Acenando adeus a Chris Cornell, ícone da Geração Grunge – In Memoriam [1964 – 2017]

Uma das vozes mais extraordinárias do rock global nas últimas décadas calou-se para sempre, aos 52 anos, deixando como legado algumas canções imorredouras e um rastro indelével na história do Grunge.

Chris Cornell (1964 – 2017), que encantou e comoveu cantando no Soundgarden, no Audioslave, no Temple Of The Dog e em sua carreira solo, agora adentra o panteão de mortos ilustres da revolução sônica noventista, nascida e explodida deste Seattle, onde já estavam Kurt Cobain (Nirvana), Layne Stanley (Alice in Chains), Mia Zapata (The Gits), Andy Wood (Mother Love Bone), Scott Weiland (Stone Temple Pilots), dentre tantos outros mortos precoces do hypado cenário musical da terra natal de Jimi Hendrix.


“Words you say never seem
To live up to the ones
Inside your head

The lives we make
Never seem to ever get us anywhere
But dead

The day I tried to live
I wallowed in the blood and mud with
All the other pigs…”
The Day I Tried To Live

Ao enforcar-se em um banheiro de hotel, Chris Cornell põe um ponto final em sua existência em carne-e-osso de modo a lançar uma luz de crepúsculo sobre toda a sua obra anterior, como que sublinhando que seus lamentos musicados e seus berros de angústia impregnados não eram mera dramaturgia e jogo-de-cena. Eram a expressão genuína de um coração dilacerado pelos fardos que tinha em suas mãos e pela lida louca de tentar viver nesta estrepitosa estrada – “cheia de som e fúria e que não significa nada”? (Macbeth) – que ele batizou de Superunkown.


Chris matou-se e nos deixou chafurdando numa lama de porquês, meditando sobre vários “talvez”. Talvez, sem nenhuma intencionalidade consciente, Chris Cornell tenha partido do mundo deixando-nos uma série de emblemas.

Acenou adeus ao mundo enforcando-se na metrópolis que é uma encarnação da distopia Yankee, a outrora próspera capital-mundial-do-automóvel Detroit, hoje uma autêntica Devastolândia. Uma terra histórica para a música estadunidense (Motown, MC5, Stooges, White Stripes…), hoje reduzida a escombros do que foi outrora, prova viva da insanidade do american way of capitalism.

Ali Cornell rompeu com as grades desta jaula enferrujada que para ele tinha se tornado a vida.


Ele quis, talvez, com este ato derradeiro e fatal, demitir-se da Era Trump, que afinal não permite esperanças róseas de futuro erguendo-se no peito de ninguém (o que se ergue é o pavor da hecatombe nuclear e da estupidez da guerra devastadora on repeat). Quis afastar-se de vez do “pesadelo climatizado” de que falava Henry Miller, para enfim dar entrada naquele Trágico Olimpo onde habitam figuras que o mesmerizavam – como Kurt Cobain, Ian Curtis, Jeff Buckley, Mia Zapata † R.I.P etc.

Demitiu-se da vida, talvez, sonhando que valia a pena acabar de uma vez por toda com todo o sofrimento – também com toda felicidade – e ganhar de brinde, ainda que jamais sorvível por sua consciência, enfim uma consagração ao panteão dos deuses da música, dos mestres da voz? Não: talvez ele não estivesse pensando em fama póstuma, talvez estivesse simplesmente cansado de tudo, solitário mesmo ao cantar diante de multidões, sentindo-se como uma minoria de um, uma fading light, “The Disappearing One”.

Tudo o que ele mais temia veio à vida, tudo o que havia buscado construir como ninho mostrou-se no fundo como um túmulo disfarçado. À questão que, em O Mito de Sísifo, Albert Camus julga ser a mais fundamental das fundamentais, Cornell respondeu em ato, como antes havia feito Cobain: à pergunta “a vida vale a pena ser vivida?”, ele respondeu: “não mais”. Talvez ele apenas tenha caído em dias sombrios, mas sem ter tido mais a paciência ou a persistência para atravessá-los.


Talvez Chris Cornell sentisse que estava ficando pra trás, que o Audioslave já tinha sido sepultado e que seus ex-companheiros de banda já seguiam jornada, sem ele, sem precisar dele, sem ligar pra ele, profetas da raiva na nova empreitada de thrash metal hip hopper dos Prophets of Rage.

Chris, talvez, não sentisse mais em si queimando a chama vivaz da rebeldia, só o demônio malfazejo da depressão. A depressão, aliás, contra a qual ele parece ter lutado por toda a vida, e que enfim venceu a batalha, fatal demônio do meio-dia, sugador de vidas criativas em profusão, como mostram os casos de figuras como Sylvia Plath e Virginia Woolf, dentre tantas outras (Cf. ALVAREZ, O Deus Selvagem)


Talvez o Soundgarden fosse pra Chris já um jardim arrasado, um mamute lendário cuja força titânica já havia ficado no passado, envelhecido T-Rex perdendo seu vigor e que já não seria capaz de fazer jus, em seu futuro, aos clássicos Sabbáthicos do grunge que foram discaços como Badmotorfinger ou Superunkown. Não deve ser fácil conviver com uma relativa obscuridade, com uma sensação de decadência, quando em tempos idos já tivemos um grau de reconhecimento tão maior do que o atual.

Talvez aquele que lastimou-se ruidosamente por sentir-se “Outshined” estava sentindo-se obscurecido por um eclipse íntimo duradouro, uma noite que não passava, um “Black Hole Sun” que ele foi descobrindo tratar-se de um buraco negro devorador de toda luz.


Ah, Chris, que sedução estranha e irresistível veio exercer seu fascínio de Tânatos sobre ti, neste Maio de 2017, quando contavas 52 anos de idade, para que tenhas decidido encerrar sua estadia entre os vivos? Você foi com fé ou foi totalmente ateu? Foi com a esperança de que, lá do outro lado, beberia um vinho com Jeff Buckley e vocês cantariam em dueto as lindíssimas melancolias musicadas de “Grace”?

Talvez, quem sabe, Chris tenha pensado em Andy Wood, morto por overdose antes de tornar-se o rock-star que todo mundo esperava que se tornasse. Talvez Chris tenha se lembrado de que, sobre o cadáver do Mother Love Bone, ergueram-se monumentos da música estadunidense: o álbum de estréia do Temple Of The Dog e as sementes do Pearl Jam.

Terá morrido com o reconfortante consolo de que algo musicalmente esplendoroso seria erguido em sua homenagem, depois de sua partida? Que nova “Hunger Strike”, cantada em dueto com Eddie Vedder, virá para celebrar a vida e a morte de Cornell?



Chris, você deixa-nos lotados de perguntas e perplexidades. O fim da tua vida faz emanar algo semelhante à tua arte: a sensação de que, como diz Albert Camus, “a angústia é o habitat perpétuo do homem lúcido”. Teus wails eram o lamento de um homem cujo fardo eram enxergar bem demais as agruras do mundo. Tua alma atormentada era grungy como a garganta abissalmente profunda de Mark Lanegan. Alguns de teus berros são tão viscerais quanto Cobain dando uma de blueseiro e rasgando um Leadbelly ao fim do Acústico MTV.

Chris Cornell: em ti eu encontrava, comovido, um artista capaz de catarse e de expressão emocional impressionantes, conjugadas com um domínio técnico de seu métier de cantor que o tornam, sem dúvida, um dos gênios-da-voz no rock contemporâneo.O grunge, afinal de contas, tinha um pé fincado na lama do blues e outro pé saltando no lodo do punk; Chris Cornell, que também tinha algo de headbanger e foi muito celebrado por metaleiros como uma espécie de Dio de Seattle, tinha uma tamanha capacidade de musicar seus tormentos íntimos de modo hiperbólico e teatral, que pode até considerado uma das figuras prefiguradoras do emocore (tal como se manifesta no At The Drive-In ou no Linkin Park, por exemplo).

Assisti Chris Cornell em ação sobre o palco duas vezes, ambas muito impressionantes: um show de sua carreira solo em São Paulo e um show recente do Soundgarden no Festival d’Été de Québec. Aquela voz era de fato merecedora de ressoar por um vasto espaço, ecoando pela arena, pois carregava uma imensidão de sentimentos e de nuances, nos seus melhores momentos evocando O Grito de Munch. Se aquela pintura cantasse, talvez soasse como Chris Cornell no auge de suas catarses?

Sua vida e sua obra não serão esquecidos – com o perdão deste clichê de necrológios que é aqui mais uma vez tão válido. Seu organismo esfacelou-se, seu gogó calou-se para sempre, mas sua música fica entre nós, legado imorrível que não cessará de nos emocionar e nos empolgar. Que essa morte seja uma semente, que a plantemos em nossos campos e que dela sigam crescendo as Screaming Trees de nossa sublime e dilacerada grungidade.

Em “Wave Goodbye”, do seu disco-solo de estréia Euphoria Morning, o homenageado era o talentosíssimo Jeff Buckley, que afogou-se aos 30 anos tendo lançado apenas um álbum, “Grace”, uma das obras-primas da música global no fim do século XX. Agora é nossa vez de cantar, com a voz embargada, um “Wave Goodbye” para Chris Cornell, recém-embarcado numa estrada da qual nenhum viajante jamais retornou: a Superunkown que vai ao Hades e é uma via de mão única. Para aquele que criou e extroverteu tanta música cheia de alma, it’s just the end of the world.

E se alguém ainda nutre dúvidas de que perdemos um baita dum Poeta Grunge, antena de seu tempo e geração, relembro uma canção obscura de “Euphoria Morning” (1999), chamada “O Travesseiro Dos Teus Ossos” (“Pillow of Your Bones”). Ela ganha hoje uma nova camada de densidade enquanto a carne que recobria os ossos do cantor do Soundgarden e do Audioslave vai se desintegrando no seio da Phýsis e ele prepara-se para a sina sem dores de esqueleto.

Aí, nesta canção impressionante, Chris Cornell – que neste álbum já havia evocado nada menos que um fim do mundo, testemunhado e compartilhado por um eu-lírico “Radioheadiano” – segue explorando uma escrita hiperbólica, que deve ter lá suas similaridades com as tempestades psíquicas de poetas como um Rimbaud, um Lautréamont, um Poe… Cornell destila um lirismo sombrio através de sua pictórica poiésis, escancara paradoxos verbalmente cheios de wit (“the rising of my low”), e prova que é um letrista ainda muito sub-estimado e sub-apreciado.

Eis um compositor merecedor de mais estudo até mesmo por nós filósofos, que muitas vezes ficamos discutindo o conceito de catarse em Aristóteles, não avançando além dele, o que nos deixa desagradavelmente antiquados, pois poderíamos muito bem discutir catarse – e Estética – também, por exemplo, através da Geração Grunge e das obras de Cobain, Vedder, Cornell, Stanley, Lanegan (por uma sala de aula com mais Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden, Alice in Chains e Screaming Trees!). Ladies and germs, listen to an awesome grungy poet:

PILLOW OF YOUR BONES

The embers of the saint inside of you
Are growing as I’m bathing in your glow
I’m swallowing the poison of your flower
And hanging on the rising of my low
Colorful and falling from your mouth
Like a painted fever in recoil
Like a lie without the pain

On a pillow of your bones
I will lay across the stones
Of your shore until the tide comes crawling back

A waning hand on silver granite ways
Will mend my broken limbs and bend my haze
I’m sleeping in the silence of your voice
I’m cradling the peril of my only choice
Colorful and falling from your mouth
Like a painted fever in recoil
Like a lie without the pain

On a pillow of your bones
I will lay across the stone
Of your shore until the tide comes crawling back
Throw my pillow on the fire
Make my bed under the eye
Of your moon until the tide comes crawling back

Even though the truth can burn inside or fall behind
I will wander through your open mind
And you will find no lie can hide
Until the tide comes crawling…

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– Uma homenagem a Chris Cornell (1964 – 2017), in memoriam.
Por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro.

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Querida Janis: uma carta para um sol que brilha do além-túmulo (sob a influência do doc “Little Girl Blue”, de Amy Berg)

Querida Janis,

Não tenho em mim as crenças místicas necessárias para te crer viva, ainda, em alguma transcendental dimensão da imensidão cósmica. Não te atribuo ouvidos capazes de decifrar as palavras que te falarei, nem olhos que decriptem estes garranchos que te escrevo. Suponho que te tenhas acabado, em carne-e-osso, por inteiro, sem deixar subsistir o fantasma de um espírito imorredouro. No entanto, o teu esplendor enche meu coração ateu de convicções sobre a perspectiva concreta de sobrevida após a morte pois tua música é nada menos que isso: um vivificador tônico, um Biotônico Fontoura artístico, um fortalecedor do ânimo, o que faz do teu legado algo que está para além da possibilidade de servir de repasto aos abutres ou aos vermes.

És uma voz que transcende a morte, uma voz que condensa um destino que em 27 anos brilhou mais do que a maioria dos terráqueos consegue no triplo ou no quádruplo deste tempo. Inspira-nos, até mesmo a nós que nascemos quando você já estava morta, a sensação intensa de que é possível “viver sem tempos mortos”, para emprestar a expressão de Simone de Beauvoir. Querida Janis, você mostra que é possível existir no compromisso com a autenticidade extrema. Você não escondia tua verdade detrás das máscaras da conveniência, nem se calava diante da massa caótica e confusa de afetos que em ti conviviam criando nós que era preciso desatar. Teus nós eram cantáveis em libertárias catarses. Assim libertavas-nos a todos, teus contemporâneos e teus pósteros, ao dar às mancheias e sem avareza tantas lindas lições de tua liberdade.

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Por muito tempo este leitor de Nietzsche tentou encontrar exemplos concretos, históricos, de quem seriam os tais dos “espíritos livres”, dionisíacos e em êxtase diante da existência, e encontro poucas encarnações melhores desta liberdade-de-espírito do que você. Você e Jimi. Vocês, cometas que atravessaram com pressa o céu da existência, faiscando pelo cosmo com vidas incendiadas e que a gente não esquece mais, tão necessitados somos destas tempestades de beleza com que vocês nos agraciaram. A guitarra de Jimi em chamas evoca-me a imagem símile da tua voz rasgada, que não temia desafinar pois ascendia para uma região para além de todos os medos, um âmbito onde reina a expressão intensa de afetos verdadeiros, com o ímpeto e a verve, com a vibe e o groove, de uma divina bacante, maravilhosamente indomável.

Ainda assim, mesmo que fizesses “amor com milhares de pessoas” durante os shows, voltavas sempre sozinha pra casa. Janis, entendo teu blues tão bem pois não pusestes máscara em teu sofrer. Soubestes cantar o abandono e a carência como ninguém, na singularíssima irradiação do teu ser incatalogável, e vejo nesta tua frase – “On stage, I make love to 25,000 different people, then I go home alone” – uma espécie de emblema do teu ânimo e cerne do teu blues.

3007-janis-joplin-620x372“BALL AND CHAIN” (AO VIVO NO MONTEREY POP):

Querida Janis, tu gritavas a tua solidão de um modo que nos faz sentir que uma solidão só é horrenda se mantida secreta e presa, nas catacumbas mau-iluminadas de nosso tórax. Tu gritavas a tua solidão dando a entender que uma solidão gritada poderia virar alguma porra semelhante a um orgasmo estético vivenciável em comum por um bando de hippies loucos em Nirvana conjunto… O Big Brother & The Holding Company que me perdoe – eram uma bandaça, afinal, tão timbrada quanto um Steppenwolf ou um Grateful Dead! – mas eras de fato o astro mais brilhante daquela constelação humana. E não tenho a pretensão de saber explicar as razões do teu esplendor, só sei que a aura de liberdade é essencial a isto que irradiava de ti e que te fez, de fato, um astro. Não uma pop star, mas um astro iluminante de fato, daqueles que se consome no próprio incêndio, um pouco como aquele monge budista que está em pleno processo de virar cinzas na capa do álbum de estréia do Rage Against the Machie.

A tua “astridade” era legítima – pois esplendias como um sol – mas cedo também fizestes a descoberta do quão tão trágico é ser astro. Como Kurt Cobain um dia também compreenderia, outro que entrou para o mítico time dos 27. Há quem vá dizer que vocês foram estúpidos, imprudentes, que vocês desperdiçaram a vida jogando-a fora por causa do vício às drogas, e inclusive não faltaram jornais e revistas para grudarem em vocês os rótulos depreciativos de junkies. Vocês não foram só junkies, Janis, não do modo como esta palavra é mobilizada pelos detratores, pois vocês foram o inefável, o indefinível, o irrotulável esplendor da Arte, aquilo que está para além das capacidades dos críticos de verbalizar.

Ocorre-me à mente uma belíssima cena de A Liberdade é Azul, de Kieslowski, em que a personagem de Juliette Binoche está de olhos fechados sentindo os raios de sol em sua face: tua música é assim, pra ser ouvida de olhos fechados, como quem se banha no esplendor irradiante de um sol que aquece, derretendo a frieza que é em nós prenúncio e parente do rigor mortis. Querida Janis, mesmo que nunca venhas a saber disso, digo na gratidão intensa de quem não cessa de te ouvir e ser beneficiado ao teu contato: amo a tua irradiância. Tua ética, tua estética, era a mesma do sol.


Vejo-te em Monterey, pela primeira vez diante de um público de tal gigantismo que é de atemorizar qualquer reles mortal com o mais paralisante stage fright. Você, não: como um heroína que retira suas forças de mananciais secretos que nem Carl Jung saberia decifrar onde se encontram, você sabia se desnudar diante de uma platéia imensa, abrir a sua caixa toráxica e exibir um coração sangrento e pulsante, daqueles que não via nada melhor a se fazer na vida do que cantar e cantar. Cantar de verdade, a tua verdade, de modo a derreter até o mais empedernido dos sujeitos apáticos e convencionais. Diante de ti, ficamos boquiabertos com uma capacidade rara, que poucos de nós de fato chegamos a desenvolver, esta generosa entrega de si ao mundo, através de uma expressão, arrojada e ousada, do teu oceano de afetos.

Te vejo no Rio de Janeiro e tua liberdade ali esplende nos bicos dos teus seios, na displicência anti-chic com que bebes um goró e curtes a maravilha transitória de um pouco de anonimato. Mas a câmera fotográfica te flagra, e talvez você sentisse que viver momentos tão mágicos sem ter deles registro talvez fosse sentido como perda, desperdício; você queria, do seu percurso, carregar vestígios. Você tinha a ambição de ser amada, não a medíocre ambição do lucro que é epidemia. Ambicionava derreter corações ao sol da tua expressão hipérbole das verdades sentidas e vividas.

Teu foto-diário, que no documentário de Amy Berg ganha vida na voz de Cat Power, serve como janelas abertas para uma pessoa que tinha lá seus segredos, apesar do escancarado dos teus cantos. Segredos de sofrimentos antigos, de ter sido molestada por canalhas da Klu Klax Klan em Port Artur ou por ter sido maltratada por algum cowboy escroto de Austin. Segredos de uma adolescência repleta da sensação de ser um freak e estar apart em relação à ordem careta.

Te imagino livre demais para enquadrar-se nos quadrados pré-preparados pelo poder. Ao invés de murchar na depressão ao sentir-se pertencente à estirpe da freakidade, você soube se conectar a algo de coletivo, à corrente da contracultura e sua ética do desapego ao lucro monetário, tivestes  apegos à utopia de uma sociedade alternativa que Raul Seixas cantaria por aqui, no Brasil, mas que vocês também encarnavam naquele trem de doidos sublimes e músicos geniais que espraiou magia pelos trilhos da América na trip do Festival Express.

Que seria daquela cena sem a tua inestimável contribuição, que seria de San Francisco nos anos 1960 se você não estivesse impactado todo o cenário com a tua irrupção esplendorosa? E no entanto tua vida dá a impressão clara de que você disse a verdade quando te perguntaram se você foi ao Rio como turista, e você respondeu: “i’m a beatnik on the road.” 

Cara Janis, não sou mongolóide de achar que minha carta achará teu endereço, tu que não és mais deste mundo, mas eu não saberia me expressar sobre ti senão me endereçando ao teu fantasma tão presente, à tua presença em mim através destas canções que tu cantavas como se fossem cartas. Cartas daquelas tão sinceras que são de rasgar o coração, como em “Cry Baby”, quando você a cantou em Toronto, em 1970, mandando notícias para seu “lost love” na África. Uma carta endereçada àquele que, após as maravilhas do convívio e da intimidade te abandonou para ir em busca de algo, em busca de si, em busca de sei lá o quê, em Casablanca ou sabe-se-lá-onde.

Você diz a ele, no teu blues, algumas lições que são ao mesmo tempo seduções: “You’re lookin’ for your life over there, honey! Do you wanna know where your life is? You’re life’s waiting like a god-damned fool, right here, for you man!” Você, que não era fácil, faz recurso até a ameaças: “um dia, meu caro, você vai acordar em Casablanca e vai estar congelando-até-a-morte [freezing to death], cara! E você vai se perguntar, que diabo estou fazendo em Casablanca?”

Você canta no ímpeto da esperança de um reencontro, você imagina o retorno do amor perdido, no teu abandono você o chama com come on, come on, come on, e não conhece sedução alguma melhor do que dar-lhe permissão para chorar. Teu romantismo não era a idealização de um convívio perfeito, mas a mútua entrega à expressão de sentimentos, mesmo os mais negativos e pesarosos: amar é ter um ombro onde chorar tanto quanto é ter alguém com quem rir; amar é dividir com alguém os malefícios e crueldades da existência tanto quanto é uma festa do êxtase em conjunto; amar era, pra ti, Janis, mais que mero sonho ou fantasia, era aquilo que tu fazias com a naturalidade do vulcão que entra em erupção.

Teus afetos falavam a língua do fogo. Teu calor humano é aquilo em ti que é imorredouro. Tua voz é deste calor o veículo, teu coração fez-se indestrutível pela decomposição já que aqueces os vivos mesmo não estando mais entre eles. És uma força vivificante que emana do túmulo, ou melhor, os vestígios da tua vida são vivificantes a ponto de serem pouco distinguíveis do incêndio solar que apresenta-se para seu concerto diuturno a cada aurora e se põe a cada crepúsculo.

“CRY BABY” (AO VIVO EM TORONTO, 1970):

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Talvez, querida Janis, tenhas inventado um novo namastê, um culto solar, algo como “o sol que há em mim saúda o sol que há em ti”. És um emblema do que se chamou, por comodidade de classificação, a “Geração Hippie”. Vocês eram a mais esplendorosa das belezas nascidas de um país e de uma época chafurdados nos horrores da guerra e do genocídio imperialista. Você, Janis, nasceu em meio às carnificinas da 2a Guerra Mundial, em 1943, e as tuas faces de criança talvez tenham sido iluminadas, através da TV, pelas hecatombes nucleares de Hiroshima e Nagasaki. Você deve ter visto aqueles cogumelos hediondos: teu blues não era somente cósmico, era também histórico. Você nasceu – alguém não nasce? – em tempos sombrios. E em Woodstock você deves ter sentido que algo se galvanizava e imantava num imenso evento que, para além do hedonismo, da libertação sexual, da experimentação com novas vivências intersubjetivas e estéticas, era também congregação daqueles que queriam encontrar as vias de co-construção de um mundo menos sangrento e cruel do que aquele do napalm despejado sobre as pessoas do Vietnã e do Camboja, do que aquele dos warmongers que teu ídolo Bob Dylan denunciara em “Masters of War” e outros folk-hinos.

Woodstock Music Festival (1969)

Woodstock Music Festival (1969)

 Tua beleza ensinava algo de precioso aos poderes ensandecidos pelas feiúras bélicas e pelos feitos de macheza destruidora e imperialismo agressivo. Tu eras desejo intenso de felicidade – “Jesus fucking Christ, I want to be happy so fucking bad!”, ainda te ouço dizer. Os caretas jamais vão compreender que tua relação com as drogas nada tinha de auto-destruição niilista ou fuga dos desafios da existência, era sim um desejo de intensidade e de viver sem tempos mortos, de sondar aquela sabedoria que só se encontra no excesso (segundo William Blake e seus Provérbios do Inferno). Você era um pouco como Jim Morrison, queria break on through to the other side. Depois, Patti Smith seria animada pelo que tu fizeras e diria: there’s a million membranes to break through.


Minha querida Janis, adoro-te pois você não se resignava a uma vidinha besta e sem thrills, você queria que viver fosse groovy, algo cheio de ritmo e paixão, cheio de dança extática e eloquência cantada, você queria a música que conduz ao transe, você queria ser para o público aquele médium de transfiguração que conduz um coletivo à congregação. Como faziam Otis Redding ou Aretha Franklin, você era xamã de um cerimonial pagão, bacântico, dionisíaco, onde as fronteiras delimitantes da chatura instituída eram lançadas por terra. Cantar te dava asas a ponto de não existir gaiola nesse mundo em que coubesses. Mas só eras este vulcão pela densidade de sofrimento que carregavas, tu te conectavas com os afetos que foram tão magistralmente expressados por algumas das melhores cantoras de blues da história: Billie Holliday, Bessie Smith, Odetta, Ma Rainey.

Odetta

Odetta

billie

Billie Holiday

Em 27 anos, você impôs-se neste panteão, você fez algo de tão extraordinário que as pessoas, te ouvindo, mal conseguiam acreditar que você não fosse negra. E dizer que Janis Joplin cantava como uma negona não é mero chiste ou brincadeira, é reconhecer tanto a tua capacidade de aprender com as blueseiras negras todas as técnicas, truques e feelings que você tão bem empregou, quanto a tua capacidade de transfigurar os sofrimentos e dúvidas que sentias em algo de tamanha intensidade e carga emocional que parece apenas ser possível só para quem passou por traumas muito severos e humilhações muito profundas – exatamente o caso do povo afro-americano que vivenciou as sequelas e as sobrevivências da escravatura.

Dirão alguns que tu cantavas dores pessoais, de relações intersubjetivas que tendemos a confinar hoje no âmbito do privado, e que para encontrar os gênios do canto de um sofrimento coletivo, grupal, histórico, a obra de uma Nina Simone ou de um Gil-Scott Heron é mais significativa. Já eu acho que teu canto é profundamente político pois carrega uma ética, um ideal de relacionamento humano, uma espécie de pregação laica, lindamente musicada, em que tu celebravas – tinhas sim algo de Aretha Franklin em seus trance-gospels – algo que talvez seja menos deus que valor: honestidade de expressão. É o ético é indissociável do político.

Aretha Franklin

Aretha Franklin

Tu eras, Janis, maravilhosamente capaz de pôr teus sentimentos numa linguagem que comandava a empatia com a força de imantação que o planeta Saturno acarreta à matéria que forma seus anéis circundantes. Tu talvez sentias o cosmic blues, semelhante ao de Pascal ao olhar para o “silêncio eterno dos espaços infinitos”, tinhas talvez o frisson melancólico daqueles que suspeitam que o céu é surdo a nossos apelos e que não há deus que nos salve de nosso abandono. Tinhas talvez a percepção visceral de que temos só uns aos outros, e aprendestes no amargor que humanos não são assim tão bons de entrega, de generosidade, de conexão. Precisamos de pedagogos do amor, e nisto fostes uma imensa fonte de luz, assim como Rita Lee, segundo Tom Zé, foi a educadora erótica de toda uma geração, você nos ajudou a aprender a arte difícil de amar – e oferecestes tudo o que tinhas àquilo que amavas mais que tudo, tua música e as teias de conexão que, por esta via, você estabelecia.

Você celebrava o potencial de congregação da música – aquilo que a anima há milênios, aquilo que transcende os contextos culturais específicos, aquilo que decerto já faziam os hominídeos e neandertais de gerações e gerações antes da História escrita começar.

Tua música é um sol que resplende e não cessamos de trepidar às bordas da tua fogueira, ao mesmo tempo aquecidos e estarrecidos, incapazes de compreender como é possível alguém compreender que a vida é isso: queimar. It’s better to burn out than to fade away. Como diria aquele outro membro do Clube dos 27 que, citando Neil Young, despediu-se do mundo em sua carta de suicídio, talvez sem suspeitar de que também viveríamos, nós, seus pósteros, à sombra fascinante da catarse de sua angústia. Eventos como você ou o Nirvana, na história da música, são raríssimos: são vocês que estabelecem os auges, são vocês que fazem os termômetros da cultura explodirem por excesso de temperatura, por explosão do vidro que contêm os mercúrios.

Ensinas a viver mesmo no teu fracasso, dás a lição da fragilidade e da beleza da vida enquanto deixas o ânimo vital cair no nada por causa de um estúpido pico de heroína num hotel qualquer de teu percurso que ainda era tão grávido de futuros.

Janis, escrevo para dizer que o futuro ainda se aquece à luz do teu calor e ainda se encanta com o esplendor da tua voz; sei que não me ouves, mas não posso ouvir-te sem querer este absurdo infazível de agradecer-te. Rock on, sis! Shine on your glowing light!

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Escrito em 18/09/16, em Goiânia, logo após a sessão do documentário “Little Girl Blue” em sessão no Cine Cultura

SIGA VIAGEM:

SHOWS:

AO VIVO EM ESTOCOLMO, SUÉCIA (1969)

AO VIVO EM FRANKFURT, ALEMANHA:

AO VIVO EM WINTERLAND (1968) – Só áudio:

AO VIVO EM MONTEREY POP – Só áudio:

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1965 – This Is J.J.
1966 – Big Brother & The Holding Company – Light Is Faster Than Sound
1966 – Big Brother & The Holding Company – Live In San Francisco 1966
1967 – Big Brother & The Holding Company
1968 – Big Brother & The Holding Company – Cheap Thrills
1968 – Live At The Winterland ’68
1969 – At Woodstock
1969 – Filmore East 1969
1969 – Frankfurt 12Th April 1969
1969 – I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again Mama!
1969 – Janis Joplin & The Cosmic Blues Band – Texas International Pop Festival Vol. 3
1970 – Big Brother & The Holding Company – Be A Brother
1970 – Pearl
1970 – The Rarest Pearls
1970 – Wicked Woman
1971 – Big Brother & The Holding Company – How Hard It Is
1972 – Joplin In Concert
1973 – Janis Joplin’s Greatest Hits
1974 – Janis Original Soundtrack
1980 – Anthology
1983 – Farewell Song
1999 – Mercedes Benz (Rare Tracks – 1962-1970)
2000 – Super Hits
2001 – Love Janis
2005 – Pearl (Legacy Edition)

A ESSÊNCIA DO BLUES – “Nobody Knows You When You ‘re Down and Out!”

A ESSÊNCIA DO BLUES / EXPLORAÇÕES DE UM TEMA INESGOTÁVEL
Por Eduardo Carli de Moraes

Algo da essência visceral do blues encontra-se encapsulada para a eternidade nesta maravilha da história da arte que é “Nobody Knows You When You ‘re Down and Out” (ouça no player acima). Minha interpretação predileta, de longe, é a da Bessie Smith, esta cantora de voz sublime e que só tem rivais, em capacidade de comunicar afetos intensos, em figuras como Nina Simone, Billie Holiday e Janis Joplin. O “lamento” que este blues expressa tem a ver, é claro, com uma crise existencial, talvez maníaco-depressiva; a “tônica afetiva” é o estar na fossa, “down and out”. Pois todo blueseiro sabe que o melhor local para tocar um blues é o fundo do poço. Desde que o fundo do poço não seja motivo para suicídio, mas sim ensejo para um lamento musicado que torna o sofrimento sublime e alivia-nos como uma nuvem carregada faz com sua tempestade descarregada… eis o blues, quintessencialmente, ao que parece a este bluephílico.

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John Lee Hooker

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Muddy Waters

Digo isso pois já cansei de ler, em livrinhos didáticos para músicos, uma certa explicação reducionista do sentimento que conhecemos por blues, como se houvessem algumas situações bem específicas que gerariam o feeling blue:  o blueseiro (a) chora a perda de seu amor, que se foi e deixou-o só; ou lamenta alguma crocodilagem de alguém que o prejudicou e depois largou-o no chão sem auxílio, sem dó nem piedade, atolado na fossa. Um autor como Sandy Weltman tenta ensinar o que é o blues escrevendo: “Digamos que você acorda uma bela manhã, sozinho e confuso. Dá conta de que há uma nota escrita que dorme no travesseiro a teu lado. Você decifra as palavras e toma consciência de que sua amada (ou amado) abandonou-te durante a madrugada. Você está devastado…”

Enfim: no exemplo vem embutida a tese de que o blues nasce da devastação emocional. Duvido da definição, pois o que me parece mais essencial no blues é justamente a força que nele se manifesta de sair da fossa, ao invés de nela chafurdar. Falo de seu “valor psicoterapêutico”, da cantoria como redentora do pesar íntimo. Penso no fato de que o blueseiro fica empoderado fortalecido pela expressão que realiza de seu estado emocional conturbado. O blues é lindo justamente como expressão de alguém que não se submete em silêncio à devastação, mas, justamente, canta seu blues, transfigurando a sua dor, fazendo da ferida beleza.

Não basta estar emocionalmente devastado para tornar-se por isso “veículo” do blues: quem está devastado pode muito bem cortar os pulsos, pular da janela do prédio ou ir à farmácia comprar Prozac. Se uma espécie de devastação emocional está na origem do blues, este se julga não só pela raiz mas pelos frutos, e o fruto é uma canção em que o sofrimento é trabalhado de modo a tornar-se um elo, uma ponte, que une o ser humano lamentante a seus semelhantes, todos eles mortais sofrentes; o blues é uma devastação emocional que não se cala mas, pelo contrário, se canta, e neste processo congrega o eu solitário que fez de sua ferida um belo cântico.

O mesmo autor citado acima, Sandy Weltman, logo derrapa na banana ao escrever umas abobrinhas sobre “devastação emocional”. Ele exemplifica as situações que gerariam blues citando um certo “Fulano que teve sua BMW novinha ginchada pelo repo man” ou certo “Sicrano que é acordado pela manhã pelo telefonema do patrão dizendo: ‘você já atrasou-se 4 vezes esta semana, dorminhoco! Está despedido, pegue seu cheque e suma!”

Bem, as “derrapadas” aí estão nos exemplos um pouco triviais de pequenas contrariedades cotidianas. Isso pode até dar um bluesinho, mas nunca um  bluesão! Não é matéria tão trivial, mas muito mais sangrenta e visceral, o que move afetivamente clássicos como “Spoonful” (de Willie Dixon, interpretada por Howlin Wolf ou Cream) e “Hey Joe” (do The Jimi Hendrix Experience).


Aqui estamos lidando com crimes passionais, homicídios impulsivos, a hýbris da afetividade humana em todo o esplendor das irracionalidades destravadas! O Joe que pega uma arma (“hey Joe, where are you goin’ with that gun in your hand?”) e mata a mulher infiel (“I’m gonna shoot my lady cause I caught her messin’ round with another man”), isso não é brinquedo, é sangue correndo. Já aquele eu-lírico que implora por uma colher-cheia (a spoonful) de amor, mas logo torna-se bélico e ameaçador, também não tá de brincadeira: “com meu revólver-45 eu te salvo do teu outro homem!” (“It could be a spoonful of water / To save you from the desert sand / But one spoon of lead from my forty-five / I save you from another man”). Não é moleza o tema do blues e tanto é assim que o tal do Joe, narrativa da folktale entoada pelo rapsodo-blueseiro, pode acabar com a cabeça na forca, mandado pra tumba pelo hangman…

RJ

Robert Johnson

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Son House

Weltman não desce ao fundo do poço para sondar o solo de onde fermenta a vegetação tropical extraordinária do blues. Não há pesar digno de um bom blues na histeriazinha miúda de um burguês diante de seu carro-de-elite que foi-lhe provisoriamente tirado! Não é blues o que sente o coxinha que tira selfies com a PM no dia da “Manifestação Patriótica Pelo Impeachment”. Os sentimentos mesquinhos, as “burguesices do coração”, não tem nada a ver com o blues. “São tudo pequenas coisas e tudo deve passar”, como cantou Renato Russo em um verso de altíssimo teor de blues no cancioneiro da Legião. Ainda que a sonoridade de “Meninos e Meninas” deva mais aos Smiths e ao Echo & The Bunnymen, há o sabor, no lirismo que inicia a canção, de um blues sentido: 


“Quero me encontrar mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui…”

A caretice e a covardia não dão bons blues – é, aliás, o que recebe pedrada de Cazuza em seu afiado “Blues da Piedade”! O blues nasce de um pesar autêntico que o sujeito musica e expressa tendo em mira a diminuição de seu fardo, já que ele dividiu-o conosco.


Blues da Piedade
Cazuza

“Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem.”

O que uma canção como “Nobody Knows You When You’re Down and Out” revela tão bem é a natureza desse pesar que o blues expressa. Eu diria que é um pesar multifacetado, mas que tem por fundo o fato do sofrimento subjetivo ser algo que dificilmente encontra abrigo no outro, por exemplo como consolação e escuta. A alteridade é com frequência o locus do desamparo e não do apoio, da solidão duramente experimentada e não da comunhão beatífica de eus que comungam. A música da Bessie Smith expressa muito bem o sentimento recorrente do “nobody to tell your troubles to” que está tão umbilicalmente conectado com o sentimento do blues. O que pesa, enfim, não é só a dor, mas não ter a quem contá-la, no sentido de: não há com quem compartilhá-la, não há quem divida comigo este fardo.

Bessie Smith chora com sua linda voz pela fossa que é “ninguém te conhecer quando você está down-and-out”. A noção, altamente blues, de que o mundo é assim: “ria, e vão rir contigo; chore, e chorarás sozinho!” Os maníaco-depressivos, os melancólicos, os rotulados como “esquizos”, os desviantes e divergentes de toda estirpe, com frequência precisam recorrer, quando dispõem de meios financeiros para tal, aos psicanalistas, estas “orelhas de aluguel” que estão lá, em larga medida, como escutas para um blues que quer ser expressado, um desconforto íntimo que deseja verbalizar-se, compreender-se, exprimir-se.

Ouçam nas palavras que Bessie tão bem entoa que o ex-milionário, que protagoniza este blues maravilhoso, canta, na pobreza, sobre os tempos idos de bonança. É o drama da riqueza perdida, o pesar pela perda de algo maior do que o capital, o que canta-se em “Down and Out”. Em sua versão primorosa da música, o Eric Clapton também soube, com seu tom de voz um tanto aristocrático, very British and very gentleman, destacar esta temática do ex-rico, ou do rico decaído. O que mais dói, o pesar maior que o blueseiro expressa, não é a queda de classe social, a diminuição da bufunfa na conta bancária, mas algo mais: a falta de amizade, a ausência de solidariedade, a descoberta, enfim, de que todos os amigos eram falsos, amigos-da-onça, que só queriam a companhia do rico-feliz, e agora fogem para longe do empobrecido-miserável, que fica restrito à uma solidão lamentada em canção:

“Once I lived the life of a millionaire,
Spent all my money, I just did not care.
Took all my friends out for a good time,
Bought bootleg whiskey, champagne and wine.

Then I began to fall so low,
Lost all my good friends, I did not have nowhere to go.
I get my hands on a dollar again,
I’m gonna hang on to it till that eagle grins.

‘Cause no, no, nobody knows you
When you’re down and out.
In your pocket, not one penny,
And as for friends, you don’t have any.

When you finally get back up on your feet again,
Everybody wants to be your old long-lost friend.
Said it’s mighty strange, without a doubt,
Nobody knows you when you’re down and out.

When you finally get back upon your feet again,
Everybody wants to be your good old long-lost friend.
Said it’s mighty strange,
Nobody knows you,
Nobody knows you,
Nobody knows you when you’re down and out.”

É um clichê onirepetido que o o blues teve um filho rebelde chamado rock’n’roll. As obras de Rolling Stones, Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Cream, Eric Clapton, Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd, são evidências suficientes: de fato, estavam calcadaços no blues estes mamutes rockers da era-de-ouro. Mas será que deixou de ser assim? A vertente prossegue seu caminho histórico e hoje em dia The White Stripes ou The Black Keys, dois novos gigantes da música global, também estão enraizados no blues até o pescoço. Às vezes até a testa! Esta sobrevivência do blues só pode ser explicada pelo afeto que o anima, pois mais que um estilo musical o blues é uma espécie de experiência de mundo. 


blues, diante do pesar, da perda, do luto, da desgraça, da tragédia, oferece como medicina e bálsamo a própria expressão emocionada do sujeito sobre sua condição. Assim inventou-se uma das formas artísticas mais valiosas e duradouras a ser gerada no solo da América do Norte. E não é de surpreender que o blues esteja historicamente conectado com a Diáspora Negra, ou melhor, com o imperialismo europeu em seus ímpetos escravagistas e dominadores e seus efeitos perversos pelo globo e pela história afora. Sem a escravidão, talvez não tivesse nascido o blues, nem pudesse ele ter ganho tamanha força, tamanha representatividade como uma voz incalável da Cultura.

O humano escravizado, arrancado de seu lar pátrio e sua cultura própria em sua casa africana e conduzido por coerção e violência ao trabalho forçado, este sim tem uma razão ontológica radical de cantar seu blues. Por isso, aprendo bem mais sobre o blues lendo Frederick Douglass do que os manuais de “aprenda a tocar blues para dummies”. São lindíssimas as palavras que Fred Douglass dedica ao tema da expressão musical do sofrimento, subjetivamente vivenciado, do povo “de cor”, sofrido, humilhado, espoliado (mas que sempre encontra a fortitude e a coragem venerável para criar, em face dos opressores, monumentos perenes de sua humanidade como são os melhores blues). Uma boa máquina para demolir mentalidades racistas é uma boa vitrola que toque, sem parar, a obra de Howlin Wolf, Ella Fitzgerald, Son House, Muddy Waters, Little Richard, Chuck Berry, Jimi Hendrix, James Brown, Nina Simone, Ray Charles, Robert Johnson, Lauryn Hill, Sarah Vaughan, dentre inumeráveis outros mestrxs…

Quando leio as palavras de Douglass eu sinto que teria sido maravilhoso se ele tivesse nos legado também uns blues, cantados por voz própria, pois eis um escritor que tem uma profunda voz de blueseiro que o leitor sente emanando de suas páginas. O valor histórico delas está no testemunho que trazem de alguém que vivenciou em carne-e-osso a escravidão (algo que o cinema também conseguiu capturar com maestria em obras como Spartacus, de Stanley Kubrick, 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen, ou o clássico brasileiro Abolição, do Zózimo Bulbul).

Douglass revela a condição daqueles que estão sendo tratados, por seus “donos”, como mercadorias, livestock. O racismo institucionalizado pelo imperialismo europeu era bem isso: tratar um irmão humano como se fosse gado. E gado escravizável, como todo gado (é só visitar as atuais “fábricas da carne”, de nossa gloriosa pecuária industrial globalizada, para perceber o tamanho da escravização que o ser humano é capaz de impor a outros seres vivos…).

É estarrecimento, assombro e discórdia o que Douglass sente por aqueles que “falam sobre o canto dos escravos como evidência de seu contentamento e felicidade”:

WAR AND CONFLICT BOOKERA: CIVIL WAR/BACKGROUND: SLAVERY & ABOLITIONISM

Frederick Douglass, autor de “The Narrative of the Life of an American Slave”, um clássico da literatura norte-americana

“I have often been utterly astonished, since I came to the north, to find persons who could speak of the singing, among the slaves, as evidence of their contentment and happiness. It is impossible to conceive a greater mistake. Slaves sing most when they are most unhappy. The songs of the slaves represent the sorrows of his heart; and he is relieved by them, only as an aching heart is relieved by its tears. At least, such is my experience. I have often sung to drown my sorrow, but seldom to express my happiness. Crying for joy, and singing for joy, were alike uncommon to me while in the jaws of slavery. The singing of a man cast away upon a deserted island might be as appropriately considered as evidence of contentment and happiness, as the singing of a slave; the songs of the one and of the other are prompted by the same emotion.” The Narrative of the Life of an American Slave

Outro autor que muito nos esclarece sobre a essência do blues é o “polaco loco paca”, Paulo Leminski, em seu livro devotado ao poeta Cruz e Souza, “O Negro Branco” (publicado em 1983). Nesta obra – que integra o livro Vida recentemente publicado pela Cia das Letras – Leminski sugere que o poeta Cruz e Souza foi uma espécie de proto-blueseiro: “Fosse um negro norte-americano, Cruz e Sousa tinha inventado o blues. Brasileiro, só lhe restou o verso, o soneto e a literatura para construir a expressão da sua pena.” (pg. 22)

Tanta pena cantou o Cruz, que quase inventou o blues!

O blues como gênero musical tem sua história, mas o que interessa a Leminski é analisar outra história: a de sentimentos, intimamente relacionados, apesar de provenientes de diferentes culturas, o blues, banzo, spleen, sabishisa. Para Leminski, o blues caracteriza um modo-de-sentir afro-americano vinculado às penas da escravidão e da opressão; o banzo, similarmente, denota uma nostalgia intensa que faz com que os negros, roubados de sua pátria, adoeçam de saudade e parem de trabalhar, sem que a tortura do chicote ou do ferro em brasa possam retirá-los da letargia; o spleen está mais conectado ao lirismo de poetas que lamentaram o tédio e a sensaboria de viver (como um Byron, um Baudelaire, um Álvares de Azevedo – ou no cinema de Antonioni, Tarkovsky ou Bergman); finalmente, o termo japonês sabishisa, que Leminski descreve como uma tristeza, um “abatimento emocional diante das coisas e do fluxo dos eventos: a tristeza de quem sabe que as coisas passam, nada dura, tudo é fluxo, metamorfose e impermanência, heraclitiano fundamento do budismo em geral. Sabishisa, para os poetas japoneses de haikai, é uma condição para a produção do haikai.” (pg. 23)

Neste contexto dos quatro sentimentos, historicamente determinados, que expressam o mal-estar na existência, Leminski situa o blues como algo que, antes de tornar-se gênero musical, foi “modo-de-sentir”:

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Paulo Leminski

“O fato é que o blues (sentimento) produziu uma das modalidades musicais mais poderosas do século 20. Basta dizer que todo o rock and roll deriva, diretamente, de blues e suas variantes (rhythm-and-blues etc.), traduzidas para um repertório branco e comercializadas (Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones). Musicalmente, tudo resultou de um cruzamento entre a musicalidade natural do negro e o contato com a parafernália instrumental branca.

O próprio jazz resultou da oportunidade que os negros tiveram de conseguir e usar, à sua maneira, os instrumentos de origem européia. Isso se deu, de modo especial, em New Orleans, nos EUA, ponte de conjunção de várias culturas, france, anglo-saxã, africana.

Isso que se entende como blues, gênero musical, não tem data de nascimento: parece se confundir com a própria expressão do sentimento do primeiro negro trazido para a América como escravo.

Quem saberia ouvi-la nos spirituals, os cantos corais das igrejas batistas, anabatistas e presbiterianas da Nova Inglaterra? Ou nas work-songs, canções de trabalho dos negros submetidos à alvamente irônica monocultura do algodão no sul dos Estado Unidos? Ou nos shouts, dos negros berradores, em cabanas à beira do Mississippi, esperando passar o próximo barco, cassino de rodas a vapor, shouting entre sapos, lagartos e outros seres estranhos do pantanal?

Tem blues nas canções anônimas da anômala fauna de New Orleans, putas, seus gigolôs, drogados, ex-penitenciários, homossexuais, crupiês, marginais, mais que isso, negros marginais, destinos cortados, restos de vida, párias do mundo.

Big Bill Broonzy, Leabdbelly, T-Bone Walker.

As grandes damas: Bessie Smith (atropelada, em pleno delirium tremens de gim, não foi socorrida no hospital a que foi levada porque era negra. E essa suprema Billie Holliday, “Lady Day”, que soube tirar tudo que o som tem de dor.”

Voilà a essência do blues!


p.s. – Na abertura do post, lá em cima, o sublime Mississipi John Hurt. Ouça-o e desfrute-o:

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LEIA TAMBÉM @ A CASA DE VIDRO:

A JORNADA LIBERTÁRIA DE FREDERICK DOUGLASS

DOCUMENTÁRIO SOBRE JIMI HENDRIX (1942 – 1970): “THE UNCUT STORY” [VÍDEO COMPLETO]

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DOCUMENTÁRIO SOBRE JIMI HENDRIX (1942 – 1970): “THE UNCUT STORY”

EPISÓDIO 1 – 1942 a 1961

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EPISÓDIO 2 –1961 – 1967

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EPISÓDIO 3 – 1967 – 1970

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Artist Biography by Richie Unterberger

In his brief four-year reign as a superstar, Jimi Hendrix expanded the vocabulary of the electric rock guitar more than anyone before or since. Hendrix was a master at coaxing all manner of unforeseen sonics from his instrument, often with innovative amplification experiments that produced astral-quality feedback and roaring distortion. His frequent hurricane blasts of noise and dazzling showmanship — he could and would play behind his back and with his teeth and set his guitar on fire — has sometimes obscured his considerable gifts as a songwriter, singer, and master of a gamut of blues, R&B, and rock styles.

When Hendrix became an international superstar in 1967, it seemed as if he’d dropped out of a Martian spaceship, but in fact he’d served his apprenticeship the long, mundane way in numerous R&B acts on the chitlin circuit. During the early and mid-’60s, he worked with such R&B/soul greats as Little Richard, the Isley Brothers, and King Curtis as a backup guitarist. Occasionally he recorded as a session man (the Isley Brothers’ 1964 single “Testify” is the only one of these early tracks that offers even a glimpse of his future genius). But the stars didn’t appreciate his show-stealing showmanship, and Hendrix was straitjacketed by sideman roles that didn’t allow him to develop as a soloist. The logical step was forHendrix to go out on his own, which he did in New York in the mid-’60s, playing with various musicians in local clubs, and joining white blues-rock singer John Hammond, Jr.’s band for a while.

Are You Experienced?

It was in a New York club that Hendrix was spotted by Animals bassist Chas Chandler. The first lineup of the Animals was about to split, and Chandler, looking to move into management, convinced Hendrix to move to London and record as a solo act in England. There a group was built around Jimi, also featuring Mitch Mitchell on drums and Noel Redding on bass, that was dubbed the Jimi Hendrix Experience. The trio became stars with astonishing speed in the U.K., where “Hey Joe,” “Purple Haze,” and “The Wind Cries Mary” all made the Top Ten in the first half of 1967. These tracks were also featured on their debut album, Are You Experienced, a psychedelic meisterwerk that became a huge hit in the U.S. after Hendrix created a sensation at the Monterey Pop Festival in June of 1967.

Are You Experienced was an astonishing debut, particularly from a young R&B veteran who had rarely sung, and apparently never written his own material, before the Experience formed. What caught most people’s attention at first was his virtuosic guitar playing, which employed an arsenal of devices, including wah-wah pedals, buzzing feedback solos, crunching distorted riffs, and lightning, liquid runs up and down the scales. But Hendrix was also a first-rate songwriter, melding cosmic imagery with some surprisingly pop-savvy hooks and tender sentiments. He was also an excellent blues interpreter and passionate, engaging singer (although his gruff, throaty vocal pipes were not nearly as great assets as his instrumental skills). Are You Experienced was psychedelia at its most eclectic, synthesizing mod pop, soul, R&B,Dylan, and the electric guitar innovations of British pioneers like Jeff Beck, Pete Townshend, and Eric Clapton.

Axis: Bold as Love

Amazingly, Hendrix would only record three fully conceived studio albums in his lifetime. Axis: Bold as Love and the double-LP Electric Ladyland were more diffuse and experimental than Are You Experienced On Electric Ladylandin particular, Hendrix pioneered the use of the studio itself as a recording instrument, manipulating electronics and devising overdub techniques (with the help of engineer Eddie Kramer in particular) to plot uncharted sonic territory. Not that these albums were perfect, as impressive as they were; the instrumental breaks could meander, and Hendrix’s songwriting was occasionally half-baked, never matching the consistency ofAre You Experienced (although he exercised greater creative control over the later albums).

The final two years of Hendrix’s life were turbulent ones musically, financially, and personally. He was embroiled in enough complicated management and record company disputes (some dating from ill-advised contracts he’d signed before the Experience formed) to keep the lawyers busy for years. He disbanded the Experience in 1969, forming the Band of Gypsies with drummer Buddy Miles and bassist Billy Coxto pursue funkier directions. He closed Woodstock with a sprawling, shaky set, redeemed by his famous machine-gun interpretation of “The Star Spangled Banner.” The rhythm section of Mitchell and Reddingwere underrated keys to Jimi’s best work, and the Band of Gypsies ultimately couldn’t measure up to the same standard, although Hendrix did record an erratic live album with them. In early 1970, the Experiencere-formed again — and disbanded again shortly afterward. At the same time, Hendrix felt torn in many directions by various fellow musicians, record-company expectations, and management pressures, all of whom had their own ideas of what Hendrix should be doing. Coming up on two years after Electric Ladyland, a new studio album had yet to appear, although Hendrix was recording constantly during the period.

While outside parties did contribute to bogging down Hendrix’s studio work, it also seems likely that Jimi himself was partly responsible for the stalemate, unable to form a permanent lineup of musicians, unable to decide what musical direction to pursue, unable to bring himself to complete another album despite jamming endlessly. A few months into 1970, Mitchell — Hendrix’s most valuable musical collaborator — came back into the fold, replacing Miles in the drum chair, although Cox stayed in place. It was this trio that toured the world during Hendrix’s final months.

It’s extremely difficult to separate the facts of Hendrix’s life from rumors and speculation. Everyone who knew him well, or claimed to know him well, has different versions of his state of mind in 1970. Critics have variously mused that he was going to go into jazz, that he was going to get deeper into the blues, that he was going to continue doing what he was doing, or that he was too confused to know what he was doing at all. The same confusion holds true for his death: contradictory versions of his final days have been given by his closest acquaintances of the time. He’d been working intermittently on a new album, tentatively titled First Ray of the New Rising Sun, when he died in London on September 18, 1970, from drug-related complications.” AMG ALL MUSIC GUIDE

DYLANMANÍACOS – Uma coletânea exclusiva só com canções de Bob Dylan em interpretações de: Jimi Hendrix, Jeff Buckley, Rage Against the Machine, Joe Cocker, The Band, Joan Baez, dentre outros

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Uma coletânea exclusiva só com canções de Bob Dylan em interpretações de: Jimi Hendrix, Jeff Buckley, Rage Against the Machine, Joe Cocker, The Band, Joan Baez, dentre outros

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1. HENDRIX. All Along the Watchtower.
2. JOAN BAEZ. Simple Twist of Fate.
3. JEFF BUCKLEY. I Shall Be Released.
4. PJ HARVEY. Highway 61 Revisited.
5. THE BAND. Tears of Rage.
6. ODETTA. Masters pf War.
7. RICHIE HAVENS. Just Like a Woman.
8. JOE COCKER. Girl From North Country.
9. JIMI HENDRIX. Like a Rolling Stone (live).
10. RAGE AGAINST THE MACHINE. Maggie’s Farm

Logo mais, volume 2.

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Tiragosto:

Jeff Buckley – “I Shall Be Released”

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“When the power of love overcomes the love of power, the world will know peace.” – Jimi Hendrix (1942-1970)

1

 

“Quando o poder do amor
Vencer o amor ao poder
O mundo conhecerá a paz.”

Hippie Jimi

Jimi Hendrix (1942-1970), além de ter sido um dos mais revolucionários músicos do século 20 e um dos mestres maiores da guitarra elétrica que já viveu, também se arriscava nas artes plásticas. Não chega aos pés de um Picasso ou Matisse, mas ainda assim é impressionante. Também através da expressão visual este espírito prodigioso do Hendrix pôs pra fora, em 27 anos de vida incandescente, sua fértil criatividade. Hoje alçado ao status de mito musical mor, lado a lado com Lennon, Marley, Janis ou Cobain, Jimi revela sua fascinante personalidade neste seu quadro “Drifter’s Escape”, que esteve em exposição durante o Festival International de Jazz de Montréal 2014:

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“Hailed as the greatest guitarist of all time by Rolling Stone magazine in 2003, Hendrix recorded only four albums during his brief, incandescent career. Exploring the possibilities of amplification, pedals, wah-wah and feedback, he created a wholly new style, exploding the limits of the electric guitar as none other before or since, but it is above all his virtuoso musical talent that has left such an enduring and deep impression on our culture.

Drifter’s Escape is the title of a song written by Bob Dylan and covered by Hendrix. The song recounts the story of an outsider oppressed by society, put on trial and found guilty without knowing what the charges against him are. In this illustration, Hendrix offers us his visual interpretation of the story. In the upper right-hand corner, you can clearly see the outsider fleeing the injustices of society.”

In: http://www.montrealjazzfest.com/maison-du-festival-online/gallery/jimi-hendrix-silkscreen.aspx


Patti Smith canta “Drifter’s Escape” de Bob Dylan

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SIGAJimi-Hendrix-Wallpapers-1024x768 VIAGEM:

Jimi Zahar

DOWNLOAD EBOOK (RJ: Zahar, 2014)

Are_You_Experienced_-_US_cover-edit

 

DISCOGRAFIA [BAIXAR TUDO]: http://bit.ly/1FFJOIN

1967 – Are You Experienced?
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01 – Foxy Lady.mp3
02 – Manic Depression.mp3
03 – Red House.mp3
04 – Can You See Me.mp3
05 – Love Or Confusion.mp3
06 – I Don’t Live Today.mp3
07 – May This Be Love.mp3
08 – Fire.mp3
09 – Third Stone From The Sun.mp3
10 – Remember.mp3
11 – Are You Experienced.mp3
12 – Hey Joe.mp3
13 – Stone Free.mp3
14 – Purple Haze.mp3
15 – 51st Anniversary.mp3
16 – The Wind Cries Mary.mp3
17 – Highway Chile.mp3

1967 – Axis- Bold as Love
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01 – EXP.mp3
02 – Up From The Skies.mp3
03 – Spanish Castle Magic.mp3
04 – Wait Until Tomorrow.mp3
05 – Ain’t No Telling.mp3
06 – Little Wing.mp3
07 – If 6 Was 9.mp3
08 – You Got Me Floatin’.mp3
09 – Castles Made Of Sand.mp3
10 – She’s So Fine.mp3
11 – One Rainy Wish.mp3
12 – Little Miss Lover.mp3
13 – Bold As Love.mp3

1968 – Electric Ladyland
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01 – … And the Gods Made Love.mp3
02 – Have You Ever Been (To Electric Ladyland).mp3
03 – Crosstown Traffic.mp3
04 – Voodoo Child.mp3
05 – Little Miss Strange.mp3
06 – Long Hot Summer Night.mp3
07 – Come On (Let The Good Times Roll).mp3
08 – Gypsy Eyes.mp3
09 – Burning Of The Midnight Lamp.mp3
10 – Rainy Day, Dream Away.mp3
11 – 1983 … (A Mermaid I Should Turn To Be).mp3
12 – Moon, Turn The Tides … Gently Gently Away.mp3
13 – Still Raining, Still Dreaming.mp3
14 – House Burning Down.mp3
15 – All Along The Watchtower.mp3
16 – Voodoo Child (Slight Return).mp3

1970 – Band Of Gypsys

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01 – Who Knows.mp3
02 – Machine Gun.mp3
03 – Changes.mp3
04 – Power To Love.mp3
05 – Message To Love.mp3
06 – We Gotta Live Together.mp3

1972 – Hendrix In The West
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01 – Johnny B. Goode.mp3
02 – Lover Man.mp3
03 – Blue Suede Shoes.mp3
04 – Voodoo Chile.mp3
05 – The Queen.mp3
06 – Sgt Pepper’s Lonley Hearts Club Band.mp3
07 – Little Wing.mp3
08 – Red House.mp3

1986 – Jimi Plays Monterey
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01 – Killing Floor.mp3
02 – Foxey Lady.mp3
03 – Like A Rolling Stone.mp3
04 – Rock Me Baby.mp3
05 – Hey Joe.mp3
06 – Can You See Me.mp3
07 – The Wind Cries Mary.mp3
08 – Purple Haze.mp3
09 – Wild Thing (Burning Guitar!).mp3

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SHOW COMPLETO: 
THE JIMI HENDRIX EXPERIENCE
Ao vivo em Estocolmo, Suécia
1969

 

ALICE ERA UMA HIPPIE? – Uma interpretação psicodélica de “Alice’s Adventures in Wonderland” de Lewis Carroll (1832-1898)

John Tenniel

Ilustração: John Tenniel

Peguei Alice’s Adventures in Wonderland pra reler, com mente adulta, embrenhando-me pela densa selva linguística elaborada por Lewis Carroll em sua língua original. O livro pareceu-me uma viagem psicodélica pelo mundo onírico de uma criança de curiosidade ainda não domada. Audaz cosmonauta de um mundo delirado, Alice é toda exuberância, como se quisesse dar razão a William Blake em muitos de seus Provérbios do Inferno: é trilhando “a estrada do excesso” que Alice procura entrar no “palácio da sabedoria”.

E entre os excessos incluem-se as experimentações amplas que Alice faz com os cogumelos mágicos e outros gorós psicotrópicos de Wonderland. Ela é a experimentadora desenfreada, a Psiquê mutante que vai de surpresa em surpresa, estarrecida com toda as estranhas criaturas em que ela vai tornando-se.  É uma andarilha que flui com naturalidade por todos os territórios queer. 

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Franz Kafka, afinal, não foi o único autor de gênio a debruçar-se sobre o tema riquíssimo da Metamorfose: a narrativa de Lewis Carroll é densamente metamórfica. Alice muda de estado a toda hora, de acordo com as poções que bebe e sob o efeito das criaturas com as quais depara, ao acaso dos encontros. A começar pelo Coelho Branco, sempre apressado, neurótico de speedfreakiness, encarnação da mentalidade time is money, que é a primeira criatura de extravagância irresistível que Alice encontra e que ela é impelida a seguir, toca adentro, abismo abaixo, rumo às estranhices inumeráveis de Wonderland.

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Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho” (Zahar); click e compre na Livraria A Casa de Vidro na Estante Virtual

Se a curiosidade é um vício, então Alice é quase um demônio de saias. Feito uma junkie, ela não resiste a um frasco de poção: manda ver, goela abaixo, vários líquidos estranhos e cogumelos psicotrópicos em suas andanças. Tem a prudência de checar antes se é veneno fatal, mas corre todos os riscos quando se trata dos prováveis efeitos da substância – esta criança não tem medo de bad trip. É só trombar com um frasquinho para ir lá correndo e tirar a rolha, experimentar uns tragos, em sua busca por encontrar uma vibe das maravilhas.

Esta interpretação psicodélica de Alice como uma hippie mirim está longe de ser novidade. Tim Burton, um dos cineastas mais intensamente influenciados pelo legado de Lewis Carroll, chegou a descrever os livros protagonizados por Alice como “drogas para crianças”. Já um artigo de Jenny Woolf para a Smithsonian Magazine lembra ainda que “desde os anos 1960, a obra tem sido associada com a vertente psicodélica do movimento contra-cultural.” De fato, a leitura dos episódios alucinantes que Alice atravessa é o suficiente para deixar até o mais sóbrio dos mortais em um estado de embriaguez lírica. Como se tivesse lambido LSD.

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Algo que também assemelha Carroll a Kafka, apesar do contraste entre o humor e luminosidade do primeiro e a claustrofobia e pesadelo paranóico do segundo, é o quanto eles gostam de povoar suas parábolas com animais. Alice’s Adventures in Wonderland poderia se chamar Aventuras Oníricas de Alice Junto Aos Bichos. São bichos antropomorfizados, é claro, como mostra bem o caso do Coelho Branco, tão assemelhado a um funcionário de burocracia estatal ou privada, escravo do relógio, frenético em sua síndrome de always in a hurry, que vive apavorado diante da perspectiva de ser condenado à morte e executado na guilhotinha caso não cumpra os ditames da Duquesa.

O encontro de Alice com o Coelho faz com que ela, doida de curiosidade, siga o bicho até meter-se toca adentro, despencando pra dentro de Wonderland: as metamorfoses então disseminam-se e aceleram-se. As leis naturais mais básicas e confiáveis, como a força da gravidade, vêem-se de supetão suspensas. A “Queda” de Alice é muito mais um vôo do que um despencamento: ela vai planando abismo abaixo como se estivesse vestindo um pára-quedas. Em Lewis Carroll, o mistério e o espanto existem em profusão nas entranhas da terra. Transfigurados pela poiésis onírica, em Wonderland até os ratos e minhocas possuem “dignidade ontológica”. Não há bicho que não possa virar símbolo, nem criatura que não sirva para participar de cenas surreais.

Lewis Carroll, em certas cenas de Alice in Wonderland, pinta o retrato da experimentação humana com a diversidade amaravilhante do mundo natural. A abertura dos horizontes, a disponibilidade aos contatos, emana desses ímpetos juvenis e primaveris que impelem psiquicamente a Alice. Ela, neste mundo repleto de criaturas que nunca havia conhecido, lidando com experiências sem precedentes, lida com as poções psicodélicas e com os cogumelos mágicos que encontra em seu caminho com um ímpeto irrefreável de atingir a estatura ideal para que possa passar pela porta que dá acesso ao Jardim. Não é preciso ser Jung para sacar que há aí um símbolo. Quiçá altamente psicodélico.

O tema mítico do Éden é evocado por Carroll: Alice quer entrar para o Jardim que lhe está inacessível e não tem pudores de utilizar a embriaguez e o consumo de substâncias transformadoras do organismo psico-físico. Se vivesse hoje em dia, talvez seria mais uma jovem a ser enquadrada como inimiga pública e perigo subversivo pelas institucionalizadas políticas de Guerra às Drogas (que tão desastrosamente procuram tratar todo e qualquer uso de substâncias juridicamente ilícitas como se fossem ervas daninhas demoníacas e como se fosse possível extirpá-las completamente através de repressão e encarceração).

Mas a utopia de uma humanidade careta, este sonho de certos soturnos vigilantes da moral e dos bons costumes, sempre esteve muito longe de concretizar-se. A Humanidade segue sendo uma entidade pra lá de chapada… E Alice chapada – eis meu ponto – é um dos temas recorrentes na obra de Lewis Carroll:

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“Her eye fell upon a little bottle that stood near the looking-glass. There was no label this time with words ‘Drink Me’, but nevertheless she uncorked it and put it to her lips. ‘I know something interesting is sure to happen’, she said to herself, ‘whenever I eat or drink anything; so I’ll just see what this bottle does. I do hope it’ll make me grow large again, for really I’m quite tired of being such a tiny little thing.” LEWIS CARROLL, chapter IV, pg. 42 (Wordsworth, 2006)

Grande parte dos perigos que Alice enfrenta são decorrentes de suas bebedeiras, de seus tiragostos em poções psicodélicas. Em sua curiosidade infatigável, ela não cessa de experimentar as drogas com sua língua ingovernável de junkie mirim, mas ela cedo descobre – é como um insight sobre a overdose! – que há o perigo de sumir, desaparecer, morrer, com certas drogas tomadas nas doses erradas.

Alice não é totalmente imprudente: mesmo diante da sedução publicitária daquele “DRINK ME!”, que remete aos atuais outdoors seduzindo para cervejas e uísques, ela primeiro faz uns testes, bastante empíricos, para checar se o treco não é venenoso. Dá uns pegas e umas lambidinhas nos vários tipos de “pó-de-pirlimpimpim” (para lembrar do entorpecente favorito dos personagens de Monteiro Lobato no Sítio do Pica-Pau Amarelo). Wonderland é uma terra, aliás, de vastos recursos naturais de agentes psicoativos… Em Wonderland, os cogumelos também têm dignidade ontológica.

Alice não é sábia. Pelo contrário, é aquela que, em sua ignorância, parte ao encontro do desconhecido, impelida por esta chama da curiosidade que Lewis Carroll parece considerar sagrada. Se justifica-se chamar Alice de uma pequena junkie, é pois ela tem muitos elementos em comum com aqueles cujo estilo-de-vida manifesta-se por constantes experimentações com estados-alterados-de-consciência e de conduta.

O livro Alice in Wonderland é um pouco como algumas gotas de LSD: lê-lo é inserir no cérebro um corpo estranho, que desarranja a constituição habitual do organismo, levando-nos à proliferação das metamorfoses, instaurando uma consciência de mundo em que tudo torna-se refulgente de mistério e transbordante de esquisitice. Quando Alice diz “Everything is queer today”, pego-me dialogando com ela como se estivesse entre hippies: andou tomando ácido lisérgico, nêga?

 A profusão de experiências de radical transformação psico-física, se é colorida como um carrossel girando à velocidade máxima, é também aquilo que desencadeia o ciclo das crises de identidade, das quais Alice é também, com tanta frequência, a vítima. Em seus momentos deprê, fossa total, o queixume na voz de Alice soa como uma canção melancólica, ao piano, de Fiona Apple: “I shall be punished by being drowned in my own tears!” (II, pg. 33)teme Alice a certo ponto de sua jornada em que está nadando em suas próprias lágrimas. Por vezes nostálgica de casa, com saudades de sua gata Dinah, desejosa de reencontrar a segurança da familiariedade, Alice é com mais frequência a intrépida exploradora dos ambientes novos aos quais o Destino lhe assopra.

Grace Slick

Em San Francisco, nos anos 1960, em plena efervescência do movimento hippie, do rock’n’roll lisérgico, das experimentações com estupefacientes em acid tests musicados pelo Grateful Dead, Alice no País Das Maravilhas reaparece: em “White Rabbit”, canção do Jefferson Airplane, estão sintetizados muitos dos elementos que puderam tornar a obra de Lewis Carroll um monumento para a Geração do Ácido.

Grace Slick canta sobre as pílulas que te aumentam ou diminuem o tamanho – desde que não sejam as “pílulas da mamãe”, já que estas não dão nenhum barato. Canta também sobre o célebre “hookah-smoking caterpillar“, o mais explicitamente chapado dos personagens de Alice. Recomenda aos psiconautas que estão embarcando em viagens com substâncias psicodélicas que “perguntem à Alice”, caso tenham dúvidas sobre o processo, como se a pequena heroína de Carroll pudesse servir como uma espécie de proto-guru Timothy Learesco, tendo atravessado tantas doidêras depois de seu percurso alucinado pelo País das Maravilhas.

 

“When logic and proportion have fallen sloppy dead
And the white knight is talking backwards
And the red queen’s off with her head
Remember what the doormouse said
Feed your head, feed your head.”

A viagem de Alice, a proto-hippie, é repleta destes líquidos bizarros que, quando bebidos, desencadeiam radicais metamorfoses: o efeito de uma das poções é miniaturizar Alice, o que reduz seu tamanho ao de uma ratinha. Como ocorre no cinema de David Cronenberg, o corpo, em Lewis Carroll, é passível de transformações súbitas seguidas de crises-de-identidade abissais. O corpo é um fluxo, e a psique, é claro, flui junto.

Alice é uma personagem tão instigante pois surpreende-se constantemente com as situações-sem-precedentes com as quais se depara: não é um personagem de traços fixos e padrões de conduta imutáveis, mas um camaleão metamórfico, David Bowiesco. Miniaturizada ao tamanho de um roedor, depois quase submergida pelo temporal de lágrimas derramadas por sua versão gigantizada, Alice é talvez o símbolo literário mais impressionante da infância como turbilhão de novidades.

A jornada de Alice é para baixo (ela não é uma astronauta): sua aventura se dá nas entranhas da terra, e, depois descobrimos, também nas entranhas do psiquismo, no Inconsciente em seu trabalho onírico-criativo. Quando ela cai pela toca do Coelho adentro, seu temor é que atinja o centro da terra – o que evoca a direção de percurso do livro de Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra. 

Repleto de mudanças súbitas, o corpo de Alice é algo em que não se pode confiar, já que ele nunca dá conta de parar quieto. No mundo contemporâneo em que entupimos a molecada com Ritalina, em que decretamos que são doentes todas as crianças indisciplinadas e inquietas, talvez Alice sirva de modelo para uma renovação de nossos conceitos de infância, essa era da inquietude e da curiosidade em que o organismo passa por radicais metamorfoses que jamais cessam de ser experimentados, subjetivamente, com uma boa dose de assombro, incompreensão, terror, expectativa e descoberta.

Pois isso parece-me que o valor deste autêntico mito parido por Lewis Carroll – e que depois ganhou vida própria pela cultura de massas afora – está no modo como a narrativa sintetiza, em um rolê por Wonderland que dura o tempo de uma soneca de Alice, uma produção onírica profundamente simbólica do processo vital da maturação. O processo de maturação é exposto por Carroll como que hiperbolizado na figura de Alice, que nas mãos de seu criador é remoldada constantemente como se fosse boneca de massinha. O gênio de Carrol está no modo como a experiência subjetiva ou psíquica de Alice chega ao leitor em toda a exuberância de seu fluxo. Ela transporta-se do deleite ao alarme em poucos instantes (capítulo V, pg 55). Ela caminha a rota do terror ao êxtase com alguns pequeninos passos de criança psicodelizada, tornada visionária por poções e cogumelos.

caterpillar-05Quando ela encontra-se com este personagem inolvidável que é o Caterpillar – a lagarta drogada que fica fumando seu hookah, sentada sobre a cabeça de um cogumelo mágico – Alice já é mais sábia do que seu interlocutor onírico. Alice já passou por múltiplas metamorfoses, a ponto de poder alertar a lagarta hippie de que um dia ela também haveria necessariamente de vivenciar as metamorfoses extremas do devir-crisálida e do devir-borboleta (capítulo 5, pg. 50).

When you have to turn into a chrysalis – you will some day, you know – and then after that into a butterfly, I should think you’ll feel it a little queer, won’t you?”, pergunta Alice à lagarta. (capítulo 5, pg. 50). A lagarta, por sua vez, está demasiado ocupada com sua viagem psicodélica para dar a devida atenção às filosofagens sobre a mutabilidade da existência que improvisa a poeta Alice diante do bicho fadado a metamorfosear-se em borboleta. Antes de seguir jornada, a lagarta dá a dica preciosa para Alice: o cogumelo tem poderes espantosos de aumento ou diminuição do tamanho daquele que o abocanhar.

Só esta cena já justifica uma leitura de Alice da perspectiva psicodélica: o símbolo é explícito, já que Alice vai então carregar consigo um bocadinho do cogumelo mágico, em busca da dose exata que lhe tornará apta a passar pela porta que conduz ao Jardim que ela sonha penetrar. Não é à toa que algumas das mais lisérgicas bandas de rock nos anos 1970 e 1980 enxergariam nas experiências de Alice algo se similar ao que vivenciavam quando ousavam break on through to the other side, como canta Jim Morrison na canção clássica que abre o disco de estréia do The Doors.

Sabe-se que o nome da banda The Doors nasceu de The Doors of Perception, o livro em que Aldous Huxley relata seus transes místicos motivados pelo consumo da mescalina. Ali, o autor de Admirável Mundo Novo conecta suas experiências psicodélicas com tudo o que conhece da sabedoria oriental e ocidental, intenta reunir as práticas psicodélicas e espirituais, afirmando a unidade entre a busca pelo moksha/nirvana e a expansão bioquímica da consciência. O impacto cultural das aventuras Huxleyanas de interpretação e reflexão sobre a Filosofia Perene, em meio aos transes e metamorfoses desencadeados pelo consumo de psicotrópicos nirvanizantes, é profundo na contracultura que o sucedeu.

Jim Morrison, Jefferson Airplane, Jimi Hendrix, são só alguns dos inúmeros exemplos de lúdicos hippies que pediram licença para beijar o céu (“excuse me while I kiss the sky”, como entoa Hendrix em seu evoé voodoo “Purple Haze”). E isso em tempos nos quais a classe dominante do Império dos EUA chovia napalm e massacres aéreos sobre o Vietnã, como parte da Caça às Bruxas comunistas – ocasião histórica em que os yankees agiam bem à maneira da Rainha de Copas, que em Alice é a própria encarnação da presunção, da tirania, já que manda cortar cabeças a granel.

psychadeliaSe Alice pode ser dita uma proto-hippie, é pois está do lado do encantamento com a alteridade e não da agressão contra o diferente; pois está do lado da experimentação com transformações da consciência, inclusive através do consumo de cogumelos mágicos e chás ayahuasquentos, ao invés de filiar-se à ortodoxia das opiniões imutáveis e ao apego fanático à sobriedade ascética; pois sua curiosidade é sempre maior que seu temor e impele-a na direção da descoberta, de modo que Alice não se permite o auto-aprisionamento no medo isolacionista; pois é antropóloga intrépida de seu próprio mundo onírico, exploradora inquieta das potencialidades de seu próprio Inconsciente transbordante de imagens e ideias, canções e poemas, wordplays e rimas.

Alice é vitalidade primaveril no pleno desencadear de metamorfoses ingovernáveis. Se sentimos um certo ímpeto de imitá-la, talvez seja porque ela imita uma experiência ancestral, xamânica, em que a vivência da alteridade radical, seja esta pertencente à etnosfera ou à biosfera, é aceita como aventura essencial de maturação. Pois nem sempre são fáceis as experiências que nos levam a transcender nossas limitações, a vencer os véus sobre a visão, a superar uma identidade demasiado ossificada e dogmatizada. O caminho da maturação, esta metamorfose para o melhor, está repleta de percalços e sofrimentos, mas também de êxtases-da-transformação e alegrias na descoberta do sem-precedentes. É mais ou menos isso que Alice me inspira.

Lewis Carroll criou uma obra de poesia cuja influência sobre a posteridade não é negligenciável, já que ele agiu sobre ela legando-lhe um mito. Um mito apropriável e reinventável pelos cosmonautas da galáxia interior que pedem asas emprestadas aos compostos químicos psicodélicos. “Feed your head!”

Pois sábia mesma é a lagarta que vive seu devir-outro não com a resistência triste dos que se aferram a si, mas sim no desprendimento exploratório de quem só conhece o êxtase no ir-além-do-eu, no break on through to the other side. A jornada de Alice é em busca da dose exata de expansão de consciência que permite-lhe atravessar as portas trancadas rumo ao Jardim da Vida, em sua exuberante multiplicidade, lá onde a outridade rebrilha e refulge em toda a sua multidiversa estranheza, polvilhando o mundo todo com o minério do mistério – quiçá bem mais precioso que ouro.

Alice Lidell

LEIA: Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho” (Zahar); click e compre na Livraria A Casa de Vidro na Estante Virtual