CONFLUÊNCIAS.RECs – 50 CANÇÕES CANNÁBICAS: Download gratuito da coletânea discotecada durante o “Confluências – Festival de Artes Integradas”, 4ª Edição

50 CANÇÕES CANNÁBICAS
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O Confluências #4 – Festival de Artes Integradas contou com uma discotecagem só com a fina flor das músicas, nacionais e internacionais, devotadas à cannabis sativa ou que exploram lisergias e brisas conexas ao consumo da ganja. As 50 canções foram escolhidas – naturalmente, sob o efeito – tendo em vista seja as canções que mencionam e/ou celebram explicitamente a erva, seja as que são cheias de indiretas ou referências cifradas, seja as que causam na mente do ouvinte um efeito sensorial semelhante ao dum bom beck…

O Confluências #4 rolou na Sexta, 23/6, na Trip, logo após a realização em Goiânia da Marcha da Maconha 2017, organizada pelo Coletivo Antiproibicionista Mente Sativa. No caderno de cultura do jornal Diário da Manhã, saiu nosso release. Agradecemos ao parceiro Heitor Vilela por estar sempre antenado às empreitadas de produção cultural independente da cidade e colocar-nos neste seu Roteiro!  

No Conflu rolaram shows de Chá de Gim, Distoppia, Tião Locomotiva e Veneno, Orquestra de Laptops de Brasília; exposição fotográfica e poética O Caminho do Cerrado, projeto de Mel Melissa Maurer (com a presença da modelo Mohara); além da discotecage-fumacê que aqui compartilhamos. Quem quiser baixar a coletânea na íntegra, em MP3 de qualidade (320kps), estamos disponibilizando o ZIPão de 350 MB para download:


DOWNLOAD – 50 CANÇÕES MACONHEIRAS QUE O POVO PEDE (CANNA)BIS
http://www.mediafire.com/file/8981uy24bvkag4o/50_CANÇÕES_CANNÁBICAS_-_CONFLUÊNCIAS_SATIVA.rar

Aí vai a playlist:

  1. Amy Winehouse – Addicted (2:45)
  2. BNegão & Seletores De Frequência – Nova Visão (5:42)
  3. BNegão & Os Seletores De Frequência – Proceder/Caminhar (3:26)
  4. The Beatles – Got To Get You Into My Life (2:31)
  5. Bezerra da Silva & Marcelo D2 – Erva proibida (2:56)
  6. Bezerra da Silva – A semente (3:08)
  7. Bezerra da Silva – Maladragem dá um tempo (3:50)
  8. Big Bad Voodoo Daddy – Reefer Man (2:54)
  9. Black Sabbath – Sweet Leaf (5:05)
  10. Black Uhuru – Sinsemilla (5:11)
  11. Bob Dylan – Rainy Day Women #12 & 35 (4:36)
  12. Boogarins – Doce (4:57)
  13. Cab Calloway – Reefer Man (3:00)
  14. Criolo – Pé de Breque (4:05)
  15. Curtis Mayfield – Pusherman (5:04)
  16. Marcelo D2 – A Maldição Do Samba (2:31)
  17. Marcelo D2 – Kush (3:16)
  18. Marcelo D2 – Sessão (2:33)
  19. De Menos Crime – Fogo Na Bomba (4:55)
  20. Erasmo Carlos – Maria Joana (3:44)
  21. Gabriel O Pensador – Maresia (5:37)
  22. Gilberto Gil – Eleve-se Alto ao Céu (Lively Up Yourself).wmv (4:24)
  23. Golden Boys – fumacê (2:34)
  24. Method Man & Redman – Redman / How To Roll A Blunt (3:21)
  25. Muddy Waters – Champagne & Reefer (4:38)
  26. Neil Young – Roll Another Number (for the Road) (3:04)
  27. Neil Young LIVE – Roll Another Number (5:21)
  28. Nirvana – Moist Vagina (2013 Mix) (3:33)
  29. O Rappa – A Feira (3:57)
  30. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Os Mutantes and Gal Costa – Panis Et Circensis (3:35)
  31. Paulinho da Viola – Chico Brito (3:12)
  32. Peter Tosh – Legalize It (4:41)
  33. Planet Hemp – Contexto (3:45)
  34. Planet Hemp – Fazendo A Cabeça (3:19)
  35. Planet Hemp – Legalize Já (3:00)
  36. Planet Hemp – Queimando Tudo (2:52)
  37. Primal Scream – Movin’ on Up (3:50)
  38. Queens Of The Stone Age – Feel Good Hit Of The Summer (2:43)
  39. Quique Neira ftt Alborosie – Yo Planto (4:52)
  40. Raimundos – Nega Jurema (1:53)
  41. Raul Seixas – Como Vovó já Dizia (3:25)
  42. Ray Charles – Let’s Go Get Stoned (3:03)
  43. Rick James – Mary Jane (10:39)
  44. Steppenwolf – Don’t Step On The Grass, Sam (5:42)
  45. Sublime – Smoke Two Joints (2:53)
  46. Tagore – Vagabundo Iluminado (3:24)
  47. Tom Zé – Botaram Tanta Fumaça (2:48)
  48. Tukley – Vampiro Doidão (4:00)
  49. Weezer – Hash Pipe (3:06)
  50. Willie Nelson – Roll Me Up and Smoke Me When I Die (4:52)

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“AFRO-CUBAN”, de KENNY DORHAM (1957): “A first-rate recording for the under-appreciated Dorham, this one should be in every collection of all true music lovers.”

Kenny Dorham – Afro-Cuban

(1957, Blue Note)

Review by Michael G. Nastos – Considered Kenny Dorham’s finest recording of his all-too-short career, this re-reissue has been newly remastered and presumably now includes all of the takes from these nonet and sextet sessions of 1955. Considering the time period, this date remains way ahead of the Latin-tinged and hard bop music that would follow. It would be difficult to assess the sextet being a step below the larger group effort, but only because it is much less Afro-Cuban. Nonetheless the unmistakable drumming of Art Blakey powers the combo through the blisteringly swinging “La Villa” with unison horns (Hank Mobley, tenor sax; Cecil Payne, baritone sax). The other easy swinging pieces “K.D.’s Motion,” “Venita’s Dance,” and “Echo of Spring/K.D.’s Car Ride” display great group empathy and seem effortless, though they’re not. It’s the Latin-based music that really differentiates this band from all others of this era, save Dizzy Gillespie’s. Payne’s robust bari ignites the hip call-and-response motif of “Afrodisia,” while his horn in tandem with pianist Horace Silver backs the up-front horns, supplemented by trombonist J.J. Johnson, for the heated mambo-ish hard bopper “Basheer’s Dream.” Two takes of “Minor’s Holiday” are, curiously enough, exactly the same time at 4:24, both super cooking with Dorham’s clear-as-a-bell trumpet leading the other horns, which practically act as backup singers. Percussionist Carlos “Patato” Valdes is the perfect spice added to this dish. The lone ballad, “Lotus Flower,” is remarkable in that its marked tender restraint feels on the brink of wanting to cut loose, but never does. A first-rate recording for the under-appreciated Dorham, this one should be in every collection of all true music lovers.

Tracklist:
1) Afrodisia (5:06)
2) Lotus Flower (4:17)
3) Minor’s Holiday (4:28)
4) Basheer’s Dream (5:03)
5) K.D.’s Motion (5:29)
6) La Villa (5:24)
7) Venita’s Dance (5:22)
8) K.D.’s Cab Ride (6:12)

PLAY >>>

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EXPERIMENTE TAMBÉM:

NINA SIMONE: REBELDE COM CAUSA

NINA SIMONE: REBELDE COM CAUSA

Eduardo Carli de Moraes @ A Casa de Vidro.com

What-Happened-Miss-Simone-posterO artista genuíno é ao mesmo tempo um espelho de sua época e uma fonte perene de beleza e inspiração para a posteridade. Tal definição me ocorre diante desse fenômeno da natureza que foi Nina Simone (1933-2003), a quem é devotado o documentário What Happened, Miss Simone? (uma produção Netflix, direção de Liz Garbus, 2015).

Eu, que já tinha Nina em alta estima como uma das cantoras mais magistrais da história de sua nação, no patamar duma Ella Fitzgerald, duma Billie Holiday, duma Sarah Vaughan, duma Bessie Smith, só tive minha admiração aumentada ao conhecer mais o ser humano extraordinário que ela foi. Tamanha honestidade e profundidade expressiva, tamanha capacidade de comunicar afetos dos mais diversos, tamanha sensibilidade à flor da pele, tamanha musicalidade genuína e transbordante, é uma jóia rara!

Logo no início do filme, ela revela sua fórmula da liberdade: “freedom”, opina Nina, significa “no fear” (ausência de medo). Levei pra vida este novo emblema, que carregarei lado a lado, no lado esquerdo do peito, junto com o verso da Janis em “Me and Bobby McGee” – “freedom’s just another word for nothing-left-to-lose” – e com as inesquecíveis palavras da Cecília Meirelles – “liberdade é um sonho que o coração humano alimenta, não há quem explique e não há quem não entenda.” Nina Simone, rebelde com causa, voz visceralmente comovente, ensina-nos um bocado, na práxis, sobre os espíritos livres e sobre as batalhas que combatem contra as gaiolas.

Eunice Waymon nasceu numa família pobre, de 8 filhos, na Carolina do Norte. Começou a tocar piano aos 3 anos de idade e desde cedo sonhou em entrar para a história como a primeira pianista clássica negra dos EUA. Estudando de 6 a 8 horas diárias, logo aprimorou-se em suas interpretações de Bach, Debussy, Chopin, Brahms, entre outros compositores. Porém, sentia na pele, desde então, o racismo da sociedade norte-americana na época da lei Jim Crow: para ter aulas de piano, por exemplo, precisava se dirigir ao “setor branco” da cidade, sinal inequívoco da segregação racial vigente.

Criança

A pequena Eunice Waymon

A carreira de “rebelde com causa” de Nina Simone teve seu início precoce aos 12 anos de idade, quando ela apresentou seu recital de estréia em uma igreja. O Sul norte-americano dos anos 1940 não era fácil: o racismo cotidianizado era tão difundido que os pais da pequena Eunice foram proibidos de sentar na primeira fileira para assistir a filha tocar, já que eram negros e aqueles assentos estavam reservados para brancos. Conta a lenda que Eunice recusou-se a começar o concerto antes que seus pais pudessem se sentar na frente.

Sua mãe, pastora metodista, costumava levar a pequena Eunice aos cultos, onde a intensidade da música gospel impressionou indelevelmente a pequena (é bem sabido que algumas das vozes mais sublimes e poderosas da música dos EUA, como Mahalia Jackson e Aretha Franklin, possuíam raízes firmemente plantadas no solo do gospel). Com o desenrolar de sua carreira pianística, Eunice Waymon estuda na escola Julliard em NYC. Posteriormente, é recusada como aluna de conservatórios mais conservadores (leia-se: mais racistas), como o prestigioso Curtis Institute da Philadelphia.

Para ganhar a vida, começa a tocar em bares e cabarés de Atlantic City, ocasião em que decide mudar seu nome de Eunice Waymon para Nina Simone (unindo o diminutivo carinhoso de Eunice, Nina, com uma homenagem à atriz Simone Signoret). A decisão de adotar o nome artístico veio menos de interesses comerciais e mais de seu desejo de que a mãe não soubesse que ela andava tocando “música do diabo” para platéias noctívagas em pubs de reputação duvidosa… 

Nina7

Sua carreira deslancha quando ela, além de tocar piano clássico de modo magistral, começa a soltar seu gogó-de-ouro em canções de jazz, blues, folk, soul. Logo ganharia o apelido “High Priestess of Soul” e se consolidaria como uma “diva”, mas com a originalidade de estar conectada à tradição afro dos griots. Nina apresenta-se em importantes festivais internacionais, com destaque para o Newport Jazz Festival em 1960 e para o Festival de Montreux, na Suíça, em 1976. Concretiza também seu sonho de tocar no Carnegie Hall, em 1963. Já sua produção discográfica, que abrange cinco décadas, é impressionante em quantidade e qualidade, levando-nos a pensar em Nina Simone como uma fonte exuberante e inesgotável de música sincera, intensa, sempre heartfelt (obs: ao fim deste post, baixe gratuitamente muitos álbuns dela na íntegra!).

Nem tudo são flores na vida pessoal de Nina, porém. Casa-se com Andrew Stroud, um policial do setor anti-narcóticos de NYC que, depois do casório, torna-se também seu empresário. Andy, como revelado pelo filme, era mandão e capaz de muitas brutalidades com a esposa, forçando-a a uma maratona de trabalho extenuante e violentando-a na vida doméstica. O casamento é problemático ao extremo: Andy pressiona a esposa para que trabalhe até o limite, viajando o mundo em turnês, a ponto dela sentir-se como um cavalo-de-corrida (race horse) que é forçado até às beiras do colapso. Pior: são frequentes os episódios de violência doméstica em que Nina é espancada pelo marido. Nina narra no documentário até mesmo a cena de um estupro perpetrado por um truculento Andy.

O casal tem uma filha, Lisa, entrevistada pelo filme, que revela os graus de violência doméstica em que viveram (e a própria Nina não é poupada de acusações, por parte da filha, já que Lisa revela ter sido vítima de espancamentos perpetrados pela mãe…). A vida privada da diva, sua agenda sempre lotada, sua farmacopéia de pílulas, vão gerando um quadro psíquico de depressão, fadiga, insônia, bi-polaridade, mood swings… O que culmina no divórcio e no auto-exílio de Nina, que deixou os EUA para tentar viver uns tempos na África, na França, na Holanda.

Além de canalizar todos estes afetos de sua vida inter-subjetiva em suas canções – de modo a influenciar a emergência posterior de artistas como Joni Mitchell, Fiona Apple, Tori Amos, Regina Spektor… – Nina Simone também era mestra em transformar em música alguns dos episódios sócio-políticos que vivenciou – o que coloca-a na companhia de figuras como Woody Guthrie e Bob Dylan.

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Na cidade de Birmingham, no Alabama, em 1963, uma igreja batista da comunidade afroamericana é bombardeada pela Klu Klux Klan, com o saldo sinistro de quatro garotinhas mortas. Este crime racista que choca a nação – e que será documentado por um dos grandes cineastas norte-americanos, Spike Lee, em Four Little Girls – gera imensa revolta em Nina Simone, que escreve a canção de protesto “Mississipi Goddam”. Na canção, que logo torna-se uma espécie de hino dos movimentos pelos direitos civis e das lutas anti-racistas, Nina não se acanha de usar toda a força do palavrão (“God damn!”) para transmitir sua indignação diante do descalabro do ato terrorista.

martin_luther_king_jr_s_economic_dream_still_unfulfilled_42_years_later-850x960A politização e radicalização de Nina se exacerbam nos anos seguintes e ela entrega-se de corpo e alma ao Movimento Pelos Direitos Civis dos anos 1960. Em 1965, na histórica marcha liderada por Martin Luther King entre Selma e Montgomery (cuja crônica cinematográfica foi realizada recentemente pelo filme Selma, de Ava DuVernay), Nina Simone esteve lá, cantando para os manifestantes. Porém, como revelado pelo documentário, Nina Simone não era 100% fiel aos preceitos de Luther King e chegou a dizer, sem papas na língua, ao pacifista e gandhiano Doutor King: “I’m not non-violent!” 

Apesar de sua discordância em relação ao pacifismo absoluto de Martin Luther King, Nina Simone admirava-o profundamente como líder político e soube louvá-lo com uma de suas mais belas canções quando King foi assassinado. “The King Of Love Is Dead”, uma composição de Gene Taylor, estava destinada não só a arrancar cachoeiras de lágrimas dos milhões que se puseram de luto diante do cadáver de Martin Luther King, como também se transformaria num espectro a assombrar o país, com seus questionamentos contundentes sobre o que seria do amanhã depois que o amor foi mais uma vez morto a balas.

Once upon this planet earth,
Lived a man of humble birth,
Preaching love and freedom for his fellow man,

He was dreaming of a day,
Peace would come to earth to stay,
And he spread this message all across the land.

Turn the other cheek he’d plead,
Love thy neighbor was his creed,
Pain humiliation death, he did not dread

With his Bible at his side,
From his foes he did not hide,
It’s hard to think that this great man is dead. (Oh yes)

Will the murders never cease,
Are thy men or are they beasts?
What do they ever hope, ever hope to gain?

Will my country fall, stand or fall?
Is it too late for us all?
And did Martin Luther King just die in vain?

Cos he’d seen the mountain top,
And he knew he could not stop,
Always living with the threat of death ahead.

Folks you’d better stop and think
Cos we’re heading for the brink.
What will happen now that he is dead?

He was for equality,
For all people you and me,
Full of love and good will, hate was not his way.

He was not a violent man.
Tell me folks if you can,
Just why, why was he shot down the other day?

Well see he’d seen, the mountain top.
And he knew he could not stop,
Always living with the threat of death ahead.

Folks you’d better stop and think…and feel again,
For we’re heading for the brink.
What’s gonna happen now that the king of love is dead?

Nina9Influenciada pelo discurso e pelo exemplo de Malcolm X, Angela Davis, Stokely Carmichael, Medgar Evers, do partido dos Panteras Negras (Black Panthers), Nina chega à conclusão de que não há numa solução pacífica para a guerra racial nos EUA. A libertação social dos negros passa a ser vista por muitas vertentes de ativismo radical como conquistável apenas pela guerrilha armada. Tal radicalismo pode ser percebido também em figuras como Frantz Fanon ou no grande músico nigeriano Fela Kuti. Neste contexto explosivo, Nina Simone, apesar de nunca ter abraçado uma metralhadora, põe sua música a serviço desta causa libertária. Tanto que, em sua lendária apresentação no Harlem Cultural Festival, em 1969, em plena guerra do Vietnã, conclama o povo à Revolução:

A politização de Nina Simone, sua adesão à doutrina Malcolm-X-iana do “all means necessary”, é fruto de tempos conturbados em que acirram-se os conflitos raciais no país que a própria Nina apelidou de “United Snakes of America” (Cobras Unidas da América). Nesse contexto, Nina Simone recupera e reinterpreta uma canção que ficou clássica na voz de Billie Holiday, “Strange Fruit”, um hino anti-racista que trabalha com imagens poéticas sinistras e impactantes: os tais “frutos estranhos”, pendendo das árvores, são cadáveres de negros enforcados por brancos. “Black bodies swingin’ in the summer breeze…”


Strange Fruit(Tradução via Vagalume)

Outra peça clássica de seu cancioneiro político é “Backlash Blues”, escrita em parceria com Langston Hughes (1902-1967). Neste petardo rebelde, Nina vocifera contra um certo “Senhor Backlash”, que ela interpela em tom acusativo e rebelde: você aumenta meus impostos, congela meus salários, manda meus filhos para morrer no Vietnã; me dá moradia de segunda classe, escolas de segunda classe, trata todos os negros como se fossem tolos de segunda classe. Aliás, o tal do “backlash” significa um tapa com a parte posterior da mão, oposta à palma, simbolizando a atitude supremacista do branquelo espancador.

BACKLASH BLUES

Mr. Backlash, Mr. Backlash
Just who do think I am?
You raise my taxes, freeze my wages
And send my son to Vietnam

You give me second class houses
And second class schools
Do you think that all colored folks
Are just second class fools?
Mr. Backlash, I’m gonna leave you
With the backlash blues

When I try to find a job
To earn a little cash
All you got to offer
Is your mean old white backlash

But the world is big
Big and bright and round
And it’s full of folks like me
Who are black, yellow, beige and brown

Mr. Backlash, I’m gonna leave you
With the backlash blues

Langston Hughes

É provável que a carreira de Nina Simone pudesse ter sido comercialmente mais bem-sucedida caso ela tivesse sido menos radical em suas posições políticas. O Mercado, entidade bastante cruel, boicotou Nina Simone assim que notou seu ativismo radical anti-racista e pró-direitos civis. De todo modo, o documentário congrega vários depoimentos de Nina em que esta diz que foi compelida a assumir tais atitudes pelos eventos históricos que testemunhou. André Barcinski, em seu texto Quando A Música Importava, explora o tema:

Nina passou a cantar somente músicas de cunho político. Seus discos pararam de vender e os shows rarearam. Os assassinatos de John Kennedy (1963), Malcolm X (1965), Bobby Kennedy (1968), Martin Luther King (1968) e Fred Hampton (1969) deram a Nina a certeza de que uma guerra racial estava em curso no país, e ela passou a defender a violência contra o “domínio branco”. Uma das cenas do filme mostra a cantora perguntando à plateia em um show: “Vocês estão prontos para incendiar prédios?”. Se hoje a radicalização política de Nina Simone pode soar paranoica e agressiva, é preciso analisar o contexto da época e o passado da cantora para tentar entender suas motivações. Numa época em que amigos e políticos que ela admirava eram mortos, jovens negros eram mandados para o Vietnã em números proporcionalmente muito maiores que jovens brancos, e grupos armados como os Panteras Negras prometiam incendiar o país, todo o ressentimento de uma infância passada em um lugar segregado, onde os pais não podiam sequer entrar nos teatros onde Nina tocava piano, fez explodir nela uma fúria incontrolável. Por quase dez anos, Nina Simone sabotou a própria carreira. Defendeu o poder negro “por todos os meios necessários”, aproximou-se de grupos radicais e criticou artistas negros que, segundo ela, faziam concessões ao mercado.

Slavery

Lorraine_Hansberry

Lorraine Hansberry (1930-1965)

Prenunciando o espírito que daria o tom de várias vertentes do movimento Hip Hop – se Gil Scott-Heron é o “vovô do rap”, Nina Simone pode ser considerada como sua madrinha nutriz! – a arte de Nina também inclui um forte elemento de valorização identitária, de auto-afirmação da negritude, algo exemplificado bem pela canção “Young, Gifted and Black”. Esta música foi escrita em memória de uma das melhores amigas de Nina Simone, a escritora Lorraine Hasberry, autora de Raisin’ in the Sun, falecida aos 34 anos de idade. Mais uma vez, a canção tornou-se um hino para todos aqueles que eram “jovens, talentosos e negros”, conclamando à uma atitude de auto-estima e cabeça-erguida que lembra um pouco James Brown e seu hit “Say It Loud: I’m Black and I’m Proud”.

Por essas e outras, Nina Simone é uma daquelas celebridades musicais que não se apaga como as estrelas comerciais mais vulgares, que navegam a crista do hype para serem esquecidas no próximo verão. Nina Simone construiu uma obra cujo legado sobrevive e sobreviverá pela qualidade estética, pela expressividade afetiva, pelo caráter de espelho de toda uma época. Não tenho dúvidas de que esta rebelde com causa foi uma das figuras mais geniais que já pudemos testemunhar em ação diante de um piano e de um microfone.

O lançamento recente do documentário What Happened, Miss Simone? e do disco tributo Nina Revisited (com versões primorosas cantadas por Lauryn Hill e outras figuras contemporâneas) só reativa a chama desta inextinguível fogueira humana. Nina não só viveu e cantou, dando-nos tudo o que tinha, como é cada vez mais inadequado conjugá-la no passado: ela ainda vive e ainda canta, pássaro negro exuberante e sublime que, para citar um poema de Maya Angelou, canta tão belamente pois está em rebelião aberta contra as gaiolas e celebra sempre a liberdade.

A liberdade vivenciada, a liberdade ausente, a ambiguidade da liberdade cuja ausência sofremos e cuja presença deliciosamente desfrutamos, tudo isso anima o canto de Nina a ponto de torná-la uma das vozes mais libertárias que conheço – ainda que não ruja como Zack de la Rocha e não faça as macacagens hardcore de Jello Biafra. Em “I Wish I Knew How It Feels To Be Free”, Nina Simone talvez tenha nos presenteado com a mais sintética expressão de sua vontade de liberdade:

“I wish I knew how
It would feel to be free
I wish I could break
All the chains holding me
I wish I could say
All the things that I should to say
Say ‘em loud say ‘em clear
For the whole round world to hear.”

A versão do Cold Blood, grupo psicodélico de San Francisco, 1960s, com uma vocalista meio Janis Joplin:

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Nina66

Caged Bird

By Maya Angelou

A free bird leaps
on the back of the wind
and floats downstream
till the current ends
and dips his wing
in the orange sun rays
and dares to claim the sky.

But a bird that stalks
down his narrow cage
can seldom see through
his bars of rage
his wings are clipped and
his feet are tied
so he opens his throat to sing.

The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom.

The free bird thinks of another breeze
and the trade winds soft through the sighing trees
and the fat worms waiting on a dawn bright lawn
and he names the sky his own

But a caged bird stands on the grave of dreams
his shadow shouts on a nightmare scream
his wings are clipped and his feet are tied
so he opens his throat to sing.

The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Outubro de 2015

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LEIA TAMBÉM: ANDRÉ BARCINSKIJORNAL GGN – OBVIOUS – NINA SIMONE.COMDAZED – BIOGRAPHY.COM

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ALGUNS VÍDEOS RECOMENDADOS

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DOWNLOADS DE ÁLBUNS COMPLETOS:folder

DOWNLOAD DO CD COMPLETO:
NINA SIMONE
Antologia das Canções de Protesto
Acesse via Google Drive

Playlist files:

  1. Nina Simone – By Any Means Necessary (Interview) (1:13)
  2. Nina Simone – Revolution (4:40)
  3. Nina Simone – Mississippi Goddamn (Interview) (1:54)
  4. Nina Simone – Mississippi Goddamn (4:31)
  5. Nina Simone – Old Jim Crow (Interview) (1:07)
  6. Nina Simone – Old Jim Crow (2:19)
  7. Nina Simone – Backlash Blues (Interview) (2:45)
  8. Nina Simone – Backlash Blues (3:07)
  9. Nina Simone – Four Women (Interview) (2:14)
  10. Nina Simone – Four Women (4:09)
  11. Nina Simone – Nobody (Interview) (1:26)
  12. Nina Simone – Nobody (5:08)
  13. Nina Simone – I Wish I Knew How It Would Feel To Be Free (4:53)
  14. Nina Simone – Strange Fruit (Interview) (0:59)
  15. Nina Simone – Strange Fruit (3:28)
  16. Nina Simone – Definition of an Artist (3:04)
  17. Nina Simone – Why? The King of Love is Dead (9:20)
  18. Nina Simone – To Be Young Gifted and Black (Interview) (1:01)
  19. Nina Simone – To Be Young Gifted and Black (3:40)

BAIXAÊ
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BAIXE TAMBÉM:




SÓ BOTO BE-BOP NO MEU SAMBA… – “Jackson do Pandeiro: A Brasa do Norte” (Um Clipe de Ivan Cardoso, 1977 / 2012)

“A BRASA DO NORTE”
Estrelando JACKSON DO PANDEIRO
Direção IVAN CARDOSO

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"Baile Popular", Di Cavalcanti

“Baile Popular”, Di Cavalcanti

CHICLETE COM BANANA

“Eu só boto bebop no meu samba
Quando Tio Sam tocar um tamborim
Quando ele pegar
No pandeiro e no zabumba.
Quando ele aprender
Que o samba não é rumba.
Aí eu vou misturar
Miami com Copacabana.
Chiclete eu misturo com banana,
E o meu samba vai ficar assim:

Tururururururi bop-bebop-bebop
Tururururururi bop-bebop-bebop
Tururururururi bop-bebop-bebop
Eu quero ver a confusão

Tururururururi bop-bebop-bebop
Tururururururi bop-bebop-bebop
Tururururururi bop-bebop-bebop
Olha aí o samba-rock, meu irmão!

É, mas em compensação,
Eu quero ver um boogie-woogie
De pandeiro e violão.
Eu quero ver o Tio Sam
De frigideira
Numa batucada brasileira.”

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Ouça também:
Lenine, “Jack Soul Brasileiro”

LENINE: ISTO É SÓ O COMEÇO [DOCUMENTÁRIO COMPLETO, 2013, 54 MIN]

LENINE: ISTO É SÓ O COMEÇO

[DOCUMENTÁRIO COMPLETO, 2013, 54 MIN]

Com direção e roteiro de Bruno Levinson

Com depoimentos de Marcos Suzano, Lula Queiroga, Moska, Pedro Luís, o filho João Cavalcanti, Maria Gadu, dentre outros

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Lenine 3SIGA VIAGEM:








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Confira também n’A Casa de Vidro:

ALQUIMISTAS DO SOM – As liberdades da música brasileira segundo Tom Zé, Lenine, Arnaldo Antunes, Arrigo Barnabé, Egberto Gismonti, Julio Medaglia, entre outros

SÉRIE COMPLETA: “HOW MUSIC WORKS” (“COMO FUNCIONA A MÚSICA”), com Howard Goodall (4 Episódios: Melodia, Ritmo, Harmonia, Baixo)

HowMusicWorks

“We all respond to music – whether clicking our fingers, humming along or dancing – there’s something out there for everyone. In this series Goodall looks at melody, rhythm, harmony and bass to establish how music is made and how it comes to reflect different cultures.

Setting out on a journey that spans the globe and moves through the centuries, Goodall uncovers the elements that are shared by all styles of music. Following a trail of diverse musical talents from Mahler to David Bowie; the blues to Bulgarian folk songs; medieval choral music to disco; he reveals the tried and tested tricks of the composer’s trade.

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Melody – In this film composer Howard Goodall looks at melody’s basic elements. Why are some melodic shapes common to all cultures across the world? Can successful melodies be written at random? If not, what are the familiar melodic patterns composers of all types of music have fallen back on again and again, and why do they work?

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Rhythm – From the moment our hearts start beating, rhythm is integral to us all. From walking to dancing, from clicking our fingers to tapping our toes, we are all programmed to respond to rhythm. In this film Howard looks at the common rhythmic patterns that have been used by musicians from all cultures, from Brahms to rappers, from the founders of Cuban son to Philip Glass, from Stevie Wonder to Fats Waller.

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Harmony – In the late middle ages western harmony started on a journey that would take it in a completely separate direction to that of the music of other parts of the world. It discovered chords, and, over the next seven centuries, began to unlock their harmonic possibilities. In this film Howard looks at how western harmony works, and how, in the present day, it has fused with other forms of music to create new styles.

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Bass – For half a millennium instrument makers have been trying to construct instruments of all shapes and sizes capable of thudding, sonorous low notes. Only with the arrival of the synthesizer did they succeed in producing a rival to the mighty organ. With disco, dance, and drum ‘n’ bass, the bass has arrived centre stage.

Via Top Documentary Films

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“Composer Howard Goodall strips music down to it’s essential parts to find out How Music Works. Whether the music is Eastern or Western, old or new, popular or classical, jazz or folk, many elements are universal to all music.” – AUDIOZ