“Tratado Sobre a Tolerância”, de Voltaire (1694-1778) [notas de leitura]

voltaire

VOLTAIRE
“Tratado Sobre a Tolerância”
(Ed. Martins Fontes. Tradução: Paulo Neves. São Paulo,1ª ed, 1993)

volDevemos tolerar os intolerantes, ainda que saibamos que “a intolerância cobriu a terra de chacinas”? (pg. 30) E quem seria para a humanidade uma melhor mestra de tolerância senão ela, a filosofia, musa que recebe tantos dos louvores de Voltaire?

Voltaire, este pensador que Victor Hugo dizia ser um “jato contínuo de lucidez”, não economiza nos elogios que faz ao bom senso que a filosofia traz, possibilitando-nos transcender as estreitezas em que nos encerram os fanatismos dogmáticos e as intolerâncias homicidas.

Este luminar do Iluminismo lança numerosos convites aos humanos para que ajam humanamente: “faz muito tempo que praticamos os verdadeiros princípios da agricultura, quando começaremos a praticar os verdadeiros princípios da humanidade?”  (pg. 63). E alega que a  filosofia é agente de humanização, que nos distancia da barbárie:

“A filosofia desarmou mãos que a superstição por muito tempo havia ensanguentado; e o espírito humano, ao despertar de sua embriaguez, espantou-se com os excessos a que o fanatismo o havia levado…” (pg. 24)

Ao que parece, ao raiar deste ano que chamamos de 2015 depois de Cristo, o “espírito humano” não cessa de recair na embriaguez do fanatismo e da intolerância – quantos são os mortos na Faixa de Gaza, quantos no Afeganistão e no Iraque? Alguém por aí conseguiu não perder a conta?

Enquanto isso, a filosofia não cessa de se espantar com os excessos do fanatismo – ao menos aquelas filosofias que se esquivam do dogmatismo e procuram atingir a liberdade do pensar, ao invés de serem meras “defesas manhosas de preconceitos batizados de verdades”, como diz Nietzsche (Além de Bem e Mal, #5). Um viva à toda filosofia que deixa as portas bem abertas para a suspeita, a experimentação, a multiplicidade, a diversidade de perspectivas, a revolta contra a fraude, o engajamento em prol de uma humanidade menos sectária e fratricida!

A filosofia, segundo os não-filósofos, que aliás são a amplíssima maioria neste mundo, é vista por muitos como uma atividade improdutiva, beirando a inutilidade: é o caso de Hermann Kafka, ao saber dos planos que tinha seu filho – Franz Kafka – de estudar filosofia, e que teria reagido com o desdém do comerciante que considera a filosofia somente “um modo extravagante de passar fome.” (cf. PAWEL, Ernst: O Pesadelo da Razão).

Ou então a filosofia é tida como algo de acadêmico e formal, difícil e hermético, que se faz detrás dos muros das universidades ou no conforto de bibliotecas climatizadas – e não, como alguns filósofos quiseram, uma força ativa na sociedade ao espalhar compreensão mais ampla e assim desfazer os cabrestos reinantes…

Voltaire é tão entusiasmante de ler pois filosofa como se a filosofia tivesse força transformadora. E quem consegue duvidar que tem, de fato, ao ler as palavras tão cheias de vivacidade e ímpeto que ele nos legou?

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traiteVoltaire escreve seu Tratado Sobre a Tolerância sob o impacto de um acontecimento que ele testemunhou em Toulouse. Nesta cidade francesa, pelos idos de 1762, continua-se a celebrar anualmente uma festa que Voltaire considera execrável: “festa cruel, festa que deveria ser abolida para sempre, na qual um povo inteiro agradece a Deus em procissão e felicita-se por ter massacrado, há duzentos anos, quatro mil de seus concidadãos” (pg. 62).

Duzentos anos antes, em 1562, os reis católicos franceses e as massas por eles manobradas haviam massacrado os protestantes pela França afora. A História jamais pôde esquecer a sanguinolência do Massacre da Noite de São Bartolomeu, “da qual não havia nenhum exemplo nos anais do crime” (pg. 22), quando Paris foi palco de uma colossal matança dos protestantes “huguenotes” – como narrado por Alexandre Dumas em A Rainha Margot (romance já adaptado para o cinema com maestria por Patrice Chéreau). Aponta-se que o número total de pessoas mortas pelos católicos no genocídio dos huguenotes de 1562 esteja entre 30 e 100 mil mortos.

A indignação voltairiana atinge ápices diante dos discursos dos apologistas da Noite de São Bartolomeu e outros massacres: “Se a perseguição contra aqueles com quem disputamos fosse uma ação santa, cumpre admitir que o que matasse o maior número de heréticos seria o maior santo do paraíso… logo, de dois assassinos iguais em piedade, o que tivesse estripado 24 mulheres huguenotes grávidas deve ser glorificado em dobro em relação ao que só tivesse estripado 12.” (p. 72) Este raciocínio torto e perverso, apesar de Voltaire escrevê-lo em tom de pilhéria, é mais que mera piada – e poucos autores na história da filosofia são mais versados em chacinas do que Voltaire, que conhece inúmeros exemplos do “furor das seitas que fez perecer milhares” (p. 149).

 É por isso que Voltaire não consegue conter estes arroubos de indignação: “Digo-o com horror, mas com verdade: nós, cristãos, é que fomos perseguidores, carrascos, assassinos! E de quem? De nossos irmãos. Nós é que destruímos cidades, com o crucifixo ou a Bíblia na mão, e não cessamos de derramar sangue e de acender fogueiras, desde os tempos de Constantino…”  (pg. 62)

 Voltaire, como se sabe, não era ateu – e até mesmo dá amostras de ateofobia em certos momentos, ao referir-se por exemplo àqueles que “inclinam-se para o ateísmo e tornam-se depravados” (pg. 64). Ora, desde quando o ateísmo acarreta necessariamente a “depravação”? Não é esta uma tese de padres e monges, que demonstra um preconceito contra os tão perseguidos dos descrentes?

De qualquer modo, Voltaire considera este “um péssimo argumento”: “os católicos liquidaram um certo número de huguenotes, e os huguenotes, por sua vez, assassinaram um certo número de católicos, logo, não existe Deus” (pg. 65). Em outros termos: não se julga da inexistência de Deus a partir das insanidades de seus diferentes fã-clubes. Os fiéis cometem horrores, mas nenhum destes horrores testemunha suficientemente em prol do ateísmo – e eis a profissão de fé de Voltaire:

 “Eu concluiria afirmando que existe um Deus que, após esta vida passageira, na qual o desconhecemos tanto, e cometemos tantos crimes em seu nome, dignar-se-á a consolar-nos de tão horríveis infortúnios: pois, considerando as guerras de religião, os quarenta cismas dos papas,  quase todos sangrentos; as imposturas, quase todas funestas; os ódios irreconciliáveis acesos pelas diferentes opiniões; considerando todos os males que o falso zelo produziu, os homens há muito têm tido o seu inferno nesta vida” (pg. 65).

Mas não seria um argumento fraco querer derivar do inferno terrestre, por sua mera existência atestada pelos fratricídios, parricídios e genocídios que atravessam a história humana, a existência de um Deus consolador de infortúnios?  Em outros termos: a existência do mal e do sofrimento é garantia que um céu-de-recompensa aguarda a todos os sofredores?

O essencial em Voltaire, concordemos ou não com sua crença em um Deus que “terá a dignidade de consolar-nos de tão horríveis infortúnios”, é que encontram-se em suas páginas algumas vívidas descrições de eventos históricos onde a intolerância e o fanatismo conduziram a grandes catástrofes. O “princípio universal” da moral voltairiana, como expressa no Tratado Sobre a Tolerância, aquele princípio moral que vale “em toda a terra”, seria o “não faz o que não gostarias que te fizessem.” E Voltaire se apressa em adicionar, como contra-exemplo, a atitude de muitos fanáticos religiosos, que reivindicam aos brados seu direito à intolerância: “Crê, ou te abomino! Crê, ou te farei todo o mal que puder! Monstro, não tens minha religião, logo não tens religião alguma! Cumpre que sejas odiado por teus vizinhos, tua cidade, tua província.” (pg. 37-38)

Ora, a história está repleta – e também o estão as páginas de Voltaire e Michelet – de casos de pessoas que foram taxadas de “hereges” e que, “como atacavam dogmas muito respeitados, a primeira resposta que lhes deram foi jogá-los na fogueira.” (p. 20) Quantos Giordanos Brunos não foram queimados vivos, junto com suas obras? E quem um dia poderá calcular o valor inestimável de tudo o que se perdeu com o incêndio da Biblioteca de Alexandria?

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Se a intolerância fosse um direito, isso seria a legitimização da barbárie. “Caberia então que o japonês detestasse o chinês, o qual execraria o siamês; o mongol arrancaria o coração do primeiro malabar que encontrasse; o malabar poderia degolar o persa, que poderia massacrar o turco – e todos juntos se lançariam sobre os cristãos, que por muito tempo devoraram-se uns aos outros.” (pg. 38) Quadro sinistro, e tão mais assustador pois se assemelha ao que ocorre de fato com frequência espantosa na história humana. “O direito à intolerância é, pois, absurdo e bárbaro; é o direito dos tigres, e bem mais horrível, pois os tigres só atacam para comer, enquanto nós exterminamo-nos por parágrafos.” (p. 38)

Apenas mais dois exemplos de sinistra intolerância homicida narrados por Voltaire: 1) “Na guerra contra os madianitas, Moisés ordenou que fossem mortas todas as crianças do sexo masculino e todas as mães, e que os despojos fossem partilhados. Os vencedores encontraram 675 mil ovelhas, 72 mil bois, 61 mil burros e 32 mil meninas; fizeram a partilha e mataram o resto.” (p. 77);  2) “Uma seita na Dinamarca sabia que todos os recém-nascidos que morrem sem batismo são condenados e que os que têm a felicidade de morrer imediatamente após receberem o batismo gozam da glória eterna.  Saíam, pois, a estrangular os meninos e meninas recém-batizados que encontrassem. Certamente, era fazer-lhes o maior bem possível: a uma só vez eram preservados do pecado, das misérias desta vida e do inferno, e enviados infalivelmente ao céu…” (p. 111)

Já o cristianismo, conforme o descreve Voltaire, é já em sua gênese uma religião sectária, que emerge como uma espécie de facção do judaísmo, como um ramo que se separa do tronco da tradição hebraica, ganhando com isso a intensa inimizade dos judeus: “os primeiros cristãos tinham como inimigos apenas os judeus, dos quais começavam a separar-se. Sabemos o ódio implacável que todos os sectários sentem pelos que abandonam sua seita.” (p. 46)  “Jesus submeteu-se à lei de Moisés desde sua infância até sua morte. Circuncidaram-no no oitavo dia, como todas as outras crianças. Se, depois, foi batizado no Jordão, tratava-se de uma cerimônia consagrada entre os judeus… Jesus observou todos os pontos da lei: festejou todos os dias de sabá; absteve-se das carnes proibidas; nascido israelita, viveu constantemente como israelita. (…) Levado ao governador romano da província e acusado caluniosamente de ser um perturbador da ordem pública, que dizia não ser preciso pagar o tributo a César e que, além do mais, se dizia rei dos judeus. É da maior evidência, portanto, que foi acusado de um crime de Estado.” (p. 94)

É até defensável que Jesus Cristo, como indivíduo, não tenha “estabelecido leis sanguinárias, ordenado a intolerância, mandado construir os cárceres da Inquisição, instituído os carrascos dos autos-de-fé” (87). Mas, como Nietzsche provoca, “o único cristão verdadeiro morreu na cruz”; e a religião que se construiria sobre o martírio de Jesus crucificado se desenvolverá envolvida em guerras sectárias infindáveis, e assim o permanecerá pelos séculos, com um derramamento de sangue que prosseguia na época de Voltaire – como o prova o caso Calas. O ódio que os judeus tinham por São Paulo, aliás,  é bem simbólico deste conflito de sectarismos: “Os Atos dos Apóstolos nos mostram que, tendo São Paulo sido acusado pelos judeus de querer destruir a lei mosaica em nome de Jesus Cristo, São Tiago propôs a São Paulo que raspasse a cabeça e fosse purificar-se no templo com quatro judeus… Paulo, cristão, foi portanto cumprir todas as cerimônias judaicas durante 7 dias; mas os 7 dias ainda não haviam transcorrido quando judeus da Ásia o reconheceram e, vendo que ele havia entrado no templo, acusaram-no de profanação. Paulo foi preso, levado ante o governador Félix, em seguida enviado ao tribunal… Os judeus em coro exigiram sua morte.” (pg. 45)

Há em todo fanatismo um elemento “imperialista”, um desejo de conversão do mundo inteiro à sua crença, como se fosse possível uma uniformização religiosa da humanidade, algo que Voltaire com toda razão afirma ser quimérico e insano: “Seria o cúmulo da loucura pretender fazer todos os homens pensarem de uma maneira uniforme sobre a metafísica. Seria bem mais fácil subjugar o universo inteiro pelas armas do que subjugar todos os espíritos de uma única cidade.” (p. 121)

Como remédio contra os sectarismos fanáticos e homicidas, que só conseguem lidar com o diferente na base da exclusão ou da extinção, que querem o outro morto ou torturado se este não compartilha da mesma fé, Voltaire receita o bálsamo de um reconhecimento lúcido de nossa posição no seio da Natureza:

A natureza diz a todos os homens: “fiz todos vós nascerem fracos e ignorantes, para vegetarem alguns minutos na terra e adubarem-na com vossos cadáveres. Já que sois fracos, auxiliai-vos; já que sois ignorantes, instruí-vos e tolerai-vos. Ainda que fôsseis todos da mesma opinião, o que certamente jamais acontecerá, ainda que só houvesse um único homem com opinião contrária, deveríeis perdoá-lo, pois sou eu que o faço pensar como ele pensa. Eu vos dei braços para cultivar a terra e um pequeno lume de razão para vos guiar; pus em vossos corações um germe de compaixão para que uns ajudem os outros a suportar a vida. (…) Sou eu apenas que vos une, sem que o saibais, por vossas necessidades mútuas, mesmo em meio a vossas guerras cruéis tão levianamente empreendidas, palco eterno das faltas, dos riscos e das infelicidades. (…) Com minhas mãos plantei os alicerces de um prédio imenso; ele era sólido e simples, todos os homens nele podiam entrar com segurança; quiseram acrescentar os ornamentos mais bizarros, mais grosseiros e mais inúteis; e o prédio começa a desmoronar por todos os lados; os homens pegam as pedras e as atiram uns contra os outros; grito-lhes: Parai, afastai esses escombros funestos que são vossa obra e habitai comigo em paz no prédio inabalável que é o meu. (pg. 142)

Contra a megalomania de todas as religiões monoteístas, que são todas antropocêntricas e concebem o Homem no centro da Criação, criatura predileta do Criador, cabe frisar nossa pequenez cósmica e o delírio que há em seitas que, apesar de minúsculas no espaço-e-no-tempo, tem a pretensão descabida de serem as beneficiárias principais das graças do Todo-Poderoso. “Este pequeno globo, que não é mais do que um ponto, gira no espaço como tantos outros globos; estamos perdidos nessa imensidão. O homem, com cerca de um metro e sessenta de altura, é seguramente algo pequeno na criação. Um desses seres imperceptíveis diz a alguns de seus vizinhos: Escutem-me, pois o Deus de todos esses mundos me falou! Há 900 milhões de pequenas formigas como nós sobre a terra, mas apenas o meu formigueiro é bem-visto por Deus; todos os outros lhe causam horror desde toda a eternidade; meu formigueiro será o único afortunado, e todos os outros serão desafortunados.” (p. 126)

Nietzsche, que admirava tanto Voltaire que dedicou seu Humano Demasiado Humano ao grande iluminista francês no centenário de sua morte, re-utiliza a metáfora de formiga em um aforismo brilhante de O Viajante e Sua Sombra, onde o homem é descrito como “O Comediante do Mundo” e a “inventividade espiritual da mais vaidosa criatura, o inventor do inventor”, é exposta com a verve satírica e o faro crítico características do filósofo da “morte de Deus”:

O homem, comediante do mundo – Deveria haver criaturas mais espirituais do que os homens, apenas para fruir inteiramente o humor que há no fato de o homem se enxergar como a finalidade da existência do mundo. (…) Os astrônomos, que às vezes podem realmente dispor de um panorama distanciado da Terra, dão a entender que a gota de vida no mundo é sem importância para o caráter geral do tremendo oceano do devir e decorrer; que um sem-número de astros tem condições similares às da Terra para a geração da vida; que a vida, em cada um desses astros, em relação ao tempo de sua existência, foi um instante, um bruxuleio, com longuíssimos lapsos de tempo atrás de si – ou seja, de modo algum a finalidade e intenção derradeira de sua existência. Talvez uma formiga, numa floresta, imagine ser a finalidade e intenção da existência da floresta, de forma tão intensa como fazemos ao espontaneamente ligar o fim da humanidade ao fim do planeta, em nossa fantasia; e ainda somos modestos, se nos detemos nisso e não organizamos um crepúsculo geral dos deuses e do mundo, acompanhando o funeral do último homem. Mesmo o mais imparcial astrônomo não pode ver a Terra sem vida senão como o luminoso túmulo flutuante da humanidade.”

(O Viajante e Sua Sombra, aforismo 14, pg. 171 e 172.
Ed. Cia das Letras. Trad. Paulo César de Souza.
Em “
Humano Demasiado Humano Volume II”)

“POR QUE O LEGO É O BRINQUEDO MAIS GENIAL DO MUNDO?” – CARTA SOBRE A FILOSOFIA E A FÍSICA DE DEMÓCRITO (In: “O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder)

O artista Nathan Sawaya, que só esculpe usando peças de Lego

O artista Nathan Sawaya, que esculpe suas obras usando peças de Lego

Por que o Lego é o brinquedo mais genial do mundo?

Por Jostein Gaarder em “O Mundo de Sofia”
(Cia das Letras, pg. 56)

O Mundo de Sofia
“Sofia não tinha muita certeza se achava o Lego o brinquedo mais genial do mundo. Havia muitos anos ela não brincava mais com ele. Além disso, ela não conseguia entender o que Lego teria a ver com filosofia. Mas ela era uma aluna obediente. Remexeu o que pôde no maleiro de seu guarda-roupa e acabou achando uma sacola de plástico cheia de peças de Lego de todos os tamanhos e formas. Pela 1ª vez depois de muitos anos ela começou a construir alguma coisa com as peças de plástico. E, enquanto mexia com elas, começou a refletir sobre o que estava fazendo.

É fácil construir coisas com as peças do Lego, pensou. Embora elas sejam de diferentes tamanhos e formas, todas podem ser combinadas entre si. Além disso, elas são inquebráveis. Sofia não conseguia lembrar-se de um dia ter visto uma única peça de Lego quebrada. Todas pareciam tão novas quanto no dia em que as ganhou de presente, há muitos anos. E o mais importante: com as peças de Lego ela podia construir qualquer coisa, depois podia desmontar tudo e então construir outra coisa, completamente diferente.

O que mais se podia exigir de um brinquedo? Sofia chegou à conclusão de que as peças de Lego realmente podiam ser chamadas de o brinquedo mais genial do mundo. Mas ela ainda não tinha entendido o que aquilo tudo tinha a ver com filosofia… No dia seguinte, quando voltou da escola, Sofia encontrou outro envelope amarelo cheio de folhas datilografadas…

“Democritus”, retrato de Hendrik ter Brugghen

A TEORIA ATÔMICA

Que bom poder falar com você novamente, Sofia! Hoje vou lhe contar sobre um dos grandes filósofos da natureza, Demócrito (460 – 370 a.C.). Ele era natural da cidade portuária de Abdera, na costa norte do mar Egeu. Se você conseguiu responder à pergunta sobre as peças de Lego, certamente não terá dificuldade para entender o projeto deste filósofo.

Demócrito concordava com seus antecessores num ponto: as transformações que se podiam observar na natureza não significavam que algo realmente “se transformava”. Ele presumiu, então, que todas as coisas eram constituídas por uma infinidade de pedrinhas minúsculas, invisíveis, cada uma delas sendo eterna e imutável. A estas unidades mínimas Demócrito deu o nome de átomos.

A palavra “átomo” significa “indivisível”. Para Demócrito era muito importante estabelecer que as unidades constituintes de todas as coisas não podiam ser divididas em unidades ainda menores. Isto porque se os átomos também fossem passíveis de desintegração e pudessem ser divididos em unidades ainda menores, a natureza acabaria por se diluir totalmente. Como uma sopa que vai ficando cada vez mais rala.

Além disso, as “pedrinhas” constituintes da natureza tinham que ser eternas, pois nada pode surgir do nada… Para Demócrito, os átomos eram unidades firmes e sólidas. Só não podiam ser iguais, pois se todos os átomos fossem iguais não haveria explicação para o fato de eles se combinarem para formar de papoulas a oliveiras, do pêlo de um bode ao cabelo humano.

Demócrito achava que existia na natureza uma infinidade de átomos diferentes: alguns arredondados e lisos, outros irregulares e retorcidos. E precisamente porque suas formas eram tão irregulares é que eles podiam ser combinados para dar origem a corpos os mais diversos. Independentemente, porém, do número de átomos e de sua diversidade, todos eles seriam eternos, imutáveis e indivisíveis.

E agora acho que você não tem mais dúvida sobre o que eu queria dizer com as peças de Lego, não é? Elas possuem aproximadamente todas as características que Demócrito descreveu para os átomos. E é exatamente por isso que se prestam tão bem à construção de qualquer coisa. Em primeiro lugar, são indivisíveis. Em segundo, diferem entre si na forma e no tamanho, são compactas e impermeáveis. Além disso, as peças de Lego possuem ganchos e engates, por assim dizer, o que permite que sejam combinadas na construção de todo tipo de figura. Tais ligações podem ser desfeitas para que as mesmas peças possam ser reaproveitadas na construção de novos objetos.

Justamente por possibilitarem seu reaproveitamento é que as peças de Lego se tornaram tão populares. A mesma peça de Lego pode servir hoje para a construção de um carro, amanhã para um castelo. Ainda por cima, podemos dizer que são “eternas”. As crianças de hoje podem brincar com as mesmas pedras que fizeram a diversão de seus pais quando eles ainda eram crianças.

Se um corpo – por exemplo, de uma árvore ou animal – morre e se decompõe, seus átomos se espalham e podem ser reaproveitados para dar origem a outros corpos. (…) Hoje em dia podemos dizer que a teoria atômica de Demócrito estava quase perfeita. Um átomo de hidrogênio presente numa célula da pontinha do meu nariz pode ter pertencido um dia à tromba de um elefante. Um átomo de carbono que está hoje no músculo do meu coração provavelmente esteve um dia na cauda de um dinossauro.

Hoje em dia, porém, a ciência descobriu que os átomos podem ser divididos em partículas ainda menores, as “partículas elementares”: prótons, nêutrons e elétrons. E talvez estas partículas também possam ser divididas em outros, menores ainda. Mas os físicos são unânimes em achar que em alguma parte deve haver um limite para esta divisão. Deve haver as chamadas partículas mínimas, a partir das quais toda a natureza se constrói.

Demócrito não teve acesso aos aparelhos eletrônicos de nossa época. Na verdade, sua única ferramenta foi a razão. Mas a razão não lhe deixou escolha. Se aceitamos que nada pode se transformar, que nada surge do nada e que nada desaparece, então a natureza simplesmente tem de ser composta por pecinhas minúsculas, que se combinam e depois se separam…

As únicas coisas que existem são os átomos e o vácuo, dizia ele. E como ele só acreditava no “material”, nós o chamamos de materialista. Por detrás do movimento dos átomos, portanto, não havia determinada “intenção”. Mas isto não significa que tudo o que acontece é um “acaso”, pois tudo é regido pelas inalteráveis leis da natureza. Demócrito acreditava que tudo o que acontece tem uma causa natural… Conta-se que ele teria dito que preferiria descobrir uma lei natural a se tornar rei da Pérsia.

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LEGO (J. GAARDER)

SAIBA MAIS SOBRE A FILOSOFIA E A FÍSICA DE DEMÓCRITO
(COM COMENTÁRIOS DE ANTONIO VIEIRA… À KARL MARX!)

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SLIDES DAS AULAS DE FILOSOFIA // MAIO DE 2015
NO INSTITUTO FEDERAL DE GOIÁS (IFG)
Prof. Eduardo Carli de Moraes

TURMAS: Instrumentos Musicais, Mineração, Eletrotécnica, Telecomunicações e Edificações.

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ALGUNS VÍDEOS:

COSMOS RELOADED: Carl Sagan’s cosmictrip is reborn with Neil deGrasse Tyson

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COSMOS RELOADED

Eduardo Carli de Moraes

“L’infinie variété des formes sous lesquelles la matière nous apparaît, elle ne les emprunte pas à un autre être, elle ne les reçoit pas du dehors, mais elle les tire d’elle-même, elle les fait sortir de son propre sein. La matière est en realité toute la nature et la mère des vivants.” — GIORDANO BRUNO (1548-1600), quoted in Histoire du Materialisme, by F.A. Lange, pg. 213.

Back on the air, all dressed-up with fancy hi-tech special effects, and with Neil deGrasse Tyson as the spaceship’s pilot, the Cosmos TV-trip has descended once more among us.

Back in the late 70s and early 80s, Carl Sagan’s original series – Cosmos: A Personal Voyage – offered quite a mind-boggling journey through the universe in 13 episodes that did an excellent job in taking science to the masses and instigating mystical awe about such a grandiose spectacle as Nature-As-A-Whole. It remains to be seen if the new Cosmos will live up to Sagan’s, but the first episode of the brand-new Fox-produced Space-Time Odyssey has made in myself a good impression. It’s quite a ride.

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Giordano Bruno (1548-1600), Italian philosopher and astronomer, burned at the stake by the Holy Inquisition in 1600, in his recent depiction in Cosmos by animator Seth McFarlane

The least that can be said is that Tyson doesn’t shy away from confrontation with worldviews that are hostile to the scientific endeavour. To depict Giordano Bruno’s murder by the hands of the Holy Inquisition is certainly quite a controversial point of departure. But it proves that Cosmos starts this new phase with no fear of revealing those episodes in the history of Science in which religious zealots serves as obstacles in the way of those who quest for the truth. Bruno engulfed by the pious flames tells us a quite realistic picture of what Science went through in very Un-enlightned times, where religious leaders – and the masses manipulated by them – would rather reduce a scientist to silence by burning them alive at the stake, for public edification, than let truth out of its cave and into the open air…

To denounce the horrors commited by the clergy in an epoch where their authorities were backed-up by a teocratic State is still a relevant action in our own times, methinks – and let’s hope Cosmos can spread a wave of benign scepticism in the United States, where the hysteria against the right to interrupt pregnancy or the research with stem cells is surround by fundamentalism, dogmatism, fanaticism. Its quite shocking that a country that considers itself developed and advanced there are so many millions of people that still cling to the idea that the Bible’s Genesis is literally true and thus the world is only 6.000 years old and mankind was born-out ready-made from the hands of Jehovah with no need for a single minute of protoplasmical evolution…

The new Cosmos is apt to thrown some more wood into the flame of a discussion that stills opposes bitterly antagonistic world-views: Creationism and Evolutionism will once again clash. And there’s little doubt in my mind about which side of the fence Cosmos will barricade itself in, together with its armies of empirical facts and astronomical observations (exposed with cinematic techniques that’ll take our breaths away…).

The curious thing to witness, as a sociological phenomenon, is how in the 21st century there are still legions of humans who refuse to open their minds to an explanation of the world that doesn’t rely on talking serpents, forbidden fruits, and wrathfuls god. To suggest that Christian cosmology has been proved false by centuries of scientific discoveries, made by generations of colaborating thinkers, is still felt by many as an offense. Some believers will surely refuse to see Cosmos, or will see it and then bully it, or will cry out for censorship against such an heretic TV-show…

It’s no use: the Cosmos powertrip will roll on, and let’s hope it has the courage to inform a wider audience about how Science works, and the discoveries it has made, without sacrificing truth in the altar of superstition or prejudice. Carl Sagan himself had quite a powerful voice in favour of secularization of thought and freedom of expression, and Tyson, it seems to be, truly gets the mood and the attitude that made Sagan’s ouevre so compelling. Science is not easy – it often gets attacked by those who believe they are already in possession of absolute and divine truth, and thus feel they have the right to send the infidels and heretics straight to hell. Baptised with fire right here and right now for daring to explain the world in such a way that contradicts what priests and popes preach.

After millenia believing the Earth was the center of the Universe, and the Sun and all other stars flew around us, this narcisistic delusion crumbled apart, especially after Copernicus, Bruno, Galileo and Kepler, among others. I’ll not venture here to remember this saga – you might consult Arthur Koestler’s The Sleepwalkers for an excellent survey on mankind’s changing cosmologies throughout history. The thing is: Cosmos has got its audience reflecting once again upon what Sigmund Freud described as the first “wound” to our narcisism (that was to be followed by other blows by Darwin and by Psychoanalysis). Since Science has shown the Earth as a speck of dust in the infinite ocean of matter, and the star we call Sun was revealed to be just one inflamed star among billions of others stars (with trillions of orbiting worlds), biblical delusions of grandeur tend to get démodé.

Agora Movie French Poster

What’s intriguing and exciting about Science is its crooked ways, its winding path – it doesn’t follow a straight line, and it doesn’t necessarily evolve. The Middle Ages prevailing cosmology – in tune with theocracy and a powerful clergy – was a thousand-year denial of our true position in the cosmos. When we look back to the past, we discover that since ancient times there were astronomers and physicists who already suspected that theocratic-geocentrism was a delusion of egotistical creatures who were blinded by their self-interested perspectives.

But the long-term survival of Ptolomaic cosmology shows us how stubborn an illusion can be – especially when it satisfies the inner Narcissus we all carry around with us within our breasts. Sometimes a delusional cosmology sticks with mankind for centuries, transmited for generations, until finally truth breaks through and a leap of consciousness is achieved. By crooked ways, mankind leaps forward into a more authentic awareness of cosmic reality, shedding its religious skin for another cosmology that does more justice to the Universe’s complexity.

In Alejandro Amenábar’s excellent epic Agora, for example, we get acquainted with Hypathia (embodied by Rachel Weisz in one of her greatest performances as actress). The film portrays her life (estimated between 350 and 415 AD) as a philosophy teacher and astronomical researcher in Alexandria at times where religious war was raging. Christians against Pagans, and later Jews against Christian, killed each other savagely and burnt each other’s cultures in bloody rivalry, while Hypatia devoted her mind to deciphering the mystery of stary skies and planetary motions.

Inspired by the ideas of the Greek astronomer and mathematician Aristarchus of Samos (310 – 230 B.C.), this Egyptian woman end-up concluding, a thousand years before Copernicus, that the Sun was at the center of our planetary system and the Earth was but one planet locked in an elliptical orbit around it. But Hypatia lived in troubled times and soon her work in Alexandria would be deranged by the outbreak of war all around her. Centuries of philosophical, astronomical and scientifical endeavours were reduced to ashes and dust by the flames that the Christians set to Alexandria’s Lybrary, where fragile treasures of the ancient world were kept alive.

Hopefully, the Cosmos come-back will be a mind-opening, consciousness-expanding, awe-inspiring trip. The time has come for us to do justice to figures of our past – such as Hypathia or Giordano Bruno, among many others – who ended-up persecuted or murdered for their discoveries and their teachings.  We no longer live in times where witch-hunts and genocide of infidels are day-to-day occurences, and let’s hope that Cosmos new encarnation can help us out on our journey to a world with less dogmas and zealotry, and much more awe and dialogue.

Every single atom in our bodies was cooked in the burning belly of a star: we’re all made of star stuff, drifting in orbit around one of billions of suns, a planet bursting with life and newness and locked in a gravitational embrace while we journey through space-and-time at frantic speeds. Amidst this spectacle that defies expression in words, consciousness arises and emerges as a feature of life in this spec of dust, and the whys and hows of consciousness and its way through the evolution of lide are still our task to understand. For Sagan, we are the cosmos finally awaking to itself, witnessing itself, mirroring in on itself – conscious matter awakened to the cosmic soup that whirlwinds its way towards eternity with no beggining nor end.

Well, I confess that I can’t find anything in the Bible as awesome as that.


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:: a matéria é o todo da natureza e a mãe dos vivos ::

A infinita variedade de formas sob as quais a Matéria nos aparece, ela não a adquire de um outro ser, a Matéria não a recebe de fora, ela a faz sair de seu próprio seio. A matéria é, na realidade, o todo da natureza e a mãe dos vivos.

(“L’infinie variété des formes sous lesquelles la matière nous apparaît, elle ne les emprunte pas à un autre être, elle ne les reçoit pas du dehors, mais elle les tire d’elle-même, elle les fait sortir de son propre sein. La matière est en realité toute la nature et la mère des vivants.”)

GIORDANO BRUNO (1548-1600)
in: História do Materialismo, de F.A. Lange, pg. 213.