EDUCAÇÃO EM DISCUSSÃO – Reflexões na companhia de Hannah Arendt, Montaigne, Tagore, Goblot etc.

“A essência da educação é a natalidade, o fato de que seres nascem para o mundo”, escrevia Hannah Arendt em “A Crise Na Educação” (artigo do livro “Entre o Passado e o Futuro”, p. 223). O nascimento de uma nova geração, tão destacado por Arendt, coloca de fato o problema perene da condição humana: educar os recém-chegados ao mundo e à vida.

“A educação está entre as atividades mais elementares e necessárias da sociedade humana, que jamais permanece tal qual é, porém se renova continuamente através do nascimento, da vinda de novos seres humanos. Esses recém-chegados, além disso, não se acham acabados, mas em um estado de vir a ser. Assim, a criança, objeto da educação, possui para o educador um duplo aspecto: é nova em um mundo que lhe é estranho e se encontra em processo de formação-vital. (…) A criança só é nova em relação a um mundo que existia antes dela, que continuará após sua morte e no qual transcorrerá sua vida.” (ARENDT, p. 235, E.P.F.)

Porém, os recém-chegados não serão igualmente tratados neste mundo comum, ao qual ganharão acesso pelo nascimento e do qual partirão quando morrerem, pois a utopia democrática e igualitária, longe de ter sido concretizada, parece cada vez mais espezinhada em um contexto de ascenso das desigualdades e das imensas discrepâncias na concentração de renda e poder. Como Pierre Bourdieu ensina, a inexistência de uma sociedade de fato igualitária e democrática também decorre das discrepâncias imensas de capital cultural acumulados por certas classes/castas “distintas”.

O capital cultural, tratado como privilégio e não como direito, é posse exclusiva de uns poucos e não domínio público aberto à instrução geral. Aquilo que a educação pode fornecer de melhor é recusado à imensas frações de uma população mantida apartada do acesso à cultura e à formação integral pelos muros e fronteiras, historicamente constituídos e plenamente revolucionáveis, de nosso atual estado de apartheid social e injustiça institucionalizada.

Os acessos diferenciais à escola – uns com acesso fácil e garantido às áreas VIP do saber, outros escorraçados do ensino e empurrados para o trabalho precoce – estão essencialmente vinculados às fraturas de classe que esgarçam nosso tecido social, a ponto de destroçar o senso de comunidade e instaurar o pesadelo competitivo e cruel da “sociedade dos indivíduos”, tão propugnada pela economia-política do liberalismo e suas “neo”-encarnações.

Afirmando que o auto-interesse egoísta, perseguido sem freios no âmbito do “mercado livre”, é a essência da natureza humana, e não um habitus cultivado no âmbito de uma cultura específica (capitalista, economicamente liberal, industrialista, comercialista, individualista, “competitivista” etc.) e suas instâncias educativas e formativas (que podem, é claro, ser também deformativas), o liberalismo forjou uma doutrina que é uma verdadeira Medusa com a cabeça com mais de mil serpentes: a noção tóxica dos vícios privados, benefícios públicos. Seja um crápula egoísta que só corre atrás do próprio lucro e só visa o benefício privado, e assim estarás contribuindo para a prosperidade geral. Uma lorota monumental.

O século XX teria sido, segundo uma série de TV muito interessante, The Century of The Self, de Adam Curtis (BBC). Nós, no século XXI, seríamos os herdeiros disso, levando a novos extremos a noção de que somos pessoas isoladas, estanques, em competição no mercado, cujas concorrências agora se dão também em meio à presença oni-infiltrante das tecnologias digitais de comunicação – um mundo, para lembrar de outra série de TV definidora de época, tão conturbado e cheio de bizarrices comportamentais quanto aquele que nos foi apresentado por Black Mirror.

A escola também padece com o contágio deste individualismo todo, que parece lançar na lata de lixo da história os ideais iluministas, manifestos por exemplo na obra de Condorcet, onde celebravam-se o ensino público, universal, gratuito, de qualidade, não só poli-técnico (formando para o mercado de trabalho) mas plenamente “humanista” (eclético e próximo à paidéia dos gregos), que formasse para a cidadania, a participação, o convívio isonômico na pólis democrática e republicana…

Ora, é preciso concluir, diante do state-of-affairs neste nosso mundo, que seguimos sob o império daqueles que dizem, da boca pra fora, que todos nascemos humanos, mas da pele pra dentro continuam pensando e agindo de modo a construir, preservar e reproduzir as instituições e maquinarias sociais que tratam-nos como essencialmente desiguais e afirmam que alguns nascem mais humanos do que outros. George Orwell strikes again.

É sempre bom lembrar: “1984” não é um manual de instruções!

Os muros do apartheid também cercam as escolas. As fronteiras divisórias que segregam também estão construídas no próprio interior delas. O espaço idealmente concebido para a transmissão dos legados culturais do passado às novas geração encontra-se concretamente crivado de contradições e de antagonismos sociais. O acesso a certos cargos de prestígio no mundo empresarial, por exemplo, só se dá pela travessia prévia de um percurso educacional que passa necessariamente pelas instituições de ensino que a burguesia mantêm rigidamente controladas, em seus portões de entrada, erguendo barreiras contra a ralé.

Edmont Goblot (1858 – 1935), em seu “A Barreira e o Nível” (Ed. Papirus), achará para isso a expressão lapidar: na sociedade burguesa, mentem-nos sobre uma utópica liberdade de oportunidades, porém, na hora do vamos ver, não é verdade que “qualquer um pode tornar-se burguês”, caso trabalhe duro ou ganhe na loteria, por exemplo; para tornar-se um burguês, dirá Goblot, “primeiro é preciso tornar-se bacharel”. Na sociedade burguesa, argumenta Edmont Goblot (1858 – 1935), há duas escolas, distintas e segregadas: o liceu dos burgueses vs a escola do povo:

“Não é verdade que a burguesia só exista através de seus costumes e não através das leis. O liceu constitui sua instituição jurídica… O bacharelado, eis a barreira séria, a barreira oficial e garantida pelo Estado, que lhe serve de defesa contra a invasão. Sem dúvida, pode-se tornar burguês; mas, para tanto, é preciso antes tornar-se bacharel… Quando, ao invés de pensar em seus interesses individuais, o burguês pensa em seus interesses de classe, passa então a ter necessidade de uma cultura capaz de diferenciar uma elite, uma cultura que não seja puramente utilitária, uma cultura de luxo. Não fosse isto, poderia confundir-se rapidamente com uma parte das classes populares que consegue instruir-se às custas de trabalho e inteligência e que se apropria das profissões liberais… Deste modo, ainda que não tenham qualquer aplicação profissional, os estudos humanistas são úteis para manter de pé a barreira.” (GOBLOT, A Barreira e o Nível / La Barrière et le Niveau, Paris, Alcan, 1930, p. 126, apud Bourdieu, p. 220)

Quando falo em segregação escolar, apartheid na educação, não penso somente no passado, nos tempos idos da burguesia francesa de fin de siècle e que Engels, Marx, Thompson, Flora Tristan e Goblot, dentre outros, teriam descrito em obras de interesse apenas histórico e “arqueológico”, mas que já teria atingido o pó da história morta, enterrada e ineficaz. Não: seguimos no seio da cisão instaurada pela segregação; somos os quase-cidadãos de sociedades segregadas; convivemos não só uns com os outros, mas cada classe, grupo, partido e seita com a profusão de muros e cercas de arame farpado que nos separam, nos isolam, nos des-comungam. A Palestina é trash, mas não se iluda: a Palestina também é aqui.

Ainda hoje, a cisão entre escolas privadas e públicas, todo a intensa polêmica envolvendo este debate sobre a “privatização do ensino” proposta pelos neoliberais e contestada por várias das frentes da esquerda, permanece viva. A violenta desconstrução que está sendo imposta ao sistema de educação pública no Brasil, em especial após o golpe de 2016 e a aprovação serelepe da emenda constitucional que congela por 20 anos os investimentos públicos, explicita novamente uma velha verdade: as elites econômicas e políticas, entre nós, nunca quiseram a escola para todos, a escola igualitária, a escola de qualidade disseminando-se com seus sóis iluminadores por todos os bastiões de trevas que pululam ainda em nossas mais de 200 milhões de cavernas mentais.

Aquilo que os pobres têm dentro do crânio nunca foi de muito interesse para os burgueses, bacharéis e doutoros, com PHDs e currículos Lattes pimpões; o cérebro dos pobres podia ser tranquilamente sacrificado no altar das fábricas, ao pesadelo mecanizado das linhas de montagem. O que estamos vivendo com esta pavorosa avalanche de retrocessos, patrocinada pelas forças políticas, juríticas, midiáticas e empresariais responsáveis pelo golpeachment e seu séquito tenebroso de reformas (previdência, trabalhista, ensino médio etc.), é nada menos que a depredação da Constituição de 1988, como argumenta este excelente artigo em Outras Palavras:

“O processo a que estamos assistindo é a elaboração, sob as nossas barbas, de uma nova constituição, que joga a Constituição Cidadã no lixo. A Constituição de 1988, que tinha a missão de eliminar de vez o entulho autoritário e estabelecer bases democráticas para a nação, foi elaborada com intensa participação de cidadãos e cidadãs, durante mais de dois anos. Foi elaborada em amplo processo de negociação em que tomaram parte todos os setores da sociedade, parlamentares, partidos políticos, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, indivíduos. Foram apresentadas 120 propostas de emendas populares, reunindo 12 milhões de assinaturas e, não custa lembrar, não havia internet nem celular.

A nova Constituição está sendo elaborada por encomenda de um governo ilegítimo e eivado de corruptos, inaugurado a partir do impedimento de uma presidente eleita pelo voto popular — impedimento, diga-se com todas as letras, sem crime de responsabilidade. Um governo ilegítimo que é aprovado por menos de 10% da população. Está sendo aprovada a toque de caixa por um Congresso onde mais da metade dos parlamentares está sob suspeita de corrupção, improbidade administrativa, recebimento de propinas ou caixa 2. Mais da metade dos parlamentares foi eleita com recursos de empresas (bancos, empreiteiras ou outras empresas, inclusive do agronegócio): tais políticos não representam os interesses de seus eleitores e, sim, os interesses de seus “compradores” (os financiadores de suas campanhas).

O governo tem enviado ao Congresso projetos de lei que revogam os direitos presentes na Constituição de 1988, o direito ao trabalho, o direito à proteção social, o direito à saúde, o direito à educação. (…) O governo tem enviado ao Congresso projetos de lei que revogam os direitos presentes na Constituição de 1988, o direito ao trabalho, o direito à proteção social, o direito à saúde, o direito à educação. (…) Nenhum destes direitos ficará de pé com a entrada em vigor da PEC 55, a PEC do Teto dos Gastos (também conhecida como “PEC do Fim do Mundo” ou de “PEC da Morte”) ou com a lei da “terceirização universal”recentemente aprovada, com a reforma trabalhista que o governo pretende fazer votar. Os direitos sociais promulgados em 1988 estão sendo simplesmente descartados, supostamente para enfrentar a grave crise econômica por que estamos passando. Mas esta retirada de direitos não resolverá a crise econômica, apenas transferirá uma boa parte dos salários, aposentadorias e pensões da maioria da sociedade, dos trabalhadores, da classe média e dos mais pobres, para os mais ricos, para a elite. Para a maioria, a crise só vai aumentar.”


 

O passado pode sempre ser muito elucidador para pensar os dilemas do presente e de nossas atuais segregações sociais: por exemplo, no Sul dos EUA, por voltas de meados do século XIX, a segregação racial era tamanha que as escolas de qualidade – que poderiam tranquilamente ser chamadas escolas “de elite” – eram totalmente “off limits” para a população afroamericana. O filme de Martin Ritt, “Conrack”, estrelado por Jon Voight, baseado no livro de memórias de Pat Conroy (The Water is Wide), é uma expressões cinematográficas mais tocantes e impressionantes disso: no fim dos anos 1960, a ilha onde o filme se passa ainda tem uma única escola onde os alunos negros haviam sido tratados, até então, com o quase completo abandono ou somente tratados como bestinhas enfurecidas a domar com a palmatória.

Quando recém-chegado professor conhece sua turma – que ele, de brincadeira, chamará de “gangue” – é lastimável o estado de desmazelo intelectual que reina ali no seio daqueles que nunca tiveram a oportunidade de vivenciarem um contexto institucional onde cotidianamente o intelecto é convocado a exercer-se e desenvolver-se. Quando o novo professor, apelidado pela gangue como Conrack,  recebe a responsabilidade de educar os pequenos, ele expõe à diretora da escola suas primeiras experiências ao sondar a ignorância abissal à que foram largadas aquelas crianças:

– Sete de meus alunos não conhecem o alfabeto, três crianças não sabem escrever o nome, dezoito crianças não sabem que estamos em guerra no sudeste da Ásia. Nunca ouviram falar em Ásia. Uma criança pensa que a terra é chata e dezoito concordam com ela. Cinco crianças não sabem a data de nascimento. Quatro não sabem contar até dez, os quatro mais velhos pensam que a Guerra Civil foi entre os alemães e japoneses. Nenhum deles sabe quem foi George Washington ou Sidney Poitier! Nenhum jamais foi ao cinema, nem subiu no morro, nem andou de ônibus – esses meninos não sabem de nada.

No filme, que se passa em 1969, em plena Guerra do Vietnã, o professor age sobre a turma como um guru da contracultura – eram tantos naquela época! Nada ortodoxo, Conrack fala palavrão, berra no futebol americano, fala sobre sexo abertamente (as autoridades começam a persegui-lo, buscando sua pronta demissão, quando descobrem que ele desenhou uma vagina na lousa em uma aula de anatomia humana…). Sem sentir-se aprisionado à cela-de-aula, Conrack é um professor que vai ao mundo, explorando uma pedagogia on the move, que inclui um alto componente lúdico – ou seja, leva a sério a importância do aprender-brincando.

Segundo Fabris (2001):

Outras experiências foram oportunizadas por Pat Conroy em outros espaços pedagógicos além dos escolares, ampliando assim o conceito de pedagogia. Quando ensinava na praia, na floresta, no chão da escola, na festa de Halloween, na viagem de barco, nas ruas de Beaufort, esse professor fazia deslocamentos no tempo e espaço, e sua tentativa era de inclusão dessas crianças na vida americana. Quando leva seus alunos e alunas a participar da festa de Halloween, ensina a nadar, convive com os habitantes da ilha e ensina a seus alunos e alunas a convivência na ilha, Pat Conroy produz deslocamentos de tempos e espaços escolares. A pedagogia do herói se caracteriza por esse desbravamento, por essa conquista de novos lugares, desse ultrapassar fronteiras, dessa luta e competição.

Martin Ritt, cineasta de uma sensibilidade humana e empatia com seus personagens que manifesta-se em extraordinárias obras como “Norma Rae”, transforma em travessia existencial memorável as interações de Conrack com as crianças. É um filme que inaugura uma espécie de sub-gênero, aquele dos professores-inspiradores que, mesmo que entrem em clash contra um establishment demasiado duro, rígido, ortodoxo, no rigor mortis de suas ações disciplinares e burocráticas mofadas, propondo pedagogias inovadoras, ou pelo menos instaurando relações humanas transformadoras e iluminantes, como ocorre em obras posteriores como Sociedade dos Poetas Mortos, de Peter Weir; Detachment – O Substituto, de Tony Kaye; Capitão Fantástico (2016) etc.

No presente, disfarçamos as desigualdades e injustiças de nosso estado social de segregação e esgarçamento da solidariedade com a máscara cômoda da “meritocracia”. Arendt já havia percebido o quanto a meritocracia é anti-democrática, pois instaura uma espécie de neo-aristocracia, ou seja, “governo dos melhores”, ou dos que são distinguidos assim pelos poderes instituídos. “A meritocracia contradiz, tanto quanto qualquer outra oligarquia, o princípio da igualdade que rege uma democracia igualitária.” (Arendt, op cit, p. 229)

A educação que não forma para o senso crítico e a participação cidadã é cúmplice das atrocidades e da “banalidade do mal”: hoje sabemos o preço altíssimo que pagamos, como humanidade, por termos ensinado as novas gerações a obedecer, aquiescer, respeitar – ao invés de termos fomentando a capacidade de auto-determinação, reflexão, autonomia. Como diz o professor encarnado por Adrien Brody em Detachment, filme de Tony Kaye, vivemos uma época onde o marketing realiza uma verdadeiro holocausto mental com as mentes trituradas no moedor de miolos da sociedade de massas e seus espetáculos.

A “assimilação ubíqua” – ser uma esponja que, passiva e receptiva, deixa-se “penetrar” por conhecimentos que os mestres-maiorais transmitem – está longe de ser um ideal pedagógico louvável: o aluno não deve ser convidado a ser esponja, assimilando apenas, mas sim sujeito trans-individual crítico e autônomo, capaz de dar expressão a seus pontos de vista e de criar suas próprias obras e conhecimentos no seio das interações educativas.

A evocação do “duplipensar” (doublethink) de George Orwell, na distopia totalitária de 1984, destaca que a educação não pode passar sem heroísmo, pois tem como adversários – e são fortíssimos – a ilusão, a doutrinação ideológica, a estreiteza mental, o obscurantismo, o fanatismo, as dicotomias rasas, os maniqueísmos simplistas, as enganações canalhas de toda sorte e estirpe, enfim todos os convites à falsa consciência e à alienação de que nossa sociedade está repleta.


MONTAIGNE, TAGORE, NUSSBAUM: Por uma educação renovada

Neste semestre [1/2017], estou com a responsa de lecionar, lá no IFG – Anápolis, sobre “Filosofia da Educação” para a turma de Ciências Sociais. Estou em busca de filósofos relevantes, através da história, que forneceram contribuições importantes à pedagogia, em especial aquela voltada à emancipação/libertação (como sugerido pelos colegas, ando pesquisando Jacques Rancière, Martha Nussbaum, Henri Marrou, Henry Giroux, Stuart Mill, W. Jaeger etc.).

Agradeço quaisquer dicas extras e também sou grato a todas as indicações que rolaram no fórum facebookiano. Encontrei o fascinante trecho abaixo, escrito pela pena inspirada do mestre Montaigne, durante esta recém-iniciada empreitada de mais intensas pesquisas sobre as confluências entre filosofia e educação:

“Os professores não param de gritar em nossos ouvidos, como quem entornasse o conhecimento num funil: nossa tarefa seria apenas repetir o que nos disseram. Gostaria que eles corrigissem essa prática e que desde o início, segundo a capacidade do espírito que tem em mãos, começassem a pô-lo na raia, fazendo-o provar, escolher e discernir as coisas por si mesmo. Ora abrindo-lhe o caminho, ora deixando-o abrir.

Não quero que só o preceptor invente e fale: quero que, quando chegar a vez de seu discípulo, o escute falar. Sócrates e mais tarde Arcesilau mandavam primeiramente seus discípulos falarem, e só depois lhes falavam. É bom que o faça trotar à sua frente para julgar sua andadura e avaliar até que ponto deve se pôr em seu nível para adaptá-lo à sua força. Se não respeitamos esse equilíbrio, estragamos tudo.

(…) As abelhas libam as flores aqui e ali mas depois fazem o mel, que é todo delas; não é mais tomilho nem manjerona. Assim, o aluno transformará os elementos emprestados de outros e os fundirá para fazer uma obra toda sua. O ganho de nosso estudo é termo-nos tornado melhores e mais sábios. Mas decerto nós tornamos a inteligência servil e covarde não lhe deixando a liberdade de fazer algo por si só.”

MICHEL DE MONTAIGNE, Sobre a Educação das Crianças, “Ensaios” (Penguin, p. 91, 92, 94)

A crítica do processo educativo como “funil” – unilateral e anti-dialógico – parece-me aí um prenúncio da Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire e sua crítica da “concepção bancária” da educação. Também floresce em Montaigne a valorização da autonomia do aluno, que deve ser incentivado a andar com as próprias pernas e realizar, como uma abelha, a fabricação de um mel próprio a partir dos contatos que fará com inúmeras flores-do-conhecimento. Imagem poética e inspiradora. Terá Paulo Freire retirado um bocadinho de sua imensa sabedoria também nesta fonte inesgotável de sophia que foi Montaigne?

Próxima etapa: tentar contrastar 2 pensadores franceses iluministas importantes sobre o tema da educação, Rousseau e seu “Emílio” (defenestrado, ao meu ver com inteira razão, no tratado inaugural do feminismo, o de Mary Wollstonecraft) e Condorcet e suas iluminadas “Memórias Sobre o Ensino Público”.

Quem tiver bibliografia sobre Filosofia da Educação pra sugerir, não hesite em comunicar! (educarlidemoraes@gmail.com)

Mais do que nunca, pulsa no peito a certeza: ser professor exige que a gente continue aluno. Mais que isso: professor é um bicho que precisa aprender mais que ninguém… É um ofício que exige pôr em ação aquela ética que, na canção imortal de Gonzaguinha, resume-se na fórmula: “eterno aprendiz”.

Encontro também algo neste espírito na pena inspirada de um mestre eclético da poiésis e uma das encarnações orientais mais radiantes da sophia: Rabindranath Tagore (1861 – 1941):

“Um professor jamais pode realmente ensinar se ele não estiver ainda aprendendo. Uma lâmpada não pode jamais acender uma outra lâmpada se não continuar a queimar sua própria chama. O professor que chegou ao fim de seu assunto, que não tem mais intercâmbio vivo com seu conhecimento mas meramente repete sua lição aos seus estudantes, consegue apenas empanturrar suas mentes, mas não pode torná-las mais agéis.” (R. TAGORE; Tradução – Eduardo Carli de Moraes)

Poeta, escritor, músico, educador, filósofo, pintor, coréografo, dentre outras coisas, Tagore foi o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1913. Ele possui toda uma reflexão sobre a educação que não são apenas belas palavras, pois ele botou em prática todos os seus ideais fundando a Universidade Visna-Bharati. Sobre ele, conta Martha Nussbaum, em seu livro Sem Fins Lucrativos (Ed. Martins Fontes), que “Tagore odiava todas as escolas que havia frequentado e as abandonou assim que pôde. O que ele odiava era a aprendizagem repetitiva e o tratamento do aluno como um depósito passivo dos valores culturais consagrados. Os romances, as histórias e os dramas de Tagore são obcecados pela necessidade de desafiar o passado, de permanecer sensível a um amplo conjunto de possibilidades.”

Em uma de suas histórias, The Parrot’s Training, Tagore relata como um papagaio de um poderoso rajá é educado: preso em uma gaiola dourada, encarcerado na cela-de-aula, recebe lições de professores que têm as duas mãos ocupadas: uma com a vara para a punição, outra com o livro didático… O papagaio, privado da liberdade de voar, obrigado a apenas repetir decorebas, sempre sob ameaça de tomar um cascudo dos seus instrutores, é um emblema de tudo o que há de errado na educação “bancária” de que fala Paulo Freire, aquela que enxerga alunos como papagaios a serem mantidos quietos e passivos, nos quais depositar e transferir aquilo que depois devem apenas reproduzir e repetir. “Os alunos da escola de Tagore em Santiniketan”, garante Nussbaum, “não tiveram essa triste sina”: 


“Toda a educação que recebiam servia para alimentar a capacidade de pensar por si próprios e de se tornar participantes dinâmicos das escolhas culturais e políticas, em vez de simplesmente seguir a tradição. Além disso, Tagore era especialmente sensível ao ônus injusto que os costumes ultrapassados impunham às mulheres (…). O socratismo de Tagore, como sua coreografia, é moldado pela defesa apaixonada da emancipação das mulheres, assim como por sua própria experiência infeliz nas escolas antiquadas.

A escola fundada por Tagore era, sob vários aspectos, extremamente não convencional. Quase todas as aulas eram dadas ao ar livre. As ciências humanas permeavam todo o currículo, e artistas e escritores talentosos acorreram para a escola a fim de participar da experiência. (…) Outro artifício que Tagore utilizava para estimular o questionamento socrático era o role-playing (RPG, ou jogo de interpretações), no qual se pedia que as crianças trocassem seu ponto de vista pelo de outra pessoa. Isso lhes permitia experimentar outras posições intelectuais e compreendê-las de dentro. Começamos a perceber a ligação estreita que Tagore forjou entre o questionamento socrático e a empatia criadora…” (NUSSBAUM, p. 72)

Também é minha convicção que uma aula de filosofia pode ser espaço aberto para a criatividade artística, a empatia criadora e a encenação teatral, atividades em suma que estimulam a nossa capacidade de nos pormos na pele dos outros, de adotarmos uma outra perspectiva existencial, multiplicando assim a nossa compreensão sobre a complexidade do real. Quando proponho aos alunos que realizem teatros filosóficos, estou estendendo um convite para que inventem diálogos sobre temas que eles sentem como existencialmente problemáticos. Do fundo deles mesmos, da vivência encarnada deles, deve vir à tona um tema para o teatro, ou seja, para a interação humana transformada em espetáculo público, debatível em grupo.

Segundo o relato que Martha Nussbaum faz da didática anti-convencional e altamente poética de Tagore, não havia limites ou fronteiras separando a auto-poiésis do devir-outro, muito pelo contrário: a auto-criação e a auto-recriação constantes, que fazem de nós seres inconclusos, metamorfoses ambulantes (como diz nosso filósofo-cantor-heraclitiano Raul Seixas), é favorecida e catalisada por nossas interações com a alteridade e com o ascenso de nossa capacidade de adotar o contexto e a perspectiva do outro como um método para a compreensão empática.

“Tagore utilizava a interpretação de papéis durante todo o dia escolar, enquanto os pontos de vista intelectuais eram explorados pedindo-se às crianças que assumissem posturas conceituais desconhecidas…. Não era uma simples brincadeira lógida, e sim uma forma de estimular a compaixão ao mesmo tempo que se desenvolviam capacidades lógicas. Ele também usava a interpretação de papéis para explorar a difícil esfera da diferença religiosa, estimulando os alunos a celebrar os rituais e as cerimônias de religiões diferentes das suas e a compreender o desconhecido por meio de uma participação criativa.

Tagore utilizava acima de tudo produções teatrais elaboradas, misturando dramaturgia, música e dança para fazer com que as crianças explorassem diversos papéis com uma participação plena do corpo, assumindo posturas e gestos desconhecidos. A dança era um elemento fundamental da escola, tanto para meninos como para meninas, já que Tagore acreditava que para explorar o desconhecido é preciso deixar de lado a rigidez corporal e a vergonha de assumir um papel.” (Nussbaum, p. 104)

LEIA TAMBÉM EM BRAIN PICKINGS: Quando Einstein encontrou TagoreTagore troca cartas com Gandhi

#FilosofiaDaEducação #Pedagogia #Sabedoria #Ensino #Aprendizado #Educação

Eduardo Carli de Moraes
Maio de 2017


BIBLIOGRAFIA
ARENDT, Entre o Passado e o Futuro, Ed. Perspectiva, 2011, 7ª ed.
BOURDIEU, A Economia das Trocas Simbólicas, Ed. Perspectiva.
FABRIS, Elí Terezinha Henn. As marcas culturais da Pedagogia do herói. In: 24ª Reunião Anual da Associação de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd): intelectuais, conhecimento e espaço público, 2001, Caxambu (MG).
GOBLOT, A Barreira e o Nível (La Barrière et le Niveau), Paris, Alcan, 1930, p. 126, apud Bourdieu, p. 220. Publicado no Brasil pela Ed. Papirus.
MONTAIGNE, Sobre a Educação das Crianças, “Ensaios”, Livro I, Penguin Classics.
NUSSBAUM, Martha. Sem Fins Lucrativos. Ed. Martins Fontes.

FILMOGRAFIA

Conrack, de Martin Ritt. Da obra de Pat Conroy. Estrelado por Jon Voigt.
Detachment, de Tony Kaye. Estrelado por Adrien Brody.
Pink Floyd – The Wall, de Alan Parker.

Maconha, Cérebro e Saúde (por Renato Malcher-Lopes & Sidarta Ribeiro)

MACONHA, CÉREBRO E SAÚDE (*)
por Renato Malcher-Lopes e Sidarta Ribeiro

Nunca foi tão oportuna quanto agora a discussão sobre os efeitos cerebrais e fisiológicos da Cannabis, popularmente conhecida como maconha. Se por um lado uma parcela da sociedade começa a questionar a pertinência das políticas públicas que criminalizam seu uso, por outro a ciência avança a passos largos para decifrar a enorme variedade de efeitos fisiológicos e psicológicos induzidos por seus princípios ativos. […] A maconha é uma das drogas recreativas mais usadas no mundo e está entre as mais antigas plantas domesticadas pelo homem. Esteve presente nos primórdios da agricultura, tecnologia, religiões e medicina. Testemunhos eloqüentes de seu impacto na civilização estão presentes nas escrituras sagradas e nos mais antigos documentos médicos das mais diversas culturas.
O número de artigos científicos publicados sobre o sistema canabinóide cresce linearmente a cada ano, de forma que a maconha protagoniza uma verdadeira revolução, representando uma das mais promissoras fronteiras no desenvolvimento da neurobiologia e da medicina. A descoberta dos endocanabinóides, ou seja, moléculas análogas aos princípios ativos da maconha, mas produzidas pelo próprio cérebro, é a grande novidade por trás dessa guinada científica. Neste início de século XXI, acredita-se que os canabinóides possam estar envolvidos na remodelação de circuitos neuronais, na extinção de memórias traumáticas, na formação de novas memórias e na proteção de neurônios. […] A desregulação do sistema canabinóide pode estar envolvida nas causas da depressão, dependência psicológica, epilepsia, esquizofrenia e doença de Parkinson.

I. A HISTÓRIA NATURAL DA MACONHA

Acredita-se que a Cannabis seja originária da região central da Ásia, onde ainda é encontrada em sua forma silvestre. Hoje em dia, uma extensa faixa de estepes entremeada por desertos recobre esta região seca e gelada. Entretando, há evidências de que a planta já existia por ali numa época em que o clima era mais úmido e quente, o que confirma sua extraordinária capacidade adaptativa. Desta região a planta teria se espalhado pelo mundo graças aos movimentos migratórios de nômades e à atividade de comerciantes. A milenar relação do homem com esta planta acabou por gerar inúmeras variedades das três subespécies da Cannabis (indica, sativa, ruderalis), selecionadas segundo o interesse de quem as cultivava, tais como a qualidade da fibra e a quantidade da resina que produziam.

Vêm da China as mais antigas evidências da relação do homem com a Cannabis. Em 1953, numa vila chamada Pan-p’o, às margens do Rio Amarelo, trabalhadores escavavam as fundações de uma fábrica moderna sem imaginar que retiravam do chão a terra que os separava da pré-história de seu povo. Ali, sob sedimentos acumulados por mais de 6 mil anos, eles encontrariam indícios de que a Cannabis já fazia parte daquele cotidiano da idade da pedra: peças de cerâmica caprichosamente decoradas com marcas de tramas feitas de fibras de Cannabis.

O achado arqueológico sugere que a Cannabis era usada na tecelagem rudimentar e na confecção de cordas e redes de pesca pelos ancestrais dos chineses. Outros sítios arqueológicos espalhados pela China e na Ilha de Taiwan revelaram que ao longo dos séculos a versatilidade dos usos da Cannabis tornou seu cultivo imprescindível para a vida nas vilas do leste asiático. Seus pequenos frutos se tornaram um dos mais importantes grãos usados na alimentação, e uma fonte primordial de óleo comestível e combustível. […] A qualidade das fibras da Cannabis também possibilitou aos chineses a invenção do papel.

Segundo o botânico e geógrafo russo Nicolay Vavilov (1887-1943), o homem primitivo experimentava todas as partes das plantas que pudesse mastigar, de forma que os brotos e inflorescências de variedades de Cannabis ricas em resinas aromáticas e pequenos frutos oleosos deveriam lhe parecer especialmente atraentes. Evidentemente, para aqueles que vieram a comer da planta, foi inevitável ingerir também os princípios psicotrópicos abundantes na sua resina, transformando a despretensiosa refeição numa experiência certamente inesquecível, com enormes consequências para a humanidade. Naquele contexto, os efeitos mentais da maconha teriam representado para esses coletores incautos nada menos do que um mergulho profundo em uma realidade completamente fora deste mundo, produzindo intensas sensações místicas.

….o homem antigo gradualmente aprendeu a reconhecer as propriedades farmacológicas das plantas por tentativa e erro, experimentando-as. Esse tipo de conhecimento empírico foi sendo adquirido e preservado pelos antigos xamãs asiáticos.

[…] Em 2006, foi encontrada na divisa entre China, Mongólia e Rússia a tumba de um xamã que viveu a cerca de 2.500 anos. Com ele foi enterrada, além de um instrumento musical, uma cesta de ouro contendo um farto suprimento de brotos e inflorescências de maconha que, devido ao frio, ainda presevavam um alto teor de canabinóides. Para xamãs como este, as propriedades psicotrópicas e medicinais dos mais diversos princípios da natureza, inclusive a maconha, eram sagradas e constituíam valiosas ferramentas farmacológicas necessárias ao ofício diário de diminuir as dores do corpo e dialogar com as diferentes dimensões da consciência.

A mais antiga farmacopéia (enciclopédia de medicamentos) do mundo, o Pen-ts’ao ching, foi escrita no primeiro século depois de Cristo a partir da compilação desse conhecimento tradicional, passado de geração em geração. […] A maconha era ali indicada para o tratamento de dor reumática, constipação, problemas femininos associados à menstruação, beribéri, gota, malária e falta de concentração…

O grego Heródoto (484-425 a.C.) nos legou em sua História o mais vívido e explícito relato que existe sobre os efeitos psicoativos da maconha na antiguidade. Segundo este relato, como parte de um ritual de purificação após enterrarem seus mortos, os citas entravam em uma tenda no centro da qual colocavam um caldeirão de bronze contendo pedras aquecidas. ‘Os citas então jogam as sementes de maconha nas pedras em brasas: as sementes queimam como incenso e produzem um vapor tão denso que nenhuma sauna grega poderia superar. Ao se deliciarem com esses vapores, os citas uivam como lobos’.

[…] A Cítia eventualmente desapareceu como nação, mas seus descendentes se espalharam pela Europa oriental, legando costumes presentes até hoje no folclore dessa região, sobretudo no norte dos Bálcãs, onde, por ex., se toma sopa com sementes de Cannabis no dia de ano-novo.O filósofo grego Demócrito, contemporâneo de Heródoto, relatou que ‘a maconha era bebida ocasionalmente, misturada com mirra e vinho, para produzir um estado visionário’. […] “…o uso médico e religioso da maconha sob a forma de uma bebida chamada bhanga já fazia parte da cultura dos persas na época de Heródoto… a bhanga teria a capacidade de revelar aos mortais os mais altos mistérios.

É bem possível que os hebreus já soubessem da existência da maconha antes mesmo de sua fuga do Egito, tendo em conta que os historiadores acreditam que o êxodo descrito no velho testamento possa ter ocorrido durante ou pouco antes do reinado do faraó Ramsés II (1195-1164 a.C.), o qual provavelmente conhecia muito bem os efeitos da maconha, conforme se pôde constar pela grande presença de canabinóides nos cabelos de sua múmia.

Em nenhuma outra civilização a maconha teve um prestígio religioso e medicinal tão expressivo quanto na Índia. De acordo com o Vedas, conjunto de textos que compõem as bases filosóficas do Hinduísmo, os deuses teriam mandado a maconha ao homem para que este pudesse alcançar mais coragem, libido e prazer.

Uma fábula conta que, em um dia ensolarado, Shiva, o deus mais importante do Hinduísmo, estava aborrecido por causa de um desentendimento com sua família e saiu sozinho para caminhar nos campos, até que resolveu buscar proteção do sol sob a sombra de um majestoso arbusto de maconha. Curioso a respeito da planta que lhe dera abrigo, Shiva comeu de suas folhas e se sentiu tão revigorado que adotou a planta como sua favorita. […] Um livro sagrado escrito entre 2000 e 1400 a.C. reconhece a propriedade que a maconha tem de aliviar a ansiedade. O Vedas também se refere à maconha, uma das cinco ervas sagradas do Hinduísmo, como sendo uma fonte de alegria, regozijo e liberdade.

Diz uma lenda da corrente mahayana do Budismo tibetano que Siddharta Gautama, a primeira encarnação de Buda, se alimentou exclusivamente de sementes de maconha, uma por dia, durante os seis anos de preparação que precederam sua chegada ao Nirvana. Já na tradição do Budismo Tântrico… a maconha é utilizada para facilitar a meditação e potencializar as percepções sensoriais envolvidas em cada aspecto das cerimônias tântricas. Nos ritos sexuais, uma boa quantidade de bhang é ingerida com antecedência, de forma que os efeitos potencializadores dos sentidos coincidam com o auge da prolongada cerimônia sexual cujo objetivo final é o de alcançar a comunhão espiritual com a deusa Kali.

Foi somente por consequência da ocupação britânica da Índia, já no século XIX, que a Europa veio a tomar contato com as propriedades medicinais da maconha…. seu uso se espalhou pela Europa e EUA de tal forma que, já nas primeiras décadas do século XX, dezenas de remédios à base de maconha estavam sendo produzidas pelos mais importantes laboratórios farmacêuticos, sendo recomendadas pelos médicos para os mais variados problemas, incluindo: enxaquecas, dor-de-dente, cólicas menstruais, hemorragia menstural e pós-parto, risco de aborto, úlcera gástrica, indigestão, inflamação crônica, reumatismo, eczema, estímulo do apetite e tratamento de anorexia.

Paralelamente, contudo, desenvolviam-se vacinas e antibióticos contra doenças infecciosas, além de novos remédios com indicações mais específicas, que passaram a ser de maior interesse para a indústria farmacêutica do que aqueles com efeitos múltiplos, como os que continham extrato de maconha… Finalmente, em 1941, a maconha saía oficialmente das páginas da farmacopéia norte-americana para figurar nas páginas policiais daquele país.

(…) O uso da maconha foi consagrado como símbolo do pacifismo hippie e da defesa das liberdades individuais, estabelecendo-se a partir de então como um ícone da cultura pop norte-americana. Em 1980, nada menos do que 68% dos norte-americanos já haviam experimentado a maconha ao menos uma vez.

No Brasil, escravos e campesinos usavam-na socialmente no final do dia de trabalho, quando se reuniam de forma quase ritualística para relaxar em rodas de fumo… a planta era fumada para facilitar o transe místico… Mas o efeito relaxante da maconha não era visto com bons olhos por patrões e senhores de escravos. […] O uso da maconha passou a ser combatido como vício pela elite econômica […] e sofreu perseguição de cunho fortemente racista, e sua proibição eventualmente passou a servir de pretexto para a opressão de indivíduos de origem africana que, sobretudo após a abolição da escravatura, eram vistos pelos brancos como uma parcela perigosa da população.

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Um aspecto que distingue a maconha de muitas outras plantas medicinais é o conjunto de efeitos mentais que seu uso provoca. As relações milenares do homem com a Cannabis certamente decorrem de estados psicológicos prazerosos associados a seu consumo, e da possibilidade de obter tais efeitos de forma rápida e transitória. A maconha em doses não excessivas geralmente provoca uma experiência de alteração mental livre de náusea, vômito, diarréia, dor de cabeça, pânico, fortes alucinações ou perda de consciência. O ‘barato’ causado pela maconha, embora não seja normalmente estudado por ser valor terapêutico, está associado à melhora do humor, à redução da ansiedade e à sedação moderada, qualidades desejáveis no tratamento de diversas doenças.

Contudo, se é certo que muitos dos efeitos psicológicos da maconha estão direta ou indiretamente relacionados aos seus usos terapêuticos, também é certo que o interesse do homem por eles vai muito além da esfera medicinal. Assim, em diferentes tempos e culturas, as propriedades psicoativas da maconha têm sido utilizadas para finalidades religiosas, artísticas e recreativas.

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Um dos efeitos imediatos mais mencionados é o alívio do estresse mental e físico. […] De forma geral, a maconha funciona como um ansiolítico, causando um relaxamento que é frequentemente acompanhado da sensação de bem-estar e euforia, muitas vezes evidenciada por longos acessos de gargalhadas. Aumentam também a sensação de paz interior e empatia, facilitando as interações interpessoais. É comum ainda a alteração na percepção do tempo, que parece passar mais lentamente.

As emoções e percepções se intensificam, aprofundando a apreciação estética, lúdica e sensual dos sentidos. A percepção visual se enriquece, sendo marcada por cores mais vibrantes, com diferentes nuances, contornos que se destacam  com mais clareza do fundo e variações mais nítidas de luz e sombra, realçando a percepção da tridimensionalidade. Assim, elementos visuais sutis ganham vivacidade sob efeito da maconha, permitindo ao usuário enxergar com clareza texturas, padrões, formas e estruturas complexas que não lhe seriam perceptíveis sem o uso da droga.

Com relação à audição, os relatos frequentes dos usuários indicam que a maconha aumenta a acuidade auditiva, facilitando, por exemplo, a percepção de mudanças sutis de ritmos, timbres e notas musicais. É facilitada também a identificação das palavras cantadas e de cada instrumento tocado e a separação espacial dos instrumentos se torna mais clara.

[…] Sob efeito da maconha o raciocínio muitas vezes adquire mais velocidade e fluidez, resultando em associações mais flexíveis de conceitos, idéias e emoções. Além disso, imagens mentais ganham maior vividez. Se por um lado esses efeitos favorecem a criatividade e a elaboração de metáforas, por outro lado, sobretudo em usuários pouco experientes, dificultam o raciocínio lógico e objetivo.  […] Tais alterações na forma de pensar, associadas aos efeitos relaxantes e ao aumento da capacidade imaginativa, certamente contribuem para um aprofundamento da introspecção reflexiva.

Se por um lado a maconha diminui a ocorrência de sono REM e por extensão diminui efetivamente a oportunidade de sonhar, seus efeitos sobre a vigília são de certa forma oníricos, promovendo um afrouxamento perceptual e lógico que é descrito por muitos usuários como similar ao sonho. Vista por esse lado, a ação da maconha seria a redução do sonho noturno (night-dream) e o aumento da divagação da vigília (day-dream). Seu uso facilita o processo criativo e a geração de insights. Além de ser um poderoso estimulador do apetite, a maconha é também utilizada como relaxante ou mesmo como afrodisíaco.

O aprofundamento geral da experiência sensorial enriquece a apreciação e produção das artes, fazendo da maconha uma droga especialmente utilizada  pelos que vivem da sensibilidade artística. Não é por acaso que o cantor e compositor de reggae Peter Tosh, líder (assim como Bob Marley) do movimento Rastafari globalizado nos anos 1970, afirma em seu hino pela legalização da maconha (Legalize It) que a maconha é usada por muitos na sociedade, como juízes e médicos, mas começa sua lista pelos cantores e instrumentistas.

Além de favorecer a veiculação de emoções através das artes e estimular a comunicação verbal, a maconha também favorece estados de baixa ansiedade, como a contemplação lúdica, a introspecção, a empatia e o transe místico.

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Alguns documentários cannábicos de alta relevância:

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The illegality of cannabis is outrageous, an impediment to full utilization of a drug which helps produce the serenity and insight, sensitivity and fellowship so desperately needed in this increasingly mad and dangerous world. 
Carl Sagan

 If the words “life, liberty and the pursuit of happiness” don’t include the right to experiment with your own consciousness, then the Declaration of Independence isn’t worth the hemp it was written on. 
Terence McKenna

Leitura essencial para quem está faminto por um mundo mais justo: “Stuffed and Starved”, de Raj Patel (Leia um trecho e baixe o ebook:)

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“Today, when we produce more food than ever before, more than one in ten people on Earth are hungry. The hunger of 800 million happens at the same time as another historical first: that they are outnumbered by the one billion people on this planet who are overweight. Global hunger and obesity are symptoms of the same problem and, what’s more, the route to eradicating world hunger is also the way to prevent global epidemics of diabetes and heart disease, and to address a host of environmental and social ills. Overweight and hungry people are linked through the chains of production that bring food from fields to our plate. Guided by the profit motive, the corporations that sell our food shape and constrain how we eat, and how we think about food. The limitations are clearest at the fast food outlet, where the spectrum of choice runs from McMuffin to McNugget. But there are hidden and systemic constraints even when we feel we’re beyond the purview of Ronald McDonald.

Our choices are not entirely our own because, even in a supermarket, the menu is crafted not by our choices, nor by the seasons, nor where we find ourselves, nor by the full range of apples available, nor by the full spectrum of available nutrition and tastes, but by the power of food corporations.

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Raj Patel

Stuffed and Starved (by Raj Patel) is “an enquiry that uncovers the real reasons for famine in Asia and Africa, why there is a worldwide epidemic of farmer suicides, why we don’t know what’s in our food any more, why black people in the United States are more likely to be overweight than white, why there are cowboys in South Central Los Angeles, and how the world’s largest social movement is discovering ways, large and small, for us to think about, and live differently with, food.

India has, for example, destroyed millions of tons of grains, permitting food to rot in silos, while the quality of food eaten by India’s poorest is getting worse for the first time since Independence in 1947. In 1992, in the same towns and villages where malnutrition had begun to grip the poorest families, the Indian government admitted foreign soft drinks manufacturers and food multinationals to its previously protected economy. Within a decade, India has become home to the world’s largest concentration of diabetics: people – often children – whose bodies have fractured under the pressure of eating too much of the wrong kinds of food.

It’s easy to become inured to this contradiction; its daily version causes only mild discomfort, walking past the ‘homeless and hungry’ signs on the way to supermarkets bursting with food. There are moral emollients to balm a troubled conscience: the poor are hungry because they’re lazy, or perhaps the wealthy are fat because they eat too richly. This vein of folk wisdom has a long pedigree. Every culture has had, in some form or other, an understanding of our bodies as public ledgers on which is written the catalogue of our private vices. The language of condemnation doesn’t, however, help us understand why hunger, abundance and obesity are more compatible on our planet than they’ve ever been.

Raj Patel

The closer a Mexican family lives to its northern neighbours and to their sugar and fat-rich processed food habits, the more overweight the family’s children are likely to be. That geography matters so much rather overturns the idea that personal choice is the key to preventing obesity or, by the same token, preventing hunger. And it helps to renew the lament of Porfirio Diaz, one of Mexico’s late-nineteenth-century presidents and autocrats: ‘¡Pobre Mexico! Tan lejos de Dios; y tan cerca de los Estados Unidos’ (Poor Mexico: so far from God, so close to the United States). A perversity of the way our food comes to us is that it’s now possible for people who can’t afford enough to eat to be obese. Children growing up malnourished in the favelas of São Paulo, for instance, are at greater risk from obesity when they become adults. Their bodies, broken by childhood poverty, metabolize and store food poorly. As a result, they’re at greater risk of storing as fat the (poor-quality) food that they can access.

As consumers, we’re encouraged to think that an economic system based on individual choice will save us from the collective ills of hunger and obesity. Yet it is precisely ‘freedom of choice’ that has incubated these ills. Those of us able to head to the supermarket can boggle at the possibility of choosing from fifty brands of sugared cereals, from half a dozen kinds of milk that all taste like chalk, from shelves of bread so sopped in chemicals that they will never go off, from aisles of products in which the principal ingredient is sugar. British children are, for instance, able to select from twenty-eight branded breakfast cereals the marketing of which is aimed directly at them. The sugar content of twenty-seven of these exceeds the government’s recommendations. Nine of these children’s cereals are 40 per cent sugar.

There are, after all, no mom-and-pop international food distribution companies. The small fish have been devoured by the Leviathans of distribution and supply. And when the number of companies controlling the gateways from farmers to consumers is small, this gives them market power both over the people who grow the food and the people who eat it.

Governmental concerns about poverty, for example, have historically been driven by fear, not least because of their concerns of what large groups of politically organized, angry and hungry urban poor people might do to the urban rich. (…) In different ways, the countries of Europe and North America set their food policies in order to ensure that the cries of the urban hungry didn’t lead to civil war…

MST5MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra  || Brasil
MST6

In Brazil, over one million landless people have organized and occupied disused farmland. As a result, they are living healthier, longer and better-educated lives than those in comparable schemes elsewhere. The members of this movement, the Brazilian Landless Rural Workers Movement, are part of arguably the world’s largest independent social movement organization – La Via Campesina (The Peasant Way), representing as many as 150 million people worldwide. Incorporating groups from the KRRS, with an estimated membership of twenty million in India, to the National Farmers Union in Canada, the Korean Women Farmers Association, the Confédération Paysanne in France and the União Nacional de Camponeses in Mozambique, it’s nearly as globalized as the forces against which it ranges itself. It’s a mixed bag of movements. Some of its members are landless, some own land and hire the landless; some are small producers, some are medium-sized.

As consumers we can shape the market, however slightly, by taking our wallets elsewhere. But the choice between Coke and Pepsi is a pop freedom – it’s choice lite.

In the course of this book, I look at some of the ways the food system is shaped by farming communities, corporations, governments, consumers, activists and movements. The sum of these choices has left many stuffed and many starved, with people at both ends of the food system obese and impoverished, and with a handful of the system’s architects extremely wealthy…”

Title: Stuffed and Starved
Author(s): Raj Patel
Harper Collins, 2008, 438 pgs
Download (epub)

BROKEN REPUBLIC (Penguin Books, 2011) – The “World’s Biggest Democracy” according to Arundathi Roy

DSC05338DSC05331DSC05332DSC05333Photos from Arundhati Roy’s Broken Republic

INDIA: THE WORLD’S BIGGEST DEMOCRACY?
By E.C. Moraes @ Awestruck Wanderer 

AA1998: while we were reaching the end of the 20th century, India was testing nuclear weapons. The civilization which gave to the world masters of wisdom such as Gandhi and Sidarta Gautama, Ambedkar and Tagore, was very un-wisely on the brink of war.  It was like a reawakening of the politics of the Cold War, in which both the U.S. and the Soviet Union had atom bombs at their disposal, with both India and its next-door-neighbour Pakistan with weapons of mass destruction pointing at one another. The scars of Partition still imprinted in memory. Sad news, indeed. It’s as if, instead of learning from History (Hiroshima and Nagasaki: “the horror, the horror!”), some governments just won’t let go of this very lousy idea of messing with nuclear warfare – a situation so brilliantly mocked by Stanley Kubrick’s film Dr. Strangelove.

One of India’s greatest writers, Booker-Prize winning novelist Arundhati Roy, instead of writing a follow-up for The God of Small Things (1997) – widely considered a masterpiece of contemporary literature – felt she had to devote herself to write about the political reality of her nation’s turmoil. She accused India’s government of dangerously throwing fuel to a fire of nationalist pride with the Hindu H-Bomb. “When you have dispossession and disempowerment on this scale as a result of corporate globalization”, she told David Barsamian, “the anger that it creates can be channeled in bizarre and dangerous ways. India’s nuclear testes were conduced to shore up people’s flagging self-esteem. India is still flinching from the cultural insult of British colonialism, still looking for its identity.” (The Checkbook and the Cruise Missile, p. 37) Nuclear warfare on the hands of India and Pakistan was certainly no reason to celebrate, argued Arundhati Roy, who feared the worst might end up happening  -she finished one of her articles with apocalyptic imagery: “This world of our is 4.600 million years old. It could end in an afternoon.” (read The End of Imagination at Outlook Magazine)

broken-republic-arundhati-roy1Arundhati Roy’s political essays also denounce fiercely the Human Rights abuses in Kashmir, where India’s army imposes its rule with the colossal force of half-a-million soldiers (the largest military occupation in the world), crushing with violence all the demands of independence made by Kashmiris. Opposing the recent wave of celebration of India’s “economic miracle” and skyrocketing GDP, Arundhati Roy states that we shouldn’t be fooled by the ideology marketed by “experts in economics”. One shouldn’t measure the success of a nation by the number of new billionaires it produces each year. And wealth going into the pockets of large corporations and their politicians should never be confused with Common Wealth or Social Justice. She argues that India is a fake democracy, a society still deeply hierarchical, clinging to its rigid Caste System, with obscene rates of deaths by starvation and mass suicides by empoverished peasants (since 1997, it’s estimated that 200.000 of them have killed themselves, often by drinking Monsanto’s pesticides). Arundathi Roys, in her BBC interview, stated that no less than 800 million people in India live on less than 20 rupees a day (which means: 30 cents of a dollar).

According to Roy, after the collapse of the Soviet Union, India aligned with the U.S.A. and the Indian state decided to open its gates to all the marvels of Free Market and “Development”. When the new century dawned, however, the September 11th attacks on New York and Washington were to be followed by a surge of islamophobia, fueled by the Yankees “War on Terror” that was beggining to plan its military invasions and bombings of Afheganistan. In India, this epidemic of islamophobia caused disaster, a re-awakening of communal violence, culminating in tragedy: in Gujarat, 2002, Muslims were massacred  by Hindu nationalists in a pogrom which killed at least 2.000 people and forced at least 150.000 out of their homes. Welcome to the “World’s Largest Democracy”.

Is Indian Capitalism working? If we look at growth rates and skyrocketing GDP, oh yes Sir! But let’s not get blinded by economists and their statistics: India is a country ravaged by famine: “836 million people of India live on less than 20 rupees a day, 1.500.000 malnourished children die every year before they reach their first birthday. Is this what is known as ‘enjoying the fruits of modern development’?” (ROY, Broken Republic, pg. 154).

The Indian State also has to deal with another kind of menace, the “inner enemy”, those dozens of thousands of Indians, called “Maoists” or “Naxalites”, who decided to insurrect in armed rebellion. They want nothing less than to overthrow the Indian State. “Right now in central India, the Maoists’ guerrilla army is made up almost entirely of desperately poor tribal people living in conditions of such chronic hunger that it verges on famine of the kind we only associate with sub-Suharan Africa”, writes Arundhati Roy (pg. 7).

In 2006, India’s prime minister described the Maoists as “the single biggest internal security challenge ever faced by our country”, a statement which Roy considers very exaggerated.  By magnifying in discourse the danger posed by the Maoist guerrilla, by painting in the media a portrait of them as cruel terrorists, the Indian government aims, argues Arundhati Roy, to justify its war measures against the poorest of its citizens. Quite honest in revealing the masters who he serves, the prime minister also told the Parliament in 2009: “If Left Wing extremism continues to flourish in important parts of our country which have tremendous natural resources of minerals and other precious things, that will certainly affect the climate for investment.” (B.R., pg. 3)

For a quick example of the “tremendous natural resources”, it’s enough to mention that “the bauxite deposits of Orissa alone is worth 2.27 trillion dollars (twice India’s gross domestic product)” (pg. 23). In order for the mining corporations to have access to this precious things, India needs to be turned into a Police State. It needs to wage war against the hungry, desperate and destitute people who live in this very “profitable” lands, against the people who revolt against being displaced, impoverished and opressed. To simply leave the bauxite in the mountains seems out of the question for the government and the industrialists, of course, who have eyes only for the money that can be made and not to the environmental damage and social havoc that such procedures of extraction will cause. The alliance between a neo-liberal state and its corporate friends leads to a situation in which military power and police repression are massively used to enforce the so-called Free Market. In order to clear the way for the corporations to extract their profits from India’s natural resources, genocide is seen as an acceptable means, if only you preach in the media that a terrorist threat to national security needs to be crushed.

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Comrade Kamla, member of the Maoist guerrillas.

“What are we to make of the fact that just around the time the prime minister began to call the Maoists the ‘single biggest internal security challenge’ (which was a signal that the government was getting ready to go after them) the share prices of many of the mining corporations in the region skyrocketed? The mining companies desperately need this war… To justify the militarization, it needs an enemy. The Maoists are that enemy. They are to corporate fundamentalists what the Muslims are to Hindu fundamentalists. (…) Here’s a maths question: if it takes 600.000 soldiers to hold down the tiny valley of Kashmir, how many will it take to contain the mounting rage of hundreds of millions of people?” (31-34)

Arundhati Roy speaks from experience: she went to witness first-hand what’s happening in the areas where India’s State and the Maoist guerrilla clash. She tells the tale in Walking With The Comrades, one astonishing feat of investigative journalist that proves how courageous Arundathi Roy really is. She puts herself in danger in order to see for herself what’s going on there, in order to be able to write truly about the battle for the “mineral-rich forests of Chhattisgarh, Jharkhand, Orissa and West Bengal – homeland to millions of India’s tribal people, dreamland to the corporate world.” (pg. 42) It seems to be a situation with many similarities with Mexico’s conflict in Chiapas, where the Zapatista’s armed insurrection confronts the Mexican State in its tendency to favour corporate plunder of indigenous lands.

“The antagonists in the forest are disparate and unequal in almost every way. On one side is a massive paramilitary force armed with the money, the firepower, the media, and the hubris of an emerging Superpower. On the other, ordinary villagers armed with traditional weapons, backed by a superbly organized, hugely motivated Maoist guerrilla fighting force with an extraordinary and violent history of armed rebellion.” (pg. 39)

India’s Constitution, adopted in 1950, “ratified colonial policy and made the state custodian of tribal homelands. Overnight, it turned the entire tribal population into squatters on their own land.” (pg. 43) Dispossessed of their right to livelihood and dignity, the tribal people became pawns in the Big Business game. “Each time it needed to displace a large population – for dams, irrigation projects, mines – it talked of ‘bringing tribals into the mainstream’ or of giving them ‘the fruits of modern development’. Of the tens of millions of internally displaced people (more than 30 million by big dams alone), refugees of India’s ‘progress’, the great majority are tribal people.” (pg.  43) Here we have an example of what Bruno Latour calls The Modernization Front. In India, The Modernization Front, in order to protect corporate interests (after all, corporations are vehicles of Progress…), won’t refrain from engaging in a war against its own people. A War that Arundhati Roy prefers to call by another name: Genocide.

ArundhatiIn the 10-hour drive she untertook through areas known to be “Maoist-infested”, she noted: “These are not careless words. ‘Infest/infestation’ implies disease/pests. Diseases must be cured. Pests must be exterminated. Maoists must be wiped out. In these creeping, innocuous ways the language of genocide has entered our vocabulary.” (pg. 45) She walks for hours and hours each day, along with the comrades, under the shining and vehement sun, carrying a backpack filled with essentials for jungle-survival – and when it comes the time for sleep, she doesn’t mind that much not having a roof over her head. Resting on a sleeping-bag on the forest floor, she celebrates her “star-spangled dormitory” (pg. 63): “It’s my private suite in a thousand-star hotel. (…) When I was a child growing up on the banks of the Meenachal River, I used to think the sound of crickets – which always started up at twilight – was the sound of stars revving up, getting ready to shine. I’m surprised at how much I love being here. There is nowhere else in the world I would rather be.” (pg. 57-60)

While she walks with the comrades, she knows some areas they’re crossing run the risk of going underwater because of Mega Dams. Since Independence, 3.300 big dams were built, and the amount of displaced is estimated in over 30 million people.

“The Bodhgat Dam will submerge the entire area that we have been walking in for days. All that forest, that history, those stories. More than a hundred villages. Is that the plan then? To drown people like rats, so that the integrated steel plant and the bauxite mine and aluminium refinery can have the river? (…) There was a time when believing that Big Dams were the ‘temples of Modern India’ was misguided, but perhaps understandable. But today, after all that has happened, and when we knoe all that we do, it has to be said that Big Dams are a crime against humanity.” (pg. 142-143)

 In the People’s Liberation Guerrilla Army, 45% of its cadre are women. The so-called Maoists or Naxalites consist mainly of people from the lowest caste of India’s piramidal society: the Untouchables, the pariahs of India, those who are treated as human scums, crushed underneath a heavy weight of hierarchical machinery. When the Prime Minister said the Maoists were a grave security challenge, “the opposite was true”, argues Roy, who remembers that the rebels were being decimated in a Purification Hunt destined to “send the share-value of mining companies soaring” (pg. 80)

What it all boils down to is a clash between Corporate Capitalism, on the one side, and the majority of the population, on the other. In times where ideologies of Free Trade reign, the exploration of natural resources is made not in order to provide for the commonwealth of the whole of society, but for private profits gained through ecocidal and genocidal means.

“Allowing ‘market forces’ to mine resources ‘quickly and efficiently’ is what colonizers did to their colonies, what Spain and North America did to South America, what Europe did (and continues to do) in Africa. It’s what the Apartheid regime did in South Africa. What puppet dictators in small countries do to bleed their people. It’s a formula for growth and development, but for someone else. (…) Now that mining companies [in India] have polluted rivers, mined away state borders, wrecked ecosystems and unleashed civil war, the consequence of what the coven has set into motion is playing out like an ancient lament over ruined landscapes and the bodies of the poor.” (pg. 170)

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“If the motion picture were an art form that involved the olfactory senses – in other words, if cinema smelled – then films like Slumdog Millionaire would not win Oscars. The stench of that kind of poverty wouldn’t blend with the aroma of warm popcorn.”  – Arundathi Roy

Arundathi Roy’s political thought is so intensely relevant nowadays because she is one of the fiercest critics of what goes by the name of “Democracy” nowadays. States that impose with authoritarian means – including military atrocities and police brutality – the policy of Free Market (which means: let’s protect the private interests of wealthy corporations and billionaires!), call themselves “democracies”. India is often called the world’s biggest democracy, and yet “the Indian State, in all its democratic glory, is willing to loot, starve, lay siege to, and now deploy the air-force in ‘self-defense’ against its poorest citizens.” (pg. 186) So we have to distinguish between Ideology / Propaganda (“India is a Democracy, a Fast-Growing Economy, with a State concerned in providing Security from terrorists”) from Reality (there are a lot of natural resources that corporations are eager to get a hold of… if only the people are thrown out of the way!).

The essential question to be asking is this: what about the future of the planet? If the current model of development continues, what will happen to mankind as we move towards a future that’s bound to be filled with ecological crisis and all the cataclysms ensuing from Climate Change? In India, there’s “several trillion dollars’ worth of bauxite, for example. And “there is no environmentally sustainable way of mining bauxite and processing it into aluminium. It’s a highly toxic process that most Western countries have exported out of their own environments. To produce 1 ton of aluminium, you need about 6 tons of bauxite, more than a 1000 tons of water and a massive amount of energy. For that amount of captive water and electricity, you need big dams, which, as we know, come with their own cycle of cataclysmic destruction. Last of all – the big question – what is the aluminium for? Where is it going? Aluminium is a principal ingredient in the weapons industry – for other countries’ weapons industries…” (p. 211)

Such is the suicidal logic of the Powers That Be, a situation so bleak that many of us are worrying about Mankind’s path: are we following a road that will lead to our own extinction? Does our future hold new horrendous explosions of Atom Bombs and civil wars?  Will Corporate Capitalism be allowed to proceed with its ecocidal practices and its obscene tendencies to concentrate wealth in a few hands (while millions die from hunger and curable diseases)? How to shift direction in order for us to slow down this process that has been turning Planet Earth into an Ecological Wreck? This is how Arundathi Roy finishes this deeply moving and concerning book, Broken Republic:

“Can we expect that an alternative to what looks like certain death for the planet will come from the imagination that has brought about this crisis in the first place? It seems unlikely. The alternative, if there is one, will emerge from the places and the people who have resisted the hegemonic impulse of capitalism and imperialism instead of being co-opted by it. Here in India, even in the midst of all the violence and greed, there is still hope. We still have a population that has not yet been completely colonized by that consumerist dream. We have a living tradition of those who have struggled for Gandhi’s vision of sustainability and self-reliance, for socialist ideas of egalitarianism and social justice. We have Ambedkar’s vision, which challenges the Gandhians as well as the socialists in serious ways. We have the most spectacular coalition of resistance movements, with their experience, understanding and vision. Most important of all, India has a surviving adivasi population of almost 100 million. They are the ones who still know the secrets of sustainable living.

The day capitaism is forced to tolerate non-capitalist societies in its midst and to acknowledge limits in its quest for domination, the day it is forced to recognize that its supply of raw material will not be endless, is the day when change will come. If there is any hope for the world at all, it does not live in climate-change conference rooms or in cities with tall buildings. It lives low down on the ground, with its arms around the people who go to battle every day to protect their forests, their mountains and their rivers… It is necessary to concede some physical space for the survival of those who may look like the keepers of our past but may really be the guides to our future. To do this, we have to ask: Can you leave the water in the rivers, the trees in the forest? Can you leave the bauxite in the mountain? If they say they cannot, then perhaps they should stop preaching morality to the victims of their wars.” (pg. 214)

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DOWNLOAD ARUNDATHI ROY’S BOOKS (HIGHLY RECOMMENDED!):

In Praise of Arundhati Roy’s “The God of Small Things” – by Eduardo Carli de Moraes

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“She is one of the great writers and intellectuals of our time. I was thinking about what makes her a really great writer, a really great person, and a really great rebel: someone who listens more than she talks. Someone who goes to find where the silence is, and tries to understand why the silence is there. She is so precious and so rare. Like Charles Dickens, like Charlotte Brontë, like Virginia Woolf, like Victor Hugo, like all those wonderful writers who spoke for the people who had no voice. Arundhati Roy joins a long and proud list of people who care deeply, and who listen deeply, and who then speak fearlessly. This is our salvation, this kind of writer, this kind of person…” – ALICE WALKER , author of Pulitzer-Winning novel The Color Purple (filmed by Steven Spielberg)

I.  A SUNBEAM LENT TO US TOO BRIEFLY

ARUNDHATI ROYTo listen attentively, to care deeply, to speak fearlessly: these are some of the many virtues of our brave sister, Arundhati Roy. Even if she never writes another book of fiction, she already deserves a place in the history of English-language literature: The God Of Small Things, the winner of 1998’s Booker Prize Award, can be easily included in the Olympus of the 20th century’s true masterpieces in the realm of novels. Her story-telling talents are such that it’s hard not to get hooked on the tale she’s telling so compellingly: The God Of Small Things entrances with its language, seduces withs its humour, and then delivers, apart from a delicious verbal banquet, a blood-soaked tragedy.

She told BBC that she never meant to write a thriller, but her novel is filled with thrills, like a rollercoaster ride through Aymenem, Kerala, India, where Arundhati Roy grew-up. Perhaps it’s her own way of embarking on a Proustian recherche du temps perdu. Yet this book ain’t a memoir or an auto-biography, but something much more ambitious: an Indian tragedy, set to the background of a nation in turmoil. Bloody messy turmoil. We only need to remember what happened in Gujarat in 2002 – more than 1.000 Muslims butchered and murderer openly in the streets by Hindu fanatics, and more than 150.000 fleeing the scene of the pogroms as refugees – to have a glimpse of the turmoils of India. Who dawned to the 21st century on the brink of nuclear war with Pakistan, and who holds Kashmir hostage with the biggest military occupation in the word – this is a scary picture of India, which Arundathi Roy paints, and it rings so much true than the demagogues propaganda.

She belongs to a pantheon of writers capable of writing passionately, with words that a sensible reader feels at the same time as he deciphers them. While reading The God Of Small Things, I was frequently aware not only of an intellectual process going on in my head, the whole process of language-deciphering, but of something else, ringing with truthfulness and verve: Arundathi’s words were injected with feeling. These are sentences written to be felt rather than simply understood. In a prose so marvellous that I can only find something similar in writers, which I cherish a lot, such as Anton Tchekov, Katherine Mansfield, Heinrich Heine, Manoel de Barros…

And yet The God of Small Things, so often, seems to focus on banalities, on minute occurrences – for example, the funny description of the twins in their “delight with underwater farting”. Several times, it seems she’s jokingly playing with language like Lewis Carroll or James Joyce did so well. She evokes images – for example: a child been forced to eat spinach – that seem at first sight to be trivial chronicles of day-to-day life. But Arundhati Roy portrays this commonest matter of life as something dynamic, in perpetual motion, and that can undergo sudden changes. As if she is saying that the extraordinary is the most ordinary thing there is, yet not all among us can see it and realize it. The motto, running like an underground stream in her narrative, is this: “things can change in a day”. So we better be prepared.

 When you reach the last page of the book, and you look behind you, remembering the path you’ve traveled together with Arundhati, you can feel the wisdom of every minute detail to the general composition. It reminds me of an interesting piece of literary criticism written  by an excellent Artist-of-the-Word, Cioran: “No true art without a strong dose of banality. The constant employment of the unaccustomed readily wearies us, nothing being more unendurable than the uniformity of the exceptional.” (CIORAN, The Trouble With Being Born, p. 37) In other words: a work-of-art doesn’t necessarily need to be an overdose of extraordinary occurrences and events. The common fibre that weaves human life must be used to compose a portrait of human life as it is – and life undeniably includes in its bosom much minute trivialities and minor events without further consequence. Until it comes: the day that changes everything.

The genius of Arundathi Roy’s book lies in her hability to portray how the extraordinary disrupts the web of common life. Thus the leitmotiv in The God of Small Things – “things can change in a day”, which means: your whole life may be suddenly transformed. It may be thrown out of its usual tracks, like a derailed train bound to a blind-date with fate.

After reading this book, I also emerge from it like a diver rising up from the seas, where he saw and witnessed little fish behind devoured by big ones (just like in Radiohead’s song). Life as a frail flame that can be blow off by the wind. Life as quicksand where our feet can never quite stand in firm ground. Life as box-of-surprises (not necessarily gentle ones) . These are some of the feelings about life Arundathi’s novel  may evoke and provoke. When she describes injustices being done against the powerless, her words have the beauty and the courage of similar ones written by Simone Weil or Emma Goldman. It seems to me that Arundathi depicts the destructibility of life as something that’s part of its essence –  mortality is something no mortal can escape from – and yet Arundathi’s voice is far from depressing. Her words have an up-lifting effect, like an injection of enthusiasm shot right in the veins. It’s a voice filled with such compassion and boldness, and such lucid indignation and witty critique, that listening to her is a delight. Art can be empowering, it can communicate enthusiasm, it can teach a frame of consciousness, and it also certainly can act upon life – like Spinoza taught, it can become something we love because it enhances our vitality, adds vigor to our conatus.

20130628-gramsciThis book may be playful and filled with wit, but ain’t kitsch at all: there’s pedophilia and police brutality and class struggles ending up in bloody mess. There’s scenes to make a punk’s hairdo spike-up. There’s enough to make Chuck Norris cry. She extracts beauty from tragedy, from loss, from terrible grief, as if Arundathi was some sort of magic bee capacle of manufacturing sweet honey even from fly-trap plants. From brief sunbeams drowned out too soon. Elizabeth Bishop’s famous poem says that “the art of losing isn’t hard to master”; Arundhati Roy also paints a poignant portrait of loss, and also points out that even the most precious things can easily be lost (“things can change in a day…”). Like the fateful day in which Sophie Mol tried to cross a river on a little small-boat with her cousins, the twins Rahel and Estha. Touched by tragedy in childhood, the twins learn from life some lessons that are usually reserved for older people. The wisdom that dawns upon them, written in their flesh by death’s killings upon the living, is stated very cleverly by little Estha: “Anything can happen to anyone, so it’s better to be prepared.” The wisdom of keeping eyes opened to the possibility of the worst, and yet continuing the struggle to act in order to build something better, is something that, it seems to me, is one of the many virtues of Arundhati’s work. Maybe she agrees with Gramsci that we should keep burning two flames, simultaneously: pessimism of the intellect, optimism of the will.

It’s always good news to discover that Humanity still holds among the living some people so wise and so courageous.

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II. HOLES IN THE UNIVERSE

In The God Of Small Things, I kept bumping into some re-occuring events, popping up several times in the narrative: the Holes in the Universe. No: this novelist isn’t venturing into the territories of astrophysics, nor trying to decipher the mystery of supermassive Black Holes. Arundhati Roy uses “holes in the universe” in order to portray the human mind’s experience of death: “Joe was dead now. Killed in a car crash. Dead as a doorknob. A Joe-shaped Hole in the Universe.” (p. 113)

Of course not only death can open these holes in the Universe, subjectively-perceived, and Arundathi knows it well. It’s so brilliant the way she is able to communicate a lot with a single word, when for example she writes “die-vorce”  (p. 124). This is no crass error of misspelling, and this is no mere typo that the publisher’s reviser didn’t detect: this, my friends, is poetry in action. Instead of writing the word as the dictionary demands (“divorce”), she subverts official language, and in this process links divorce with death. Both death and divorce (understood not only as the end-of-marriage, but as a sudden separation between affectively bonded humans) have the power to “open” these Holes in The Universe that The God Of Small Things so frequently talks about.

(She also uses, with equivalent brilliancy, the witty expression “die-able” (154), to convey the sense of “being able to die”, of being in a state of danger.)

The way she deals with Time in her narrative is also quite fascinating, and it works really well: instead of following a straight path in her story-telling, always going forward in linear time, she messes up with our coordinates. Like a brat willing to spread confusion in a world of bureaucrats and stock-market money-junkies, she sets the clocks to different times and steps back to laugh at how confused and lost in Time we really are. We, short-sighted short-term beings who are neither beasts nor prophets. She does not only take us on a ride through India – it’s also a ride through Time. For example: Ammu’s death occurs in the middle of the novel, at page 154 (out of 315), and yet Ammu is present in the very last chapter. She even says the very last word of the book (“Tomorrow”).

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“The church refused to bury Ammu. So Chacko hired a van to transport the body to the electric crematorium. He had her wrapped in a dirty bedsheet and laid out on a stretcher. Rahel thought she looked like a Roman Senator. (…)  It was odd driving through bright, busy streets with a dead Roman Senator on the floor of the van. (…) Outside the vans windows, people, like cut-out paper puppets, went on with their paper-puppet lives. Real life was inside the van. Where real death was.

The crematorium had the same rotten, rundown air of a railway station, except that it was deserted. No trains, no crowds. Nobody except beggars, derelicts and the police-custody dead are cremated there. People who died with nobody to lie at the back of them and talk to them. When Ammu’s turn came, (…) the steel door of the incinerator went up and the muted hum of the eternal fire became a red roaring. The heat lunged out at them like a famished beast. Then Rahel’s Ammu was fed to it. Her hair, her skin, her smile.

20 minutes: that’s how long Chacko and Rahel had to wait for the pink receipt that would entitle them to collect Ammu’s remains. Her ashes. The grit from her bones. The teeth from her smile. The whole of her crammed into a little clay pot. Receipt No. Q 498673.”

(pg. 154-155)

aroyrArundathi paints images of holes in the Universe that emerge and take the place where joy was once intensely present. She portrays beautifully some occurrences that are far from cute – including pedophilia; child-sized coffins; police brutality against people from the lower castes; several acts of violence (both verbal and physical). As if she was trying to paint a huge mural of a world – ours, the real one – where careless words are legion, and where sometimes death comes to claim life’s yet to be lived, or who had many fruitful years ahead of them. Untimely deaths. No one should live somewhere where infancy is normally considered as a very “die-able” age. And yet India, may I remind us, has the largest population of undernourished children in the planet. And the emergence of shopping malls and billionaires, of Bollywood movie-stars and triumphant stock markets, ain’t stopping neither the tragedy of massive deaths by famine, of children and adults alike, nor the tragedy of massive suicides of empoverished peasants, which sometimes end up killing themselves by drinking pesticides made by Monsanto…

algebraWithout resembling in any way a political pamphlet, the novel is in fact deeply political. I would strongly recommend to you Arundhati Roy’s books of essays, excellent and thought-provoking books such as Algebra of Infinite Justice and Listening to Grasshoppers: Field Notes on Democracy. After reading them recently, I got the impression that, both in her fiction and non-fiction writings, she delivers a portrait of India as a country still suffering from the tragedies that ensue from the rigid social hierarchy of a Caste System.

Baby Kochamma, for example, feels very proudly that she is higher and nobler in society than those she calls “the sweeper class” (pg. 132). It seems to be one of the main intentions of The God of Small Things to give voice to the voiceless. To portray those who are so often killed without leaving behind them no portrait. No footprints in the sand’s shore. Those Power wants to thrown into Oblivion. Arundhati Roy, through the means of such a compelling story, communicates to the reader the lived experience of the lower castes, the toiling masses, and she makes us suffer together with those who suffer from the anathema and the stigma of being “Untouchables”, the pariahs of Indian society.

And some books, after we finish them, never quite leave us. They become part of us. We move on, but transformed by them. We have been taught to care more for the voiceless, for the powerless, for the wretched of the Earth; we have learned empathy towards small frail things such as ourselves. We now have been enriched by the new holes we now carry in our hearts: a Sophie-shaped hole in the Universe; a Velutha-shaped hole in the Cosmos; an Ammu-shaped hole in the Fabric of Life…

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III. THE LOVE LAWS (AND THE RISKS OF TRANSGRESSION)

It’s evident that Arundhati Roy is pretty well-read, and that she has learned a lot from the masters of the English Language: she evokes images and characters from Joseph Conrad’s The Heart of Darkness, for example, and she inserts into her narrative verses from Shakespeare’s Julius Caesar. Apart from the direct references to other books, she also can remind the reader of highly creative artists such as Virginia Woolf, Samuel Beckett or Julio Cortázar, especially because of her ability to invent a language of her own, a verbal landscape that’s quite unlike any I’ve ever read. Of course some of the scenes may remind us of other novels – for example: when Arundanthi described the minute details of the family business Paradise Pickles & Preserves (“Emperors of the Realm of Taste!”), I felt some resemblance to John Steinbeck’s marvellous narrative in The Winter of Our Discontent. And wild rivers, with dangerous secrets lurking below the surface of the waters, may also make some experienced reader reminisce the days spent surfing the pages of Moby Dick.

Of course a little boat, with three children in it, crossing a river in India, is quite different from Ahab’s vessel, in its epic journey in search of the giant white whale. But what I mean to point out is this: The God of Small Things is such a great book also because it can evoke in us past reading experiences, and good thrilling ones such as Herman Melville or Steinbeck wrote. Arundhati Roy’s work can “drown” us in a literary experience of aesthetic amazement. However, there’s  no l’art pour l’art here: this novel can teach us a lot about India, if we care to listen to the narrative’s details. When you least expect it, she writes, for example: “Some days Estha walked along the banks of the river that smelled of shit and pesticides bought with World Bank loans.” (p. 15) That’s how politics manifests itself in this novel: acting directly on the characters and their environment. Politics is something the flesh-and-blood, the pulsating heart, knows about by its effects on life.

There’s a mist of mystery surrounding the narrative that contributes a great deal to the thrilling sense of suspense of the book. He are told right from the beginning  about the tragic loss of Sophie Mol, but Arundhati takes her time in unveiling what happened to this English child visiting her cousins and aunts in India. Sophie and her mother came to India after experiencing trauma in England – the death of Joe – but unaware that they would be further traumatized rather than healed. After all this is India, a country filled with “public turmoils”, where “various kinds of despair competed for primacy”, “poised forever between the terror of war and the horror of peace”, and where “Worse Things kept happening” (20).

I see in The God of Small Things a tragedy set in India, a country where “caste issues are very deep-rooted” (263). People are “conditioned from birth”, says Comrade Pillai, to think and feel in accordance with the caste system – which is, of course, a system of stratification of social classes in which a lot of violent conflict keeps exploding (in his century, the Mumbai terrorist attacks of 2008 and the Gujarat pogrom of 2002 stand as examples). This Caste Segregation is the political background for a tale of forbidden love, and love loved in spite of laws forbidding it.

Ammu and Valutha are a bit like Romeo and Juliet, daring to love when the social landscape around them deems it a scandal. What an obscenity, to love someone outside of one’s caste! In Arundathi Roy’s novel, two persons from two castes who aren’t supposed to mix end up choosing the experience of forbidden love, even tough they know this could be their doom. When Ammu and Velutha join their bodies in the delights of wild love-making, there’s a big fear lurking inside them. There’s an anguished panic poisoning their delightfully forbidden love. This love, in the wildness of its force, tramples underfoot the taboos of caste. They will be punished, for certain, by their transgression. This love is risky business, and in daring it you gamble with your life.

Stanton_R&J CoverIt’s quite similar to what happens in Shakespeare’s Romeo and Juliet: the “clash” and conflicts that sets apart Capuletos and Montecchios, as you well remember, is the background for the forbidden love between Romeo and Juliet. They transgress the Laws of Segregation with their Union in Love. Tough brief, it’s a symbol of love’s power to demolish frontiers and unite what has been kept severed. Romeo and Juliet refuse the segregation imposed by their families, and by the social structure, and dare to love and unite amidst a conflict filled with bloody hate. I wouldn’t say that The God Of Small Things is inspired by Romeo and Juliet, but rather that Shakespare’s famous play deals with similar dilemmas.

Rahel and Estha, Ammu and Velutha, are characters which transgress the Love Laws, which lay down who should be loved, and how much, and according to what dogmas and rules. “…once again they broke the Love Laws. That lay down who should be loved. And how. And how much.” (p. 311) Ammu and Velutha unite in the art of seeing the common, beyond differences, in the boundary-transcending light of a loving-eye. They transgress the Love Laws and then are crushed to an horrendous death. And yet the genius of Arundhati lies not only in the tragic grandeur she can convey in her story-telling, but also in the lush sensuality of her imagery. The sex scenes at the very end of the novel are the greatest example. Love-making description skyrockets to Shapespearean heights in these pages, and the beauty of them resembles the beauty in D. H. Lawrence’s Lady Chatterley or in Abdel Kechiche’s film Blue Is The Warmest Color… 

In Arundhati’s Roy, the tragedy of the lovers runs parallel with the children-in-the-boat subplot. An accident happens, the children’s boats hits some obstacle in the waters of the river, and then the fragile vessel throws into the water Rahel, Estha and Sophie.  “Just a quiet handing-over ceremony. A boat spilling its cargo. A river accepting the offering. One small life. A brief sunbeam.” (pg. 277) Velutha – the Romeo of the forbidden-love saga – now is claimed by another play, another saga: he’s to be a scape-goat, the one to be punished by the death of a child. Velutha, tender lover and hard-working man, an activist of the Marxist Party and a friend of maoists, ends up being beaten to death by the police. Beaten out of existence. To be buried in the Pauper’s Pit. And then one suddenly awakes to the fact: what impels Arundhati Roy to write is clearly indignation for the horrors and strifes that she describes. She suffers with these crushed lives because of her extraordinary capacity for empathy. An hability to have attentive antennas to listen to the voices of human diversity.

In recent years, amazing works-of-art also reflected upon false accusations and unjust punishments – Ian McEwan’s Atonement and the film The Hunt by Thomas Vinterberg are examples take occur to me. It would certainly be interesting to attempt a comparison of these works with The God of Small Things. My impression is that Arundhati Roy deals with matters of Crime and Punishment with such depth and intelligence as one can find only in the works of great masters such as Franz Kafka or Dostoiévski.

Alive, awake, alert. That’s what some books do for us: they kick-start our mind’s capacities to marvel and wonder. They expand our horizons by unveiling the magnitude (it’s huge) of all that we can’t understand. They enchant us with their language, until we wake up to what what we were previously unaware of. They tell stories that we feel that needed to be told. When he reach the last page, we feel that the book isn’t finished, it will reverberate and echo inside us, perhaps for years. We close this book and it’s possible we’ll be burdened by a grief similar to the one we feel when a loved-one dies. I surely carry now within me a Velutha-shaped hole in the Universe, a Sophie-shaped hole in Existence. And yet I feel enriched by these new holes, by these tales of transgressive love, by these human kaleidoscope flowing in Time on the Earth Woman’s bosom.

“We belong nowhere”, Chako said. “We sail unanchored on troubled seas. We may never be allowed ashore. Our sorrows will never be sad enough. Our joys never happy enough. Our dreams never big enough. Our lives never important enough. To matter.”

Then, to give the twins Estha and Rahel a sense of Historical Perspective, he told them about the Earth Woman. He made them imagine that the earth – 4600 million years old – was a 46-year-old woman. It had taken the whole of the Earth Woman’s life for the earth to become what it was. For the oceans to part. For the mountains to rise. The Earth Woman was 11 years old, Chacko said, when the first single-celled organisms appeared. The first animals, creatures like worms and jellyfish, appeared only when she was 40. She was over 45 – just 8 months ago – when dinosaurs roamed the earth.

“The whole of human civilization as we know it”, Chacko told the twins, “began only 2 hours ago in the Earth Woman’s life.”

It was an awe-inspiring and humbling thought, Chacko said, that the whole of contemporary history, the World War, the War of Dreams, the Man on the Moon, science, literature, philosophy, the pursuit of knowledge – was no more than a blink of the Earth Woman’s eye.

“And we, my dears, everything we are and ever will be are just a twinkle in her eye…”

The God Of Small Things is a fountain of life: drink it up with might, O you who thirst for Truth, Freedom, Justice, O you who grieve everyday by seeing them crushed!

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