A MARÉ VERMELHA QUE NA TV NÃO SE VÊ – “A praça é do povo como o céu é do condor!” – Castro Alves

Brasília, 17 de Abril de 2016

“Ó pátria, desperta… Não curves a fronte
Que enxuga-te os prantos o Sol do Equador.
Não miras na fímbria do vasto horizonte
A luz da alvorada de um dia melhor?

Já falta bem pouco. Sacode a cadeia
Que chamam riquezas… que nódoa te são!
Não manches a folha de tua epopéia
No sangue do escravo, no imundo balcão.”

CASTRO ALVES. Recife. 1865.

ASSISTA O DOCUMENTÁRIO / REPORTAGEM:
“O CÉU E O CONDOR – Brasília em Transe”
(16 e 17 de Abril na capital federal)

Há 20 anos atrás, ocorria o Massacre de Eldorado dos Carajás, quando 19 ativistas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foram assassinados pela Polícia Militar no Pará. É um escárnio grotesco que neste dia, 17 de Abril, que poderia ser devotado à construção coletiva da reforma agrária e do avanço no combate às hediondas desigualdades na distribuição de renda e terra que corrói nosso país, tenhamos visto – a maioria de nós com a bunda sentada no sofá e diante da TV – um complô golpista dos mais sórdidos e infames que já tivemos o desprazer de testemunhar.

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Deputado Chico Alencar (PSOL), um dos mais contundentes críticos da farsa parlamentar presidida por Cunha e a Bancada BBB.

A Câmara dos Deputados, presidida pelo delinquente Eduardo Cunha, perpetrou seu farsesco golpismo oportunista na tentativa de instalar um governo biônico, sem voto e sem legitimidade, atentando em gangue contra o mandato de Dilma Rousseff. Quem se beneficia com isso além do 1% no topo da pirâmide econômica?

O golpe faz a alegria dos capitalistões da Fiesp, gera muita comemoração nos bunkers habitados pela cleptocracia do P.I.G. e pela elite célebre por estrelar os Panama Papers – dentre outros listões da corrupção empresarial-estatal endêmica que nos afunda neste infernal lodaçal do capitalismo desenfreado e da política sequestrada por interesses financeiros.

Do lado de fora do circo armado pela Direitona lá dentro, teve muita garra e muita luta na caudalosa aglomeração de calor humano lá fora. Povo em flow em que pude embarcar como num rio, remando na multidão, com as mãos na câmera e o coração aos pinotes.

Aqui tento desvelar um bocadinho de experiência compartilhável sobre algo que a mídia corporativa “suína”, como era de se esperar, abafou e omitiu, mas que tem plena e intensa relevância: o “povo na rua”, o povo pedindo poder… O povo que o poeta Castro Alves dizia destinado à praça pública, à pólis dos indivíduos sociais interdependentes e solidários: “a praça é do povo como céu é do condor”.

Em 17 de Abril de 2016, os movimentos sociais que no espectro ideológico são classificados à “esquerda”, unidos contra o golpe e em defesa da democracia, mostraram uma impressionante capacidade mobilizatória. Pintaram de vermelho as ruas de Brasília numa belíssima passeata que foi do ginásio Gilson Nelson até a Esplanada dos Ministérios. Participaram do ato movimentos sociais como o MST, a CUT, o Levante Popular da Juventude, o Movimento dos Afetados por Barragens, dentre outros.

Jean Wyllys, Ivan Valente e Chico Alencar, do PSOL, além de Maria do Rosário e Jandira Feghali, do PT, estiveram entre a “turma” de parlamentares mais entusiasticamente aplaudidos pela multidão que, após a passeata, se concentrou diante dos telões para acompanhar a votação do impeachment. Tambores batucados com ímpeto e um mar de bandeiras vermelhas estavam nas ruas enquanto no “circo” do Congresso uma chuva de “Deus, Família e Propriedade” horrorizava as espinhas de quem não esqueceu as cicatrizes de nossa mau-enterrada ditadura.


“Eu estou constrangido de participar dessa farsa, dessa eleição indireta conduzida por um ladrão e apoiada por torturadores. Farsa sexista! Em nome da população LGBT, do povo negro exterminado nas periferias, dos trabalhadores da cultura, dos sem-teto/terra, voto NÃO AO GOLPE! E durmam com essa: CANALHAS!” – Jean Wyllys do PSOL 50

(BÔNUS) “SOBRE O CUSPE AO FASCISTA – Por Jean Wyllys do PSOL 50: Depois de anunciar o meu voto NÃO ao golpe de estado de Cunha, Temer e a oposição de direita, o deputado fascista viúva da ditadura me insultou, gritando “veado”, “queima-rosca”, “boiola” e outras ofensas homofóbicas e tentou agarrar meu braço violentamente na saída. Eu reagi cuspindo no fascista. Não vou negar e nem me envergonhar disso. É o mínimo que merece um deputado que “dedica” seu voto a favor do golpe ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI do II Exército durante a ditadura militar. Não vou me calar e nem vou permitir que esse canalha fascista, machista, homofóbico e golpista me agrida ou me ameace. Ele cospe diariamente nos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais. Ele cospe diariamente na democracia. Ele usa a violência física contra seus colegas na Câmara, chamou uma deputada de vagabunda e ameaçou estuprá-la. Ele cospe o tempo todo nos direitos humanos, na liberdade e na dignidade de milhões de pessoas. Eu não saí do armário para o orgulho para ficar quieto ou com medo desse canalha. #‎FascistasNãoPassarão‬. Foto: Oliver / Mídia Ninja. Deu tb n’O Globo.

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Le peuple a sa colère et le volcan sa lave.
(O povo tem sua cólera e o vulcão sua lava.)
VICTOR HUGO

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“O Sol, do espaço Briaréu gigante,
Pra escalar a montanha do infinito,
Banha em sangue as campinas do levante.

O povo é como o sol! Da treva escura
Rompe um dia co’a destra iluminada,
Como o Lázaro, estala a sepultura!…

Oh! temei-vos da turba esfarrapada,
Que salva o berço à geração futura,
Que vinga a campa à geração passada.

Quando nas praças s’eleva
Do povo a sublime voz…
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz…

A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor…

Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão…”

CASTRO ALVES.
O Povo ao Poder. Recife, 1865.

Na vanguarda da massa, faixas diziam: “1964 nunca mais, Globo mente!” Povos indígenas protestavam contra os latifundiários e exigiam demarcação de terras. As Mulheres Pela Democracia punham um colorido e aguerrido feminismo para sambar sobre o asfalto.

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Do carro de som, os discursos se sucederam, com destaque para o brado-hit: “NÃO VAI TER GOLPE (JÁ TEM LUTA!)”. Esperta contra o P.I.G., a massa em coro lembrava: “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a Ditadura (E AINDA APÓIA!)”. A maré humana, caudalosa e cheia de vida, atravessou a cidade garantindo aos golpistas Temer e Cunha que não pensem que seguirão em frente, sem resistência, com sua usurpação criminosa do poder.

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Não se viu nenhum helicóptero da mídia burguesa cobrindo aquela que foi, talvez, uma das significativas e históricas mobilizações populares ocorridas na capital federal nos últimos anos. Minutos depois, no gramado da Esplanada, cartazes em punho, com tinta vermelha, direcionados ao helicóptero policial que nos sobrevoava, manifestantes mandavam alfinetada óbvia: “A PM não sabe contar!”

Isso porque, para escárnio geral, a PM divulgou nota estimando o público em 8 mil pessoas, enquanto de cima do trio elétrico o mar-de-gente era tamanho que o início da marcha perdia-se de vista no horizonte e fazia pintarem números de estimativa da marcha que oscilava entre 50 e 100 mil participantes.

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Lá dentro do bunker do Parlamento, a classe política revelava o grau de sua sordidez e hipocrisia com um torrencial mantra ideológico, “família” e “religião” como carros-chefe, disfarçando o fato de que as bases jurídicas do processo são absurdamente injustas, Dilma Rousseff vivendo na pele o Josef K. do romance Kafkiano. Como pode estes ilustres engravatados, altivos senhores, louvarem a Deus na mesma frase que tem por efeito lançar uma condenação sobre um governante por crime de responsabilidade que nunca houve? O tema da responsabilidade não se discutia, quase; a punição aos responsáveis pela corrupção era, no discurso de muitos vociferantes defensores do “impeachment já”, uma performance teatral, cortina de fumaça para os corruptos de sempre poderem encher a pança de pizza em Miami assim que Temer-Cunha estiverem nos controles.

Caso o Senado aprove a deposição de Dilma, caso os movimentos sociais discordem radicalmente desta “medida institucional”, então teremos enfim constituído um cenário explosivo, incendiário. Serão inevitáveis os clashes entre uma frente de esquerda – Povo Sem Medo, Frente Brasil Popular, MST, CUT, MTST, CTB, Levante Popular da Juventude, movimentos estudantis e sindicais, ativismos LGBT e críticas-práticas do feminismo militante etc. – que irá à luta, chocando-se contra as forças de repressão do “novo governo” e suas massas-de-manobra. Nesta hipótese, quanto sangue e quanta turbulência vão decorrer deste “assalto ao poder” da velhas dinossáuricas elites da cleptocracia tupiniquim?

Fico a imaginar as Olimpíadas do Rio, num eventual governo Temer – Cunha, caso estes usem as tropas estatais de repressão, comandando com “punho de ferro” na defesa do “novo governo”. Talvez muitos então repensem então o ceticismo com que encaram a denominação golpe de Estado (coup d’État) para explicar o que ocorre na crise política brasileira desta 2016.

O que se chama de “golpe” é um cancelamento da vontade de 54 milhões de eleitores, que se expressaram nas urnas de uma pátria que às vezes tenta se orgulhar de seguir o preceito republicano, consagrado em nossa constituição, de que “todo o poder emana do povo”. Golpe é rasgar isso, cuspir sobre isso, anular as urnas por meio de complôs de cúpula. Golpismo é usurpar o poder do representante eleito por sufrágio universal através de falsas acusações, processos caluniosos, linchamentos midiáticos, complôs de elites insaciáveis, nacionais ou gringas, dos magnatas da mídia e da construção civil aos interesses petrolíferos transnacionais…

Se Dilma for “chutada” do poder por causa de “pedaladas fiscais” que o próprio Temer assinou,  o governo já nasce podre por dentro, carcomido em sua legitimidade, com popularidade beirando o zero (vá lá: Temer seria o presidente biônico do 1% mais rico desta pátria ó tão desigual). Como viu Safatle, “não existirá governo Temer”, pois ele já nasceria natimorto, altamente contestado, sob uma enxurrada de greves e ocupações, com a perspectiva de resistência coletiva organizada envolvendo milhões de pessoas e ativistas país afora…

Este post serve também como um tiragosto do documentário curta-metragem independente que vocês podem conferir abaixo:

ASSISTA O DOCUMENTÁRIO / REPORTAGEM:
“O CÉU E O CONDOR – Brasília em Transe”
(16 e 17 de Abril na capital federal)

LINK PARA O ÁLBUM: http://bit.ly/1Sh59fA
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Fotos por Eduardo Carli de Moraes

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LEITURAS SUGERIDAS NA IMPRENSA:
O que disseram os jornais europeus sobre a votação do impeachment na Câmara

BRASIL DE FATO – Cientistas políticos criticaram a argumentação de deputados na sessão do plenário da Câmara que votou a admissibilidade do processo deimpeachment da presidenta Dilma Rousseff. Os parlamentares dedicaram os votos às suas famílias, a Deus, aos evangélicos, aos cristãos, aos prefeitos de suas cidades e correligionários. A sessão foi marcada pela presença de cartazes, bandeiras, hino e gritos de guerra.

Com 367 votos a favor (mais de dois terços dos 513 deputados), 137 contra, sete abstenções e duas ausências, o parecer pela instauração do processo de impeachment foi aprovado nesse domingo (17) na Câmara dos Deputados. Agora cabe ao Senado decidir se processa e julga a presidenta.

“Acho estarrecedor, em um país republicano, que tem princípios de laicidade do Estado, levantar argumentos religiosos e a família. Pouquíssimos levantaram os motivos reais que são julgados no processo. É entristecedor ver a qualidade de argumentos, todos arregimentados para seu entorno, em questões de seu interesse”, disse a professora do Departamento de Ciência Política e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marlise Matos. (LEIA NA ÍNTEGRA)

Na imprensa gringa, sugiro A Coup Is In The Air, do The Wire.In, e os trabalhos de Glenn Greenwald.

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Trechos do “Diário Pessoal-Mas-Nem-Tanto de Viagens”

Eduardo Carli de Moraes

Rumei para Brasília com a sensação de ir a um face-a-face com a história. Não a que ficou nos livros, mas a que um dia neles estará. Fui com Sérgio Sampaio nos tímpanos, pra “ver o que há” pros lados do Paranoá. A Gi diz que nunca me viu tão politizado (e atribui isso também à má influência dela…), e é verdade: os afetos políticos têm me dominado. Não me sinto capaz de isenção ou indiferença diante do que venho chamando de “intentona golpista”. Nunca vi este país tão intensamente polarizado, algo que o muro recém-edificado na Esplanada mostra bem. Sociedade cindida. As torcidas trocam insultos e sopapos: “coxinhas!” “petralhas!”

Tenho alguma ilusão de poder influir no resultado deste jogo? Eu em toda a minha insignificância individual e pequenez cósmica? Não… serei um anônimo na massa – e sei de que lado da barricada irei estar. Este impeachment é uma farsa golpista capitaneada por delinquentes engravatados. Cunha presidir é um escárnio. Uma vergonha pior que o 7 a 1 da Copa – a que quase não teve. A impunidade dos tubarões é grotesca. E boatos fortíssimos são audíveis que dizem claramente: o intento é fazer a corrupção, no Brasil, novamente acabar em pizza, com impunidade para golpistas e perdão geral a todos os assaltantes dos cofres públicos. Angeli foi brilhante em seu cartum: é um golpe de dinossauros pra instaurar um retrocesso jurássico…

Angeli

Contra o mito insustentável da História como progresso, cada vez mais aparece-me como evidente e concreto que História é capaz de retrocesso, que há em todo presente, em potência, catástrofe (mas também maravilha). Como julgar avanços e recuos? É uma questão ética, e por isso não é possível separar ética e política, sob o risco de cairmos numa política da barbárie, que somente continua a guerra por outros meios, ao invés de ser esforço coletivo de instauração de convivência ética e civilizada. A polêmica sobre o progresso e o atraso, porém, não pode ser ignorada: o que é retrocesso pra uns é avanço pra outros e a “vitória” da Fiesp é a derrota dos direitos trabalhistas – e vice-versa.

Acabou o ganha-ganha do lulismo. A luta de classes se exacerba. Não engulo o papo niilista de que os partidos se equivalem em sua idêntica escrotidão. Isso é um atentado às nuances e complexidades do real. “Tomar partido” não implica necessariamente sectarismo e unilateralidade: pode-se ser do partido que não é particularista, que defende o bem comum e a solidariedade social.

O interesse pela política tem a ver com ânsia de participação, de união, de estar com outros no esforço conjunto. Política é remédio pra solidão, antídoto ao isolamento, negação do solipsismo, superação da indiferença pelo coletivo, sociabilidade ética em ação. Ainda assim, sinto-me bem só. Desfiliado. Não estou enquadrado num partido ou movimento específico. Ainda aprendo os modos de funcionamento da pólis. Nem mesmo sou exatamente “nacionalista”. Os problemas pátrios às vezes me enojam e me dão vergonha do Brasil e seus males. Não junto minha voz ao coro do “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. Ao assistir a votação do impeachment, meu sentimento era o avesso do patriotismo: sou brasileiro, com muito asco, com muito horror…

Tento agir como midiativista independente, com autonomia de olhar, mas nunca a-partidário e indiferentista. Sei que meu impacto é pequeno. Não é nulo, porém. Prefiro fazer o pouco que posso a não fazer nada. Alice Walker: “o modo mais comum das pessoas renunciarem ao poder é acreditarem que não tem nenhum.”

AliceWalker

Sei que poderio midiático tem muito a ver com grana – meios de difusão de mensagens. Sou uma formiguinha, minúsculo diante dos elefantes corporativos, só um carinha com um blog, sem hype nem anunciantes. Mais um do monte que tem página no Facebook e esforça-se para ter seguidores como micro-investidor. Em contraste com a grande mídia, sou quase ninguém. Uma alternativa disponível entre milhares de outras. Não dá nem mesmo pra ter a imodéstia de dizer que sou um “formador de opinião” – isso é pra quem escreve e é lido por milhares de leitores, seja qual for o espector ideológico (de esquerda, como Eliane Brum ou Sakamoto, de direita, como Reinaldo Azevedo ou Diogo Mainardi).

Ambiciono me tornar voz midiática de alguma importância? É minha “vontade de poder”? Talvez. Gostaria de influir mais, repercutir, ter voz mais ressoante. É deprimente o isolamento e me recuso ao cruzar-de-braços indiferentista. São esmolas para a auto-estima as curtidas no Facebook? Os acessos ao site me convencem de que não sou socialmente invisível? O que sei é que estou tendendo ao abuso de internet, pelo tempo excessivo que passo na postação e zapeando no feed, querendo ser uma “força da net”, querendo ver os posts “viralizar”… Que “festa” aos 1.000 compartilhamentos! Há essa possibilidade de que algo torne-se uma “bomba” informativa que se replica… Há a possibilidade imediata de contra-informar, de contestar algo que a mídia de massas está dizendo nos telepúlpitos da burguesia, dos antros do golpismo elitista.

Ainda que pequeno e quase inofensivo, há a chance deste micropoder servir como contra-poder, contra-cultura, que tece um fio numa teia de resistência e solidariedade. Isso é o que me anima na net, tecer teias de contatos, inaugurar algo – tipo um meme – que possa se espalhar e ser hit na web, no sentido de impactar de algum modo a opinião pública, ou pelo menos chaqualhar a indiferença letárgica dos silentes.

É vontade de aventura – aquilo que era tão quintessencial ao Che e à Rosa, ao Joseph Conrad e à Castro Alves, um ímpeto irrefreável de liberdade exploratória! É vontade de excitação vital, de colaboração (co-laborare, ou “trampemos juntos”!). É vontade, vivida existencialmente, de política, ou seja, política ontologicamente baseada nesta ânsia de ter não só vida pessoal mas também destino coletivo. Ter um coração que bata de indignação diante de qualquer sofrimento injusto sobre a face da Terra, como exortava o médico-guerrilheiro Ernesto Guevara…

Sofri por muito tempo por déficit de pertença – adolescente sem turma e sem muito lar que acontecia de passar muito temo sendo músico sem banda, jornalista sem revista, ativista sem movimento social, um tanto desajustado aos moldes caretas do mercado de trabalho, de tendências psíquicas subversivas e transviadas… Vou na política como se fosse – e é – vivência, existencialmente experenciada, de nossa pertença a um real comum, compartilhado, nosso commons. Constituído em seu cerne de uma teia de interdependêcia – “the web of life”…

Vou na viagem política na busca de aprender mais sobre  poder – aquele das cúpulas, aquele das bases; o poderio tirânico e teocentrado, o poderio contragolpista que desfere um levante de resistência “de baixo pra cima”… Interessam-me estes levantes da base contra o topo das pirâmides sociais historicamente constituídas. Recém-nascido neste mundo de tão complexos e desnorteantes legados históricos – da escravidão ao genocídio dos nativos – em meio aos quais o sentimento que poderia inundar e tomar conta, totalmente, o “fatalismo”. Nada fazer por nada poder. Niilismo. Nietzsche conclama a ir além dele, escapar ao niilismo fatalista de quem cruza os braços e recusa-se a agir.

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“Triste dia para ser ateu. Por dois motivos: 1) escutar tanto canalha falando de Deus no parlamento. 2) Não acreditar que há um inferno para todos eles passarem a eternidade.” Bruno Torturra. 17/04/2016. Ilustração: Carlos Latuff.

Neste vórtex vou explorando o poder – o meu, sei que é pouco, limitadíssimo, mas também que é dinâmico, expansível ou redutível. Uma potência passível de incremento e redução, como o sistema ético de Spinoza ilustra através de suas elucidações dos afetos humanos como conatus que sobe ou desce na escala da vitalidade. Meu “Paulo Freireanismo”, recém-adquirido, sugere-me que teias de alteridade dialogante podem galvanizar a eletrificação e revitalização de nossas vontades colaborantes, na re-elaboração perene de nossos fins coletivos (utopias) e rumos partilhados, no parto sempre difícil de nosso porvir possível, cheio da potencialidade de florescimento dos inéditos viáveis, dos nunca-dantes-visto.

Encontro em Marx um espírito livre o bastante para nunca dogmatizar, nunca pregar uma verdade indiscutível, mas sim praticar um método de crítica permanente e de perene predisposição à re-consideração. Contra a farsa idealista dos conceitos eternos e imutáveis, que empesteam a filosofia desde Pitágoras e Platão, Marx – nisso bem semelhante a Nietzsche… – denunciou como lorotas, pseudo-conceitos, muito do quê pregavam, de suas cátedras, os idealistas. Para Marx não há conceito que não seja historicamente determinado, como explica Engels no prefácio ao Capital:

“Nos escritos de Marx as coisas e suas influências recíprocas são concebidas não como fixas, mas como variáveis, os próprios conceitos também estão sujeitos a variações e mudanças. Nessas condições, não estarão contidos em uma definição, mas desenvolvidos conforme o processo histórico de sua formação.” – F. ENGELS

Marx foi sempre um destruidor de correntes, inclusive as que “prendem nos grilhões de definições rígidas”, como escreve Daniel Bensaïd neste livro que tem sido bom-companheiro-de-viagem, Marx – Manual de Instruções (autor também do magistral “MARX, O INTEMPESTIVO”). Mano Daniel Ben revela Marx como um “Prometeu” filosófico que quebra seus cárceres psíquicos e ideológicos, que exorta-nos a libertar-nos sem medo. A classe trabalhadora não teria nada a perder senão seus grilhões… e transformação não era só possível, era necessária. Um pensador-de-práxis, que espanta os abutres do obscurantismo e da inação niilista, através da exposição translúcida dos antagonismos da  realidade social, do conflito de poderes em disputa, que Marx revela sempre como sendo (Paulo Freire: não sou, estou sendo), tal como nossas vidas-em-teia constituída por uma natureza histórico-fluida, dinâmica, dialética, eflúvio de vida que flui, tudo sempre revolucionável. Permanentemente revolucionável. Revolucionável por natureza.

E.C.M. / Brasília e Goiânia, 17 e 18 de Abril de 2014

POST FACTUMMarx

“A fé no todo-poderoso mercado foi mortalmente abalada. Quando se deixa de acreditar no inacreditável, agrega-se à luta social uma crise de legitimidade ideológica e moral, que acaba por atingir a ordem política: ‘Um estado político em que alguns indivíduos ganham milhões enquanto outros morrem de fome poderá subsistir se a religião não estiver mais lá, com suas esperanças fora deste mundo, para explicar o sacrifício?’, perguntava Chateaubriand às vésperas das revoluções de 1848. Ele mesmo respondeu profeticamente: ‘Tente persuadir o pobre quando ele souber ler e não tiver mais crença, quando ele possuir a mesma instrução que você, tente persuadi-lo de que deve se submeter a todas as privações enquanto seu vizinho possui mil vezes o supérfluo…’ 

Sob a luz ofuscante da crise, milhões de oprimidos terão de aprender a ler.”

DANIEL BENSAID – MARX: MANUAL DE INSTRUÇÕES (Pg. 138). Editora Boitempo, 2013, trad. Nair Fonseca. 

MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA & ANALFABETISMO POLÍTICO – O papel(ão) da mídia corporativa na crise política brasileira [por Eduardo Carli de Moraes]

O Brasil parece empenhado em dar provas, às mancheias, da tese de Joseph Pulitzer (1847 — 1911): “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.  Vale lembrar que “pela Constituição brasileira os meios de comunicação são concessão do Estado e deveriam atender aos interesses universais e não privados”, como lembra a reportagem da Carta Maior.

Porém, o abismo entre a nossa realidade e o nosso ideal constitucional escancara-se em nosso país onde a comunicação social tradicional é controlada por mega-corporações capitalistas chefiadas por 5 ou 6 grandes famílias. Dando nome aos bois – ou melhor, aos magnatas – vivemos sob o poderio midiático excessivo (e absolutamente desproporcional aos (des)serviços prestados ao bem comum) dos Marinho, da Globo; de Edir Macedo, da Record; de Silvio Santos, do SBT; dos Civitas (do Grupo Abril, que publica a revista de maior vendagem no país, a Veja); dos Frias (Grupo Folha); dos Mesquita (O Estado de S. Paulo) (Saiba mais: BBC Brasil). 

“A imprensa empresarial privada e monopolizada é, por definição, anti democrática. Vale dizer, atende aos interesses de grupos e não aos interesses da sociedade no seu conjunto. O argumento de que o controle social da mídia é censura dissimula o caráter de censura da grande mídia empresarial ao pensamento divergente, fermento da ordem democrática. Os estudos acadêmicos sobre o caráter parcial, direcionado, seletivo da grande mídia monopolizada são abundantes. No plano internacional, as análises de um dos maiores sociólogos do Século XX, o francês Pierre Bourdieu, e do linguista e cientista político Noam Chomsky, mostram o quão parcial e demolidora dos direitos à informação livre é a mídia monopolizada mundialmente.” (FRIGOTTO, G. A Mídia Empresarial e a Corrosão dos Valores Democráticos, na Revista Carta Maior

Atual presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o sociólogo Jessé de Souza escreveu em Carta Capital um artigo notável em que desvenda um pouco da maquinaria daquilo que chama de “o golpe midiático-jurídico”, em curso e em despudorada ascensão, que conecta-se explicitamente a uma tendência social fascista:

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“O fascismo não nasce da noite para o dia. Ele vai crescendo no dia a dia contando com nosso medo, nossa ingenuidade real ou midiaticamente construída e nossa pusilanimidade.  A atuação da mídia conservadora dominante entre nós é abertamente fascista ainda que, aqui e acolá, se publique a opinião de alguém da esquerda para se tirar onda de imparcial.

(…) Ao invés de esclarecer a complexidade dos interesses sociais em disputa, a mídia conservadora os encobre e cria bodes expiatórios como a corrupção apenas estatal e de apenas um partido. É um jornalismo que não educa seu público de leitores, nem eleva sua capacidade de compreensão. Ao contrário, os mantêm cativos no mundo da repetição e da manipulação e não do aprendizado. O problema é que o povo hoje imbecilizado pode se lembrar que um dia foi inteligente e começar a pensar por si próprio. Nunca a manipulação midiática ficou tão óbvia quanto agora.

O mote desde 1954 deste mesmo jornalismo – inclusive com os mesmos órgãos de imprensa que atuaram no suicídio de Getúlio e no golpe contra Jango em 64, atuando também no mesmo sentido social e político no “lava jato” de hoje –  é a “corrupção seletiva”. Por exemplo: os esquemas de corrupção em empresas estatais existem há décadas, mas só interessam as do período recente e, assim por diante, de fio a pavio um óbvio e escancarado “interesse seletivo” no combate à corrupção.

Parece impossível que exista alguém tão imbecilizado pelo veneno midiático que não perceba o real sentido deste jogo. “Seletividade”, aliás, é a palavra chave deste golpe. Mas o desespero dos “golpistas irmanados” com a queda no seu “ibope” e no interesse do público – afinal a operação é “midiática” – os fez ultrapassar todos os limites do razoável. (…) A imprensa conservadora é o real braço partidário da ínfima elite do dinheiro que tem também “no bolso” boa parte do Congresso Nacional para a defesa de seus interesses. Mas para “legalizar” o golpe é necessário se encontrar uma “aparência” de legalidade.

Os militares cumpriram esse papel no passado. Agora são os interesses corporativos de aparatos estatais que deveriam zelar pela ordem jurídica – suprema ironia – que se travestem de supostos defensores da “higiene moral da nação” – outra óbvia ideia fascista que nunca acabou bem em nenhum caso histórico – para garantir privilégios corporativos e se apropriar da “agenda de Estado” e, assim, mandar sem voto.” (JESSÉ DE SOUZA, O golpe midiático-jurídico e sua noite dos cristais)

Fora do Brasil, alguns dos melhores analistas da geopolítica também já forneceram boas análises do “golpismo midiático”, caso de Glenn Greenwald, jornalista escolhido por Snowden para revelar ao mundo a espionagem do governo americano via NSA (National Surveillance Agency):

“A mídia corporativa brasileira age como os verdadeiros organizadores dos protestos e como relações-públicas dos partidos de oposição. (…) Para se ter uma noção do quão central é o papel da grande mídia na incitação dos protestos: considere o papel da Fox News na promoção dos protestos do Tea Party. Agora, imagine o que esses protestos seriam se não fosse apenas a Fox, mas também a ABC, NBC, CBS, a revista Time, o New York Times e o Huffington Post, todos apoiando o movimento do Tea Party. Isso é o que está acontecendo no Brasil: as maiores redes são controladas por um pequeno número de famílias, virtualmente todas veementemente opostas ao PT e cujos veículos de comunicação se uniram para alimentar esses protestos. Resumindo, os interesses mercadológicos representados por esses veículos midiáticos são quase que totalmente pró-impeachment e estão ligados à história da ditadura militar.” (GLEN GREENWALD, Leia a matéria completa em Geledés)

PIG

Ilustração: Carlos Latuff

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GLOBO

Pig 2É por essas e outras que o próximo dia 1º de Abril – data ilustre no Brasil, pois é tanto o Dia da Mentira quanto a data de início da Ditadura Empresarial-Militar de 1964-1985 – promete ser “quente” na frente das sedes da mais poderosa empresa midiática brasileira. A Rede Globo, mancomunada com outras empresas poderosas da mídia brasileira, todas elas integrantes da elite econômica e que agem de modo cada vez mais aberto como Partido de Oposição (o “P.I.G.” – ou Partido da Imprensa Golpista, satirizado em tantas charges de Latuff), querem que esqueçamos a história lamentável de autoritarismo que marcam, como nódoas de sangue, a suposta brancura dessa mídia plutocrática e manipuladora. Como lembra o artigo do Coletivo Intervozes, para Carta Capital:

 Estadao

“Ilude-se quem acredita que à imprensa coube apenas cobrir as manifestações do dia 13/03, espalhadas nos 26 estados da federação e no Distrito Federal. A mídia foi um componente central de sua própria concretização. Algo que se deu não só com a vinheta do “Vem Pra Rua”, tocada ao longo de 24 horas por dia na Rádio Transamérica de São Paulo, ou com o assustador editorial do Estadão deste domingo, que convocou “os cidadãos de bem” a “mostrar seu poder inequivocadamente”, valendo-se, para isso, de uma série de adjetivos e acusações de crimes que não apenas negava, mas destruía seus opositores.

Esses são exemplos claros da atuação midiática. A formação da opinião pública, contudo, pode ser um processo sutil. Não precisa transpirar ódio – aliás, é melhor que não o faça, senão o jogo fica muito descarado. Vale mais apostar em frases simples repetidas à exaustão e na invisibilização de opiniões divergentes – rasgando qualquer manual de bom jornalismo. Foi o que assistimos pelo menos nos últimos 15 meses, quando a mídia, de forma sistemática, colou a ideia da corrupção em apenas determinados grupos e consolidou a avaliação de que este é ‘o pior governo de todos os tempos’. Isso culminou em narrativas capazes de convencer qualquer ‘cidadão de bem’ de que sua obrigação cívica, neste dia 13, era mesmo ir para as ruas.” (Bia Barbosa e Helena Martins, na Carta Capital: http://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/o-papel-da-midia-nas-manifestacoes-do-13-de-marco)

Vale lembrar, é claro, que “Cidadão de Bem” era o nome do jornal da Klu Klux Klan, organização racista que perpetrou inúmeras atrocidades contra minorias estigmatizadas nos EUA. É bastante bizarro ver uma mídia já condenada na Justiça por corrupção – como a Globo, notória sonegadora de impostos – nesta cruzada contra a corrupção onde acirra os ânimos dos “cidadãos de bem” para que destruam sem misericórdia o governo de Dilma Roussef, re-eleita com mais de 54 milhões de votos nas últimas eleições presidenciais.

Distopia que denuncia e satiriza o Totalitarismo, "1984" de George Orwell não era um manual de instruções

Distopia que denuncia e satiriza o Totalitarismo, “1984” de George Orwell não era um manual de instruções…

A desinformação propagada pela mídia corporativa tem que “responder”, inclusive criminalmente, pelos intentos golpistas e dogmaticamente partidários com que promove suas manipulações de massas de manobra e suas lavagens cerebrais ideológicas. A mídia vem agindo sobre os telespectadores um pouco como as teletelas de 1984, por toda parte espalhadas  na sociedade totalitária gerida pelo Partido do Grande Irmão, no romance de George Orwell (e bem sabemos que 1984 era um alerta em formato distopia, e não um manual de instruções!).

A mídia têm muita responsabilidade na “banalidade do mal” que já está entre nós: o de fascistas saindo do armário, defendendo abertamente o golpe de estado através da intervenção militar, a pena-de-morte pra “vagabundo”, a disseminação da posse das armas de fogo (tendo como modelo a trigger-happy-land dos Yankees), a diminuição da maioridade penal (que incidirá, é claro, somente sobre pobres e favelados…), o avanço dos presídios privados, a entrega do pré-sal aos interesses do capital internacional dos oilmen etc. Também há culpa no cartório dos paladinos da mídia na atual onda de rubrofobia, satirizada e criticada por Alceu Castilho: é uma nova encarnação da idiotia do fascismo tupiniquim, que como um touro irracional começa a atacar com agressividade qualquer pano vermelho.

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“O rubrofóbico tem intolerância aos comprimentos de onda mais longos (entre os visíveis): a cor vermelha. Fica agressivo ante à possibilidade – que ele imagina muito concreta – de a bandeira brasileira ser tingida dessa forma. Nesses poucos segundos ele decide que os jovens na Esplanada dos Ministérios, todos do movimento negro, são petistas; e que, portanto (raciocina ele), devem portar alguma assinatura cromática. “A nossa bandeira nunca será vermelha”, grita. E cospe no diretor de Combate ao Racismo da União Nacional dos Estudantes (UNE), Rodger Richer. Cospe.

A cena ocorreu no domingo (13/03/2016). E não foi a única em Brasília. Outros ativistas do movimento negro foram vítimas dessa violência específica – conjugada com o mais puro racismo. E não seria preciso mais nenhum exemplo para caracterizar a consolidação desse formato brasileiro de fascismo explícito: uniformizado (com usurpação das cores verde e amarela), uma raiva taurina de determinados oponentes (filiados a determinado partido, negros, usuários de camisetas vermelhas), um ódio espumante, a disposição à violência e à exclusão. Gente perigosa, portanto.

Esse tipo de fascismo afirmou-se em 2013, durante as manifestações que começaram reivindicando passe livre e acabaram como ponto de encontro da extrema direita. Vem se consolidando em duas frentes: a violenta e a patética. A face violenta é intrínseca, fruto de uma intolerância conhecida em setores mais extremistas das torcidas de futebol. A face patética comporta cenas que seriam risíveis, não trouxessem embutidas essa violência discriminatória e sem limites. (…) É conveniente para alguém que essa insanidade se alastre?” (CASTILHO, A. Rubrofobia: fascismo brasileiro consolida sua intolerância bruta a uma cor, In: Outras Palavras)

Quem é que ajudou a chocar o ovo da serpente deste fascismo, hoje em disseminação, senão esses oligopólios midiáticos, repletos de indignação seletiva, incitadores de linchamentos, prontos ao discurso de ódio, à difamação e à conclamação à caça-às-bruxas quando se trata de derrotar adversários políticos? Nesta perspectiva, não vejo muita diferença qualitativa entre âncoras como Raquel Sherazade e Datena, que são abertamente facínoras-de-direita, e os William Bonners deste mundo, muito polidos e engravatados em seu golpismo elitista de burgueses bem aprumados. Uma das jornalistas independentes mais relevantes e mais lidas do Brasil, Cynara Menezes – a Socialista Morena – escreve:

Aecio Safadao

“Há cinco anos venho alertando para o perigo do crescimento da extrema-direita no Brasil. A concepção de que ‘contra o PT vale tudo’ levou os meios de comunicação a alimentarem (de)formadores de opinião que, sob a desculpa da liberdade de expressão, se acham no direito de dizer barbaridades e incentivar o ódio à esquerda. Colunistas, articulistas e apresentadores reaças ganharam espaço na TV, em revistas e nos jornais. Todos eles exemplares da direita furiosa, que espuma pela boca. Perfeitos imbecis perfeitamente incorretos que acham normal justiceiros atarem menores infratores a postes ou que se acham no direito de perseguir minorias e defender as torturas na ditadura militar. São estes ‘exemplos’ que estão influenciando nossos jovens e é isso que está se refletindo nas ruas e nas redes sociais, infestadas de agressores.

A oposição, representada sobretudo pelos tucanos, uma espécie de alterego da velha mídia, faz o mesmo desde 2010, quando José Serra, desesperado para ganhar a eleição, se aliou a fundamentalistas religiosos que acusavam a então candidata Dilma Rousseff de ser ‘abortista’. No Congresso, sedentos pela volta ao poder, os tucanos se articularam com o que há de pior na política brasileira: os mesmos fundamentalistas religiosos com suas pautas da Idade Média e também os ruralistas, aquela gente que quer exterminar os índios e nos empurrar agrotóxicos e transgênicos goela abaixo. Sempre oportunista, o PSDB não teve pruridos em se juntar até mesmo ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o fundamentalista religioso homofóbico que tem contas na Suíça.

Mas, como adverti, chocar o ovo da serpente é complicado, porque periga a cobra se voltar contra o criador. Cría cuervos y te sacarán los ojos, diz um velho ditado espanhol que gosto de lembrar. Cria corvos e te arrancarão os olhos. Não deu outra. No domingo 13, o candidato derrotado Aécio Neves, o governador Geraldo Alckmin e outros políticos do PSDB foram escorraçados da avenida Paulista aos gritos de “ladrão, ladrão” pelo mesmo grupo que ajudaram a insuflar. Na quarta-feira 17, mesmo liberando a Paulista para os manifestantes, ao contrário de reprimi-los, como fez com os estudantes das escolas ocupadas, o secretário de segurança de Alckmin teve seu carro chutado e acabou expulso da manifestação.

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Desde que se anunciou a indicação do ex-presidente Lula para a Casa Civil, os ânimos se acirraram ainda mais. Nos telejornais, as emissoras regem as manifestações. Na noite em que foi divulgado que Lula aceitara o convite para integrar o governo, o canal GloboNews começou a abertamente convocar pessoas para irem às ruas. No domingo anterior, em editorial à imagem e semelhança dos publicados às vésperas do golpe de 1964, o jornal O Estado de S.Paulo dizia: “Basta!” E convocava os “brasileiros de bem” a ir às ruas para ajudá-los a derrubar a presidente legitimamente eleita.

O resultado disso tem se mostrado diante das câmeras das próprias emissoras: pessoas sendo atacadas pelos tais “brasileiros de bem” apenas por usarem camisetas vermelhas ou se dizerem favoráveis ao PT, a Lula e a Dilma. Um rapaz de bicicleta vermelha foi agredido na avenida Paulista por “ter cara de petista”; o mesmo aconteceu com um casal de namorados; também em São Paulo, um menino de 17 anos recebeu tapas na cabeça e por pouco não foi espancado por dizer “não vai ter golpe”; em Caxias do Sul, um grupo de manifestantes pró-impeachment acossou um rapaz de camiseta vermelha, acompanhado de uma mocinha, na parede; e, em Brasília, os verde-amarelos gritavam “Comunistas!” “Desocupados!” “Vagabundos!” para os apoiadores de Dilma e do ex-presidente.

Vivemos dias tenebrosos. Ninguém pode prever o que será de nosso país. Empenhado em prender Lula e derrubar Dilma, o consórcio mídia-oposição parece disposto a continuar chocando o ovo da serpente, sem a menor responsabilidade para com o futuro do Brasil. Amanhã, dia 18 de março, haverá manifestação da esquerda em todo o país. Os reacionários não foram perturbados em seu protesto do dia 13 e puderam pedir “intervenção militar” e outros absurdos tranquilamente. Saberão fazer o mesmo, respeitar a presença maciça da esquerda, vestida de vermelho, na rua? E a oposimídia, saberá controlar seus fascistas de estimação ou eles estão realmente fora de controle? Quem é mesmo que está querendo transformar o Brasil numa Venezuela, afinal?

O mais preocupante é saber que, se algo de mais grave acontecer, nem a mídia nem a oposição serão capazes de admitir sua parcela de responsabilidade no clima ruim que está nas ruas. Sempre poderão alegar que é “culpa do PT”. (MENEZES, Cynara. Mídia e oposição perderam o controle de seus fascistas de estimação. Por Socialista Morena / Cynara Menezes. [http://bit.ly/1R88BIQ])

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Este desserviço cotidiano perpetrado pela mídia contra a mente dos brasileiros submetidos ao seu besteirol imbecilizante e às suas manipulações ideológicas reducionistas e interesseiras talvez explique o grau de analfabetismo político que manifesta-se por aí, nas ruas e nas caixas de comentários. Que está lá, inclusive, em uma coluna da Folha De S. Paulo, onde o inacreditável “líder mirim da Direita”, Kim Kataguiri, compara a massa de brasileiros na Avenida Paulista com peças necessárias para montar o Super-Robô dos Power Rangers:  “Com seis anos, eu lutava contra monstros que eram derrotados e voltavam gigantes. Lula, depois de ter sido derrotado no mensalão, voltou ainda maior no petrolão. Os Rangers uniam-se e fundiam seus veículos para compor o robô gigante. Precisamos de algumas centenas de milhares de brasileiros para montar o nosso.” (FSP)

Beira o inacreditável que o, por assim dizer, “movimento Fora Dilma” possa levar a sério, e com credulidade e obediência, toda essa imaturidade e idiotismo político que vaza da boca de Kataguiris e congêneres. E o mais surpreendente é que um jornalão como a Folha de São Paulo desses permita-se o mico editorial de ter entre seus colunistas um “pensador político” (digamos assim…) deste nível – sabemos que ele não é exatamente o novo Maquiavel ou Marx… – lado a lado com alguns dos melhores pensadores do Brasil contemporâneo, como Guilherme Boulos e Vladimir Safatle. 

Há muitos exemplos tragi-cômicos desta situação: uma pesquisa realizada por Pablo Ortellado e Esther Solano, na Avenida Paulista, durante a mega-manifestação do dia 15 de Março de 2015, revelou as seguintes “opiniões”, sintomáticas do quadro endêmico de desinformação midiática e analfabetismo político de certa fatia dos paulistas (aquela gente que tomou  conta, ruidosamente, uniformizados com camisetas da CBF e agraciados com o filé mignon da FIESP, bradando contra os “petralhas” na Av. Paulista em 15/03/2015 e em 13/02/2016):

Analfabetismo Político

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Um bom comentarista do quadro desta “classe mérdia” que se aferra a seus privilégios e deseja ser elite é, novamente, o presidente do Ipea, Jessé Souza [http://bit.ly/1pk7leB], que teve um perfil interessante traçado pela seguinte matéria da Geledés – Instituto da Mulher Negra:

Os últimos seis meses foram de tormentas para o sociólogo potiguar Jessé Souza, 55 anos. Sua obra – até então festejada nos redutos acadêmicos – tem saído das estantes direto para as mãos daqueles que procuram uma explicação para o caos econômico e político em que se meteu o país. O que diz nem sempre agrada. Algumas polêmicas rendem réplicas e tréplicas nas páginas dos jornais, acrescidas de golpes baixos nas redes sociais e menções nas apaixonadas rinhas políticas da era Lava Jato. “Até agora, só me xingaram. Estou à espera de um debate de verdade”, provoca o autor de A tolice da inteligência brasileira, A ralé brasileira e de Os batalhadores brasileiros.

Entre suas teses que mexem com o juízo dos detratores está a de que o maior problema do Brasil não é a corrupção – como proclamam multidões em fúria, alguns decibéis acima do normal –, mas a desigualdade. Séculos de convivência com diferenças oceânicas entre ricos e pobres teriam naturalizado a violação de direitos mais básicos e o sistema de privilégios para o 1% de endinheirados. Nada de novo, não fosse o desdobramento de sua afirmação.

Para Souza, paralelo às redes de indignação o que pulsa é o desejo de desmanchar políticas sociais nascidas de diminuir as distâncias entre os brasileiros. Não vem de hoje. Foi assim com Vargas, com Jango e agora com Dilma. As classes médias, afirma, se rendem ao discurso moralizador sem perceber que estão sendo usadas pelos donos do capital. Julgando se diferenciar dos corruptos, nada mais estariam fazendo do que o jogo dos grupos que reivindicam um Estado que funcione a seu favor. Ao bater as panelas da moralidade, entende, os médios alimentam a ilusão de que estão mais próximos das elites, com as quais estabelecem um misto de admiração e ressentimento. “É uma relação sadomasoquista”, resume. (GELEDÉS, Leia a matéria completa em: Para Jessé de Souza, classe média é sadomasoquista ao apoiar elites @geledes on Twitter | geledes on Facebook)

Já passou da hora dos movimentos sociais focarem sua ação direta também na urgente necessidade de uma revolução nesta mídia plutocrática e estupidificante. Ela gera em seu público uma atitude de gangue e faz mal ao debate cívico nacional tornando a ágora repleta de papagaios acríticos de Constantinos e de Diogos Mainardis, de Olavos de Carvalho e de Lobões esbravejantes. A mídia golpista é uma sórdida cúmplice de nosso quadro de analfabetismo político grotesco. E é como manifestação de extremo analfabetismo político que vejo muitas das atitudes daqueles que lançam-se, fanáticos, à campanha do impeachment de Dilma Rousseff, com uma visão curta, imediatista e encegada por uma histeria midiaticamente condicionada.

Como se Dilma fosse um novo Collor – uma falsa analogia e péssima igualação histórica entre cenários completamente diferentes. Para começar, quantos brasileiros saíram às ruas para defender Collor no auge do movimento civil por sua destituição? Nem mesmo cem gatos pingados. Em 18 de Março de 2016, porém mais de 1 milhão e 500 mil brasileiros repudiaram nas ruas o golpismo paraguaiano contra Dilma e celebraram a nomeação de Lula como Ministro da Casa Civil.

Mc Sofia no palco Canto da Democracia em São Paulo!

MC Sofia, de 11 anos, faz um rap no palco @ Canto da Democracia, em São Paulo, 18 de Março de 2016, Avenida Paulista.

Recife

200 mil nas ruas em Recife/Pernambuco. 18/03/2016.

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18/03/2016: “Canto da Democracia” leva 500 mil pessoas à Av. Paulista

VÍDEO RECOMENDADO:  Juca Ferreira, Ministro da Cultura, recomenda o vídeo da Mídia NINJA: “Alta potência. O coro das ruas em defesa da democracia e do resultado das urnas.” ‪#‎VemPraDemocracia‬ASSISTA JÁ >>> Mergulhe em cenas do histórico dia 18 de Março de 2016, quando éramos mais de 1,5 milhão de brasileiros nas ruas, e ouça as palavras de Lula proferidas perante mais de 500 mil cidadãos na Avenida Paulista (não, neste dia não havia nenhum vidiota de joelhos diante do Pato da Fiesp…)

Muitos daqueles que querem o impeachment o fazem sem nem parar para pensar se há qualquer prova de desvio de verba pública ou dano ao bem comum praticado pela presidenta (não, não há nada além das comuníssimas “pedaladas fiscais”). Esbravejam de modo acéfalo em prol do impedimento, sem perceberem que são títeres de uma corja elitista de corvos corruptos, que deseja chegar ao poder e parar as investigações em que estão profundamente comprometidos: Aécio, Cunha, Serra, Renan, Temer… é esta a aristocracia ideal com a qual vocês sonham, ó Coxanato que papagueia o Califado Midiático? É essa a corja que vocês querem vocês que nos (Des)governe?!? Em texto publicado na Folha de São Paulo,  13/03/2016, Lindbergh Farias bradou, em tom destoante do establishment do jornal, que o “Golpe está fadado ao lixo da história”. Ele argumentava:

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“A peça de impeachment contra Dilma, que o Brasil inteiro viu Eduardo Cunha acolher por pura vingança, é incapaz de citar um único fato desabonador de participação direta da presidente. É público e notório, e até os juristas defensores do impeachment admitem envergonhados, inexistir comprovação de dolo ou participação direta da presidente em quaisquer crimes. (…) Dilma não cometeu crime e é muito mais honesta que seus algozes. O que existe são denúncias vazias em torno das tais “pedaladas fiscais”. Caso pedaladas acarretassem perda de mandato, a maioria dos governadores e prefeitos de todos os partidos igualmente seria cassada. Foi e é prática corriqueira.

(…)  Participei ativamente da campanha pela destituição de Fernando Collor. Posso testemunhar que a proposta de impeachment só prosperou após serem colhidas, por uma CPI Mista do Congresso, provas documentais e testemunhais de contas fantasmas administradas por PC Farias, que, entre outros delitos, repassava dinheiro para cobrir gastos pessoais, inclusive para subsidiar despesas da residência oficial. Contra Dilma não há nada. Pode-se discordar de seu governo, mas ninguém contesta sua honestidade. Não existem, portanto, parâmetros históricos de comparação entre as campanhas de impeachment de Collor, em 1992, e as tentativas canhestras de deposição de Dilma.

BolsomitosNa época, o Brasil uniu-se para afastar Collor. As provas eram claras para todos. A campanha do impeachment de hoje divide tragicamente o país, criando uma crise política permanente e paralisando a economia. Decidiu-se primeiro que Dilma não pode governar. Buscou-se depois um pretexto qualquer para o impeachment. Neste domingo (13/03/2016) ocorrerão manifestações em todo o Brasil. Respeito todas por formação democrática. Discordo democraticamente, todavia, de quem não se constrange em participar de passeatas com Bolsonaros da vida, que em pleno século 21 defendem a volta à ditadura.” (Lindbergh Farias, Folha de São Paulo)

 

Vitor Teixeira

O golpe midiático-jurídico tem até seu super-herói – e não me refiro aos Power Rangers de Kim Kataguiri. Um raio-X do “herói” das elites econômicas golpistas – que conseguiram fazer com que sua visão-de-mundo e seu “anjo exterminados” fosse compartilhada por vastas massas de telespectadores e leitores crédulos – é oferecido por Luis Felipe Miguel, professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde edita a Revista Brasileira de Ciência Política e coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê:

“O juiz Sérgio Moro, por mais que em seus sonhos vista a fantasia de Mussolini de Curitiba, é apenas uma engrenagem. É um pobre coitado que fica feliz de tirar fotos ao lado de João Doria Jr. Ele é tão útil, e por isso assumiu uma posição de protagonista, por causa de sua completa falta de limites, de sua amoralidade, de seu desprezo olímpico pelos direitos; em suma, por causa de sua falta de compostura. Os tempos mudaram, as práticas são outras, mas Moro cumpre hoje uma função similar à de um delegado Fleury durante a ditadura. É o mastim que faz alegremente, balançando o rabo, o trabalho mais sujo.

O escandaloso grampo que atingiu a presidente da República, com o compadrio escancarado com a mídia que também foi revelado de forma indiscutível, mostra a depreciação final da magistratura em benefício do golpe. Moro não age como juiz, age como golpista e desistiu de fingir que não é assim. O diálogo ilegalmente gravado de Dilma com Lula não prova nada, exceto o desespero da direita com a nomeação do ex-presidente para a Casa Civil e sua vontade de acelerar o golpe. A mídia, sendo a mídia que é, não se dá ao trabalho de apresentar interpretações minimamente equilibradas. É a maquinaria do golpe em andamento. Polícia e judiciário de um lado, a mídia de outro, a massa dos novos direitistas tocando fogo nas ruas, tudo para forçar uma solução apressada, contrária à Constituição e antidemocrática para a crise.

O golpe já está na rua. É hora de ver qual será a resposta das mulheres e dos homens comprometidos com a democracia. Para a esquerda, vale o recado: é possível condenar o governo Dilma, é possível criticar Lula por todos seus vacilos e recuos. Mas se o governo cair e se Lula for vítima do cerco ignóbil armado contra ele, quem dança é a esquerda brasileira inteira, que será inviabilizada como projeto de poder por décadas. Quem dança é o horizonte de uma sociedade igualitária, é a ideia de democracia como poder do povo sem tutelas, é a noção de que as liberdades devem ser protegidas para todos. É hora de focar no que é essencial, é hora de barrar o golpe.” (Luis Felipe Miguel, É Hora de Barrar o Golpe)

Moro GOlpista

LulaEm sua “edição especial da crise”, lançada em 16 de Março de 2016, a revista Carta Capital trouxe em sua capa o seguinte: Lula e o complô – Ameaçado de prisão sem provas, o ex-presidente reage ao cerco. Mino Carta explica o que quis dizer com o termo complô em matéria onde pinta a figura de Sérgio Moro como peão fundamental do xadrez político orquestrado pela “mídia do pensamento único, porta-voz da minoria, transformada em partido de oposição”:

“Moro foi admiravelmente atendido pela polícia para montar um show carnavalesco que envergonha o País aos olhos do mundo e exibe, ao cabo, a ausência de uma Suprema COrte pronta a impor o império da lei. Duzentos policiais, armados até com metralhadoras, invadiram às 6 da manhã de sexta-feira, 04 de Março de 2016, a residência do ex-presidente da República e o Instituto Lula, e não surpreende que as reportagens dos jornalões tivessem chegado aos locais meia hora antes enquanto o helicóptero da Globo sobrevoava a área. Nada de espanto, de todos os pontos de vista: o complô é midiático-policial, e Moro aí está para atiçar o fogo. (…) O poder corrompe, a fama também. Ao longo da Lava Jato, Moro empolgou-se e engajou-se em uma operação bem maior do que a própria sob seu comando. Endeusado pelos golpistas, santificado em todas as instâncias midiáticas, Moro tripudia a se valer da insensatez geral, nutrida pela crença de que a verdade é aquela que nos convém.

(…) Está claro que o escândalo da Petrobras não foi inventado e é bom que os corruptos sejam exemplarmente punidos. Ofende os espíritos democráticos, entretanto, e exibe a precariedade e o descalabro da situação, a omissão a respeito das falcatruas anteriores, cometidas às claras, inclusive na própria Petrobras, pelo governo tucano… que tanto apraz à casa-grande. De todo modo, foi um show de truculência encenado pela Polícia Federal na sexta-feira (04/03) entre São Bernardo do Campo e as alturas do Ipiranga. Programa tão bem preparado, esmerilhado nos detalhes infinitesimais e enfim levado a cabo na exasperação magistral de uma violência adequada à caça de um Dillinger ou de um Bin Laden…” (MINO CARTA, A Origem do Complô, Carta Capital #892, p. 20 – 24)

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Post do Iconoclastia Incendiária: “O Juiz Moro já esteve presente na mídia antes, na verdade em um dos maiores escândalos de corrupção do Brasil, que foi a evasão de divisas para o exterior no famoso caso do BANESTADO. Foram 520 BILHÕES de reais evadidos ao exterior, o que deu ao Banestado o recorde mundial de lavagem de dinheiro, em toda a história da lavagem de dinheiro do mundo. Mas por que esse caso não repercutiu na imprensa? Porque justamente eram acusados muitos dos principais veículos de comunicação de massa (Plim, Plim). E qual a participação de Moro? Pouca coisa: Ele era apenas o juiz responsável por todo ̶o̶ ̶a̶r̶q̶u̶i̶v̶a̶m̶e̶n̶t̶o̶ da operação. Na época ele foi até suspeito por sua estranha condução no caso, mas… Pizza, né?”

Veja Lula

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Capas da Veja revelam facetas de uma longa batalha contra Lula. As predileções tucanas da publicação são também notórias, não importando como fatores desabonadores a relação do Tucano em Questão com o narcotráfico e os “helicocas”, muito menos com a corrupção em Furnas:

Veja Aecio

ilegalidade dos procedimentos louvados pela imprensa golpista em sua cruzada anti-petista tornou-se mais explícita do que nunca em Março de 2016. Eliane Brum soube ler bem a gravidade da ocorrência com o ex-presidente Lula, conduzido à força ao aeroporto de Congonhas, para depor na Polícia Federal, numa cena armada para o showbiz midiático satisfazer seu sadismo, como se fossem corvos na carniça:

“O que aconteceu naquela sexta-feira feira, 4 de março, em que Lula foi tirado de casa por policiais federais e levado para o Aeroporto de Congonhas, foi grave. Muito grave. O juiz e os procuradores deveriam ser os primeiros a querer evitar de todos os modos essa simbologia. A imagem de Lula preso, para o Brasil inteiro, não mostra que a lei vale inclusive para ícones populares e ex-presidentes. Mas (…) que o abuso e a violação de direitos, cuja maior representação são os milhares de presos sem julgamento atirados em penitenciárias medievais, assim como os negros humilhados pelas polícias nas periferias, são a regra para todos – ou quase todos.

O que o juiz e os procuradores estimularam nesta cena foi a vontade de linchamento. Porque levar alguém para depor dessa maneira, produzir esse tipo de imagem, também é um tipo de linchamento. E foram aplaudidos por parte da população por isso, porque atenderam à sanha, legitimaram a vontade de vingança ao dar-lhe roupagens de lei. Quando o rito da lei é substituído pela vingança, e essa substituição é permitida por quem é um agente da lei, é muito grave. É exatamente em períodos tão delicados da história que a lei precisa ser interpretada de forma mais conservadora. E seus agentes precisam ter a grandeza de abrir mão das vaidades pessoais e reprimir as paixões que também os habitam.

Sérgio Moro e os procuradores, assim como os policiais federais, não são heróis nem vingadores. São funcionários públicos. E é como funcionários públicos que precisam se comportar se quiserem estar à altura do cargo. Deles só se espera que façam bem – e discretamente – o seu trabalho. E o que dizer dos promotores do Ministério Público de São Paulo, pedindo a prisão de Lula a três dias da manifestação de domingo? E sem nenhuma justificativa razoável, para além das confusões “filosóficas” que viraram piada nas redes sociais, quando, entre outras bobagens, confundiram Hegel com Engels? Importa perceber que a manchete, com foto, foi garantida: “MP de São Paulo pede a prisão de Lula”. E a manchete é mais forte do que os editoriais e as matérias internas. Qual é a verdade que se fabrica ali, e que tem sido repetida em cada esquina do país? Lula é culpado.

Mas até ser julgado e condenado, Lula não é culpado. Ou a lei não vale. E, atenção: se a lei não vale para Lula, também não vale para você ou eu. (…) Acossado, Lula fez o que melhor sabe fazer, aquilo que o tornou um dos presidentes mais populares da história. Lula foi Lula, o Lula que fala a linguagem do povo porque compreende o povo como poucos. ” (ELIANE BRUM, no EL PAÍS Brasil[http://bit.ly/1UtBqnM])

18 03 - Lula e Starbucks

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O termo “golpismo” sintetiza bem este complô de forças que pretende violar a lei e usar da truculência para forçar a queda de um governo, quando não existe nenhuma evidência, fato ou escândalo que dê base sólida a um impeachment legítimo de Dilma Rousseff. O repúdio ao impeachment já é uma força social de magnitude gigantesca – como se viu nas ruas em 18 de Março de 2016 – e é referendada pela maioria dos governadores estaduais. Os 9 governadores do Nordeste brasileiro já publicaram um manifesto em que repudiaram a intentona golpista e desqualificaram o processo de impedimento da presidenta re-eleita, em 2014, com 54 milhões e 501 mil votos:

Eleilçoes 2014
9 GOVERNADORES DO NORDESTE PUBLICAM MANIFESTO EM QUE REPUDIAM A INTENTONA GOLPISTA E O IMPEACHMENT:http://bit.ly/1pz7knz

“Diante da decisão do Presidente da Câmara dos Deputados – Eduardo Cunha – de abrir processo de impeachment contra a Exma Presidenta da República, Dilma Roussef, os Governadores do Nordeste manifestam seu repúdio a essa absurda tentativa de jogar a Nação em tumultos derivados de um indesejado retrocesso institucional. Gerações lutaram para que tivéssemos plena democracia política, com eleições livres e periódicas, que devem ser respeitadas. O processo de impeachment, por sua excepcionalidade, depende da caracterização de crime de responsabilidade tipificado na Constituição, praticado dolosamente pelo Presidente da República. Isso inexiste no atual momento brasileiro. Na verdade, a decisão de abrir o tal processo de impeachment decorreu de propósitos puramente pessoais, em claro e evidente desvio de finalidade. Diante desse panorama, os Governadores do Nordeste anunciam sua posição contrária ao impeachment nos termos apresentados, e estarão mobilizados para que a serenidade e o bom senso prevaleçam. Em vez de golpismos, o Brasil precisa de união, diálogo e de decisões capazes de retomar o crescimento econômico, com distribuição de renda.”

ASSINAM:
Robinson Farias (PSD – Rio Grande do Norte)
Flavio Dino (PCdoB – Maranhão)
Ricardo Coutinho (PSB – Paraiba)
Camilo Santana (PT – Ceara)
Rui Costa (PT – Bahia)
Paulo Câmara (PSB – Pernambuco)
Wellington Dias (PT – Piaui)
Jackson Barreto ( PMDB – Sergipe)
Renan Filho (PMDB – Alagoas)

Basta olhar tanto para a “linha sucessória” da presidenta Dilma – Michel Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros… – quanto a comissão do impeachment para ficar evidente que não se trata, no caso do “Fora Dilma!”, de qualquer legítimo movimento anti-corrupção, e isso pelo simples fato de que o processo que quer destituir Dilma está sendo diretamente capitaneado por réus em crimes de desvio de dinheiro público. O Brasil encontra-se na posição bizarra em que bandidões não param de apontar o dedo acusador e de gritar “pega ladrão!”, no intento óbvio de serem brindados com a impunidade das pizzas que a grana sabe comprar.

 Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva estão sendo estigmatizados como bandidos e corruptos, merecedores de prisão, “petralhas” e coisa pior, mas é preciso muita cegueira midiática e indignação seletiva para não perceber que os acusadores são figuras cheias de fichas sujas, e cuja impunidade, após tantos crimes cometidos, beira o inacreditável:

BR IMPEACH

Jornal GGN – De acordo com as prestações de contas entregues ao Tribunal Superior Eleitoral, 40 dos 65 deputados federais que foram indicados para integrar a comissão do pedido de impeachment receberam um total de R$ 8,9 milhões em doações de empresas investigadas pela Operação Lava Jato durante a campanha eleitoral de 2014.

Calma

Imagine 3

“Ignorar desvio da merenda é exemplo da seletividade da mídia”, diz Boulos. “Escândalos como o desvio de verbas para a merenda escolar pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) não são tratados com a mesma cobrança como acusações sem provas envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Operação Lava Jato.” (BOULOS, Brasil de Fato. )

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Imagine 1
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Cunha
A blindagem midiática, a indignação seletiva, a cruzada de caça às bruxas, a rubrofobia e outros fanatismos, tudo parece deixar o Brasil em situação de barril de pólvora – e sem escassez de fagulhas. O futuro – e não apenas o climático – será repleto de incêndios. Neste labirinto, Eliane Brum é uma das vozes que mais vale a pena ouvir com atenção e cuja lucidez é preciosa para que pesemos bem escolhas e ações nesta encruzilhada histórica.

Em 14/06/2016, em seu artigo para o El País, ele mais uma vez tematizou a crise de representação política que têm nos conduzido às beiras da convulsão social e das conflagrações civis de uma guerra cotidianizada:

“Há uma enorme descrença nos políticos e nos partidos tradicionais, este já é um lugar comum. Mas é importante perceber que a esta descrença se contrapõe não mais razão, mas uma vontade feroz de crença. Quando os dias, as vozes e as imagens soam falsas, e a isso ainda se soma um cotidiano corroído, há que se agarrar em algo. Quando se elege um culpado, um que simboliza todo o mal, também se elege um salvador, um que simboliza todo o bem. A adesão pela fé, manifeste-se ela pelo ódio ou pelo amor, elimina complexidade e nuances, reduz tudo a uma luta do bem contra o mal. E isso, que me parece ser o que o Brasil vive hoje, pode ser perigoso. Não só para uma ditadura, como é o medo de alguns, mas para que se instale uma democracia de fachada, como já vivemos em alguns aspectos.

Uma democracia demanda cidadãos autônomos, adultos emancipados, capazes de se responsabilizar pelas suas escolhas e se mover pela razão. O que se vê hoje é uma vontade de destruição que atravessa a sociedade e assinala mesmo pequenos atos do cotidiano. O linchamento, que marca a história do país e a perpassa, é um ato de fé. Não passa pela lei nem pela razão. Ao contrário, elimina-as, ao substituí-las pelo ódio. É o ódio que justifica a destruição daquele que naquele momento encarna o mal. Isso está sendo exercido no Brasil atual não apenas na guerra das redes sociais, mas de formas bem mais sofisticadas. Isso tem sido estimulado. Quem acha que controla linchadores, não sabe nada.

Talvez o mais importante, neste momento tão delicado, seja resistir. Resistir a aderir pela fé ao que pertence ao mundo da política. Fincar-se na razão, no pensamento, no conhecimento que se revela pelo exercício persistente da dúvida. É mais difícil, é mais lento, é menos certo e sem garantias. Mas é o que pode permitir a construção de um projeto para o Brasil que não seja o da destruição. Quem sofre primeiro e sofre mais com a dissolução em curso são os mais pobres e os mais frágeis. É preciso resistir também como um imperativo ético.

Na política, mesmo os crentes precisam ser ateus.” (ELIANE BRUM)

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Concordo plenamente com a Eliane que é perigoso o fanatismo: “a adesão pela fé, manifeste-se ela pelo ódio ou pelo amor, elimina complexidade e nuances, reduz tudo a uma luta do bem contra o mal.” Em situações de tamanha polarização, é um perigo para qualquer um de nós que passemos a acreditar no reducionismo estúpido do maniqueísmo, elegendo de modo absoluto, para além das eleições, nossos “salvadores-da-pátria” e nossos demonizados “inimigos públicos”. É preocupante que tanta gente enxerguem soluções sociais e políticas legítimas em sua submissão a líderes populistas, em especial quando se trata de figuras abominavelmente racistas, machistas, homofóbicas e autoritárias como Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Silas Malafaia e outros.

Porém, também precisamos pôr o dedo na ferida e falar também dos fanatismos midiáticos, da fé que as elites insuflavam em certos heróis da vez, como o “Super-Homem” Moro, pronto a ser adorado por aqueles que acham que foi um magnum opus da filosofia política a analogia que Kataguiri estabeleceu entre o “Fora Dilma” e os Power Rangers… Talvez Eliane Brum dissesse que não precisamos de submissão acéfala a herói algum, que Dilma e Lula também estão aí para serem criticados, que os ídolos da direita, do centro e da esquerda merecem ser todos expostos à luz do dia quando tiverem pés de barro…

O problema é aceitar passivamente – o que sou cada vez mais incapaz de fazer, tamanha a revolta perante a truculência e a estupidez dos ataques ao PT – a lógica do estigma e da perseguição exterminadora, de teor fascista, que tem ganhado terreno entre nós. Contra o golpe midiático-jurídico e sua intentona de forçar, na marra, aqueles que não foram eleitos pelo povo, defendo o direito pleno, conquistado nas urnas, de Dilma Rousseff seguir governando como presidente eleita – pois nada justifica seu impeachment. Nisto, concordo com André Singer e de José Ribamar Bessa Freire:

Singer

“No seu tratado clássico “A Arte da Guerra” (séc.IV a.C.), Sun Tzu diz que todas as guerras são sempre de conquista, mas os soldados que estão na linha de frente não podem saber disso. Os senhores da guerra camuflam seus interesses privados e buscam elevar o moral da tropa, convencendo os combatentes de que a batalha é por nobres ideais coletivos.

A invasão do Iraque em 2003 é um bom exemplo ilustrativo. Um soldadinho americano jamais se arriscaria em assassinar muçulmanos e bombardear cidades e alvos civis correndo o risco de morrer, se soubesse que estava defendendo interesses privados do complexo industrial-militar. Por isso, os senhores da guerra tem de convencê-los de que lutam pela liberdade, pela democracia, contra o terrorismo e não pelo lucro de empresas de petróleo e da indústria armamentista.

No caso do Brasil, muitos manifestantes engajados sinceramente na luta contra a corrupção jamais sairiam às ruas se soubessem que a verdadeira guerra não é contra a corrupção, é pelo poder. O jogo se dá no campo político, não no da moralidade e da justiça.

Corrupção rotativa

Muitos manifestantes bem intencionados acreditam, em sua maioria, que estão lutando para sanear o país, quando involuntariamente fazem o jogo de quem não quer acabar com a corrupção, mas ocupar o executivo para exercitá-la. Temos a corrupção do PSDB ontem no poder federal e presente em alguns estados importantes, a neocorrupção de agentes do PT hoje no poder, e a corrupção do PMDB sempre no poder. Todas elas devem ser investigadas, punidas e combatidas e foi essa a esperança criada pela Operação Lava-Jato, comandada pelo juiz Sérgio Moro.

Ele começou, como era de se esperar, investigando com muita competência as propinas que envolveram os neocorruptos, que estavam em plena atividade. Pela primeira vez na história do Brasil, megaempresários foram presos, ex-ministros, senadores, deputados, com aplausos de toda a população. No entanto, a Lava-Jato avançava seletivamente, criando a desconfiança de que o alvo era o impeachment da presidente eleita, exigido pelos que querem ocupar o seu lugar antes de novas eleições, muitos deles com fichas sujas.

Moro, que parecia isento e sensato, tomou duas medidas, que evidenciaram a politização partidária do Judiciário: decretou a condução coercitiva do ex-presidente Lula com a mídia previamente notificada e divulgou as gravações de áudios de telefonemas interceptados pela Policia Federal.

Nos dois casos, Moro jogou para a mídia, que deu ampla divulgação e reproduziu conversas em imagens repetidas à saciedade pela tv, turbinando assim as manifestações de rua. Os vazamentos seletivos se concentraram na presidente Dilma, que sequer é investigada, e em Lula, contra quem nada foi até agora comprovado, divulgados com destaque pela mídia, que silenciou nos demais casos. E os outros? Alguém bateu panela contra Cunha?  Por quem os sinos dobram? Por quem as panelas batem?

Qual a contribuição à luta contra a corrupção a revelação de conversas privadas, recheadas de palavrões usados por qualquer leitor, que soam como fofocas, são retiradas de seu contexto e reinterpretadas com fins escusos? Serve apenas para acirrar o ódio e jogar lenha na fogueira. O JM – Jornal da Matraca – dedicou quase dois terços do espaço para satanizar Lula e Dilma.” (Nem Tudo Que Reluz É Moro @ Combate Racismo Ambiental)

Ainda que ciente do perigo que há em todo processo de “heroicização”, defendo também o direito, totalmente legítimo, de Lula de assumir o cargo de Ministro da Casa Civil. Lula goza de plenos direitos políticos e não foi condenado na Justiça por nenhum tipo de dano ao bem público que tenha causado. Em momentos de estúpida caça-às-bruxas e de “satanização”, é preciso lembrar o óbvio e fazer o resgate histórico que reconduza os amnésicos à plena lucidez: é fato, por exemplo, que Lula, após 8 anos na presidência da república, deixou o cargo consagrado por um índice da aprovação popular sem precedentes históricos no período pós-Ditadura. Mundo afora, Lula é reconhecido por muitas lideranças como um estadista magistral, sendo que programas sociais como o Fome Zero e Bolsa Família são amplamente reconhecidos pelos imensos avanços humanitários com que beneficiaram o Brasil, país que pela primeira vez deixou o “Mapa da Fome” da ONU e foi elogiado publicada pela FAO por sua política de combate à desnutrição.

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Sobre este tema, Celso Amorim, na Carta Capital, escreveu alto notável, que demonstra o impacto revolucionário do “lulismo” no cenário global:

“O Programa Mundial de Alimentos (PMA), órgão das Nações Unidas, com sede na capital italiana Roma, é dedicado a suprir carências alimentares, na maior parte das vezes em caráter emergencial. No passado, e ainda hoje, creio, o PMA tem servido para escoar excedentes agrícolas dos países ricos, principalmente dos Estados Unidos. Assim, além dos objetivos humanitários, as doações ao programa constituíam uma maneira de subsidiar os agricultores dos países desenvolvidos, criando uma forma sutil de concorrência desleal com as nações mais pobres, produtoras de gêneros alimentícios. 

O fato é, porém, que o PMA, até aqui sempre dirigido por uma personalidade norte-americana, transformou-se em um órgão atuante, com impressionante capacidade logística, da qual a ONU se vale para outras atividades (emergências de saúde, desastres naturais). No Haiti, logo após o terremoto de 2010, pude testemunhar a eficiência e a dedicação dos seus funcionários e dirigentes. A publicidade atual do PMA chamou-me a atenção pelo o lema criado para atrair doações: “Zero Hunger” ou, em italiano, muito próximo do português, “Fame Zero”.  

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Minha primeira reação foi de indignação pela apropriação do nome do nosso programa, sem crédito ao original. Mas, ao pensar melhor, considerei que o mais importante era o fato de uma ideia, nascida em nosso país e levada aos quatro cantos do mundo pelo presidente Lula (e imitada em muitos lugares), tivesse penetrado tão profundamente na mente de políticos, ativistas e acadêmicos planeta afora, a ponto de se tornar lema de uma campanha de um organismo internacional dirigido por uma norte-americana. Assim, antes de indignar-me, deveria rejubilar-me com aquele plágio não confessado. 

Este é apenas um exemplo de como as nossas atitudes no campo externo, lideradas pelo ex-presidente, deixaram marcas profundas.

Ao lembrar-me desses episódios, ao ver o homem que mais batalhou pela igualdade no Brasil e no mundo e que inspirou nossas políticas ser humilhado por meio de procedimentos truculentos desnecessários e ser vítima de um verdadeiro cerco, minha tristeza cresce ainda mais. 

Ao fim de sua peça intitulada Galileu Galilei, Bertolt Brecht põe na boca do jovem assistente do sábio, Andrea Sarti, a exclamação “Pobre da nação que não tem heróis”, à qual Galileu responde com uma afirmação dura e penetrante: “Não Andrea, pobre da nação que precisa de heróis”. Ao ver o operário metalúrgico, que alçado à condição de líder político, diminuiu a desigualdade em nosso país e colocou o Brasil no mundo, pensei que Brecht poderia ter complementado seu pensamento: “Mais pobre ainda, Andrea, é o país que vilipendia seus heróis.” (CELSO AMORIM, Carta Capital)

Burgues

Pobre da nação que precisa de heróis! Mais pobre ainda a nação que encontra seus heróis Moro-alistas e hipócritas entre uma elite, encarniçada defensora de seus interesses privados, plutocracia encastelada em seus privilégios injustos. O mesmo Brecht foi lapidar quando disse que “nada se parece mais com um fascista do que um burguês assustado”. Porém, não sei se teríamos algum benefício em transformar todos os heróis em párias, punkmente declarando um no more heroes! de sabor anarquista. O papel de “líder de massas” não me parece abandonável, no palco histórico, e mesmo a esquerda radical não se solidariza sem uma liderança como a de Che ou Fidel, na Revolução Cubana, Lênin e Trotsky, no revolucionário Outubro de 1917 russo, assim como os Zapatistas mexicanos da FZNL não é sequer imaginável na ausência do Subcomandante Marcos… Tudo bem se não quisermos ter em Lula nosso líder ou nosso herói, mas gostaria que este neoBrechtianismo fosse considerado digno: não sejamos o país que vilipendia seus heróis.

E talvez neste nosso Brasil real – e exponho-me aqui às pedradas dos detratores – não existe talvez nenhum “líder de massas” com o potencial libertário que ainda me parece existir em Lula. Talvez ele ainda não tenha finalizado sua missão histórica; talvez possa haver ainda muito chão pela frente na vida política deste brasileiro de obstinada força vital e que, não à toa, tornou-se um dos líderes políticos mais amados pela população do Brasil. Alinho-me, nas barricadas do presente, à defesa de Lula, ao seu direito de ser ministro, e para que sejam punidos aqueles que estão a lei para escorraçá-lo e caluniá-lo, em uma campanha de apedrejamento, de linchamento, de massacre midiático, que é uma vergonha e um acinte. E que talvez seja a manifestação desesperada daquelas elites decadentes que já pressentem que, em 2018, não há Marina, Aécio, Alckmin ou Moro que dê conta de vencê-lo.

O nosso maior perigo – sintetizado na palavra golpe – é a sordidez possível das elites que percebem de antemão que vão perder nas urnas, mais uma vez. Quem sabe que vai perder as próximas eleições tende a flertar de modo fascista com o plano de subir ao poder pela força, seja das armas e dos tanques, seja dos golpes midiáticos-jurídicos. Por enquanto, ainda há uma abismo de dissimilaridade entre o quadro de 1964 e 2016. Porém, o perigo persiste: e também pois a mídia corporativa parece ser incorrigível em sua imoralidade recorrente, em sua parcialidade desleal, assassinando quaisquer ideais republicanos de uma imprensa múltipla e polifônica. É triste, Brasil, este P.I.G. em nossas salas-de-estar e quartos-de-dormir, fabricando vidiotas, manipulando massas-de-manobra, cooptando e comandando manifestações, elevando corruptos a anjos, desenhando auras de santidade em Aécios, santificando justiceiros truculentos à la Moro, blindando Cunhas e Alckmins, recebendo propinas de Samarcos e Vale (mesmo após a hecatombe do Rio Doce!). Diante disso, é preciso bradar: abaixo os vidiotas! 

Globo4

Na Revista Cult, Márcia Tiburi dispara suas farpas – está conversando com um fascista: “Morto há tempos diante da tela, transformado em um zumbi que não pensa, não sente e não age em nome de mais nada que não seja a ordem teleguiada recebida, você será chamado de “vidiota” por alguém que, por algum motivo, ficou longe disso tudo. Mas porque já não consegue entender nada, você parte pra cima dele com a única coisa que restou na sua vida subjetiva, ódio barato e agressividade sem fim.” (TIBURI, M. Revista Cult)
Tiburi
Tiburi

Concordo com Márcia Tiburi que precisamos aprender a “conversar com os fascistas”, e que não podemos prescindir das armas da crítica, mas jamais respondê-los na mesma moeda de fúria. Já que olho por olho – Gandhi ensina – acaberemos todos cegos. Diálogo e democracia são consubstanciais – e é preciso resistir àqueles que não querem dialogar, contrapondo ao golpismo deles nosso obstinado democratismo popular, que não se deixará varrer tão fácil da história após os 21 anos de trevas que vivemos. Para barrar o golpe, porém, é urgente fazer a crítica – que Tiburi também empreende com muita graça e talento, além de contundência e coragem… – da manipulação e desinformação perpetradas pela mídia empresarial, este antro reacionário que choca o ovo da serpente dos fascismos cotidianizados e da banalidade do mal sempre renascente.

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 20/03/2016
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