RELAÇÕES ENTRE ARTE E LOUCURA, por JOEL BIRMAN (25 MINUTOS)

joel_birman

“Joel Birman é filósofo e psicanalista. Formado em medicina na década de 1970 é Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo e Pós-Doutorado em Paris, no Laboratoire de Psichopathologie Fundamentale et Psychanalyse (Université Paris VII). Atualmente é professor na UFRJ e UERJ.

Nesta entrevista produzida pela TVBrasil é investigada a relação entre arte e loucura. Birman desvenda as inúmeras e complexas relações entre arte e loucura e entre arte e psicanálise. No papel de analisado, o entrevistador, Aderbal participa da sessão no divã-banheira, que, desde sempre, tem sido o centro inconsciente do cenário do programa.”

UMA DAS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA: O Golpe do Estado no Chile em 11 de Setembro de 1973

allendeUMA DAS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA

Dentre as “veias abertas da América Latina” – para lembrar o título do clássico livro de Eduardo Galeano – está este episódio histórico traumático na história de nosso continente: no dia 11 de Setembro de 1973, o Chile, que havia vivido 41 anos de regime democrático, sofre um golpe militar; o palácio de La Moneda é bombardeado, o presidente Salvador Allende é morto e um coup d’état instaura a ditadura Pinochet.

noO tirano (des)governaria o país até ser varrido pelo Plesbiscito de 1988 (cuja crônica cinematográfica brilhante foi filmada por Pablo Larraín e estrela por Gael Garcia Bernal em “No”). O 11 de Setembro de 1973 foi o choque inicial que conduziria o Chile a um dos períodos históricos mais terríveis de sua história: a ditadura Pinochet foi responsável por milhares de mortes, torturas e “desaparecimentos”.

Segundo o clássico documentário “A Batalha do Chile” (de Patricio Gúzman), foi de fato ampla e determinante a participação dos EUA, em aliança com as elites oligárquicas chilenas, na instauração de regimes autoritários e fascistas por toda a América Latina (inclusive aqui no Brasil, em 1964) – e no Chile não foi diferente. Segundo Guzmán, as Forças Armadas chilenas receberam um auxílio de 45 milhões de dólares do Pentágono, o que equivale a mais de um 1/3 de todo o capital “emprestado” pelos EUA desde a eleição de Allende em 1970. Além disso, mais de 4 mil oficiais do Exército chileno foram treinados pelos Estados Unidos e este mantinha mais de 40 agentes da CIA infiltrados no movimento de oposição à Allende.

Como nos lembra a Naomi Klein no “Doutrina do Choque”, também foi determinante no golpe contra Allende a ação nos bastidores de Milton Friedman, “considerado o economista mais influente do último meio século” (KLEIN: 2007, p. 15), um dos papas da doutrina neoliberal:

naomi“Milton Friedman aprendeu a explorar os choques e as crises de grande porte em meados da década de 1970, quando atuou como conselheiro do ditador chileno, o general Augusto Pinochet. Enquanto os chilenos se encontravam em estado de choque logo após o violento golpe de Estado, o país sofria o trauma de uma severa hiperinflação. Friedman aconselhou Pinochet a impor uma reforma econômica bastante rápida – corte de impostos, livre-comércio, serviços privatizados, corte nos gastos sociais e desregulamentação. (…) Ficou conhecida como ‘a revolução da Escola de Chicago’, pelo fato de que muitos economistas de Pinochet tinham estudado sob a orientação de Friedman na Universidade de Chicago. (…) Desde então, sempre que os governos decidem impor programas radicais de livre mercado, o tratamento de choque [the shock doctrine] tem sido o seu método preferido.” (KLEIN, A Doutrina do Choque, p. 17)

Hoje em dia, já estamos acostumados com a ideia, historicamente muito recente, de que existem crimes contra a humanidade e violações dos direitos humanos que se manifestam em atos de genocídio e limpeza étnica, e que estes devem ser julgados por um Tribunal Penal Internacional. Porém, isto está longe de funcionar como seria desejável, como nos lembra muito a propósito Joel Birman: “Se Milosevich, da Sérvia, pôde ser enviado a Haia para responder juridicamente sobre genocídio, Pinochet, o carrasco chileno, foi protegido de maneira espúria, pois evidenciaria, caso fosse julgado, a participação direta dos Estados Unidos no golpe de Estado sangrento que derrubou Allende e enterrou durante décadas a democracia no Chile.” (JOEL BIRMAN, Cadernos Sobre o Mal, Ed. Civilização Brasileira, pg. 130)

Em uma matéria recente, Cynara Menezes relembra um episódio da vida chilena do começo dos anos 70: a longa visita do líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, ao país [http://bit.ly/1edowaC]. Acredito que Fidel, estando bem “antenado” e experenciado em relação às perversidades dos yankees contra os regimes de esquerda da América Latina e Central, já que Cuba havia sofrido muitos ataques (Baía dos Porcos etc.) e bloqueios econômicos, deve ter feito todo o possível para alertar Allende sobre o perigo que seu regime corria. Em 11 de Setembro de 1973, o golpe de Estado foi uma espécie de confirmação dos piores pesadelos de Fidel – e mais um episódio onde ficou provado que o Império não hesita em se utilizar de medidas fascistas para instaurar, à força de bala e com tanques de guerra, o “Livre-Mercado”, para festa das mega-corporações transnacionais e dos produtos made in U.S.A…

pinochetO Chile ainda se recupera da terapia de choque que lhe foi infligida por 17 anos pela ditadura Pinochet, que governou “tocando o terror” na população através das “celas de tortura do regime, infligindo choques aos corpos retorcidos daqueles que foram considerados obstáculos à transformação capitalista. Na América Latina, muitos enxergaram uma conexão entre os choques econômicos que empobreceram milhões e a epidemia de tortura que flagelou centenas de milhares de pessoas que acreditavam num tipo diferente de sociedade”. (KLEIN: 2007, p. 17)

O episódio é uma boa demonstração de que a mais recente versão do capitalismo selvagem, o chamado neoliberalismo, antes de ser implantado nos países capitalistas avançados, capitaneado por Tatcher no Reino Unido, Reagan nos EUA e Deng Xiaoping na China – como exposto em minúcia no livro “Neoliberalismo” de David Harvey (2008) – utilizou o Chile como seu “laboratório” experimental.

Salvador Allende, desde sua eleição à presidência em 1970, havia realizado transformações amplas na sociedade chilena, pavimentando o caminho para uma sociedade socialista. Suas ações iam na direção oposta ao que recomendam os cânones neoliberais: ao invés de privatizações e desregulamentações, favoráveis ao lucro de corporações privadas, o governo Allende trabalhou em prol da nacionalização de empresas, minas e terras.

Allende expropriou 15 milhões de hectares de terras que estavam concentradas nas mãos de latifundiários e as redistribuiu. Estatizou todos os bancos e retornou o controle de quase todas as fábricas ao comando dos próprios operários. Defendeu com punho-de-ferro a autonomia do Chile diante dos exploradores estrangeiros, em especial os EUA, que viam com muita desconfiança estas “iniciativas marxistas” que se assemelhavam a muitas instauradas em Cuba após a Revolução de 1959. Allende resistiu no poder por mais de 3 anos, respaldado por apoio popular intenso e imenso. Com frequência massas que superavam 100 mil pessoas tomavam as ruas bradando a uma só voz: “Allende, Allende, el pueblo te defiende!” ou “Allende, tranquilo, o povo está contigo!”

Em 2001, quando em outro 11 de Setembro as torres gêmeas do World Trade Center vieram abaixo e o Pentágono viu-se sob ataque, os EUA puderam sentir na pele o gosto amargo de um ato terrorista genocida perpetrado por aqueles que os próprios Yankees haviam ajudado e armado, no fim dos anos 1970, contra os soviéticos. Ao invés de tentarem compreender as razões para o anti-americanismo visceral, tão disseminado nos países islâmicos e em muitos pontos da Ásia e da América Latina, os EUA lançaram sua nova Cruzada: a Guerra ao Terror. Ao invés de olharem para seu próprio passado como potência imperialista, em que os EUA realizou inúmeras agressões a outros países e feriu a autonomia e o direito de auto-determinação de outras nações, prosseguiram no caminho do militarismo autoritário que pretende “exportar Democracia” através da violência brutal. Uma lógica semelhante àquela que levou as bombas atômicas a serem lançadas sobre o Japão, o veneno letal (napalm) a chover sobre a população civil do Vietnã e do Camboja, além do apoio militar e financeiro às Ditaduras Militares latino-americanas…

Mais de uma década após as invasões do Afeganistão e o Iraque, a política externa americana não só acarretou uma imensa mortandade no Oriente Médio, como também gerou a emergência do Estado Islâmico, uma espécie de nova encarnação do Islã militante e jihadista, hoje esparramado pela Síria e pelo Iraque. Durante seus mandatos, Barack Obama nos EUA e Stephen Harper no Canadá mantiveram sua coalização de “intervenção humanitária” para salvar o mundo do Mal; vêm aí, é claro, novos genocídios e campanhas militares “anti-terroristas”, em que é de se esperar uma imensa tragédia humanitária no Oriente Médio. Não há sinal de que as elites imperiais pretendam parar de agir com a soberba sanguinária de quem se acha “Xerife do Mundo”. E assim caminhamos, a passos largos, rumos a novas hecatombes e barbáries.

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Para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla,
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que congregar todos los odios
y además los aviones y los tanques,
para batir al hombre de la paz
tuvieron que bombardearlo hacerlo llama,
porque el hombre de la paz era una fortaleza
Para matar al hombre de la paz
tuvieron que desatar la guerra turbia,
para vencer al hombre de la paz
y acallar su voz modesta y taladrante
tuvieron que empujar el terror hasta el abismo
y matar mas para seguir matando,
para batir al hombre de la paz
tuvieron que asesinarlo muchas veces
porque el hombre de la paz era una fortaleza,
Para matar al hombre de la paz
tuvieron que imaginar que era una tropa,
una armada, una hueste, una brigada,
tuvieron que creer que era otro ejercito,
pero el hombre de la paz era tan solo un pueblo
y tenia en sus manos un fusil y un mandato
y eran necesarios mas tanques mas rencores
mas bombas mas aviones mas oprobios
porque el hombre de la paz era una fortaleza
Para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla,
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que afiliarse siempre a la muerte
matar y matar mas para seguir matando
y condenarse a la blindada soledad,
para matar al hombre que era un pueblo
tuvieron que quedarse sin el pueblo.

Mário Benedetti

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no
“NO” (Chile, 2012), um filme dirigido por Pablo Larraín, baseado na obra de Antonio Skármeta e estrelado por Gael Garcia Bernal, revela os detalhes do plebiscito de 1988 que acabou decidindo pela derrubada da Ditadura Pinochet que havia sido instaurada em 11 de Setembro de 1973 [http://bit.ly/2cNXicM]. Vibre com os detalhes da História latino-americana na dura luta pela conquista de uma democracia sempre imperfeita.

ASSISTA (legendado em português):

FAÇA O DOWNLOAD (torrent – 1.8 gb):
http://bit.ly/2cQHNDW

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“A pax americana ameaça nos lançar a todos no limbo da criminalidade se nos opusermos aos ditames do Império…” (Joel Birman)

god bless
A GRAMÁTICA CRUEL DA PAX AMERICANA

Por Joel Birman [http://bit.ly/aQdSdc]
Artigo do livro “Cadernos Sobre o Mal”

No início da invasão do Iraque o mercado reagiu de maneira eufórica, já que os dias de incerteza tinham finalmente terminado. Tempos melhores viriam, pareciam dizer gulosamente os investidores. As bolsas de valores de todas as praças estavam em festa, movimentando somas colossais. O preço do petróleo baixou para níveis inesperados, indicando que não haveria mais risco de desabastecimento energético no planeta. O Brasil acompanhou também essa orgia com a melhoria do risco-Brasil nas transações internacionais. Tudo isso apesar do discurso contundente do presidente Lula contra a guerra e contra o desrespeito da legalidade internacional.

Por que tudo isso? O que levaria o mercado a reagir de maneira tão positivamente acintosa a uma guerra, com as perspectivas nefastas dos problemas humanitários apontados por todas as agências internacionais sérias? O mercado responderia que não era leviano, pois a tão ansiada guerra tinha enfim começado e com isso findado suas incertezas, assim como se prognosticava uma guerra rápida e a pronta restauração da paz. Isso porque o regime “tirano” de Saddam Hussein cairia logo sob o fogo implacável da superioridade militar e tecnológica dos “aliados”.

Os “aliados” procuraram “decapitar” o regime com o “susto” inicial dos ataques aéreos. Como isso de nada adiantou foi então deflagrada a operação “choque e terror”, com bombardeios maciços nunca antes vistos. Começava assim a exibição de crueldade do Império, na qual o poder de fogo dos aviões B-52, conjugado com os mísseis de longo alcance e as bombas inteligentes de alta precisão, pretendia intimidar os iraquianos. Esperava-se, com isso, uma rendição em massa das tropas leais à Saddam Hussein, assim como uma aclamação festiva dos invasores pelo povo do Iraque. Isso porque a política anglo-americana visava libertá-lo da tirania e instituir a democracia pela força militar, por mais paradoxal que isso fosse.

Entretanto, qual não foi a surpresa do mundo quando as coisas se mostraram paulatinamente de forma diferente. Não apenas os iraquianos não se intimidaram com o choque high tech, como passaram também a combater os invasores. A resistência iraquiana tinha uma face militar e outra civil. Os fedayeen se avolumaram no combate, desmentindo de maneira flagrante as previsões da CIA de que se associariam facilmente aos “aliados” em nome da liberdade…

Revelaram-se também os erros grosseiros da estratégica militar anglo-americana, que mostraram para quem quisesse ver que o rei estava nu, isto é, que a dita supremacia tecnológica não era razão suficiente para se conduzir uma guerra, como tinham pensado ingenuamente os falcões de Washington e Londres. Muitos dos soldados norte-americanos e ingleses se mostram francamente despreparados para uma guerra desse porte, dos pontos de vista psíquico, ético e político. Trata-se, sem dúvida alguma, de técnicos competentes no manuseio das armas, mas decididamente não de guerreiros que poderiam sustentar uma causa.

A nudez do rei, no entanto, não se restringe a isso. Os militares iraquianos não usaram, até o momento, armas químicas e biológicas. Tampouco os invasores encontraram qualquer rastro delas. O que implica dizer que a razão fundamental alegada para a guerra, contra a decisão da ONU, não pode mais se sustentar. A verdade que se impõe agora para todo o mundo é a tentativa anglo-americana de manipular informações para legitimar a política do Império contra a maioria mundial, que se manifesta cotidianamente contra a guerra. O que está em pauta é a derrubada pura e simples do regime de Saddam Hussein, antigo aliado dos Estados Unidos, para que os norte-americanos possam traçar outra cartografia do poder no Oriente Médio e no mundo, além, é óbvio, de pretender se apoderar do petróleo do Iraque.

Não quero dizer com tudo isso que os EUA e a Inglaterra vão perder a guerra, bem entendido. É evidente, ao contrário, que derrotarão o Iraque, tal a disparidade de forças em confronto, que evidencia até mesmo a possibilidade de um MASSACRE. Os invasores, porém, vão pagar muito caro por isso, com baixas incalculáveis e o risco de um atoleiro político de amplas dimensões e de consequências imprevisíveis. Em contrapartida, as manifestações pela paz por todo o mundo não são em defesa do regime de Hussein, mas CONTRA A POLÍTICA IMPERIAL. Com efeito, o que está em pauta é a manutenção da soberania das nações, no que isso significa em termos de liberdades inalienáveis e de autodeterminação dos povos diante do poder absoluto e unilateral do Império.

O que é evidente é a construção da política imperial, pois, como César, os EUA e a Inglaterra ruíram os fundamentos da República, atravessando o Rubicão com a invasão do Iraque. Esse é o prólogo de uma dramaturgia cruel que visa a combater o denominado Eixo do Mal, constituído por Iraque, Irã e Coreia do Norte. Contudo, qualquer outro Estado é candidato a se inscrever no campo dos Estados fora da lei caso contrarie os interesses unilaterais do Império.

O Império não teve escrúpulo em ignorar a legalidade internacional, forjada no pós 2ª Guerra Mundial e materializada na Organização das Nações Unidas. (…) Pode-se depreender disso que o Império procura ter a mão livre para fazer o que quiser e bem entender, impondo sua vontade ao mundo sem ter que se defrontar com qualquer obstáculo político e militar.

Uma das resultantes disso é o antiamericanismo visceral que se desenvolve agora em todo o mundo, numa extensão e profundidade inéditas. Ao lado disso, o BOICOTE aos produtos norte-americanos começa a ganhar força em todo o mundo.

Contudo, a problemática crucial que se impõe agora para a devida interpretação dessa política é a maneira pela qual se constituiu a figura do TERRORISMO. Como se sabe, a construção do Eixo do Mal e de Estado fora-da-lei tem nessa figura o seu cavalo de batalha. Seria em nome do combate ao terrorismo que o militarismo norte-americano procura legitimar a nova estratégia de guerra preventiva. Mas o que quer dizer isso, afinal de contas? Eleger o terrorismo como inimigo principal implica dizer que o Império pretende CRIMINALIZAR A POLÍTICA como tal.

Digo isso porque o inimigo destacado pelo Império, delineado repetidamente como sem rosto, seria qualquer um que pudesse se contrapor à sua onipotência, na medida em que seria fatalmente considerado criminoso por antecipação. Vale a pena recordar que Rumsfeld já avisou que considerará os iraquianos que defenderam seu país criminosos de guerra. O que, venhamos e convenhamos, é a construção de uma retórica da força absoluta que nos coloca a todos em uma posição de delinquentes em potencial, caso nos opusermos ao poder imperial. Como se dizia no tempo da guerra contra o Afeganistão: quem não está conosco está contra nós. O governo norte-americano mostra que pode efetivamente fazer o pior, uma vez que mantém em Guantánamo centenas de presos da guerra do Afeganistão, sem nenhum suporte no Direito Internacional, submetidos às mais torpes torturas.

Isso significa que a política do Império vai na direção de pretender constituir um Estado penal em nível internacional, da mesma forma que os EUA já instauraram em seu território a política da tolerância zero, transformando os problemas sociais em penais. Querem se colocar como EXCEÇÃO À LEI no cenário internacional, o que é não apenas um ataque frontal a qualquer concepção democrática da política, como também revela que os Estados Unidos são o único Estado fora-da-lei hoje existente. Vale dizer, os EUA acusam frontalmente seus inimigos de ser aquilo que estão em vias de se transformar, isto é, o único Estado fora-da-lei propriamente dito.

É pela oposição a essa criminalização da política que somos decididamente contra a guerra, pois isso representa a retirada de nossa condição de cidadania, já que não se reconhece assim o direito inalienável que temos de resistir contra a violência do poder, nos lançando então na posição indigna de criminosos. A pax americana pretende inaugurar outra era, diferenciando-se decididamente da pax romana e da pax britânica, códigos imperiais que a antecederam no Ocidente. Embalada pela globalização, que fragilizou sensivelmente a soberania do Estado-nação e promoveu o esvaziamento do registro da politica em prol da economia, a pax americana ameaça nos lançar a todos no limbo da criminalidade se nos opusermos aos ditames do Império.

Nós que trabalhamos muito para forjar no Brasil uma real democracia contra a ditadura militar, lutando sempre contra o arbítrio dos anos de chumbo sustentados pelos EUA, não podemos aceitar passivamente a destituição de nossa cidadania. Somos contra a guerra em nome da democracia e nos opomos à criminalização da política, que são, aliás, as duas faces da mesma moeda, já que transformar perversamente a resistência ao poder em criminalidade e terrorismo é destruir os fundamentos da democracia.”

JOEL BIRMAN – “Cadernos Sobre o Mal”
Ed. Civilização Brasileira (2003)
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