HADDAD & MANU SÃO LULA – Consumado o Golpe Supremo, a Esperança Equilibrista Ainda Dança na Noite do Brasil

 

Dando sequência ao enredo macabro que depôs a presidenta Dilma Rousseff em 2016 (“com o Supremo, com tudo”), naquele processo de impeachment farsesco e kafkiano, a Aliança Golpista perpetrou mais uma violência contra o Estado Democrático de Direito através da exclusão da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas ninguém vai aprisionar a vontade do povo! A coligação “O Povo Feliz De Novo” lança agora Fernando Haddad (presidente), do PT – Partido dos Trabalhadores, e Manuela D’Ávila (vice-presidenta), do PCdoB – Partido Comunista do Brasil, como os legítimos herdeiros do projeto de país que venceu as 4 últimas eleições presidenciais e que agora se encaminha para o desafio do “Penta”.

Somos milhões de Lulas e seguiremos indignados diante da prisão injusta do ex-presidente. Seguimos determinados na missão de derrotar nas urnas a ameaça fascista de extrema-direita, representada pela chapa truculenta e boçal de Bolsonazi / Mourão. Seguimos também vigilantes e ativos contra aqueles “50 Tons de Temer”, como bem alcunhou Guilherme Boulos do PSOL 50, que são as candidaturas do establishment (Alckmin, Meirelles, Amoêdo etc.)

Tudo indica que teremos um cenário em que, no segundo turno da eleição, o candidato do autoritarismo armamentista, do patriarcado falocrático, do racismo desabrido, da apologia à tortura e ao genocídio, ou seja, a chapa sádica e desumana dos “profissionais da violência” que são Bolsoasno e seu milico-escudeiro, irão disputar os votos do eleitor contra um destes três candidatos: Haddad, Ciro ou Marina (estou descrente na capacidade do picolé-de-chuchu do Tucanato, com sua total falta de carisma, após a prisão de Beto Richa, tretado com Temer, ter algum vigor para chegar lá…). 

Dada a imensa capacidade de transposição de votos que está concentrada na figura de Lula, é bem provável (apesar dos riscos de todo exercício de futurologia em política) que estejamos diante de uma polarização PT vs PSL na decisão do pleito. E diante disso não é possível desviar da impressão de que se trata de uma escolha entre Civilização e Barbárie. As Luzes esclarecidas de Haddad e Manu, contra a barbárie trevosa e relinchante da extrema-direita xenófoba, racista, homofóbica, que promete fuzilamentos e chacinas assim que estiver no poder. De que lado você escolherá estar?

Nunca vão conseguir deter dentro de uma cela os ideais e as práticas que fizeram, apesar de suas limitações e seus equívocos, do Lulismo esta força transformadora que renovou os horizontes do possível e do desejável a partir de 2002. Éramos, na primeira década do séc. XXI, um país onde tantos de nós estávamos engajados na construção conjunta de mais justiça social, de educação pública ampliada, de sistema de saúde de gratuita e universalizada, de programas sociais que expressam valores como solidariedade, empatia, liberdade. Avançávamos na valorização do trabalhador, com incremento do salário mínimo, com inclusão no mercado de trabalho que chegou ao nível de pleno emprego, com mobilidade social ascensional dos mais miseráveis como nunca dantes havia sido vivenciada por aqui.

Agora, precisamos retomar o rumo de um Brasil onde possa se expressar toda a nossa pluridiversa multiplicidade humana, sem o tacanho e boçal Ódio e Segregação propagados por nossas direitas. Caminhando juntos na direção de uma sociedade menos violenta, desigual e fraturada. Haddad, não há dúvida, já provou como Ministro da Educação e como Prefeito de São Paulo que é uma pessoa altamente capacitada para o cargo, e que possui todo o brilhantismo intelectual e a coragem volitiva para ser um excelente Presidente-Professor. E é Manu no Jaburu!

Nada nos fará esquecer que as Eleições de 2018 estão maculadas com o processo golpista que se estende de 2016 até nossos dias, e continuaremos denunciando que o pleito foi ferido gravemente em sua legitimidade através da facada que enfiaram na Candidatura Lula. O conluio entre a Lava Jato transformada em instrumento de perseguição partidária, a Mídia corporativa especialista em fake news consumíveis pelas imensas massas, as altas cúpulas do Judiciário gozando de altos privilégios, as entidades patronais e escravocratas como a Fiesp, partidos tradicionalmente retrógrados como PSDB e MDB, dentre outros agentes da plutocracia que hoje nos oprime com sua tirania, conseguiram seu intento: praticaram o “impeachment preventivo” contra o candidato que lidera as pesquisas de intenção de voto com mais de 35% da preferência do eleitorado. 

A História dirá se os responsáveis por esta fraude jurídica-midiática, por esta grotesca perseguição a um líder político reconhecido internacionalmente por seus dons como gestor público (não à toa, deixou o governo, após os 8 anos na presidência, entre 2002 e 2010, com mais de 80% de aprovação), vão conseguir manter a máscara da honra e da probidade como juízes, jornalistas e políticos, ou serão inscritos na História como algozes e tiranos. Como sórdidos golpistas que atentaram contra o princípio básico de uma república democrática: a soberania está na vontade geral expressa pelos cidadãos nas urnas. Por duas vezes, em 2016 e 2018, roubaram-nos este direito elementar. 

Como expressou o jurista Pedro Serrano, vivemos em um período histórico em que os Golpes de Estado não estão mais sendo perpetrados com a força militar, mas sim através da guerra judicial (lawfare): “o que parece estar ocorrendo na América Latina é a substituição da farda pela toga.” Se o Diabo veste prada, o Golpe veste toga.

Puderam pegar um apartamento no Guarujá, de propriedade da construtora OAS, atribuído a Lula em um processo cheio de “convicções” mas sem provas, fundamentado com pés de argila na delação premiada de um empresário criminoso, defendido através da inacreditável sentença de Moro que condena devido a “atos indeterminados” e “ocultação de propriedade”, transformado numa ópera-bufa para consumo dos otários crédulos que se prestam a ser massa de manobra dos golpes de Estado das “Elites do Atraso”, como bem as apelidou o sociólogo Jessé Souza.

Assim como as “pedaladas”, o triplex foi usado como pretexto para desferir um duro golpe na soberania do voto popular, já destroçada pela deposição golpista de Dilma Rousseff.

Tratorando duas vezes o Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas, o conluio jurídico-midiático-empresarial levou ao seu termo o processo de perseguição àquele que já é um dos mais célebres presos políticos do mundo contemporâneo. 

Eles não tiveram sequer a dignidade de enfrentar Lula nas urnas. Quiseram ganhar no tapetão, na pilantragem, na falcatrua. Preso injustamente há mais de 5 meses, Lula prossegue sendo a peça-chave na determinação do futuro do país, e agora passa o bastão (sem demissão, sem resignação, ainda cheio de justa indignação!) a Haddad e Manu.

Em frente, hasta la victoria siempre! 

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CARTA DE LULA AO POVO BRASILEIRO – 11 DE SETEMBRO DE 2018

Sem dúvida, nenhum presidente na história da República fez mais pela Educação do que Luiz Inácio Lula da Silva – a avaliação é do ex-Ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. SAIBA MAIS

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COMO SOBREVIVER A UM GOLPE DE ESTADO: Manual de sobrevivência para tempos pós-democráticos

Vários livros recém-publicados põe lenha na fogueira dos debates sobre um dos temas políticos mais quentes do presente histórico: não apenas “foi golpe ou não?”, mas como sobreviver às avalanches de retrocessos nos direitos sociais instauradas com o processo de impeachment de 2016 que depôs a presidenta eleita.

Em obras como Estado Pós-Democrático – Neo-obscurantismo e Gestão dos Indesejáveis, de Rubens Casara, A Elite do Atraso, de Jessé Souza, Só Mais um Esforço, de Vladimir Safatle, estamos diante de intelectuais que não correm do ringue e enfrentam o abacaxi que é a tarefa de desvendar as contradições e as potencialidades de nosso aqui-agora.

Casara denuncia, além da Constituição da República chutada para escanteio, um “empobrecimento subjetivo”, um esvaziamento muito disseminado de nossa capacidade de reflexão crítica, com a vigência hegemônica, em nossa sociedade, de um “modelo de pensamento bélico-binário, que ignora as complexidades dos fenômenos e divide as pessoas entre ‘amigos’ e ‘inimigos'”.

Este modelo maniqueísta e polarizador, que é também repleto de amputações simplistas, decorre de um “incentivo à ausência de reflexão, não raro gerada pelos meios de comunicação de massa que apresentam ‘verdades’ que não admitem problematizações’. Diante desse quadro, deu-se uma espécie de regressão pré-moderna e, com ela, o fortalecimento de fenômenos como o messianismo e a demonização.‘” (CASARA, 2017, p. 181).

Todo o processo do golpe de Estado no Brasil, em 2016-2018, envolve não apenas os malefícios concretos e visíveis que em pouco tempo estão se tornando quase inumeráveis: a entrega das riquezas nacionais, a preço de banana, nas mãos de mega-corporações internacionais dos combustíveis fósseis e da mineração (como a Shell e a Belo Sun Mining Co); o congelamento dos investimentos públicos, pelos próximos 20 anos, em áreas cruciais como a saúde e a educação enquanto bens comuns; as Reformas Trabalhista & Previdenciária, que são um acinte opressor  contra a imensa maioria do povo brasileiro. A estes malefícios inúmeros soma-se a re-ascensão de forças sociais autoritárias, agressivas, que compõe nosso atual quadro de “fascistização”.

O devir-fascista do Brasil ganhou impulso com “a crise política brasileira de 2015/2016 que culminou com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff”, sustenta Casara, pois “escancarou a receptibilidade de novos messias ou salvadores da pátria, em especial entre aquela parcela da população que apoiou a queda do governo democraticamente eleito.”

O perigoso e muito disseminado hábito da ausência de reflexão traz como colheita nefasta um fenômeno tão bem estudado por Márcia Tiburi e, antes dela, por Hannah Arendt: a Banalidade do Mal. Atinge no Brasil índices preocupantes esta banalização do mal, quando se soma ao quadro a desinformação e a demagogia perpetradas diariamente sobre nossos corações e mentes pelos donos da mídia de massas. A hegemonia burguesa na comunicação social de massas no Brasil é um dos principais fatores de atraso no Brasil – e aqueles que resistem à idéia de uma Reforma da Mídia são cúmplices desse status quo criminoso: a Record servindo de palanque pra Bolsonaro, e a Rede Globo deixando quieto, como se estivesse feliz com o favorecimento deste candidato, e não daquele petista pestífero petralha (eles xingam com um ódio de quem quer nos matar).

Assim como não haveria ascensão do III Reich hitlerista sem a propagação da ideologia nazi através das ondas do rádio, também não haveria esta lamentável e preocupante “Bolsonarização” do Brasil se não fossem as atuações dos magnatas midiáticos por detrás da Globo, da Record, da Editora Abril, do Estadão, das frentes de fake news do MBL etc.

O perigo do processo eleitoral de 2018 está na emergência forte do que eu chamaria de princípio messiânico:a noção de “salvador da pátria”, que tenderá a polarizar opiniões e atitudes ao redor das candidaturas de Lula / Haddad e Bolsonaro. A figura do messias estará mobilizada nas demagogias do marketing eleitoral – e não faltarão aqueles que, por atrofia da capacidade de reflexão, por subdesenvolvimento da aptidão para o senso crítico, cairão como patinhos em discursos salvacionistas. Que nada mais são que o prólogo do estelionato eleitoral, ou de coisa pior…

Casara evoca as figuras de Moro, Bolsonaro e Dória como três exemplos de figuras políticas que emergem, no cenário de fascistização tupiniquim, usando como trampolim a sua construída (e desconstruível) “messianidade”:

“Como percebeu Márcia Tiburi, ‘quem se apresenta como messias não precisa mais de padres e nem seguir o evangelho’. Esse ‘salvador da pátria’ pode ser um juiz midiático (‘messianismo jurídico’, para utilizar a expressão da cientista política espanhola Esther Solano), um militar saudosista dos regimes de exceção (‘messianismo bélico’) ou um empresário de sucesso (‘messianismo empreendedor’). Não importa: entre pessoas autoritárias, os heróis sempre serão autoritários. Ligada à identificação de um messias está a demonização daqueles que pensam diferente ou que não possuem valor dentro da lógica que se extrai da razão neoliberal… Na pós-democracia, abre-se espaço para lideranças carismáticas e pouco democráticas, em especial em sociedades como a brasileira, fortemente inserida em uma tradição autoritária.” (CASARA, 2017, p. 183)

O processo que culminou com o impeachment de Dilma foi todo impregnado de autoritarismo, elitismo, misoginia. A demonização de Dilma, que a mídia de massas nas mãos de oligopólios ajudou a realizar em seus palanques jornalísticos, serviu às forças políticas mais retrógradas e criminosas da república – aquelas que se utilizaram do pretexto das “pedaladas fiscais” para anular a vontade de 54 milhões de eleitores que se expressaram nas urnas em 2014 e que não o fizeram para que depois vissem a presidenta deposta por uma corja de bandidos.

A começar pelo “então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, posteriormente preso no âmbito da Operação Lava Jato”, que “ao dar prosseguimento ao processo de impeachment em desfavor da presidenta eleita não tinha o objetivo de apurar eventual crime de responsabilidade, mas o de retaliar a decisão do Partido dos Trabalhadores de recusar apoiá-lo no processo em que respondia na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados” (p. 206).

“Golpe” é a expressão simplificada do processo inquisitorial, desleal e acintosamente injusto chefiado pelos atuais detentores do poder para depor Dilma sem a existência concreta de provas de crime de responsabilidade. Pudemos testemunhar durante este processo de golpeamento da democracia as lamentáveis demonstração da mentalidade escrota de

“deputados que justificavam seus votos em nome de ‘Deus’, da ‘família’ e até da memória de um militar reconhecido como torturador. (…) Da mesma maneira que se deu na Operação Lava Jato, a utilização da forma jurídica impeachment para afastar a presidenta eleita, mesmo que em desconformidade com a normatividade constitucional que exigia para tanto a demonstração cabal da prática de crime de responsabilidade, também atendeu à lógica neoliberal, em especial por criar condições para a abertura sem limites do mercado às corporações internacionais. Nesse particular, é esclarecedor o exemplo da negociação que envolveu a permissão da exploração do pré-sal por empresas internacionais, contra a diretriz sustentada pelo governo deposto.” (CASARA, 2017, p. 209)

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Vladimir Pinheiro Safatle, “Só Mais Um Esforço”
(Três Estrelas, 2017, 144 pgs)
Disponível na livraria A Casa de Vidro: http://bit.ly/2hPuW97

Após a consumação do golpe parlamentar que expulsou Dilma Rousseff da presidência da república, em Abril de 2016, Vladimir Safatle publicou em sua coluna na Folha de S.Paulo um artigo-manifesto chamado “Nós Acusamos”.

Nele, evocando Émile Zola no Caso Dreyfus, Safatle fazia uma série de acusações contra os cleptocratas que usurparam o poder: “Nós acusamos”, bradava em tom jacobino, “os representantes deste governo interino de serem personagens de um outro tempo, zumbis de um passado que teima em não morrer. Eles não são a solução da crise política, mas são a própria crise política no poder.”

Neste livro de intervenção, “Só Mais Um Esforço”, o professor de filosofia da USP – Universidade de São Paulo dá sequência à sua obra anterior “A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu Nome”, publicando no calor da hora, à luz das ruas que queimam, palavras urgentes e contundentes numa espécie de amálgama de manifestos. São textos mais acessíveis ao grande público do que suas complexas análises de Hegel, Lacan, Adorno, Derrida, Butler, dentre outros pensadores, que marcam sua trajetória intelectual.

Na imprensa, em debates públicos, em entrevistas midiáticas e em livros como este, Safatle revela-se “um pensador comprometido com a causa dos oprimidos e explorados, um homem de esquerda autêntico, que usa sua pluma para denunciar os crimes e as injustiças do sistema capitalista e para propor alternativas radicais” – como escreve Michael Löwy no prefácio.

Sem esconder sua admiração pelo governo de Salvador Allende no Chile (1970-1973), experimento de socialismo democrático rico em legados para o futuro da práxis utópica latino-americana, Safatle também se empolga com as insurreições recentes, pelo mundo afora, desde a Primavera Árabe e o Occupy Wall St. às Jornadas de Junho de 2013 no Brasil:


“Nada que se refere ao destino e às dificuldades da esquerda brasileira pode ser compreendido sem uma meditação a respeito das manifestações de Junho de 2013. Tais manifestações são certamente o conjunto mais importante de revoltas populares da história brasileira recente, não por aquilo que produziram, mas por aquilo que elas destruíram. A partir delas, todo o edifício da Nova República entrou paulatinamente em colapso. Mas, além disso, algo mais terminou: a primeira parte da longa história da esquerda brasileira chegou ao fim.” (p. 107)

Safatle lembra que 2013 foi o ano com “o maior número de greves desde o fim da ditadura, ou seja, 2.050 greves, sendo 1.106 apenas no setor privado. Tal fenômeno era sintomático: tratava-se de trabalhadores que não reconheciam mais suas ‘representações’ e que procuravam deixar claras sua insatisfação e precariedade.” (p. 108) A ascensão da insurreição popular que se viu em 2013, e que culminou nas mega-manifestações de Junho, manifesta o que Ruy Braga chamou de “A Revolta do Precariado”, uma insatisfação imensa da classe trabalhadora diante das condições de trabalho impostas pela hegemonia capitalista neoliberal globalizada, aquilo que Viviane Forrester – em livro traduzido pelo próprio Safatle e lançado pela Editora Unesp – chamou de “Uma Estranha Ditadura”.

Ora, Junho de 2013 foi uma “revolta que pegou a esquerda desprevenida, enfraquecida e acomodada à ilusão de perpetuação infinita no poder”, analisa Safatle. “Por isso, uma parte da esquerda preferiu abraçar o discurso da desqualificação da revolta, o que a livraria de ter de encarar sua própria obsolescência e envelhecimento.” (p. 53)

Safatle provoca-nos dizendo que, “em vista da paralisia completa do governo diante de tais revoltas e da incapacidade de todo o setor da esquerda de se constituir como intérprete qualificado das novas demandas, foi a direita que soube captar o momento, absorvendo de vez o discurso anti-institucional. Pela primeira vez desde 1984, a direita voltava às ruas, procurando mobilizar a força anti-institucional da política, enquanto a esquerda brasileira havia se transformado no mais novo partido da ordem. Com tal força, a direita, mesmo não tendo ganhado as eleições de 2014, impôs uma dinâmica acelerada de desabamento do governo e de incitação a um golpe parlamentar travestido de legalidade…” (p. 155)

Como a Revolta do Precariado e as insurreições vinculadas às demandas por um transporte público mais digno – capitaneadas pelo Movimento Passe Livre – MPL – puderam ser “colonizadas” pelas forças da Direita? O que explica que, ao fim de Junho, os “coxinhas” tivessem tomado a cena, mobilizados pela grande mídia corporativa e por entidades patronais como a Fiesp? A resposta, para Safatle, encontra-se no “circuito dos afetos”, em especial na mobilização que as forças reacionárias fizeram do medo. É o medo da desordem e da “anarquia” – brandido pelos mass media a todo momento através das imagens de vandalismo e descontrole – que permite a ascensão proto-fascista de uma ideologia que prega o autoritarismo truculento para resolver os conflitos sociais.

Em um dos capítulos mais interessantes de “Só Mais Um Esforço”, Safatle discute três fotografias emblemáticas: Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar brasileira aos 37 anos de idade; o ex-presidente Lula com as mãos sujas de petróleo; e manifestantes que depredam o Palácio Itamaratyem um episódio de clímax das Jornadas de Junho. Sinais de um país que, através da anistia, deixou praticamente impunes os torturadores e assassinos do Estado de Exceção inaugurado pelo golpe militar de 1964; que não soube propor modelos de desenvolvimento alternativos à civilização industrial devoradora de combustíveis fósseis e geradora de uma hecatombe ecológica global; e que não sabe lidar com a emergência de uma contestação bruta senão mobilizando a força repressiva de um Estado ainda militarizado e que tem na PM um dos piores legados de seu passado mal enterrado.

“A foto do Palácio do Itamaraty em chamas tem sua ironia”, explica Safatle. Pouco antes, a massa estivera enfurecida diante do Congresso Nacional do Brasil, ameaçando quebrá-lo. A Polícia Militar tentou impedir, mas não conseguiu fazer nada melhor do que empurrar a massa para o lado, fazendo com que sua fúria destruísse o primeiro edifício público à frente…. A foto mostra a destruição de um substituto. Para salvar o Congresso com seus oligarcas, outro objeto é oferecido para ser sacrificado em um ritual de expiação da revolta. Essa estratégia será utilizada uma segunda vez, de maneira simbólica e bem-sucedida, no golpe de 2016.

Mas essa imagem não será apenas a expressão de uma armadilha criada de forma astuta por uma oligarquia exímia na arte de se perpetuar. Ela será o eixo dos últimos anos da história brasileira em um outro sentido, mais forte. Pois a fúria popular contra o Itamaraty era a encarnação do verdadeiro medo que sempre assombrou este país, a saber, o medo da insurreição de uma massa amorfa e descontrolada, de força negadora bruta, que encarnaria todas as décadas e séculos de revolta muda e surda. Uma força que não se submeteria mais ao poder do Estado, à lógica de suas representações. ” (p. 53)

É “o povo que diz não” subindo à cena política. “Essa insurgência, com sua negação bruta, que pareceu ser uma ferida aberta que poderia não mais parar de sangrar, foi o motor que levou parcelas da população brasileira, depois de 2013, a reagir e a abraçar de forma cada vez mais descomplexada os discursos protofascistas de ordem e de justificação da violência estatal. Pode parecer paradoxal esse resultado, mas não será a primeira vez na história que as latências de uma revolta popular dão espaço à emergência de um sujeito reativo.” (p. 55)

Junho de 2013, longe de ter tido efeitos libertários de longo prazo, causou um assanhamento das forças reacionárias e fascistas no Brasil, com o cenário preocupante que se desenha para 2018: a da candidatura, apoiada por milhões, do racista, misógino, homofóbico, militarista – amálgama de toda a estupidez desavergonhada do fascismo brazzzileiro – Jair Messias Bolsonaro. São sinais claros de que o Brasil fracassou em lidar com seu passado, que volta a assombrá-lo como um espectro horrendo:

“Nenhum outro país protegeu tanto seus torturadores, permitiu tanto que as Forças Armadas conservassem seu discurso de salvação através do porrete, integrou tanto o núcleo civil da ditadura aos novos tempos de redemocratização quanto o Brasil. Há de se lembrar que o Brasil é o único país da América Latina onde os casos de tortura aumentaram em relação à ditadura militar. Por isso, nenhum outro país latino-americano teve um colapso tão brutal de sua ‘democracia’ como o nosso, com uma polícia militar que age como manada solta de porcos contra a própria população que paga seus salários. Nenhum outro país latino-americano precisa conviver com um setor proto-fascista da classe média a clamar nas ruas por ‘intervenção militar’, a ponto de invadir o plenário do Congresso Nacional com suas bandeiras. Tudo isso demonstra algo claro: a ditadura brasileira venceu. Como um corpo latente sob um corpo manifesto, ela se conservou e a qualquer momento pode novamente emergir.” (p. 65)

É o que estamos vendo na era Michel Temer: uma cleptocracia escrota que vem massacrando sem dó os direitos trabalhistas, que vem impondo medidas de austeridade altamente impopulares, que vem enfiando-nos goela abaixo as intragáveis PECs do Fim do Mundo que ameaçam precarizar escolas e hospitais pelos próximos 20 anos – e quem protesta contra isso é considerado um inimigo público digno só do porrete, do spray de pimenta, das bombas de gás lacrimogêneo.

“Diante desse cenário, a tendência brasileira agora é a desagregação. Com uma casta política que bloqueou todo processo de renovação, com uma paralisia em relação à compreensão de processos de emergências de novas modalidades de corpos políticos, o país tende a se deslocar paulatinamente para um modelo cada vez mais autoritário e desprovido de qualquer legitimidade. Os sistemas de pactos ruíram e não é mais possível reeditá-los. Todas as ‘reformas’ apresentadas em 2016 e 2017 visam à destruição das defesas trabalhistas e ao fortalecimento das dinâmicas de produção da desigualdade, no pior dos pesadelos neoliberais.

Nesse cenário, não é surpreendente que, diante do crescimento da resistência contra a espoliação, a elite dirigente brasileira jogue todas as suas forças na brutalização do discurso social, na criminalização da oposição e no uso recorrente de seu braço armado para gerir conflitos.” (p. 117-118)

As alternativas radicais propostas por Safatle para sairmos do atual cenário catastrófico envolvem medidas que deixam nossas elites com a pulga atrás da orelha: taxação de grandes fortunas e heranças; instauração do salário máximo; restrição do direito à propriedade privada etc. O leitor atento pode ficar estarrecido com certas omissões: o filósofo não menciona em lugar algum do livro a reforma agrária, a demarcação de terras indígenas, a luta contra o agronegócio e os agrotóxicos, nem menciona movimentos sociais como o MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e o MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, tão esforçados na instauração de uma outra realidade, menos injusta e hedionda do que a que vivemos.

O outro mundo possível que hoje demanda nosso esforço e nossa luta também exige a refundação radical da esquerda e a construção coletiva de uma autêntica democracia direta, onde o povo não delegue sua soberania a ninguém, e onde o Estado se utilize de todas as ferramentas das novas tecnologias digitais para a instauração de uma “ágora virtual” onde proliferariam os plebiscitos e assembléias populares.

“Temos atualmente todas as condições técnicas para criar uma sociedade de deliberação contínua baseada em uma democracia digital”, opina Safatle (p. 128), propondo inovações políticas nos processos decisórios através de uma “ágora virtual” (noção contestada por Luis Felipe Miguel, cientista político e professor da UnB – Universidade de Brasília, neste artigo em Justificando).

Longe de decretar que o marxismo ficou obsoleto, Safatle busca re-avivar a chama de Karl Marx eEngels para nossos tempos, dizendo que “a teoria marxista da revolução é, mais do que uma teoria das crises, uma teoria da emergência de sujeitos políticos com força revolucionária. No caso de Marx, tais sujeitos têm nome: proletários.” (p. 102)

Safatle insiste que o conceito de proletário no pensamento marxista não é apenas uma “categoria sociológica dos trabalhadores que têm somente sua força de trabalho”, mas sim uma “categoria ontológica que diz respeito a certo modo de existência com grande força revolucionária, é um modo que depõe regimes de existência baseados na propriedade, no individualismo possessivo e na identidade, com seus sistemas defensivos e projetivos.

O século XIX conheceu uma sequência impressionante de revoltas, movimentos e insatisfação social oriundos de crises econômicas profundas em todos os lados da Europa. Tal como agora, as ruas queimaram em sequência. Mineiros da Silésia, operários ingleses, tecelões franceses: todos pararam fábricas, quebraram máquinas, montaram barricadas, desafiaram a ordem instituída. No entanto, essa multiplicidade de revoltas só se transformou em um fantasma que assombrava aquele tempo quando todas as ruas em chamas foram vistas como a expressão de um só corpo político, um só sujeito em marcha compacta pelo desabamento de um mundo que teimava em não cair.

Um sujeito político só emergiu quando os mineiros deixaram de ser mineiros, os tecelões deixaram de ser tecelões e se viram como um nome genérico, a saber, ‘proletários’, a descrição de quem é totalmente despossuído, de quem é ninguém. Foi quando a multiplicidade das vozes apareceu como a expressão da univocidade de um sujeito presente em todos os lugares, mas com a consciência de sua ausência radical de lugar, que a revolta deixou de ser apenas revolta. Pois essa força de síntese de outra ordem que aparece através da univocidade da nomeação era a condição para que a imaginação política entrasse em operação, permitindo a emergência de um novo sujeito. De certa forma, é isto que nos falta: precisamos ser, mais uma vez, proletários.” (p. 103)

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Por Eduardo Carli de Moraes
 www.acasadevidro.com

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Leia também:

ESTILHAÇOS DE INDIGNAÇÃO E ESPERANÇA – UMA SOCIOLOGIA À ALTURA DE JUNHO, POR RUY BRAGA EM “A PULSÃO PLEBÉIA” (ALAMEDA/FFLCH-USP)

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Alguns vídeos:



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A RADIOGRAFIA DO GOLPE (Entenda Como e Por Que Você foi Enganado) – Conheça o novo livro do sociólogo Jessé Souza (Leya, 2016, 160 pgs)

No calor da hora, em Julho de 2016, quando o golpe de Estado estava prestes a consumar-se, Jessé Souza tornou pública esta obra que pretende ensinar ao Brasil que “o objetivo real nada teve de novo em relação a todos os outros golpes de Estado praticados no passado nacional: atender aos mesquinhos interesses políticos e financeiros da pequena elite do dinheiro.” Em A Radiografia do Golpe (Leya, 2016, 160 pgs, compre aqui), o sociólogo Jessé Souza, de 56 anos, analisa e denuncia o complô midiático-parlamentar-jurídico que serviu, em 2016, para estuprar a frágil democracia republicana brasileira em prol das velhas aves de rapina da Plutocracia.

jesse“A articulação entre mídia – como braço dos endinheirados que cuida da violência simbólica -, comandando e estimulando as manifestações de rua da fração mais conservadora da classe média, e a facção mais conservadora e corporativa da casta jurídica formou a linha de frente do golpe reacionário. A essa coligação se junta o fato de que os endinheirados partiram para o confronto nas eleições de 2014. Eles compraram, com o deputado Eduardo Cunha à frente, via financiamento de eleições, o Congresso mais reacionário e mais comprometido com o desmonte do incipiente Estado de bem-estar social das últimas décadas. Isso joga o PMDB, um partido de ‘centro’ por conveniência desde 1988, no comando da direita do espectro político.

Foi, no fundo, uma grande vingança pela perda das eleições de 2014. Um esquadrão de tucanos que formavam a equipe de delegados da Lava Jato, e que havia participado ativamente da guerra eleitoral de 2014, se une a correligionários, os quais, unidos à mídia conservadora, constroem passo a passo a atmosfera favorável ao golpe. A construção da grande fraude envolveu ilegalidades o tempo todo. Vazamentos ilegais e seletivos de depoimentos e de delações premiadas expostos na televisão todos os dias criaram o clima midiático para o verdadeiro linchamento televisivo. Como em todo linchamento, séculos de desenvolvimento jurídico e aprendizado moral foram para o esgoto. Ele envolvia manipulação da informação, seletividade de conteúdos, simplificação de questões complexas, estímulo aberto a pré-julgamentos, além da eliminação do contraditório e do direito de defesa. A presunção de inocência, marco fundamental da ordem jurídica democrática, foi para o brejo. O bombardeio era diário. A ordem era não deixar pedra sobre pedra.

De dezembro de 2014 até abril de 2016 a população viveu um bombardeio sem trégua. O aparelho jurídico-policial, com claras cores partidárias, fornecia material ilegal em massa aos órgãos de imprensa, TV Globo à frente, que articulava, selecionava, manipulava e incendiava seu público com os jogos de dramatização e demonização do inimigo aprendido nas telenovelas. Os protestos de rua pipocavam em todo o país, com epicentro na capital paulista. Protestos maciços em março, abril e agosto de 2015 se realizaram em mais de 200 cidades do país. A combinação de vazamentos seletivos ilegais e dramatização midiática com os protestos de rua se revelaram esmagadores.” (A Radiografia do Golpe, p. 123)

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Jessé Souza – que possui graduação em Direito e mestrado em Sociologia na UnB, além de doutorado em Sociologia em Heidelberg (Alemanha) – sublinha em sua análise o quanto as forças golpistas acirram-se em seu ímpeto anti-democrático após a quarta derrota seguidas nas eleições presidenciais (2002, 2006, 2010, 2014), de modo que a plutocracia sai do armário e assume como seu mote inconfesso o quem não tem voto, caça com golpe:

“Depois da quarta derrota seguida, as forças conservadores não só não aceitaram a derrota eleitoral como começaram a flertar com um caminho não eleitoral. É aqui que entra em cena de modo arrebatador o quarto elemento fundamental no esquema do golpe comandado pelos endinheirados: o complexo jurídico-policial do Estado. Instituições destinadas a proteger a democracia passaram a agir de modo concertado para derrubá-la. Agindo em parceria e em conluio com a mídia conservadora e servindo de fomentadora para a recém-organizada base social de extrema direita, a casta jurídica que comanda o combate à corrupção seletiva tornou-se a chave para a compreensão do ‘golpe branco’ em abril de 2016.

O combate à corrupção torna-se pornograficamente seletivo, uma vez que persegue a esquerda, enquanto blinda a direita. Mas sem a participação do nosso verdadeiro ‘partido das elites’, a imprensa manipulada e manipuladora, não teria se formado o clima insurrecional que possibilitou o golpe. A imprensa partidária e conservadora já havia criado uma base social de extrema direita para o golpe, e a elite do dinheiro descontente tem agora não apenas seus aliados de sempre – Congresso comprado pelo financiamento privado de eleições e mídia comprada -, mas também uma base social altamente motivada e engajada, em uma luta que percebe como sua. Essa fração de classe, ingênua de fio a pavio, se imagina não como massa de manobra, mas como protagonista do drama. Não se compreende o golpe de 2016 sem a manipulação dos protestos de junho de 2013.” (p. 106)cartazes

Em março de 2013, o governo de Dilma Rousseff possuía popularidade altíssima: cerca de 79% da população de contentamento, sua maior aprovação histórica. Às beiras das jornadas de junho, seu índice de aprovação ainda estava na faixa dos 70%. O que explicaria uma queda abissal e vertiginosa nestes índices após a passagem do furacão de insurreição popular focado, a princípio, no aumento das tarifas de transporte público? Jessé Souza defende a tese de que junho de 2013 representou o “ovo da serpente”, a incubadora do fascismo, em especial quando as forças mais reacionários buscaram manipular os protestos para que estes servissem a seus próprios interesses escusos.

Em São Paulo, por exemplo, o que a princípio nasce como insurreição legítima, capitaneada pelo movimento Passe Livre (MPL) contra os 20 centavos de incremento na tarifa do busão, incendiada pela repressão policial-militar truculenta conduzida pelo governo Alckmin  (PSDB) contra os manifestantes e a imprensa que cobria as mobilizações (lembrem do lendário 13 de Junho, que serviu de faísca para fazer com que o barril de pólvora explodisse), torna-se outra coisa quando é “cooptado” pela mídia corporativa, que passa a agir como master of puppets da massa de “coxinhas” que acorre às ruas, com camisetas da CBF, em cruzada anti-petista.

A mídia corporativa brasileira, que age como partido dos endinheirados, batizada com justiça de P.I.G. (Partido da Imprensa Golpista), faz do Brasil, como diz o relatório de Repórteres Sem Fronteiras, “o país dos 30 Berlusconis”. Enquanto Junho de 2013, em sua primeira quinzena, foi um levante popular focado na luta do MPL, com eventual uso de táticas Black Bloc nas passeatas, a mídia vociferou contra os baderneiros, os vândalos, os maconheiros sujos, os desordeiros que atrapalham o trânsito – a mídia dita “grande”, enfim, não parava de criminalizar e deslegitimar a bandeira da Tarifa Zero, fazendo apologia da brutalidade repressiva das forças policiais-militares. O Jornal Nacional, pelos idos de 12 de Junho, parecia desconhecer qualquer palavra do dicionário a não ser “vandalismo” para caracterizar os levantes.

Quando percebeu-se que o tsunami de rebeldia popular estava longe de esmorecer, e que a truculenta brutalidade da PM na Avenida Paulista havia surtido o efeito contrário ao esperado (ao invés de mandar o povo de volta pra casa, amedrontado e trêmulo, fez com que milhares e milhares de pessoas saíssem às ruas), o discurso midiático mudou e a tática de manipulação saltou para outro estágio. Como Jessé percebeu,

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“a cobertura do Jornal Nacional do dia 17 de Junho mudou o panorama  completamente. O protesto passou a ser definido como pacífico, e a bandeira brasileira se tornou seu símbolo. Agora os protestos eram tidos como ‘expressão democrática’ e já não se dizia que causavam tumulto ou prejuízo ao trânsito… Rostos pintados como nas Diretas Já apareceram por todos os lados. Começava a criação estética e moral do movimento antigoverno federal capitaneado pela grande imprensa: os ritos passaram a ser cantar o hino nacional, vestir a camisa da seleção, ter a cara pintada… em vez de jovens e estudantes, tínhamos agora famílias de classe média com perfil de renda alta.

(…) O Jornal Nacional cerrou fileiras contra a presidenta e seu governo. A bandeira da antipolítica e antipartidos surgiu… A mídia passou, a partir de junho de 2013, a se associar às instituições do aparelho jurídico-policial no processo de deslegitimar o governo eleito. Palavras de ordem como ‘Muda Brasil’, como forma cifrada de invocar a verdadeira bandeira – ‘Muda (de governo) Brasil’ – passaram a dominar o imaginário das manifestações. A corrupção ganhava cada vez mais proeminência, e os gastos com saúde e educação – que nunca haviam sido tão expressivo como agora – eram sempre mencionados de modo negativo ao governo. Ocorre, na realidade, uma inversão de perspectivas que não deixa de confundir a todos: o governo federal que mais havia investido em educação e saúde passa a ser vítima única da atenção midiática que, conscientemente e de caso pensado, confunde e embaralha as competências federativas de tal modo a que toda culpa caiba unicamente ao governo federal.

No dia 24 de junho o governo propôs uma reforma política para combater a corrupção e cinco pactos: transporte público, reforma política, corrupção como crime hediondo, médicos estrangeiros e destinação de 100% do pré-sal para educação e saúde. A resposta foi inteligente, mas tardia e pouco efetiva. Ela não só teve reação por parte do Congresso como esbarrou no desinteresse da mídia, que experimentava o auge de seu poder de pauta a agenda política relevante.” (p. 90, 94)

Quando Dilma Rousseff, em resposta às Jornadas de Junho, percebendo a grave crise de representação política, propõe um plebiscito para realização de uma constituinte da reforma política, seu plano é completamente esmagado pelas forças reacionárias que nenhum interesse tinham no incremento da participação social nos processos decisórios. O bombardeio midiático contra a proposta do plebiscito popular somou-se à firme decisão do Congresso de barrar qualquer tipo de reforma política que mexesse com tão consolidados privilégios injustos de uma casta acomodada no tope da pirâmide.

“No dia 29 de junho, finalmente, o Jornal Nacional colheu o sucesso retumbante da violência simbólica tão bem perpetrada: foi mostrada uma pesquisa segundo a qual a aprovação popular da presidenta despencara em queda livre. Ela perdera 27 pontos percentuais desde o início dos protestos, os quais visavam na sua origem questões locais e municipais. Era a maior queda de popularidade de Dilma desde o início do mandato. Era o sucesso absoluto da campanha midiática pela federalização das manifestações e pela personalização do descontentamento na pessoa da presidente da república… Sucesso total da violência simbólica. Esse foi o efetivo começo do golpe.” (p. 95)

Jessé Souza considera, nesta sua radiografia do golpe, também o massacre midiático contra o PT na ocasião da revelação do escândalo do Mensalão, em 2005, no primeiro mandato de Lula – o episódio é lido pelo sociólogo como uma espécie de prelúdio fracassado do golpe consumado em 2016, já que desde o Mensalão o conluio da mídia com o aparato jurídico-penal buscava “fulanizar” o tema da corrupção de modo a que a cruzada anticorrupção incidisse somente sobre o PT e suas lideranças, com garantias de impunidade e pizza para todos os corruptos tucanos e PMDBistas. A mesma mídia que não deu um pio sobre a “conhecida – e jamais investigada – compra de votos para a reeleição de FHC” (p. 108) viu no Mensalão a oportunidade de usar o Partido dos Trabalhadores como cordeiro do sacrifício, a fim de barrar Lula nas eleições de 2006.

A Lava Jato, partidarizada e utilizada como instrumento de perseguição política contra o PT, é herdeira da cruzada do Mensalão. Segundo Jessé, “na raiz dos problemas está o assim chamado ‘presidencialismo de coalizão’ que caracteriza o sistema político brasileiro. Como o presidente muito dificilmente vai eleger também uma maioria parlamentar que possa formar sua base de apoio no Congresso Nacional, ele será obrigado a compor e entrar em uma série de acordos e barganhas com as forças dominantes no Congresso se quiser governar. Uma série de fatores estruturais convergentes, como fragmentação partidária, massiva sobrerrepresentação de interesses econômicos com agenda conservadora via financiamento privado de eleições e a pouca representatividade e responsabilidade em relação ao eleitor que o sistema de lista partidária confere, faz do legislativo o bastidão dos interesses mais conservadores da sociedade brasileira.” (p. 108)

A consumação do golpe de Estado no Brasil, em 2016, dependeu da ação conjunta da mídia corporativa, de facções partidarizadas do aparelho jurídico-penal do Estado e de um Parlamento gangsterizado, que segundo Jessé Souza souberam manipular as massas-de-manobra midiotizadas que, nas ruas, formaram uma espécie de “base social da direita”, apoiando um impeachment fraudulento, em que Dilma Rousseff – que jamais teve qualquer culpa comprovada em quaisquer escândalos de corrupção ou de desvio de verbas públicas, tendo sido uma das gestoras públicas que mais combateu a corrupção no país – acabou condenada por “pedaladas fiscais” e deposta da presidência por um verdadeiro Sindicato de Ladrões.

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O protagonismo, neste coup d’état, do célebre criminoso e gangster Eduardo Cunha (PMDB), cassado après coup e preso pela Polícia Federal em Outubro de 2016, é a evidência mais inconteste de que o putsch teve, em sua linha-de-frente, crápulas plutocratas da pior laia. Cunha é o símbolo emblemático do gole e deste “Congresso regressivo, comprado por todo tipo de interesse econômico cartelizado” (p. 127). Este grotesco Congresso, “eleito em 2014 e sob o comando de Eduardo Cunha, desafeto do governo e disposto a buscar revanche depois que o governo tentara impedia sua eleição a presidente da Câmara”, age pelo ano de 2015 como oposição terrorista ao governo eleito nas urnas, em 2014, por mais de 54 milhões de votos. “Cunha já havia enfraquecido o governo com as assim chamadas pautas bomba durante todo o ano de 2015, praticamente impedindo-o de governar. Em uma manobra torpe, após ter visto fracassar sua chantagem para forçar o PT a livrá-lo na comissão de ética de cassação iminente, Cunha encaminhou a proposta de impeachment em ritmo célere contra a presidenta.” (p. 127)

“Em um espetáculo grotesco, denunciado por toda a imprensa internacional, tivemos um impedimento que ficou, ao fim e ao cabo, desprovido de qualquer legitimidade. Daí vem seu caráter de ato de força e oportunismo. Oportunismo esse que é duplo: rapinar a riqueza nacional, oprimindo os trabalhadores do campo e da cidade, e esquentar a pizza do núcleo do atual governo [Temer] envolvido até o pescoço na corrupção… A elite financeira, a mídia – sob comando da TV Globo -, o parlamento comprado e a casta jurídica se unem e decretam o fim do governo eleito. Com o golpe consumado, todos os interesses que se articularam partem direto para a rapina e para o saque do espólio. Vender as riquezas brasileiras, petróleo à frente, cortar os gastos sociais, posto que o que vale agora é apenas o interesse do 1% mais rico, e fazer a festa da turma da privataria. Os pobres voltam ao esquecimento, à marginalidade e aos salários de escravos por serviços à classe média e às empresas dos endinheirados. Tudo como antes no quartel de Abrantes. ” (JESSÉ SOUZA, A Radiografia do Golpe, p. 127 – 132)

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ASSISTA:

Conversa Afiada com Paulo Henrique Amorim

Na Sala de Visitas com Luis Nassif: Edição 9

Brasilianas (Novembro de 2015)

O GOLPISMO PLUTOCRÁTICO E O ÓDIO À DEMOCRACIA: Reflexões na companhia de Jessé Souza, David Graeber e Jacques Rancière

I. UM CONTO DE FADAS PARA ADULTOS

Os crimes cometidos e as catástrofes causadas pelas corporações capitalistas saltam aos olhos: da Monsanto à Shell, da Volkswagen à Vale, não faltam exemplos de corrupção, fraude, enriquecimento ilícito, danos socioambientais irreversíveis, etnocídio e genocídio, dentre outros malefícios acarretados pelo comportamento – psicótico e cotidianizado – de muitas megaempresas transnacionais nesta nossa era de hegemonia do ultraliberalismo.

 As corporações capEtalistas são capazes de contaminar o meio ambiente de modo irreversível, como prova o assassinato do Rio Doce, pior tragédia ambiental da história do Brasil (2015), ou o desastre de Bophal na Índia (1984) e da British Petroleum no Golfo do México (2010). As corporações também podem mentir descaradamente para a sociedade sobre os impactos negativos de seus produtos, como fez a Volkswagen: como revelou-se recentemente em escândalo que ocasionou a queda de seu presidente, a empresa fraudou cerca de 11 milhões de motores automotivos no intento de desinformar a sociedade sobre a quantidade de poluentes e gases de efeito estufa que lançavam à atmosfera.

Tudo isso torna The Corporation, aliás, um dos documentários mais cruciais para compreender nossa época em que há um poderio sem precedentes destes grandes conglomerados capitalistas privados, que sequestram o Estado, tornam obsoleta a noção de bem público, tratam o lucro como Deus e não enxergam nas devastações que ocasionam nada além de “externalidades”. Não, não é possível rimar democracia com o capitalismo desenfreado nos moldes atuais. O que vemos, hoje, é triunfo da plutocracia, o (des)governo dos ricos.

Em meio aos intensos alarmes que soam mundo afora, alardeados pela comunidade científica internacional, sobre o colapso civilizacional que será acarretado pela intensificação do aquecimento global, as empresas petrolíferas ligam o “foda-se” para as mudanças climáticas e esforçam-se para avançar sobre as jazidas de petróleo, querendo drillar até no Ártico (caso daquela famosa empresa – Shell From Hell – já agraciada com o “prêmio” de pior empresa do planeta pelo Public Eye Awards).

É de fato uma imensa coleção de vergonhas, que pode encher um vasto livro, todos os malefícios ecológicos, econômicos e políticos causados por corporações capitalistas privadas – que muitas vezes gastam milhões de dólares em campanhas de desinformação, como as empresas de cigarros que fazem campanhas para provar que não há nenhuma conexão entre os produtos que vendem e o câncer de pulmão (são os Merchants of Doubt, ou Mercadores da Dúvida, de que fala em seu livro a Naomi Oreskes).

As principais destas corporações, campeãs da infâmia e da barbárie, estão reunidas neste Hall of Shame em que marcam presença Chevron, Gap, Wal Mart, Walt Disney, Dow Chemicals, dentre outros agentes de Satanás. Podemos agora adicionar à lista a Besta Encarnada na fusão Monsanto e Bayer…

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Nas trevas das fábricas, nos sweatshops onde a violação dos direitos humanos é cotidiana, muitas destas empresas exploram trabalho como se o escravismo ainda fosse legalizado; fazem lobby junto a políticos como se suborno e propina fosse algo respeitável e digno de institucionalização; põe milhões em publicidade para divulgar álcool e cigarros, hambúrgueres e remédios, mas nada publicam na mídia vendida sobre a grana em paraísos fiscais e a sonegação-monstro (vide os Panama Papers).

Para não falar na obscenidade grotesca que é a indústria bélica – que viverá dias de glória na Era Donald Trump… – e que literalmente lucra com a morte e a destruição. Para não falar, tampouco, das petroleiras transnacionais que financiam guerras imperialistas para tomar conta do “ouro negro”, seja através do belicismo interventor no Oriente Médio, seja através dos golpes de Estado latino-americanos, vide os casos de Hugo Chávez e de Dilma Rousseff, residentes legítimos que acabaram entrando na mira do golpismo imperial desejoso de instalar regimes-fantoche e vende-pátria.

Na Bolívia, quando o Estado nacional fez-se servil aos interesses das corporações capitalistas que desejavam privatizar a água, lançando milhares de pessoas na miséria da sede e da desidratação, a fúria das rebeldias justas estourou na insurreição popular de Cochabamba, evento essencial à posterior eleição de Evo Morales para a presidência do país. Eis um ícone da batalha de Pachamama contra a barbárie neoliberal. (Saiba mais no artigo que fiz sobre o filme Hasta La Llúvia, estrelado por Gael Garcia Bernal: Uma Viagem Com Mais Náufragos Que Navegantes).

Na Índia, dezenas de milhares de camponeses empobrecidos já se suicidaram – o método mais comum: beber o agrotóxico venenoso que os desgraçou a vida. A onda de suicídios é decorrência do cruel Monsantismo e do devastador agrobiz que tomou conta do país e que ocasionou, como resistência, a emergência das guerrilhas maoístas. Sobre estas, Arundhati Roy escreveu algumas obras-primas do jornalismo literário contemporâneo, como Walking With The Comrades, além do livro magistral Broken Republic. 

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Já em Chiapas, no México, o levante zapatista iniciado em 1994 é emblemático da encarniçada e trágica batalha dos povos originários deste continente contra os horrores propiciados pela ditadura do capitalismo sem freios que recebe o cognome eufemístico de “neoliberalismo”. Considero o Subcomandante Marcos, misterioso líder zapatista que se oculta atrás da máscara, como um dos pensadores políticos mais fundamentais do nosso tempo:

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“To kill oblivion with a little memory,
we cover our chests with lead and hope.”

SUBCOMANDANTE MARCOS, Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN).
In: ‘Our Word is Our Weapon: Selected Writings’,
Published by Seven Stories Press (New York, 2003, Pg. 100.)

“Marcos is gay in San Francisco, Black in South Africa, an Asian in Europe, a Chicano in San Isidro, an anarchist in Spain, a Palestinian in Israel, a Mayan Indian in the streets of San Cristobal, a Jew in Germany, a Gypsy in Poland, a Mohawk in Quebec, a pacifist in Bosnia, a single woman on the Metro at 10 pm, a peasant without land, a gang member in the slums, an unemployed worker, an unhappy student and, of course, a Zapatista in the mountains. Marcos is all the exploited, oppressed minorities resisting and saying ‘Enough’. He is every minority who is now begining to speak and every majority that must shut up and listen. He makes the good consciences of those in power uncomfortable – this is Marcos.”  – Subcomandante Insurgente Marcos, EZLN – People’s Global Action 2002 (Read Awestruck Wanderer’s posts about the Zapatistas)

 Que muitos não percebam a podridão inerente à atual hegemonia global das multinacionais e dos Estados a elas servis é mais um sinal do poderio não só econômico, mas cultural e midiático, que a elite planetária – o 1% da cúpula financeira – adquiriu sobre corações e mentes. Através das poderosas e prepotentes mídias-de-massa privadas, controladas por magnatas cheios da bufunfa, podem-se disseminar ideologias que pregam as benesses do Livre Mercado, o que milhares de evidências empíricas e estatísticas, contemporâneas e históricas, provam ser mentirosas.

Este me parece um dos argumentos mais claros e recorrentes na argumentação do sociólogo brasileiro Jessé Souza: estamos sendo feitos de otários por um conto-de-fadas para adultos, a noção extravagante e absurda de que a corrupção é um problema que aflige exclusivamente o Estado (o poder público), não envolvendo de modo algum o puro e imaculado Mercado (o poder privado).

Que ainda se encontrem crédulos desta lorota na América Latina é estarrecedor, considerada a nossa história colonial repleta de saques imperiais das riquezas locais, rapinas promovidas por poderes de mentalidade privatista, lucrocêntrica, excludente.  Este enredo infantil de bandido e mocinho – algo como “o capitalismo é gente-fina, o problema é este bando de políticos sujos!” – é o conto da carochinha que é destroçado pela argumentação de Jessé, sociólogo brasileiro que não teme criticar e bater de frente contra as ideias consagradas por Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda ou R. Faoro.

Professor de ciência política da UFF (RJ) e ex-presidente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) – exonerado do cargo quando Temer assumiu a função de presidente interino após a grotesca sessão na Câmara conduzida por Eduardo Cunha – Jessé Souza tem um bocado a ensinar ao Brasil em seus contundentes A Tolice da Inteligência Brasileira (Ed. Leya, 2015, 271 pgs) e A Radiografia do Golpe (Ed. Leya, 2016, 142 pgs).

Em uma das sociedades mais perversamente desiguais do planeta – tanto que já fomos apelidados de “Belíndia”, uma mistura caótica de Bélgica com Índia – nada mais urgente do que desmontar o conto-de-fadas que tece louvores ao mercado, supostamente virtuoso e angelical – e que muitos pregam que deveria ser deixado em paz e sem freios para que floresçam a prosperidade e a felicidade gerais que seriam orquestradas pela Divindade secularizada, a “mão invisível” de Adam Smith.

Esta noção interesseira, propagada pelos demagogos neoliberais, de que o mercado deve ser desregulado e não pode ser atrapalhado por um Estado corrupto e ineficiente, é contestada por Jessé numa argumentação calcada em autores clássicos da sociologia como Florestan Fernandes e Pierre Bourdieu. Os argumentos de Jessé somam-se ao arsenal reunido em livros clássicos como As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, ou A Doutrina do Choque, de Naomi Klein, obras que mostram claramente que não foi pela via democrática que instalou-se no Chile ou no Brasil este nosso capitalismo-da-barbárie hoje vigente.

O neoliberalismo faz sua entrada triunfal por aqui como imposição autoritária (ninguém votou em prol das doutrinas dos Chicago Boys no Chile!). Obviamente o imperialismo não trabalha sozinho, mas tem seus aliados entre as elites locais, colonizadas até o osso e que idolatram de modo acrítico o Tio Sam (e o Tio Patinhas!), tomando como modelo de sucesso, paradigma de excelência a serem imitados, um regime que lança na miséria e na sub-humanidade imensas proporções da população, para o bem da mísera minoria de milionários no tope.

Bem antes de Ronald Reagan e Margareth Tatcher conduzirem o mundo anglo-saxão para a era neoliberal, foi ao Sul do Equador – no Brasil, no Chile, na Argentina, lançados às trevas de ditaduras militares – que testou-se a fórmula do Estado mínimo (ainda que máximo no que tange à repressão, à vigilância policial, ao encarceramento em massa). Foi através de um totalitarismo belicista militarizado, de um Estado policial-penal, que Pinochets e Geisels defenderam com punho de ferro um mercado dito “livre” – leia-se: um regime onde os interesses privados estão livres para praticar seus vandalismos sociais, lançando muita gente às margens, pauperizada e esfomeada por um status quo excludente e de flagrantes injustiças, praticante impenitente de um  autêntico apartheid tropical baseado na miséria planificada. Para lembrar Rodolfo Walsh:

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Em 1977, em sua “Carta Aberta à Junta Militar” da Argentina, o valente jornalista Rodolfo Walsh denunciou a repressão desse regime, uma ditadura que organizou o assassinato e a desaparição de mais de 30 mil pessoas. “Não obstante, esses acontecimentos que comovem a consciência do mundo civilizado, não constituem o maior sofrimento infligido ao povo argentino, tampouco a pior violação dos direitos humanos que vocês já cometeram”, escreveu Walsh a respeito da tortura e dos assassinatos. “É na política econômica deste governo onde se percebe não só a explicação dos crimes, mas também uma gigantesca atrocidade que castiga a milhões de seres humanos: a miséria planificada…  Basta dar uma volta de algumas horas pela Grande Buenos Aires para comprovar a rapidez com que essa política transformou a cidade numa favela de dez milhões de pessoas”. (BENJAMIN DANGLR em CARTA MAIOR)

Se o golpismo de hoje não é lá muito diferente do golpismo de outrora, é pois em ambos os casos quem chega para tratorar a democracia são justamente os interesses dos capitalistas mais empedernidos, dos plutocratas mais desavergonhados na defesa dos próprios privilégios injustos. Aqueles que não tem pudor de fazerem valer seus interesses com o auxílio da força bruta ou das conspirações corporativo-parlamentars. Como ensinava Galeano, o 1% pode até ser de uma criminalidade absolutamente mortífera, ou mesmo genocida, mas raramente vai em cana pois são os caras que mandaram construir as prisões e que detem as chaves dos cárceres e os acessos aos botões nucleares.

Diante de uma Justiça vendida, exercida por aqueles que vendem-se como prostitutos de luxo no mercado das indulgências compráveis, o rico criminoso adquire sua impunidade, financiando aqueles que se prestam ao serviço de fazerem vistas grossas à barbárie e permitirem a corrupção cotidianizada de corporações e empresários – a Elite do Poder, de que falava C. Wright Mills, e que, em seus efeitos sociais, são como tsunamis devastadores ou nuvens de gafanhotos que arrasam plantações.

Este modelo de capitalismo plutocrático, oligárquico, autoritário, que o Golpe político-corporativo-jurídico em curso no Brasil em 2016 pretende forçar-nos goela abaixo, instaurando um regime de austeridade para o povo regalias para o tope, é irmão próximo daquele capitalismo made in U.S.A. e defendido pela força militar, instalado por aqui pelos coup d’états, teleguiados lá de Washington, que puseram a Ditadura no lugar do “Janguismo” (a partir de 1964) e que comemoraram o triunfo de Pinochet sobre o cadáver do regime de Salvador Allende em 1973.

Nestes casos extremos, que vivenciaram na pele os brasileiros e chilenos durante as respectivas ditaduras, o que ocorreu foi apropriação do Estado por parte dos interesses mercadológicos e empresariais. Um Estado policial somado a um Mercado a quem se permitia que a lei da selva vigorasse, ou seja, a competição dita “livre”, que na verdade só liberta os mega-capitalistas para faturarem lucros sobre as lágrimas de labor exaustivo extraídas das classes oprimidas e espoliadas.

“A única questão razoável é saber se o Estado é apropriado por uma pequena minoria privilegiada ou se pelo interesse da maioria”, escreve Jessé Souza. “Como se pensar, por exemplo, que o Estado norte-americano – o paraíso na terra para os liberais brasileiros colonizados até o osso – depois da guerra do Iraque quando o interesse de companhias petrolíferas saqueou e provocou a morte de milhões, inclusive de norte-americanos, com base em mentiras para obter lucros; ou depois das fraudes da crise de 2008 operada pelo mercado financeiro – como ‘Estado público’ e não apropriado por uma minoria?” (SOUZA: A Tolice… p. 67)

Ainda carecemos superar o complexo de vira-latas de achar que o Brasil é inferior, é sub, está por baixo, babando ovo pra Yankee como se os EUA fossem o ideal que devemos almejar. Só quem está dormindo – ou midiotizado pela lavagem cerebral da imprensa corporativa! – pode acreditar ainda no “Sonho Americano” diante de uma sociedade tão perversa e injusta quanto os Estados Unidos. Como disse George Carlin, ele se chama sonho americano pois é preciso estar dormindo para acreditar nele.

Nos EUA, por exemplo, milhares de cidadãos são largados para morrer à míngua de qualquer auxílio por não terem condições econômicas de pagar o sistema de saúde vastamente privatizado e elitista (revejam Sicko de Michal Moore). Pergunte sobre o American Dream aos negros e latinos, pergunte aos imigrantes árabes, pergunte aos que estão presos em Guantánamo… eles te apresentarão ao pesadelo americano!

Os livros de Jessé Souza devotam-se a criticar esta ideologia, simplista e maniqueísta, que pinta com atributos angelicais os empresários, os banqueiros, as mega-corporações, supostamente livres do vício da corrupção que contaminaria tão somente o governo – ou mesmo, para cúmulo da tolice, um único partido, como sustentam muitos acéfalos e esbravejantes moralistas de ocasião em sua cruzada anti-petista.

Idealizar o Mercado e demonizar o Estado equivale a não enxergar com clareza que a raiz do problema da corrupção está nas relações entre estas duas instâncias: quase inexiste um político comprovadamente corrupto que não possua corruptores no setor financeiro ou empresarial. Por que não se diz claramente que o crime organizado é também praticado por Odebrechts e Globos, por Ambevs e Volkswagens, e não somente por políticos?

Contra as falácias dos apologistas do Estado Mínimo e do Mercado Livre, é preciso sublinhar, como faz Jessé Souza, que o “lucrocentrismo” que domina nosso capitalismo selvagem e concentrador é  corrupção institucionalizada, um fenômeno que só se agrava quando a economia torna-se desregulada – como explicam, em épocas diferentes, Karl Polanyi, Stiglitz, Piketty. Cabe a nós colocar os pontos de interrogação bem no fundo e perguntar: será que o capitalismo não é intrinsecamente corruptor? Não tende sempre a agravar a concentração de capitais e poderes nas mãos da aquela minúscula elite que o movimento Occupy Wall Street cognominou, com justeza, o “1%”?

A Tolice da Inteligência Brasileira

“Esse ‘conto de fadas para adultos’, como todo conto de fadas, infantiliza, distorce o mundo e nos faz de tolos por não termos mais 5 anos de idade. A simples ideia da separação entre mercado e Estado é absurda. Os dois formam, afinal, um complexo único, dependente um do outro. Não existem, por exemplo, contratos válidos no mercado – e todos os atos do mercado são contratuais – sem que o Estado forneça o aparato de Justiça e de repressão para obrigar o cumprimento contratual. Por outro lado, o Estado depende da produtividade do mercado para sua receita fiscal. Um não existe sem o outro. Antes de tudo, não há corrupção sistemática no Estado sem que seja provocada por interesses de mercado. Aqui não tem ‘santinho’ nem ‘virtuoso’.

(…) É vontade dos ‘endinheirados’ que todas as dimensões da vida social fiquem à mercê do interesse de lucro. É para isso que serve o conto de fadas do mercado virtuoso e do Estado corrupto e ineficiente. Assim, podem-se concentrar fatia desproporcional do PIB brasileiro em ganhos de capital, cuja parte do leão vai para o bolso dos endinheirados que perfazem menos de 1% da população, ficando uma pequena parte para a enorme maioria da população que vive de salários.

Na verdade, o mercado capitalista, aqui e em qualquer lugar, sempre foi uma forma de ‘corrupção organizada’, começando com o controle dos mais ricos acerca da própria definição de crime: criminosos passa a ser o funcionário do Estado ou o batedor de carteiras pobre enquanto o especulador de Wall Street – a matriz da avenida Paulista – que frauda balanços de empresas e países e arruína o acionista minoritário, embolsa, hoje mais que antes da crise, bônus milionários. Enquanto os primeiros vão para a cadeia, o segundo, que às vezes arrasa a economia de países inteiros, ganha foto na capa da revista The Economist como financista do ano.” (SOUZA: 2015, p. 244-247)

Dentre os contos de fada para adultos mais famosos, para além das religiões instituídas no mercado das crendices, há o famoso “mito nacional”. Não importa se é verdadeiro ou ilusório o mito nacional, ele foi forjado para ter uma eficácia prática, produzir uma certa solidariedade social, forjando uma unidade entre aqueles que, no nosso caso, calharam de nascer neste território que historicamente foi delimitado e batizado Brasil, o mais gigantesco Estado Nacional da América Latina.

O mito nacional, inspirador dos sentimentos de nacionalismo (que se manifesta também como narcisismo nacionalista ferido, por exemplo quando nos sentimos humilhados como nação ao apanhar de 7 a 1 da Alemanha na Copa de 2014), não cessa de ser mobilizado hoje em dia. E esta velharia mofada que é Ordem e Progresso, mote positivista de Augusto Comte, salta da tumba como merchandising (por sinal, péssimo!) do governo golpista de Temer e seus consortes.

“O mito nacional não se reduz ao seu valor como verdade”, explica Jessé. “Ao contrário, fundamental é seu papel produtor de solidariedades que permitem que sociedades concretas enfrentem guerras, crises e até guerras civis sem se destruir como nação, e até saiam fortificadas desses desastres. A virtude da identidade nacional é, portanto, pragmática, pois serve a uma função fundamental como conto de fadas para adultos, cumprindo papel semelhante ao das antigas religiões mundiais.” (SOUZA: p. 45)

Lendo isso, não pude evitar que surgissem na memória algumas cenas recentes da história do país, em que viu-se a Avenida Paulista tomada por dezenas de milhares de manifestantes, vestidos de verde-e-amarelo (camisetas da corruptíssima CPF!), portando bandeirolas do Brasil, muitos dos quais talvez acreditassem piamente que estavam prestando um serviço cívico à nação ao apoiarem o impeachment de Dilma Rousseff, como se a derrubada da presidenta, mesmo sem crime de responsabilidade e através de golpe parlamentar, fosse a panacéia para o lodaçal em que nos encontramos nesta interminável crise política. Agora descobrem, caso não sejam completamente tapados e vidiotas, que a dinossáurica elite plutocrática é quem está assaltando o poder e golpeando-nos (“nós, os 99%”!).

Concretizado o afastamento da presidenta após as votações na Câmara e no Senado, estas massas de “coxinhas”, especialistas em papaguear a indignação seletiva da mídia interesseira cognominada P.I.G. (apelido suíno que faz plena justiça a seus serviços porcos de emporcalhar democracia!), calaram-se com suas panelas nas varandas gourmet. Estas massas de manobra da nossa Direita golpista e interesseira simplesmente sumiram das ruas, ainda que os escândalos de corrupção só tenham se multiplicado desde que Temer virou o interino e depois o presidente (apesar de ficha-suja e inelegível por 8 anos, é bom lembrar).

Para além da cusparada cheia de catarro que foi dada sobre a imensa maioria da população brasileira com a escolha de seu Sinistério – que não representa as mulheres, os jovens, os negros, os índios, os gays (não representa ninguém senão homens brancos, velhos e endinheirados!) – o golpismo temerário logo explicitou seu desejo de prosseguir com o plano da privataria, a começar pela Petrobras e pelo pré-sal. Entreguismo pouco é bobagem. Deu facadas no coração do SUS, do Bolsa Família, do MinC, do Mais Médicos. Arreganhou os dentes de seu fascismo, de sua oposição a qualquer projeto de país mais utópico onde tivessem lugar a democratização da dignidade e uma inclusão social ampla e solidária. Como “cereja” de seu bolo – ou melhor, como bomba atômica de sua blitzkrieg – preparou a PEC 241 / 55, verdadeiro genocídio planificado, que com o congelamento de investimentos públicos na saúde e na educação pretende bombardear a qualidade de vida, já muito abaixo da dignidade, daqueles que no Brasil são os milhões de pessoas mais vulneráveis e oprimidas.

Na mesma época em que até o FMI admite que o neoliberalismo foi um fracasso e que preparam-se novas edições dos laboratórios de outros-mundos possíveis (como o Fórum Social Mundial, ocorrido em Agosto de 2016 em Montréal, Québec), estes dinossauros da política institucionalmente corrompida querem impor-nos a Doutrina do Choque sobre os escombros de uma democracia achincalhada. Uma democracia atingida no peito pelos atentados conjuntos perpetrados pelo empresariado (o pato da Fiesp é um psicopata!), pelos magnatas do  P.I.G. e suas marionetes, pelos partidos plutocráticos como o PMDB, o PSDB e o DEM, pela Bancada BBBB (Boi, Bíblia, Bala, Banco), para não falar da “base social” do Golpe, seus apoiadores na sociedade civil, uma gente que não compreenderemos  bem só por termos apelidado de coxinhas.

 Jessé Souza fornece pistas importantes para compreender o papel das chamadas classes médias em nossa atual desventura coletiva, explanando um pouco a “genealogia do Coxinato”, este setor proto-fascista das classes médias e altas que desempenha papel chave no Golpe. Se compreendi bem, o sociólogo estabelece distinções, na pirâmide social do Brasil, entre pelo menos 4 “estamentos”: na base da pirâmide está a “ralé”, os excluídos e marginalizados, aquilo que alguns chamam de lumpen ou de subproletariado; mais acima estão aqueles trabalhadores que, apesar de pobres, são apelidados por Jessé como “batalhadores”, aqueles que cumprem devidamente suas funções sociais em seus empregos assalariados e que a duras penas ascendem socialmente ainda que não tenham nascido com privilégios de berço; subindo mais alguns degraus, encontraríamos a tal classe média oficial, a velha classe média; por cima dela (literalmente) amacaca-se no tope a famigerada elite, plutocrática, golpista, proto-fascista (aquela que, nas pesquisas de intenção de voto, tem predileção por Jair Bolsonaro…).

É que o Brasil mudou um bocado desde a eleição de Lula e os 13 anos de PT na presidência geraram um fenômeno sociológico que estarrece – e que teve na obra de André Singer, Os Sentidos do Lulismo, uma das mais importantes contribuições à compreensão: falo da  ascensão social de mais de 40 milhões de pessoas, que teriam formado uma suposta nova classe média (tanto Jessé Souza quanto Marilena Chauí irão contestar a nomenclatura, sem negar a efetiva ascensão de classe):

“Essa suposta nova classe média, como foi apelidada no discurso oficial triunfalista do governo e da mídia brasileiros, refere-se à efetiva ascensão social de cerca de 40 milhões de brasileiros, que não só tiveram um aumento de renda, mas também levou a que cerca de metade deles entrasse no mercado formal, com proteção de leis trabalhistas, previdenciárias e sociais. Esta foi, sem qualquer dúvida, a melhor notícia dos 10 anos de elevado crescimento econômico do Brasil entre 2002 e 2012. Pela primeira vez em muitas décadas, o crescimento econômico beneficiou também os setores populares da sociedade brasileira. Políticas redistributivas, como o Bolsa Família, que beneficia mais de 46 milhões de pessoas, aliadas ao aumento real do salário mínimo em cerca de 70%, a políticas de microcrédito e de facilidades ao crédito de modo geral, além de políticas tópicas de acesso à educação superior para a população mais pobre, fortaleceram a base da pirâmide social brasileira e operaram importantes mudanças morfológicas na estrutura de classes da sociedade brasileira contemporânea. Isso comprova que não existe classe condenada para sempre e que condições econômicas e políticas favoráveis podem desempenhar papel decisivo.

A confusão implicada na denominação desta classe como ‘nova classe média’ reflete a influência dos discursos liberais que confundem ‘classe social’ com ‘faixa de renda’. Na realidade esta ‘nova classe média’ não possui quaisquer dos privilégios de nascimento das classes médias e altas. Ao contrário, seus membros típicos tem que trabalhar desde cedo, frequentemente já aos 11 ou 12 anos, e conciliar escola e trabalho. Muitos são também super-explorados com jornadas de trabalho de até 14 ou 15 horas por dia, acumulando mais de um emprego e fazendo ‘bicos’ de fim de semana… As condições de trabalho e de exploração dessa mão de obra a aproximam muito do patamar de uma classe trabalhadora precarizada, típica da fase atual do capitalismo sob hegemonia do capital financeiro.” (SOUZA: p. 209)

Esta distinção me parece interessante: existe uma velha classe média, com privilégios de berço, convivendo com estes cerca de 40 milhões de pessoas da classe trabalhadora e da ralé que vivenciaram a efetiva ascensão social propiciada pelos programas sociais do governo Lula, que até seus mais encarniçados detratores admitem que foi capaz de gerar “expansão do emprego formal com carteira assinada, potencial de mobilidade ascendente acompanhado de inclusão no mercado de bens de consumo e diminuição da abissal desigualdade brasileira”, com “ganhos de salário real e aumento real do salário mínimo, por um lado, e o sucesso do Bolsa Família e do microcrédito, por outro, compreendidos como elementos decisivos.” (p. 222)

Apesar do avanço conservador e golpista, ilude-se quem pensa no lulismo como força histórica derrotada, muito pelo contrário: todas as pesquisas de intenção de voto colocam Lula como franco favorito para uma hipotética eleição em 2018, sinal de que há ainda uma base social enorme fiel a este projeto de inclusão social que logrou, se confiarmos no Instituto Lula, transformar a pirâmide social em um losango.

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II. FALÁCIAS DA MERITOCRACIA E ÓDIO À DEMOCRACIA

Mas engana-se quem pensa que a velha classe média simplesmente acolheu de braços abertos, e com jovial hospitalidade, os recém-chegados “batalhadores” das classes trabalhadores que lograram ascender socialmente: uma fração considerável da velha classe média permanece aferrada à sua arrogância e seu elitismo, desejando ver-se novamente separada da ralé por um abismo de desigualdade. Esta classe média reacionária, que flerta com o fascismo, que aplaude Fleurys, que votaria em Bolsonaro, que apoiou o Golpe quando este tinha em seu leme delinquentes como Eduardo Cunha e Aécio Neves, tem como uma de suas ideologias de estimação a meritocracia. 

A meritocracia, ou ideologia do mérito individual, prega que cada um está onde merece na pirâmide social. Trata-se de uma construção falsificadora que procura fazer com “que o privilégio apareça como merecido” e é “a forma especificamente capitalista e moderna de legitimação da desigualdade social” (p. 228), como diz Jessé. A velha classe média apega-se a este ídolo da meritocracia para poder esquecer, ou cegar-se voluntariamente, quanto à exploração bárbara da ralé que sustenta toda a estrutura de privilégios injustos de que gozam as classes possidentes:

“A ralé – ainda que as fronteiras entre as diversas classes populares na realidade concreta sejam na imensa maioria dos casos muito fluida – pode ser definida, para fins analíticos, como a classe ‘abaixo’ da clase trabalhadora. Isso não significa, obviamente, que esta classe também não seja explorada. Ela o é de modo inclusive muito mais cruel, já que é jogada nas ‘franjas do mercado competitivo’, condenada a exercer todos os trabalhos mais duros, humilhantes, sujos, pesados e perigosos. As classes do privilégio exploram esse exército de pessoas disponíveis a fazer quase de tudo. O motoboy que entrega pizza, o lavador de carros, o trabalhador que carrega a mudança nas costas, a prostituta pobre que vende o corpo para sobreviver, ou o exército de serviçais domésticos que fazem a comida e cuidam dos filhos das classes média e alta, que, assim, podem se dedicar a estudos ou trabalhos mais rentáveis.

É este tempo ‘roubado’ de outra classe que permite reproduzir e eternizar uma relação de exploração que condena uma classe inteira ao abandono e à humilhação, enquanto garante a reprodução no tempo das classes do privilégio. Luta de classes não é apenas a greve sindical ou a revolução sangrenta nas ruas que todos percebem. Ela é, antes de tudo, o exercício silencioso da exploração construída e consentida socialmente. (…) A noção superficial e triunfalista de ‘nova classe média’, ao reduzir as classes à sua renda, simplesmente esquece o principal: as relações de dominação que fazem com que alguns monopolizem todos os privilégios enquanto outros são excluídos.  Procuramos, sem deixar de reconhecer as conquistas e a ascensão social de tantos, mostrar o sofrimentos e a luta diária de quem ascende sem possuir qualquer dos privilégios de nascimento da verdadeira classe média.

As classes médias são classes do privilégio no mundo todo. Como toda classe privilegiada, a classe média tem interesse em esconder as causas do privilégio injusto. Ao contrário da classe dos ‘endinheirados’, acima dela, cujo prestígio se baseia no monopólio do capital econômico, o privilégio da classe média se baseia na apropriação de capital cultural altamente valorizado e indispensável para a reprodução de mercado e Estado. Este tipo de capital se materializa, por exemplo, no conhecimento oferecido nos cursos universitários de prestígio, nas pós-graduações, no conhecimento de línguas estrangeiras etc.  Mais importante ainda é perceber que o capital cultural não é formado apenas por títulos escolares, mas, antes de tudo, pelo aprendizado na socialização familiar, desde tenra idade, de certas ‘disposições invisíveis para o comportamento competitivo’. (…) A classe média tende a se acreditar como a classe do milagre do mérito individual, conquistado pelo esforço, e não por privilégios de nascimento. A classe média é a classe da meritocracia por excelência, retirando dessa falácia sua ‘dignidade’ específica.

Max Weber percebia claramente que todas as classes dominantes em todo lugar e em todas as épocas não querem apenas usufruir os privilégios que são a base de sua felicidade, querem também saber que ‘têm direito aos privilégios’. Assim, é necessário tornar invisíveis todos os privilégios de nascimento… garante-se a boa consciência do privilegiado, que passa a achar que tem ‘direito’ a prestígio, reconhecimento e melhores salários e a culpar as vítimas, de um processo social que torna invisível a injustiça, por sua própria miséria e sofrimento, como se fosse possível ‘escolher’ ser humilhado e pobre.” (SOUZA: p. 232-233-240-241)

A ideologia da meritocracia é uma falácia que serve para justificar e naturalizar o apartheid social e a desigualdade obscena, que são produtos históricos e não ditames divinos ou fatalidades inexoráveis. Aquele que procura justificar sua posição de classe privilegiada apelando para seu mérito pessoal está ocultando as raízes sociais que produzem e reproduzem sistematicamente as desigualdades ao instituírem, por exemplo, os acessos diferenciais à apropriação do capital cultural (conceito desenvolvido com maestria por Bourdieu).

Não se trata somente de mérito individual quando alguém já nascido nas classes médias ou alta “conquista” um lugar ao sol – digamos: uns 25.000 reais de salário mensal, com muita sombra e água fresca – pois tem doutorado, pHd e Lattes bombadão – esta “história de sucesso” decorre de privilégios de nascimento, de acessos à formação de que vastos contingentes da população estão excluídos, de caminhos que só puderam ser trilhados pois outros trabalhadores, da chamada ralé, laboravam duramente em trampos braçais e mecânicos para que os supostamente meritórios membros da elite cultural pudessem, de bundas confortavelmente sentadas na cadeira, estudar e se diplomar, conquistando os prestígios decorrentes da apropriação bem-sucedida dos capitais culturais valorizados no mercado.

“Afinal, tanto no Brasil quanto na Alemanha ou na França a naturalização da desigualdade é possível pela sutil violência da ideologia da meritocracia. (…) Como explica Bourdieu, a ideologia da meritocracia esconde sistematicamente a produção social dos desempenhos diferenciais entre os indivíduos, tornando possível que o desempenho diferencial apareça como diferença de talentos inatos. Na sociedade moderna os indivíduos creem em uma igualdade de oportunidades para quem ‘realmente quer vencer na vida’, mas também isso é, na enorme maioria dos casos, já pré-decidido por vantagens acumuladas desde o berço. A ideologia da meritocracia, que resulta desta crença ingênua, transforma constantemente privilégio social em ‘talento individual’. ” (SOUZA: p. 154-197)

A obra de Jessé Souza tem o poder de desvelar os mecanismos da ideologia da meritocracia como violência simbólica praticada pelos privilegiados contra os despossuídos e explorados. Trata-se de esconder o processo de produção dos privilégios injustos para que estes apareçam, ilusoriamente, como méritos meramente individuais – algo muito próximo da doutrina yankee do self-made man, famosa entre nós também sob o nome de “empreendedorismo”. O grande problema da falácia meritocrática é que ela tende a culpar as vítimas da desigualdade social institucionalizada e a estigmatizar aqueles que são desprovidos de capital econômico como indignos, como subgente, processo que Jessé analisa em outra de suas obras, A Construção Social da Subcidadania.

A ideologia meritocrática pode conduzir a um “racismo de classe”, ou seja, a noção elitista e egocêntrica, nutrida por classes privilegiadas, de que elas são melhores, mais competentes, mais inteligentes, mais humanas, do que a ralé ignorante, preguiçosa, que bem merece viver em favelas, em comunidades sem saneamento básico, com acesso precário (ou nulo) à saúde e educação de qualidade. O defensor da meritocracia é normalmente aquele sujeito que, dentro de seu BMW ou Mercedes Benz blindado, dirige pelas ruas de uma metrópole achando-se superior ao povão que está, segundo o ricaço, justamente condenado a ficar espremido no busão e a receber salários de fome ainda que levante às 5 da manhã e volte pra casa só às 10 da noite.

Intimamente conectada à ideologia maniqueísta e simplista que presume um Livre Mercado (virtuoso) oposto a um Estado do Mal (ineficiente, corrupto, que deveria simplesmente privatizar tudo e entregar a gestão social aos empresários e aos consumidores!), a meritocracia é um desses contos-de-fada para adultos que dissemina cegueira e nos impede de enfrentar os desafios para uma efetiva democratização da dignidade. Demonizar o Estado de nada nos serve, já que ele é a única instância institucional com capacidade de regular, controlar, coibir e punir os excessos criminosos, as corrupções lesivas ao bem público, cometidas em tenebrosas transações mercadológico-políticas.

Tampouco o ingênuo anarquismo que pretende aniquilar totalmente o Estado parece-me realista: os sistemas públicos de saúde e educação, por exemplo, devem ser extintos? Os programas sociais de redistribuição de renda devem ser abolidos simplesmente pois são estatais? Um certo anarquismo aproxima-se perigosamente do neoliberalismo em seu anti-estatismo radical, que corre o risco de fazer o jogo que interessa aos anarco-capitalistas, os que desejam o lucrocentrismo sem freios.

O Estado pode ser inclusivo ou excludente; pode trabalhar em prol do bem comum da comunidade e todos seus membros, ou praticar alianças plutocráticas que favoreçam somente certas classes do privilégio. Que a tendência do Estado seja transformar-se, de modo recorrente, em instrumento de dominação de classes e balcão de negócios da burguesia, não me parece justificar a defesa de uma destruição total da utopia de um Estado como gestor do bem público, devotado ao bem comum.

Vivemos, porém, em tempos sombrios, em que parece que a democracia é mais um valor ou utopia do que realidade efetiva. Tempos que, para lembrar o título de um livro de Jacques Rancière, são de Ódio à Democracia. A aristocracia odeia a democracia direta e a participação política; mas a esquerda também às vezes odeia a democracia e prega a liderança das vanguardas iluminadas que conduzem o povo a um melhor amanhã (um dirigismo que ameaça aniquilar autonomia e manter o coletivo na servidão). O poderio dos mais ricos – oligarquia – procura travestir-se com as nobres vestes do mérito, o que veio dar no aristocratismo da meritocracia de que falamos há pouco. Sobre isto, Rancière escreveu palavras que eu subscrevo:

“Em 1963, Hannah Arendt ainda via na forma revolucionária dos conselhos o verdadeiro poder do povo, na qual se constituía a única elite política efetiva, a elite autosselecionada no território daqueles que se sentem felizes em se preocupar com a coisa pública. (…) A democracia, longe de ser a forma de vida dos indivíduos empenhados em sua felicidade privada, é o processo de luta contra essa privatização, o processo de ampliação dessa esfera. Ampliar a esfera pública não significa, como afirma o chamado discurso liberal, exigir a intervenção crescente do Estado na sociedade. Significa lutar contra a divisão do público e do privado que garante a dupla dominação da oligarquia no Estado e na sociedade.” (RANCIÈRE, Boitempo:2014, p.69- 72)

A luta de classe, longe de ter sido abolida pelo propugnado mas nunca acontecido Paraíso Capitalista e “fim da História”, a luta de classes na real está pegando fogo, mundo afora (vejam a França e o Nuit Debout!), agora em escala global: Plutocracia vs Precariado vão digladiar num planeta que talvez possamos mudar de nome, conforme os termômetros esquentam (e não haverá Papa que os pare!), fazendo recurso a Mike Davis – que chamou-o de Planet of Slums ou Planeta Favela. Ou então podemos apelas a um re-batismo poético: que tal nos inspirarmos em T. S. Eliot e mudar o nome do planeta de Earth para Wasteland? Bem-vindos à Devastolândia (tradução de Leminski para a Wasteland de Eliot…)!

Rio Doce

“O fotógrafo Gabriel Lordêllo, parceiro do Instituto Últimos Refúgios, sobrevoou o Rio Doce 7 mêses após o início da tragédia causada pelo rompimento da barragem da Samarco em Bento Rodrigues/MG. O objetivo era registrar como está a situação atual deste que foi um dos maiores crimes ambientais da história do país. O sobrevoo começou em um trecho de Linhares/ES e foi até Governador Valadares/MG. Ainda é possível observar rejeitos descendo o rio.”

III. DEMOCRACIA NA UTI

Um sinal de que a democracia, ainda que esteja na UTI, ainda não foi mandada ao cemitério de vez, é o fato de que no Brasil ainda exista uma certa margem de liberdade de expressão e de imprensa que permite que um vozerio se erga, nas redes e nas ruas, para denunciar o ataque à democracia. Nada seria mais enganador que supor que a democracia é um valor universalmente louvado, isto é, que todo mundo tem consenso sobre a democracia ser o melhor sistema de governo – ou ao menos o menos pior.

A instauração do regime militar após o coup d’État de 1964 acarretou um tal sufocamento da democracia que, para denunciar a ditadura e permanecer livre da tortura ou do presídio, artistas tinham que recorrer a sutis subterfúgios poéticos. É Chico Buarque não ousando dizer o “cale-se” em aberto, mas referindo-se à cultura do autoritarismo silenciador em sua “Cálice”. Ou é aquela famosa “tarde que caía feito um viaduto”, em O Bêbado e a Equilibrista de Aldir Blanc e João Bosco, célebre na voz de Elis Regina, que era metáfora “para falar de uma obra super faturada, com material inferior, que desabou.” (KARNAL, Leandro)

Sintoma de que a ditadura ainda não voltou de vez é que possamos, ao menos na blogosfera e nas redes sociais, ao menos em comícios e passeatas, marchas e assembleias, denunciar o processo, a meu ver justamente cognominado O Golpe, em curso neste país que ainda não soube tirar a sabedoria necessária de seus trágicos erros do passado (um exemplo: a Comissão Nacional da Verdade ficou longe de tornar-se comoção nacional ou oportunidade para aprendizado coletivo sobre os rumos passados e potencialidades futuras deste território que chamamos Brasil).

O autoritarismo das elites manifesta-se em 2016 com a voracidade e a fúria de que já demonstrou-se tão capaz em outras oportunidades históricas, tudo em prol da instauração de um regime que é benesse pra privilegiado austeridade para o resto. O 1%, camaradas, está escarrando em nossa cara. E chocando o ovo de serpente do fascismo redivivo.

Um livro que adorei ler recentemente, e que me parece preciosa contribuição aos debates contemporâneos sobre a democracia, é de David Graeber: no capítulo A História oculta da democracia, o antropólogo estadunidense e ativista do movimento Occupy Wall Street revela o quanto a democracia já foi demonizada, vista como inimiga, temida como um pesadelo, através da História, em especial pelas classes dominantes ciosas de defender sua posição no status quo:

democracyproject

“A maior parte da população desconhece o fato de que a Declaração de Independência e a Constituição [dos EUA] não mencionam que os Estados Unidos sejam uma democracia. (…) A maioria dos Pais fundadores aprendeu tudo o que sabia sobre o tema da democracia por meio da tradução de Thomas Hobbes para o inglês da História, de Tucídides, um relato sobre a Guerra do Peloponeso. A tradução pretendia ser um alerta de Hobbes sobre os perigos da democracia… Os Fundadores usavam a palavra no sentido grego antigo, que é o de autogoverno comunitário por meio de assembleias populares. Era o que hoje chamaríamos de ‘democracia direta’.” (GRAEBER: Um Projeto de Democracia. Paz e Terra: 2015, p. 160.)

Graeber na sequência explica que os EUA não nasce como democracia, mas sim como um república de molde emprestado à Roma Antiga e que os norte-americanos herdaram dos britânicos colonizadores. Trata-se de um sistema político que funciona pelo sistema da representação: “na Inglaterra remontava, pelo menos, ao século XIII. Por volta do século XV, tornou-se uma prática padrão que os homens com posses escolhessem seus representantes parlamentares mandado seus votos ao xerife.” (p. 161)

Quando se diz “homens de posses”, deve-se atentar para o princípio de exclusão que aí se manifesta: não é permitida a participação de mulheres, nem de pobres. Quem assistiu ao filme Sufraggette sabe que o voto feminino é uma dura conquista que só virá no Reino Unido ao raiar do século XX. As eleições eram portanto, no berço da democracia anglo-saxã de inspiração romana,

“consideradas uma extensão do sistema de governo monárquico, já que os representantes não tinham poderes para governar. Eles não governavam nada, coletiva ou individualmente; seu papel era falar em nome (‘representar’ os habitantes de seu distrito diante do poder soberano do rei, para oferecer conselhos, expressar queixas e, acima de tudo, entregar os impostos de sua região). (…) A ideia, que nasceu nos Estados Unidos, de dizer que o povo pode exercer poder soberano – o poder antes exercido por reis – votando em representantes com real poder para governar, foi uma invenção reconhecidamente inovadora.” (p. 161)

 A democracia representativa, que só permite que sejam eleitos aqueles com dinheiro, poder e prestígio, restringe a atuação política às classes privilegiadas, detentoras de capital econômico ou cultural. Esta pseudo-democracia, mais próxima de uma oligarquia, sempre teve pavor da democracia direta, ou seja, do poder popular ou comunitário. O medo da democracia, a noção de que é muito perigoso permitir às maiorias que tenham voz e vez, é muito bem exemplificada por Graeber a partir de John Adams, que argumentou:

“Se tudo fosse decidido pelo voto da maioria, os 8 ou 9 milhões de pessoas que não têm propriedades não pensariam em usurpar os direitos dos 1 ou 2 milhões de pessoas que têm? (…) A primeira coisa seria a extinção das dívidas; depois, pesados impostos recairiam sobre os ricos e absolutamente nenhum sobre os demais; e, finalmente, uma divisão absolutamente igual seria exigida e votada. Qual seria a consequência disso? O ocioso, o vicioso, o destemperado não perderia tempo em adotar uma vida de indulgência plena, venderia e gastaria todo o seu quinhão, e logo exigiria uma nova divisão… No momento em que ideia de que a propriedade não é tão sagrada quanto as leis de Deus e de que há uma força de lei e uma justiça pública capazes de protegê-la é admitida na sociedade, a anarquia e a tirania se iniciam.” (apud GRABER: p. 168)

A democracia, longe de ser amada e idolatrada, costuma ser desprezada, temida, evitada, vilipendiada e obstaculizada por classes privilegiadas que a retratam como caos, falta de ordem, turbulento reinado da turba ignara. Tanto que o cientista político canadense Francis Dupuis-Déri (da UQAM-Montréal)

“mapeou cuidadosamente o modo como a palavra ‘democracia’ foi usada por grandes figuras políticas nos Estados Unidos, na França e no Canadá durante os séculos XVIII e XIX, e descobriu, em todos os casos, exatamente o mesmo padrão. Quando a palavra começou a ser usada com alguma frequência, entre 1770 e 1800, foi empregada quase exclusivamente em sentido vexatório e ofensivo… era vista como anarquia, falta de governo e caos sem controle.” (p. 169)

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De Francis Dupuis-Déri

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Na sequência, convido a todos que leiam um trecho de UM PROJETO DE DEMOCRACIA – de David Graeber (Baixe o scan do livro em PDF, 30 mb:http://bit.ly/1OXbpNB)

“No mesmo dia do bloqueio da ponte do Brooklyn, em 2 de outubro de 2012, o Occupy Wall Street recebeu uma mensagem assinada por 50 intelectuais e ativistas chineses:

‘A erupção da Revolução de Wall Street no coração do império financeiro do mundo mostra que 99% das pessoas do planeta continuam a ser exploradas e oprimidas – independentemente de seres de países desenvolvidos ou em desenvolvimento. Pessoas de todo o mundo têm sua riqueza saqueada e seus direitos confiscados. A polarização econômica é hoje uma ameça comum a todos nós. O conflito entre o poder popular e o poder da elite está presente em todos os países. Agora, no entanto, a revolução democrática popular encontra repressão não só por parte de sua própria classe dominante, mas também da elite mundial que se formou com a globalização. As brasas da revolta estão espalhadas entre todos nós, esperando para queimar com a mais leve brisa. A grande era da democracia popular, que vai mudar a história, está entre nós novamente!’

Os intelectuais chineses dissidentes, assim como a maioria das pessoas no mundo, encararam o que aconteceu no Parque Zuccotti como parte de uma onda de resistência que varria o planeta. Estava muito claro que o aparato financeiro global, e todo o sistema de poder sobre o qual foi construído, estava cambaleando desde seu quase colapso em 2007-2008. Todos esperavam a reação popular. As revoltas na Tunísia e no Egito foram o início? Ou tratava-se de situações estritamente locais ou regionais? Então elas começaram a se espalhar. Quando a onda atingiu o ‘coração do império financeiro mundial’ ninguém mais podia duvidar de que algo memorável estava acontecendo.

O Occupy foi e continua a ser em sua essência um movimento de jovens voltados para o futuro, mas que ficaram completamente paralisados pela dívida. Agiram conforme as regras e assistiram à classe financeira desobedecê-las por completo, destruir a economia mundial com especulação fraudulenta, depois ser salva pela imediata e maciça intervenção governamental e, como resultado, exercer um poder ainda maior e ser ainda mais reverenciada do que antes. Enquanto isso, eles ficaram relegados a uma vida de permanente humilhação.

Especialistas em contrainsurgência dos Estados Unidos sempre souberam que o prenúncio mais provável de efervescência revolucionária em qualquer país é o crescimento da população universitária desempregada e empobrecida, ou seja, jovens cheios de energia, com muito tempo disponível, com acesso a toda a história do pensamento radical e com todos os motivos do mundo para estarem furiosos.”

DAVID GRAEBER é um ativista norte-americano, professor de antropologia da London School of Economics, e este é um trecho de seu livro “Um Projeto de Democracia – Uma História, Uma Crise, Um Movimento” (Rio: Paz e Terra, 2013, pg. 78, 84-85)

 Eduardo Carli de Moraes – Goiânia, 2016
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[#Ebooks] “A invisibilidade da desigualdade brasileira”, Jessé Souza (org.), Ed. UFMG

JESSÉ SOUZA (org.) – “A invisibilidade da desigualdade brasileira” (2006, UFMG, 396 pgs).
Baixar PDF do livro completo (9 mb)

Na sequência, texto de Emerson F. Rocha no site do Ipea:

“A Invisibilidade da Desigualdade Brasileira”, publicado em 2006 pela editora UFMG, é o livro em que o organizador e autor de cinco artigos no mesmo livro, Jessé Souza, explicita e radicaliza seu posicionamento crítico no campo das Ciências Sociais brasileiras e inaugura suas experiências de pesquisas teóricas e empíricas coletivas com o grupo de pesquisadores do Cepedes (Centro de Pesquisas sobre Desigualdade Social) também fundado em 2006.

Partindo do seu diagnóstico original, proposto em “A Construção Social da Subcidadania”, publicado em 2003 pela mesma editora, sobre a sociedade brasileira enquanto caso paradigmático de modernidade periférica, o autor revela a fragilidade dos pressupostos teóricos das duas mais prestigiadas propostas de interpretação sobre a especificidade da sociedade brasileira diante dos países de capitalismo mais avançado: a teoria do personalismo e a teoria do patrimonialismo ou neo-patrimonialismo.

Jessé Souza mostra que essas duas teorias constituem, na verdade, variações de uma única teoria hegemônica, uma vez que compartilham dos mesmos pressupostos culturalistas essencialistas baseados na tese de uma singularidade absoluta da cultura brasileira. O Brasil teria desenvolvido uma sociabilidade única no planeta baseada na emotividade e sentimentalidade pré-moderna – suposto produto histórico de uma herança ibérica percebida como imutável – por oposição ao cálculo e à racionalidade típicas da modernidade. Quer se perceba essa singularidade em termos positivos, como no personalismo de Freyre ou Darcy Ribeiro, ou se perceba a mesma singularidade em termos negativos – como nosso mal de origem e causa de uma suposta tendência inata do povo brasileiro, especialmente no Estado, à corrupção – como acontece nos teóricos do patrimonialismo, especialmente em Sérgio Buarque, Raimundo Faoro ou Roberto da Matta, o importante é perceber que ambas versões compartilham dos mesmos pressupostos apenas com sinal trocado.

O que o autor chama de “teoria emocional da ação” é precisamente um tipo de explicação social anacrônica e superficial que não consegue nem compreender o dinamismo do Brasil moderno, nem as efetivas causas da abissal desigualdade social brasileira. O núcleo da crítica do autor, desenvolvida ao longo dos cinco textos que assina nessa coletânea, é que essas explicações, até hoje dominantes entre nós, são simples adaptações do mito nacional brasileiro à explicação científica. O mito do povo emotivo e caloroso serviu e serve para produzir solidariedades pragmáticas. Esses “contos de fadas para adultos”, como diz Jessé, são importantes na sua dimensão política. A ciência, por outro lado, deveria precisamente se distanciar desses “contos de fadas” do senso A Invisibilidade da Desigualdade Brasileira comum para criticar a realidade e suas certezas aparentes. Afinal, o núcleo desses consensos sociais inarticulados esconde precisamente as práticas que escondem conflitos latentes e reproduzem esquemas de perpetuação de privilégios espúrios. O tema do patrimonialismo é extremamente sugestivo nesse sentido. Ao simplificar e falsear a ambivalência constitutiva das instituições modernas e perceber o mercado como reino de todas as virtudes e o Estado como reino da corrupção e da ineficiência, a tese patrimonialista concentra todo o conflito na falsa oposição entre mercado e Estado e esconde todos os reais conflitos sociais brasileiros que sequer são “percebidos” como conflito. Não só o debate acadêmico, mas também o debate público político que se empobrece numa oposição “novelesca” entre “honestos” e “corruptos” quando a dor e o sofrimento reais de parcelas significativas da população, socialmente produzidos, se tornam invisíveis e sequer percebidos como problema.

O restante dos textos do livro, de colaboradores do Cepedes ou de pesquisadores comprometidos com uma percepção crítica da realidade brasileira, procura aprofundar, teórica ou empiricamente, precisamente os diversos conflitos sociais de classe, raça e gênero tornados invisíveis pela escolhas conceituais dos culturalismos dominantes. A maior parte dos textos se concentram, portanto, em tornar visível uma classe social de perdedores cuja função é prestar serviços pessoais e desvalorizados – domésticos, sexuais e pesados – às classes privilegiadas. É essa “luta de classes” cotidiana que é escondida pela manipulação política de falsas oposições. Os temas da raça e do gênero se acrescentam a essa reconstrução dos conflitos efetivos e reais, também segundo uma nova perspectiva. O drama do racismo não deve implicar esconder a dominação de classe como acontece hoje em dia entre nós. O sexismo tem raízes muito mais profundas, como indica a educação para a iniciativa nos homens e a educação para o medo nas mulheres, do que a simples repartição “politicamente correta” do trabalho doméstico.

Ainda que vários destes temas tenham sido explicitados e aprofundados no livro “A ralé brasileira: quem é e como vive?” (2009), o conjunto de artigos que compõem o referido livro já reflete a intenção de reconstrução empírica, segundo um quadro teórico crítico e inovador, dos conflitos socais esquecidos pela dominância, no debate brasileiro contemporâneo, de paradigmas conservadores ou pseudocríticos.


Emerson F. Rocha
http://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=1835%3Acatid%3D28&Itemid=23

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A Tolice da Inteligência Brasileira

 

Construção Social da Subcidadania - COMPAR NA ESTANTE VIRTUAL

A Construção Social da Subcidadania 

“QUEM DEU O GOLPE, E CONTRA QUEM?” – por Jessé Souza

“QUEM DEU O GOLPE, E CONTRA QUEM?”

 por Jessé Souza, sociólogo, professor da UFF (RJ), presidente do Ipea Instituto de Pesquisa, em artigo para a Ilustríssima da Folha de S.Paulo

O golpe foi contra a democracia como princípio de organização da vida social. Esse foi um golpe comandado pela ínfima elite do dinheiro que nos domina sem ruptura importante desde nosso passado escravocrata.

O ponto de inflexão da história recente do Brasil contra a herança escravocrata foi a revolução comandada por contraelites subordinadas que se uniram em 1930.

A visão pessoal de Getúlio Vargas transformou o que poderia ter sido um mero conflito interno de elites em disputa em uma possibilidade de reinvenção nacional.

O sonho era a transformação do Brasil em potência industrial com forte mercado interno e classe trabalhadora protegida, com capacidade de consumo. Nossa elite do dinheiro jamais sequer “compreendeu” esse sonho, posto que “afetivamente” nunca sentiu compromisso com os destinos do país.

Desde então o Brasil é palco de uma disputa entre esses dois projetos: o sonho de um país grande e pujante para a maioria; e a realidade de uma elite da rapina que quer drenar o trabalho de todos e saquear as riquezas do país para o bolso de meia dúzia.

A elite do dinheiro manda pelo simples fato de poder “comprar” todas as outras elites.

É essa elite, cujo símbolo maior é a bela avenida Paulista, que compra a elite intelectual de modo a construir, com o prestígio da ciência, a lorota da corrupção apenas do Estado, tornando invisível a corrupção legal e ilegal do mercado que ela domina; que compra a política via financiamento privado de eleições; e que compra a imprensa e as redes de TV, cujos próprios donos fazem parte da mesma elite da rapina.

De acordo com a conjuntura histórica, sempre que o Executivo está nas mãos do inimigo, imprensa e Congresso, comprados pelo dinheiro, se aliam a um quarto elemento que é o que suja as mãos de fato no golpe: as Forças Armadas antes, e o complexo jurídico-policial do Estado hoje em dia.

A história do Brasil desde 1930 é um movimento pendular entre esses dois polos. Getúlio caiu, como o desafeto histórico maior desta elite, por um conluio entre Congresso comprado, imprensa manipuladora e Forças Armadas que se imaginavam pairar acima dos conflitos sociais.

O suicídio do presidente adia em dez anos o golpe formal, que acontece em 1964 pela mesma articulação de interesses. O curioso, no entanto, é que dentro das Forças Armadas existia a mesma polarização que existia na sociedade.

INFRAESTRUTURA

O nacionalismo autoritário das Forças Armadas articula, por meio do 2º PND (Plano Nacional de Desenvolvimento) do presidente Geisel, uma versão ambiciosa do sonho getulista: investimento maciço em infraestrutura e setores-chave da vanguarda tecnológica com a disseminação de universidades e centros de pesquisa em todo o país.

Ainda que o capital privado fosse muito bem-vindo, a condução do projeto de longo prazo era do Estado. Foi o bastante para que os jornais se lançassem em uma batalha ideológica contra a “república socialista do Brasil” e os empresários descobrissem, de uma hora para outra, sua inabalável “vocação democrática”.

O processo de redemocratização comandado pela elite do dinheiro tem tal pano de fundo. As Diretas-Já, na verdade, espelham a volta da rapina de curto prazo e uma nova derrota do sonho de um “Brasil grande”.

Aqui já poderia ter ocorrido a conscientização de que a rapina selvagem é o fio condutor, e que a forma autoritária ou democrática que ela assume é mera conveniência. Mas o processo de aprendizado foi abortado. O público ficou sem saber por que o golpe tinha ocorrido e, depois, por que ele havia sido criticado. Criou-se uma anistia do “esquecimento” no mesmo sentido da queima dos papéis da escravidão por Rui Barbosa: para que jamais saibamos quem somos e a quem obedecemos.

Com o governo FHC, essa elite da rapina de curto prazo se insere, enfim, não apenas no mercado mas também, com todas as mãos, no Estado e no Executivo.

A festa da privatização para o bolso da meia dúzia de sempre, da riqueza acumulada pela sociedade durante gerações, se deu a céu aberto. A maior eficiência dos serviços, prometida à sociedade e alardeada pela imprensa, sempre solícita e sócia de todo saque, se deixa esperar até hoje.

Como uma imprensa a serviço do saque e do dinheiro não pode fazer todo mundo de tolo durante todo o tempo, e como ainda existem sonhos que o dinheiro não pode comprar, o Executivo mudou de mãos em 2002.

O novo governo tentou o mesmo projeto desenvolvimentista anterior, de apoio à indústria e à inteligência nacional. Mas seu crime maior foi a ascensão dos setores populares via, antes de tudo, a valorização real do salário mínimo.

Os mais pobres passaram a ocupar espaços antes exclusivos às classes do privilégio.

Parte da classe média sofria profundo incômodo diante dessa nova proximidade em shopping centers e aeroportos, mas “pegava mal” expressar o descontentamento em público. Pior, a classe média temia que essa classe ascendente pudesse vir a disputar os seus privilégios e os seus empregos.

O discurso da “corrupção seletiva” manipulado pela mídia permite que se enfrente agora o medo mais mesquinho com um discurso moralizador e uma atitude de pretenso “campeão da moralidade”. O que antes se dizia a boca pequena entre amigos agora pode ser dito com a camisa do Brasil e empunhando a bandeira nacional. Está criada a “base popular”, produto da mídia servil à elite da rapina.

A luta contra os juros desencadeada pela presidente Dilma em 2012 reedita a eterna crença da esquerda nacionalista brasileira na existência de uma “boa burguesia”, ou seja, a fração industrial supostamente interessada em um projeto de longo prazo de fortalecimento do mercado interno.

Mas todas as frações da elite já mamam na mesma teta dos juros altos que permite transferir recursos de todas as classes para o bolso dos endinheirados de modo invisível, funcionando como uma “taxa” que encarece todos os preços e transfere parte de tudo o que é produzido para os rentistas –inclusive da classe média feita de tola pela imprensa comprada.

Quando em abril de 2013 as taxas de juros voltam a subir, a elite está armada e unida contra a presidente. As “jornadas de junho” daquele ano vêm bem a calhar e, por força de bem urdida campanha midiática, transformam protestos localizados em uma recém-formada coalizão entre a elite endinheirada e a classe média “campeã da moralidade e da decência” contra o projeto inclusivo e desenvolvimentista da esquerda.

Como os votos dos pobres recém-incluídos são mais numerosos, no entanto, perde-se a campanha de 2014. Mas a aliança entre endinheirados e moralistas de ocasião se mantém e se fortalece com um novo aliado: o aparato jurídico-policial do Estado.

Construído pela Constituição de 1988 para funcionar como controle recíproco das atividades investigativas e jurisdicionais, todo esse aparato passa por mudanças expressivas desde então. Altos salários e demanda crescente por privilégios de todo tipo associados ao “sentimento de casta” que os concursos dirigidos aos filhos das classes do privilégio ensejam transformam esses aparelhos que tudo controlam, mas não são controlados por ninguém, em verdadeiros “partidos corporativos” lutando por interesses próprios dentro do aparelho de Estado.

A manipulação da “corrupção seletiva” pela imprensa é o discurso ideal para travestir, também aqui, os mais mesquinhos interesses corporativos em suposto “bem comum”. O troféu de “campeão da moralidade pública” passa a ser disputado por todas as corporações e se estabelece um conluio entre elas e a imprensa, que os vazamentos seletivos cuidadosamente orquestrados comprovam tão bem.

Esse é o elemento novo do velho golpe surrado de sempre. Ainda que o golpe tenha se dado no circo do Congresso em uma palhaçada denunciada por toda a imprensa internacional, sem o trabalho prévio dos justiceiros da “justiça seletiva” ele não teria acontecido.

O Estado policial a cargo da “casta jurídica” já está sendo testado há meses e deve assumir o papel de perseguir, com base na mesma “seletividade midiática”, o princípio: para os inimigos a lei, e para os amigos a “grande pizza”.

A “pizza” para os amigos já está em todos os jornais e acontece à luz do dia. O acirramento da criminalização da esquerda é o próximo passo. Esse é o maior perigo. Muita injustiça será cometida em nome da Justiça.

Mas existe também a oportunidade. Nem toda classe média é o aprendiz de fascista que transforma seu medo irracional em ódio contra os mais fracos, travestindo-o de “coragem cívica”.

Ainda que nossa classe média esteja longe de ser refletida e inteligente como ela se imagina, quem quer que tenha escapado do bombardeio diário de veneno midiático com dois neurônios intactos não deixará de estranhar o mundo que ajudou a criar: um mundo comandado por um sindicato de ladrões na política, uma justiça de “justiceiros” que os protege, uma elite de vampiros e uma sociedade condenada à miséria material e à pobreza espiritual. Esse golpe precisa ser compreendido por todos. Ele é o espelho do que nos tornamos.

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JESSÉ SOUZA, 56, autor de “A Tolice da Inteligência Brasileira” (Editora Leya, compre na Estante Virtual), presidente do Ipea, é professor titular de ciência política da UFF e foi professor convidado na Universidade de Bremen. As ilustrações do post são de Angeli.

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Entrevista com o sociólogo Jessé Souza, presidente do Ipea, no programa “Espaço Público” (da TV Brasil – EBC, 59 minutos de duração): “Golpe não tem relação com combate à corrupção; é rapinagem.”

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