O OCULTAMENTO DOS MASSACRES NEOLIBERAIS: A Necropolítica do burgofascismo não só mata, ela oculta de nossa consciência suas atrocidades

NA ERA DOS MASSACRES NEOLIBERAIS

“Nem mesmo os mortos estarão a salvo do inimigo caso ele ganhe, e esse inimigo não cessou de ser vitorioso.”
WALTER BENJAMIN, Teses Sobre o Conceito de História

Ilusões ingênuas sobre o “capitalismo com rosto humano” vão colapsando no continente: o capitalismo desumano se desnuda. O Chile insurgente obriga o que resta do sistema Pinochetista a conceder a Constituinte, e o país passará em breve pelo duro processo de parto da Constituição nova em 2020; a Colômbia realiza as maiores greves gerais das últimas décadas, na esteira da vitória do movimento cívico do Equador, que obrigou Lênin Moreno a recuar de seu pacto com o FMI; na Bolívia, após a derrubada do governo do MAS, proliferam as atrocidades cometidas pela “Direita Gospel” que “pôs a Bíblia de novo no Palácio Quemado”.

A derrota eleitoral de Macri na Argentina é outro sinal de que as políticas neoliberais não encontram mais tanto respaldo nas urnas. No Brasil, assim como se deu no Chile a partir do golpe de 1973, após o Golpe de 2016 vimos o exacerbamento das núpcias sinistras entre neoliberalismo e fascismo (tema explorado no novo livro de Wendy Brown). E assim o neoliberalismo vai se mostrando pelo que é: as convulsões de agonia de um sistema moribundo e massacrante.

Os massacres na Bolívia, que a mídia burguesa tenta encobrir, afundam ainda mais na impossibilidade a manutenção da ilusão de que estaríamos lidando com “capitalistas humanitários” – nós estamos é lidando com a barbárie mesmo. Com a selvageria fascista abraçada ao fundamentalismo dos mercados de capitais. Como diria Rosa Luxemburgo, a alternativa básica, nossa encruzilhada elementar, é mesmo a escolha entre Socialismo e Barbárie. Mas como disse depois Daniel Bensaïd, “na luta secular entre o socialismo e a barbárie, a barbárie ganha de longe.” [1]

A palavra Resistência, hoje, só faz sentido se for aquele “freio de emergência” que Walter Benjamin usava como metáfora da revolução. Resistência à barbárie que começa por não permitirmos, por nada, que os tiranos possam nos massacrar impunemente e abafando a própria notícia de seus crimes. Os mortos nos massacres na Bolívia, tanto quanto os mortos nos massacres de Paraisópolis ou dos morros do Rio de Janeiro, precisam ser salvos do esquecimento, do eclipse, do ocultamento debaixo dos tapetes da tirania. Sobre o Massacre em El Alto, no bairro Senkata, em 19 de Novembro de 2019, relata uma reportagem:

Naquele dia, “em que havia muita fumaça e helicópteros” em El Alto, a autoproclamada presidenta Jeanine Áñez determinou uma megaoperação policial-militar para retomar a unidade da Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), ocupada por manifestantes contrários ao golpe. Nacionalizada pelo governo de Evo Morales, a estatal é um dos símbolos maiores do orgulho e da autoestima bolivianas, e tem sido central no aporte ao desenvolvimento soberano e à redistribuição de renda. (Fonte: Carta Maior / Outras Palavras).

(…) [Durante o massacre] havia um ódio dirigido especialmente contra as senhoras de pollera (as saias indígenas), que os soldados faziam com que se ajoelhassem. Um senhor mais velho se ajoelhou e abriu os braços suplicando para que o matassem, mas poupassem os seus filhos, os jovens, que tinham muito ainda para viver. Mas os militares os mataram a sangue frio. E foram muitos”. Pergunto sobre os números de vítimas, completamente destoantes das cifras oficiais. Ao que ela responde: “são tantos os desaparecidos, corpos jogados no monte Ilimany, no vale Achocalla e no monte de Villa Ingenio”. “O fato é que todos têm medo de falar, por nada no mundo querem se arriscar, mas o fato é que há muito mais mortos…” [2]

SAIBA MAIS:

Poucos dias antes, o Massacre de Cochabamba, em 15 de novembro, já havia deixado explícito o caráter dos que se apossaram do poder após o golpe de Estado que “pôs a Bíblia de volta no Palácio Quemado” com a posse de uma presidenta auto-proclamada diante de um congresso sem quórum, ungida pelas forças armadas e pelos latifundiários de Santa Cruz de La Sierra. Foram 9 manifestantes assassinados pela repressão brutal de um estado terrorista já apelidado por alguns de Ditadura Gospel, um “recado” escrito em sangue para os que resistem ao golpe.

O massacre, ainda que moralmente repugnante, é utilizado como meio aceitável por uma elite apegada a seus privilégios e temerosa dos movimentos igualitários; o massacre então funciona como estratégia para apavorar a população resistente e submetê-la assim ao pseudo-consentimento dos apavorados. No Democracy Now, encabeçado pela jornalista Amy Goodman, temos uma janela de acesso às notícias sobre a conjuntura na Bolívia após a deposição do governo de Evo Morales e Garcia Linera. Pachamama sangra enquanto aumenta a criminalização das populações indígenas e dos ativistas do MAS. Signos de que estão de novo sangrando aos borbotões as veias abertas da América Latina.

“In Bolivia, at least 23 people have died amid escalating violence since President Evo Morales, the country’s first indigenous president, resigned at the demand of the military last week. Growing unrest quickly turned to violent chaos on Friday outside Cochabamba when military forces opened fire on indigenous pro-Morales demonstrators, killing at least nine people and injuring more than 100. The violence began soon after thousands of protesters — many indigenous coca leaf growers — gathered for a peaceful march in the town of Sacaba and then attempted to cross a military checkpoint into Cochabamba. Amid this escalating violence and reports of widespread anti-indigenous racism, protesters are demanding self-declared interim President Jeanine Áñez step down. Áñez is a right-wing Bolivian legislator who named herself president at a legislative session without quorum last week. She said that exiled socialist President Morales, who fled to Mexico after he was deposed by the military on November 10, would not be allowed to compete in a new round of elections and would face prosecution if he returned to Bolivia, which has a majority indigenous population.” [3]

No Chile, apesar das diferenças em relação à Bolívia no que tange à conjuntura política, as mega-manifestações contra o governo Piñera também sofreram com uma brutal repressão análoga àquela que se derrubou sobre os defensores do governo deposto de Evo Morales e Garcia Linera. Os mortos, feridos e cegados se multiplicam sem que esta estratégia estatal terrorista logre de fato calar os protestos. Em 16 de Novembro de 2019, dados oficiais divulgados pelo governo estimavam 23 mortos nos protestos, um número de feridos acima de 2000 e de presos acima de 6000. São números que indicam bem o tamanho do amor do neoliberalismo pela democracia: zero.

No caso das mobilizações feministas, houve um efeito de viralização internacional do “hit das ruas” que acusa: “O Estado opressor é um macho violador”. Para além das fronteiras chilenas, mulheres de todo o planeta estão replicando a performance-protesto e dizendo aos violadores: “E a culpa não era minha, nem onde estava, nem como me vestia”.

Um detalhe cruel do processo repressivo perpetrado pelos carabineros chilenos são as balas de borracha disparadas contra os olhos dos manifestantes: calcula-se em mais de 200 pessoas que perderam a visão nos protestos de 2019. Qualquer justificativa de autoridades deste governo que visasse apontar os olhos explodidos como episódios isolados colapsa diante de um número que prova que tais atrocidades são propositais e recorrentes. Segundo o Correio Brasiliense, pelo menos 285 pessoas “sofreram traumas oculares graves, inclusive com a perda de visão, atingidos pelo disparo de balas de borracha e granadas de gás lacrimogêneo.”

Uma das histórias ocultadas e recalcadas pelos neoliberais hoje empoderados diz respeito ao verdadeiro “laboratório” da economia política neoliberal: o Chile de Pinochet. Em seu artigo mais recente em El País, o filósofo Vladimir Safatle rompe com este ocultamento e diz claramente que o neoliberalismo não começa com Reagan e Tatcher, mas sim sob os escombros ensanguentados do governo Allende, deposto num violento golpe militar que trouxe ao poder os milicos amigados com os Chicago Boys. Naomi Klein já contou esta história em minúcias no indispensável A Doutrina do Choque. Safatle, diante da figura pavorosa de Paulo Guedes, ministro da Economia que é fã do Pinochetismo Neoliberal, recupera o vínculo umbilical entre ditadura militar e instalação do neoliberalismo na América Latina:

“A liberdade do mercado só pode ser implementada calando todos os que não acreditam nela, todos os que contestam seus resultados e sua lógica. Para isto, é necessário um estado forte e sem limites em sua sanha para silenciar a sociedade da forma mais violenta. O que nos explica porque o neoliberalismo é, na verdade, o triunfo do estado, e não sua redução ao mínimo.

Que lembrem disso aqueles que ouviram o sr. Paulo Guedes falar em AI-5 nos últimos dias. Isso não foi uma bravata, mas a consequência inelutável e necessária de sua política econômica. Como se costuma dizer, quem quer as causas, quer as consequências. Quem apoia tal política, apoia também as condições ditatoriais para sua implementação. O neoliberalismo não é uma forma de liberdade, mas a expressão de um regime autoritário disposto a utilizar todos os métodos para não ser contestado. Ele não é o coroamento da liberdade, só uma forma mais cínica de tirania.” SAFATLE (El País, 2019) [4]

A cínica tirania Bolsonarista tem em Moro e Guedes duas de suas lideranças mais brutais, que querem o silenciamento pleno do dissenso e da discórdia: que ninguém ouse protestar se não quiser que se instaure um AI-5 versão 2019, e que ninguém ouse lembrar que o Sr. Ministro da Justiça, que influiu criminosamente no processo eleitoral de 2018 ao prender injustamente aquele que seria eleito presidente, está querendo aprovar os “excludentes de ilicitude” que são carta branca para a PM matar geral nas favelas e nos protestos. O ideal desta gente nefasta é mesmo o Chile de Pinochet.

Na ocasião em que o governo da União Popular, eleito em 1970, foi brutalmente golpeado pelas atrocidades militares que marcaram o 11 de Setembro de 1973, para a instalação da ditadura capitalista encabeçada por Pinochet, com seus últimos alentos o presidente socialista Salvador Allende, ciente de estar entrando no panteão dos mártires, pronunciou frases que os chilenos jamais esqueceriam: “Antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre para construir uma sociedade melhor.”

Afundando na morte mas não no esquecimento, Allende tentava incentivar, em seu último ato, os que ficavam entre os vivos a permanecerem na luta por tempos menos sórdidos, encarando todos os horrores de uma Santiago ensanguentada. Um ano depois, as últimas palavras de Allende inspirariam uma das mais belas canções do cantor e compositor cubano Pablo Milanés, “Yo pisaré las calles nuevamente” (letra abaixo). Neste videoclipe, as insurreições populares no Chile, em 2019, contra o governo neoliberal e direitista de Piñera, as imagens de Santiago fervilhante de inquietação cívica são acompanhadas pela música de Milanés, evocatórias de Allende, numa bela obra que mescla as conturbações do presente com a lembrança fecunda do passado:

“Yo pisaré las calles nuevamente
de lo que fue Santiago ensangrentada,
y en una hermosa plaza liberada
me detendré a llorar por los ausentes.

Yo vendré del desierto calcinante
y saldré de los bosques y los lagos,
y evocaré en un cerro de Santiago
a mis hermanos que murieron antes.

Yo unido al que hizo mucho y poco
al que quiere la patria liberada
dispararé las primeras balas
más temprano que tarde, sin reposo.

Retornarán los libros, las canciones
que quemaron las manos asesinas.
Renacerá mi pueblo de su ruina
y pagarán su culpa los traidores.

Un niño jugará en una alameda
y cantará con sus amigos nuevos,
y ese canto será el canto del suelo
a una vida segada en La Moneda.

Yo pisaré las calles nuevamente
de lo que fue Santiago ensangrentada,
y en una hermosa plaza liberada
me detendré a llorar por los ausentes.”
Pablo Milanés

A sangrenta repressão que o autoritarismo estatal vem impondo na Bolívia e no Chile evocam episódios históricos semelhantes e que demonstram a constância da brutalidade reacionária. O exemplo mais emblemático disso segue sendo, talvez, a Comuna de Paris, que em 1871 foi brutalmente massacrada pelas forças reacionárias que tinham se exilado em Versalhes, preparando a carnificina contra os communards parisienses. As elites, destronadas, não costumam ter escrúpulos morais em relação ao emprego da violência assassina para que recuperem um poder de que estão sendo alijadas:

“A Comuna de Paris terminou em massacre. Durante a chamada Semana Sangrenta, 35 mil pessoas foram executadas nas ruas da capital francesa, numa repressão sistemática que se configurou em extermínio de massa. Além disso, 10 mil comunardos foram deportados para a Nova Caledônia…” (TRAVERSO, Enzo, 2019, p. 93) [5]

O sangue das 35.000 vítimas da Comuna de Paris não pode ser esquecido por ninguém que queira manter a lucidez em suas decisões de natureza política: logo após a massacrante repressão de maio de 1871, que encerrou o experimento revolucionário comunista em Paris, Marx escreveria, em A Guerra Civil na França, palavras que não permitiam, diante da derrota, o desânimo:

“A sociedade moderna é o solo onde cresce o socialismo, que não pode ser estancado por nenhum massacre, não importa de que dimensão. […] A Paris operária, com sua Comuna, será eternamente lembrada e celebrada como o arauto de uma nova sociedade. Seus mártires estarão consagrados no coração das classes trabalhadoras. A história de seus exterminadores já foi cravada no pelourinho eterno de onde todas as rezas de seus padres não conseguirão jamais redimi-los.” – KARL MARX [6]

Nas ruas de La Paz, em Novembro de 2019, a barbárie ganhou um novo emblema: os caixões dos manifestantes mortos em El Alto foram envolvidos pelas nuvens de gás lacrimogêneo e pelo corre-corre da multidão em dispersão. Não, o capitalismo neoliberal massacrante não quer nem mesmo permitir que choremos nossos mortos. Se deixarmos, enfiarão de novo um monte de esqueletos nos armários. E nos mandarão, aos chutes, para os shopping centers e hipermercados para que continuemos comprando, bestificados e catatônicos.

Sinal da banalidade do mal que ainda é nossa contemporânea, o ocultamento e a normalização dos massacres neoliberais indica que a desumanidade humana ainda tem muito futuro – e que à Resistência antifascista não faltará trabalho nem mártires a chorar. A mídia burguesa irá seguir ocultando, o quanto puder, os massacres de El Alto e de Cochabamba, ou os crimes contra a humanidade cometidos pelos carabineiros chilenos, ou a grave situação humanitária em Altamira, na Amazônia brasileira, onde em 2019 ocorreu o pior massacre carcerário desde o Carandiru.

Se permitirmos, nem mesmo os que morreram ou perderam os olhos na luta contra o Mammon neoliberal estarão a salvo da boçalidade do mal que se manifesta em Bolsonaros, Trumps e Piñeras. A Necropolítica do burgofascismo não só mata, ela oculta de nossa consciência suas atrocidades. É também nossa tarefa, enquanto cidadãos que podem hoje também agir como mídia independente, sacar seus celulares e blogs, mobilizar seus feeds e redes, para impedir que as carnificinas perpetradas pelas classes dominantes – que hoje mesclam neofascismo e neoliberalismo – possa cair na indiferença e no esquecimento.

Carli, Dez. 2019

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] BENSAÏD, D. apud TRAVERSO, Melancolia de Esquerda: Marxismo, História e Memória, 2019, pg. 27.

[2] SEVERO, Leonardo Wexell. Bolívia: o massacre que os neoliberais tentam encobrir. 2019.

[3] DEMOCRACY NOW! Massacre in Cochabamba: Anti-Indigenous Violence Escalates as Mass Protests Denounce Coup in Bolivia. 15/11/2019.

[4] SAFATLE, VladimirA Ditadura do Sr. Guedes. El País, Dez. 2019.

[5] TRAVERSO, Enzo, Melancolia de Esquerda: Marxismo, História e Memória, 2019, p. 93.

[6] MARX, Karl. A Guerra Civil na França, trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2011. Apud #1, p. 93.

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SAIBA MAIS:

A ESTUPIDEZ PIROMANÍACA DO NECROGOVERNO – No Brasil pós-Golpe, o neofascismo reduz a cinzas nossas florestas e direitos

EXTERMINADORES DO FUTURO – A extrema-direita brasileira promove alguns dos piores crimes de ecocídio do século 21 na maior floresta tropical do planeta. Favorecidos pela política do desgoverno ilegítimo e oni-nefasto, bípedes irresponsáveis do agronegócio e do “ruralismo” predatório, os pecuaristas e latifundiários mais endoidecidos pela selvageria do capitalismo, avançam com fúria sobre a Amazônia. O clamor da Terra não é escutado por estes insensatos adoradores do vil metal, apaixonados pelas próprias polpudas contas bancárias, propulsionadas à riqueza mesmo que ao custo de ilegalidades e atrocidades.

Vão derrubando uma das áreas mais biodiversas da Terra para sobre as cinzas espalhar o gado e a monocultura – quando não o deserto. As arminhas que o fascista fã-de-torturador fazia no palanque estavam apontadas também para a cabeça da natureza – e agora elas estão atirando na cabeça de todos nós, terráqueos humanóides insanizados por uma doença chamada capitalismo.

Ao atentar contra direitos trabalhistas, salário mínimo ou aposentadoria digna, o governo destroçava “apenas” direitos de cidadãos brasileiros. Agora, em sua ofensiva contra Gaia, ao incinerar em ritmo acelerado a maior e mais biodiversa floresta tropical do planeta, avança sobre todos os cidadãos do planeta. O caráter necro e mortífero do desvario Bolsonarista, esta psicose de massas, manifesta-se ainda mais fortemente, com florestas virando cinzas e biodiversidade aniquilada irresponsavelmente. Tudo contribuindo para a intensificação de uma necropolítica, de um desgoverno da morte, de um reinado insano dos exterminadores do futuro.

Foto de Araquém Alcântara, 2019.

O Bolsonarismo é o triunfo da pulsão de morte, é uma espécie de estupidez piromaníaca, niilista e insensata, usando a máscara antiga da defesa de valores “tradicionais”. Um projeto político que diz ser “a favor da família tradicional brasileira”, mas que aniquila as condições de vida digna de centenas de povos que compõe a teia viva da brasilidade concreta, enquanto pratica o nepotismo oportunista mais grosseiro.

Neste Agosto turbulento, em nosso país obscurecido e adoecido pelo neofascismo, chegou a cair uma noite súbita sobre São Paulo às 15h da tarde. Não era um eclipse, nem nuvem pesada de tempestade, era a fumaça da floresta morta, a cinza de milhares de árvores chegando ao invés dos salutares rios voadores. Era a apocalíptica Queda do Céu anunciando-se, como na profecia xamânica de Davi Kopenawa, o sábio Yanomami.

A QUEDA DO CÉU. O céu está escuro às três da tarde. Não é preto, não é cinza. É uma mescla estranha de cores. É escuro. Há uma floresta queimada sobre São Paulo. Vai cair sobre a cidade a cinza de milhares de árvores. Assim se dá o encontro entre o Brasil que se julga civilizado e o Brasil que queimamos para civilizar. O Brasil que matamos cai sobre o Brasil que se acha vivo, esperto, moderno. A floresta vem visitar, vem avisar. Vai cair o céu. – Tarso de Melo

Em Brasília, onde mais de 100.000 mulheres manifestaram-se recentemente na Marcha das Margaridas e na Marcha das Mulheres Indígenas, o centro do poder federal era também chaqualhado pela potência popular no território também devastado do Cerrado. Brasília, se depender de nós, jamais será o bunker da Elite do Atraso como sonham os que se pretendem donos do poder em uma era pós-democrática.

A Amazônia em chamas fez Brasília acusar o golpe que começou a vir de todos os lados da Aldeia Global. O “mundo civilizado” enfim acordando para o flagelo terrível que é o necrogoverno neofascista brasileiro, #PrayForAmazonia ascendendo a trending topic, e muita gente se radicalizando e querendo ir muito além da oração. Afinal, orar é um modo de estar passivo e inativo, o que necessita-se de fato é de ação coletiva, como a que foi proposta de imediato por ecosocialistas, anarcoprimitivistas e neohippies: QUEIME FASCISTAS, NÃO FLORESTAS!

A Amazônia fica, Bolsonaro cai. Good deal, dudes. Pois precisamos muito mais de presidentes à la Evo Morales, que ascendeu de suas raízes como indígena Aymará e sindicalista cocalero à posição suprema do executivo Boliviano prometendo e cumprindo a proteção à Pachamama, do que de facínoras irresponsáveis como Jair Messias, este “projetinho de Hitler tropical” como diz Mário Magalhães. E é melhor já ir se acostumando com o total descrédito global desta figura que o mundo todo não compreende como pôde “hipnotizar” 57 milhões de cidadãos a ponto de concederem a ele seu voto. Tendo sido obviamente, nos últimos 30 anos, apenas um ricaço oportunista de opções morais retrógradas e práticas políticas truculentas, capaz de diarréias verbais em prol da ditadura e da tortura, e que nada fez em 30 anos enquanto deputado federal senão destruir a conta-gotas. Agora lhe foi dado o poder para destruir em larga escala.

Florestas e direitos vão sendo incineradas em velocidade recorde, a ponto de alguns movimentos sociais internacionalistas como o Extinction Rebellion estarem propondo um novo imperativo categórico para nossa época: percam toda a esperança e ajam como se a casa estivesse pegando fogo! Pois está. (Como bem expressou a jovem ativista Greta Thunberg)

 

“De acordo com o Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), somente em junho deste ano, foram destruídos 920,2 km² de floresta na Amazônia, um aumento de 88% em comparação com o mesmo mês do ano passado. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) havia alertado que a devastação aumentou 88% junho e 278% julho na comparação com iguais períodos de 2018.”

O Sr. BolsoNero Motoserra, principal responsável pela catástrofe ambiental em curso, um ecocídio de vastas proporções que estarrece e preocupa a todo o planeta, colocando a Amazônia no centro do mundo, indicou para o Ministério do Meio Ambiente o Sr. Ricardo Salles.

Ninguém ainda soube explicar a contento como as instituições do país permitiram que tomasse posse como ministro de Estado o sr. Salles, uma vez que ele tinha sido condenado na justiça, em Dezembro de 2018, por improbidade administrativa e teve seus direitos políticos suspensos por três anos.

“Salles ocupava então o cargo de secretário estadual do Meio Ambiente do governo de Geraldo Alckmin (PSDB). A ação diz respeito à elaboração do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê, em 2016, área de proteção ambiental que contém 7.400 hectares. A área foi criada em 1987 e abrange 12 municípios da Grande São Paulo.” – Veja mais em UOL: https://bit.ly/2R7p0I5

A demagogia eleitoral engana-trouxas de Bolsonaro continha o promessa de que não indicaria para Ministro ninguém que tivesse sido condenado por corrupção – e eis o Brasil de 2019, com um condenado no MMA, um réu confesso de Caixa 2 (Onyx) na Casa Civil e um juiz ladrão que fraudou a eleição no super-ministério da Justiça e da Segurança Pública (Moro).

Derrotado nas eleições de 2018, em que concorreu para deputado federal pelo Novo, o Sr. Salles presidia o Movimento Endireita Brasil e sua campanha eleitoral teve vários momentos criminosos – como exemplificado pela imagem anexa. Reportagem do The Intercept Brasil, em Agosto de 2018, pede com ironia que “apreciemos um dos santinhos de Ricardo Salles”:

 

“Não sei se incitação ao crime contra adversários políticos pode ser considerada uma novidade na política. Salles escolheu o número 3006, uma referência ao calibre da bala que aparece no santinho, o que também não chega a ser uma novidade. O então candidato a deputado federal Delegado Waldir (PSDB) apresentava o número 4500, e seu slogan era “45 do calibre, 00 da algema”. O partido Novo rechaçou publicamente o candidato logo após a publicação da imagem, que claramente possui conteúdo ilegal. Se o partido desaprova e “diverge totalmente” dessa aberração, como é que aceitou que o criador dela se tornasse um dos seus principais candidatos a deputado federal?” – JOÃO FILHO. Veja mais: https://bit.ly/2nTcuf4.

O Sr. Salles nunca foi eleito para nada por ninguém. Mas como estes políticos estão cagando e andando para a democracia, isto não o impediu de ascender ao poder:

“Se o povo não lhe concedeu nenhum cargo público, Geraldo Alckmin resolveu esse problema. E não foi qualquer carguinho. Em 2013, Salles foi nomeado secretário particular do governador, uma função importante dentro do governo. Nessa época, o Movimento Endireita Brasil estava de vento em popa, e a página do grupo no Facebook já era uma referência para os reacionários brasileiros. Lá, eles faziam uma oposição radical aos governos petistas, se posicionavam radicalmente contra o casamento gay e defendiam, entre outros absurdos, a ditadura militar. O nível do Endireita Brasil é tão rasteiro que o grupo chegou a oferecer R$ 1000,00 para quem hostilizasse Ciro Gomes em um restaurante de São Paulo. Salles também chama o golpe de 64 de “movimento de 31 de março” e considera que “felizmente tivemos uma ditadura de direita no Brasil”. – THE INTERCEPT BRASIL (op cit)

Recentemente, em programa da Globo News, o Sr. Salles confrontou em debate Ricardo Galvão, ex-diretor do INPE (assista: https://www.youtube.com/watch?v=IpRUIvKbl0E), logo após o lamentável episódio em que, de modo autoritário e ditatorial, o sr. Jair Messias demitiu Galvão de seu cargo. A “falha” de Galvão, merecedora de demissão, havia sido divulgar dados verídicos e irrefutáveis sobre a escalada dos incêndios criminosos e do desmatamento ilegal na Amazônia. Como era de se esperar, Salles agiu diante de Galvão (professor titular de física da USP) como um rottweiller de seu patrão e um ardoroso defensor do facínora fascista que hoje ocupa a presidência da República.

É uma das primeiras vezes em nossa História que um idiota irresponsável age, na presidência da república, em prol da destruição insana das riquezas naturais e da biodiversidade do país que deveria governar, escalando um anti-ambientalista para o MMA, um aniquilador da educação pública para o MEC, uma pastora evangélica fundamentalista para o Ministério da Família e dos Direitos Humanos, um ex-juiz golpista para o Ministério da Justiça, um banqueiro Pinochetista com função de Privatizador Geral de Tudo no Ministério da Economia, uma dondoca agrotóxica conhecida como Musa do Veneno no Ministério da Agricultura,  dentre outros absurdos surreais. Tá tudo de ponta-cabeça nestes tempos obscuros! Eis mais sobre o Ministro Salles:

“Ex-militante do DEM, incentivador do assassinato de sem-terras e defensor dos latifundiários, o ministro do Meio Ambiente que mente no currículo e foi condenado por fraude ambiental, tenta se esquivar da responsabilidade pelo aumento exponencial das queimadas que estão destruindo a Amazônia. Saiba mais sobre o ministro que, inclusive, tentou processar a Revista Fórum e perdeu” – saiba mais: https://bit.ly/2Hn7DgA.


Uma charge famosa que circula nas redes e que voltou a viralizar mostra o planeta Terra adoecido, todo esculhambado, cheio de esparadrapos e hematomas, sendo atendido por um médico que lhe diz: “Sinto muito, a sua doença é grave: você tem humanos.” A piada é afiada e certeira, mas acreditamos que o nome da doença, de fato, não é Humanidade mas sim Capitalismo.

Bolsonaro e Salles são monstros atrozes pois só enxergam a grana: obcecados pela insânia da ambição, agem de maneira completamente contrária ao que se espera de agentes públicos que tem por missão zelar pelo bem comum. Eles só querem saber do próprio ganho e do favorecimento de fazendeiros, latifundiários, pecuaristas e outros endinheirados. Bolsonaro e Salles são exemplos nefastos de gente desqualificada, irresponsável e brutal que entra na política com um único fim: o enriquecimento próprio e de seu círculo familiar:

“Em julho deste ano, o Ministério Público de São Paulo abriu um inquérito para investigar suposto enriquecimento ilícito de Salles. De acordo com o MP, o ministro teve um enriquecimento atípico entre 2012 e 2017. Em 2012, quando foi candidato a vereador pelo PSDB, ele declarou à Justiça Eleitoral R$ 1,4 milhão em bens. Na última eleição, quando foi candidato a deputado federal pelo Novo, declarou R$ 8,8 milhões, um estranho aumento de 335%.” – REVISTA FÓRUM

(https://revistaforum.com.br/politica/quem-e-ricardo-salles-o-ministro-do-novo-que-esta-destruindo-a-amazonia/)

Enquanto cresce no mundo todo uma tsunami de revolta e indignação diante dos crimes de ecocídio cometidos com a conivência do governo de extrema-direita brasileiro, que realizou a Festa da Desregulação Ambiental para favorecer pecuaristas, garimpeiros, madeireiros, latifundários etc., a Amazônia vai tendo altas porções de seu território reduzida a cinzas. Enquanto isso boa parte dos 57 milhões de eleitores do Coiso seguem passando pano pra fascista ou mantendo-se em silêncio conivente e cúmplice diante de crimes brutais contra o Brasil, contra o Planeta e contra as futuras gerações.

A imprensa internacional, com TeleSur, The Guardian e Democracy Now! na vanguarda, já repercute pelo globo o fato de que “os incêndios são sintomáticos das políticas mais amplas que estamos vendo do governo Bolsonaro”. Ou melhor, BolsoNero, o piromaníaco, o exterminador do futuro. O que nos empurra prum rolê Mad Max – não mais nos cinemas mas na distopia do real.

Se você acha que grana é mais importante que ambiente, tente segurar a respiração enquanto conta suas cédulas. O Brasil, que se rachou e se apartou por causa da polarização política em tempos de Golpes de Estado e Guerras Híbridas, não encontrou ainda o caminho à consciência coletiva da nossa interdependência: sem a Amazônia e seus “rios voadores”, o Cerrado e o Sudeste seriam lançados à desertificação. Ao colapso de um ecosistema biofílico. O Necrogoverno nos conduz a este abismo.

Estamos com 84 mil bolsas de estudo e pesquisa cortadas, 6.000.000.000 de reais bloqueados no orçamento da rede de educação federal, uma hecatombe ecológica na Amazônia e no Pantanal, e a festa do agrotóxico atingindo o auge (o veneno está na mesa, o veneno está no corpo…). Eis alguns dos efeitos do suicídio coletivo que o Brasil pratica ao permitir o prosseguimento do desgoverno neofascista, ilegítimo e oni-nefasto, ovo parido pela serpente do golpe de Estado.

O crime de etnocídio e de genocídio já estão bem tipificados no direito internacional, e possuem várias entidades de defesa de direitos humanos que buscam defender as populações contras estas atrocidades de extermínio. Mas o crime de ECOCÍDIO ainda é pouco conhecido – agora Bolsonaro e as hordas que se sentem por ele representadas e autorizadas servem como o sangrento emblema de um novo paradigma global de ecocídio. Boa parte da mídia progressista internacional, com o The Guardian e o The Intercept à frente, já perceberam que o mundo enxerga cada vez mais Bolsonaro como “exterminador do futuro”, como um estadista-demente que atinge o auge de insânia no trato com o meio ambiente.

Alguns podem pensar que o crime de ecocídio é menos grave que etnocídio ou genocídio, mas creio que estes três conceitos estão interligados de formas muito intensas pois quem destrói um ecosistema pratica de fato um genocídio e vários etnocídios caso consiga de fato aniquilar as condições para que a condição humana prossiga existindo em tal território.

O ecocídio, que é um gravíssimo atentado contra as condições da vida florescente, talvez deveria ser tipificado não como “crime contra a humanidade”, o que seria limitante pois confinaria o escopo do conceito à influência sobre os humanos, mas sim como “crime contra a Teia da Vida” (Fritjof Capra), pois implica agir como carrasco de uma fauna e flora que transcende o humano e constitui a pluridiversa Teia da Vida. A filosofia contemporânea, com Michel Serres e Hans Jonas, argumentou que a Teia da Vida deveria ser objeto de um Contrato Natural ou de um Pacto de Responsabilidade firmado entre os humanos e todo o restante da vida-em-teia-que-integramos.

O Bolsonarismo, para além da psicopatia de sua “política de costumes” (racista, machista, heterosexista, elitista, armamentista, sectária, sádico-perversa até os ossos), funciona concretamente sobre o planeta como mais uma mega-máquina exterminadora de Gaia, aniquiladora de diversidade. Um fascismo ecocida full throttle.

A Amazônia é de fato o centro do mundo, como disse Eliane Brum, mas no centro do mundo está uma distopia em chamas e uma floresta atrozmente devastada. E a necessidade inadiável de um planeta que se una em Resistência e que salve-nos – pela ação coletiva, nunca por preces inúteis à Providência Divina – da catástrofe ecocida-genocida conexa ao desgoverno bolsonarista.

 

Carli
A Casa de Vidro – 24/8/19

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FLERTANDO COM O APOCALIPSE – Em “Sobre Lutas e Lágrimas”, Mário Magalhães biografa o interminável ano de 2018 no Brasil

SINOPSE DA EDITORA RECORD – Um livro indignado, escrito em um tempo que exige indignação. Com o rigor dos grandes repórteres e a vivacidade dos melhores ensaístas, o premiado jornalista Mário Magalhães – autor de “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo” – apresenta um retrato do Brasil de 2018, escrito a quente, no olho do torvelinho. Os protagonistas são Marielle Franco, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.

O autor articula de forma magistral acontecimentos e personagens como: a caçada irracional a macacos considerados transmissores da febre amarela, a intervenção militar no Rio de Janeiro, o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, a prisão de Lula, a paralisação dos caminhoneiros, o Dr. Bumbum, a ascensão da censura, a tragédia do feminicídio, a queda de Neymar na Copa, o delírio Ursal, o espectro do nazifascismo, o incêndio no Museu Nacional, a violência no processo das eleições, a facada em Bolsonaro, a ilusão do vira-voto, o triunfo da extrema direita, o “ninguém solta a mão de ninguém”…

E também o clã Bolsonaro e suas ligações perigosas, o ideário obscurantista do novo governo, a pregação do movimento Escola Sem Partido, a luta contra as trevas, entre outros eventos que fizeram de 2018 um ano que tão cedo não vai terminar.

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FLERTANDO COM O APOCALIPSE
por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Viddro

A vivacidade e urgência de Sobre Lutas e Lágrimas decorre não só do talento literário de seu autor. Com sua prosa ágil e repleta de ironia, Magalhães evoca figuras como García Márquez ou Lima Barreto. O carisma do livro vem sobretudo do fato de ter sido “escrito a quente, no olho do torvelhinho”, como o autor revelou a Fernando Morais em entrevista ao programa Nocaute. Boa parte dos 43 artigos reunidos saiu no The Intercept Brasil (click para ler todos os artigos de Magalhães) – órgão da imprensa que participa intensamente da História em 2019 através da Operação #Vaza Jato.

Mário faz magnífico jornalismo ao reagir à enxurrada de desnorteantes acontecimentos de 2018. Evocando Zuenir Ventura e sua obra sobre 1968, Mário Magalhães lida com 2018 como um “ano-personagem” que “está longe de sedimentar suas tramas e seus traumas”, “mas se sabe que suas consequências influenciarão decisivamente o país por tempo prolongado. Por isso, tão cedo não vai terminar.” (Prólogo)

No fim das contas sua obra não tem nada da descartabilidade dos jornais que, lidos hoje, amanhã embrulham peixes na feira. Mário Magalhães realizou uma obra destinada a se tornar referência para os historiadores do futuro que quiserem se debruçar sobre o labirinto deste ano que deixou muitas sequelas e feridas abertas. E sobretudo pois empoderou a própria Besta do Apocalipse.

Um pouco antes de ser assassinada por milicianos em um crime político ocorrido em Março de 2018 – 50 anos após a PM assassinar o secundarista Edson Luís no Calabouço -, a vereadora Marielle Franco, do PSOL 50, manifestou-se sobre o cerco golpista dos togados contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Marielle apoiava a candidatura de Guilherme Boulos para o Planalto, mas defendeu o direito de Lula concorrer à eleição com fortes palavras: “Aqueles que querem derrotar Lula e lançam mão dos atalhos togados sentem náusea da democracia. Defender a democracia é defender o direito à candidatura de Lula.” (In: MAGALHÃES, Mário. Sobre Lutas e Lágrimas, p. 22).

Os “atalhos togados” dos que “sentem náusea da democracia” foram escancarados, em 2019, pela Operação #VazaJato capitaneada por The Intercept Brasil. Já que todas as pesquisas de intenção de voto prognosticavam a 5ª vitória consecutiva do PT – Partido dos Trabalhadores nas eleições presidenciais, era necessário à Elite do Atraso recorrer a expedientes anti-democráticos para retirar das urnas o nome daquele que se consagraria o vencedor.

Lula cumprimenta a mãe de Marielle Franco em ato no Circo Voador, em Abril de 2018. Foto por Ricardo Borges / Folhapress.


Em abril de 2018, no Circo Voador lotado com mais de 5.000 pessoas, Lula participou de um comovente ato que contou com a presença da mãe de Marielle Franco, sua esposa transformada em viúva Mônica Benício e do hoje deputado federal Marcelo Freixo. Ali, acarinhou com empatia e solidariedade o luto daqueles que choravam a perda brutal de Marielle, e poucos dias antes de ser encarcerado soltou palavras destinadas à História:

– Eles não vão prender meus pensamentos, não vão prender meus sonhos. Se não me deixarem andar, vou andar pelas pernas de vocês. Se meu coração deixar de bater, ele baterá no coração de vocês. (Fonte: Folha de S.Paulo)

Com o assassinato de Marielle e o aprisionamento de Lula, dois fenômenos conectados com a ascensão da extrema-direita Bolsonarista, entrou em colapso acentuado a frágil democracia que havíamos começado a reconstruir em 1988. A historiadora francesa Maud Chirio sugeriu que “nos livros de história, vamos escrever: Nova República, 1985 – 2018”.

A ascensão de Bolsonaro ao poder supremo do Executivo federal enterra quaisquer planos de democracia com inclusão social e horizonte utópico de igualitarismo. Empodera uma figura que, para além de saudosista da ditadura e apologista da tortura, abençoa grupos milicianos e preferiu não se pronunciar sobre a execução de Marielle pois sua fala seria muito “polêmica”. Em 2008, entrevistado pela BBC, o atual ocupante da função de presidente da república disse sobre as milícias que “o governo deveria apoiá-las, já que não consegue combater os traficantes de drogas. E, talvez, no futuro, deveria legalizá-las.” (Magalhães, op cit, p. 24)

O grau de amortecimento de nossa sensibilidade e capacidade de indignação já atingiu tal alturas, dada a enxurrada cotidiana de horrores patrocinados pelo desvario Bolsonarista, que quase não nos surpreende mais que um dos executores do homicídio contra Marielle morasse no mesmo condomínio que a família Bolsonaro e que o Filho Zero Quatro namorasse a filha do assassino. Meras coincidências?

Prestes a ser eleito após ser favorecido pelo “golpe togado” chefiado por Sérgio Moro, depois recompensado com o cargo de Superministro da Justiça e da Segurança Pública, Bolsonaro escancarou de novo sua brutalidade e boçalidade ao se referir a Lula como um “cachaceiro” e ao discursar por telefone para eleitores que rosnavam diante de um telão na Avenida Paulista: “Você, Lula, vai apodrecer na cadeia!”

O Google divulgou que, em 2018, a pergunta mais frequente digitada por internautas brasileiros foi “o que é fascismo?”. Restam poucas dúvidas de que o Brasil de 2018 concede à História Global um dos melhores exemplos recentes da ascensão do fascismo através de episódios emblemáticos como a execução de Marielle, o cárcere de Lula e a vitória eleitoral fraudulenta de Bolsonaro. O fascismo, numa definição talvez simplista mas que não deixa de ser oportuna, é o triunfo do ódio e o empoderamento do sadismo.

O curioso do fascismo à brasileira é a atrofia do senso crítico de milhões de nossos cidadãos, incapazes de perceber a contradição flagrante entre a defesa de valores conectados a “Deus, Família e Tradição” e o apoio ao Bolsonarismo e seu satânico projeto todo calcado em ganância, elitismo, racismo, misoginia, homofobia e privilégios expandidos para os velhos mandões: os homens cis brancos e ricos.

No quesito “Família”, por exemplo, é bastante bizarro que os auto-proclamados “Cidadãos-de-Bem” vejam em Jair um exemplo – ele que está em seu 3º casamento, que foi acusado por ex-esposa de tê-la ameaçado de morte e que trata sua filha caçula como “fraquejada”, lamentando que tenha nascido mulher (aliás, os 4 filhos machos estão sempre no noticiário e dominaram a política institucional através do deslavado nepotismo do Papai… mas alguém já ouviu a voz ou viu a imagem da filha de Bolsonaro?). Os que votaram em Bolsonaro diziam estar defendendo a Família, mas a ascensão desta figura odienta e boçalizante, agente da barbárie e da crueldade desrecalcada, produziu uma enxurrada de catástrofes familiares:

“O ódio devastou vínculos afetivos. Estremeceu a tradição de celebração natalina familiar porque muitos se recusaram a confraternizar com quem se associara à beligerância que Bolsonaro sintetizou, apregoando que ‘as minorias se adéquam ou simplesmente desapareçam’ – a admissão do extermínio. Opositores das almas hidrófobas estabeleceram uma distinção: nem todo parente é família; família é quem cultiva amor e amizade, aceita a diferença e consagra a tolerância.” (MÁRIO MAGALHÃES, op cit, p. 32)

É por isso que, em milhões de nós que fomos pras ruas e militamos nas ruas pelo #EleNão e que hoje aderimos ao espírito solidário do “Ninguém Solta a Mão de Ninguém”, família expandida é algo que envolve a dor alheia dos que derrubam lágrimas pela injustiça: são nossa família Anielle e Mônica Benício em seu luto que compartilhamos pela perda de Marielle, são nossa família o viúvo Lula que teve que chorar a morte de Marisa, de Vavá e de seu neto, são nossa família os parentes de Evaldo dos Santos Rosa, músico de 51 anos que foi metralhado por mais de 70 tiros por soldados do Exército que o “confundiram” com um bandido…

Diante do oceano de sofrimento que o desvario neofascista no Brasil está acarretando, precisamos de famílias estendidas e alternativas, que transcendam os tradicionais “laços de sangue” tão capturáveis por discurseiras racistas e segregadoras. Um conceito de família que possa abarcar em nosso coração expandido um afeto por aqueles que são oprimidos e trucidados pela injustiça. Um país menos sórdido só se construiria caso conseguíssemos sentir, como se fosse a de um familiar, a dor do menino de 7 anos, filho de Evaldo, que estava naquele carro que o Exército metralhou. Um país mais humano só se construiria caso a dor inominável do órfão de Evaldo pudesse se tornar a nossa – e sabemos que afundamos no abismo da desumanidade galopante quando a indiferença e a apatia nos toma diante do sofrimento injusto imposto a outrem só porque este outro não é de nossa família…

“Por cinco dias, o presidente Jair Bolsonaro silenciou sobre o episódio. Então, falou: ‘O Exército não matou ninguém, não…'”

O que nos mata em vida é a indiferença perante o sofrimento injusto imposto a Marielles, Lulas, Evaldos… o que nos mata em vida é a conivência com o neofascismo odiento que aniquila nossa solidariedade enquanto hipocritamente relincha seus clichês sobre Deus e a Família, quando tudo o que o Bolsonarismo faz é destruir vínculos, promover o apartheid e lançar cada vez mais toxicidade no esgarçado tecido nas relações social neste país que, em 2018, flertou com o Apocalipse. E que agora está sendo (des)governado pelos próprios Cavaleiros do Apocalipse e seu séquito de seguidores acríticos que lhe servem como gado, sem saber que estão em um matadouro e que o Chefe da parada toda só os engorda para depois trucidá-los.

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A Casa de Vidro

 

LEIA ARTIGOS E ENTREVISTAS DE MÁRIO MAGALHÃES:

Diálogos Contemporâneos – Tema: Biografias do Brasil

Trilha de Letras – TV Brasil

Conversa Afiada com P. H. Amorim

HADDAD & MANU SÃO LULA – Consumado o Golpe Supremo, a Esperança Equilibrista Ainda Dança na Noite do Brasil

 

Dando sequência ao enredo macabro que depôs a presidenta Dilma Rousseff em 2016 (“com o Supremo, com tudo”), naquele processo de impeachment farsesco e kafkiano, a Aliança Golpista perpetrou mais uma violência contra o Estado Democrático de Direito através da exclusão da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas ninguém vai aprisionar a vontade do povo! A coligação “O Povo Feliz De Novo” lança agora Fernando Haddad (presidente), do PT – Partido dos Trabalhadores, e Manuela D’Ávila (vice-presidenta), do PCdoB – Partido Comunista do Brasil, como os legítimos herdeiros do projeto de país que venceu as 4 últimas eleições presidenciais e que agora se encaminha para o desafio do “Penta”.

Somos milhões de Lulas e seguiremos indignados diante da prisão injusta do ex-presidente. Seguimos determinados na missão de derrotar nas urnas a ameaça fascista de extrema-direita, representada pela chapa truculenta e boçal de Bolsonazi / Mourão. Seguimos também vigilantes e ativos contra aqueles “50 Tons de Temer”, como bem alcunhou Guilherme Boulos do PSOL 50, que são as candidaturas do establishment (Alckmin, Meirelles, Amoêdo etc.)

Tudo indica que teremos um cenário em que, no segundo turno da eleição, o candidato do autoritarismo armamentista, do patriarcado falocrático, do racismo desabrido, da apologia à tortura e ao genocídio, ou seja, a chapa sádica e desumana dos “profissionais da violência” que são Bolsoasno e seu milico-escudeiro, irão disputar os votos do eleitor contra um destes três candidatos: Haddad, Ciro ou Marina (estou descrente na capacidade do picolé-de-chuchu do Tucanato, com sua total falta de carisma, após a prisão de Beto Richa, tretado com Temer, ter algum vigor para chegar lá…). 

Dada a imensa capacidade de transposição de votos que está concentrada na figura de Lula, é bem provável (apesar dos riscos de todo exercício de futurologia em política) que estejamos diante de uma polarização PT vs PSL na decisão do pleito. E diante disso não é possível desviar da impressão de que se trata de uma escolha entre Civilização e Barbárie. As Luzes esclarecidas de Haddad e Manu, contra a barbárie trevosa e relinchante da extrema-direita xenófoba, racista, homofóbica, que promete fuzilamentos e chacinas assim que estiver no poder. De que lado você escolherá estar?

Nunca vão conseguir deter dentro de uma cela os ideais e as práticas que fizeram, apesar de suas limitações e seus equívocos, do Lulismo esta força transformadora que renovou os horizontes do possível e do desejável a partir de 2002. Éramos, na primeira década do séc. XXI, um país onde tantos de nós estávamos engajados na construção conjunta de mais justiça social, de educação pública ampliada, de sistema de saúde de gratuita e universalizada, de programas sociais que expressam valores como solidariedade, empatia, liberdade. Avançávamos na valorização do trabalhador, com incremento do salário mínimo, com inclusão no mercado de trabalho que chegou ao nível de pleno emprego, com mobilidade social ascensional dos mais miseráveis como nunca dantes havia sido vivenciada por aqui.

Agora, precisamos retomar o rumo de um Brasil onde possa se expressar toda a nossa pluridiversa multiplicidade humana, sem o tacanho e boçal Ódio e Segregação propagados por nossas direitas. Caminhando juntos na direção de uma sociedade menos violenta, desigual e fraturada. Haddad, não há dúvida, já provou como Ministro da Educação e como Prefeito de São Paulo que é uma pessoa altamente capacitada para o cargo, e que possui todo o brilhantismo intelectual e a coragem volitiva para ser um excelente Presidente-Professor. E é Manu no Jaburu!

Nada nos fará esquecer que as Eleições de 2018 estão maculadas com o processo golpista que se estende de 2016 até nossos dias, e continuaremos denunciando que o pleito foi ferido gravemente em sua legitimidade através da facada que enfiaram na Candidatura Lula. O conluio entre a Lava Jato transformada em instrumento de perseguição partidária, a Mídia corporativa especialista em fake news consumíveis pelas imensas massas, as altas cúpulas do Judiciário gozando de altos privilégios, as entidades patronais e escravocratas como a Fiesp, partidos tradicionalmente retrógrados como PSDB e MDB, dentre outros agentes da plutocracia que hoje nos oprime com sua tirania, conseguiram seu intento: praticaram o “impeachment preventivo” contra o candidato que lidera as pesquisas de intenção de voto com mais de 35% da preferência do eleitorado. 

A História dirá se os responsáveis por esta fraude jurídica-midiática, por esta grotesca perseguição a um líder político reconhecido internacionalmente por seus dons como gestor público (não à toa, deixou o governo, após os 8 anos na presidência, entre 2002 e 2010, com mais de 80% de aprovação), vão conseguir manter a máscara da honra e da probidade como juízes, jornalistas e políticos, ou serão inscritos na História como algozes e tiranos. Como sórdidos golpistas que atentaram contra o princípio básico de uma república democrática: a soberania está na vontade geral expressa pelos cidadãos nas urnas. Por duas vezes, em 2016 e 2018, roubaram-nos este direito elementar. 

Como expressou o jurista Pedro Serrano, vivemos em um período histórico em que os Golpes de Estado não estão mais sendo perpetrados com a força militar, mas sim através da guerra judicial (lawfare): “o que parece estar ocorrendo na América Latina é a substituição da farda pela toga.” Se o Diabo veste prada, o Golpe veste toga.

Puderam pegar um apartamento no Guarujá, de propriedade da construtora OAS, atribuído a Lula em um processo cheio de “convicções” mas sem provas, fundamentado com pés de argila na delação premiada de um empresário criminoso, defendido através da inacreditável sentença de Moro que condena devido a “atos indeterminados” e “ocultação de propriedade”, transformado numa ópera-bufa para consumo dos otários crédulos que se prestam a ser massa de manobra dos golpes de Estado das “Elites do Atraso”, como bem as apelidou o sociólogo Jessé Souza.

Assim como as “pedaladas”, o triplex foi usado como pretexto para desferir um duro golpe na soberania do voto popular, já destroçada pela deposição golpista de Dilma Rousseff.

Tratorando duas vezes o Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas, o conluio jurídico-midiático-empresarial levou ao seu termo o processo de perseguição àquele que já é um dos mais célebres presos políticos do mundo contemporâneo. 

Eles não tiveram sequer a dignidade de enfrentar Lula nas urnas. Quiseram ganhar no tapetão, na pilantragem, na falcatrua. Preso injustamente há mais de 5 meses, Lula prossegue sendo a peça-chave na determinação do futuro do país, e agora passa o bastão (sem demissão, sem resignação, ainda cheio de justa indignação!) a Haddad e Manu.

Em frente, hasta la victoria siempre! 

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LEIA TAMBÉM:

 

CARTA DE LULA AO POVO BRASILEIRO – 11 DE SETEMBRO DE 2018

Sem dúvida, nenhum presidente na história da República fez mais pela Educação do que Luiz Inácio Lula da Silva – a avaliação é do ex-Ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. SAIBA MAIS

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O GOLPE VESTE TOGA – Guerra Jurídica nas Eleições de 2018 perpetua o Golpe de Estado de 2016 e nos encaminha para futuro turbulento

Marcha em direção ao TSE de Brasília para o registro da candidatura de Lula à Presidência da República. Foto: Gustavo Bezerra. Data: 15/agosto/2018.

“Não sei se eles vão passar para a história como juízes ou como algozes.”
Luiz Inácio Lula da Silva, preso político e candidato a presidente pelo Partido dos Trabalhadores

Se o Diabo veste prada, o Golpe veste toga. Como disse Pedro Serrano: “o que parece estar ocorrendo na América Latina é a substituição da farda pela toga.”

O golpismo que derrubou Lugo no Paraguai e Dilma no Brasil, que atentou contra Chávez e Maduro na Venezuela, que segue tentando desestabilizar o governo Evo Morales na Bolívia, que celebra a chegada de neoliberais como Macrí na Argentina e Piñera no Chile, não opera mais com tanques de guerra, soldados e escopetas.

Hoje, um Golpe de Estado é dado nos tribunais. Seu maquiavélico xadrez é jurídico. Sua guerra é jogada em conluio com as mídias, com altas comemorações no topo (estreitíssimo) da pirâmide social quando se consegue substituir um governo de soberania popular por um outro que seja fantoche dos interesses da elite, ou que seja a elite tirânica ela mesma, exercendo sua supremacia sem intermediários.

“É o segundo golpe de Estado que enfrento na vida. O primeiro, o golpe militar, apoiado na truculência das armas, da repressão e da tortura, me atingiu quando era uma jovem militante. O segundo, o golpe parlamentar desfechado em 2016 por meio de uma farsa jurídica, me derruba do cargo para o qual fui eleita pelo povo” – Dilma Rousseff, presidenta do Brasil entre 2010 e 2016. In: SINGER, André. O Lulismo em Crise. Pg. 14. Companhia das Letras, 2018.

Sempre que a elite, já privilegiada ao excesso, puxa o tapete do adversário para manter-se em sua palaciana posição, não faltam os aplausos dos idiotas úteis que, na classe média, preferem a solidariedade com as elites opressoras à empatia com os oprimidos. Eis um breve retrato do Brasil…

O grande “beneficiário” do coup d’état de 2016 é a maré montante de fascismo, que ameaça colocar o Brasil na rota dos países decaídos no autoritarismo, no genocídio racista, no terrorismo de Estado. Como se fôssemos incuráveis amnésicos, que não só reduzem a cinzas o Museu Nacional do RJ, mas recusam-se a aprender com lições do passado, vítimas do que um de nossos melhores escritores e pensadores, Bernardo Kucinski, chama de “mal de Alzheimer nacional”.

São milhões teleguiados pela rede Globo, e só um punhado de leitores de K – Relato de Uma BuscaTriste povo que não aprende com a sabedoria de sua própria literatura. Que não se informa com Kucinski, mas sim com os Marinho. Um povo que não lamenta a morte da revista Caros Amigos, pois julga que sua fonte confiável de informação está semanalmente na Veja (mesmo com o colapso generalizado do grupo empresarial Abril…).

É como se não quiséssemos aprender com as lições da Ditadura inaugurada pelo golpe militar de 1964 e que nos lançou a bem mais que 21 anos de trevas políticas: estamos até hoje atolados no “entulho autoritário”, nos legados tenebrosos daquela época, e ao invés de tirar sabedoria desta História, nós… incineramos nosso passado. Nossos museus estão virando cinzas, e nossa sanidade coletiva também.

Vamos rumo ao caos da guerra civil caso a democracia termine seu processo de auto-destruição com a tomada de poder pela extrema-direita Bolsonazista. Digo tomada de poder pois não existirá, jamais, nunca, em nenhuma hipótese, um “regime Bolsonaro” que seja legítimo. Das eleições de 2018, com a exclusão via guerra jurídica da candidatura do Lula, não existe possibilidade de nascer um governo legítimo. Muito menos um que busque se basear em inaceitáveis práticas de genocídio, limpeza étnica, tortura, fuzilamentos, como prega o candidato.

https://www.facebook.com/Alysonfr/videos/1780439285404081/

O sintoma mais grave da psicopatologia coletiva que nos acomete – e que mereceria ser decifrada na companhia de Wilhelm Reich, Erich Fromm e Hannah Arendt – é o tamanho do eleitorado da chapa presidencial do PSL: Bolsonaro/Mourão.

Aquela excelente video-reportagem da Vice já escancarou o tamanho do nosso buraco. Pois nosso buraco deixou de ser a presença entre nós de um partido fascista, o nosso problema é um fascismo social, o fato de que uma parte significativa da nossa população realizou já uma espécie de conversão ao campo do fascismo. De onde, aliás, talvez nunca tenha de fato saído, dada à pregnância e disseminação, entre nós, da “personalidade autoritária”, que faz de nossas elites políticas, tão frequentemente, estes mandões escrotos e tirânicos que carregam a mão na opressão truculenta contra o povo, enquanto gozam de iguarias e privilégios defendidos com base na força militar escancarada e na imposição terrorista do Medo intimidador.

Quando um candidato é capaz de falar no Jornal Nacional que um policial militar que entrasse na favela metralhando, e que matasse 15 pessoas, deveria ser “condecorado”, e quando as intenções de voto para esta figura boçal e truculenta atingem mais de 20% dos eleitores, sentimos que o Brasil é um país que fracassou. A nossa “polarização política” já não pode ser vista com um sintoma normal de uma pujante sociedade democrática que experimenta os riscos e aventuras do pluralismo e do pluripartidarismo. A nossa polarização é bélica e violenta, e o Mito do Brasileiro Cordial vai se esboroando cada vez mais. Querem-nos brutos e brutais como os Bolsonazistas. Nós insistiremos na senda difícil da solidariedade com os injustiçados, endurecendo pero sin perder la ternura jamás, como o Che.

O que a extrema-direita faz com o debate público é puxá-lo para o nível (boçal e truculento) deles, convidando-nos a compartilhar da psicopatia deles. Pois Bolsonaro não é nada menos que um psicopata (diferente do normopata Alckmin, o picolé-de-chuchu da mediocridade burguesa, mas que em período de crise se mostra, como se fez no Pinheirinho em São José dos Campos, como burguesia-fascista também… Como Brecht ensinava: nada mais parecido com um fascista que um burguês assustado).

Bolsonaro, em sua psicopatia, em sua personalidade repleta de fobias, em seu temperamento de genocida, é a pior pessoa do mundo a quem confiar poder em excesso, dado a alta probabilidade de abuso em larga escala desse poder, e subsequente crise humanitária. Com Bolsonaro no poder, estamos falando da banalização ainda piorada dos crimes contra a humanidade que já ocorrem tanto no Brasil.

Um país “do futuro” (que nunca chega), o Brasil é tanto a pátria das róseas esperanças do judeu perseguido Stefan Zweig e a pátria onde o mesmo naufragou com os destroços de suas ilusões (suicidou-se com a esposa em Petrópolis). Um país desencaminhado, como de praxe, por suas elites, responsáveis por tantos de nossos atrasos. Vamos afundando no lodaçal que aprofunda o estado de guerra civil latente. É guerra de classe, e os ricos estão vencendo. Eles não vencem mais com tanques, vencem com PECs. Eles não impedem as eleições, mas eles nos proíbem de votar em quem eles não querem que vença. E assim vamos, caminhando e cantando…

Com Bolsonaro no poder, porém, esqueçam o papo hippie de flores contra canhões. Preparem-se para novas guerrilhas, para uma nova onda de novos Marighellas, pois aqueles que querem impor tamanha violência militarizada aos governados podem esperar uma reação também violenta por parte dos violentados.

Não haverá governo Bolsonaro sem uma clandestina efervescência de movimentos que serão obrigados à tomar a via insurrecional e revolucionária, já que a democrática foi travada pela apropriação indevida das elites golpistas, transmutadas em Estado fascista.

A catástrofe que foi o governo Temer, nascido da aliança golpista entre PMDB e PSDB, entre ruralistas e velha mídia corporativa, pôs no poder elites lambe-botas de gringos endinheirados. Elites que cagam em cima da soberania nacional e são totalmente entreguistas, dando de mão beijada nossas riquezas para as corporations: nosso petróleo da camada do pré-sal já não é nosso: é da Shell… e o Aquífero Guarani, encaminha-se para ser da Nestlé? A Amazônia um dia será um parque privado gerido pela Walt Disney Corporation?

“A atual eleição é incompreensível sem o golpe de 2016”, afirma o sociólogo Jessé Souza em Carta Capital. É significativo, por exemplo, que exatos 2 anos após a deposição final de Dilma Rousseff, o TSE recusou a legitimidade da candidatura de Lula, contrariando um imenso movimento de massas que está fervilhando nas ruas e nas redes (vide Festival Lula Livre nos Arcos da Lapa), e desrespeitando inclusive uma recomendação do Comitê de Direitos Humanos da ONU. Segundo Jessé:

“O cheiro é de coisa podre e todos o sentem. A grande dificuldade do conluio golpista comandado pela mídia venal e pela “casta jurídica” do Estado, ansiosa por mesquinhos dividendos corporativos de curto prazo, é o fato de serem lacaios de um capitalismo rentista não só improdutivo como abertamente fraudulento e destrutivo.

O País é literalmente assaltado pela pirataria rentista e o povo empobrece a olhos vistos. Este é o real pano de fundo das eleições.

Lula cresce a cada dia posto que é a memória viva de quando as coisas eram diferentes e melhores. Ainda que não tenha havido uma reconstrução coletiva consciente dos motivos inconfessáveis do golpe, essa lembrança basta como esperança para muita gente.

Preso, seu prestígio só aumenta, pois seu ordálio é concomitante e tem o condão de representar o sofrimento da imensa maioria da população. Ele é, portanto, o “profeta exemplar” do crime cometido contra todo o povo brasileiro. Isso é algo que os pigmeus intelectuais da “casta jurídica”, que comanda a estratégia golpista na dimensão conjuntural e concreta, têm enorme dificuldade de compreender.

Exceto a eficiente rapina de todos os ativos importantes do País, articulada de fora para dentro, a estratégia interna dos pigmeus jurídicos e midiáticos é burra e, por conta disso, obviamente ineficiente.

A condenação pela ONU da perseguição política a Lula só faz agravar o processo. A “casta jurídica” golpista, embora não confesse, foi atingida no coração e posta na defensiva. O “ônus da prova” foi simplesmente invertido. O Brasil tende a perder qualquer credibilidade e respeitabilidade internacional, cujo reflexo interno, ainda mais em um país “vira-lata” que idealiza as “culturas superiores”, não é pequeno.

Como a “casta jurídica” não vai ficar mais inteligente de um dia para o outro, o preço no médio prazo será altíssimo em termos de perda de respeitabilidade institucional das corporações jurídicas.”

Para incremento das tensões e incertezas, em Setembro de 2018 a temperatura, literalmente, esquentou até a ebulição. Os ânimos estão em incêndio. Bolsonaro, enquanto o Museu Nacional do RJ ardia em chamas, estava no Acre fazendo o que ele sabe fazer de melhor: cagar pela boca para entreter os idiotas desumanizados que não se envergonham de apoiar um homem sádico e boçal.

O candidato fascista prometeu “fuzilar a petralhada”, assim como dias antes tinha dito que ia tratar o MST como “grupo terrorista”. Em pleno Jornal Nacional, falou em cadeia nacional que deveriam ser “condecorados” os policiais militares que entrassem na favela para perpetrar chacinas. Em um país que desceu a tal grau de barbárie, nem nos surpreende mais que o Bozonazi possa andar solto pelo país, fazendo apologia da tortura e do genocídio, vomitando discurso de ódio, propagando misoginia e racismo, expressando a mais truculenta e acéfala “receita” para tudo: resolver no tiro.

A existência de um crápula fascista de mentalidade retardada como Bolsonaro já seria em si mesma uma lástima, mas o pior de tudo é o tamanho de seu fã-clube. Ou, pior ainda, de seu eleitorado. A mente custa a compreender que existam tantos milhões de cidadãos brasileiros que são estúpidos a esse ponto – tão estúpidos que sequer enxergam a sua própria estupidez – e que seguem celebrando uma figura tão execrável.

Enquanto isso, um ser humano da estatura histórica e da excelência ética que é Luiz Inácio Lula da Silva continua padecendo nas masmorras de Curitiba um cárcere político pré-eleitoral que nos envergonha diante do mundo.

Um cara que deixou seu cargo na presidência com mais de 80% de aprovação do povo (e não foi à toa); que liderou o governo que mais fez pela inclusão social e pelo combate à miséria em toda nossa história republicana (mesmo a oposição mais ferrenha não nega a ascensão social de mais de 30 milhões de cidadãos); que realizou a maior expansão das universidades públicas e institutos federais que alguém já realizou como chefe de Estado (escudado por Fernando Haddad como Ministro da Educação); que pôs Gilberto Gil no MinC para fazer florescer a Cultura Viva naquela que foi talvez a melhor gestão de todos os tempos no Ministério da Cultura; que atentou para as necessidades dos milhões de desvalidos com programas como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, o Luz Para Todos etc.; que “fez o sertão virar mar” com a transposição do Velho Chico; que forjou solidariedades internacionais do Brasil com o Mercosul, a África, os BRICS, e mesmo contestando a subserviência brasileira aos EUA retirou de Obama o elogio de que era “O Cara”; que fez a economia seguir pujante por muitos anos, em que o salário mínimo não parou de subir, a inflação manteve-se sobre controle, o emprego era quase pleno, e até os tubarões do capitalismo não tiveram motivo para reclamações; que como democrata impecável costurou um jogo de conciliações e governabilidades que o tornam um verdadeiro gênio do xadrez político dentre aqueles que escolhem a via institucional do reformismo ao invés da via revolucionária; bem… esse “cara” hoje está impedido pelas elites de disputar as eleições devido à fraude jurídica do triplex que o Judiciário vergonhosamente está secundando com sua criminosa cumplicidade.

Presidente do Sindicato dos Seringueiros de Xapuri.

No vídeo a seguir, antídoto necessário contra o avanço da amnésia no país que reduz seus museus a cinzas e que permite que os golpistas aniquilem investimentos em educação, saúde e ciência, Luiz Inácio Lula da Silva fala no enterro de Chico Mendes, herói e mártir da defesa do meio ambiente, brutalmente assassinado pelas elites plutocráticas que desgovernam esta nação há tanto tempo.

Diante da trajetória de vida do Lula, do seu caráter de entusiástico defensor da justiça social, do seu ethos de indignação diante daqueles que impõe uma existência indigna àqueles que pisoteiam, não há como ficar em cima do muro: Lula é a civilização que resiste a duras penas, Bostossauro e sua manada de seguidores retardados é a Barbárie que avança. De que lado vocês vão ficar?

Nós aqui jamais estaremos junto aos desumanos, mas sim entre aqueles que labutam, dia e noite, no pensamento e na ação, para que possamos juntos nos humanizar mais e mais. Esta Humanidade como valor, espezinhada pelo fascismo desumano, ainda pulsa em nossas utopias, em nossas indignações, em nossas revoltas, em nossos poemas e canções, em nossos filmes e reportagens, e eles podem até matar-nos e enterrar-nos, mas sempre ressurgiremos das cinzas para provar a eles que éramos, somos, seremos Sementes.

Eduardo Carli de Moraes – A Casa de Vidro – Setembro de 2018

REVIVENDO 1968 – O dever de memória diante de um continuum de atrocidades

REVIVENDO 1968 – A Casa de Vidro (www.acasadevidro.com)

“Impor a uma sociedade a brutalidade da ditadura, da censura e da exceção e ainda esperar que a integralidade de seus cidadãos não use de todos os meios para se rebelar é desconhecer as dinâmicas mais profundas da história dos povos. Nesse sentido, Maio de 68 no Brasil mostrou claramente como emergia uma juventude que não estava disposta a continuar a ser sufocada.” – Vladimir Safatle na Folha De São Paulo (11 de Maio de 2018)

Em 28 de Março de 1968, Edson Luís Lima Souto (1950 – 1968), estudante secundarista carioca, foi assassinado com um tiro no peito pela Ditadura. Foi “um tiro no coração do Brasil”, como tão bem expressa o título do documentário de Carlos Pronzatohttps://youtu.be/ZNRxpfUMwQw (assista na íntegra, 58 min).

Poucos dias depois do crime perpetrado pelo terrorismo de Estado, o jornal Correio da Manhã de 07 de Abril de 1968 publicava um potente texto de Hélio Pellegrino: “tombou morto um jovem estudante brasileiro, varado pela bala assassina que o matou… o tempo de sua vida, ao qual tinha direito e do qual foi miseravelmente roubado, ergue-se de súbito diante da nação como uma imensa catedral sagrada, sob cujas abóbadas milhões de vozes deflagraram sua revolta. O tempo de Edson Luís, dilacerado e destruído pela bala homicida que o cortou, tornou-se de repente tempo histórico, tempo brasileiro, tempo de cólera e consciência, tempo de gritar: BASTA! Há instantes privilegiados em que um destino pessoal se dissolve no movimento da história. Nesses instantes, a formidável alquimia da história faz refulgir, com luz imperecível, o destino no qual toca. Edson Luís, assassinado pela polícia, cujos clarões varreram de ponta a ponta a noite reacionária que o poder militar fez desabar sobre o país.”

(Citado do livro de Maria Ribeiro do Valle: “1968 – O Diálogo é a Violência – Movimento Estudantil e Ditadura Militar no Brasil”, 2ª ed., Editora UNICAMP, 2016)

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Memórias da Ditadura assim resumiu o evento histórico em que se transformou o enterro do estudante:

No Rio de Janeiro, a cidade parou no dia do enterro. Para expressar seu protesto, os cinemas da Cinelândia amanheceram anunciando três filmes: “A noite dos Generais”, “À queima roupa” e “Coração de luto”. Com faixas, cartazes e palavras de ordem, a população protestava: “Bala mata fome?”, “Os velhos no poder, os jovens no caixão”, “Mataram um estudante. E se fosse seu filho?” e “PM = Pode Matar”. Edson Luís foi enterrado ao som do hino nacional brasileiro, cantado pela multidão. Na manhã de 4 de abril, foi realizada a missa de sétimo dia de Edson Luís na Igreja da Candelária. Ao término da cerimônia religiosa, as pessoas que deixavam a igreja foram cercadas e atacadas pela cavalaria da polícia militar a golpes de sabre. Dezenas de pessoas ficaram feridas.

http://memoriasdaditadura.org.br/…/edson-luis-de…/index.html

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UBES – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas relembra um fato pouco conhecido: Edson Luís não foi a única vítima fatal daquele dia: “Na época, os estudantes estavam organizando uma passeata relâmpago para protestar contra o alto preço da comida servida no Calabouço. A Polícia Militar, que outras vezes já havia reprimido os estudantes no local, chegou ao restaurante com muita repressão. Na invasão, cinco jovens ficaram feridos e dois foram mortos pela polícia. Um foi Benedito Frazão Dutra, que morreu no hospital, o outro foi Edson, que levou um tiro covarde no peito à queima-roupa de uma arma calibre 45. O episódio marcou a resistência estudantil contra o regime militar.”

(http://ubes.org.br/2013/edson-luis-presente/)

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EBC na Rede iforma ainda: que “o cineasta Eduardo Escorel filmou o enterro do estudante Edson Luís no dia 29 de março de 1968. Com o aumento da repressão, ele entregou o rolo com as imagens para a Cinemateca do Museu de Arte Moderna, de onde o material se extraviou e ficou perdido por cerca de 40 anos. Reencontrado e restaurado em 2008, o material com 12 minutos de filmagem em estado bruto, em preto e branco e sem áudio, está na Cinemateca Brasileira e pode se tornar um documentário sobre o período.”

http://www.ebc.com.br/…/2…/03/edson-luis-cenas-de-um-funeral

http://www.ebc.com.br/…/ha-45-anos-a-morte-do-estudante-eds…

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Como revelado por Contestasom, a música “Menino”, de Milton “Bituca” Nascimento e Ronaldo Bastos, censurada pela Ditadura e que só seria lançada no album “Geraes” (1976), oferece a gema poético-musical mais pungente sobre o caso:

“Quem cala sobre teu corpo
Consente na tua morte
Talhada a ferro e fogo
Nas profundezas do corte
Que a bala riscou no peito
Quem cala morre contigo
Mais morto que estás agora
Relógio no chão da praça
Batendo, avisando a hora
Que a raiva traçou no tempo
No incêndio repetido
O brilho do teu cabelo
Quem grita vive contigo”

OUÇA:

A lembrança do enterro de Edson Luís, como recorda Marcelo Ridenti em seu livro ‘Em Busca do Povo Brasileiro’, também inspirou Milton Nascimento e Wagner Tiso na composição de “Coração de Estudante”, em 1983, para a trilha sonora do filme Jango, de Silvio Tendler (RIDENTI, p. 56). Já o compositor Sérgio Ricardo também dedicou ao Caso Edson Luís uma de suas canções, “Calabouço”: https://youtu.be/Lbi08Ls7c00.

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Em reflexão publicada em Folha de São Paulo aos 50 anos do emblemático mês de Maio de 1968, o filósofo Vladimir Safatle falou sobre o contexto brasileiro:

“É sintomático o silêncio dominante atual a respeito de Maio de 68 no Brasil. Em circunstâncias normais, poderíamos esperar uma reflexão articulada a respeito deste momento importante da história nacional, suas aspirações e impasses. No entanto, algo funciona atualmente sob a sombra da lógica do esquecimento, como se fosse questão de melhor não lembrar o que pode sempre retornar.

Lembremos como a ditadura militar brasileira havia se imposto como uma experiência “transitória”. Logo após o golpe, ainda se falava em eleições presidenciais em 1965. Foi aos poucos que a “intervenção militar” mostrou sua verdadeira face, a saber, aquela de um regime que nunca iria passar por completo, que mesmo depois de terminado saberia como continuar.

O sentimento social de sufocamento crescia com a promulgação de uma Constituição autoritária, com a consciência da impossibilidade da via eleitoral, como os casuísmos que apareciam diante dos resultados eleitorais desfavoráveis à ditadura.

Nesse contexto, as revoltas estudantis aparecem como o primeiro momento efetivo de resistência à ditadura. Elas colocavam em questão os modos de oposição reinantes, já que o Brasil desenvolvera uma ditadura com uma capacidade de amortização de tensões maior do que aquelas que conheceriam seus vizinhos.

Estamos a falar de uma ditadura que criou um partido de oposição para chamar de seu, não por acaso o conhecido MDB. Uma ditadura que aplicou não o princípio do assassinato em massa, mas do assassinato seletivo que tinha a força de paralisar todo o conjunto da vida social com um esforço menor.

Nesse horizonte, constituíram-se os primeiros grupos efetivos de luta armada no Brasil. Ou seja, a história de Maio de 68 no Brasil é indissociável dessa opção pela luta armada que levaria boa parte dos estudantes à clandestinidade.

A violência contra eles seria ainda mais brutal do que aquela que ocorreria em outros países latino-americanos. Pois até hoje seus corpos continuam desaparecidos, seus nomes, apagados da memória nacional, suas ações, recusadas.

Mas seria importante lembrar como o contexto legitimava tal escolha. O Brasil se situava em meio a uma ditadura claramente tipificada enquanto tal.

Um princípio fundamental a ser aceito em qualquer democracia que queira fazer jus a tal nome, mesmo uma democracia liberal, é: toda ação contra um Estado ilegal é uma ação legal. Mesmo segundo princípios liberais, a luta armada contra a tirania é um direito. Note-se como vários líderes da luta armada, como Carlos Marighella, eram até então atores políticos bastante integrados ao que se chamaria de jogo democrático. Marighella opta por organizar a luta armada apenas após a implantação da ditadura militar, abandonando assim a diretriz hegemônica do PCB de então. Ou seja, sua escolha é motivada por um fechamento do horizonte político nacional, ela responde a tal fechamento.

Impor a uma sociedade a brutalidade da ditadura, da censura e da exceção e ainda esperar que a integralidade de seus cidadãos não use de todos os meios para se rebelar é desconhecer as dinâmicas mais profundas da história dos povos. Nesse sentido, Maio de 68 no Brasil mostrou claramente como emergia uma juventude que não estava disposta a continuar a ser sufocada. Ela foi fundamental para que o Brasil conservasse uma dinâmica de transformações possíveis e de tensões. Ela deixou filhos e netos, de sangue e de espírito, que nunca estarão dispostos a esquecer o que eles fizeram e o que representaram.

Há um dever de memória a ser feito, ainda mais nos momentos sombrios da história nacional.” (SAFATLE, 2018)

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50 anos depois de 1968, em Março de 2018, a vereadora Marielle Franco (1978 – 2018), do PSOL 50, foi barbaramente assassinada no mesmo Rio de Janeiro onde tombou o sangue de Edson Luis cinco décadas antes. Como emblema de um continuum de atrocidades, a morte de Marielle entra para a história: dias antes, havia sido nomeada como relatora de uma investigação sobre a Intervenção Militar na segurança pública do Rio, ordenada pelo governo de Michel Temer. Se esta voz foi tão brutalmente silenciada, decerto é pois ela fazia ressoar pelo espaço social as salutares mensagens e denúncias de uma empoderada existência, ativa na defesa dos direitos humanos, que denunciava “o momento pós-golpe pelo olhar de uma feminista, negra e favelada”, como expressa no título de seu artigo, publicado em livro pela Editora Zouk e que começa com a seguinte reflexão:

“O impeachment sofrido recentemente pela primeira presidente mulher brasileira foi uma ação autoritária, ainda que tenha se utilizado de todo arcabouço legal como justificativa. De um lado a presidenta, mulher, vista por parcela significativa da população como de esquerda. De outro lado um homem, branco, visto por parcela expressiva como de direita e socialmente orgânico às classes dominantes. A conjuntura brasileira, determinada pelo cenário do golpe, marca-se, para além da correlação de forças políticas, favorável às classes dominantes e seus segmentos mais conservadores. Principalmente por alterações sociais significativas na esfera do poder do Estado e no imaginário. Trata-se de um período histórico no qual se ampliam várias desigualdades, principalmente as determinadas pelas retiradas de direitos e as que são produto da ampliação da discriminação e da criminalização de jovens pobres e das mulheres, sobretudo as negras e pobres. Este é um momento que asfixia o processo de democratização, aberto no fim da ditadura militar, e abre um novo cenário de crise, colocando desafios profundos para as esquerdas.” (Marielle Franco)

Leia o texto na íntegra: http://www.editorazouk.com.br/Capitulo-MarielleFranco.pdf

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