ALICE ERA UMA HIPPIE? – Uma interpretação psicodélica de “Alice’s Adventures in Wonderland” de Lewis Carroll (1832-1898)

John Tenniel

Ilustração: John Tenniel

Peguei Alice’s Adventures in Wonderland pra reler, com mente adulta, embrenhando-me pela densa selva linguística elaborada por Lewis Carroll em sua língua original. O livro pareceu-me uma viagem psicodélica pelo mundo onírico de uma criança de curiosidade ainda não domada. Audaz cosmonauta de um mundo delirado, Alice é toda exuberância, como se quisesse dar razão a William Blake em muitos de seus Provérbios do Inferno: é trilhando “a estrada do excesso” que Alice procura entrar no “palácio da sabedoria”.

E entre os excessos incluem-se as experimentações amplas que Alice faz com os cogumelos mágicos e outros gorós psicotrópicos de Wonderland. Ela é a experimentadora desenfreada, a Psiquê mutante que vai de surpresa em surpresa, estarrecida com toda as estranhas criaturas em que ela vai tornando-se.  É uma andarilha que flui com naturalidade por todos os territórios queer. 

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Franz Kafka, afinal, não foi o único autor de gênio a debruçar-se sobre o tema riquíssimo da Metamorfose: a narrativa de Lewis Carroll é densamente metamórfica. Alice muda de estado a toda hora, de acordo com as poções que bebe e sob o efeito das criaturas com as quais depara, ao acaso dos encontros. A começar pelo Coelho Branco, sempre apressado, neurótico de speedfreakiness, encarnação da mentalidade time is money, que é a primeira criatura de extravagância irresistível que Alice encontra e que ela é impelida a seguir, toca adentro, abismo abaixo, rumo às estranhices inumeráveis de Wonderland.

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Se a curiosidade é um vício, então Alice é quase um demônio de saias. Feito uma junkie, ela não resiste a um frasco de poção: manda ver, goela abaixo, vários líquidos estranhos e cogumelos psicotrópicos em suas andanças. Tem a prudência de checar antes se é veneno fatal, mas corre todos os riscos quando se trata dos prováveis efeitos da substância – esta criança não tem medo de bad trip. É só trombar com um frasquinho para ir lá correndo e tirar a rolha, experimentar uns tragos, em sua busca por encontrar uma vibe das maravilhas.

Esta interpretação psicodélica de Alice como uma hippie mirim está longe de ser novidade. Tim Burton, um dos cineastas mais intensamente influenciados pelo legado de Lewis Carroll, chegou a descrever os livros protagonizados por Alice como “drogas para crianças”. Já um artigo de Jenny Woolf para a Smithsonian Magazine lembra ainda que “desde os anos 1960, a obra tem sido associada com a vertente psicodélica do movimento contra-cultural.” De fato, a leitura dos episódios alucinantes que Alice atravessa é o suficiente para deixar até o mais sóbrio dos mortais em um estado de embriaguez lírica. Como se tivesse lambido LSD.

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Algo que também assemelha Carroll a Kafka, apesar do contraste entre o humor e luminosidade do primeiro e a claustrofobia e pesadelo paranóico do segundo, é o quanto eles gostam de povoar suas parábolas com animais. Alice’s Adventures in Wonderland poderia se chamar Aventuras Oníricas de Alice Junto Aos Bichos. São bichos antropomorfizados, é claro, como mostra bem o caso do Coelho Branco, tão assemelhado a um funcionário de burocracia estatal ou privada, escravo do relógio, frenético em sua síndrome de always in a hurry, que vive apavorado diante da perspectiva de ser condenado à morte e executado na guilhotinha caso não cumpra os ditames da Duquesa.

O encontro de Alice com o Coelho faz com que ela, doida de curiosidade, siga o bicho até meter-se toca adentro, despencando pra dentro de Wonderland: as metamorfoses então disseminam-se e aceleram-se. As leis naturais mais básicas e confiáveis, como a força da gravidade, vêem-se de supetão suspensas. A “Queda” de Alice é muito mais um vôo do que um despencamento: ela vai planando abismo abaixo como se estivesse vestindo um pára-quedas. Em Lewis Carroll, o mistério e o espanto existem em profusão nas entranhas da terra. Transfigurados pela poiésis onírica, em Wonderland até os ratos e minhocas possuem “dignidade ontológica”. Não há bicho que não possa virar símbolo, nem criatura que não sirva para participar de cenas surreais.

Lewis Carroll, em certas cenas de Alice in Wonderland, pinta o retrato da experimentação humana com a diversidade amaravilhante do mundo natural. A abertura dos horizontes, a disponibilidade aos contatos, emana desses ímpetos juvenis e primaveris que impelem psiquicamente a Alice. Ela, neste mundo repleto de criaturas que nunca havia conhecido, lidando com experiências sem precedentes, lida com as poções psicodélicas e com os cogumelos mágicos que encontra em seu caminho com um ímpeto irrefreável de atingir a estatura ideal para que possa passar pela porta que dá acesso ao Jardim. Não é preciso ser Jung para sacar que há aí um símbolo. Quiçá altamente psicodélico.

O tema mítico do Éden é evocado por Carroll: Alice quer entrar para o Jardim que lhe está inacessível e não tem pudores de utilizar a embriaguez e o consumo de substâncias transformadoras do organismo psico-físico. Se vivesse hoje em dia, talvez seria mais uma jovem a ser enquadrada como inimiga pública e perigo subversivo pelas institucionalizadas políticas de Guerra às Drogas (que tão desastrosamente procuram tratar todo e qualquer uso de substâncias juridicamente ilícitas como se fossem ervas daninhas demoníacas e como se fosse possível extirpá-las completamente através de repressão e encarceração).

Mas a utopia de uma humanidade careta, este sonho de certos soturnos vigilantes da moral e dos bons costumes, sempre esteve muito longe de concretizar-se. A Humanidade segue sendo uma entidade pra lá de chapada… E Alice chapada – eis meu ponto – é um dos temas recorrentes na obra de Lewis Carroll:

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“Her eye fell upon a little bottle that stood near the looking-glass. There was no label this time with words ‘Drink Me’, but nevertheless she uncorked it and put it to her lips. ‘I know something interesting is sure to happen’, she said to herself, ‘whenever I eat or drink anything; so I’ll just see what this bottle does. I do hope it’ll make me grow large again, for really I’m quite tired of being such a tiny little thing.” LEWIS CARROLL, chapter IV, pg. 42 (Wordsworth, 2006)

Grande parte dos perigos que Alice enfrenta são decorrentes de suas bebedeiras, de seus tiragostos em poções psicodélicas. Em sua curiosidade infatigável, ela não cessa de experimentar as drogas com sua língua ingovernável de junkie mirim, mas ela cedo descobre – é como um insight sobre a overdose! – que há o perigo de sumir, desaparecer, morrer, com certas drogas tomadas nas doses erradas.

Alice não é totalmente imprudente: mesmo diante da sedução publicitária daquele “DRINK ME!”, que remete aos atuais outdoors seduzindo para cervejas e uísques, ela primeiro faz uns testes, bastante empíricos, para checar se o treco não é venenoso. Dá uns pegas e umas lambidinhas nos vários tipos de “pó-de-pirlimpimpim” (para lembrar do entorpecente favorito dos personagens de Monteiro Lobato no Sítio do Pica-Pau Amarelo). Wonderland é uma terra, aliás, de vastos recursos naturais de agentes psicoativos… Em Wonderland, os cogumelos também têm dignidade ontológica.

Alice não é sábia. Pelo contrário, é aquela que, em sua ignorância, parte ao encontro do desconhecido, impelida por esta chama da curiosidade que Lewis Carroll parece considerar sagrada. Se justifica-se chamar Alice de uma pequena junkie, é pois ela tem muitos elementos em comum com aqueles cujo estilo-de-vida manifesta-se por constantes experimentações com estados-alterados-de-consciência e de conduta.

O livro Alice in Wonderland é um pouco como algumas gotas de LSD: lê-lo é inserir no cérebro um corpo estranho, que desarranja a constituição habitual do organismo, levando-nos à proliferação das metamorfoses, instaurando uma consciência de mundo em que tudo torna-se refulgente de mistério e transbordante de esquisitice. Quando Alice diz “Everything is queer today”, pego-me dialogando com ela como se estivesse entre hippies: andou tomando ácido lisérgico, nêga?

 A profusão de experiências de radical transformação psico-física, se é colorida como um carrossel girando à velocidade máxima, é também aquilo que desencadeia o ciclo das crises de identidade, das quais Alice é também, com tanta frequência, a vítima. Em seus momentos deprê, fossa total, o queixume na voz de Alice soa como uma canção melancólica, ao piano, de Fiona Apple: “I shall be punished by being drowned in my own tears!” (II, pg. 33)teme Alice a certo ponto de sua jornada em que está nadando em suas próprias lágrimas. Por vezes nostálgica de casa, com saudades de sua gata Dinah, desejosa de reencontrar a segurança da familiariedade, Alice é com mais frequência a intrépida exploradora dos ambientes novos aos quais o Destino lhe assopra.

Grace Slick

Em San Francisco, nos anos 1960, em plena efervescência do movimento hippie, do rock’n’roll lisérgico, das experimentações com estupefacientes em acid tests musicados pelo Grateful Dead, Alice no País Das Maravilhas reaparece: em “White Rabbit”, canção do Jefferson Airplane, estão sintetizados muitos dos elementos que puderam tornar a obra de Lewis Carroll um monumento para a Geração do Ácido.

Grace Slick canta sobre as pílulas que te aumentam ou diminuem o tamanho – desde que não sejam as “pílulas da mamãe”, já que estas não dão nenhum barato. Canta também sobre o célebre “hookah-smoking caterpillar“, o mais explicitamente chapado dos personagens de Alice. Recomenda aos psiconautas que estão embarcando em viagens com substâncias psicodélicas que “perguntem à Alice”, caso tenham dúvidas sobre o processo, como se a pequena heroína de Carroll pudesse servir como uma espécie de proto-guru Timothy Learesco, tendo atravessado tantas doidêras depois de seu percurso alucinado pelo País das Maravilhas.

 

“When logic and proportion have fallen sloppy dead
And the white knight is talking backwards
And the red queen’s off with her head
Remember what the doormouse said
Feed your head, feed your head.”

A viagem de Alice, a proto-hippie, é repleta destes líquidos bizarros que, quando bebidos, desencadeiam radicais metamorfoses: o efeito de uma das poções é miniaturizar Alice, o que reduz seu tamanho ao de uma ratinha. Como ocorre no cinema de David Cronenberg, o corpo, em Lewis Carroll, é passível de transformações súbitas seguidas de crises-de-identidade abissais. O corpo é um fluxo, e a psique, é claro, flui junto.

Alice é uma personagem tão instigante pois surpreende-se constantemente com as situações-sem-precedentes com as quais se depara: não é um personagem de traços fixos e padrões de conduta imutáveis, mas um camaleão metamórfico, David Bowiesco. Miniaturizada ao tamanho de um roedor, depois quase submergida pelo temporal de lágrimas derramadas por sua versão gigantizada, Alice é talvez o símbolo literário mais impressionante da infância como turbilhão de novidades.

A jornada de Alice é para baixo (ela não é uma astronauta): sua aventura se dá nas entranhas da terra, e, depois descobrimos, também nas entranhas do psiquismo, no Inconsciente em seu trabalho onírico-criativo. Quando ela cai pela toca do Coelho adentro, seu temor é que atinja o centro da terra – o que evoca a direção de percurso do livro de Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra. 

Repleto de mudanças súbitas, o corpo de Alice é algo em que não se pode confiar, já que ele nunca dá conta de parar quieto. No mundo contemporâneo em que entupimos a molecada com Ritalina, em que decretamos que são doentes todas as crianças indisciplinadas e inquietas, talvez Alice sirva de modelo para uma renovação de nossos conceitos de infância, essa era da inquietude e da curiosidade em que o organismo passa por radicais metamorfoses que jamais cessam de ser experimentados, subjetivamente, com uma boa dose de assombro, incompreensão, terror, expectativa e descoberta.

Pois isso parece-me que o valor deste autêntico mito parido por Lewis Carroll – e que depois ganhou vida própria pela cultura de massas afora – está no modo como a narrativa sintetiza, em um rolê por Wonderland que dura o tempo de uma soneca de Alice, uma produção onírica profundamente simbólica do processo vital da maturação. O processo de maturação é exposto por Carroll como que hiperbolizado na figura de Alice, que nas mãos de seu criador é remoldada constantemente como se fosse boneca de massinha. O gênio de Carrol está no modo como a experiência subjetiva ou psíquica de Alice chega ao leitor em toda a exuberância de seu fluxo. Ela transporta-se do deleite ao alarme em poucos instantes (capítulo V, pg 55). Ela caminha a rota do terror ao êxtase com alguns pequeninos passos de criança psicodelizada, tornada visionária por poções e cogumelos.

caterpillar-05Quando ela encontra-se com este personagem inolvidável que é o Caterpillar – a lagarta drogada que fica fumando seu hookah, sentada sobre a cabeça de um cogumelo mágico – Alice já é mais sábia do que seu interlocutor onírico. Alice já passou por múltiplas metamorfoses, a ponto de poder alertar a lagarta hippie de que um dia ela também haveria necessariamente de vivenciar as metamorfoses extremas do devir-crisálida e do devir-borboleta (capítulo 5, pg. 50).

When you have to turn into a chrysalis – you will some day, you know – and then after that into a butterfly, I should think you’ll feel it a little queer, won’t you?”, pergunta Alice à lagarta. (capítulo 5, pg. 50). A lagarta, por sua vez, está demasiado ocupada com sua viagem psicodélica para dar a devida atenção às filosofagens sobre a mutabilidade da existência que improvisa a poeta Alice diante do bicho fadado a metamorfosear-se em borboleta. Antes de seguir jornada, a lagarta dá a dica preciosa para Alice: o cogumelo tem poderes espantosos de aumento ou diminuição do tamanho daquele que o abocanhar.

Só esta cena já justifica uma leitura de Alice da perspectiva psicodélica: o símbolo é explícito, já que Alice vai então carregar consigo um bocadinho do cogumelo mágico, em busca da dose exata que lhe tornará apta a passar pela porta que conduz ao Jardim que ela sonha penetrar. Não é à toa que algumas das mais lisérgicas bandas de rock nos anos 1970 e 1980 enxergariam nas experiências de Alice algo se similar ao que vivenciavam quando ousavam break on through to the other side, como canta Jim Morrison na canção clássica que abre o disco de estréia do The Doors.

Sabe-se que o nome da banda The Doors nasceu de The Doors of Perception, o livro em que Aldous Huxley relata seus transes místicos motivados pelo consumo da mescalina. Ali, o autor de Admirável Mundo Novo conecta suas experiências psicodélicas com tudo o que conhece da sabedoria oriental e ocidental, intenta reunir as práticas psicodélicas e espirituais, afirmando a unidade entre a busca pelo moksha/nirvana e a expansão bioquímica da consciência. O impacto cultural das aventuras Huxleyanas de interpretação e reflexão sobre a Filosofia Perene, em meio aos transes e metamorfoses desencadeados pelo consumo de psicotrópicos nirvanizantes, é profundo na contracultura que o sucedeu.

Jim Morrison, Jefferson Airplane, Jimi Hendrix, são só alguns dos inúmeros exemplos de lúdicos hippies que pediram licença para beijar o céu (“excuse me while I kiss the sky”, como entoa Hendrix em seu evoé voodoo “Purple Haze”). E isso em tempos nos quais a classe dominante do Império dos EUA chovia napalm e massacres aéreos sobre o Vietnã, como parte da Caça às Bruxas comunistas – ocasião histórica em que os yankees agiam bem à maneira da Rainha de Copas, que em Alice é a própria encarnação da presunção, da tirania, já que manda cortar cabeças a granel.

psychadeliaSe Alice pode ser dita uma proto-hippie, é pois está do lado do encantamento com a alteridade e não da agressão contra o diferente; pois está do lado da experimentação com transformações da consciência, inclusive através do consumo de cogumelos mágicos e chás ayahuasquentos, ao invés de filiar-se à ortodoxia das opiniões imutáveis e ao apego fanático à sobriedade ascética; pois sua curiosidade é sempre maior que seu temor e impele-a na direção da descoberta, de modo que Alice não se permite o auto-aprisionamento no medo isolacionista; pois é antropóloga intrépida de seu próprio mundo onírico, exploradora inquieta das potencialidades de seu próprio Inconsciente transbordante de imagens e ideias, canções e poemas, wordplays e rimas.

Alice é vitalidade primaveril no pleno desencadear de metamorfoses ingovernáveis. Se sentimos um certo ímpeto de imitá-la, talvez seja porque ela imita uma experiência ancestral, xamânica, em que a vivência da alteridade radical, seja esta pertencente à etnosfera ou à biosfera, é aceita como aventura essencial de maturação. Pois nem sempre são fáceis as experiências que nos levam a transcender nossas limitações, a vencer os véus sobre a visão, a superar uma identidade demasiado ossificada e dogmatizada. O caminho da maturação, esta metamorfose para o melhor, está repleta de percalços e sofrimentos, mas também de êxtases-da-transformação e alegrias na descoberta do sem-precedentes. É mais ou menos isso que Alice me inspira.

Lewis Carroll criou uma obra de poesia cuja influência sobre a posteridade não é negligenciável, já que ele agiu sobre ela legando-lhe um mito. Um mito apropriável e reinventável pelos cosmonautas da galáxia interior que pedem asas emprestadas aos compostos químicos psicodélicos. “Feed your head!”

Pois sábia mesma é a lagarta que vive seu devir-outro não com a resistência triste dos que se aferram a si, mas sim no desprendimento exploratório de quem só conhece o êxtase no ir-além-do-eu, no break on through to the other side. A jornada de Alice é em busca da dose exata de expansão de consciência que permite-lhe atravessar as portas trancadas rumo ao Jardim da Vida, em sua exuberante multiplicidade, lá onde a outridade rebrilha e refulge em toda a sua multidiversa estranheza, polvilhando o mundo todo com o minério do mistério – quiçá bem mais precioso que ouro.

Alice Lidell

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Unhappy Endings of the Sixties: The Doors by Greil Marcus

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“In 1968 dread was the currency. It was what kept you up all night, and not just the night Bobby Kennedy was shot… Dread was why every day could feel like a trap. (…) The feeling that the country was coming apart – that, for what looked and felt like a casually genocidal war in Vietnam, the country had commited crimes so great they could not be paid, that the country deserved to live out its time in its own ruins – was so visceral that the presidential election felt like a sideshow. In this setting, the Doors were a presence. They were a band people felt they had to see – not to learn, to find out, to hear the message, to get the truth, but to be in the presence of a group of people who appeared to accept the present moment at face value. In their whole demeanor – unsmiling, no rock’n’roll sneer but a performance of mistrust and doubt – they didn’t promise happy endings. Their best songs said happy endings weren’t interesting, and they weren’t deserved.” (GREIL MARCUS, The Doors: A Lifetime of Listening to 5 Mean Years, pgs. 95-96)

greil marcusThe least I can say in praise of the writings of Mr Greil Marcus is this: they expanded my horizons on music, they made me understand music’s presence inside culture, its historical significance, or, to sum things up, the context in which music arises and acts. I wouldn’t call Greil Marcus only a music critic, the one who judges aesthetically upon the merits or vices of certain musical productions. Greil Marcus is also some sort of bold trans-disciplinary intellectual maverick, who knows no fixed boundaries or forbidden signs keeping him from moving all around between different “fields” – like History, Sociology, Psychology, Literature. I’d call him an historian of culture, someone who writes about our present as a culture from an historical perspective, and also a gifted “painter of cultural landscapes”. He’s certainly among the most well-informed and intelligent music critics I’ve read, and he’s certainly – together with guys such as Lester Bangs, Simon Reynolds and Nick Kent – one of the greatest thinkers of pop music and its underground currents. With his prose, Greil Marcus seems to paint portraits of our Western civilization much more than merely commenting on artists – such as Bob Dylan or Van Morrisson – we has written so much about. To paint the big picture, he doesn’t shy away from discussing movies – like Wild in The Streets or Pump Up The Volume – or to quote Thomas Pynchon’s novels in order to set the mood for his musings on  Jim Morrison.

My appreciation of The Doors has been greatly improved, and my horizons about them have been radically expanded, after I’ve read Greil Marcus impressive book about them. It’s incredibly tought-provoking. Suddenly The Doors were not only a rock and roll band (and a damn good one!), but also a symptom of an historical epoch. A symbol of the dark side of the Sixties. A “dystopic” band, outstranged in an era of Utopia was also an important part of the cultural landscape.  The Doors were like a psycho who stabs in the heart the flowery dreams of the peace-and-lovin’, tree-hugging, pot-smoking acid-heads known as “Hippies”. The Doors were more like dark flowers bursting out of a swampy, bleak age: that of the napalm bombing and other techniques of genocide used against Vietnam (and later Cambodia); of Charles Manson’s cult killing frenzy that sent the whole Los Angeles drowning in dread; and, as “The Other Side Of Woodstock”, the deaths of Altamont

After reading this book by Marcus, I began wondering: perhaps the task of the music critic isn’t merely passing judgement – either cherishing or condemning the artists he’s writing about – but instead attempting to share with his readers the big picture, the cultural context in which some musical phenomenon emerges. That’s what Marcus accomplishes when he paints the whole Zeitgeist that surrounded The Doors: we are reminded of some of the tragedies of those times in Los Angeles (like the bloodshed caused by Charles Mansonites), which appear as the dark side of the Flower Power utopia. The Door are “riders on the storm”, like “dogs without a bone”, and there are killers on the roads (and also inside the White House and the Pentagon…).

In Marcus’ pages, we journey through some of Jim Morrison’s most extreme behavioural excesses. Like that fateful night in Miami when he was arrested for his use of obscene language and offensive nudity (some say he only pretended to jerk off… not a big deal, and certainly not a thing that should get anyone in jail!). He’s certainly not the first rock’n’roller, nor will the last, to be caged like a wild beast by authorities who felt their sacred institutions had been mocked and debunked by these subversive artists that needed to be spanked into silence.

Marcus also makes the reader imagine Jim Morrison in the process of drinking himself to death, while he struggles to write the soundtrack for the agony of a drunken swan who has consumed too much booze and too much Rimbaud. We are taken in a roller-coaster ride on the wings of The Doors’ poetry and music, where one can sense a celebration of Dyonisian eroticism mixed with an obssession with Death and Psychosis. We are invited to understand the band as an occurrence in the history of culture that continues on a path treaded not only in rock’n’roll, but within a broader cultural landscape that includes poets, playwriters and mystics:

“The Doors saw themselves as much in the tradition of fine art – a tradition within the tradition, the stream of art maudit that carried Blake, Poe, Baudelaire, Rimbaud, Nietzsche, Jarry, Buñuel, Artaud, and Céline to their doorsteps – as in the tradition of rock’n’roll. For them rock’n’roll itself was already a tradition, full of heroes and martyrs…” – GREIL MARCUS, A lifetime of listening to five mean years – The Doors (New York: Public Affairs, 2011, Pg. 132)

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The Doors were surely innovators in the sixties, both musically and lyrically, and Greil Marcus points out some of the elements that made Jim Morrison, Robby Krieger, Ray Manzakek and John Densmore an outstanding cultural phenomenon. When “Light My Fire” exploded, skyrocketing to the top of the charts, and the band’s debut album was released to wide-spread impact on the U.S. rock scene, most people knew that this guys weren’t deemed to become a one hit wonder to be forgotten in the next summer. They sounded more subversive (“Break on Through” antecipates The Sex Pistols) and less optimistic than most “hippie bands” that celebrated Peace & Love. Even tough The Doors also celebrated consciouness expansion psychedelics (starting with the name of the band, a tribute  to Aldous Huxley’s The Doors of Perception), there was also a quite bleak and scary mood in some of the groups’ songs, like the nightmarish explorations of the darkest corners of the human mind in “The End” (a song about, among other things, a psycho who acts out Freud’s Oedipus Complex, kills his father, and… you know what!). In the following words, Marcus describes a moment in the The Doors’ path where darkness was closing in and the band was falling apart:

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 “When The Doors recorded ‘Roadhouse Blues’ in November 1969, Morrison’s arrest in Miami the previous March, the three months of concerts cancelled everywhere in the country that followed, the felony trial looming in the next year, the likelihood of prison, and after that the end of the band, were only the most obvious demons. The specter of the Manson slaughter hung over every Hollywood icon, hanger-on, or rock’n’roll musician as if it were L.A.’s Vietnam. Everyone – people who had been in Manson’s orbit, like Neil Young, or anyone who knew someone who knew someone who had, which was everyone – believed there was a hit list, held by those Mansonites waiting patiently, on the outside, for the word of the messiah. There were reasons to believe that the Manson bands were just a first brigade – a lumpen avant-garde, you could say – for a web of cults biding their time for years, since the late 1940s, some said, when the British sex-magick maven Aleister Crowley, John Parsons, the founder of the Jet Propulsion Laboratory, and L. Ron Hubbard practiced Satanist rituals in Pasadena, determined to summon the whore of Babylon and conceive a living Antichrist.” (MARCUS, 2011, pg. 156-57)

We all know that The Doors’ career has no happy ending: the music is over when Jim Morrison, 27 years old, is found dead in a bathtub in Paris. To understand what went wrong, Greil Marcus explores the lyrics and poems of The Doors’ lead-singer, revealing there what may be called an epic battle, within a human heart, between Eros and Thanatos. It’s always hard, when dealing with Jim Morrison’s poetry, to separate the life-affirming from the self-destructive tendencies. When he invites the listener to a shared experience of “setting the night on fire”, he might be simply talking about of heated and sweaty sex encounter, some rock and rolling in the carnal sense of the expression, but the same song, as you may remember, evokes the images of a “funeral pyre” and of “wallowing in the mire”. The desire for the flame of life to burn with more intensity, with a brighter fire, seems to always have an anguish, arising from consciousness of mortality, underlying it, setting a “mood” for it. As tough the Doors music wanted to hint at the fact that, similarly to the stars that we witness burning in the dark of space, life’s light shines in a backdrop of mortality and finiteness.

 “Before you slip into unconsciousness I’d like to have a another kiss. Another flashing chance at bliss Another kiss, another kiss…”

As Greil Marcus points out, these verses from “The Crystal Ship” can be interpreted simply as a celebration of love’s blisses and thrills, but it also can mean something way darker – like a suicide pact. “To slip into unconsciousness” can mean simply falling asleep, but it also can be read as death approaching, the desire for a farewell-kiss. Even tough the lyrical content can be felt by the listener as a beautiful statement about the delights of lovers, it also can be read as a sympton of painful and  insatiable desire, of Eros’ unquenchable thirst. Greil Marcus’ interpretations got me thinking about this paradox that can be perceived in many of The Doors’ songs: the celebration of Eros as a life-force side-by-side with the painful striving that seems never to lead to full satisfaction (a theme also explicitly adressed by well-known songs by The Rolling Stones and The Replacements, among many others). The “I Can’t Get No Satisfaction” motto, the feeling of being always singing the “Unsatisfied Man Blues”, may well be one of most powerful and reocurring themes of popular music, an enduring element that unites the musical productions of several different epochs.

Greil Marcus book provides an interesting journey for everyone willing to explore the mysteries of Jim Morrison and The Doors, but its merits transcends this: he wrote almost a treatise about the Sixties whole cultural landscape. In his attempt to understand Youth Culture in the 60s, he refrains from a simple-minded and naive praise-singing for the so-called “Woodstock Era”. He invites us to recognize gratefully its merits, but also to question those years with critical eyes. In Greil Marcus’ understanding, rock’n’roll is obviously a powerful cultural force because its greatest artists are considered by the masses as heroes and role-models, whose behaviour thousands (or even millions) of people cherish, admire and attempt to reproduce. Figures like Jimi Hendrix, John Lennon or Janis Joplin act as well-known cultural icons whose lifestyle and creativity inspire large portions of mortals to transcend their own limitations. They act like magnets summoning us to be more like them: creative, autonomous, rebellious, innovative, awe-inspiring, beautifully expressive and emotionally engaging. But – as Greil Marcus argues – one of the dangers we face in this process is this: the apathy and inaction of the masses, who are satisfied with a role of passive spectators and consumers. Marcus points out, for example:

“The Sixties are most generously described as a time when people took part – when they stepped out of themselves and acted in public, as people who didn’t know what would happen next, but were sure that acts of true risk and fear would produce something different from what they had been raised to take for granted. You can find that spirit in the early years of the Civil Rights movement, where some people paid for their wish to act with their lives, and you can find it in certain songs. But the Sixties were also a time when people who could have acted, and even those who did, or believed they did, formed themselves into an audience that most of all wanted to watch. ‘The Whole World Is Watching’ was a stupid irony: people went into the streets, they shouted, gave speeches, surrounded buildings, blocked the police, and then rushed home to watch themselves on the evening news, to be an audience for their own actions…” (p. 56)

For some decades we have been conditioned by the Entertainment Industry, the whole Show Business pervasive environment, that we, “the masses”, shouldn’t think of ourselves as nothing but passive consumers, buying products that enrich stars that are already millionaires. Unfortunately, that’s the way things usually happen: when an artist of outstanding talent and powerful skills of expression arises – like Hendrix, Joplin and Morrison – they tend to get destroyed by the “economical-commercial” environment where they see themselves thrown into. They tend to die at 27 (or at little bit earlier or later), tragically quiting from their pop-star positions. It happened to Janis, Jimi, Jim – and then to Cobain, an then to Amy, and so on and so on… I’m tempted to say, especulating mentally about it, that to die at 27 is not only a re-ocurring event for pop stars, but it says something important about pop-stardom itself. The cultural sickness that, it seems to me, Greil Marcus’s book is aiming to denounce, is the process of idolatry that goes on between we, “the masses”, and those we very sintomatically call “our idols”. 

Once again, The Doors is an excellent example: Jim Morrison died young, but then became a myth, an idol, a sex symbol. His physical body began decomposing in a Paris bathtub when the young musician and poet was 27, but even today – much more than 27 years have gone by after his death… – he’s still an object of some collective adoration (it might be shrinking, but it survives). He left life to enter History, one might say, but I’d rather say he’s voice still echoes among us – and his demise scares us, still, because we can’t fully understand it. Nor can we fully understand the process that lead another 27-year-old international popstar to blow his brains out with a shotgun in 1994. Jim Morrison and Kurt Cobain, it appears to me, got crushed by the machinery of popstardom. When you become a popstar (I suppose, never having been one!), you might get the spotlights, the paparazzis, the magazine covers, the fancy cars to drive to the sold-out concerts, but what comes along, as its downside, is often underestimated. You get sick and tired of hearing stupid and futile gossip about you in the newspapers “social columns”. You get sick and tired of being asked to play “Smells Like Teen Spirit” or “Light My Fire” for the thousandth time… And most people of the aptly titled “Audience” don’t care to be nothing but audience – nothing but passive receivers of a message, a flock of sheep beneath the idolized figure of the musical messiah, who rains down his dictates from the pulpit of the stage.

Instead of autonomy, idolatry breeds passivity. Instead of the independence and willingfulness stated in the Punk ethics of “do it yourself!”, idolatry and popstardom tend to condition us to passively consume messages provided by people we pay so they can express themselves, while we remain without expression – and thus without real significance. Or, to sum things up, as Greil Marcus puts its: many people payed for tickets and went to see The Doors live because they wanted to watch someone being freer and more expressive than themselves. But after the concert ended, and they returned to their day-to-day life, they continued in a passive position, that of consumers of art made by others, they didn’t become artists themselves,  lighting up their own fires inspired by that fire the artist had tried to spread around him like an incendiary!…

This whole business of idolatry and popstardom is obviously breeding disasters – and of the re-ocurring kind. When we transform a flesh-and-blood human being into an idol, and expect him or her to act for us, to express ourselves in our place, and most of all to tell us what to do and how to live, we’re rennouncing autonomy and responsability, making ourselves puppets that place their fates in the hands of the idol. He become an audience that can only receive, or mimic, but that doesn’t get truly transformed in agents.

Thrown into this bizarre hall of deforming mirrors called the Commercial Media, artists hailed to popstardom have this strange reocurring tendency to freak out and die young. I wouldn’t claim to understand all the complex reasons why this happens, but an episode of Jim Morrison’s life appears to me to contain one of the answers to our riddle: in one of those moments on stage when he gets possessed by rage, Jim Morrison begins to attack his audience verbally, with a viperish and misanthropic discourse, showing how he despises those beneath him. He drunkely shouts to his audience (to us all, really): “Why do you let people push you around? How long do you think it’s gonna last? How long will you let it go on? How long will you let ‘em push you around? Well, maybe you like it, maybe you like it been pushed around! And love getting your face getting stuck in the shit! You love it, don’t ya? YOU’RE ALL A BUNCH OF SLAVES!”

Maybe he meant that people were doing less than they could, that they weren’t acting out as much as they should, for example to stop the Vietnam War or the Latin American military dictartorships (like the one who started out in Brazil, 1964, sponsored by the U.S.). Maybe he meant that people were too shy and well-behaved to really revolt against authoritarian elements in society – like the whole Police and Prison complex, or the Army, or presidents and politicians who were also war criminals and mass murderes. Maybe he meant that we, a “bunch of slaves”, hadn’t yet proclaimed our own independence: there we were, the masses of idolatry, powerless and disconnected, watching someone acting out and struggling to create freedom and beauty – and yet we ourselves weren’t acting collectively so powerfully and widely as we could towards the collective building of freedom and beauty. Most of the people who constituted the masses were watchers and not agents, consumers and not creators, followers and not leaders. And lots of people were certainly apolitical, individualistic, disengaged, and mostly indifferent to the destinies of the dispossed, the murdered, the peryphery of the so-called First World. Many of us have bought the obscene slogan and ideologies summed up by “better dead than red” or “kill a gook for god”.

At the unhappy ending of the Sixties – when nobody knew yet how many thousands of dead bodies had resulted from Vietnam, nor anyone knew how many Charlies Mansons the future held in store, nor how many Black Panther Party activists would be murdered… – a band opened a door through which the decade could see itself as an utopia unfulfilled, a failed attempt at freedom and justice, a nightmare stinking of napalm and Agent Orange. Sometime before dying at 27 in a Paris bathtub, Jim Morrison’s screamed on the speakers for his audience (for all of us, really): “You’re all a bunch of slaves!” The provocation still echoes and lingers on.

Article by Eduardo C. Moraes,
Originally published in Awestruck Wanderer.
Also reblogged by The Jim Morrison Project.

Doors 2

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THE DOORS – FULL DISCOGRAPHY:

Doors 3

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Doors 5

* * * * * Doors 6

WHEN YOU’RE STRANGE [FULL DOCUMENTARY]

Narrated by Johnny Depp

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“Tudo o que vive não vive só nem para si” (William Blake)

Tenho sorvido com fascinação, em grandes goles, a embriagante poesia do William Blake. Fiquei sabendo da existência do “visionário” Blake, como tanta gente, através de alguns marcos da contra-cultura do século XX: primeiro Aldous Huxley, que evocava versos e imagens poéticas de Blake com frequência, em especial quando falava sobre estados alterados de consciência e êxtases induzidos pelo consumo de estupefacientes (como a mescalina, o peiote e o LSD).

O autor de A Filosofia Perene e Admirável Mundo Novo ajudou a transformar um dos versos de O Matrimônio do Céu e do Inferno (1790) em um dos emblemas de todo o agito Psicodélico que atravessará as gerações beatnik, hippie e além: “se as portas da percepção fossem purificadas, tudo apareceria como de fato é: infinito e sagrado”.

Por outro lado, no âmbito da música popular Blake foi reverenciado por muita gente graúda: Patti Smith, uma “Rimbaud de saias poetizando o rock and roll”, compôs uma longa poesia musicada inspirada pelo “Everything that lives is holy” de Blake.

E Jim Morrison e seu The Doors trataram de prestar também seus tributos ao poeta-xamã: o nome da banda homenageava o livro The Doors of Perception, impactante e desnorteante panfleto em que Huxley refletia sobre religião, mitologia, filosofia e misticismo tendo como base as experiências extáticas/místicas que viveu, seja através da leitura das escrituras sagradas das mais variadas culturas, seja através do consumo de substâncias químicas “nirvanizantes”.

“O homem esqueceu que Todas as Deidades residem no peito Humano”, escreve William Blake no encerramento de seus Provérbios do Inferno. Este é um dos poucos emblemas escancaradamente ateus na obra de um poeta que, sob a influência marcante de Milton e seu Paraíso Perdido, povoa sua obra com mitos e criaturas fabulosas e concebe o peito humano como um manancial de onde jorram infindos deuses, demônios, édens, infernos e “imagens poéticas” que procuram decifrar os maiores mistérios.

O mais interessante nestes Provérbios Infernais é que eles não são, como seu nome sugere, diabólicos, imorais, sádicos ou terríveis; pelo contrário, são repletos de sagacidade, inventividade, ousadia – e até mesmo (por que não?) sabedoria.

Toda uma filosofia-de-vida desenha-se nestes provérbios: uma perspectiva existencial que põe o valor na ação e não na passividade (“He who desires but acts not, breeds pestilence”), que desvaloriza a temperança e a contenção em prol de uma “ética do excesso” (“The road of excess leads to the palace of wisdom”), que enxerga saúde e força no lado do dinamismo e sustenta que males emergem de tudo o que decide se estagnar, se fixar, se solidificar em dogma (“Expect poison from the standing water“…).

Uma certa transvaloração de valores, pra falar nos termos da filosofia de Nietzsche, parece estar em jogo no fazer poético Blakeano. Em um dos raros momentos em que ele adquire ares professorais e ousa ser pedagógico e assertivo, William Blake ataca os Erros causados por “todas as Bíblias e códigos sagrados”.

“All Bibles or sacred codes have been the causes of the following Errors.

1. That Man has two real existing principles Viz: a Body & a Soul.

2. That Energy, call’d Evil, is alone from the Body, & that Reason, call’d Good, is alone from the Soul.

3. That God will torment Man in Eternity for following his Energies.

But the following Contraries to these are True

1. Man has no Body distinct from his Soul for that call’d Body is a portion of Soul discern’d by the five Senses, the chief inlets of Soul in this age.

2. Energy is the only life and is from the Body and Reason is the bound or outward circumference of Energy.

3. Energy is Eternal Delight.”

O poeta herege, promulgando audaz seus conceitos radicais, demolidor de todas as dogmáticas que encerram nosso horizonte na estreiteza, decide-se a reduzir a pó os dogmas e crenças errôneos propagados pelas religiões instituídas: a cisão do homem em Corpo e Alma; a demonização do corpóreo e a idealização do “espiritual”; a promessa de sofrimentos infindos àqueles que “obedecem suas energias”.

Um forte elemento anti-platônico marca presença nestas páginas repletas do que poderíamos chamar de um “misticismo xamanístico” onde a sensibilidade é revalorizada e reconduzida a um pedestal onde possa ser cultuada. As “portas da percepção”, afinal, são “nesta vida as cinco janelas da alma” (“This life’s five windows of the soul”) e se existe alguma “redenção”, ela não está em qualquer transcendência, mas na redenção da imanência – na “purificação” de nossa percepção sensível, num alargamento de nossa consciência corporal.

Enxergo em Blake uma figura que enaltece a abertura e a atentividade [AWARENESS] em relação aos processos colossais que se desenrolam eternidade afora nesta imensa orgia de energias em transa e em conflito que chamamos (ó miséria das palavras!) de Universo, de Tudo ou de Deus.

Em William Blake, a Energia adquire os contornos da divindade. E os seres vivos são como que as miríades de múltiplas encarnações desta Energia Cósmica que Blake diviniza. Uma via muito interessante de interpretação poética seria, por exemplo, a análise de como aparecem os ANIMAIS na poesia de Blake.

No lindíssimo poema “Augúrios de Inocência”, Blake escreve algumas das mais comoventes imagens poéticas em prol do que hoje conhecemos como Libertação Animal: um cachorro faminto, um cavalo maltratado, um pássaro com a asa ferida, uma ovelha diante do facão do açougueiro, uma mosca assassinada por um garoto “que há de sentir a inimizade da aranha”, são todos evocados num mosaico em que Blake defende os direitos dos seres mais ínfimos e critica a arrogância dos humanos em subjugar as outras criaturas.

“A dog starved at his master’s gate
Predicts the ruin of the State.
A horse misus’d upon the road
Calls to Heaven for human blood.
Each outcry of the hunted hare
A fibre from the brain does tear.
A skylark wounded in the wing,
A cherubim does cease to sing.
[…] He who shall hurt the little wren
Shall never be by woman loved.”

Manoel de Barros dizia: “fazer o ínfimo ser prezado me apraz”. Em William Blake também existe este esforço de, através da poesia, realizar na consciência dos homens uma transmutação do ínfimo. O poema “A Mosca”, por exemplo, parte do livro Songs of Experience, traz como eu-lírico um homem que acaba de esmagar um inseto que fazia no ar suas brincadeiras de verão.

Tomado por remorsos por ter aniquilado o pequeno artrópode, ele chega a uma “identificação mística” com o bichinho que não é sem-relação àquela retratada por Clarice Lispector em seu A Paixão Segundo G.H., uma obra-prima da inventividade humana que consegue extrair ouro poético e filosófico da maior das trivialidades: o encontro doméstico entre uma dona-de-casa e uma barata.

“THE FLY

Little Fly,
Thy summer’s play
My thoughtless hand
Has brush’d away.

Am not I
A fly like thee?
Or art not thou
A man like me?

For I dance,
And drink, and sing,
Till some blind hand
Shall brush my wing…”

Ao invés de misantropia (“os homens não passam de moscas!”), o que se manifesta nestes versos de Blake é a percepção da fragilidade comum de todos os mortais, humanos ou não. Os processos universais que transcendem o indíviduo, as “energias cósmicas” colossais ao seu redor, são “mãos cegas” que arrancam as asas de moscas e homens.

Mas Blake jamais escreve tentando deprimir seu leitor ou fazê-lo “caluniar a existência”, para usar a expressão de Nietzsche. Há em Blake um convite à reconciliação do homem, filho pródigo, com a natureza da qual as religiões instituídas e as moralidades anti-naturais o afastaram. Vai nesse sentido um dos poemas de Blake que mais me comove, que mais “inesgotável” parece em seu jorrar de exuberâncias e belezas, “The Book of Thel“, publicado em meio aos agitos revolucionários de 1789.

Thel é uma moça virgem, inocente, inexperiente e “cheia de temores que a impedem de se engajar na vida”, como diz Woodcock. William Blake cria então uma série de diálogos entre Thel e alguns elementos da natureza: um lírio, uma nuvem, um verme, que “a encorajam a abandonar seu idílio pastoral nos vales de Har e se comprometer a viver”.

Encarnação da fragilidade, da ansiedade e da melancolia temerosa, Thel, diz Woodcock, “é incapaz de enxergar que a vida individual é parte de um processo mais amplo”. Neste poema, Blake atinge uma eloquência ímpar na arte de despertar nossas consciências para estes “processos mais amplos” que estão a se desenrolar ainda que vivamos, cegos e tolos, na gaiola estreita de nosso egoísmo e de nossa percepção auto-centrada.

O poema se inicia com Thel entristecida, derramando na beira do rio uma “delicada lamentação que cai como o sereno da manhã”: “Why fade these children of the spring, born but to smile and fall?”, pergunta-se a moça para as flores do campo, destinadas a efemeridade comum a todas as crianças da primavera.

Na sequência, conversa com a Nuvem que passa nos céus, também ela cumprindo sua sina de transitoriedade: “O little Cloud, the Virgin said, I charge thee tell to me: Why thou complainest not, when in one hour thou fade away?…” Diante das efemeridades naturais, diante de tudo que nasce e morre sem soltar um pio de reclamação ou um suspiro de angústia, Thel sente-se singularmente aflita ao se descobrir a única que não aprendeu a arte de passar sem reclamar: “I pass away yet I complain…

A melancólica Thel chega ao ponto, enfim, de proclamar sua própria nulidade, de reconhecer sua insignificância cósmica, murmurando queixosa: “Without a use this shining woman lived / Or did she only live to be at death the food of worms?” Thel atinge a noite total no seio da primavera e conclui: não sirvo para nada além de ser, por fim, comida para os vermes.

Mas Blake não é poeta que abandone suas personagens e seus leitores nesta desoladora escuridão. Blake então convoca a Nuvem a responder aos queixumes de Thel e constrói assim alguns de seus versos mais comoventes:

“Everything that lives 
Lives not alone nor for itself.”

Como já dizia outro grande poeta, John Donne: “Nenhum homem é uma ilha”. O que Blake destaca é que as fronteiras entre o humano e o animal, e mesmo entre o orgânico e o inorgânico, são construtos culturais que nos cegam para a realidade da inter-conexão entre os vivos. 

Nenhum vivo é uma ilha: todos dependem uns dos outros e do ambiente no qual se encontram. Não há um só segundo de nossas vidas que não seja composto por dinamismo e interatividade: o dinamismo da respiração, da circulação, da alimentação, da decomposição, da recombinação – em suma, este constante intercâmbio de matéria que constitui, ao que parece, o passatempo predileto da eternidade.

Sem dúvida, esta é uma visão de mundo em harmonia com a noção, tão cara aos ambientalistas, de eco-sistema. Em Ponto de Mutação, o filme baseado na obra de Fritjof Capra, esta perspectiva é exposta com blakeana beleza.

No poema de Blake, Thel acaba vivendo uma certa “epifania” em que uma nova concepção de Deus emerge:  um Deus que não tem nenhuma “predileção” específica pelos humanos, um Deus que ama (até mesmo) os vermes e pune o pé malévolo que esmaga de propósito um ser indefeso.

Um Deus daquele tipo cultuado por místicos e panteístas e que se manifesta nas miríades de criaturas que, animadas de energias móveis, interagem, compartilham e transmutam-se umas nas outras numa eterna orgia cósmica. O efeito poético é avassalador: toda concepção de mundo solipsista, autista, isolacionista, que concebe um ente separado do Todo, independente do Resto, é explodida. E o que emerge é uma mística da interconexão que poderia ter como emblema este verso profundo e misterioso:

“We live not for ourselves.” 

 

Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro


“Ponto de Mutação” (Mindwalk) – baseado no livro de Fritjof Capra
Assista na íntegra 

:: provérbios do capeta ::

Eva morde o fruto do pecado... representação de William Blake.

Volta e meia trombo por aí, nos textos de grandes mentes filosóficas e artísticas do século 20, com citações, alusões e digressões envolvendo William Blake (1757-1827), poeta-místico-pintor-vidente com fama-de-doido e admiradores de alto-quilate (Borges entre eles) que escreveu um dos monumentos poéticos mais inebriantes que conheço: O Matrimônio do Céu e do Inferno. Tudo indica que suas “viagens” ainda são atualíssimas e que a poesia, afinal de contas, é o mais excelente dos psicodélicos legalizados. Aldous Huxley mencionava Blake com frequência quando tentava descrever suas experiências sob o efeito da mescalina, citando em várias ocasiões o verso blakeano que diz: “Se as portas da percepção fossem purificadas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito”. McLuhan, guru da Aldeia Global, era outro dos que adorava citar enigmáticas idéias de Blake para sugerir que o grande artista prepara a humanidade para mudanças de percepção e consciência sofridas com o impacto das novas tecnologias e novos psicotrópicos. Sabe-se também que Jim Morrison batizou o The Doors influenciado pelo livro de Huxley que explora as ligações entre consumo de substâncias expansoras da consciência e a obtenção da Iluminação nirvanística: The Doors Of Perception.

Abaixo, compartilho 10 dos meus “provérbios infernais” prediletos. Sintéticos, provocativos, sábios, enigmáticos… Confiram, deleitem-se e reflitam!

 

The road of excess leads to the palace of wisdom. 

Drive your cart and your plow over the bones of the dead.

Eternity is in love with the productions of time. 

The hours of folly are measur’d by the clock, but of wisdom: no clock can measure.

Excess of sorrow laughs. Excess of joy weeps.

The tygers of wrath are wiser than the horses of instruction.

He who desires but acts not, breeds pestilence.

Expect poison from the standing water.
The busy bee has no time for sorrow.
The bird a nest, the spider a web, man friendship.