“O Muro”, documentário de Lula Buarque Hollanda, revela um Brasil com fratura exposta

O MURO, documentário de Lula Buarque de Hollanda (2018, 1h 27min), produzido pelo Canal Curta, foca sua atenção sobre o “Muro do Impeachment”, erguido em Brasília durante o processo de deposição da presidenta Dilma Rousseff em 2016. O filme considera este muro como emblema de uma pátria com fratura exposta, em estado de acirramento da guerra de classes, em que o mito fundador da “cordialidade” brasileira jaz por terra.


Em entrevista à Revista Select, o cineasta disse: “Ver Brasília, a capital utópica, aquele lugar específico, imaginado para agregar, com um muro que dividia famílias, era a imagem-limite de nossa impossibilidade de conversar. E não existe democracia sem diálogo” [1].

Lula Buarque de Hollanda.


Contando com a colaboração de grandes intelectuais – como a psicanalista Maria Rita Kehl, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, a economista Laura Barbosa, o advogado Ronaldo Lemos, o historiador James Green, dentre outros – o filme parte do exemplo brasileiro para compreender um fenômeno global.

Por isso, estabelece analogias com outros Muros, tanto de nosso passado (como o de Berlim) quanto de nosso presente (como aquele que segrega Israel e Palestina, como aquele que se estende pela fronteira entre EUA e México, como aqueles que se multiplicam pelo mundo para conter refugiados e imigrantes ilegais…).

Em um artigo instigante chamado “A Era dos Muros”, Giselle Beiguelman escreve sobre aquela bizarrice segregatória que pintou no imenso gramado da Esplanada dos Ministérios, em frente ao Congresso Nacional, na época em que foi votado o impeachment de Dilma (re-eleita em 2014 com mais de 54 milhões de votos):

Brasília – Manifestantes pró e contra o impeachment ocupam a Esplanada dos Ministérios durante o processo de votação na Câmara dos Deputados (Juca Varella/Agência Brasil)

“A barreira, erguida por presidiários, tinha a finalidade de separar os manifestantes, de esquerda e de direita, contra e a favor do impeachment, dividindo a Esplanada dos Ministérios ao meio. A partilha estava longe de marcar um momento de equilíbrio democrático. Ao contrário, assinalava uma fissura na vida política do País, que tinha sua metáfora na imagem do Eixo Monumental fraturado. O espaço projetado para o encontro era tristemente atualizado como o da total desagregação do consenso político.” [2]

Estive lá naquele dia histórico – 17 de Abril de 2016 – em que a maioria dos deputados votou “sim” ao prosseguimento do processo de impedimento da presidenta, ainda que as tais “pedaladas fiscais” e os tais “decretos de crédito suplementar” não tenham sido convincentemente comprovados como crimes de responsabilidade pelos quais a suprema mandatária merecia perder seu cargo. Ao contrário, ouvimos uma enxurrada de votos em prol da família, da Bíblia, de Deus, dos bons costumes, dos cidadãos de bem, sendo espetacularmente mobilizados ao microfone por hordas de deputados investigados por crimes de colarinho branco.

Não pude me abster de tomar posição em um dos lados da barricada, e estive lá entre os que gritavam “não vai ter golpe” e que vibravam a cada “não” ao impeachment que vinha das bancadas de partidos como PT, PSOL e PC do B. Sim, eu estava lá engrossando o caldo do Lado Vermelho da Força, e tratando como inimigos e proto-fascistas os “amarelinhos” lambe-botas de Moro que estavam do outro lado do Muro. Lembro-me de que foi um dia que começou na maior empolgação, com a belíssima e massiva mobilização cívica que tomou as ruas de Brasília, mas que terminou na maior tristeza, com a sensação de termos sido derrotados por uma corja de bandidos engravatados que estavam conseguindo estuprar a jovem e frágil democracia brasileira através de um mal-disfarçado golpe de estado. 

Naquele fatídico ano de 2016, em que viajei 3 vezes para a capital federal com uma câmera na mão e mil idéias e indignações fervilhando no coração e na mente, eu estava animado por uma noção de tête-à-tête com a história que exigia a presença crucial da figura do documentarista. Como testemunha ativa desta História presente, produzi então quatro curtas-metragens que constituem uma espécie de etnografia a quente das ruas brasilienses em tempos de golpe: O Céu e o Condor, A Babilônia Vai Cair, Levantem-se! e Ponte Para o Abismo.




Por ter me mobilizado para documentar estes tempos intensos e instáveis, tenho muito interesse por conhecer e estudar a obra de outros documentaristas que estavam fazendo o mesmo que eu – decerto com mais fomento, experiência e capacidade técnica do que eu tinha então a meu dispor. Tanto que já esmiucei O Processo de Maria Augusta Ramos em outro artigo.

Já o filme de Lula Buarque de Hollanda, que agora me ocupa, pareceu-me um filme instigante, provocativo, complexificador, mas não oferece nenhum consolo fácil, nenhuma solução para nossos antagonismos sociais cada vez mais irreconciliáveis.

Em uma crítica do filme chamada “Crônica da Polarização”, Carlos Alberto Mattos encarou um tema difícil: julgar se o documentário seria “imparcial” e se teria errado em somente nomear nos créditos as “pessoas importantes” que contribuíram com o filme, deixando no anonimato muitas das vozes que ouvimos durante a película:

“Ajustando o foco no muro, o filme de Lula Buarque de Holanda assume um certo caráter conceitual, em que as paixões de um lado e de outro se equivaleriam. Seria, portanto, um filme imparcial – essa “virtude” que tantos cobram de documentários políticos como “O Processo”.

Assim, pessoas favoráveis e contrárias ao afastamento da presidenta aparecem posando para a câmera, caladas e “fantasiadas” com seus adereços, em meio a manifestações. Enquanto isso, vozes desencarnadas em off declamam seus slogans e fazem a apologia de suas respectivas posições. Alguns comentários ultrapassam a superfície do óbvio ou do preconceito e soam mais analíticos ou supostamente ponderados, evidenciando tratar-se de gente culta e estudiosa do assunto. Estes serão apresentados e nomeados nos créditos finais, ao passo que os populares ficarão sem identificação. Uma divisão de classes culturais se coloca aí, separando os “de nome” dos anônimos.

O efeito é também de despersonalizar a discussão, fazendo com que tudo o que é dito permaneça numa nuvem indefinida de opiniões. Dessa maneira, O MURO adota um distanciamento cauteloso em relação ao clima reinante, como se almejasse uma mirada científica, neutra, desapaixonada. Mas eis que, em dado momento, como se não resistisse ao apelo da editorialização, Lula insere uma sequência de imóveis e propriedades postos à venda na época do golpe, como a querer confirmar os argumentos de quem acusava o governo Dilma de “afundar o país”. Além de estar completamente deslocado da lógica narrativa do filme, esse trecho tampouco se coaduna com o debate em pauta, uma vez que o impeachment não dependia da crise econômica, mas de supostas irregularidades fiscais.

Depois de oscilar entre os dois lados do muro, o filme se põe a tratar dos que ficam em cima do dito cujo. As figuras do “isentão” e do “apartidário” entram na roda, aqui também na base de “uma opinião para cada lado”, como se o roteiro fosse construído numa balança. Daí a impressão de um filme interessado em parecer, também ele, “isentão”.

O terço final de O MURO se converte numa espécie de ensaio sobre os dualismos da política a nível global. Entram em cena as barreiras montadas na campanha americana que elegeu Trump, o anti-exemplo histórico do Muro de Berlim e os dilemas que cercam o muro entre palestinos e israelenses na Cisjordânia. É quando surgem as melhores reflexões sobre as ambíguas funções dos muros, no Brasil como no mundo. Uma das vozes desencarnadas comenta o que ninguém pode negar: o muro de Brasília simplesmente concretizava o que sempre houve no país, adormecido, reprimido ou dissimulado no mito da conciliação e da cordialidade brasileiras. Um mito definitivamente soterrado sob muitos muros.” [3]

“O Muro” merece ser reconhecido como uma obra muito relevante do cinema de não-ficção no país, com sua proposta ensaística e intento complexificador – pois “todo reducionismo é paupérrimo”, como opina no filme Luiz Eduardo Soares.

O filme sabe erguer o muro ao status de emblema de uma bi-polarização ideológica que é nefasta. O Brasil é muito mais complicado e multicor do que a representação simplória e simplista que gostaria de nos reduzir, de um lado, a coxinhas com camiseta da CBF (precursores dos Bozominions); de outro, petralhas que gritam contra o golpe (precursores dos “defensores do presidiário de Curitiba” do movimento Lula Livre).

Comentando sobre o processo de “fanatização”, não muito afastado de torcidas organizadas de futebol, o filme aborda a crise política de 2016 concedendo esta carga simbólica ao muro divisório, estrutura física monumental que impede os cidadãos em discórdia de sair na porrada.

Alguns podem argumentar que era um dispositivo de segurança necessário para adiar a eclosão da guerra civil. Outros podem afirmar que o muro foi um cala-a-boca na democracia, que pressupõe o diálogo amplo e irrestrito como solução das conflituosidades sociais.

Fazendo a crítica das práticas de segregação / apartheid, o filme aponta para um horizonte utópico: investir na construção de um mundo onde caibam todas as pessoas, conviventes na diversidade. Um tema já tratado, ainda que em outra clave, por Lula Buarque de Hollanda em um de seus filmes anteriores mais importantes: “Pierre Verger: Mensageiro Entre Dois Mundos” (1998). [4]


Nada indica que estejamos de fato caminhando neste sentido com a eleição de Bolsonaro, que é a Lógica do Muro piorada até as raias da insanidade, apimentada com populismo fascista, que vem para impor a segregação militarizada em um país desgovernado por um plutocracia.

Longe de ser a panacéia, a eleição de Bolsonaro é a piora da peste. E, neste sentido, “O Muro” tem a vantagem de ser uma obra de cinema que soa profética e que tem muito a ensinar inclusive ao futuro.

Em amanhãs aos quais já estamos condenados, não temos mais como evitar sermos governados por uma extrema-direita subserviente aos EUA, desejosa de ser capacho de Trump e do Império Yankee, em aliança com o sionismo israelita apesar dos crimes contra a humanidade perpetrados pelo Estado Israelense (sob Netanyahu e anteriormente Ariel Sharon).

status quo tende a proteger os antigos e erguer os novos Muros da Segregação que mantêm permanentemente separados, de um lado, a Elite do Atraso, e do outro um povo com seus direitos massacrados, seus empregos precarizados e suas existências radicalmente vulnerabilizadas. De um lado, uma plutocracia em seus blindados; do outro, a massa dos matáveis (mas que se recusam, em resistência, a serem mortos). O futuro será cheio de muros – e cheio também daqueles que os derrubam em prol de um mundo mais diverso e multipolar.

Por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro –www.acasadevidro.com

Filme assistido em 09 de Janeiro de 2019, baixado a partir do fórum da Making Off. Faça o download do filme completo em torrent: https://bit.ly/2C81txo.


REFERÊNCIAS

[1] – Revista Select >>> https://www.select.art.br/lula-buarque-de-hollanda-lanca-o-muro/

[2] – BEIGUELMAN, Giselle. >>>https://www.select.art.br/era-dos-muros/.

[3] – MATTOS, C. A. >>> https://carmattos.com/2018/06/11/cronica-da-polarizacao/

[4] – Biografia e filmografia de Lula Buarque de Hollanda em Wikipedia >>> https://pt.wikipedia.org/wiki/Lula_Buarque

 

 

O FASCISMO EM MARÉ ALTA E O SALUTAR ANTÍDOTO DA RESISTÊNCIA ORGANIZADA – Explorações de um cenário político conturbado

Um dia após o atentado a tiros sofrido pela caravana do ex-presidente Lula no Paraná, sintoma de que caminhamos a passos largos para a barbárie, um grande ato cívico suprapartidário reuniu milhares de pessoas em Curitiba nesta Quarta (28/03/2018).

“Nossas diferenças não vão nos impedir de sentar à mesa para enfrentar o fascismo no Brasil”, declarou Guilherme Boulos, candidato à presidência pelo PSOL 50, que esteve unido também à candidata do PCdoB – Partido Comunista do Brasil, Manuela D’Ávila, neste ato público focado no repúdio à escalada da truculência de extrema-direita no país e também na defesa do direito de Lula – que está disparado no 1º lugar nas intenções de voto do eleitorado brasileiro – de concorrer às eleições de Outubro. 

Contra a pulverização das forças de esquerda, os três principais candidatos à la gauche unem forças de maneira solidária para contestar a ascensão dos brucutus que “argumentam” com tiros, militarismo, criminalização do oponente político, apologia do homicídio, justificações espúrias de execuções políticas, além de relinchantes ofensas em caixas de comentários.

Enquanto Lula, Boulos e Manu sentavam à mesa para forjar unidade, o candidato Bolsonazista fazia apologia ao assassinato em seu comício, em que brincou de dar tiros num boneco inflável com a cara de Lula, numa atitude digna de uma criança com retardamento mental e que acaba de descobrir um video-game de carnificina que a deixa fissurada em matar. E o candidato do Tucanato, Geraldo Alckmin, tomou atitude de “Bolsonaro Gourmet” (para emprestar uma expressão de Verlaine Freitas) e, ao invés de repudiar o atentado contra Lula, disse que ele “colheu o que plantou”.

Já o ocupante ilegal da cadeira de Presidente andou dizendo asneiras que mereceriam entrar para o Febeapá de Stanislaw Ponte Preta. O Vampirão Neoliberalista anda relinchando frases que, de tão mentirosas e canalhas, lembram as atitudes daqueles nazistas que dizem que não houve nenhum Holocausto perpetrado pelo III Reich: segundo o usurpador Michel Temer, “o povo se regozijou” com a “centralização absoluta do poder” iniciada em 1º de Abril de 1964, e além disso é “interessante” a tese de que não houve nenhum golpe militar em 1964.

O “regozijo” do povo brasileiro com 21 anos de chumbo grosso, autoritarismo, censura, tortura, desaparecimentos, exílios e inúmeras tiranias só deve existir na mente lunática e delirante deste velho caduco. Quem se regozijou foi a mesma ínfima elite escravocrata e cruel que hoje esmaga nossos ossos, faz retroceder nossos direitos sociais mais básicos e taca combustível farto na fascistização acelerada de um Brasil que decai cada vez mais na barbárie.

A ruptura constitucional de 2016, com a deposição fraudulenta da presidenta eleita, veio desaguar nesse clima de guerra civil e de eleições que serão convulsionadas pela violência e pela fraude (criminalização via lawfare do candidato predileto pelo povo em um cenário onde, Lula fora do páreo, ficamos lançados ao fascismo Bolsonazista ou ao Tucanato Alckmista). E o sr. Temer pode ter certeza, do alto de seu 2% de popularidade, que nós, os 98%, não estamos nos regozijando nem um pouco com seu desgoverno, seu desmonte dos serviços públicos, sua intervenção militar sanguinolenta e suas declarações relinchantes que mentem sobre a nossa História e passam pano nos crimes dos ditadores e seus cúmplices.

Vale lembrar que a infeliz declaração de Temer ocorre exatamente no marco histórico de 50 anos desde que agentes da Ditadura Civil-Militar, instaurada no Brasil pelo golpe de 1º de Abril de 1964, assassinavam brutalmente o estudante secundarista Edson Luis durante uma manifestação estudantil no restaurante do Calabouço (RJ). O cadáver, resgatado pelos manifestantes, foi velado por uma multidão na Cinelândia e serviu como estopim para grandes manifestações cívicas de repúdio ao regime de exceção que explicitaria seu autoritarismo no fim daquele ano, com a promulgação do AI-5 (que duraria entre 1968 e 1978). Relembre aqueles dias sangrentos de Março de 1968 – que infelizmente guardam muitas semelhanças com os dias sangrentos de Março de 2018 – através de canções emblemáticas de Milton “Bituca” Nascimento (“Menino”) e Sérgio Ricardo (“Calabouço”) – ouça no post de A Casa de Vidro em https://wp.me/pNVMz-4p3.

Com uma direita que sai do armário em toda a sua barbárie e crueldade, é preciso que todos nós que temos o mínimo respeito pela nossa combalida e estuprada Democracia Representativa levantemos a voz e unamos as mãos dizendo: “Eleição Sem Lula É (Mais Um) Golpe!” Que o lema Gramsciano – pessimismo da inteligência, otimismo da vontade – possa nos guiar no labirinto da atualidade, em que não sabemos se há luz ou tiroteio no fim do túnel (para lembrar o verso imortal da Legião Urbana em “Mais do Mesmo”).

O tempo dirá se a voz de Lula irá ser calada pela violência homicida – como ocorreu com figuras históricas similares, de Martin Luther King a Gandhi, de Amílcar Cabral a Patrice Lumumba – ou se o guerreiro sobreviverá para fazer valer o lema que estampa seu novo livro, publicado pela editora Boitempo, no calor da hora, neste março de 2018: A Verdade Vencerá (será?).

Em tempos onde o conceito de Pós-Verdade ganha cada vez mais terreno, com a disseminação desenfreada de fake news (tendo no MBL o seu principal epicentro na Internet brasileira) e o surgimento da série de TV que traveste-se de ficção mas é pura obra-de-facção (caso de O Mecanismo, de José Padilha, mentirosa falsificação da Saga Lava Jato, veiculada pela Netflix, repleta de calúnias contra Lula e Dilma, com o diretor de Tropa de Elite agindo como um trollador), não dá pra botar tanta fé assim num triunfo da verdade, da justiça e da paz. Vamos rumo à convulsão social exacerbada e a um cenário onde nada está garantido, muito menos a realização de eleições legítimas, que restabelecessem um mínimo de democracia no cenário pós-golpeachment…

A imprensa corporativa também tem as mãos sujas de sangue na escalada fascista que vivenciamos, como muito bem argumentado em artigo de Sylvia Debossan Moretzsohn em ObjETHOS:

 

O filósofo Vladimir Pinheiro Safatle, em entrevista à Carta Capital, sublinhou o perigo de nossa barbárie entrar na fase da guerra civil: “Os últimos acontecimentos demonstram claramente que entramos em uma fase cada vez mais explícita de guerra civil. Não falo apenas dos tiros em direção aos ônibus do ex-presidente Lula. O assassinato da Marielle Franco até agora não mereceu nenhum tipo de resposta da parte das autoridades. Não há nenhuma informação, mesmo depois da enorme comoção causada pela morte. Espanta ainda que Geraldo Alckmin, governador do maior estado do País, e outros ocupantes de mandatos naturalizem o atentado contra a caravana do Lula. Praticamente Alckmin disse que o ex-presidente fez por merecer, ignorando completamente a diferença entre a violência simbólica da política e a violência real do extermínio.

(…) Toda vez que aconteceu um retorno autoritário, a esquerda sempre foi a última a abandonar a esperança no Estado Democrático de Direito. Ficava esperando por algo que não existia mais, enquanto os reacionários organizavam a saída autoritária. É evidente que o fantasma paira no ar. No ano passado, o general Hamilton Mourão falou explicitamente em um projeto de golpe militar e não foi desmentido pelos superiores. Cria-se uma situação de tensão cada vez maior. A eleição, sabemos, será uma farsa, digna da República Velha, na qual se tiram os candidatos que não se quer que ganhe. O pacto de democracia mínima no Brasil não existe mais. Não por acaso, Michel Temer acaba de falar que não houve golpe em 1964, mas um movimento consagrado pela população. A declaração, inclusive, é falsa do ponto-de-vista histórico. Pesquisas de opinião da época mostravam que João Goulart seria o mais votado nas eleições presidenciais. É mais uma falácia, na tentativa de transformar em escolha popular uma decisão das elites. Essa declaração laudatória do Temer não é nada estranha.” (SAFATLE)

Mas o auge mesmo da barbárie, da crueldade e da estupidez relinchante saiu da boca “evangélica” do deputado Marco Feliciano, que resolveu comentar a execução da vereadora Marielle Franco com um dos comentários mais asquerosos que a crônica política recente registra: “O cérebro do esquerdista é do tamanho de uma ervilha. Há pouco tempo fiquei sabendo que deram um tiro num esquerdista no Rio de Janeiro e levou uma semana pra morrer porque a bala não achava o cérebro.” A postura sectária e fanática aí se manifesta em toda a sua estupidez, em uma atitude que faz troça de uma tragédia e ainda ofende a memória da vítima de maneira que enche de asco qualquer ser humano que conservou o mínimo de capacidade de reflexão e empatia.

Ao lutar contra aqueles seres humanos que nos parecem monstruosos, temos que ter o cuidado de não nos tornarmos monstros nós mesmos. Quem age de modo desumano conosco não nos deve arrastar para o lodaçal da prática de novas desumanidades. Se é verdade que o fascismo deve ser combatido, que não seja com as mesmas táticas torpes, nem os mesmos meios vis: discordo, e reivindico direito à dissidência, de todos aqueles que dizem que com fascista não se dialoga, que um fascista não é educável, que com fascista a única terapia é meter bala – o uso de tais discursos e a apologia de tais táticas só nos aproxima do fascismo que pensávamos combater e nos lança ao lodaçal de uma guerra civil onde o sangue não tem hora pra parar de correr.

Nosso combate não pode ser bala contra bala, truculência contra truculência, sob o risco de nos tornarmos tão brucutus quanto nossos adversários – o que de fato seria a concretização da descida à barbárie total. Temos que ser a sabedoria contra a estupidez, a esperteza contra a tacanhez, a ternura empática contra o sectarismo, a união na diversidade contra os propugnadores de segregação e discriminação. Hoje como outrora, vale o lema da Rosa Rubra, Socialismo ou Barbárie!, e a palavra-de-ordem da Flora Tristán, A União Trabalhadora!, o que significa que teremos que ser aguerridos e resolutos, fraternos e coligados, mas lutando contra as monstruosidades (humanas, demasiado humanas…) sem disseminar ódio, injustiça, intolerância, fanatismo, nem tantos dos outros males que denunciamos no campo adversário. Lutemos contra os monstros humanos sem nos iludir que possamos ser anjos, mas não regredindo ao status de bestas-feras.

Por Eduardo Carli De Moraes
Ao fim de Março de 2018
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A DOUTRINA DO CHOQUE TEMERÁRIA: Reflexões sobre o Brasil pós-Golpe no Le Monde Diplomatique Brasil

Estampando em sua capa dois símbolos da sinistra situação em que hoje chafurdamos, o Le Monde Diplomatique Brasil chega às bancas fornecendo excelentes análises sobre os descaminhos do país. Na ilustração da capa, o pato amarelo da Fiesp, ícone maior da classe empresarial-patronal, anti-democrática e elitista, que entre nós é adepta de golpes de Estado desde tempos imemoriais, é a vela no bolo do Sr. Michel Temer, o traíra-usurpador que foi alçado à presidência pelo golpe parlamentar capitaneado por Ali Babá e seus 40 Ladrões – digo, Eduardo Cunha e a Bancada BBB.

Vitor Teixeira

Um ano após o início do processo de impeachment na Câmara dos Deputados, o crápula do Cunha já está no lugar onde merecia estar desde anos atrás: detrás das grades, como gangster de comprovados malefícios prestados à república por sua sistemática utilização de cargos públicos para seu enriquecimento privado ilegal – suas pançudas contas na Suíça que o digam. Mas como no filme da História não há rewind, não é possível voltar no tempo para impedir a cadeia causal catastrófica que ganhou tanto ímpeto naquele grotesco espetáculo de 17 de Abril de 2016. The damage is done.

Naquela ocasião, na Câmara dos Deputados presidida pelo bandidão hoje encarcerado, assistimos estarrecidos aos nossos congressistas agindo como uma gangue de vândalos que depreda sem pudor a democracia, o voto popular e a presidenta da república legitimamente eleita. Assistimos aos fascistas saindo do armário e aplaudindo Jair Bolsonaro enquanto ele cagava pela boca, como é seu costume: ele elogiou a tortura na Ditadura Militar e fez apologia aos métodos de Ulstra contra Dilma Rousseff, enquanto a Globo transmitia tudo ao vivo, para delírio do Coxinato e dos patológicos idólatras de patos amarelos, todos empanturrados com o filé mignon fornecido pelo Skaf (quem engolia a farsa ainda não sabia que a Carne era Fraca…).

Com um Senado similarmente acanalhado e um STF que lavou as mãos como Pôncio Pilatos, o Golpe Sem Tanques passou. E a esquerda tratorada teve que engolir uma derrota histórica monumental, em que temos que admitir que nossa potência não foi suficiente para que construíssemos, no real concreto, através de greves gerais, boicotes, sabotagens, ocupações, insurreições populares e desobediência civil organizada, a consumação do alardeado mote anti-fascista “no pasarán!” (não passarão!) 

Os golpistas não só passaram acelerando sobre nossos corpos, ignorando regiamente até mesmo as mais de 1.000 ocupações da Primavera Estudantil de 2016, como já trataram de congelar os gastos públicos por 20 anos com a PEC 241/55, aprovada em Dezembro de 2016 após muita brutalidade policial e imensas nuvens de gás lacrimogêneo contra nós que manifestávamos nossa discórdia em Brasília.

Agora segue a doutrina do choque Temerária, escancarando os dentes de seu neoliberalismo elitista e inclemente, que vem aí com as reformas trabalhistas e previdenciária, além de prosseguir em sua sanha entreguista, abrindo às pernas a todos os abutres do mercado financeiro e a todos os parasitas que lucram na mamata como credores da dívida pública. Taxar grandes fortunas, avançar a reforma agrária, investir em saúde e educação, trabalhar em prol da melhoria de nosso imenso déficit habitacional ou realizar uma ampla reforma política que impeça o sequestro dos partidos pela corrupção empresarial conexa aos financiamentos privados de campanha, nada disso interessa aos que estão hoje – ilegitimamente – no poder.

Na sequência, A Casa de Vidro compartilha dois artigos do Le Monde que esclarecem bem o nosso atual dilema coletivo nestes tempos sombrios. Em uma época em que o “desprezo pelo povo” (a começar pelo desrespeito ao sufrágio universal) e o autoritarismo elitista voltam a trucidar com nossos labores e esperanças de construção de comunas mais justas, é preciso seguir resistindo à maré de retrocessos que ameaça nos afogar. Ainda nadamos e respiramos, rumo à greve geral.

E.C.M., 16/04

Vitor Teixeira

O BRASIL PÓS-IMPEACHMENT

A DOUTRINA DE CHOQUE TEMERÁRIA

 Está longe de ser uma mera coincidência o fato de, mais uma vez, o país encontrar-se sob um vigoroso avanço da agenda neoliberal neste momento. A terapia de choque temerária prospera precisamente por conta do atual ambiente brasileiro, resultado de um processo de impeachment extremamente polarizado e contestado, para ser eufemístico
por: Ramon Blanco

O Brasil vive um momento desassossegador. Não é necessário ser o mais atento dos observadores para perceber que o país passa por um processo caracterizado por ser muito mais do que o mero retrocesso de entendimentos e práticas progressistas, o que evidentemente já seria bastante preocupante. Mais do que isso, o que se observa é o avanço de uma série de pautas políticas, no mínimo, alarmantes. Pode-se mencionar, por exemplo: a alteração das regras para a exploração do pré-sal; a reforma da Previdência; a reforma trabalhista; a emenda à Constituição de modo a limitar os gastos estatais durante duas décadas; a desvinculação de receitas da União; ou até mesmo a privatização de empresas estatais ligadas a bens vitais, como é o caso da Cedae no Rio de Janeiro;1 para mencionar apenas algumas.

Apesar de todas essas pautas serem individualmente inquietantes, é míope compreendê-las isoladamente e de modo singularizado. Elas são partes individuais de um mesmo conjunto, vinculado a um processo internacional mais alargado. Somente assim, entendendo-as de modo agregado e contextualizando-as internacionalmente, é possível compreender, de modo mais acurado, o real processo em marcha no país. Mais do que simples medidas pontuais em esferas particularmente selecionadas, o que está em curso é nada menos do que uma profunda reestruturação do tipo de Estado estabelecido no país.

Nomeando de modo mais preciso o processo que está em desenvolvimento no Brasil, trata-se de uma temerária terapia de choque neoliberal. Dentro desta, é expectável que, por um lado, políticas como a desregulação de diferentes esferas, medidas de austeridade, privatizações, o desmantelamento de serviços públicos, para ficar em apenas algumas, sejam fortemente estimuladas e, por outro lado, políticas como programas estatais, regulações e atividades sindicais, entre outras, sejam constantemente desestimuladas. É enganoso, contudo, entender tal terapia de choque neoliberal como um processo particular ao país. Uma leitura cuidadosa do cenário internacional percebe que, desde a afirmação do neoliberalismo enquanto uma ideologia dominante no cenário internacional,2 e precisamente funcionando enquanto um contínuo instrumento de manutenção de tal domínio, tais terapias de choque são constantes e periódicas ao longo do tempo e ocorrem em diferentes partes do mundo. São visíveis em locais e contextos tão díspares quanto, por exemplo: o Chile de Augusto Pinochet na década de 1970; a América Latina dos ajustes estruturais dos anos 1980 e 1990;3 Portugal e Grécia da recente crise europeia; e até mesmo em locais menos evidentes, como nos processos de reconstrução pós-bélica em cenários como Camboja, Timor-Leste, Iraque e tantos outros.4

Apesar de completamente díspares no tempo, no espaço e nos contextos sociais, há uma particularidade bastante comum às diferentes terapias de choque neoliberal pelo globo, inclusive atualmente no Brasil. Em geral, elas têm grande dificuldade de avançar durante períodos normais de democracia. Por isso, é ingênuo pensar que tais terapias se desenrolam de modo suave. Ao contrário, o avanço desse tipo de pauta política é regularmente acompanhado de um grande grau de violência e de intensa velocidade. Isso ocorre pois tal agenda demanda um ambiente bastante particular para prosperar.

A dinâmica do processo é bastante simples, porém aterradora. Por dificilmente prosperar em um ambiente democrático normal, é necessário um choque inicial, uma suspensão da normalidade política – desastre ambiental, guerras e conflitos, ataques terroristas, golpes de Estado, entre outros –, para haver o ambiente adequado e propício ao avanço de tal agenda. É precisamente explorando a instabilidade advinda desse choque inicial – amparado no medo, na desorientação, na desarticulação política de oposicionistas, e assim por diante – que o choque neoliberal avança. Mais, avança necessariamente de modo muito rápido e com diferentes pautas ao mesmo tempo. Em caso de oposição a ele, é esperado um terceiro choque – as cargas policiais reprimindo manifestações. É Naomi Klein quem melhor apreende o desenrolar dessa dinâmica no cenário internacional como um todo ao denominá-lo como uma doutrina do choque.5

Nesse sentido, está longe de ser uma mera coincidência o fato de, mais uma vez, o país encontrar-se sob um vigoroso avanço da agenda neoliberal neste momento. A terapia de choque temerária prospera precisamente por conta do atual ambiente brasileiro, resultado de um processo de impeachment extremamente polarizado e contestado, para ser eufemístico. Portanto, o fato de a profunda reestruturação do Estado brasileiro resultar de uma pauta política que nunca passou pelo voto popular nada tem de atípico. Pelo contrário, trata-se da regra desse tipo de terapêutica doutrinária. São mais do que conhecidas as consequências e os pesados custos sociais advindos do avanço de tal agenda.6 Isso é perceptível por todo o globo. Na América Latina, por exemplo, a terapia de choque neoliberal resultou em uma década perdida. Contudo, nos tempos que correm, os fatos têm menos relevância do que as crenças. Resta saber que escombros restarão do país após o temerário choque em curso. A perspectiva, infelizmente, não é nada animadora.

*Ramon Blanco é professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, onde coordena o Núcleo de Estudos para a Paz e a Cátedra de Estudos para a Paz, e é colaborador no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Paraná.

{Le Monde Diplomatique Brasil – edição 116  – março de 2017}


1          A privatização da Companhia Estadual de Águas e Esgotos, até o momento, é uma das condições impostas pelo governo federal para liberar empréstimos ao estado do Rio de Janeiro, a fim de que este alivie sua dívida.

2          Sobre a emergência do neoliberalismo como ideologia dominante no cenário internacional, ver, por exemplo, Daniel Jones, Masters of the Universe: Hayek, Friedman and the Birth of Neoliberal Politics [Mestres do Universo: Hayek, Friedman e o nascimento da política neoliberal], Princeton University Press, Nova Jersey, 2012.

3          Ver, por exemplo, Laura Soares, Ajuste neoliberal e desajuste social na América Latina, Vozes, Petrópolis, 2001.

4          Para a visão alargada do processo de neoliberalização ocorrido em processos de reconstrução pós-bélica, ver Roland Paris, At War’s End: Building Peace after Civil Conflict [Ao fim da guerra: construindo a paz após o conflito civil], Cambridge University Press, 2004.

5          Para uma visão mais aprofundada dessa reflexão, ver Naomi Klein, The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism [A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre], Picador, Nova York, 2007, especialmente p.25-26.

6          Ver, por exemplo, Laura Soares, Os custos sociais do ajuste neoliberal na América Latina, Cortez, São Paulo, 2006.


Vitor Teixeira

EDITORIAL

AS GRANDES EMPRESAS E A CORRUPÇÃO

O foco das notícias, propositalmente, é nos servidores públicos e políticos que praticaram os ilícitos. Apenas recentemente, em razão de vários escândalos e denúncias, é que começa a surgir o papel das grandes empresas nesse processo todo.

por: Silvio Caccia Bava

Todos os dias, os jornais impressos e os noticiários de televisão apontam mais alguém como corrupto graças às delações estimuladas pela Lava Jato e outras investigações. A rigor, todos os partidos estão envolvidos e as figuras mais proeminentes entre os políticos, a começar pelos presidentes da República, do Senado e da Câmara dos Deputados, são acusadas de receber propina para influir, de maneira ilícita, em decisões que favorecem interesses empresariais.

O foco das notícias, propositalmente, é nos servidores públicos e políticos que praticaram os ilícitos. Apenas recentemente, em razão de vários escândalos e denúncias, é que começa a surgir o papel das grandes empresas nesse processo todo. Hoje, sabe-se que a corrupção é uma prática generalizada entre as grandes empresas, que não conhecem limites para maximizar seus ganhos.

A corrupção é um fenômeno internacional. Nada menos que 25% do PIB mundial estão escondidos em paraísos fiscais por empresas que dessa forma sonegam impostos. No Brasil não é diferente. A Global Finance Integrity, uma instituição internacional de controle do fluxo internacional de capitais, estimou em R$ 660 bilhões a evasão fiscal no Brasil entre 2003 e 2012, para não pagar impostos.1

Alguns escândalos recentes tiveram grande visibilidade. Em 2012 foi denunciada a manipulação da taxa Libor por vinte dos maiores bancos internacionais. A taxa Libor determina a remuneração dos empréstimos a bancos, que precifica os juros pagos pelo setor produtivo e pelos consumidores. Sua manipulação assegura elevados ganhos para esses grandes bancos. Outro exemplo recente, denunciado em 2015, é o da Volkswagen, que fraudou os resultados do controle de emissão de poluentes em motores a diesel em 11 milhões de veículos. Os casos são inúmeros, mas o importante é reconhecer que a corrupção é um expediente ilegal das grandes empresas para aumentar seus ganhos. Os limites para coibi-la são dados por leis e pelo exercício por parte do Estado da fiscalização e do controle para fazer cumprir as leis. Quanto mais democracia, maior o controle político sobre as grandes empresas e menor a corrupção.

A mudança nos últimos anos está na força crescente desses grandes grupos econômicos, muitos dos quais com faturamentos anuais maiores que o PIB de muitos países. Tendo à frente os grandes bancos, essas corporações multinacionais controlam hoje instituições multilaterais, como o FMI, o Banco Mundial, o Banco Central Europeu e, inclusive, a ONU. E passam também a controlar governos. Vários dos principais quadros de governo nos países que sofreram ajustes estruturais recentes, como Grécia, Portugal e Itália, vêm do mundo das finanças e tiveram passagem pelo Goldman Sachs, um dos mais importantes bancos internacionais de investimentos.

Se temos como paradigma o controle pela democracia da voracidade das grandes empresas, o que vemos hoje é uma inversão dos termos. As grandes empresas passaram a controlar a democracia.

No Brasil isso fica claro nas eleições de 2014. Investindo cerca de R$ 5 bilhões, dez grandes grupos econômicos elegeram 70% do Congresso Nacional. O financiamento foi direto aos candidatos, e os partidos políticos se tornaram irrelevantes. Esses grupos passaram a controlar o Legislativo. Some-se a isso o fato de que os atuais ministro da Fazenda e presidente do Banco Central são seus representantes no governo.

Assim, temos os interesses dessas grandes empresas e desses grandes bancos dos dois lados do balcão. Explica-se assim a maioria parlamentar conservadora que consegue quórum para fazer mudanças em nossa Constituição, como a PEC que congela os gastos públicos por vinte anos. Não são os parlamentares os proponentes, eles apenas cumprem ordens.

O fato é que a democracia que temos e suas instituições foram capturadas pelo poder econômico e deixaram de defender o interesse público. Resgatar a democracia e recuperar o controle político e democrático sobre a economia torna-se o grande desafio do presente.

Curiosamente, essa proposição de os Estados readquirirem o poder de controlar o grande capital não é uma proposta somente das esquerdas. A revista conservadora The Economist, algumas edições passadas, propôs em editorial denominado “True progressivism” que a situação atual só se resolve com uma legislação internacional que controle e taxe o fluxo de capitais, com o fim dos paraísos fiscais e com o fracionamento das grandes corporações transnacionais em empresas menores, capazes de serem controladas pelo poder público. Sem isso o poder das empresas continua sem limites e a corrupção continuará sendo um instrumento desses atores para influir no poder público segundo seus interesses.

Ainda que essa seja a realidade atual, os sentidos da democracia continuam em disputa e as mobilizações sociais contra a destituição de direitos são cada vez mais importantes. Democracia e direitos sociais são irmãos gêmeos. Para garantir os direitos é preciso garantir a democracia – uma democracia de novo tipo, capaz de colocar no centro das preocupações o bem-estar da população e de controlar os grandes grupos econômicos e financeiros em defesa do interesse público.

*Silvio Caccia Bava, diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil
{Le Monde Diplomatique Brasil – edição 117 – abril de 2017}


1 – Ladislau Dowbor, “El capitalismo cambió las reglas, la política cambió de lugar”, Nueva Sociedad, out. 2016

LEIA TAMBÉM:

Matérias de Capa:

* O desmonte do Estado de proteção social – O governo Michel Temer​ poderá, em pouco tempo, colocar em prática um conjunto de reformas que significará uma revisão do papel do Estado brasileiro, que, em lugar de combater desigualdades, prestar serviços públicos de qualidade e formular políticas públicas de interesse social, se voltará para garantir o direito de propriedade, assegurar o cumprimento de acordos e honrar os compromissos com os credores das dívidas interna e externa

por: Antônio Augusto de Queiroz

* Os governos e as ruas – A polarização do último ano de governo Dilma perdura. Mesmo se houvesse pauta comum, o fosso que separou famílias, amigos, colegas de trabalho em dois continentes políticos é profundo. Alguém será capaz de lançar uma ponte?

por: Angela Alonso, Hellen Guicheney e Rafael de Souza

Nas bancas!

http://diplomatique.org.br/edicao-do-mes/

Angeli

“PONTE PARA O ABISMO – Brasília, 13 de Dezembro de 2016: a 2ª Batalha da PEC 55” [Curta-metragem, 21 minutos]

“PONTE PARA O ABISMO”
Brasília, 13 de Dezembro de 2016: a 2ª Batalha da PEC 55

[Curta-metragem, 21 minutos]

Este documentário, que dá sequência ao filme “A Babilônia Vai Cair – A Batalha de Brasília em 29 de Novembro”, curta-metragem com mais de 80.000 views: http://bit.ly/2g2k0Ox, foi filmado por Eduardo Carli de Moraes e Renato Costa, em frente ao Congresso Nacional e nos arredores da Esplanada Dos Ministérios, no dia da votação em 2º turno, no Senado Federal, da PEC 55 (a #pecdofimdomundo ou #pecdamorte). Conta com depoimentos e entrevistas com Sérgio Custódio (educador popular, ativista do MSU – Movimento dos Sem Universidade), Annie Marques (estudante universitária da UFG, ativista do Levante Popular da Juventude) e do próprio Renato Costa (Mídia Ninja Goiás e também militante do Levante Popular da Juventude – SP).

Entremeadas às falas, cenas dos conflitos entre os manifestantes e as tropas de repressão, com trilha sonora de Legião Urbana, The Clash, Rage Against The Machine, Zé Keti, Paralamas do Sucesso, Jeff Buckley cantando MC5, Titãs fase ‘Cabeça Dinossauro’, além de coro de estudantes da Ocupa Tudo UFMG. A montagem e direção geral é de Eduardo Carli de Moraes em uma produção independente d’ A Casa de Vidro – Livraria e Produtora Cultural.

Aprovada em segundo turno por 53 votos a favor e 16 contrários, a PEC estabelece um teto para os gastos públicos e tem por efeito concreto 2 décadas de brutais cortes nos recursos para a saúde, a educação e a previdência social em um cenário demográfico de aumento populacional e de envelhecimento etário do povo brasileiro. Trocando em miúdos: a PEC é o genocídio planificado imposto pela plutocracia aos pobres, para o bem dos tubarões do mercado financeiro. Privilégios para banqueiros e mega-empresários servidos em uma bandeja de onde goteja um oceano de sangue dos desvalidos.

A aprovação da PEC 55 se deu apesar da opinião da maioria dos brasileiros ser contrária à medida: pesquisa do Datafolha divulgada na terça-feira em que o Senado Federal aprovou a PEC (13/12) apontou que 60% dos entrevistados são contra a proposta, 24% são a favor da medida, 4% indiferentes. 12% não souberam responder. Em protesto, mobilizações aconteceram em todo o país; em Brasília, o Senado presidido pelo reú Renan Calheiros, mancomunado em tenebrosas transações com um STF acanalhado, decidiu adiantar a votação para o período da manhã, com temor da manifestação popular marcada para as 17h. Antes do meio-dia, senadores golpistas em conluio já havia nos condenado a duas décadas de precarização dos serviços públicos e de intensificação de um modelo de capitalismo ultra-explorador e quase escravocrata. Donde a atualidade de Millôr e sua lapidar sentença: esta país tem um longo passado pela frente.

Com 3 documentários realizados sobre “as batalhas da PEC 55” na capital federal – “Levantem-se!” (https://www.youtube.com/watch?v=fxV7xCSvFiI&t=21s), “A Babilônia Vai Cair” (http://bit.ly/2g2k0Ox), “Ponte Para O Abismo” (https://www.youtube.com/watch?v=Yrv1VObgktk) – esperamos contribuir para o registro histórico das lutas sociais no país, informando a população sobre eventos e mobilizações, antagonismos e conflitos, desesperos e esperanças, distopias e utopias, que fervem hoje no caldeirão do país após a consumação do golpe de Estado que derrubou o governo Dilma.

Nosso foco será sempre o retrato da diversidade do real, da pluralidade dos ativismos contestatórios, sejam eles reformistas ou revolucionários, pacifistas ou guerrilheiros, de ação direta ou de resistência passiva, num esforço jornalístico-cinematográfico de abrir janelas, amplas e urgentes, para tudo aquilo que a mídia empresarial, no “País dos 30 Berlusconis” (para relembrar o relatório da Repórteres Sem Fronteira), têm se esforçado, de modo quase criminoso, a omitir e silenciar. Dificilmente será possível contestar, diante de imagens assim, que a PEC do Golpe só passou na base da brutalidade policial-militar destravada contra a cidadania insurgente.


As músicas gritam de dentro do doc:

“Moramos na cidade, também o presidente
E todos vão fingindo viver decentemente
Só que eu não pretendo ser tão decadente, não!
Tédio com um T bem grande pra você!”
Legião Urbana

* * * * *

“Sinto no meu corpo
A dor que angustia
A lei ao meu redor
A lei que eu não queria

Estado violência
Estado hipocrisia
A lei que não é minha
A lei que eu não queria

Meu corpo não é meu
Meu coração é teu
Atrás de portas frias
O homem está só

Homem em silêncio
Homem na prisão
Homem no escuro
O Futuro da nação…”
Titãs

* * * * *

“A polícia apresenta suas armas
Escudos transparentes, cassetetes
Capacetes reluzentes
E a determinação de manter tudo
Em seu lugar

O governo apresenta suas armas
Discurso reticente, novidade inconsistente
E a liberdade cai por terra
Aos pés de um filme de Godard

A cidade apresenta suas armas
Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos
E o espanto está nos olhos de quem vê
O grande monstro a se criar

Os negros apresentam suas armas
As costas marcadas, as mãos calejadas
E a esperteza que só tem quem tá
Cansado de apanhar…”
Paralamas

* * * * *

“KICK OUT THE JAMS, MOTHERFUCKERS!”
MC5 (versão Jeff Buckley)

* * * * *

“Repressão policial
Instrumento do capital!
Repressão policial
Terrorismo oficial!

Cão, cavalo, cassetete,
Bomba de efeito imoral,
Gás, escudo, capacete,
Instrumentos do capital!”
Garotos Podres / O Satânico Dr. Mao

* * * * *

“What are we gonna do now?
Taking off his turban, they said, is this man a Jew?
‘Cause they’re working for the clampdown
They put up a poster saying we earn more than you!
When we’re working for the clampdown
We will teach our twisted speech
To the young believers
We will train our blue-eyed men
To be young believers

The judge said five to ten-but I say double that again
I’m not working for the clampdown
No man born with a living soul
Can be working for the clampdown
Kick over the wall ‘cause government’s to fall
How can you refuse it?
Let fury have the hour, anger can be power
D’you know that you can use it?”
The Clash


FOMOS ENTERRADOS MAS SOMOS SEMENTES

“Podrán cortar todas las flores, pero no podrán detener la primavera.”
Pablo Neruda, poeta chileno, 1904 – 1973

Teve luta, à beça, mas a PEC passou como um trator, pisoteando as flores da Primavera Secundarista. Uma época das mais efervescentes para a história do movimento estudantil brasileiro, mesmo com mais de 1.000 okupas e dezenas de significativas mobilizações, não teve condições de barrar o pesadelo imposto ao país pelos golpistas no Congresso Nacional.

As batalhas de Brasília em 29 de Novembro (http://bit.ly/2g2k0Ox) e 13 de Dezembro (http://bit.ly/2hF23Kt) chutaram para escanteio as dúvidas: de fato, o regime Michel Temer e seu Sinistério – só machos, ricos, brancos e escrotos – já abandonou qualquer máscara democrática. Pede para as câmeras do P.I.G. fingirem-se de cegas, e manda as Tropas de Choque descerem porrada em estudantes, professores, servidores públicos, ativistas, dentre outros batalhadores por melhores amanhãs e que vem sendo tratados como criminosos dignos de encarceramento via Lei Antiterrorismo.

A capital federal já fede à ditadura, o ar já está empesteado pelo fedor do gás lacrimogêneo, o autoritarismo ditatorial já tirou sua cabecinha nojenta de dentro de sua couraça, mostra os dentes flamulando a PEC-55 como se fosse o zumbi ressuscitado do AI-5… O Ministro da Justiça – aquele que quer exterminar a maconha na América Latina, na mofada aposta numa genocida Guerra às Drogas – foi posto neste cargo justamente para lidar com “punho firme” com aqueles estigmatizados como baderneiros, arruaceiros e vândalos…

Vandalismo, de fato, é sucatear educação e saúde, triturar a CLT e a previdência social, avançar sobre os direitos dos brasileiros nos próximos 20 anos, tudo isto depois da consumação da fraude jurídica do golpeachment que depôs Dilma Rousseff. Vândala é a Vale; vândalo é o Seu Michel Temer; vândala a Fiesp, a Globo, a Abril; vândalos Cunha, Aécio, Serra, Renan, Mendoncinha, Jucá e toda a corja de ladrões hoje no poder.

Re-assistindo as cenas deste doc colhido em meio à eflorescência do levante juvenil de Novembro de 2016, sinto-me tocado por tanta coragem, tanta justa rebeldia, tanta ruidosa contestação, tanta solidariedade e invenção, e ofereço estas imagens como um tributo àqueles que, peço por favor, não se sintam derrotados. Revendo o filme sinto que qualquer futuro mais digno e mais justo a construirmos coletivamente passa pela nossa capacidade de multiplicar os exemplos, as práticas, as coragens, e até mesmo as fúrias (sábias fúrias!) destes jovens que tanto nos ensinaram. Recusando a apatia, o imobilismo, o conformismo, fizeram um belíssimo levante, uma miríade de ações que, ao raiar de 2017, tem muito a nos ensinar sobre a luta por emancipação, a união para a contestação, a ocupação para a reinvenção. Pois tempos sombrios virão. Tempos sombrios já estão aqui. E temos necessidade intensa de sóis. Oferto este filme como micro-contribuição à aurora que teremos que inventar sobre o cadáver deste Golpe nojento.

Que a Primavera Secundarista de 2016 tenha acontecido é uma vitória que ninguém nos tira, é uma travessia de aprendizado que não será perdida, é um tempo de plantar sementes que hão de romper em futuros frutos, apesar dos golpes e das geleiras. Eles nos enterraram, sim; só se esqueceram que éramos sementes.

Carli, 21/12/2016

ASSISTA OUTROS DE MEUS DOCS RECENTES:

A PLUTOCRACIA GOLPISTA E A BATALHA DE BRASÍLIA: A PEC 55 está sendo aprovada somente com o massacre policial da cidadania resistente

“A vida imita a arte ou a arte imita a vida?”
Siga: A Casa de Vidro || www.acasadevidro.com

A plutocracia brasileira saiu do armário, explicitando todo o horror de seu elitismo fascista neste ano sinistro de 2016: quem esteve em Brasília no último dia 29 de Novembro sabe que os nossos nobres parlamentares aprovaram a PEC 55 no Senado, em primeiro turno, votando dentro de um bunker militarizado e com manifestantes sendo massacrados pela polícia lá fora.

Foi o escancaramento do caráter autoritário e anti-popular deste projeto de país-para-poucos que, sob a batuta do ilegítimo e inelegível Michel Temer, nossas elites buscam impor-nos usando o eufemismo da “austeridade” e pregando com hipocrisia infinita que é preciso cortar os investimentos públicos em saúde, educação e previdência, mas sem mexer nadinha na bolsa-banqueiro, sem taxar grandes fortunas, sem fazer avançar nada da reforma agrária, sem tirar mamata de mega-empresários e tubarões da especulação financeira…

Fica cada vez mais difícil para qualquer cidadão lúcido, capaz de enxergar a realidade diante de seu nariz, negar que aquilo que se instaurou no Brasil após o golpeachment que depôs Dilma Rousseff é um regime plutocrático, uma ditadura das elites econômicas. Estamos sendo conduzidos ao abismo por uma “junta financeira”, como diz Vladimir Safatle, e que demonstrou sua disposição a calar a dissidência e a resistência do modo tradicional usado por nossos tiranetes latino-americanos: o recurso à força bruta.

Em 29 de Novembro, Brasília virou um cenário de guerra, uma faixa de Gaza, onde o terrorismo de Estado desfilou com suas tropas de choque, suas bombas de gás venenoso, seus sprays de calar juventude, suas cavalarias de truculência animal, indo pra cima de estudantes, professores, servidores públicos, sindicalistas, trabalhadores de várias vertentes e especializações, congregados aos milhares para protestar contra a Proposta de Estupro à Constituição.

Foi um show de horrores que a imprensa corporativa tentou esconder, impondo à grotesca violência policial o ocultamento e a subrepresentação midiática – no que foi auxiliada pela queda do avião da Chapecoense, conveniente meio para desviar as atenções do fato de que o regime que o P.I.G. ajudou a instaurar agora está violentando às claras e a céu aberto os mais vulneráveis e desvalidos dos cidadãos brasileiros. Foi chocante vivenciar na pele o quanto o Estado, sob a batuta desses golpistas, pode soltar os cães raivosos do fascismo repressor sobre 40 mil cidadãos brasileiros que não aceitam esta PEC da morte.

Ao invés de diálogo, mandaram sobre nós as bombas de gás-lacrimogêneo; depois estigmatizaram-nos como vândalos e baderneiros; queriam o quê, que apanhássemos quietinhos e resignados, que fôssemos embora pra casa de modo ordeiro, de cabeças baixas e nenhuma indignação pulsando incontenível no peito? Depredados pela violência injustificável dos usurpadores do poder de Estado, muitos manifestantes apelaram sim para os micro contra-golpes, para os molotovs, para as barricadas, para os pixos. Mas nunca se deve confundir a violência do opressor com a contra-violência do oprimido; nem confundir a violência exercida contra entes sencientes (como alunos e professores, espancados e bombardeados pelos Temerários) com aquela outra praticada contra coisas que não sentem nada (como carros e vidraças).

Para conseguir algum tipo de representação fidedigna do que aconteceu na Batalha de Brasília, temos que recorrer à mídia independente ou à mídia internacional – ambas denunciaram as violações dos direitos humanos, o acinte contra a liberdade de reunião e manifestação, que grassaram na capital federal neste dia tenebroso.

Não tenho dúvidas, aliás, de que as famigeradas “ordens de cima”, que sempre são necessárias para que as tropas possam começar com o sadismo legalizado que Arendt analisou sobre o nome de “banalidade do mal”, provieram de altas autoridades da república. Não foi à toa que Michel Temer colocou o sinistro Alexandre de Moraes no cargo de Ministro da Justiça, dando carta branca para práticas truculentíssimas.

Não foi à toa, também, que o genocídio praticado por PMs no Carandiru recebeu recentemente a impunidade completa – o regime Temer está dizendo que há vidas que não valem nada, que podem ser sacrificadas sem que os agentes do Estado responsáveis por ela paguem pelos assassinatos cometidos. Temer e seu sinistro da Justiça são figuras que acreditam, com fé fanática, no Estado policial-carcerário e no trato curto e grosso com demandas populares. E vocês aí foram ingênuos de acreditar naquela lorota do golpe de Estado que não precisou nem de tanques e de militares? Do “golpe branco”, do “soft coup”?

Que nada! O golpe é hardcore, e no dia da votação da PEC 55 no Senado isto se explicitou: a política da terra arrasada, que busca aniquilar a educação pública, destruir o SUS, privatizar ao capital estrangeiro as empresas públicas, fazer a felicidade das elites parasitárias que especulam com juros, jamais recebeu o aval das urnas. Os parlamentares sabem disso, e estão assumindo seu elitismo anti-povo sem grandes disfarces. Só puderam aprovar a PEC com a pancadaria comendo solta do lado de fora do Congresso Nacional. Cenas lastimáveis, detestáveis, típicas de uma ditadura que, não tendo argumentos, argumenta descendo o cacete em quem discorda dela.

ASSISTA A DOC: “A BABILÔNIA VAI CAIR” – A Batalha de Brasília em 29 de Novembro de 2016 [Documentário, curta-metragem, 25min, uma produção A Casa de Vidro] >>> http://wp.me/pNVMz-3rE; https://youtu.be/CR6yMOzkzEU.

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Leia também:

guardian

BRAZIL IS IN CRISIS – AND ONCE AGAIN, THE POOREST WILL BEAR THE BURDEN || The Guardian

Michel Temer is aiming to enshrine 20 years of austerity in the constitution. It amounts to a coup against the poor – and against democracy itself

“PEC 55 not only means that public spending on education, healthcare and social assistance will remain constant for years as the population grows and ages, but also that various interest groups will be fighting over the meagre money left over. Quite predictably, during this arm-wrestling match, the more powerful actors, such as the judiciary and military, will be able to secure funding at the expense of public universities and the health system.

What is more, this amendment is fundamentally antidemocratic. The scandal-ridden Temer was not elected to office, and the austere economic agenda he seeks to implement never received a mandate from the people. As it is structured, PEC 55 is an open attack on the voting rights of the poor: no matter who they elect in the next two decades, they will have to endure under an unalterable austerity policy. It’s a case of deja vu: the new regime is making the poor pay, again, for a bill they neither participated in creating, nor will benefit from. It’s an emblematic issue in one of the most unequal countries in the world, where 25% of the country’s total income goes to the top 1%.

(…) As the amendment process moves ahead, the authoritarian political agenda behind the proposed rolling-back of public spending is ever more apparent. PEC 55 has already made its way through the chamber of deputies without any opposition and was approved on Tuesday in the first round, by the senate. At least 50,000 protesters – among them students, teachers, indigenous people, landless and homeless movements, retired people and union leaders, from all around the country – congregated at the ministry-lined central esplanade of Brasília in an attempt to bar the voting. They were met with teargas, pepper spray and rubber bullets, leaving at least 40 people injured and many more detained. While the legislative process has thus far been alarmingly expedient and without much substantial deliberation, the warlike scene outside parliament last night provided a glimpse of the tremendous impact of this counter-reform on Brazil’s already weakened democracy.

With this move, Temer is fulfilling the promise he made after replacing Rousseff – namely, to implement severe cuts on social programmes and propel an extensive privatisation plan. If there was no coup against Rousseff, as some still insist, it is now hard to deny the ongoing coup against the poor, and, indeed, against democracy itself.”

The Guardian >>> https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/dec/02/brazil-20-years-austerity-michel-temer

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Jornalistas Livres >>> https://jornalistaslivres.org/2016/12/cronica-de-um-dia-tragico-em-brasilia/

UBES – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas >>> http://ubes.org.br/2016/relato-de-um-triste-dia-em-brasilia/

The Intercept Brasil >>> https://theintercept.com/2016/11/30/e-preciso-ouvir-a-voz-das-ruas/

Ladislau Dowbor em Mídia Ninja >>> https://www.facebook.com/blogacasadevidro/posts/1651073068252345

Rede Brasil Atual >>> https://www.facebook.com/blogacasadevidro/posts/1647239741969011

A Casa de Vidro >>> https://acasadevidro.com/2016/12/02/a-babilonia-vai-cair-a-batalha-de-brasilia-em-29-de-novembro-de-2016-documentario-curta-metragem-25min-uma-producao-a-casa-de-vidro/

Siga tb: Mídia NinjaLevante Popular da JuventudeJuntosUNE – União Nacional dos EstudantesMães de MaioQuebrando o TabuPSOL 50Carta MaiorBrasil de FatoPOVO SEM MEDO.

“A BABILÔNIA VAI CAIR” – A Batalha de Brasília em 29 de Novembro de 2016 [Documentário, curta-metragem, 25min, uma produção A Casa de Vidro]

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marianna-cartaxo-7Fotos: Cartaxo Fotografias

We gotta take the power back!” – RAGE AGAINST THE MACHINE

“O Brasil é um país com um longo passado pela frente.” – MILLÔR FERNANDES

Em 29 de Novembro de 2016, mais de 40 mil pessoas confluíram para a capital federal para realizar uma mega-manifestação em frente ao Congresso Nacional. Na ocasião, o Senado votava em primeiro turno a aprovação da PEC 55, que congela os investimentos públicos em saúde, educação e previdência social por 20 anos. Caravanas de todo o país chegaram a Brasília, com forte presença de estudantes secundaristas e universitários, de professores e servidores técnico-administrativos, de sindicatos e movimentos sociais, numa imensa congregação popular que exigia que sua voz fosse ouvida e sua indignação reconhecida.

Marcaram presença o Levante Popular da Juventude, o Juntos, a UNE – União Nacional dos Estudantes, a UBES – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, a POVO SEM MEDO, o MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, a RUA – Juventude Anticapitalista, a Frente Brasil Popular, o MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, além de representantes de ocupações e greves que ocorrem em escolas e universidades em todo o território nacional.

Neste documentário curta-metragem, uma produção independente de A Casa de Vidro, buscamos retratar todo o colorido e diversidade do ato que, ao ocupar o gramado em frente ao Congresso, começou a sofrer com a brutal repressão militarizada dos fardados que defendem o regime ilegítimo do usurpador Michel Temer. Dentre as pautas dos manifestantes, além dos onipresentes #ForaTemer e #OcupaTudo, estavam a demanda por uma greve geral “para barrar a precarização”; o protesto contra a permissão concedida ao imperialismo estrangeiro para a espoliação do petróleo no pré-sal brasileiro; a reivindicação de que o STF anule o processo de impeachment de Dilma Rousseff; a demanda de “poder para o povo” a fim de “criar um mundo novo”, dentre outras pautas.

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Gramado em frente ao Congresso Nacional no dia da votação da PEC 55 no Senado, primeiro turno, 29 de Novembro de 2016. Foto: Eduardo Carli.

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Passeata pela Esplanada dos Ministérios. Fotos: Eduardo Carli.

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O povo educando seus “governantes” #PedagogiaDoPixo. Fotógrafo desconhecido.

Brasília, 29-11-16. Foto: Marcelo de Francheschi.

Brasília, 29-11-16. Fotos, acima e abaixo: Marcelo de Francheschi.

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Repressão policial busca dispersar a multidão com o uso de bombas de gás venenoso, spray de pimenta, balas de borracha, cavalaria, tropa de choque e helicópteros.

Sem dúvida, a violência policial teve início bem antes da ocupação temporária da frente do Congresso Nacional: quando a passeata havia acabado de deixar a concentração, em frente à Biblioteca Nacional, e desfilava ao lado da catedral, começaram os abusos e arbitrariedades dos soldados, que começaram a prender, espancar e levar jovens para o camburão, sendo duramente contestados pela massa com as palavras-de-ordem que tanto se repetiriam neste dia: “não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar!” Quando a imensa massa concentrou-se no gramado do Congresso, alguns refrescaram-se na água, diante do cordão de isolamento policial; muitos batuques e cantos em coro animavam o ambiente numa potente festa democrática; um pequeno grupo, em tese anarquista, capotou um carro da Rede Record; alguns manifestantes tentaram ultrapassar a barreira policial e foram tratados na base da porrada e do spray de pimenta na cara.

Poucos minutos após a galera ter chegado ao Congresso, teve início a violenta repressão policial desencadeada sobre uma massa de 40 mil cidadãos desarmados, que foram tratados como exército inimigo e bombardeados com gás tóxico de (d)efeito moral. A irresponsabilidade crassa da polícia e de seus mandantes palacianos precisa ser denunciada como uma das mais graves violações dos direitos humanos acontecidas no Brasil pós-golpe, com dezenas de pessoas feridas, desmaiadas, sangrando, desaparecidas, perdidas de parentes e de amigos. Avançando com a Tropa de Choque e a cavalaria, os brucutus da força policial escancaram seus dentes fascistas ao transformar a Esplanada dos Ministérios num campo de guerra. Não satisfeitos em dispersar o povo que havia ocupado o gramado em frente ao Congresso, a repressão policial perseguiu os manifestantes através de toda a esplanada, onde surgiram várias barricadas feitas com lixo, pneus e toaletes.

Brasília fedia à ditadura. Ardiam lá também as chamas da insurreição. A barbárie fardada a serviço dos plutocratas golpistas tornou Brasília um cenário bélico. A Palestina era aqui. Agora, como sinistra continuação do horror em curso, o segundo turno da votação da PEC está marcado para o dia 13 de Dezembro, data em que foi promulgado o AI-5 em 1968. Pode até ser mera coincidência, mas é um paralelo significativo, apesar de tenebroso: a hecatombe dos direitos humanos que promove-se no país com esta Proposta da Estupro à Constituição, que congela nosso futuro por 20 anos, sucateando a educação e a saúde públicas, é a face atual do capitalismo mais selvagem, excludente e desumano; é o AI-5 de nossa geração.

hitoria

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A polícia covarde e ditatorial a serviço do Sr. Michel Temer, protegendo os senhores parlamentares da república plutocrática dos Estados Unidos do Brasil, não tem o mínimo direito de avançar com sua máquina de guerra contra os cidadãos daquilo que, até poucos meses atrás, era uma democracia representativa. Temos o direito de demandar e contestar os nossos representantes pois somos nós que os pusemos ali. Vivemos em tempos, porém, onde a crise de representação atingiu seu zênite, onde a maior parte dos parlamentares se isolam em um bunker militarizado e não dialogam com a população.

Brasília, esta cidade inventada por Juscelino no meio do Cerrado despovoado, erguida do nada para ser ao mesmo tempo um monumento modernista e um pragmático centro de poder que ficasse bem longe do povo (no Rio de Janeiro ou em Salvador isso não era possível…), sempre teve um caráter elitista de urbe inventada por e para Os Poderosos. Este todo-poderosismo de nossas autoridades se manifestou nesta ocasião em toda a sua fúria, em toda a sua covardia, com a cidade sendo defendida como uma cidadela por estas tropas de mentalidade feudal-medieval, mas que infelizmente são dotadas de equipamento bélico de alta intensidade, somado às famosas “ordens de cima” que dão licença para aterrorizar, esculachar e machucar. “Polícia, fascista, você que é terrorista!”

O Brasil vive dias sinistros de sua História. O Golpe de Estado está prestes a consumar-se: vejam quem foram os parlamentares que votaram pelo impeachment de Dilma Rousseff e os que votaram pela PEC, e verão que os dois processos são como dois atos de uma mesma peça, a tragédia do golpe, que lançará as trevas da austeridade sobre a maioria de nossa população. As mamatas para empresários e banqueiros, é claro, são sagradas; hospitais e escolas públicos são dispensáveis. Quem não pode pagar, que se dane – eis o evangelho de São Michel e seus nobres asseclas.

Se vamos conseguir barrar a PEC? Não creio. Nem se colocarmos 200 mil pessoas nas ruas de Brasília em 13 de Dezembro? Não creio. Estamos diante de um cenário onde mais de 60 senadores já estão com a cabeça feita e devidamente vendidos ao diabo (que paga bem, viu…). Os poderes da república plutocrática dos Estados Unidos do Brasil, em breve de joelhos diante do deus Trump e seus dólares irresistíveis, não querem saber de soberania nacional ou participação social, são uma elite sórdida e vende-pátria que só serve a interesses particularistas. Levantarão o dedo médio, de dentro do bunker militar chamado Senado, para as dezenas de milhares de cidadãos nas ruas, dizendo: “danem-se vocês que não querem PEC; quem manda aqui somos nós.”

Tivemos golpe e está se instaurado uma ditadura plutocrática num dos países de polícia militar mais assassina e de aprisionamento em massa mais exagerado deste planeta; e temos que reconhecer os limites do poder do povo para pôr fim a este descalabro. Não, não somos tão fortes assim. Não estamos tão unidos assim. Não temos a mídia empresarial de nosso lado. As tropas de choque, as bombas, os tiros, as truculências e grosserias de que fomos alvo neste 29 de Setembro são prova de que o inimigo está longe de ser fraco, e que é bem capaz de ser cruel.

O clima insurrecional está instalado, e quem planta golpe há de sofrer contra-ataques, inclusive em formas neo-guerrilheiras e em táticas Black Bloc; a radicalização da contestação ao status quo que se instalou após a deposição de Dilma também é inevitável, o que nos coloca diante de um futuro de violentas conflagrações, já que parte da juventude ativista já pensa em reativar guerrilhas e já celebra a memória de Marighella, Lamarca e dos mártires do Araguaia…

Corretíssimo estava o Millôr Fernandes que, sobre o mítico País do Futuro de que falava Stefan Zweig, lapidou este diamante de cáustica ironia que contêm tanta verdade: “O Brasil é um país com um longo passado pela frente.”

ASSISTA AO DOC – Filmagem e montagem: Eduardo Carli de Moraes(curta-metragem, 25 min). Na trilha sonora: “Ouro Desça Do Seu Trono”, de Paulo da Portela, interpretada por Candeia; “Quando o Morcego Doar Sangue”, de Bezerra da Silva”; “Jah Jah Revolta”, do Baiana System. Visite A Casa de Vidro: www.acasadevidro.com. Veja no Youtube: https://youtu.be/CR6yMOzkzEU. Veja no Vimeo ou Facebook.

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“LEVANTEM-SE!”
(Filmagem: Renato Costa, Edição: Eduardo Carli)

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LEVANTEM-SE!

Contra a hipocrisia grotesca de Michel Temer, ao mentir deslavadamente sobre sua disposição e capacidade de “ouvir a voz das ruas”; nos lábios de Temer, isso soa como ironia das macabras, ainda mais depois da massacrante repressão policial ao ato em Brasília, neste dia 29 de Setembro.

O Sr. Temer, fiel guardião dos privilégios dos capitalistões gangsterizados do país, como aqueles larápios simbolizados por gigantes patos amarelos de borracha, como aqueles banksters que idolatram Tio Sam e Tio Patinhas, o Temerário consorte desta corja nos diz na cara dura que “ouve a voz das ruas”? Ele, que não faz muito reduziu as mega-manifestações do #ForaTemer e das #DiretasJá como se não passassem de “40 baderneiros que destroem carros”?

Ouve a voz das ruas? Cheque seu ouvido, sr. presidento, a surdez da velhice deve ter tomado conta dos teus tímpanos! Pois não ouve as ruas senão com orelha escrota de surdo seletivo este sujeito que está mandando descer o cacete, que está mandando bronca nas bombas e armas químicas, indo pra cima de estudantes, professores, sindicalistas, ativistas sem-terra e sem-teto, juventude em levante…

Por que apelar para força bruta senão pois Vossa Senhoria não tem argumentos cabíveis e razoáveis para explicar as medidas altamente impopulares que seu governo quer nos impor? Por que arreganhar os dentes de Ditador, fazer pose de César, só para disfarçar o fato de que este projeto de país jamais teria passado nas urnas? O Sr. Michel Temer e seus asseclas – como o Ministro da Justiça – são figuras perigosas, que beiram o fascismo, que enxergam a Segurança Pública como o campo privilegiado de sua ação de governança. São asseclas do Estado policial-penitenciário, e são aqueles que tem tudo a temer de uma democracia popular libertária, pois sabem que são profundamente odiados por uma população que não aceita seus desmandos.

A “Batalha de Brasília”, ontem, mostrou quão longe podem ir as forças subservientes à plutocracia que assaltou o poder; a “banalidade do mal”, denunciada por Hannah Arendt, continua entre nós, e não faltam fardados que, ecoando a mensagem do nazista alemão Eichmann, cometem atrocidades e depois dizem: “estava só seguindo ordens”. Teríamos muito a ganhar se tentássemos convencer as pessoas que estão por trás das fardas, a reprimir o movimento estudantil e popular, que não há dignidade ou decência nenhuma em ser pau-mandado deste Temerário projeto-de-ditador, usurpador e inelegível, que hoje age como títere da junta financeira que desgoverna este país e quer congelar por 20 anos nossos mais básicos direitos sociais. [Carli / 30-11-16]

Vídeo recomendado em The Intercept Brasil:

#ForaTemer #OcupaTudo#Pecdofimdomundo

ASSISTA TB:

A Globo News entrou ao vivo quando começou a repressão policial aos manifestantes que protestavam em frente ao Congresso Nacional. Segundo a Globo eram “mais de 12 mil” pessoas (estimativa bastante subestimadora, há quem fale em 40 mil!) e as imagens mostram claramente a massa sendo bombardeada com bombas de gás tóxico. Não deu tempo de maquiar e ideologizar com o LIVE ligado, de modo que este vídeo acabou sendo – pasmem! – bom jornalismo. O P.I.G. conseguiu! Mas foi por acidente…

VEJA TB: PLAYGROUND

O Palácio do Planalto também soltou um vídeo bastante cretino em que Mendonça Filho (do DEM), aquela pessoa que atualmente ocupa o cargo de Ministro da Educação, e sem ter direito nenhum a ele pois subiu ao posto após o golpe de Estado que instaurou o Machistério da Plutocracia Brazileira, ousa fazer pose de santo, de homem moral e digno, para criticar os “vândalos” que “depredaram” o MEC: https://www.facebook.com/PalacioDoPlanalto/videos/808739599263908/

Não fala, porém, uma palavra sobre o vandalismo em alta escala praticado por ele mesmo, à testa do MEC, ao aliar-se com a hecatombe dos direitos sociais proposta por aqueles que assaltaram o poder. Esconde, oculta, não menciona, a vandalização terrorista e a barbárie bélica galopante que foram as tristes intervenções da tropa de choque, da cavalaria da PM, das bombas de guerra tóxica, no ataque a milhares de cidadãos desarmados que ocupavam o gramado do Congresso.

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THE INTERCEPT BRASIL – REDE BRASIL ATUALJ.P. CUENCA

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ACESSE: ÁLBUM FOTOGRÁFICO