que ergue-se, soando barulhentos alarmes, como se quisesse impedir que Hiroshima se repita. Em certo sentido, é como se seguisse o conselho de Theodor Adorno de que a educação depois do Holocausto deveria ter uma de suas tarefas cruciais “evitar que Auschwitz se repita”. Sagan protesta com veemência, p. ex., contra o trilhão de dólares anuais que o mundo, em sua época, dedicava a gastos militares. E nossa época não está muito diferente, como sabe qualquer um que consulte as verba$$$ suntuosas que os EUA dedicam ao militarismo.

Sagan foi também um destes que embarcou na onda da “globalização” de um modo festeiro e utópico, supondo de modo talvez otimista em excesso que a fraternidade humana estaria sendo construída pelas facilitações tecnológicas na comunicação e no transporte que possibilitam nosso atual estado de inter-conexão global. Elogia o cosmopolitismo e a abertura a outras culturas e tradições, como quem bem sabe que somos todos uma só espécie sobre um planeta que, quando visto do espaço, não possui fronteiras.

Defende o método da ciência, segundo o qual “a única verdade sagrada é que não existem verdades sagradas”. Lança sua abominação sobre o obsceno número de armas nucleares nos arsenais de tantas nações, sobre a desnecessária matança das baleias e contra o deflorestamento, e já insistia desde então nos perigos do aquecimento global e do Efeito Estufa. E nos mostrou muito bem, no caso de Marte e Vênus, que desgraceira pode decorrer da gente zoar com nossa camada de ozônio…

Não fala em Gaia, mas a deusa está presente por toda parte.

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IV. Blues for a Blue Planet

Há, sim, algo de potencialmente deprimente nesta viagem de descoberta. Na vasta imensidão do Universo, somos algo inegavelmente minúsculo. A astronomia esmaga qualquer pretensão humana de gigantismo: somos anões num planeta medíocre de uma galáxia qualquer. Não há nenhuma evidência confiável de que alguma espécie de outra civilização de outro planeta tenha entrado em contato conosco: por enquanto, não encontramos nada que negue a hipótese de que estamos sozinhos. Nossos telescópios vasculham cada centímetro cúbico dos céus, com criaturas por detrás das lentes sedentas por diálogo, e as estrelas prosseguem em silêncio. É o que apavorava Pascal: “le silence éternel de ces espaces infinis m’effraie…”. É o “silêncio das estrelas” de que se lamenta Lenine numa de suas mais melancólicas canções: “amanheço mortal…”

Cosmos fala pouco sobre a morte, como quem por polidez evita um tema penoso. Mas, ao falar sobre o universo e sua grandeza quase inimaginável, faz com que nos confrontemos com o fato irrecusável da pequenez e da fragilidade da raça humana. Ao mesmo tempo que nos abre frente aos olhos um imenso leque de façanhas que esta mesma espécie conquistou: não há em nenhum outro canto do Universo conhecido nada que se assemelhe a nós. Não conseguimos, por enquanto, nos deparar com outros seres conscientes habitando este cosmos tão repleto de “coisas” que existem em total ignorância de si mesmas, inconscientes de sua própria existência.

Tudo indica que fomos só nós, nesta imensidão da matéria, que “despertamos”. E talvez seja algo muitíssimo raro isto que aconteceu neste planetinha: a matéria chegando a uma organização tal que fez surgir a Consciência. É sinal que a matéria tem espantosas propriedades, já que nos gerou, a estas espantosas criaturas que somos!

O córtex cerebral não é menos fantástico que uma galáxia distante. E pensar que há mais neurônios dentro da cabeça de cada um de nós do que há grãos de areia em todas as praias do planeta Terra! Temos um imenso universo dentro do crânio. Um universo capaz de consciência de si mesmo, o que o universo lá fora não é capaz de alcançar, ao que parece… É que a consciência tinha que começar em algum lugar? Pois bem: talvez sejamos este começo, o que já é missão nobre.

E que faz com que seja importantíssimo não deixar que esta chama se apague. Bilhões de anos foram gastos neste “produto” espantoso da Natureza: matéria viva e consciente. E agora temos em mãos a sombria e inquietante possibilidade de jogar isto fora e desfazer uma obra-prima da Dança Cósmica…

A Dança de Shiva

Somos minúsculos, é verdade, mas também somos raros. Somos pequenos, é verdade, mas para cada uma das células que nos compõe talvez sejamos do tamanho de uma galáxia, e tão misteriosos e incompreensíveis quanto…

E somos, é claro, o único ponto em todo o Ser onde há busca pela verdade, pela compreensão, pelo sentido. É claro que Carl Sagan não nos explica qual é o “sentido do Universo”: seria muito megalomaníaco e francamente antipático se sustentasse ter a solução para este profundo enigma. É óbvio que a Ciência não tem uma resposta para isto, o que salva a Filosofia de cair na inutilidade, e a reabilita para os séculos porvir.

Afinal de contas, a tentação de abraçar a hipótese de um deus prossegue, já que parece necessário que algo tenha sido o Primeiro Motor ou o Criador de toda esta miríade de galáxias – a watch implies a watchmaker. Mas o fato da humanidade ter inventado a hipótese Deus me parece apenas uma tentativa simplória de tentar dar conta de um mistério que ainda estamos longe de desvendar. Àqueles que se sentirem tentados a abraçar a confortável hipótese de um deus criador de tudo depois de assistirem Cosmos, sugiro que antes tem um passeio por outra grande mente científica de nosssos temops: Richard Dawkins, o grande desilusionista… Sim: de onde diabos “saíram” todas as estrelas, planetas, buracos-negros, tudo que existe? O que é o diabo deste “espaço” (aparentemente infinito…) onde tudo isso bóia, viaja e existe? Quem foi que colocou em movimento esta incessante correnteza cósmica que não conhece um só segundo de remanso? De onde saiu toda essa matéria, todos esses átomos, toda essa luz? Sempre existiu ou um dia começou? Tem sentido ou somente existência? É eterno ou conhecerá um dia o nada?

Tudo, ainda, profundos mistérios. E vasto alimento para o nosso espanto.