SATIRIZANDO TEMER: Poemas-escracho de Daniel Ramos, do perfil fake @temerpoeta, mostram a potência do escracho cáustico e criativo

Nada obriga a contracultura a ser tão sisuda e truculenta quanto seus adversários, os epígonos da cultura oficial, quase sempre moralista e autoritária. A sátira é uma das armas mais afiadas que as forças libertárias, ditas “contraculturais”, podem usar para destronar aqueles que só sobem aos tronos através de “tenebrosas transações”, para relembrar Chico Buarque (ele mesmo tão capaz de brilhar os cale-se com cálices de suingado lirismo e malandra esperteza).

No Brasil, em 2016, um exemplo muito interessante, instrutivo, criativo e potente de prática cultural, a um só tempo crítica e lúdica, são os trabalhos de escracho-arte do Daniel Ramos. Criador do perfil fake @temerpoeta, que rapidamente logrou atingir certo hype na cibercultura, ainda que não ao ponto de viralizar como clipes-só-de-nudes-da-Clarice Falcão, o Daniel Ramos é o criador da revista Caroço (disponível na livraria A Casa de Vidro por R$12) e autor de alguns dos petardos mais bem atirados à testa do usurpador que ora nos desgoverna lá do Palácio do Planalto.

Brasília(DF), 27/04/2016 - Michel Temer e Aécio Neves visitam Renan Calheiros - Foto: Michael Melo/Metrópoles

Brasília(DF), 27/04/2016 – Michel Temer e Aécio Neves visitam Renan Calheiros – Foto: Michael Melo/Metrópoles

 O deboche também é uma arma do levante popular antigolpista e nisto iniciativas como a de Daniel Ramos ganham uma dimensão que vai além do humor de entretenimento. Ainda não conheço pensadores e artigos que tenham se debruçado sobre este fenômeno social efervescente que é o escracho como forma de manifestação política, algo que tem decerto uma contundente tradição no Brasil (como o Pasquim em sua cruzada anti-careta e anti-canhões, antagonizando a ditadura militar do Brasil a golpes de charges e anedotas), mas que ganha novos contornos hoje com a cultura dos memes e com uma cibercultura infestada pelo fenômeno da trollagem. 

É minha aposta, provocativa, de que para além das gangues e hordas de trolls fascistas que, na internet, deixam extravasar todo seu repugnante racismo e elitismo, pedindo Bolsonaro como presidente ou exigindo intervenção militar seguida de fuzilamentos de veados tipo o Jean Wyllys, existe também no âmbito da esquerda uma insurreição sócio-política que sabe utilizar-se das armas do humor e que – eis minha provocação – sabe trollar as pessoas certas (os opressores, os golpistas, os plutocratas, os tiranos em conluio com juntas financeiras…).

A esquerda também trolla, e isto se torna bem evidente diante de fenômenos recentes, como aqueles protagonizados pelo Levante Popular da Juventude, que realizou escrachos na frente da mansão do interino-inelegível em São Paulo, ou da Frente Povo Sem Medo e MTST que estrondosamente manifestaram com fogos de artifício seu repúdio ao papel da Fiesp (sediada na Av. Paulista e presidida por Skaf) no golpe de Estado. Artistas como Laerte, Angeli, Latuff, Dahmer, Aroeira, Vitor Teixeira, Rafucko, também demonstraram neste 2016, através da criação de espantosa e prolífica obra, que no Brasil temos pelo menos o consolo, após este ano tenebroso de tantos retrocessos, de que por aqui o senso crítico não morre tão fácil e segue super alerta e operante em nossos melhores comediantes e cartunistas – cáusticos e espertos agentes de um escracho libertário, aos quais se junta uma legião de nomes menos conhecidos, mas também atuantes na criação de uma cultura brasileira contestatória.

Também percebo enquanto cinéfilo que alguns dos filmes que mais me impressionaram por sua capacidade crítica e por sua contundência de denúncia são obras como A Ditadura Perfeita, do mexicano Luis Estrada, e O Ditador, de Sacha Baron Cohen, duas comédias que demonstram o quanto o escracho e a trollagem estão sendo mobilizadas de modo construtivo-crítico bastante instigante, incidindo sobre fenômenos como a manipulação de massas induzida pelos consórcios midiáticos e partidos políticos hegemônicos, revelados a golpes de piadas como uma pantomima grotesca de democracia, uma democracia falsa e de fachada que encobre a tragicomédia obscena de uma plutocracia ultracapitalista, desmiolada e rasa, que apenas constrói Pontes Para o Abismo da austeridade e do apartheid social.

Uma boa matéria em Hypeness destaca o trabalho do Daniel Ramos nos seguintes termos:

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temer-poetaQue o presidente interino Michel Temer é poeta, já vazou na internet. Mesmo tendo publicado o livro Anônima Intimidade, em 2012, foi só depois que chegou ao poder que a fama dos seus versos viralizou de vez – principalmente após a reportagem da Veja sobre a Marcela bela-recatada-e-do-lar Temer, em que uma de suas poesias é usada para ilustrar a relação dos dois.

Agora, a veia poética do presidente ganhou sua primeira paródia na rede: o perfil do Twitter @TemerPoeta, que brinca com diversos aspectos da política nacional, além de fazer piada com a possível relação de Temer com o satanismo. Segundo a Época, o criador da conta é Daniel Ramos, um funcionário público de Brasília, também poeta. A data de nascimento que aparece no perfil falso é de 8 de maio de 1896 – seria a mais antiga permitida pela rede social.

As seguintes sátiras saíram na segunda edição da revista Caroço:

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SONETO DE BESTIALIDADE

Releitura do ‘Soneto de Fidelidade’ de Vinícius de Moraes

De tudo a Belzebu serei atento, antes
e com tal zelo, e sempre, e tanto
que mesmo a alface no sorriso branco
seja na sua boca ornamento

quero invocá-lo em cada pé-de-vento
e em seu louvor hei de investir no banco
metade dólar, meta franco
ou o que sobrar depois do parlamento

e assim quando mais tarde me procure
quem sabe a sorte (angústia de ser vice)
quem sabe a lava-jato (fim de quem dança)

eu possa me dizer do brasil (que tive)
que não seja europeu, posto que é bamba
mas que seja lucrativo enquanto dure

* * * *pecunia

Para mais pérolas, siga Daniel Ramos, o @temerpoeta, lá no Twitter.


SIGA VIAGEM:

ALGUMAS OBRAS DA ESCRACHO-ART BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

5 DOSES DE VITOR TEIXEIRA:
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5 DOSES DE AROEIRA:


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UM ÚTERO É DO TAMANHO DE UM PUNHO – Um livro de poesia de Angélica Freitas (Cosac Naify, 2013, 96 pgs) @ Livraria A Casa de Vidro

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UM ÚTERO É DO TAMANHO DE UM PUNHO
Um livro de poesia de Angélica Freitas (Cosac Naify, 2013, 96 pgs)
COMPRE @ Livraria A Casa de Vidro
Eleito o melhor livro de poesia pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) em 2012

CARLITO AZEVEDO: “Angélica consegue criar. Já nos primeiros versos de qualquer poema seu, há uma atmosfera feliz e profanadora que nos convida a relativizar o gigantismo de certos sentimentos solenes que por muito tempo quiseram, e ainda hoje querem, se fazer passar pela poesia mais autêntica, pela mais sensível forma de se viver um estado poético. Com ela não tem autor sagrado, não tem sentimento hierarquicamente superior (ela mesma já se definiu certa vez como a “patinha sem pathos”), o que tem é a força do poema nascendo do contato furioso da existência, como uma sonda enviada para investigar todos os sentimentos que ainda não vivemos, como uma transparência através da qual se quer ver as pessoas de agora, nas ruas de agora, falando a língua de agora, sentindo os sentimentos de agora. Nesse sentido, ela se inscreve numa esplêndida tradição da poesia universal: a tradição da antipoesia de um Nicanor Parra, o maior poeta chileno do século, de uma Susana Thénon, o segredo mais bem guardado da poesia argentina, e de  uma Adília Lopes, a portuguesa mais brasileira desde Carmem Miranda. Para os poetas dessa tradição, o poema é a arma mais potente para desmontar as armadilhas que o tempo dispõe à nossa frente o tempo todo. Penso que a armadilha da identidade (sexual, política, nacional etc.), que nos quer sempre idênticos a nós mesmos, sem possibilidade de metamorfose, é aquela que, até agora, mais mereceu os disparos certeiros de Angélica.”

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LEIA ALGUNS POEMAS DE
UM ÚTERO É DO TAMANHO DE UM PUNHO

a mulher quer

a mulher quer ser amada

a mulher quer um cara rico

a mulher quer conquistar um homem

a mulher quer um homem

a mulher quer sexo

a mulher quer tanto sexo quanto o homem

a mulher quer que a preparação para o sexo aconteça lentamente

a mulher quer ser possuída

a mulher quer um macho que a lidere

a mulher quer casar

a mulher quer que o marido seja seu companheiro

a mulher quer um cavalheiro que cuide dela

a mulher quer amar os filhos,  o homem e o lar

a mulher quer conversar pra discutir a relação

a mulher quer conversa e o botafogo quer  ganhar do flamengo

a mulher quer apenas que você escute

a mulher quer algo mais do que isso, quer amor, carinho

a mulher quer segurança

a mulher quer mexer no seu e-mail

a mulher quer ter estabilidade

a mulher quer nextel

a mulher quer ter um cartão de crédito

a mulher quer tudo

a mulher quer ser valorizada e respeitada

a mulher quer se separar

a mulher quer ganhar, decidir e consumir mais

a mulher quer se suicidar

uma canção popular (séx. XIX-XX):

uma mulher incomoda

é interditada

levada para o depósito

das mulheres que incomodam

loucas louquinhas

tantãs da cabeça

ataduras banhos frios

descargas elétricas

são porcas permanentes

mas como descobrem os maridos

enriquecidos subitamente

as porcas loucas trancafiadas

são muito convenientes

interna, enterra

angie2

era uma vez uma mulher que não perdia

a chance de enfiar o dedo no ânus

no próprio ou no dos outros

o polegar, o indicador, o médio

o anular ou o mindinho

sentia-se bem com o mindinho

nos outros, era sempre o médio

por ela, enviava logo o polegar

não, nenhuma consequência.

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COMPRE UM ÚTERO É DO TAMANHO DE UM PUNHO @ Livraria A Casa de Vidro

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LEIA A SÉRIE DE POEMAS “UMA MULHER LIMPA”

LEIA “MICRO-ONDAS”

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ASSISTA:
Noite Literária # Angélica Freitas – agosto de 2016

Em Berlim (2007)

Angélica Freitas e Antônio Cícero

EXPLORE ALÉM: MusaRara – Ovelha

CONFIRA TAMBÉM:
guadalupe

[Encontro de Culturas 2016 – Txt 08] “Caminhadeira”: conheça mais sobre a peça teatral de Suzana Zana na X Aldeia Multiétnica e assista a um vídeo exclusivo da apresentação

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CAMINHADEIRA

Caminhadeira é uma mulher que resolveu fazer de sua casa o caminho e encher sua bagagem com as histórias que brotam dos encontros e das andanças. Assista o vídeo de sua apresentação na Aldeia Multiétnica, além de conferir trechos de uma entrevista com a multiartista Suzana Zana

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros

A multiartista Suzana Zana chegou à Chapada dos Veadeiros acompanhada por sua produtora Luiza Ritter após uma saga cheia de peripécias. A jornada delas faz jus ao título do espetáculo que Zana apresentou em três ocasiões durante o XVI Encontro de Culturas: Caminhadeira. Quem não pôde curtir a peça ao vivo, ou quem assistiu e já está com saudades, agora pode assistir a este vídeo, que registra na íntegra a performance da peça na Aldeia.

Suzana e Luisa vieram de Barra Mansa (Rio de Janeiro) e  integram o coletivo de teatro de rua Sala Preta (conheça o site oficial), que existe há sete anos. Para apresentarem-se neste XVI Encontro de Culturas, mobilizaram todas as suas forças em um financiamento colaborativo, por meio de rifas e muita propaganda boca-a-boca, o que foi bem sucedido em trazê-las até a vivência de intensa interação intercultural que caracteriza o “Encontrão”:

“A gente se inscreveu no edital de artistas”, conta Suzana, “e aí, quando chegou a resposta de que fomos aprovadas, primeiro a gente ficou feliz e logo depois triste: já era dia 10 de junho, faltavam só uns 40 dias para o evento, e a gente não tinha grana pra pagar a viagem até a Chapada dos Veadeiros. Aí pensamos em rifar a peça, no valor mínimo de 10 reais. Nunca na vida falei tanto sobre a peça, sobre a importância dela. Foi um mês inteiro de campanha, em que fizemos também duas apresentações para ‘passar o chapéu’, e assim a gente conseguiu a grana exata para chegar até aqui. Só que ainda não sabemos se vai dar pra ir embora… (risos).”

A peça teatral, interpretada por Suzana, tece uma narrativa inspirada no conto popular A Lenda do Preguiçoso. O espetáculo tem por protagonista um sujeito que é preguiçoso de nascença, que nunca teve vontade de fazer nada e que, com tanta preguiça, nada construiu de relevante com seu tempo entre os vivos. Até que se vê no limite e toma uma decisão drástica em sua vida. De modo lúdico e livre, com abertura para improvisações e momentos musicais, Suzana interage com qualquer faixa etária e faz refletir sobre a existência e seu sentido de maneira leve e graciosa, mas que não deixa de ser filosófica e provocativa.

“Com essa história do preguiçoso eu tenho intimidade, conheço desde os 7 ou 8 anos de idade”, relembra Suzana em um papo que tivemos às beiras do Rio São Miguel. “Descobri a lenda em um livro de português que líamos na escola, para aqueles exercícios de interpretação de texto, sabe? O que me chamou a atenção foi que era um cara que não fazia nada na vida, não tinha vontade de nada. A história que criei fala da força do seu querer, como você pode mudar o seu destino a partir de um impulso ou iniciativa que você tem. O protagonista precisa de um despertar na vida, e o legal é que o público não é condescendente com ele e basicamente manda ele se levantar.”

O espetáculo estreou em 2011 no Equador, em San Lorenzo, uma região equatoriana habitada por uma grande população de africanos provenientes da diáspora. “Esta é uma região para onde foram quase todos os escravos na época da abolição”, explica Suzana, “então a cidade é basicamente de  população negra, que vive em um território onde criaram suas comunidades, mantiveram suas raízes e puderam inventar sua afrolatinidade. Foi uma estréia que ficou muito marcada na minha memória, uma situação rara.”

Atualmente, Caminhadeira já conta com mais de 100 apresentações já realizadas nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. As performances ocorreram nos mais variados locais, como praças, salas de aula, refeitórios, instituições e feiras. São cinco anos de estrada, luta e resistência – e agora a Chapada dos Veadeiros também participa, com capítulos memoráveis, da saga artística de Suzana Zana e Luísa Ritter. Elas com certeza enriqueceram e foram enriquecidas pela caminhada chapadeira, pelas vivências e intercâmbios, pelas amizades e contatos, pelas prosas e poesias, propiciadas pelo Encontrão 2016.

Vivencie “Caminhadeira” na X Aldeia Multiétnica e emocione-se com uma mulher que resolveu fazer de sua casa o caminho e encher sua bagagem com as histórias que brotam dos vínculos que se criam nas andanças. A Caminhadeira, nesta vida, está sempre de passagem, mas sabe que passar é muito mais gracioso e doce quando carregamos, pelo caminho que trilhamos, os amigos e as histórias, os laços e as memórias, que juntos tecemos na ciranda da cultura.

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ASSISTA AO VÍDEO:
CAMINHADEIRA NA X ALDEIA MULTIÉTNICA NO YOUTUBE OU NO VIMEO

RESISTIR É PRECISO: A imprensa alternativa e clandestina durante a ditadura – Um projeto do Instituto Vladimir Herzog

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Em 1º de abril de 1964, as forças que se opunham ao aprofundamento da democracia social e econômica em curso no Brasil consumaram sua cartada mais radical, a tomada do poder pelas armas. Um mês depois, o jornalista Millôr Fernandes  lançava a revista PifPaf e indagava, na capa de um dos primeiros exemplares: “Mas afinal, o que é a liberdade?”

A pergunta pairou no ar nos vinte anos que se seguiram. Na busca por respostas, milhares de jornalistas, intelectuais e ativistas políticos acabaram por fazer da palavra impressa uma das armas mais poderosas de combate à ditadura militar, à desigualdade social, à opressão, ao discurso moralista que mascarava a hipocrisia e o autoritarismo dos que assaltaram o Estado em nome da velha ordem.

Entre 1964 e 1979, o ano em que as forças democráticas conquistaram a anistia, centenas de publicações produzidas à margem dos aparatos institucionais de comunicação deram voz à resistência política e cultural no Brasil. Disputaram palmo a palmo o campo simbólico em que os donos do poder tentavam legitimar a dominação pela força. Enfrentaram a truculência da censura e da perseguição policial. E conseguiram se impor graças à capacidade de inovar não apenas a agenda temática, mas a própria linguagem e os códigos formais com que se expressava o debate público no país.

A história dos jornais alternativos, clandestinos  e produzidos no exílio nesse período está sendo reconstruída pelos pesquisadores e jornalistas do Instituto Vladimir Herzog, no projeto “Resistir é preciso”. Aqui neste site, ela é contada pelos próprios protagonistas, em dezenas de depoimentos registrados em vídeo. E é ilustrada pelas capas das edições mais significativas de cada uma dessas publicações, acompanhadas por textos que resumem suas trajetórias.

Reunimos aqui também uma coleção de cartazes produzidos por artistas gráficos que colaboraram intensamente com a imprensa da resistência. Resgatamos ainda exemplos precursores de jornalismo combativo, como os pasquins do século 19, os jornais libertários do início do século 20, as publicações de partidos e organizações que influenciaram pela esquerda o processo político no período anterior ao golpe militar.

O que tudo isso tem em comum? A inscrição no DNA de uma convicção expressa por Millôr Fernandes, com quem abrimos e fechamos esta apresentação: “jornalismo é oposição; o resto é armazém de secos e molhados”.

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CONHEÇA OS PROTAGONISTAS DESTA HISTÓRIA

Protagonistas
A História narrada na primeira pessoa, por quem a fez e viveu com intensidade um dos períodos mais ricos e conturbados da imprensa brasileira. O projeto “Resistir é Preciso…” recolheu sessenta depoimentos de jornalistas e militantes políticos que combateram a ditadura militar armados de máquinas de escrever, mimeógrafos e impressoras offset. De quebra, ajudaram a revolucionar a linguagem, os métodos e as práticas do nosso jornalismo. Nesta página, você encontra uma breve biografia de cada um dos protagonistas. E ao clicar nos links embutidos nas fotos, você navegará por um mar de histórias saborosas, divertidas e dramáticas que registramos em vídeo. Boa viagem!

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Da ideia inicial de elaborar um livro diferenciado e pioneiro até o envio para a gráfica foram 90 dias de trabalho incansável de uma equipe que se comportou como se estivesse numa alegre e saudável linha de montagem, tal o entrosamento entre a pesquisa, as possibilidades do texto, a direção de arte e os cuidados de cada escolha para o encaixe perfeito, nas páginas duplas, das 340 ilustrações escolhidas com base em dois critérios aparentemente contraditórios: o rigor histórico e a liberdade jornalística.

Participaram diretamente desta aventura de final feliz: o editor de contexto, José Luiz Del Roio, o editor de pesquisa, Vladimir Sacchetta, o editor de texto, José Mauricio de Oliveira e o jornalista Carlos Azevedo, como consultor, Kiko Farkas e sua sofisticada direção de arte, junto com Mateus Valadares, a historiadora Juliana Sartori, a jovem jornalista Paula Sacchetta e o pesquisador Luis Zimbarg, sob a coordenação da minha eterna curiosidade.

São quatro capítulos que obedecem a uma linha editorial muito clara. É dado o justo destaque a uma publicação historicamente importante e, na página espelhada, encaixamos as capas dos jornais ou revistas que ajudam a compor um formidável caleidoscópio, suficiente para explicar aquela fração de realidade, sempre do ponto de vista do jornalismo. Ao lançar uma publicação alternativa, de oposição, no exílio ou mesmo clandestina, o jornalista cria também um caldo de cultura fundamental para entender a história recente do Brasil, sem os filtros da análise mais tradicional.

Temos até a ousadia de dizer que está todo mundo aqui, como joias raras que finalmente ganham o palco e o reconhecimento. Uma delas é o Jornal do Subiroff, editado em 1920 por um filho dileto da burguesia paulista, que surpreende em todos os quesitos: criatividade, atrevimento e humor.

Dá gosto abrir o capítulo Imprensa Alternativa com o PifPaf, ousadia de Millôr Fernandes, que colocou nas bancas a sua revista semanas depois do golpe de 64 e deu no que deu.

O capítulo sobre a imprensa clandestina deixa claro, pelos fac-similes apresentados, a enorme dificuldade de fazer e distribuir publicações que, em muitos casos, eram o único oxigênio possível para o contato entre militantes de organizações estraçalhadas pela ditadura.

No capítulo Imprensa no Exílio estão as publicações que, feitas por brasileiros exilados, correram mundo denunciando os desmandos do golpe militar.

Este material foi reunido em 34 anos de paciente trabalho de José Luiz Del Roio e é, pela primeira vez, mostrado.

E mais. A cada início de capítulo, você terá o prazer de ler uma introdução que o coloca dentro das várias histórias.

Portanto, aguce o olhar, prepare o espírito, porque chegou a hora de ter um grande prazer intelectual.

Ricardo Carvalho – Editor

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“Os Cartazes desta História” é um livro que reúne manifestações políticas da América Latina em prol dos Direitos Humanos

A obra é parte do projeto “Resistir é Preciso…”, que resgata a memória da resistência contra a ditadura no Brasil (1964-1984) e a rearticulação da sociedade civil depois da Anistia de 1979, os cartazes retratam denúncias e solidariedade dos brasileiros em face da situação no País e também nas nações vizinhas que viviam sob a intervenção militar. A obra é divida em seis capítulos: Resistências, Anistia, Movimentos, Mulheres, Trabalhadores e Estudantes, Solidariedade e Mortos e Desaparecidos.

Organizada pelo jornalista Vladimir Sacchetta e com projeto gráfico de Kiko Farkas, a edição conta com um ensaio de Chico Homem de Melo, professor da FAU-USP e autor de artigos e livros sobre design gráfico. A publicação tem o patrocínio da Sabesp, por meio da Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo.

Os Cartazes desta História é mais uma iniciativa do Instituto Vladimir Herzog no âmbito do projeto Resistir é Preciso…, idealizado pela entidade, que tem por objetivo manter viva na memória dos brasileiros a luta da imprensa contra a ditadura, período em que inúmeros profissionais do meio jornalístico foram presos, torturados e assassinados. A obra segue os padrões do livro As Capas desta História (2011), patrocinado pelo BNDES, em que o destaque foram as publicações da imprensa alternativa e clandestina brasileira, produzidas por jornalistas (muitos deles exilados) entre 1964 e 1979. Integra também o projeto a coletânea de 12 DVDs Os Protagonistas desta História, patrocinada pela Petrobras, com depoimentos de 60 jornalistas e “fazedores de jornais” que vivenciaram e enfrentaram as dificuldades da época.

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SÉRIE TV BRASIL

No primeiro episódio de Resistir é Preciso, a série recua no tempo para contar como tudo começou, dos primórdios, em 1808, até a década de 1920, quando entra em cena o Barão de Itararé.

Foram muitos jornalistas punidos, naquela época, pelos poderosos de plantão a começar com Cypriano Barata que foi, a partir de 1832, preso várias vezes e em diferentes lugares, por conta do seu implacável “Sentinela da Liberdade”.

A série ainda mostra as perseguições e mortes de Frei Caneca, em Pernambuco e Libero Badaró, em São Paulo.

Neste episódio, a série fala da Semana De Arte Moderna de 1922 e da revista “Klaxon”, porta-voz do movimento.










 

A ESPERANÇA EQUILIBRISTA NA NOITE DO BRASIL – João Bosco, Aldir Blanc e Elis Regina no “Hino da Anistia” (inclui cartum do Henfil inspirado em “O Bêbado e a Equilibrista”)

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“Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos

A lua tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco… louco!

O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil
Meu Brasil

Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete

Chora
A nossa Pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil

Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente

A esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar

Azar
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar.”

João Bosco e Aldir Blanc

O bêbado e a equilibrista: em 1979, Elis Regina deu voz ao Hino da Anistia

Portal EBC

“Além de classificar a composição como o casamento perfeito da dupla João e Aldir, Elis acreditava que a canção era o retrato do Brasil de então.“Grande parcela da população anseia encontrar um Carlitos desses e sonha não ver mais nem Marias nem Clarices chorando”, defendia ao citar versos do samba que podem fazer referência a Clarisse Herzog, mulher do jornalista Vladimir Herzog, morto por maus-tratos nas dependências do DOI-Codi em 1975.”

home_internaA volta do irmão do Henfil – Betinho voltou ao Brasil em setembro de 79, após oito anos de exílio. O ativista deixou o país em 71 e permaneceu dois anos no Chile, onde atuou como assessor do então presidente Salvador Allende. Com o golpe militar que levou o general Augusto Pinochet ao poder, Betinho procurou asilo no Panamá e, posteriormente, no Canadá e no México. No seu retorno, havia ainda dúvidas se Betinho seria preso ou não. Henfil descreve a chegada:

– Todas as pessoas levaram um gravador com a fita da música. Era uma tocação de “O bêbado e a equilibrista. Até os policiais ficaram tocados. No mesmo dia levei meu irmão ao Anhembi para o show da Elis.

Confira a charge do cartunista inspirada na canção:

HENFIL

Click para ver maior.

FILMES RECOMENDADOS:

BETINHO – A ESPERANÇA EQUILIBRISTA

TRÊS IRMÃOS DE SANGUE1

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Homenagem a Chaplin – Embora tenha se tornado um marco do momento político brasileiro, O bêbado e a equilibrista nasceu para homenagear Charles Chaplin, que havia morrido dois anos antes do lançamento, em 1977. Em entrevista à Associação Brasileira de Imprensa concedida em 2007, o letrista Aldir Blanc relembrou a história:

– Quando o Chaplin morreu, o João me chamou na casa dele e disse que havia feito um samba, cuja harmonia tinha passagens melódicas parecidas com “Smile” (do filme “Tempos modernos”), propositalmente construídas para que homenageássemos o cineasta. Só que, casualmente, encontrei o Henfil e o Chico Mário, que só falavam do mano que estava no exílio. O papo me deu um estalo. Cheguei em casa, liguei para o João e sugeri que criássemos um personagem chapliniano, que, no fundo, deplorasse a condição dos exilados. Não era a idéia original, mas ele não criou caso e disse: “Manda bala, o problema é seu.”

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INFINDAS MANEIRAS DE FINDAR – O que desvela Fernanda Torres em seu romance de estréia, “Fim” (Companhia das Letras, 2013)

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INFINDAS MANEIRAS DE FINDAR

Fernanda Torres cometeu um romance de estréia que é um escândalo de bom. Uma prosa tão excitante e vivaz quanto a de Arundathi Roy ou Katherine Mansfield pulsa nas páginas de Fimlivro desta magistral multi-artista brasileira. Célebre por seus papéis na televisão e no cinema (com destaque para O Que É Isso Companheiro?, de Bruno Barreto, O Primeiro Dia, de Walter Salles, Eu Sei Que Vou Te Amar, de Arnaldo Jabor, Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, além de alguns filmes de seu marido Andrucha Waddingston), Fernanda Torres tem se revelado não somente como uma de nossas melhores atrizes e mais hilárias comediantes mas também como uma escritora de alta relevância e imensa capacidade expressiva.

Numa prosa apimentada e caliente como Nelson Rodrigues ou Henry Miller, Fernanda tece um panorama não só do Rio de Janeiro, mas de toda a condição humana, colecionando “causos” de gente que está findando. Não chamemos de “agonia”, que a palavra é muito soturna, enquanto que a prosa Fernandina é brincalhona e lúdica. Não são personagens agonizantes – no sentido Gritos e Sussurros de Bergman – o que o leitor acessa através da leitura de Fim. 

É muito mais um vívido retrato da vida humana em sua finitude, em sua pequenez, em sua inconclusão, já que os mortais muitas vezes não podem nem mesmo consolar-se pensando que morreram uma “boa morte”. Em Fim, há fins que são ridículos, patéticos, grotescos, horrorshow. Fernanda Torres não pinta auréolas de santidade sobre a cabeça de ninguém – nem mesmo do Padre Graça, este excelente personagem que, em Fim, fica “abalado pela quantidade de vezes em que Deus parecia dormir” (p. 41).

A prosa dela é capaz de inúmeras referências cinematográficas (Bruce Willis descalço sobre os cacos de vidro de uma explosão recente), musicais (as canções de Dolores Duran que embalam a fossa emocional de uma das personagens), teatrais e contraculturais (como a eventual aparição, no enredo, dos Dzi Croquettes e de Lennie Dale). Sobretudo, Fernanda  Torres demonstra ser uma contadora-de-histórias de grande audácia e criatividade, capaz de dialogar com algumas das magnum opus da literatura universal. No trecho seguinte, ela põe o romance para refletir filosoficamente de um modo que lembra o modus operandi de Milan Kundera e manda a seguinte descrição de Ruth (status no Facebook: “em um relacionamento enrolado”):

Fernanda Torres 2

“O ato supremo do romantismo é o suicídio. Ruth nasceu com o defeito de ser feminina ao extremo e, por consequência, romântica em excesso. Sempre viu nisso vantagem, mas agora que descobria a fragilidade de sua natureza, daria tudo para se livrar de si mesma. Se possuísse a audácia de Bovary, tomaria cicuta, a nobreza de Sônia, enfrentaria a Sibéria, se miserável, como Fantine, arrancaria os dentes. Mas não, era uma mortal carioca, classe média, como tantas. Célia, Irene, Raquel, todas tratavam seu sofrimento como algo vulgar, um mero desquite. O talho nos pulsos, a forca, o gás, eram fins grandiosos demais para alguém como ela. Decidiu ser humilde, matou o amor com descrição de vestal, fez do lar um convento. Já não planejava reconquistar o marido, queria, sim, se isolar do barulho lá fora, não se importar, não querer, não precisar, não sofrer. Morrer. Exercitou a indiferença até se tornar insensível ao cheiro, ao rosto e à voz da cara-metade.” (FERNANDA TORRES, Fim, pg. 120)

Além de evocar figuras femininas das páginas de Madame Bovary, de Flaubert, Crime e Castigo, de Dostoiévski, e Os Miseráveis, de Victor Hugo, Fernanda Torres faz algo mais: consegue dar densidade existencial ao que, nas mãos de um artista menos competente, de um escritor menos expressivo, poderia ter caído na vulgaridade de um desquite. Os vínculos afetivos, nas páginas de Fim, estão pintados com tremendo realismo, entrelaçados por nós complexos, numa maquinaria que não é fácil fazer com que trabalhe com harmonia a contento. Neste sentido o livro realiza algo também magistralmente conquistado por D. H. Lawrence em O Amante de Lady Chatterley e por Nathaniel Hawthorne em A Letra Escarlate: mostra todo o drama existencial por trás da suposta simplicidade da separação, do divórcio, do desquite, do rompimento do vínculo. Fim carrega em seu bojo uma constelação afetiva muito ampla – e Fernanda Torres é audaz o bastante para não dourar a pílula, expondo com adorável impertinência e irreverência os muitos erros e calhordices que cometem os humanos uns contra os outros.

Em Fim, a literatura de Torres debruça-se sobre a vida humana em sua finitude e sonda e as circunstâncias e situações tão diversas nas quais podemos findar. Que estes entes finitos que somos tenhamos que findar um dia (que não tarda), eis coisa certa, porém a vida reserva-nos um certo grau de suspense: o de não saber lá muito bem as características precisas em que se dará a morte de Fulano ou Sicrana (e o nosso próprio fim, sua “cara”, sua “peculiaridade”, é-nos desconhecido por boa parte da vida!). Tolstói, com seu A Morte de Ivan Ilich, ou Hermann Broch, com seu A Morte de Virgílio, são exemplos de artistas primorosos na “pintura” dos últimos momentos de um vivo que finda. Pois findar é nosso destino, e a arte imita a vida.

O interesse de Fim, o livro com o qual Fernanda Torres debuta no campo da prosa de longo fôlego, vai muito além de ser um panorama dos costumes do Rio de Janeiro, visto através do prisma daqueles que no Rio findam seus dias. O livro sonda a condição humana e depois entrega ao leitor um banquete de divagações existenciais, teses psicanalíticas (“a intimidade destrói a libido”, p. 164), piadas one-liners dignas de sitcom (herança que Fernanda traz dos anos contracenando com Luiz Fernando Guimarães na série Os Normais?).

Sobretudo o livro impressiona pelos personagens fortes, bem delineados e nada idealizados. Fernanda Torres fez um livro cujo sabor agradará mais aos misantropos que aos humanistas, e onde pulsa uma veia satírica que beira a língua ácida dum Céline ou o traço satírico de Crumb.

Mas dá pra sentir também que a mulher que segura a pena também é capaz de intensa empatia. Do emaranhado de prosa em que os personagens estão presos emana uma certa percepção da interconexão ontológica que tece nossos destinos de modo a ninguém ser um ilha e todos serem co-dependentes.

As pessoas – ou, melhor dizendo, os mortais que Fernanda Torres nos pinta, os episódios com os quais ela encena os despropósitos e as dificuldades destas vidas, mostram o ser humano sem idealização, sem máscara. O que não quer dizer que não reste mais nada de gostável neles. Muitas vezes são bastante simpáticos, apesar de calhordas. São extravagantes em seus desarranjos, como se quisessem nos provar que, olhando bem fundo, prestando bem a atenção, não dá pra dizer de ninguém que seja normal… E a manada dos normais muitas vezes nem suspeita do quanto há de loucura em sua normopatia…

As 5 partes de Fim são dedicadas a 5 criaturas humanas que estão no processo de findar. Todos estamos,  é verdade, mas eles estão, por assim dizer, na reta final: a morte já afia sua foice à espera de seus pescoços que se aproximam. A “morte de ávidos dentes”, como diz Sêneca, já está passando o azeite e o sal sobre a carne destes bifes humanos que ela está prestes a deglutir. Álvaro, o protagonista da primeira parte do romance, é um velhinho que já não se locomove com o vigor de sua juventude: “Depois dos setenta a vida se transforma numa interminável corrida de obstáculos. A queda é a maior ameaça para o idoso. A queda separa a velhice da senilidade extrema. (…) Em casa, vou de corrimão em corrimão, tateio móveis e paredes, e tomo banho sentado.” (pg. 14)

Ao situar Álvaro no cenário do Rio ultra-urbanizado, velhinho tentando atravessar a rua e sentindo-se profundamente desrespeitado pelo corre-corre ao redor, Fernanda Torres acaba por pintar um quadro sociológico muito interessante sobre as agruras da urbanidade e sobre as consequências práticas de nossa carrolatria (o endeusamento do automóvel individual):

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“Opa, abriu. Esse sinal demora uma eternidade para abrir e dois segundos para fechar. Lá vou eu, ágil como os cágados da Marília. Não acredito, já está piscando?… Fechou! Ainda falta um terço de faixa e essa porcaria fecha? Calcularam com quem esse tempo? Com o Ligeirinho? O que é? Vai passar por cima? Passa, desgraçado, parte o meu joelho no meio com o seu farol de milha. Eu já entendi que você quer passar, filhinho! Um dia você vai envelhecer, se tiver sorte você vai envelhecer, e um guri com pressa vai quebrar a sua perna em vários pedacinhos e você vai passar o resto dos seus dias de fraldão, com pânico de atravessar a esquina.” (pg. 20)

Essa sátira da speedfreakiness que assola nossos tempos – os carros peidando CO2 e buzinando contra velhinhos e ciclistas… – é apenas um exemplo, no livro de Fernanda, desta capacidade incrível da autora para revelar a torpeza de comportamentos. Álvaro, o velhinho que não consegue atravessar a rua, a tempo e a contento, mesmo que vá até a faixa de pedestres, é um representante de toda uma fração da população que encontra-se alijada de direitos na cidade segregada e carrólatra. O semáforo está programado para ir ao vermelho muito velozmente para que o velhinho Álvaro tenha tempo para atravessar a rua, e uma treta logo pipoca, com xingos e verbais violências. Álvora não é descrito por Fernanda como coitadinho. Pelo contrário, é um velho amargo, raivoso, que xinga e esbraveja, expressando todo o seu rancor e profetizando que o dono do carro, que contra ele dispara a buzina, irá, no futuro, ter a perna estropiada por um guri com pressa, um desses tipos Mad Max, “a full-injected suicide machine”…

Álvaro não é o velhinho coitadinho, é mais uma expressão dessa sociedade onde triunfa o individualismo a ponto de alguém ser capaz de confessar, como ele o faz: “Não separo lixo, não reciclo, jogo guimba no vaso, uso aerosol, tomo longos banhos quentes e escovo os dentes com a torneira aberta. Dane-se a humanidade. Não vou estar aqui para assistir.” (pg. 20)

Estes personagens de Fernanda Torres, se possuem algo em comum, é o fato de estarem findando sem sabedoria, ainda  envoltos nos samsaras de relações interpessoais complicadas, neuróticas, cheias de ressentimentos e vinganças. Se há um fio condutor que atravessa o romance inteiro, não é tanto um debate sobre a 3ª idade como ela é vivenciada no Rio de Janeiro, mas muito mais uma tentativa de abordar os problemas do amor de modo a debater, nas raízes, profunda e concretamente, questões de sexualidade (monogamia vs poligamia, por exemplo, é uma controvérsia que atravessa o romance) e indagações acerca da medicalização da vida.

Sobre este último ponto, o da medicalização, Fernanda Torres tematiza em sua obra de modo bem vivaz o modo como os velhinhos acabam enredados na teia das mega corporações farmacêuticas e da atual lógica hospitalar privatista. Um certo personagem, Silvio, está sofrendo com o mal de Parkinson. Em primeira pessoa, descreve o que significa viver com Parkinson, desvelando os detalhes de sua experiência subjetiva, com uma riqueza de detalhes e uma carga emocional que faz pensar em alguns dos melhores filmes de Eduardo Coutinho, em especial O Fim e o Princípio.

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“O Parkinson acaba com a iniciativa da gente. (…) O tratamento do Parkinson é muito pior do que o Parkinson. E não existe cura. As bombas aceleram a cabeça, dão suor frio e um medo do caralho. O médico carimba a receita e te manda para casa de mãos dadas com o Incrível Hulk. São uns tarados, esses doutores. Carbidopa 25 mg, Levodopa 250 mg, Cloridrato de benzerazida 25mg. Para o farmacêutico te entregar o pacote, você tem que apresentar CPF, carteira de identidade, título de eleitor, bons antecedentes, foto. É mais fácil comprar uma arma e se matar. Sem contar os antidepressivos, antiespasmódicos, antiácidos e associados; delírios extenuantes de carros andando pra trás, cortes no tempo e passamentos.” (pg. 68)

Fernanda Torres povoa as páginas do romance com referências à farmacopéia contemporânea: são personagens cujas vidas são marcadas pela disponibilidade de Viagras (contra a impotência sexual), Prozacs (contra a depressão, a melancolia, o tédio…), tranquilizantes e anfetaminas… Uma miríade de substâncias, entre as lícitas e as ilícitas, marca presença forte nesta vidas e mostra na prática porquê este é um dos ramos mais pujantes da economia globalizada (drogas e armas vendendo à beça… parabéns mundo!). Fernanda Torres fala de gente que está “economizando dinheiro para colocar silicone” (pg. 100), de médicos que recomendam, professorais, que o Viagra deve ser tomado “com umas três horas de antecedência, para não ter surpresas e já chegar calibrado” (pg. 101), de relacionamentos cujas feridas são tratadas na farmácia (“O fim do caso com a Suzana foi todo à base de Lexotan”, pg. 101). Aquilo que Kurt Cobain ironizava – “My heart is broke but I have some glue…” – aconteceu. Mas a “cola” para corações partidos agora está à venda nas mega-drogarias (que aceitam cartão de débito e crédito, acolhem pedidos pela internet, entregam a domicílio…).

Para instigar o leitor a conhecer este livro de Fernanda Torres também pelo mérito dele em radiografar nossa sociedade, basta citar também uma cena notável em que um personagem vai ao banheiro, deparando com a escova de dentes de uma mulher ausente, para em seguida abrir o armário para dar de frente com…

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“Ritalina, Lexapro, Frontal, Valium, Haldol, Seroquel, o resto do Pondera do ano passado e o Aropax, que o dr. Péricles planeja experimentar nos próximos meses. Os rótulos me encaram do buraco da parede. O Murilo insistiu que eu me tratasse. Por um ano respondi aos intermináveis questionários sobre os efeitos dos benzodiazepínicos no meu organismo. O dr. Péricles queria saber da compulsão, da ansiedade, do desânimo matinal; de acordo com as respostas, alterava as doses, o que provocava novas indagações. Um melhora, outro piora, eu respondia, como um aluno bem-comportado, até que, num rompante, me transformei numa cobaia arisca.

Decidi não mais colaborar com os laboratórios, me vinguei de forma sistemática, atrapalhando a preciosa pesquisa deles. Fornecia dados fraudulentos, alegava tonturas, dores no peito que não existiam. Me revelei um rato anárquico, perigoso, que planejava destruir a megalomania científica dos reguladores de humor, frustrar o delírio dos que pretendiam controlar meu desespero. (…) Um clínico saberia diagnosticar uma pancreatite fingida, mas o psico Péricles seguia à risca as estatísticas americanas, as tabelas de comportamento da Pfizer, da Roche, sem perceber que eu fazia o que o homem faz desde que se entendeu por gente: eu mentia e me divertia.

Minha alegria de acabar com as certezas do Péricles perdeu a graça recentemente, há duas consultas. Ele me entregou a receita, eu passei na farmácia e trouxe o carregamento pra casa. Guardei lacrado no armário trincado do banheiro. Desisti de tomar. Faz três semanas que meus humores agem livres. E eles têm tomado conta de mim. Recolho os tarja-preta e ponho no bolso, encho o copo água da bica. Pra que filtrar? Sento na cama e deposito os medicamentos e o copo sobre o criado-mudo.

A diferença entre um tarja-preta e um tarja-vermelha, me explicou o balconista da Droga Raia, é que se você tomar uma caixa inteira da preta, você empacota; da vermelha, não.” (pg. 138-139)

 Nossas vidas, parece dizer Fernanda Torres, já estão profundamente colonizadas pela lógica da indústria farmacêutica globalizada e tendemos a idolatrar o poder dos remédios para nos libertarem do mal-estar ou turbinarem nossa energia vital, mas diante da mortalidade e da finitude percebe-se sempre que não há remédio contra a morte, nem regulador de humor que cure o “luto perpétuo”. Por “luto perpétuo” Fernanda Torres compreende o afeto acarretado pela perda de um ente amado tido como insubstituível – como é o caso do personagem Neto quando perde Célia. Neto, após muitas doses de ansiolíticos, descobriu que eles não podem tudo. Jamais poderiam trazer de volta a pessoa amada que a gulosa da Morte deglutiu com ávidos dentes. Apesar de Fim estar repleto de cenas cômicas e provocações lúdicas, Fernanda Torres é sublime mesmo quando se mete a fazer tragédia:

“O desespero no velório da esposa foi um prenúncio do que viria mais tarde. Neto contorcia-se de angústia. Ajoelhou no chão, tentou arrancar as roupas, mordeu, gritou, bateu; os filhos correram para abraçá-lo. O pai diminuiu os ganidos, aplacou a fúria, mas a calmaria durou pouco. Mal a fila de condolências retomou o ritmo, Neto foi assolado por outro descontrole bestial. Agarrou Célia nos braços, quis tirá-la de lá, levá-la para casa, foi preciso ajuda para fazê-lo largar a defunta. (…) Neto nunca mais se acertou. Por conta própria, continuou a tomar o ansiolítico… Sóbrio, nem pensar, dizia. Quando a língua enrolada não permitiu mais que se entendesse o que o pai dizia, Murilo o levou a um psiquiatra. Neto enveredou na ciranda de tentativa e erro dos reguladores de humor. Nenhum funcionou a contento. O coquetel o transformou num efeito colateral ambulante. Vivia entre o eufórico e o deprimido, mais deprimido do que eufórico. Murilo tentou homeopatia, massagem, acupuntura, insistiu na psicanálise, mas nada demoveu Neto da fixação em Célia. Tratava-se de luto perpétuo.”

Por estas e outras, considero Fim uma obra-prima da literatura brasileira contemporânea e um livro de alta relevância social, já que discute muitos dos temas e problemas que fizeram de Maria Rita Kehl (O Tempo e o Cão) e Eliane Brum (O Olho da Rua) duas das intelectuais mais essenciais do Brasil. Fernanda Torres, uma de nossas melhores artistas, tem tudo para deslanchar uma carreira ainda mais brilhante do que aquela que já protagoniza como atriz e humorista. Ao exercitar seu prodigioso talento também no romance – a exemplo de Chico Buarque – ela realmente revela uma versatilidade na virtude que é impressionante. Fim foi um ótimo começo na carreira desta romancista que já nasceu cometendo uma obra-prima, como julgaram João Moreira Salles e Antonio Cicero:

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“O título é Fim, mas o livro trata mesmo é da vida – plena, forte, caliente e safada, dessas que caberiam numa comédia de Mario Monicelli, caso ele tivesse lido Nelson Rodrigues e Pornopopéia com o sol de Copacabana pelas fuças. Avisem aí: uma escritora entrou em cena.” – JOÃO MOREIRA SALLES

“Alternando técnicas narrativas, com destaque para magistrais instâncias de fluxo de consciência, Fim captura brilhantemente a dramática oscilação de tristezas e ilusões, grossuras e sutilezas, pequenos afazeres e grandes esperanças, cujo entrecruzamento compõem as tragédias e as comédias humanas de nossos dias.” – ANTONIO CICERO

Por ter pintado um retrato forte, vívido e pungente da condição humana e das infindas maneiras de findar, Fernanda Torres, acredito eu, merece nossos aplausos pela coragem e pela lucidez com que teceu este livro memorável. Mortais, rejubilai! Apesar da morte ser sem remédio, a arte existe e tonifica. E talvez um certo carpe diem, uma certa sabedoria trágica, emane de Fim, que parece dar constantes piscadelas de olho ao leitor sobre a vida e sua finitude: “aproveita, meu caro, aproveita que isso passa rápido.” We’re food for worms, lads…

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Setembro de 2015

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