“Além da metafísica e do niilismo: a cosmovisão trágica de Nietzsche” (Mestrado // Eduardo Carli de Moraes)

Mestrado

Pessoal, disponibilizei na íntegra no portal Academia.edu a dissertação que nasceu como fruto dos meus 2 anos de Mestrado, na faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Goiás – UFG: (voilà!) >>> http://bit.ly/1wvIY0b. Evoé, Friedrich Nietzsche!!! Este mestrado foi defendido em Novembro de 2013 diante da banca ilustre composta por Adriano Correia, Adriana Delbó e Maria Cristina Franco Ferraz. Agora, o arquivo está aí, compartilhado e liberado pra ser lido na Internet, baixado de graça e “pirateado” livremente (é filosofia copyleft…); todo e qualquer feedback será bem-vindo! Eis o link para download em PDF (menos de 2 megabytes).

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MORAES, E. C. Além da metafísica e do niilismo: a cosmovisão trágica de Nietzsche. Dissertação (Mestrado em Filosofia), Universidade Federal de Goiás. 2013.

Esta dissertação de mestrado tem por objetivo refletir sobre a filosofia de Friedrich Nietzsche (1844-1900), compreendida como tentativa de superação tanto da metafísica quanto do niilismo. Destaca-se a valorização nietzschiana de um pensamento dotado de senso histórico, fiel ao devir ininterrupto do real, o que implica em uma cosmovisão semelhante à de Heráclito. Defende-se que a posição peculiar de Nietzsche na história da filosofia moral consiste na análise crítica da multiplicidade de diferentes valorações morais, sempre remetidas a suas fontes humanas (demasiado humanas). Através da atenção às circunstâncias e condições de surgimento, desenvolvimento e ocaso dos diversos ideais, valores morais e doutrinas religiosas, procuramos mostrar como Nietzsche constitui uma filosofia que rompe com a noção de valores divinos e imutáveis, além de des-estabilizar crenças em verdades absolutas. De modo a ilustrar o método genealógico nietzschiano em operação, investigam-se fenômenos como o ressentimento e o ascetismo, re-inseridos no fluxo histórico e compreendidos a partir de seus pressupostos psicológicos, fisiológicos e sócio-políticos. Com base em ampla pesquisa bibliográfica da obra de Nietzsche e comentadores (como Jaspers, Wotling, Rosset, Giacoiua, Moura, Ferraz, dentre outros), argumenta-se que a filosofia nietzschiana realiza uma ultrapassagem da cisão platônico-cristã entre dois mundos, além de uma superação do dualismo entre corpo e espírito. Procura-se descrever como a filosofia anti-idealista de Nietzsche, avessa ao absolutismo e ao sobrenaturalismo, age como uma “escola da suspeita”, convidando-nos a um filosofar liberto de subserviência, credulidade e obediência acrítica à tradição. Explora-se também a temática da “morte de Deus” e da derrocada dos valores judaico-cristãos, além da concomitante escalada do niilismo, no contexto de uma filosofia que busca sugerir e abrir novas vias para a aventura humana ao mobilizar conceitos como amor fati, além-do-homem e “fidelidade à terra”. Nietzsche é compreendido não somente em seu potencial crítico, demolidor da tradição idealista e metafísica, mas também como criador de uma sabedoria trágica e dionisíaca que se posiciona nas antípodas tanto dos ideais ascéticos quanto dos ideários niilistas.

PALAVRAS-CHAVE: Friedrich Nietzsche, Sabedoria Trágica, Crítica à Metafísica, Niilismo, Ética.

LEIA / BAIXE: http://bit.ly/1wvIY0b

Nietzsche: Além da Metafísica e do Niilismo…

nietzsche + munch

Nietzsche representado em pintura de Edvard Munch (1863–1944)

Na última sexta-feira, 08 de Novembro, defendi minha tese de mestrado, Além da Metafísica e do Niilismo: a Cosmovisão Trágica de Nietzsche, na Faculdade de Filosofia da UFG (Universidade Federal de Goiás). A banca foi integrada por meu orientador Adriano Correia, pela professora Adriana Delbó, ambos da própria UFG, além da convidada Maria Cristina Franco Ferraz (da UFF – RJ), autora dos livros O Bufão dos Deuses, Nove Variações Sobre Temas Nietzschianos e Homo Deletabilis – Corpo, Percepção e Esquecimento do século XIX ao XXI, dentre outros. Os três foram muito simpáticos, prestativos e generosos em suas falas e realmente me auxiliaram muitíssimo com este feedback sobre meu trabalho. Aproveito para agradecer a presença do público que apareceu para prestigiar esta defesa – valeu mesmo a todo mundo que compareceu! Minhas saudações agradecidas aos amigos Anna Paula Campos, Juliana Damázio, Juliana Marra, Kárita Melo, Lídia Freitas, Ramon Pereira, Éder David Freitas, Walquíria Batista, William Bento, e a meus pais João e Mara.

Pra mim este rito de passagem, coroação dos últimos dois anos de intensos estudos e escritos, foi uma experiência intensa, memorável, enriquecedora. O diálogo com a banca realmente abriu meus olhos para certos defeitos e imperfeições do meu trabalho, mas também me deixou satisfeito com a confirmação de seus méritos e com o reconhecimento de seus valores; e agora é seguir avante, investigando e suspeitando, descobrindo e re-questionando, porque o mergulho no pensamento de Nietzsche jamais foi para mim somente um interesse acadêmico, mas algo que seduz e convoca desde as vísceras – e prossigo com vontade de me aprofundar no contato com esta obra magnífica, perturbadora, urgente, tonificante…

Nada seria menos nietzschiano do que acomodar-se na crença de já conhecer Nietzsche, quando este pensador convida muito mais a que nunca estacionemos ou estagnemos em nenhum degrau do conhecimento, mas prossigamos subindo a aventurosa escada do saber – e do criar.  A superação do atual me parece uma convocação constante do pensamento nietzschiano, que repudia todo comodismo e toda estagnação, convidando-nos a uma postura existencial de procura contínua de superar o dado e criar o novo. E esta escada não leva ao céu, mas sim ao futuro – “a única transcendência do homem sem deus”, como diz Camus. Na sequência, compartilho o meu “discurso de abertura”, tentativa de “síntese” do que procuro explorar em mais detalhe e minúcia na tese, além de uma fotografia da banca, souvenir desta “manhã clara e nietzschiana”…

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Gianni Vattimo (1936 - ), pensador italiano, autor de "Diálogos com Nietzsch" (Ed. Martins Fontes),

Gianni Vattimo (1936 – ), pensador italiano, autor de “Diálogos com Nietzsche” (Ed. Martins Fontes),

Bom dia! Agradeço pela presença de todos. E aproveito para saudar os membros da banca e dizer que me sinto como um aprendiz diante de educadores que contribuíram muito com a minha formação durante este mestrado – e a quem manifesto desde já minha gratidão. Nestes 15 minutos iniciais, vou fazer uma breve introdução sobre minha pesquisa sobre Nietzsche – um pensador que, nas palavras de um de seus comentadores, Gianni Vattimo, é “decisivo para o nosso presente e ainda repleto de futuro.”

 Uma das frases mais célebres de Nietzsche está em Ecce Homo: “Eu não sou um homem, eu sou dinamite” [1]. Já o sub-título de Crepúsculo dos Ídolos traz outra imagem de impacto: “Como filosofar com o martelo”. Estes dois retratos que Nietzsche pinta de si mesmo mostram que o filósofo sabe do potencial explosivo de suas críticas e demolições. Mas não nos esqueçamos que a dinamite não serve apenas para destruir e arruinar, mas também para abrir terreno para novas construções [2]. E também que um martelo, nas mãos de um escultor, serve para transformar um bloco de pedra em uma obra-de-arte, e que um médico, por sua vez, utiliza o martelo como instrumento para um diagnóstico clínico.

Na minha investigação, procurei compreender a filosofia nietzschiana como um empreendimento em que as facetas crítica e a criativa são indissociáveis, em que o destruidor e o criador estão reunidos. Uma máxima de A Gaia Ciência expressa isso muito bem: “Somente enquanto criadores temos o direito de destruir!” [3] Não considero, portanto, que o pensamento de Nietzsche seja motivado por um ímpeto apenas iconoclasta, polêmico e aniquilador. Mas sim que procura contribuir para libertar-nos do jugo de morais autoritárias, valores anti-naturais, superstições daninhas, dogmas inquestionados etc. A sabedoria nietzschiana nos convida à afirmação e à celebração da existência, em prol do desabrochar de potencialidades ainda não efetivadas, em favor de uma vitalidade ascendente e transbordante.

Neste trabalho, procurei mostrar que Nietzsche realiza não apenas uma crítica devastadora dos sistemas filosóficos metafísicos, das religiões instituídas e dos valores morais sacrossantos. Mas que há também um esforço, por parte do filósofo, em compartilhar uma sabedoria cujas características procurei explorar e que inclui uma revalorização do corpo, da sensorialidade, do devir, da multiplicidade, da alteridade, da pluralidade de perspectivas etc.

karamazov

“Se Deus não existisse, tudo seria permitido.” – Ivan Karamázov, personagem de Dostoiévski (1821-1881)

Apesar de muitas vezes referir-se a si mesmo como um “imoralista”, isto não significa, como procurei argumentar, que Nietzsche faça apologia de um vale-tudo moral, onde é abolida toda e qualquer responsabilidade e dever. Seria  simplista e falsificador atribuir a Nietzsche a célebre idéia do personagem de Dostoiévski, Ivan Karamázov, que sustenta que “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. Procurei mostrar que a morte de Deus, em Nietzsche, é vista como acontecimento potencialmente libertador, como ocasião para a emergência de novos valores e estilos-de-vida.

“As consequências mais próximas [da morte de Deus], suas consequências para nós, não são, ao inverso do que talvez se poderia esperar, nada tristes e ensombrecedoras, mas antes são como uma nova espécie, difícil de descrever, de luz, felicidade, facilidade, serenidade, encorajamento, aurora… De fato, nós filósofos e ‘espíritos livres’ sentimo-nos, à notícia de que ‘o velho Deus está morto’, como que iluminados pelos raios de uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, assombro, pressentimento, expectativa – eis que enfim o horizonte nos aparece livre outra vez, posto mesmo que não esteja claro, enfim podemos lançar outra vez a o largo nossos navios, navegar a todo perigo, toda ousadia do conhecedor é outra vez permitida, o mar, o nosso mar, está outra vez aberto, talvez nunca dantes houve tanto ‘mar aberto’…” (A Gaia Ciência, 343)

Procurei destacar a ruptura que Nietzsche realiza com uma das correntes hegemônicas da filosofia ocidental, o platonismo, em especial a cisão do real em dois “mundos” (o Sensível e o Inteligível), o que Nietzsche considera uma “fábula”. A ideia de um mundo metafísico, sobrenatural, suposta morada do absoluto e do imutável, seria, segundo o pensamento nietzschiano, um dos mais duradouros equívocos da história da filosofia. Procurei argumentar que, em Nietzsche, todos os conceitos abstratos da razão, forjados a partir da experiência empírica, permanecem tendo uma existência derivada, como produção de cérebros humanos necessariamente vinculados a corpos animados pela vontade. Procuramos elucidar, portanto, o quanto a filosofia de Nietzsche procura refletir sobre a base fisiológica e psico-somática de onde emergem os conceitos abstratos, os valores morais, as doutrinas religiosas etc. Trata-se, como indica Patrick Wotling, de “denunciar as interpretações falíveis que desde Platão triunfam na tradição filosófica, interpretações idealistas, que esquecem seu estatuto e sua fonte produtora, o corpo.” [4]

Procurei elucidar que Nietzsche se mostra contrário a todas as moralidades baseadas no ideal ascético, ou seja, que negam valor ao corpo, ao desejo, às paixões, ao tempo, à esfera dita “mundana”. A ascese, isto é, o esforço auto-mortificante de purificação, baseia-se em geral na crença em uma alma imortal, que supõe-se destinada a um destino glorioso no além-túmulo. Nietzsche diagnostica neste ideal ascético uma hostilidade contra a vida, uma “calúnia” contra a realidade terrena, um anátema lançado contra o corpo e seus instintos, uma incapacidade de afirmação da existência em sua real finitude e em seus incontornáveis tormentos. Como diz Oswaldo Giacóia, o ideal ascético, como se manifesta por exemplo no platonismo e no cristianismo, “leva a efeito um movimento de completa desvalorização da imanência em proveito da transcendência. (…) Representa, assim, a desvalorização absoluta do ‘mundo’ e da ‘vida’ em proveito de uma vida imaginária, de um ‘além-do-mundo’.”[5]

O esforço de crítica da moral que Nietzsche empreende, portanto, tem como intenção possibilitar uma libertação das energias vitais que foram sufocadas, reprimidas e culpabilizadas por doutrinas morais ascéticas que oprimem os corpos, condenam os prazeres e pregam a hipertrofia de uma razão tirânica contra as paixões. Como diz Tongeren, “mediante uma crítica à moral, Nietzsche pretende abandonar intencionalmente o caminho aplainado e descobrir a abertura para aquilo que é possível para além desse horizonte, a abertura para ‘muitas auroras que ainda não brilharam’.” [6]

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nietzsche (2)
Em meu trabalho destaco também que Nietzsche confere muita importância ao senso histórico, isto é, a um pensamento filosófico sempre atento ao ininterrupto fluir do tempo. Nietzsche forjou seu método genealógico no intento de compreender como vieram-a-ser as instituições, legislações, valores morais, costumes e crenças com que hoje nos deparamos. Compreender a origem histórica dos valores morais e relacionar seu surgimento a conflitos sociais de classe e jogos de dominação equivale a mostrar quão infundada e ilegítima é a pretensão das morais e das religiões de possuírem uma verdade eterna de fonte divina. Em Humano, Demasiado Humano, por exemplo, Nietzsche critica um defeito de muitos filósofos, que:

“Involuntariamente imaginam o homem como uma verdade eterna, como uma constante em todo o redemoinho, uma medida segura das coisas. Muitos chegam a tomar a configuração mais recente do homem, tal como surgiu sob a pressão de certas religiões e de certos eventos políticos, como a forma fixa de que se deve partir. Não querem aprender que o homem veio a ser, e que mesmo a faculdade de cognição veio a ser…  Tudo veio a ser, não existem fatos eternos, assim como não existem verdades absolutas. – Portanto, o filosofar histórico é doravante necessário, e com ele a virtude da modéstia.” [7]

heraclito

“Tudo flui. Não se entra duas vezes no mesmo rio.” – Heráclito de Éfeso (535 a.C. – 475 a.C.)

Quis mostrar que a filosofia de Nietzsche combate, portanto, a idéia de que existem valores morais, sistemas filosóficos ou doutrinas religiosas de validade eterna, verdade absoluta ou universalidade legítima. A própria Humanidade é concebida como um fenômeno histórico, re-inserida na Natureza que lhe deu origem, de modo que Nietzsche rompe também com a noção criacionista de uma origem sobrenatural para o homem. Por estar “embarcado” na correnteza da história, e por ser uma espécie animal dentre milhões de outras que co-existem no seio da Natureza em fluxo, o homem é inescapavelmente um ser mutante, que integra um cosmos eternamente movediço. Quer aceite este seu destino, quer lute contra ele, cada um de nós, para usar a expressão da canção de Raul Seixas, é uma “metamorfose ambulante”. Procuro compreender o pensamento de Nietzsche, portanto, como fiel ao preceito do filósofo grego Heráclito, que sustentava que “tudo flui” e que “é impossível entrar duas vezes no mesmo rio”.

Considero ainda que Nietzsche jamais sugeriu “fazer tábula rasa do passado”, nunca elogiou o esquecimento da História ou o aniquilamento de seus legados, mas sim uma relação dinâmica e fecunda com o passado: como escreve Karl Jaspers, “em nenhuma parte Nietzsche estima o ato de esquecer o que foi transmitido pela história e recomeçar a partir do nada… Toda sua obra é penetrada por seu intercâmbio com a grandeza do passado, mesmo daquele que ele rejeitou.”[8]

Prova desta relação frutífera com o passado é o modo como Nietzsche reativa a potência do mundo grego pré-socrático, como por exemplo os ritos dionisíacos e a obra dos poetas trágicos (em especial Ésquilo e Sófloces). Nietzsche formulou assim uma sabedoria, que encarna em seu Zaratustra ou nos espíritos livres, cujas características procuramos explorar nessa pesquisa: trata-se de um sujeito afirmador de sua vontade e de seu corpo, criativo e questionador, capaz de superar todo ressentimento através do amor fati, que jamais se acomoda em sua estado atual e procura sempre superar-se, e que age no mundo mais como sátiro do que como santo, mais como dançarino do que como estátua. Em A Gaia Ciência, por exemplo, Nietzsche pinta o retrato do espírito livre, que seria dotado de “uma alegria e uma força de soberania  (…) em que o espírito recusaria toda fé, todo desejo de certeza, tendo prática em manter-se sobre as cordas leves de todas as possibilidades e até mesmo em dançar à beira do abismo. Esse seria o espírito livre por excelência.” [9]

Para Nietzsche, as convicções e os dogmas são inimigos do filósofo e prejudicam-nos em nossa aventura de conhecimento. Quem quer de fato tornar-se amigo da sabedoria tem de ousar libertar-se de certezas apaziguadoras, crenças reconfortantes e tomadas-de-partido inquestionadas. Como diz em Aurora: “A serpente que não pode mudar de pele perece. O mesmo ocorre com os espíritos que se impedem de mudar de opinião; cessam de ser espíritos.” [10] O filósofo autêntico, de acordo com Nietzsche, é uma figura em que se encarna um certo ímpeto heroico de busca pelo saber. Relembremos as palavras de Aurora:

“Nosso impulso ao conhecimento é demasiado forte para que ainda possamos estimar a felicidade sem conhecimento ou a felicidade de uma forte e firme ilusão. (…) A inquietude de descobrir e solucionar tornou-se tão atraente e imprescindível para nós (…) que o conhecimento transformou-se em paixão que não vacila ante nenhum sacrifício e nada teme, no fundo, senão sua própria extinção…” [11]

Um clássico comentário do pensamento de Nietzsche escrito por Karl Jaspers

Um clássico comentário do pensamento de Nietzsche escrito por Karl Jaspers

A filosofia, afinal, não é uma busca interesseira por ideias apaziguadoras ou convicções agradáveis, nem por um cômodo repouso no colo de verdades imutáveis, mas um heróico navegar, em mares perigosos, em busca de um saber sobre o real que nada garante que terá um sabor doce ou que vá nos tornar felizes. O filósofo autêntico, para Nietzsche, segundo nossa interpretação, é aquele que ousa ir à conquista de um saber, ainda que este possa ter um gosto amargo e ainda que acarrete consequências trágicas; é aquele que, como diz Karl Jaspers, tem a coragem de entrar no labirinto, como fez Teseu, mesmo sabendo que terá que defrontar-se com o Senhor Minotauro. [12]

Consideramos que o efeito do convívio com a obra Nietzsche é a de um tônico para a vontade-de-viver. Eis uma filosofia, enfim, onde há muita sabedoria a assimilar, em especial por aqueles que, como diz Giacóia, “não temem fazer dos abismos do sofrimento uma fonte inestimável de conhecimento.” [13]

Em suma: procuramos mostrar o pensamento de Nietzsche como superação tanto da metafísica quanto do niilismo, culminando numa cosmovisão trágica que, longe de ser pessimista, significa uma celebração dionisíaca da existência como ela é, sem exclusão de seus aspectos mais dolorosos e problemáticos. Arqui-inimigo da apatia da vontade, do niilismo desalentador, do ascetismo auto-mortificante, Nietzsche, através de sua obra, canta um hino à vida que inclui um louvor à alegria, aquele afeto que, segundo Spinoza, aumenta nossa potência de existir. Como diz Zaratustra: “Desde que existem homens, o homem se alegrou muito pouco: apenas isso, meus irmãos, é nosso pecado original!” [14] Já em Humano, Demasiado Humano, Nietzsche escreve: “Eis o melhor meio de começar cada dia: perguntar-se ao despertar se nesse dia não podemos dar alegria a pelo menos uma pessoa. Se isso pudesse valer como substituto do hábito religioso da oração, nossos semelhantes se beneficiariam com tal mudança.” [15]

Para concluir este prelúdio, cito mais uma instigante idéia de Nietzsche, que me parece um belo emblema de seu convite à “fidelidade à Terra”, em oposição à idolatria religiosa de ídolos sobrenaturais ou metafísicos: “Não há no mundo amor e bondade suficientes para que tenhamos direito de dá-los a seres imaginários.” [16]

Eduardo Carli de Moraes,
Goiânia – 08/11/2013

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REFERÊNCIAS:


[1] NIETZSCHE, Ecce Homo. Por Que Sou um Destino, §01.

[2] É o que aponta Martha Nussbaum: “Indeed, this was the whole purpose of genealogy as Nietzsche, Foucault’s precursor here, introduced it: to destroy idols once deemed necessary, and to clear the way for new possibilities of creation.” Citada por Brobjer, Nietzsche’s Ethics of Character, Pg. 49.

[3] NIETZSCHE. A Gaia Ciência, §58.

[4] Ibid. Pg. 155.

[5] GIACOIA, O. Labirintos da Alma: Nietzsche e a Auto-Supressão da Moral. Pg. 13-38.

[6] TONGEREN, P.V. A Moral da Crítica de Nietzsche à moral. Pg. 43-44.

[7] NIETZSCHE. Humano, Demasiado Humano. Capítulo 1, §2.

[8] JASPERS. Nietzsche: Introduction à sa Philosophie. Pg. 445.

[9] NIETZSCHE. A Gaia Ciência. §347.

[10] NIETZSCHE. Aurora.  §573.

[11] Ibid, §429.

[12] JASPERS. Op Cit. Pg. 231.

[13] GIACOIA. O Humano Como Memória e Como Promessa. Pg. 183.

[14] NIETZSCHE. Assim Falou Zaratustra. Op cit. Livro II, Dos Compassivos. Pg. 84.

[15] NIETZSCHE. Humano Demasiado Humano, §589.

[16] Humano, Demasiado Humano, § 129. Citado a partir de Lou Andreas-Salomé, op cit, Pg. 139: “Il n’y a pas assez d’amour et de bonté dans le monde pour avoir licence d’en rien prodiguer à des êtres imaginaires.”

Souvenir da banca na companhia de Adriana Delbó, Maria Cristina Franco Ferraz e Adriano Correia.

Um souvenir fotográfico da banca – com Adriana Delbó, Maria Cristina Franco Ferraz e Adriano Correia.

P.S. – nos próximos meses, tentarei desmembrar este mestrado em 3 ou 4 artigos, a serem publicados em revistas de filosofia, se possível, ou aqui no blog mesmo, pra “socializar” a pesquisa e “pôr na roda” o conhecimento. Em breve!

Siga viagem…

A Libertação da Pluralidade: Nietzsche por Gianni Vattimo

“Nietzsche é um pensador decisivo para o nosso presente
e ainda repleto de futuro.”

Gianni Vattimo
,
Diálogo Com Nietzsche
 (Ed. Martins Fontes, 2010)

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INEXAURÍVEL MINA DE DINAMIETZCHE

 A radicalidade, a iconoclastia e a rebeldia do pensamento de Nietzsche talvez expliquem seu status de perpétuo outsider da Civilização Ocidental: ele prossegue uma figura maldita, sempre reprimida e reduzida ao silêncio pelos defensores da religião e da moral, mas cuja obra poderosa e inquietante resiste e persiste, inspirando todos aqueles que concordam com este sinistro diagnóstico: “o homem como existiu até agora tem em si todos os defeitos e as neuroses de um cachorro envelhecido na corrente” (Vattimo: 2010, pg. 236). Se Nietzsche ainda está tão vivo e prossegue “repleto de futuro”, como diz Vattimo, é pois existe nele um apelo intenso à libertação e muitas pistas que indicam o caminho para ela.

 “A totalidade desse pensamento”, aponta Vattimo, “entra em choque com nossos modos de pensar mais arraigados, questionando-os violentamente” (pg. 50) O que explica a impressionante repercussão do pensamento de Nietzsche, que ecoou por todo o século 20 e prossegue seu trabalho de dinamite em nosso jovem século 21, além do talento literário exorbitante de Nietzsche como escritor, talvez seja a imensa força libertária desta filosofia. Ela seduz todos os que querem romper as cadeias psíquicas, quebrar os feitiços da submissão, libertar-se de mistificações mentirosas, despertar de todas as farsas culturais, ideológicas, religiosas ou políticas que foram e continuam sendo inculcadas nos humanos rebanhos.

 Foi ele, Nietzsche, quem “exercitou mais do que qualquer outro pensador moderno a desmitificação” (p. 64), alega Vattimo, apontando que há, neste sentido, uma afinidade entre o nietzschianismo e “duas linhas de pensamento de nossa época: o marxismo e a psicanálise”. “O que aproxima esses fenômenos, para além das muitas diferenças, é a vontade desmitificante que os domina.” (p. 112)

 Mas Vattimo adiciona uma ressalva importante: Nietzsche não somente quer expor as mentiras mitificadoras, mostrando “a verdadeira face que se esconde atrás de sua máscara” (pg. 64). Acreditar em uma Verdade que se esconderia por detrás das mitificações: eis algo que Nietzsche problematiza, questiona e põe em dúvida. A ponto de Vattimo dizer que “o mito que Nietzsche mais intensamente se dedicou a destruir é precisamente a crença na verdade.” (p. 115) Para compreender o que isso quer dizer, creio que é preciso relembrar da batalha feroz que Nietzsche empreende contra seu inimigo maior: a filosofia socrática/platônica e o cristianismo que nela baseou-se (este não passaria, vocês se lembram bem, de “platonismo para o povo”).

 Por causa de seu rompimento radical com a tradição platônica-cristã, Nietzsche não acredita mais na contraposição ou no contraste entre um Mundo Sensível (que é tido como meramente aparente, ilusório, insubstancial…) e um Mundo Verdadeiro (onde residiriam as “coisas em si”, as ideias eternas, tudo aquilo que goza da imortalidade negada aos fenômenos…).

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CRISTIANISMO: UMA FORMA DE NIILISMO

Se Nietzsche tanto critica a “decadência” da humanidade, é pois está sempre imbuído de uma intensa nostalgia pela Grécia gloriosa dos pré-socráticos, dos trágicos, dos líricos. A Civilização Cristã, em comparação com a Grécia, parece-lhe medíocre, doente, neurótica. Eis uma longuíssima ladeira abaixo, portanto, esta que estivemos descendo por uns 2.000 mil anos, à sombra da cruz e seguindo ovelhisticamente o cajado ascético dos pastores!

“Decadência, para Nietzsche, é a ciência que se desenvolve a partir do racionalismo socrático, e que se harmoniza perfeitamente com a moral cristã, para a qual o mundo real com que temos de lidar todos os dias é apenas provisório e aparente (como eram as coisas sensíveis para Platão, apenas imagens das ideias eternas), e tem sua autêntica verdade no mundo do além, prometido aos fiéis após a morte. A decadência da civilização europeia é um efeito da atitude ascética imposta tanto pelo racionalismo socrático-platônico quanto pelo cristianismo…” (304)

Nietzsche é ao mesmo tempo inimigo do niilismo e do cristianismo. Não é à toa: o cristianismo é justamente uma das formas do niilismo, uma doutrina que desvaloriza o mundo real, que calunia a natureza, que lança o valor para um “outro mundo” de conto-de-fadas. Vattimo: “Cristianismo, moral e metafísica são os componentes essenciais do niilismo; e eles são dominados pelo instinto da vingança.” (p. 35) Como aprende-se na Genealogia da Moral, o cristianismo é uma religião nascida do ressentimento dos escravos que, pisoteados pelo Império Romano, inventaram em sua impotência uma doutrina que lhes garante a vitória sobre os opressores. Estes oprimidos e desvalidos que, na origem, inventam e disseminam o cristianismo, ao mesmo tempo “criam uma tábua de imperativos em que dominam as virtudes do rebanho e da passividade.” (p. 37) Blessed are the meek. O nietzschianismo em uma pílula: “Os falsos caminhos que o homem do passado tomou para elevar-se acima de si mesmo são todos fundados na oposição de um mundo eterno ao mundo do devir. (…) Mas a fé na transcendência impede uma plena reconciliação com o mundo como ele é.” (p. 317)

 A morte de Deus, ou a perda da fé, não equivale a uma perda real: perde-se um fantasma, mas ganha-se com isso um aumento da responsabilidade humana. Deixar de crer em Deus, portanto, é uma libertação para a plena tomada do leme da barcola da vida em nossas próprias mãos:toda responsabilidade recai sobre nós. A morte de Deus, que Zaratustra anuncia, não é outra coisa que o fim das garantias de que o homem da metafísica tradicional se rodeara para se livrar da responsabilidade plena por seus atos. O homem novo que Nietzsche projeta e para o qual quer preparar o caminho com seu pensamento é o homem capaz de assumir plenamente suas próprias responsabilidades.” (p. 69)

 Compreende-se melhor, pois, que Nietzsche tenha tentado demolir também a crença na Verdade, ou seja, numa Verdade que está em Outro Mundo, ou em Deus, ou que fosse algum fundamento metafísico para os valores. Sobre este assunto, Vattimo explica:

 “O sujeito pensante que sai em busca dos ‘verdadeiros’ fundamentos dos valores em que se baseia nossa civilização, e em geral de tudo o que de humano e de digno existe no mundo, descobre ao final que até mesmo seu impulso para a verdade, sua fé na existência de uma verdade como fundo estável e certo, é ainda, por sua vez, mentira, produto cultural, meio para prolongar a grande festa teatral da existência. (…) A crítica da ideologia realizada apenas do ponto de vista da busca de uma verdade mais fundamental para apoiar os pés sempre levou, até agora, à reconstituição de castas mais ou menos sacerdotais: comitês centrais, sociedades de psicanalistas ‘autorizados’, mestres de vida e gurus de todos os tipos.” (p. 278-280)

 NIETZSCHE NÃO É SÓ DINAMITE…

 Qualquer um que se aventure a ler Nietzsche a fundo logo percebe: este iconoclasta e desmitificador, que dizia filosofar a golpes de martelo e ser menos um homem do que uma banana de dinamite, não é somente um destruidor. Ele não quer reduzir tudo a escombros e nada mais: “a desmitificação é um aspecto vinculado necessariamente à criação de novos mitos” (66). A ambição de Nietzsche não é somente lançar por terra e reduzir a pó a mitologia judaico-cristã, mas sugerir ideais alternativos, estilos-de-vida que ele julga mais dignos do futuro da humanidade do que a ancestral adoração do Crucificado. Por que não adoraríamos Dionísio ao invés de Cristo?

 Na obra de Nietzsche, portanto, mesclam-se as diatribes de um misantropo, que dá vazão a todo o seu fel e amargor contra seus medíocres contemporâneos, e as profecias poéticas de um messias de tempos novos. Diz Zaratustra (II: “Da Redenção”): “O presente e o passado aqui embaixo, meus amigos, me são insuportáveis, e eu não seria capaz de viver se não fosse um adivinho do que está por vir.” Em outro momento (III: “Do Grande Anelo”): “quem conhece como tu a volúpia das coisas por vir? Despojei-te da obediência, das genuflexões, das senilidades…”. Resta perguntar se não é possível estar de joelhos diante do futuro, obediente ao ideal dos amanhãs cantantes, e se o porvir glorioso não faz às vezes de um ópio substitutivo para aqueles que descriram dos ópios comuns…

 O Übbermensch – Super-Homem ou Além-do-Homem – é este mito novo que Nietzsche sugere como substituto para o antigo. Vattimo recomenda que convêm “não exorcizar sua carga subversiva reduzindo-o à proporção de um mito literário” (172): mais que um mero personagem literário ou ficção poética, o Além-do-Homem nietzschiano é uma sugestão de uma nova via para a humanidade:

“o super-homem de Nietzsche deve ser entendido como o anúncio de uma humanidade essencialmente diferente daquela que conhecemos e vivemos até agora; o super-homem é o homem capaz de não experimentar mais o valor como objeto separado, encarnando-o, ao contrário, totalmente na própria existência. (…) A esse enfoque se ligam outros temas interpretativos, como o da recuperação do homem total contra a fragmentação (e a divisão do trabalho), que mais diretamente sublinham a proximidade do super-homem nietzschiano com o projeto revolucionário marxista” (p. 166).

Aí se encontra uma das originalidades maiores da leitura de Vattimo: ele discorda veementemente de todas as apropriações nazi-fascistas da obra de Nietzsche e, como bom comunistão, chama Nietzsche para o time dos pensadores revolucionários, com os quais o proletariado teria muito a aprender em sua jornada rumo à libertação. Na opinião de Vattimo, encontra-se em Nietzsche “um projeto humano alternativo que, por ser mais atento às dimensões individuais, psicológicas e pulsionais da existência, pode oferecer ao movimento revolucionário do proletariado indicações válidas para a busca dos conteúdos morais alternativos que ele, por razões históricas e pelas próprias condições de exploração e de opressão, não foi capaz de elaborar.” (173)


O MUNDO DO ALÉM-DO-HOMEM É O MUNDO DA PLURALIDADE LIBERTA

Não parece despropositado nem absurdo à Vattimo falar em uma sabedoria nietzschiana. “Imaginamos espontaneamente o sábio como um velho, que no rosto encovado e nas rugas, no olhar distante e no discurso lento e solene, mostra os sinais de muitas experiências que o modificaram, ensinando-lhe, quase sempre por meio do sofrimento dos fracassos e do esforço das realizações, o verdadeiro sentido da vida. O velho lema da tragédia grega, aprende sofrendo, parece indelevelmente impresso na imagem comum da sabedoria.” (228)

 Será que o fato de Nietzsche ter morrido relativamente jovem, ou seja, de não ter atingido esta “idade das rugas” de que fala Vattimo, é o que basta para que recusemos a ele, sem mais reflexão, a qualificação de sábio? Tendo vivido uma existência profundamente sofredora, e tendo se dedicado tão visceralmente a meditar sobre a vida no próprio epicentro do furacão, não será Nietzsche um dos exemplos supremos, na filosofia dos últimos séculos, deste homem trágico que aprende sofrendo? Não é nesta direção que vai também a interessantíssima análise de Nietzsche que empreende Léon Chestov?

 Vattimo parece defender ao menos a possibilidade de que haja sabedoria em Nietzsche, contra aqueles críticos que fazem do “enlouquecimento de Nietzsche um sinal da justa punição que espera quem deseja ir muito acima, além do bem e do mal, e pretende superar os limites humanos em nome do ideal do super-homem.” (229) Ou seja: o naufrágio na loucura não prova que Nietzsche fosse insensato, mas denota que, além das causas propriamente fisiológicas que o atacaram, havia nele uma “radical impossibilidade de pertencer ao mundo a que pertencemos.” (p. 51)

 Onde estaria, pois, esta “sabedoria” que Vattimo (e tantos outros leitores e intérpretes!) julgam encontrar em profusão na obra nietzschiana? Sabe-se dos veementes protestos de Nietzsche contra o que ele chamava de “resignacionismo”, uma das razões que teve para romper com seu mestre de juventude, Schopenhauer. O ideal de Nietzsche, pois, não poderia estar na mera adaptação resignada e fatalista ao mundo. Como diz Vattimo, “o super-homem é aquele que institui com o mundo uma relação que não é o puro e simples reconhecimento da realidade como ela é, e tampouco uma ação moral referente apenas ao sujeito, mas uma verdadeira relação de recriação do próprio mundo, redimido do acaso e da brutalidade do evento numa criação poética em que vigora uma nova necessidade.” (11)

 O ideal de vida nietzschiano, portanto, varre para longe aquilo que foi entronado como virtude pela tradição judaico-cristã, e mesmo por filósofos como Platão e Schopenhauer: a ascese ascética e a resignação fatalista. “No lugar da ascese, entra um temperamento bom, uma alma segura, branda e no fundo alegre, que não tem nada do tom de resmungo e teimosia – essas características notórias e desagradáveis de cães e homens velhos que ficaram muito tempo acorrentados.” (271)

 Como um dos mais importantes filósofos a terem empreendido uma vasta e radical “crítica da cultura”, Nietzsche nos legou um trabalho sobre tudo aquilo que “marca profundamente a psicologia individual do homem moderno. Uma das características do homem contemporâneo em que Nietzsche mais insiste é a incapacidade de sair do imediato, de desejar em relação com o eterno, a restrição do desejo à esfera egoísta dos pequenos interesses… Perdida a fé em uma ordem providencial e imerso no fluxo irrefreável das coisas, o homem vive sua vida psíquica segundo um tempo que musicalmente seria possível definir como prestíssimo…”

 Estamos em território familiar: o homem individualista, consumista, mesquinho, faminto de prazeres imediatos, que não conhece seu passado e não se preocupa com seu futuro, “tipo” de que nossas metrópoles ocidentais estão repletas, é justamente o “homem” que precisa ser superado: ir além dele já é caminhar sobre este fio sobre o abismo que conduz ao Além-do-Homem. Vattimo sabe, como Nietzsche também sabia, que as civilizações são mutantes, que a roda da História não pára e que não há nada de mais insensato do que apostar que o futuro será idêntico ao presente. Estamos numa época de acelerada mutação e mudança. E Nietzsche, filósofo autenticamente heraclitiano, é um guia essencial para nós que descemos a correnteza destes tempos.

 “A vida não tem mais a estabilidade que tinha nas sociedades de desenvolvimento lento que deixamos para trás. O caso extremo das novas possibilidades que a pesquisa recente abriu para a manipulação genética, que nos coloca diante do inusitado desafio de uma modificação dos “códigos” da vida, talvez seja apenas o exemplo mais emblemático da nova condição com que nossa arte de viver tem de lidar.” (p. 229)

 Vattimo refere-se a um processo de “efetiva pluralização dos mundos” decorrente do “fim do colonialismo” e do “encontro de culturas” (234). Se Nietzsche é um pensador ainda com tanto futuro, é também pois ele nos auxilia, em plena era da globalização e da Aldeia Global, a encontrar uma sabedoria no próprio seio do multi-culturalismo. “Trata-se de um ideal de vida e de sabedoria que acaba por indicar como meta do aperfeiçoamento moral um sujeito ‘plural’ capaz de viver a própria interpretação do mundo sem necessidade de acreditar que ela seja ‘verdadeira’ no sentido metafísico da palavra, no sentido de alicerçar-se em um fundamento certo e inabalável.” (p. 235)

 O “super-homem” seria, comenta Vattimo, dotado de uma “abertura fundamental para a pluralidade das interpretações” (238) e portanto estaria nos antípodas do “fundamentalista” dogmático:

 “O fundamento último que sempre justificou os mais impiedosos fanatismos da história da violência humana não é substituído pela vontade de um eu assumido como último e indiscutível absoluto”, aponta Vattimo, involuntariamente pontuando o abismo que separa Nietzsche, por exemplo, do Marquês de Sade – este, que alça as arbitrariedades do eu ao status de um absoluto tirânico. Para Nietzsche, o ideal seria um “eu que é um centro de hospitalidade e de escuta de vozes múltiplas, um mutável arco-íris de símbolos e chamados que está tão mais próximo do ideal quanto menos se deixa encerrar em uma forma dada de uma vez por todas.” (p. 239)

[por Eduardo Carli, Goiânia, Agosto ’12]