“A VIRADA – O NASCIMENTO DO MUNDO MODERNO”, de Stephen Greenblatt [Leia alguns trechos do livro, vencedor do Pulitzer Prize e National Book Award 2011]

Greenblatt

SINOPSE DA COMPANHIA DAS LETRAS: Stephen Greenblatt, professor de Harvard e um dos acadêmicos mais respeitados do mundo, construiu neste livro tanto uma obra historiográfica inovadora como narrou a história incrível de uma descoberta, em que um manuscrito retirado de mil anos de esquecimento mudou o curso do pensamento humano e tornou possível o mundo tal como o conhecemos hoje.

 Segundo o poeta romano Lucrécio, tudo o que existe é fruto de algo que ele chama de virada (clinamen) – um pequeno desvio que tira as coisas de sua trajetória natural para criar o novo. Em uma colisão aleatória de diferentes moléculas, surge a vida; com uma mutação genética espontânea, cria-se uma nova espécie. Caso esses pontos de inflexão fossem visíveis e determináveis, certamente um deles remontaria a janeiro de 1417, quando o caçador de livros Poggio Bracciolini resgatou das prateleiras de uma biblioteca monástica a obra-prima de Lucrécio, o poema Da natureza (De Rerum Natura), até então dado como perdido.

Era um belo poema contendo as ideias mais perigosas: que o universo funciona sem o auxílio dos deuses, que o medo religioso está destruindo a vida humana, que prazer e virtude não são opostos, mas que estão interligados.  Bracciolini, porém, não tinha como adivinhar a reviravolta que estava por vir. Típico homem de seu tempo, era secretário de um papa corrupto e testemunha de excomunhões arbitrárias e execuções sumárias de hereges na fogueira. Seu fascínio pelos textos antigos parecia antes estilístico que ideológico. Este livro conta sua história, e mostra como sua descoberta deu origem ao que hoje chamamos de modernidade.

Lucrécio

Lucrécio

A VIRADA
por Stephen Greenblatt

Greenblatt3Quando você olha para o céu noturno e, sentindo-se inexplicavelmente comovido, fica maravilhado com a quantidade de estrelas, não está vendo o trabalho dos deuses ou uma esfera cristalina separada de nosso mundo passageiro. Está vendo o próprio mundo material de que faz parte e de cujos elementos você é feito. Não há um plano superior, não há um arquiteto divino, não há design inteligente. Todas as coisas, inclusive a espécie a que você pertence, evoluíram durante grandes períodos de tempo. (…) Nada — de nossa própria espécie ao planeta em que vivemos e ao Sol que ilumina nossos dias — se manterá para sempre. Somente os átomos são imortais.

Num universo constituído dessa maneira, argumentava Lucrécio, não há motivo para pensar que a Terra ou seus habitantes ocupem um lugar central, não há motivo para separar os humanos dos outros animais, não há esperança de subornar ou aquietar os deuses, não há lugar para o fanatismo religioso, não há vocação para uma negação ascética do eu, não há justificativa para sonhos de poder ilimitado ou de segurança total, não há lógica para guerras de conquista ou de engrandecimento, não há possibilidade de triunfar sobre a natureza, não há escapatória para a criação e recriação constante das formas.

De todas as obras-primas da Antiguidade, este poema – Da natureza (De Rerum Natura), de Lucrécio – é um que certamente deveria ter desaparecido, de forma definitiva e irrevogável, em companhia das obras perdidas que o inspiraram. O fato de ele não ter desaparecido, de ter reemergido depois de muitos séculos e começado de novo a propagar suas teses profundamente subversivas, é algo que poderíamos nos ver tentados a chamar de milagre. Mas o autor do poema em questão não acreditava em milagres. Ele achava que nada podia violar as leis da natureza. Propunha em vez disso o que chamava de uma “virada” — o termo latino mais usado por Lucrécio para isso era clinamen —, um movimento inesperado e imprevisível da matéria. O ressurgimento de seu poema foi uma dessas viradas, um desvio imprevisto da trajetória direta — neste caso, rumo ao olvido — que aquele poema e sua filosofia pareciam seguir.

(…) Embora discordasse vigorosamente de seus princípios filosóficos, Cícero reconhecia o maravilhoso poder de Da natureza. “A poesia de Lucrécio”, ele escreveu a seu irmão Quinto no dia 11 de fevereiro de 54 a.C., “é, como dizes em tua carta, rica de um gênio iluminado, mas muito artística.” A sintaxe de Cícero — e especialmente aquele “mas” ligeiramente estranho — registra sua surpresa: ele estava evidentemente impressionado com algo incomum. Havia encontrado um poema que juntava um “gênio iluminado” em filosofia e ciência a uma força poética incomum. A conjunção desses fatores era na época tão rara quanto hoje.

Cícero e seu irmão não foram os únicos a perceber que Lucrécio havia realizado uma fusão quase perfeita de distinção intelectual e maestria estética. O grande poeta romano Virgílio, que tinha cerca de quinze anos quando Lucrécio morreu, foi enfeitiçado por Da natureza. “Abençoado seja quem conseguiu encontrar as causas das coisas”, Virgílio escreveu nas Geórgicas, “e pisoteou todos os medos e os inexoráveis fados e o rugido do cúpido Aqueronte.” Presumindo que se trate de uma alusão sutil ao título do poema de Lucrécio, o poeta mais velho torna-se um herói de sua cultura, alguém que ouviu o rugido ameaçador do mundo inferior e triunfou sobre os medos supersticiosos que ameaçam secar o espírito humano. (…) A Eneida, o grande épico de Virgílio, era uma longa tentativa de construir uma alternativa a Da natureza: pio onde Lucrécio era cético; patriota militante onde Lucrécio aconselhava o pacifismo; advogando uma renúncia sóbria onde Lucrécio se entregava à busca do prazer.

(…) Os gregos e romanos antigos não compartilhavam de nossa idealização do gênio isolado, numa batalha solitária contra os mais complexos problemas. Tais cenas — Descartes questionando tudo em seu retiro secreto, ou o excomungado Spinoza calmamente raciocinando sozinho enquanto polia lentes — acabariam se tornando nosso principal símbolo da vida mental. No entanto, essa visão das questões intelectuais se baseia numa profunda mudança de prestígio cultural que só teve início com os primeiros eremitas cristãos, que deliberadamente abandonaram todos os valores pagãos; santo Antônio (250-356) no deserto ou são Simão Estilita (390-459) trepado em sua coluna.

Essas figuras, estudiosos modernos já demonstraram, na verdade costumavam ter bandos de seguidores e, embora vivessem afastados, muitas vezes exerciam um papel significativo na vida das grandes comunidades. Mas a imagem cultural dominante que elaboraram — ou que veio a ser elaborada em torno deles — era de um isolamento radical.

Não era esse o caso entre os gregos e romanos. Como pensar e escrever em geral requerem silêncio e o mínimo de distrações, os poetas e filósofos daquelas sociedades devem ter se afastado periodicamente do barulho e das atividades do mundo para realizar o que realizaram. Mas a imagem que projetavam era social. Os poetas se descreviam como pastores que cantavam para outros pastores; os filósofos se descreviam como pessoas envolvidas em longas conversas, que muitas vezes duravam vários dias. Esse afastamento das distrações mundanas era representado não como um retiro numa cela solitária, mas como uma tranquila troca de palavras entre amigos num jardim. Os humanos, escreveu Aristóteles, são animais sociais: realizar plenamente nossa natureza humana, então, era participar de atividades coletivas. E a atividade preferida, para os romanos cultos, como para os gregos antes deles, era o diálogo.

Os epicuristas, às vezes com fama de ateus, achavam que os deuses existiam, ainda que muito afastados das questões dos mortais. (…) As respostas para todas as perguntas, Lucrécio argumentaria com ardor, estavam na obra de um homem cujo busto e cujos escritos adornavam a biblioteca da casa, o filósofo Epicuro. Era apenas Epicuro, Lucrécio escreveu, quem poderia curar a condição miserável do homem que, mortalmente entediado em casa, sai correndo para sua estância de veraneio apenas para descobrir que lá se encontra tão deprimido quanto antes. Na verdade, na opinião de Lucrécio, Epicuro, morto mais de dois séculos antes, era nada menos que o próprio salvador. Quando “a vida humana jaz contorcendo-se ignominiosamente no pó, esmagada pelo peso terrível da superstição”, Lucrécio escreveu, um homem de suprema bravura surgiu e tornou-se “o primeiro que se arriscou a confrontá-la audaciosamente” (1.62ss).

Esse herói — um herói divergente em todos os aspectos de uma cultura romana que tradicionalmente se orgulhava de sua dureza, seu pragmatismo e sua virtude militar — era um grego que triunfou não pela força das armas, mas pelo poder do intelecto. Da natureza é a obra de um discípulo que transmite ideias desenvolvidas por Epicuro, o messias filosófico de Lucrécio, que nasceu perto do fim de 342 a.C. na ilha de Samos, no mar Egeu, onde seu pai, um mestre-escola ateniense de poucos recursos, havia ido parar como colonizador.

Muitos filósofos gregos, inclusive Platão e Aristóteles, vinham de famílias ricas e se orgulhavam de seus ancestrais distintos. Epicuro decididamente não tinha como dizer a mesma coisa. Seus inimigos filosóficos, refestelados em sua superioridade social, abusavam da humildade de suas origens. Ele ajudava o pai na escola por uma paga mínima, riam eles, e ia com a mãe de casebre em casebre ler encantamentos. Um de seus irmãos, acrescentavam, era um alcoviteiro que morava com uma prostituta. Não se tratava de um filósofo com que as pessoas de bem devessem se relacionar. O fato de que Lucrécio e muitos outros fizeram mais do que simplesmente se relacionar com Epicuro — eles o festejavam como alguém de sabedoria e coragem divinas — dependia não de suas credenciais sociais, mas do que consideravam ser o poder de salvação que existia em sua visão.

O núcleo dessa visão pode ser reduzido a uma única ideia incandescente: tudo que já existiu e tudo que ainda existirá é montado a partir de partículas indestrutíveis de dimensões diminutas, mas inimaginavelmente numerosas. Os gregos tinham uma palavra para essas partículas invisíveis, coisas que, como eles as concebiam, não podiam ser divididas em elementos menores: átomos. A noção de átomo, que se originou no século v a.C. com Leucipo de Abdera e seu aluno favorito Demócrito, era somente uma curiosa especulação; não havia como conseguir uma prova empírica, e não haveria como fazê-lo por mais de 2 mil anos.

Outros filósofos defendiam teorias contrárias: a matéria central do universo, diziam eles, era o fogo, ou a água, ou o ar, ou a terra, ou alguma combinação desses elementos. Outros sugeriam que, caso fosse possível ver a menor partícula do homem, o que se encontraria seria um homem infinitesimalmente minúsculo; e o mesmo aconteceria com um cavalo, uma gotinha d’água, ou uma folha da relva. Outros ainda propunham que a intricada ordem do universo era prova de uma mente ou um espírito invisível que cuidadosamente montava as peças segundo um plano prévio.

A concepção de Demócrito, de um número infinito de átomos que não têm qualidades além de tamanho, figura e peso — partículas que não são versões em miniatura do que vemos, mas formam o que vemos ao se combinarem umas com as outras numa inexaurível multiplicidade de formas —, era uma solução fantasticamente ousada para um problema que desafiava os grandes intelectos de seu mundo.

Aos doze anos de idade, Epicuro ficou contrariado porque seus professores não sabiam explicar o significado do caos. A antiga ideia dos átomos de Demócrito lhe parecia o caminho mais promissor, e ele se pôs a trabalhar para segui-lo aonde pudesse levá-lo. Aos 32 anos de idade, ele estava pronto para fundar uma escola. Num jardim de Atenas, Epicuro construiu toda uma explicação do universo e uma filosofia da vida humana. Constantemente em movimento, os átomos colidem uns com os outros, raciocinava Epicuro, e em certas circunstâncias formam corpos cada vez maiores. Os maiores corpos que se podem observar — o Sol e a Lua — são feitos de átomos, assim como os seres humanos e as moscas e os grãos de areia.

Se a ordem natural é inconcebivelmente vasta e complexa, continua sendo possível compreender parte de seus constituintes básicos e de suas leis universais. Na verdade, essa compreensão é um dos maiores prazeres humanos. Talvez esse prazer seja a chave para entender o vigoroso impacto da filosofia de Epicuro; foi como se ele tivesse exposto para seus seguidores uma fonte inesgotável de satisfação, escondida dentro dos átomos de Demócrito.

(…) Você não vai mais temer a ira de Jove quando ouvir o som do trovão, ou suspeitar que alguém ofendeu Apolo sempre que houver um surto de gripe. E vai se ver livre de uma terrível aflição — aquilo que Hamlet, muitos séculos depois, descreveu como “o pavor de algo após a morte,/ a terra desconhecida de cujas fronteiras/ viajante nenhum retorna”.

A aflição — o medo de algum castigo horroroso num reino além-túmulo — não tem mais efeito sobre a maioria dos homens e mulheres modernos, mas evidentemente tinha seu peso na antiga Atenas de Epicuro e na Roma antiga de Lucrécio, e também no mundo cristão em que vivia Poggio. Com certeza Poggio há de ter visto imagens desses horrores, amorosamente gravadas no tímpano sobre as portas das igrejas ou pintadas em suas paredes internas. E esses horrores, por sua vez, surgiam a partir de relatos da vida após a morte criados pela imaginação pagã.

É claro que nem todo mundo em qualquer um desses períodos, pagão ou cristão, acreditava nesses relatos. “Não ficas apavorado de medo”, pergunta um dos personagens num diálogo de Cícero, “do mundo dos mortos, com seu cão de três cabeças, seu rio negro, seus horrendos castigos?” “Achas que sou louco de acreditar em tais lendas?”, seu amigo responde.

O medo da morte não se refere ao destino de Sísifo e Tântalo: “Qual será a velhota tola que tem medo” dessas histórias de terror? Ele se refere ao pavor de sofrer e ao de desaparecer, e é difícil entender, Cícero escreveu, por que os epicuristas imaginam oferecer algum paliativo. Ouvir dizer que nós desaparecemos completamente e para sempre, alma e corpo, está longe de ser um consolo.

Os seguidores de Epicuro reagiam evocando os últimos dias do mestre, morrendo de uma dolorosíssima obstrução da bexiga, mas atingindo a serenidade de espírito ao relembrar todos os prazeres da vida. Não é claro que seu modelo fosse facilmente imitável — “Quem pode segurar nas mãos a chama/ Pensando só no gélido Cáucaso?”, como pergunta um dos personagens de Shakespeare —, mas também não é claro que qualquer uma das alternativas disponíveis, num mundo sem analgésicos opiáceos, tivesse mais sucesso em lidar com as agonias da morte. O que o filósofo grego oferecia não era ajuda para morrer, mas ajuda para viver. Libertado da superstição, Epicuro ensinava, você se veria livre para buscar o prazer.

Os inimigos de Epicuro fizeram um uso malicioso de sua celebração do prazer e inventaram histórias maldosas de devassidão, relatos que ganhavam mais peso por sua incomum inclusão de mulheres junto aos homens que o seguiam. Ele “vomitava duas vezes por dia, por seus excessos”, dizia uma dessas histórias, e gastava uma fortuna com festins.

Na realidade, o filósofo parece ter levado uma vida conspicuamente simples e frugal. “Manda-me um pote de queijo”, ele uma vez escreveu a um amigo, “para que, quando quiser, eu possa viver suntuosamente.” E lá se vai a suposta abundância de sua mesa. Além disso, ele incitava seus alunos a uma frugalidade comparável. O lema entalhado sobre a porta que levava ao jardim de Epicuro incentivava o estrangeiro a ficar, pois “aqui nosso bem maior é o prazer”. N

No entanto, segundo o filósofo Sêneca, que cita essas palavras numa famosa carta que Poggio e seus amigos conheciam e admiravam, o passante que entrasse receberia uma refeição simples de papa de cevada e água. “Quando dizemos, então, que o prazer é a meta”, Epicuro escreveu numa das poucas cartas suas que sobreviveram, “não nos referimos aos prazeres da prodigalidade ou aos prazeres da sensualidade.”

A enlouquecida tentativa de satisfazer certos apetites — “uma sucessão ininterrupta de bebedeiras e festejos […] amor sexual […] o consumo de peixe e outras iguarias de uma mesa requintada” — não pode levar à paz de espírito que é a chave do prazer duradouro. “Os homens sofrem os piores males por causa dos desejos que lhes são mais estranhos”, escreveu seu discípulo Filodemo, num dos livros encontrados na biblioteca de Herculano, e “negligenciam os apetites mais necessários como se fossem os mais estranhos a sua natureza.”

Quais são esses apetites necessários que levam ao prazer? É impossível viver de maneira prazerosa, Filodemo continuava, “sem viver de maneira prudente e honrada e justa, e também sem viver de maneira corajosa, temperada e magnânima, e sem fazer amigos, e sem ser filantrópico”.

GREENBLATT, S.
A Virada (The Swerve)

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O DESEQUILÍBRIO É A NORMALIDADE: uma relembrança d’O Alienista de Machado de Assis

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Que exista a palavra “loucura” no singular talvez seja uma doidice da linguagem. Pois no mundo das gentes, quer parecer-me, só há loucuras no plural, doiduras das mais várias e múltiplas, e quase sempre cada um de nós tem dentro si pelo menos uma meia dúzia.

Quase ninguém é doido igual aos mentecaptos ilustres como Dom Quixote ou Rei Lear. As pessoas sempre dão um jeito de inventar uma loucura bastante singular e própria.

O que não impede que os profissionais da área gastem as pontas de seus lápis e as tintas de suas canetas em intermináveis catalogações, classificações, rotulamentos. Dá para encher um dicionário (e já existem) só contendo termos como histeria, psicose, depressão, megalomania, sadomasoquismo e que tais.

Nenhum dicionário esgota todas as potencialidades de diferenciação das mentecaptices humanas. Há as insânias de amor e as de ódio, há as de ganância e as de frugalidade, as de ascetismo e as de libertinagem. Há os que alucinam que são Napoleões e há aqueles que querem enfiar a cabeça na areia, como avestruzes pudorosos, de tanta vergonha de serem quem são…

(Caro leitor, favor levar a sério as reticências que acabo de antepor a vosso caminho, e pareis para pensar por três segundos, ou até minutos, ou até horas, uma para cada ponto, no tanto de gente doida que você já conheceu…).

Se tivesse escrito somente O Alienista, Machado de Assis já mereceria um lugar de destaque naquela seleta galeria de criadores dotados de alta perspicácia em matéria psicológica – como eram Stendhal e Dostoiévski, segundo a avaliação de Nietzsche – ele, que dizia ter aprendido psicologia sobretudo com os mestres da literatura.

A novela tem algo de Fausto, o Doutor Simão Bacamarte sendo também um obcecado pela ciência, pela leitura, pelo saber alquímico capaz de curar os males d’alma… Mas em Machado não há tanto da soturnidade goethiana, já que o brasileiro faz por todas as páginas dúzias de cabriolas e molequices de deixar até um Mefistófeles sentindo-se careta.

Se fosse mais tenebrosa, a obra poderia até passar por um conto de Hoffman ou Edgar Allan Poe. Mas é leitura leve, aprazível, que convida a uma alegre apreciação das irracionalidades humanas, que passam em desfile nesta carnavalesca procissão de doidos, enquanto a narrativa vai desenrolando uma pergunta destinada a tornar-se pulga atrás da orelha do leitor: “se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?” (2007, pg. 59)

Simão Bacamarte, homem de ciência, de nobreza, nascido em berço d’ouro, servidor de Vossa Majestade em Lisboa, torna-se uma espécie de tirano em Itaguaí ao inaugurar seu hospício, A Casa Verde. Doutor Simão garante que não tem interesses capitalistas ao encerrar tanta gente na casa dos doidos, mas ele enriquece velozmente a ponto de poder mandar a esposa, Dona Evarista, para um passeio ao Rio de Janeiro, de onde ela retorna toda adornada de vestidos de seda e pedras preciosas.

Simão Bacamarte atravessa a obra sendo alguém que julga os outros sem antes ter parado para julgar a si mesmo. O alienista considera-se tão evidente e indubitavelmente são, já que está em plena posse do equilíbrio de suas faculdades mentais, que não questiona quase nunca se realmente é são o bastante para ter o direito de sair trancando gente adoidada no hospício.

E o narrador nos garante: foi uma “coleta desenfreada” a que realizou Doutor Simão, agindo um pouco como se fosse o Poderoso Chefão de uma instituição pública que se assemelha à carrocinha que recolhe cães vira-latas – com a diferença de ser destinada aos humanos. Itaguaí apelida o doidódromo de Simão Bacamarte como “Bastilha” e o equivalente Itaguaiense da Revolução Francesa não tarda a estourar: é o levante dos Canjicas!

O Alienista  retrata um amálgama perigoso entre a psiquiatria e o presídio: na novela, a autoridade em psicologia torna-se o executor de um plano quase kafkiano de totalitarismo em que o encarceramento em massa não tarda a surgir como resultado.

A ironia que Machado despeja sobre esta situação provêm da percepção do artista do quão insana seria uma sociedade onde há mais gente presa detrás de grades do que solta ao ar livre – e tudo em nome da preservação da sanidade e segurança públicas.

Machado de Assis analisa com seu sagaz brilhantismo a figura do “cientista maluco”, no caso um doutor em psicologia que acredita fanaticamente que a austeridade, a impassibilidade, a imperturbabilidade, a condição de ser não-emocionável e imune às paixões, como uma estátua de mármore, é o supra-sumo das virtudes.

Bacamarte considera que normal é aquele que está com o cérebro equilibrado; porém, quanto mais conhece o ser humano, mais convence-se de algo diferente: quase todo mundo é um desequilibrado. Logo, aquele que, como Bacamarte, tem um equilíbrio psíquico que não se perturba… esse aí é o maior dos anormais.

O alienista descobre-se alienado. O déspota faz-se libertador daqueles que havia falsamente condenado à sina de anormalidade, e o sábio, de modo até um pouco socrático, diz algo semelhante ao “só sei que nada sei”: louco devo ser eu, de tão equilibrado que sou!

O Alienista é também o retrato de uma sublevação social, com golpes de Estado e massacres, alianças e traições. A maníaca campanha de aprisionamento dos cidadãos de Itaguaí, posta em marcha por Simão Bacamarte e seus paus-mandados, desperta a resistência e a rebeldia popular.

Em uma cena memorável, a sublevação dos Canjicas vai à Câmara para demandar que o tirano Bacamarte cesse de possuir tamanhos poderes de encarceramento. Uma turba desequilibrada e passional exige que o Doutor pare de enterrar vivos em cubículos todos aqueles que manifestam desequilíbrio emocional e furiosas tempestades psíquicas.

“A irritação dos agitadores foi enorme. O barbeiro declarou que iam dali levantar a bandeira da rebelião, e destruir a Casa Verde; que Itaguaí não podia continuar a servir de cadáver aos estudos e experiências de um déspota; que muitas pessoas estimáveis, algumas distintas, outras humildes mas dignas de apreço, jaziam nos cubículos da Casa Verde; que o despotismo científico do alienista complicava-se do espírito de ganância, visto que os loucos, ou supostos tais, não eram tratados de graça: as famílias, e em falta delas a Câmara, pagavam o alienista…” (pg. 58)

Há quem acuse Machado de ser um pouco misantrópico, ou seja, de ser desses doidos que odeiam a humanidade, já que escreveu frases imorredouras como “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Mas O Alienista me deixa com outro sabor na boca que não é o da misantropia, mas muito mais de uma fascinação bem-humorada diante dos comportamentos e crenças humanos. Para Machado de Assis, o homem é um animal fundamentalmente irracional, e como escritor Machado vincula-se a uma longa genealogia de autores – que inclui Luciano, Horácio, Cervantes, Chamfort, Voltaire, Sterne… – daqueles que  proponho chamar de ironistas das irracionalidades de que a condição humana está repleta.

Não é que gente não preste, é só que entre as gentes quase nunca se encontra alguém que não seja singularmente doido. Olhando de perto, ninguém é normal. Ou melhor, como logo descobre, em um insight quase epifânico, o Doutor Simão Bacamarte:  a loucura é quase universal, e quem não é louco portanto é o mais anormal dos anormais.

A quase universalidade da loucura é o que Machado põe-se a examinar, com todas as ironias bem alertas, narrando-nos um causo que não tem poucas ocasiões que nos fazem rir às bandeiras despregadas. Aqui, quem se pretende são é tanto mais suspeito de ser louco por isso. E quem pretende ser louco pode ser que seja são.

Machado embaralha as categorias rígidas a golpes de poesia e arruaça. Pois esse é um texto tão arruaceiro que pode-se dizer que prenuncia a estética punk em quase um século. Tem até 11 mortos e 45 feridos fornecendo o banho-de-sangue que é sempre necessário para uma obra-de-arte alçar-se aos ouropéis gozados por Macbeth, a Ilíada ou Os Miseráveis.

Sangue em profusão jorra quando a rebelião dos Canjicas choca-se contra os dragões armados da legalidade; lendo esta cena, descobrimos que no Rio de Janeiro de Machado já haviam, guardadas as devidas proporções, um caldeirão de hostilidades e loucuras sempre às beiras de degringolar em chacina.

O gênio de Machado de Assis aparece como que concentrado em O Alienista, uma narrativa que nos conduz por uma montanha-russa de ideias estéticas, éticas, políticas, psicológicas, sócio-econômicas.

Por exemplo, a noção de que aqueles que se distinguem por suas perfeições morais são também um pouco malucos, já que desviantes da norma. O normal é ser moralmente imperfeito, cheio de vícios vários, arrastado por  diversas paixões desequilibrantes, de tal modo que Simão Bacamarte, a certo ponto, escolhe curar aqueles “cruelmente afligidos de moderação e equidade” para “restituí-los ao perfeito desequilíbrio das faculdades” (pg. 78).

Uma vida inteira devotada à ciência, à pesquisa do comportamento, para que o Alienista chegasse à este conclusão (bem-louca!): “se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicas todos os casos em que  aquele equilíbrio fosse ininterrupto.” (pg. 72)

O próprio Machado de Assis, decerto um dos maiores escritores da história da América Latina, figura monumental na Literatura Universal, é grandioso também por causa de sua genial loucura. Simão Bacamarte é um símbolo de uma ironia tão lúcida que beira a insanidade: depois de passar uma vida a analisar o ser humano, descobre que aquilo que de mais certo podemos dizer é que nada é mais normal que o desequilíbrio e a irracionalidade. Todo sábio e todo gênio é tão desviante da norma da mediocridade que periga ser rotulado de doido pela turba insana dos normais.

Por Eduardo Carli de Moraes
Para A Casa de Vidro

Todas as citações: 50 Contos de Machado de Assis, selecionados por John Gledson, São Paulo: Companhia das Letras, 2009.