CONFLUÊNCIAS – Festival de Artes Integradas, 4ª Edição: Trip, 23/6, com Chá de Gim, Distoppia, Tião Locomotiva e Veneno, Exposição fotográfica “Caminho do Cerrado”, Discotecagem cannábica

Vem aí a 4ª edição do Confluências: Festival de Artes Integradas, propiciando altas viagens sensoriais e estéticas através de shows, exposição fotográfica, discotecagem cannábica, poesias de autores goianos, livros e HQs à venda, dentre outras atrações.

O evento vai acontecer na Trip (Rua 115e, Setor Sul, Goiânia), no dia 23/06 (Sexta-feira), a partir das 20h, no mesmo dia da Marcha da Maconha – Goiânia 2017. Confira nosso cardápio cultural para a ocasião:

* Shows: Chá de Gim; Distoppia, Tião Locomotiva & Veneno, Laptop Ensemble (Eduardo Kolody & Eufrasio Prates) da BSBLOrk – Orquestra de Laptops de Brasília.

* Exposição fotográfica: O Caminho do Cerrado, de Mel Melissa Maurer, trabalho de cunho artístico e denunciativo sobre a devastação crescente do Cerrado na região da Chapada dos Veadeiros. Conheça: https://ocaminhodocerrado.blogspot.com.br/.

* Feirão de livros e HQs com preços imbatíveis da Livraria A Casa de Vidro.

* Discotecagem: Canções cannábicas, nacionais e internacionais, dos mais variados gêneros musicais, que tematizam e/ou simulam a expansão de percepção e as situações sociais propiciadas pelo consumo da cannabis sativa. Amostras / aperitivos: #1: Quique Neira & Alborosie#2: Bezerra da Silva; #3: Steppenwolf; #4: Amy Winehouse; continua em breve.

Uma produção A Casa de Vidro – Livraria e Produtora Cultural. Siga Confluências no FacebookPágina do evento.

E MAIS:
►Cervejas e drinks com diversidade e preços acessíveis
►Massas e outros rangos deliciosos com Lobato Massas Artesanais
►Jardim good vibes
►Pet Friendly
►Bazar com livros, CDs e discos de vinis selecionados
►Ambiente seguro
►Chegou de bike ganha 10% de desconto!

Local:
Trip Música e Artes – Rua 115-E (entrada) com a 115, Setor Sul.
#entranatrip #trip #tripmusicaeartes
Entrada: R$10

Arte do flyer: Annie Marques

P.S. Em 23 de Junho, há a culminação dos trabalhos do Coletivo Antiproibicionista MenteSativa, organizador da Marcha da Maconha, que promove também a Semana pela legalização – Mente Sativa – eventos de crucial relevância para o debate público e a conscientização cívica, plenamente apoiados pelo Conflu. Conflua também!


SAIBA MAIS / RELEASES


Despontando no cenário rocker de Goiânia, Tião Locomotiva & Veneno, uma dupla de blues-rock turbinado e intenso, tocará nesta Sexta (23/06) na Trip no Confluências #4 – Festival de Artes Integradas. É pra chaqualhar o esqueleto com o groove intenso dos caras! Confira o mais recente videoclipe ao vivo como aperitivo:


A Chá de Gim lançou recentemente a bela “Canção do Futuro”, novidade no repertório da banda e que integrará o segundo álbum de estúdio, o sucessor de “Comunhão” (Ouça: http://bit.ly/2rdpvQU). No Confluências #4 – Festival de Artes Integradas, vocês poderão curtir esta pérola ao vivo e a cores, além de outras maravilhas do cancioneiro da Chá como “Zé”, “Samba Verde” e “Cordeiro do Mundo”. Borá pra Trip na Sexta 23/06 pra apreciar este showzaço?

O quarteto  surgiu no cenário artístico goiano dos últimos anos como uma das mais saborosas novidades ao sintonizar MPB, samba-rock e muita lisergia com letras cheias de lirismo e contestação. A Chá despontou no radar daqueles que estão antenados ao cenário musical de Goiânia com a canção “Zé”, consagrada com o prêmio do júri e do público no Festival Juriti de Música e Poesia Encenada em 2014 [assista à performance: http://bit.ly/2gQJZMl].

Na ocasião, o júri contou com a presença de Jorge Mautner e sob o impulso da premiação a banda pôde gravar este seu vigoroso debut. Uma digna reportagem no Monkeybuzz esclarece um pouco da inserção da Chá de Gim – que sempre marca presença em festivais como Festival Vaca Amarela e Grito Rock – no cenário alternativo de “Goiânia Rock City”:

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Festival Juriti de Música e Poesia Encenada 2014, uma produção da Matuto, durante a premiação do Chá de Gim por melhor música, segundo júri e público, com “Zé” – Fotografia: Layza Vasconcelos

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MONKEYBUZZ: “A rápida ascensão do grupo Chá de Gim deve-se puramente à cena efervescente de Goiânia. Já não é novidade para ninguém que a capital é um dos maiores expoentes brasileiros de revelações nos últimos anos. A sua cena musical é autosustentável e festivais como Bananada e Vaca Amarela são a porta de entrada para que artistas de outros estados possam entender o que parece ser mágico na cidade: o Rock’n’Roll. Nos últimos anos, inúmeros atos romperam o casulo e alcançaram projeção nacional, como Boogarins, Hellbenders, Black Drawing Chalks e Carne Doce, entre outros. No entanto, se cada um cria o Rock à sua maneira, o que parecia estar em evidência na região é a tal da Psicodelia – e é nesse quesito que esta nova banda Goiânia se encaixa perfeitamente.

Formada em 2014 por Diego Wander (vocal e percussão), Alexandre Ferreira (bateria), Bruno Brogio (baixo) e Caramuru Brandão (guitarra), o grupo surpreende pela rápida ascensão(…). Os singles e Samba Verde, no entanto, mostram que existe muita unidade por trás dos sons da banda e um futuro muito interessante pela frente. A mistura traz muito da música brasileira tradicional, como o Samba e o Forró, ao lado de Rock e Psicodelia – adereços que criam maior profundidade e impacto no som criado. (…) Auxiliada por acordes aéreos processados no atraso do delay e combinados a uma percussão marcante, a música torna-se um hit certeiro.” (Txt: Gabriel Rolim)

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Recentemente, a Chá também participou do IV Muvuca Festival, na Praça das Artes, e estivemos lá registrando a vibe no começo do show – sente a brisa do “Samba Verde”:

Relembre também a participação da Chá de Gim na primeira edição do Confluências.


O Distoppia, novidade no cenário do rock alternativo autoral com letras em português, é outra das atrações do Confluências #4. A banda já se apresentou em festivais como o Grito Rock (produção Fósforo Cultural) e já realizou show no Teatro do IFG – câmpus Goiânia. Confiram abaixo duas das canções da banda goianiense, “Morador” e “Alter Ego”:

Com o objetivo em dar vida às composições do vocalista Matheus Damasceno, a banda teve seu início com o intuito de participar de um Festival local (Bouga Fest) no ano de 2013, onde a mesma foi finalista.

Após essa experiência, a banda passou a permear a cena local da cidade e no ano de 2015 lançou duas singles de estréia. Através de amigos de faculdade e da cena musical, a banda passou a contar com uma formação fixa com Matheus Damasceno (vocais e violão), Pedro Guilherme(guitarra), Muryllo Pacheco (bateria), Emerson Fagundes (contrabaixo) e Matheus Guerra – Guitarrista (guitarra).

Desde então, com uma relação de amizade entre os músicos, a sonoridade passou a ser mais solta e a banda passou a se apresentar com mais frequência na cena local, com apresentações significativas no Grito Rock Goiânia (uma produçãoFósforo Cultural) e no Teatro do Instituto Federal de Goiás (IFG) – oficial – câmpus Goiânia.

Distoppia é distinguida pelas influências individuais de seus integrantes que ao se juntarem acabaram criando um belo mosaico sonoro. A intenção da banda é criar uma paisagem auditiva de modo a promover certa transcendência com o ouvinte à medida que ela é somada a poesia de suas canções.

O ano de 2017, marca a estreia do primeiro álbum em estúdio da banda, que além de contar com faixas inéditas, também terá uma regravação da Single ‘Morador”. O álbum esse que será divulgado junto a uma turnê por terras Portuguesas com o selo da Music For All.


O Caminho do Cerrado, impressionante projeto fotográfico de Mel Melissa Maurer, estará em exposição durante o Confluências #4 – Festival de Artes Integradas. Em parceria com a artista, selecionamos 15 das fotografias mais significativas deste projeto e elas irão decorar o ambiente e instigar a reflexão no evento. No vídeo abaixo, confira o making off da primeira etapa desta empreitada artística que tematiza e denuncia a devastação crescente do Cerrado, gerada principalmente pelo agronegócio.

As fotos, protagonizadas por uma modelo que vesta apenas botas e máscara anti-gás, propiciam alertas sobre a aproximação e extensão dessas atividades do agronegócio devastatório por todo o percurso entre Brasília e a Chapada dos Veadeiros. As imagens fazem com que um novo olhar se abra sobre o caminho que o Cerrado, considerado a savana com maior biodiversidade do planeta, e a região da Chapada dos Veadeiros (Patrimônio Natural da Humanidade – UNESCO), vem enfrentando.

A trilha sonora do vídeo é a canção “Não Dá Mais”, de MC Vacy, MC Pato Roco, com participação de Rafael Nunes.

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Assista:



No Confluências #4 – Festival de Artes Integradas, teremos também Eufrasio Prates e Eduardo Kolody mostrando um pouco do trabalho da BSBLOrk – Orquestra de Laptops de BrasíliaLeia a matéria:

“Tecnologia alinhada à natureza, o Coletivo BSBLOrk utiliza inovação para criar música eletrônica experimental. Criado em 2012, na Universidade de Brasília, o grupo é formado por nove integrantes, entre ex-alunos e professores da UnB. Misto de arte, física e filosofia, a Orquestra de Laptops funciona com um software que transforma os movimentos em frente à webcam em som.

A inovação é resultado de muito estudo. Fruto do doutorado do maestro Eufrasio Prates, o software Holofractal Music é capaz de traduzir as distancias e velocidades dos movimento em frequências sonoras. Cada computador é ligado em uma hemisfera, caixa com vários alto-falantes em 360°. “A pessoa deve ouvir o seu próprio som e estar em harmonia com o do outro”, explica o estudioso. A ideia surgiu a partir de um simpósio de laptops em Louisiana (EUA), em 2012. A Orquestra foi lançada no evento Tubo de Ensaios, da Universidade de Brasília.

São sons da natureza, da vida cotidiana e de outros instrumentos que juntos entram em harmonia para criar algo totalmente novo. O suporte tecnológico utiliza os princípios da física, matemática e da música. “Para tocar um instrumento comum a pessoa precisa estudar, mas tirar som deste exige muito mais conhecimento”, comenta Eufrasio. – LEIA NA ÍNTEGRA



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[Encontro de Culturas Txt 15] Preciosos patrimônios culturais: a valorização e proteção das festas tradicionais é tema de roda de prosa no XVI E.C.T.C.V.

Encontro 2016

Foto: Santi Asef

Foto: Santi Asef, Vila de São Jorge durante o XVI E.C.T.C.V.

Preciosos patrimônios culturais: a valorização e proteção das festas tradicionais é tema de roda de prosa no XVI E.C.T.C.V.

Propor caminhos para a valorização e proteção dos patrimônios culturais, com destaque para as festas tradicionais, esteve entre os objetivos de muitos participantes do “Encontrão” 2016

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

A roda-de-prosa “Manutenção das festas tradicionais: valorização e proteção do patrimônio cultural imaterial” aconteceu na Casa de Cultura Cavaleiro Jorge na terça-feira, 26 de julho de 2016, como parte da programação do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. O “troca-troca cultural” contou com a presença de Juliano Basso (Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge e ECTCV), Eduardo Melo (Festa da Lavadeira), Paulo Dias (Instituto Cachuera!), Glaucia Rodrigues (CEU – Centro de Estudos Universais), Zé Nilo (Caçada da Rainha), Mestre Hugo Leonardo (do coco e maracatu pernambucano, que apresentou-se com o grupo Besouro de Mangangá), Bruno Goulart (antropólogo e documentarista, co-diretor de A Noite Mais Curta), Sinvaline Pinheiro (que trabalha com preservação da memória do cerrado), Gabriel Levy (Música do Mundo), Tôca (da comunidade Kalunga), dentre outros.

Durante o diálogo em roda, foram debatidas formas inovadoras de alcançar o fortalecimento e a interconexão de encontros, festivais, institutos, além de outras iniciativas similares, que tenham por valor diretriz a salvaguarda e o empoderamento de culturas tradicionais. “Temos uma diversidade humana que está entre as maiores do mundo”, afirmou Basso, destacando a importância de iniciativas como a Aldeia Multiétnica, que realizou sua décima edição em 2016.

Juliano Basso destacou também a potência de encontros como este que se realiza há 16 anos, na Chapada dos Veadeiros, como espaço propositor de políticas públicas: “A gente passa por uma época difícil, com este governo Temer, e é importante que a gente aponte caminhos. O Encontro sempre prezou por este papel de apontar caminhos para a manutenção e para o fortalecimento das culturas tradicionais e suas festas. Pois é nas festas que se fortalece toda a comunidade. Existe este Brasil, que é um Brasil muito verdadeiro, que ainda não alcançou o espaço necessário nas mídias tradicionais, na mentalidade do povo brasileiro, no sistema de educação etc”.

Foto: Bruna Brandão

Foto: Bruna Brandão

Um exemplo notável é a comunidade do sítio histórico Kalunga, que ocupa 237 mil hectares e abriga mais de 4.500 pessoas. Trata-se, segundo Basso, de “uma terra muito bonita e preservada, cheia de cachoeiras, com um alto potencial econômico sustentável, e onde as manifestações tradicionais, como a dança sussa, são cada vez mais fortes na comunidade, que está cada vez mais assumindo sua identidade. O Encontro fez um papel de ajudar e de promover isso durante esses anos todos. Também temos as festas tradicionais ligadas ao povo que foi escravizado, ao povo negro que veio da África, como a Caçada da Rainha, que remonta à primeira ocupação desta região da Chapada dos Veadeiros, no começo dos anos 1700”.

Uma iniciativa sintonizada aos ideais que animam o ECTCV é o Instituto Cachuera!, de São Paulo, representado por Paulo Dias, que explicou os objetivos e atividades do Cachuera! em sua trajetória que visa pesquisar, documentar e divulgar a cultura popular brasileira. Há 17 anos, instituto vem agindo em prol da salvaguarda e fortalecimento de expressões culturais populares de muita presença no cenário cultural do Sudeste, como o jongo, e tem entre seus objetivos a criação de um acervo digital:

“O Acervo Cachuera! é composto por aproximadamente 1.300 horas de registro audiodigital, 900 horas em vídeo de mais de 140 localidades percorridas e está acondicionado em reserva técnica localizada na sede da Associação. Seu conteúdo prioritário é focado nas manifestações das comunidades afro-descendentes do Sudeste brasileiro, particularmente de matriz bantu. O banco de dados do Acervo Cachuera!, disponível para consulta pública gratuita no local e online, é formado a partir do esforço em articular e sistematizar a catalogação dos registros realizados em diferentes suportes, desenvolvendo condições de acesso a usuários como pesquisadores, artistas e estudantes. A política de retorno do acervo tem propiciado a oportunidade de a associação realizar projetos em parceria com diversas comunidades, como é o caso do Ponto de Cultura Projeto Bem-Te-Vi, do qual a Cachuera! foi proponente.” [Site do I. Cachuera!]

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Também contribuiu para os debates desta roda-de-prosa, no XVI ECTCV, a psicóloga Gláucia C. B. Rodrigues, que há 20 anos atua no Centro de Estudos Universais (CEU), iniciativa nascida no interior da Univeridade de São Paulo (USP). “O CEU buscava juntar, dentro da universidade, a arte, a ciência e a espiritualidade, temas que muitas vezes são mantidos separados dentro da academia”, disse Gláucia. “Nós do Centro de Estudos Universais pensamos que esta união – arte, ciência, espiritualidade – é essencial para a transformação e para a saúde do planeta”.

Ela é a idealizadora e realizadora do Encontro de Músicas e Danças do Mundo, que realizou em 2016 sua décima edição, na Bahia, com o tema Dançando pela Paz. “Nós nos percebemos como cidadãos planetários, que compartilham de um mesmo espaço, que é o planeta Terra, rico em diversidade”, disse Gláucia. “Porém, neste momento em que vivemos, a cada 15 minutos uma língua desaparece da Terra – e isto é uma grande perda para o planeta. Hoje todo mundo se preocupa muito com a parte física desta perda, com a ecologia, a sustentabilidade, a preservação da natureza, mas julgamos que junto com esta preservação natural tem que estar a preservação da diversidade dos povos. Em cada língua, em cada vestimenta, em cada cultura há uma sabedoria muito grande”.

A extinção de línguas e culturas – aquilo que o antropólogo Pierre Clastres se propôs a batizar com o termo etnocídio – é uma triste recorrência histórica no Brasil (e não só por aqui). Hoje, segundo dados do IBGE, 274 línguas indígenas são faladas no Brasil. O número pode parecer elevado, mas já foi muito mais: uma imensidão de diversidade sociocultural já foi perdida, como aponta José R. Bessa Freire: “no século XVI, no território que é hoje o Brasil, eram faladas mais de 1.300 línguas, de diferentes famílias e troncos linguísticos, todas elas portadoras de narrativas orais, de conhecimentos e de memória.” (José R. Bessa Freire, A Demarcação das Línguas Indígenas no Brasil, cap. #14 do livro de Carneiro Cunha [org.], 2014, p. 365.)

É também para apontar caminhos rumo à utopia de um Brasil realmente inclusivo, ciente de sua diversidade, celebrador de suas múltiplas diferenças, fiel a suas raízes, que muitos encontros e intercâmbios estão agora em ebulição no Encontrão da Chapada dos Veadeiros. São intensas tentativas de constituir uma “rede de encontreiros”, uma união de produtores culturais, uma fraternidade digitalizada de pessoas conectadas às causas das comunidades originárias e tradicionais, tudo em prol do fortalecimento de parcerias e da solidarização de esforços que conduzam a um outro mundo possível, onde a sociobiodiversidade seja defendida, fortalecida, celebrada. Pois só assim teremos um futuro.

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Fotos: Pedro Henriques, Vila De São Jorge, XVI E.C.T.C.V.

“EDUCAÇÃO NÃO É MERCADORIA!” – Reportagem em vídeo: manifestação contra a privatização das escolas públicas em Goiás

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As ruas de Goiânia bradam: “A minha luta é todo dia: educação não é mercadoria!” Pra aqueles que “dizem que morreu, dizem que sumiu”, mostram aos berros que “aqui está presente o movimento estudantil!” Praticando a desobediência civil pacifista, como discípulos de Luther King, Gandhi ou Thoreau, os manifestantes desfilam seus batuques e bandeiras pelas ruas, a caminho do Ministério Público, onde ribombarão nos ouvidos de todos alguns lemas dignos de virarem refrões-de-canção: “Ô M P, como é que é!?! O Nosso Estado Não É Um Cabaré!”Aprendendo

O promotor do Ministério Público, Fernando Krebs, convocado pelo alarde da manifestação a dar as caras no “lobby”, dominado pelos ocupas e sua ruidosa festa democrática, reafirmou o que é fato cada vez mais conhecido: as O$s não tem “idoneidade moral” alguma para pretender assumir o comando de escolas públicas, sendo que muitos de seus “cabeças” são réus na Justiça por mau uso de verbas públicas, peculatos e outros crimes-de-engravatados.

Voltam ao trombone dos bocas alguns estribilhos e palavras de ordem herdados de movimentos políticos cidadãos de anos atrás, que tomaram conta da capital goiana, como o Fora Marconi – que explodiu nas ruas quando houve a revelação das tenebrosas transações entre o governador Marconi Perillo (PSDB) com o crime organizado de colarinho branco (nas personas famigeradas de Carlinhos Cachoeira e Demóstenes Torres). “Marconi, bicheiro, devolve o meu dinheiro!” – um hit-da-estação na música-das-ruas goianiense, agora adequa-se ao novo cenário da Privataria Tucana Em Marcha, com seu exército de engravatados, nos campos-de-batalha da educação.

O projeto do Governo Estadual, neste 4º mandato do Tucano Perillo no poder, é terceirizar 300 escolas públicas, entregando sua gestão às famigeradíssimas O$s (organizações sociais, mais conhecidas como corporações privadas ou conglomerados empresariais). É o neoliberalismo aplicado à educação que, nos últimos anos, foi radiografado e criticado na obra de pensadores como Henry Giroux ou István Mészáros.

No Brasil, Vladimir Safatle é um dos que melhor manda o recado, direto no alvo, sem rodeios, sobre a atual situação de colapso da representação política tradicional e de emergência de uma democracia mais intensa, de uma participação cidadã mais direta, em choque com velhas estruturas conservadoras e autoritárias, saudosas da ditadura militarizada aliada aos interesses capitalistas-corporativos:

No Brasil, e em especial nos Estados governados pelo tucanato (Paraná, São Paulo, Goiás), decisões educacionais são impostas, inventa-se diálogos que nunca ocorreram, joga-se gás lacrimogêneo contra estudantes, prende-se professores que protestam.

Este é um país no qual a elite, que deveria ser taxada de maneira pesada para capitalizar o Estado e permiti-lo oferecer a seus cidadãos ensino público de qualidade, governa servindo-se de uma classe política corrompida (Goiás que o diga) e procurando de todas as maneiras livrar-se de obrigações de solidariedade social.

Já vimos em São Paulo como políticas dessa natureza escondem um fato bruto simples: o Estado tem gastado menos com educação. Talvez porque tenha outras prioridades mais importantes, como a sobrevivência financeira do partido no poder.

Quando comecei a dar aulas, há quase 30 anos, meu primeiro emprego foi como professor substituto na Escola José Carlos de Almeida, em Goiânia. Era uma dessas antigas grandes escolas construídas em um espaço nobre da cidade, ao lado de uma escola privada.

Ela tinha tudo para se impor como escola modelo. No ano passado, depois de ficar um ano fechada e esquecida, a instituição foi ocupada por alunos que se cansaram de nunca serem ouvidos sobre seu próprio destino.

Talvez essa escola expresse de maneira quase pedagógica o destino e descaso da educação nacional. Não por acaso, essa história começou a mudar quando a população começou a dizer “não”. – VLADIMIR SAFATLE, Folha de São Paulo, 16/02

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Eduardo Galeano disse bem: “A Justiça é como as serpentes, só morde os descalços.” Um jovem militante estudantil, de vertente mais radical, que simpatize com o anarquismo e táticas Black Bloc, periga ser considerado pelo Estado como um “perigoso inimigo público”, a ser dedetizado com gás venenoso pelos Paus-Mandados da repressão militarizada. Porém, o “dano público” que causa um Black Bloc, ao destruir algumas vitrines de bancos bilhardários ou queimar alguns sacos de lixo tendo em vista a emergência de uma barricada em chamas, é um dano minúsculo e desprezível diante dos mega-arrombos e atrocidades-contra-o-bem-público cometidos por aqueles que a Justiça não ousa atrapalhar, pois estão não só calçados como vestem sapatos de ouro…

O plano marconista de entregar as escolas públicas ao Empresariado é, obviamente, algo com a intenção óbvia de ser uma Máquina-de-Enriquecer-Poucos. A mercantilização da educação vem umbilicalmente conectada com corrupção estrutural e lógicas neoliberais excludentes e perversas.

Este filme pretende descrever este contexto todo através de imagens da manifestação do dia 26 de Fevereiro de 2016: saindo da Praça Universitária, o ato deslizou pelas avenidas e foi até o Ministério Público. Suba o volume, dê o play e confira um pouco do que rolou! E não deixe de ler também a opinião – a seguir… – de Guilherme Boulos.


Filmagem e Edição: Eduardo Carli de Moraes / A Casa de Vidro.com.
Goiânia, 25/02/2016. Duração: 12 minutos.

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Boulos

ESTADO DE SÍTIO NA EDUCAÇÃO
por Guilherme Boulos na Folha de S.Paulo (18/02/2016)

Tudo começou com um decreto do governador no final do ano passado repassando 30% das escolas goianas para gestão das famigeradas Organizações Sociais (OS). A iniciativa prevê a terceirização de serviços escolares, a contratação privada (sem concurso) de até 70% dos professores e 100% dos funcionários, dentre outras medidas.

Trata-se evidentemente de uma privatização “branca” do ensino. O próprio Ministério Público do Estado recomendou nesta semana o adiamento do edital das OS, por estar repleto de ilegalidades, incluindo o repasse de recursos do Fundeb para a iniciativa privada. Nas palavras do promotor Fernando Krebs: “Chegamos à conclusão que o projeto referencial é inconstitucional. Vai piorar a qualidade da educação. Vai promover a terceirização, a privatização às avessas da escola pública”.

Foi este despautério que motivou a mobilização de estudantes e professores, reprimidos com violência e prisões pela PM.

Mas não é de hoje a paixão do governador Marconi Perillo por tratar a educação como caso de polícia. Desde 2014, seu governo tem implementado um inacreditável processo de militarização das escolas, que também foi alvo das manifestações.

A polícia militar já havia assumido até o ano passado a gestão de 26 escolas, tornando Goiás o Estado com o maior número de colégios militares no país. Sob os princípios da “hierarquia e da disciplina”, oficiais da PM estabelecem a regra do medo, mandam e desmandam no ambiente escolar.

Nas escolas militarizadas passou a ser exigido o uso de farda militar por todos os alunos. Os meninos precisam ter cabelo curto e as meninas são obrigadas a prendê-los. As gírias foram proibidas, assim como o esmalte de unha, o beijo e os óculos com armação “chamativa”. A continência tornou-se obrigatória na entrada, para os professores e também entre os alunos.

Para completar foram inseridas novas disciplinas no currículo, como a “Ordem unida” – sabe-se lá o que seja isso, coisa boa não é. Assim como a “sugestão” de uma taxa de matrícula de R$ 100 e de mensalidade de R$ 50, em valores de 2014, possivelmente já reajustados nos dias de hoje. O governo pretende militarizar mais 24 escolas neste ano.

O capitão Francisco dos Santos, diretor da escola Fernando Pessoa, exalta numa matéria da BBC o fim da violência no colégio. Também pudera. Impondo estado de sítio e intimidação permanente o resultado seria esse. O preço é rifar o futuro, jogando o pensamento crítico e a democracia na lata do lixo. A gestão militar da escola adestra os jovens de hoje para a gestão militar da sociedade.

A repressão ao movimento dos estudantes secundaristas por essa mesma polícia é expressão cabal disso.

Perillo seguiu o exemplo de seu colega de partido Geraldo Alckmin ao tentar remodelar o ensino à força, sem qualquer debate com a sociedade. Que, enquanto é tempo, siga novamente Alckmin, desta vez para recuar das medidas perante o rechaço da comunidade escolar. É preciso libertar imediatamente os 31 presos e recuar do projeto de privatização e militarização das escolas.

Caso contrário, Goiás será lembrado como o laboratório da barbárie na educação brasileira.”

Gui Boulos

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SAIBA MAIS: ARTIGOS DE VLADIMIR SAFATLE, GUILHERME BOULOS, DIANE VALDEZ