Querida Janis: uma carta para um sol que brilha do além-túmulo (sob a influência do doc “Little Girl Blue”, de Amy Berg)

Querida Janis,

Não tenho em mim as crenças místicas necessárias para te crer viva, ainda, em alguma transcendental dimensão da imensidão cósmica. Não te atribuo ouvidos capazes de decifrar as palavras que te falarei, nem olhos que decriptem estes garranchos que te escrevo. Suponho que te tenhas acabado, em carne-e-osso, por inteiro, sem deixar subsistir o fantasma de um espírito imorredouro. No entanto, o teu esplendor enche meu coração ateu de convicções sobre a perspectiva concreta de sobrevida após a morte pois tua música é nada menos que isso: um vivificador tônico, um Biotônico Fontoura artístico, um fortalecedor do ânimo, o que faz do teu legado algo que está para além da possibilidade de servir de repasto aos abutres ou aos vermes.

És uma voz que transcende a morte, uma voz que condensa um destino que em 27 anos brilhou mais do que a maioria dos terráqueos consegue no triplo ou no quádruplo deste tempo. Inspira-nos, até mesmo a nós que nascemos quando você já estava morta, a sensação intensa de que é possível “viver sem tempos mortos”, para emprestar a expressão de Simone de Beauvoir. Querida Janis, você mostra que é possível existir no compromisso com a autenticidade extrema. Você não escondia tua verdade detrás das máscaras da conveniência, nem se calava diante da massa caótica e confusa de afetos que em ti conviviam criando nós que era preciso desatar. Teus nós eram cantáveis em libertárias catarses. Assim libertavas-nos a todos, teus contemporâneos e teus pósteros, ao dar às mancheias e sem avareza tantas lindas lições de tua liberdade.

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Por muito tempo este leitor de Nietzsche tentou encontrar exemplos concretos, históricos, de quem seriam os tais dos “espíritos livres”, dionisíacos e em êxtase diante da existência, e encontro poucas encarnações melhores desta liberdade-de-espírito do que você. Você e Jimi. Vocês, cometas que atravessaram com pressa o céu da existência, faiscando pelo cosmo com vidas incendiadas e que a gente não esquece mais, tão necessitados somos destas tempestades de beleza com que vocês nos agraciaram. A guitarra de Jimi em chamas evoca-me a imagem símile da tua voz rasgada, que não temia desafinar pois ascendia para uma região para além de todos os medos, um âmbito onde reina a expressão intensa de afetos verdadeiros, com o ímpeto e a verve, com a vibe e o groove, de uma divina bacante, maravilhosamente indomável.

Ainda assim, mesmo que fizesses “amor com milhares de pessoas” durante os shows, voltavas sempre sozinha pra casa. Janis, entendo teu blues tão bem pois não pusestes máscara em teu sofrer. Soubestes cantar o abandono e a carência como ninguém, na singularíssima irradiação do teu ser incatalogável, e vejo nesta tua frase – “On stage, I make love to 25,000 different people, then I go home alone” – uma espécie de emblema do teu ânimo e cerne do teu blues.

3007-janis-joplin-620x372“BALL AND CHAIN” (AO VIVO NO MONTEREY POP):

Querida Janis, tu gritavas a tua solidão de um modo que nos faz sentir que uma solidão só é horrenda se mantida secreta e presa, nas catacumbas mau-iluminadas de nosso tórax. Tu gritavas a tua solidão dando a entender que uma solidão gritada poderia virar alguma porra semelhante a um orgasmo estético vivenciável em comum por um bando de hippies loucos em Nirvana conjunto… O Big Brother & The Holding Company que me perdoe – eram uma bandaça, afinal, tão timbrada quanto um Steppenwolf ou um Grateful Dead! – mas eras de fato o astro mais brilhante daquela constelação humana. E não tenho a pretensão de saber explicar as razões do teu esplendor, só sei que a aura de liberdade é essencial a isto que irradiava de ti e que te fez, de fato, um astro. Não uma pop star, mas um astro iluminante de fato, daqueles que se consome no próprio incêndio, um pouco como aquele monge budista que está em pleno processo de virar cinzas na capa do álbum de estréia do Rage Against the Machie.

A tua “astridade” era legítima – pois esplendias como um sol – mas cedo também fizestes a descoberta do quão tão trágico é ser astro. Como Kurt Cobain um dia também compreenderia, outro que entrou para o mítico time dos 27. Há quem vá dizer que vocês foram estúpidos, imprudentes, que vocês desperdiçaram a vida jogando-a fora por causa do vício às drogas, e inclusive não faltaram jornais e revistas para grudarem em vocês os rótulos depreciativos de junkies. Vocês não foram só junkies, Janis, não do modo como esta palavra é mobilizada pelos detratores, pois vocês foram o inefável, o indefinível, o irrotulável esplendor da Arte, aquilo que está para além das capacidades dos críticos de verbalizar.

Ocorre-me à mente uma belíssima cena de A Liberdade é Azul, de Kieslowski, em que a personagem de Juliette Binoche está de olhos fechados sentindo os raios de sol em sua face: tua música é assim, pra ser ouvida de olhos fechados, como quem se banha no esplendor irradiante de um sol que aquece, derretendo a frieza que é em nós prenúncio e parente do rigor mortis. Querida Janis, mesmo que nunca venhas a saber disso, digo na gratidão intensa de quem não cessa de te ouvir e ser beneficiado ao teu contato: amo a tua irradiância. Tua ética, tua estética, era a mesma do sol.


Vejo-te em Monterey, pela primeira vez diante de um público de tal gigantismo que é de atemorizar qualquer reles mortal com o mais paralisante stage fright. Você, não: como um heroína que retira suas forças de mananciais secretos que nem Carl Jung saberia decifrar onde se encontram, você sabia se desnudar diante de uma platéia imensa, abrir a sua caixa toráxica e exibir um coração sangrento e pulsante, daqueles que não via nada melhor a se fazer na vida do que cantar e cantar. Cantar de verdade, a tua verdade, de modo a derreter até o mais empedernido dos sujeitos apáticos e convencionais. Diante de ti, ficamos boquiabertos com uma capacidade rara, que poucos de nós de fato chegamos a desenvolver, esta generosa entrega de si ao mundo, através de uma expressão, arrojada e ousada, do teu oceano de afetos.

Te vejo no Rio de Janeiro e tua liberdade ali esplende nos bicos dos teus seios, na displicência anti-chic com que bebes um goró e curtes a maravilha transitória de um pouco de anonimato. Mas a câmera fotográfica te flagra, e talvez você sentisse que viver momentos tão mágicos sem ter deles registro talvez fosse sentido como perda, desperdício; você queria, do seu percurso, carregar vestígios. Você tinha a ambição de ser amada, não a medíocre ambição do lucro que é epidemia. Ambicionava derreter corações ao sol da tua expressão hipérbole das verdades sentidas e vividas.

Teu foto-diário, que no documentário de Amy Berg ganha vida na voz de Cat Power, serve como janelas abertas para uma pessoa que tinha lá seus segredos, apesar do escancarado dos teus cantos. Segredos de sofrimentos antigos, de ter sido molestada por canalhas da Klu Klax Klan em Port Artur ou por ter sido maltratada por algum cowboy escroto de Austin. Segredos de uma adolescência repleta da sensação de ser um freak e estar apart em relação à ordem careta.

Te imagino livre demais para enquadrar-se nos quadrados pré-preparados pelo poder. Ao invés de murchar na depressão ao sentir-se pertencente à estirpe da freakidade, você soube se conectar a algo de coletivo, à corrente da contracultura e sua ética do desapego ao lucro monetário, tivestes  apegos à utopia de uma sociedade alternativa que Raul Seixas cantaria por aqui, no Brasil, mas que vocês também encarnavam naquele trem de doidos sublimes e músicos geniais que espraiou magia pelos trilhos da América na trip do Festival Express.

Que seria daquela cena sem a tua inestimável contribuição, que seria de San Francisco nos anos 1960 se você não estivesse impactado todo o cenário com a tua irrupção esplendorosa? E no entanto tua vida dá a impressão clara de que você disse a verdade quando te perguntaram se você foi ao Rio como turista, e você respondeu: “i’m a beatnik on the road.” 

Cara Janis, não sou mongolóide de achar que minha carta achará teu endereço, tu que não és mais deste mundo, mas eu não saberia me expressar sobre ti senão me endereçando ao teu fantasma tão presente, à tua presença em mim através destas canções que tu cantavas como se fossem cartas. Cartas daquelas tão sinceras que são de rasgar o coração, como em “Cry Baby”, quando você a cantou em Toronto, em 1970, mandando notícias para seu “lost love” na África. Uma carta endereçada àquele que, após as maravilhas do convívio e da intimidade te abandonou para ir em busca de algo, em busca de si, em busca de sei lá o quê, em Casablanca ou sabe-se-lá-onde.

Você diz a ele, no teu blues, algumas lições que são ao mesmo tempo seduções: “You’re lookin’ for your life over there, honey! Do you wanna know where your life is? You’re life’s waiting like a god-damned fool, right here, for you man!” Você, que não era fácil, faz recurso até a ameaças: “um dia, meu caro, você vai acordar em Casablanca e vai estar congelando-até-a-morte [freezing to death], cara! E você vai se perguntar, que diabo estou fazendo em Casablanca?”

Você canta no ímpeto da esperança de um reencontro, você imagina o retorno do amor perdido, no teu abandono você o chama com come on, come on, come on, e não conhece sedução alguma melhor do que dar-lhe permissão para chorar. Teu romantismo não era a idealização de um convívio perfeito, mas a mútua entrega à expressão de sentimentos, mesmo os mais negativos e pesarosos: amar é ter um ombro onde chorar tanto quanto é ter alguém com quem rir; amar é dividir com alguém os malefícios e crueldades da existência tanto quanto é uma festa do êxtase em conjunto; amar era, pra ti, Janis, mais que mero sonho ou fantasia, era aquilo que tu fazias com a naturalidade do vulcão que entra em erupção.

Teus afetos falavam a língua do fogo. Teu calor humano é aquilo em ti que é imorredouro. Tua voz é deste calor o veículo, teu coração fez-se indestrutível pela decomposição já que aqueces os vivos mesmo não estando mais entre eles. És uma força vivificante que emana do túmulo, ou melhor, os vestígios da tua vida são vivificantes a ponto de serem pouco distinguíveis do incêndio solar que apresenta-se para seu concerto diuturno a cada aurora e se põe a cada crepúsculo.

“CRY BABY” (AO VIVO EM TORONTO, 1970):

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Talvez, querida Janis, tenhas inventado um novo namastê, um culto solar, algo como “o sol que há em mim saúda o sol que há em ti”. És um emblema do que se chamou, por comodidade de classificação, a “Geração Hippie”. Vocês eram a mais esplendorosa das belezas nascidas de um país e de uma época chafurdados nos horrores da guerra e do genocídio imperialista. Você, Janis, nasceu em meio às carnificinas da 2a Guerra Mundial, em 1943, e as tuas faces de criança talvez tenham sido iluminadas, através da TV, pelas hecatombes nucleares de Hiroshima e Nagasaki. Você deve ter visto aqueles cogumelos hediondos: teu blues não era somente cósmico, era também histórico. Você nasceu – alguém não nasce? – em tempos sombrios. E em Woodstock você deves ter sentido que algo se galvanizava e imantava num imenso evento que, para além do hedonismo, da libertação sexual, da experimentação com novas vivências intersubjetivas e estéticas, era também congregação daqueles que queriam encontrar as vias de co-construção de um mundo menos sangrento e cruel do que aquele do napalm despejado sobre as pessoas do Vietnã e do Camboja, do que aquele dos warmongers que teu ídolo Bob Dylan denunciara em “Masters of War” e outros folk-hinos.

Woodstock Music Festival (1969)

Woodstock Music Festival (1969)

 Tua beleza ensinava algo de precioso aos poderes ensandecidos pelas feiúras bélicas e pelos feitos de macheza destruidora e imperialismo agressivo. Tu eras desejo intenso de felicidade – “Jesus fucking Christ, I want to be happy so fucking bad!”, ainda te ouço dizer. Os caretas jamais vão compreender que tua relação com as drogas nada tinha de auto-destruição niilista ou fuga dos desafios da existência, era sim um desejo de intensidade e de viver sem tempos mortos, de sondar aquela sabedoria que só se encontra no excesso (segundo William Blake e seus Provérbios do Inferno). Você era um pouco como Jim Morrison, queria break on through to the other side. Depois, Patti Smith seria animada pelo que tu fizeras e diria: there’s a million membranes to break through.


Minha querida Janis, adoro-te pois você não se resignava a uma vidinha besta e sem thrills, você queria que viver fosse groovy, algo cheio de ritmo e paixão, cheio de dança extática e eloquência cantada, você queria a música que conduz ao transe, você queria ser para o público aquele médium de transfiguração que conduz um coletivo à congregação. Como faziam Otis Redding ou Aretha Franklin, você era xamã de um cerimonial pagão, bacântico, dionisíaco, onde as fronteiras delimitantes da chatura instituída eram lançadas por terra. Cantar te dava asas a ponto de não existir gaiola nesse mundo em que coubesses. Mas só eras este vulcão pela densidade de sofrimento que carregavas, tu te conectavas com os afetos que foram tão magistralmente expressados por algumas das melhores cantoras de blues da história: Billie Holliday, Bessie Smith, Odetta, Ma Rainey.

Odetta

Odetta

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Billie Holiday

Em 27 anos, você impôs-se neste panteão, você fez algo de tão extraordinário que as pessoas, te ouvindo, mal conseguiam acreditar que você não fosse negra. E dizer que Janis Joplin cantava como uma negona não é mero chiste ou brincadeira, é reconhecer tanto a tua capacidade de aprender com as blueseiras negras todas as técnicas, truques e feelings que você tão bem empregou, quanto a tua capacidade de transfigurar os sofrimentos e dúvidas que sentias em algo de tamanha intensidade e carga emocional que parece apenas ser possível só para quem passou por traumas muito severos e humilhações muito profundas – exatamente o caso do povo afro-americano que vivenciou as sequelas e as sobrevivências da escravatura.

Dirão alguns que tu cantavas dores pessoais, de relações intersubjetivas que tendemos a confinar hoje no âmbito do privado, e que para encontrar os gênios do canto de um sofrimento coletivo, grupal, histórico, a obra de uma Nina Simone ou de um Gil-Scott Heron é mais significativa. Já eu acho que teu canto é profundamente político pois carrega uma ética, um ideal de relacionamento humano, uma espécie de pregação laica, lindamente musicada, em que tu celebravas – tinhas sim algo de Aretha Franklin em seus trance-gospels – algo que talvez seja menos deus que valor: honestidade de expressão. É o ético é indissociável do político.

Aretha Franklin

Aretha Franklin

Tu eras, Janis, maravilhosamente capaz de pôr teus sentimentos numa linguagem que comandava a empatia com a força de imantação que o planeta Saturno acarreta à matéria que forma seus anéis circundantes. Tu talvez sentias o cosmic blues, semelhante ao de Pascal ao olhar para o “silêncio eterno dos espaços infinitos”, tinhas talvez o frisson melancólico daqueles que suspeitam que o céu é surdo a nossos apelos e que não há deus que nos salve de nosso abandono. Tinhas talvez a percepção visceral de que temos só uns aos outros, e aprendestes no amargor que humanos não são assim tão bons de entrega, de generosidade, de conexão. Precisamos de pedagogos do amor, e nisto fostes uma imensa fonte de luz, assim como Rita Lee, segundo Tom Zé, foi a educadora erótica de toda uma geração, você nos ajudou a aprender a arte difícil de amar – e oferecestes tudo o que tinhas àquilo que amavas mais que tudo, tua música e as teias de conexão que, por esta via, você estabelecia.

Você celebrava o potencial de congregação da música – aquilo que a anima há milênios, aquilo que transcende os contextos culturais específicos, aquilo que decerto já faziam os hominídeos e neandertais de gerações e gerações antes da História escrita começar.

Tua música é um sol que resplende e não cessamos de trepidar às bordas da tua fogueira, ao mesmo tempo aquecidos e estarrecidos, incapazes de compreender como é possível alguém compreender que a vida é isso: queimar. It’s better to burn out than to fade away. Como diria aquele outro membro do Clube dos 27 que, citando Neil Young, despediu-se do mundo em sua carta de suicídio, talvez sem suspeitar de que também viveríamos, nós, seus pósteros, à sombra fascinante da catarse de sua angústia. Eventos como você ou o Nirvana, na história da música, são raríssimos: são vocês que estabelecem os auges, são vocês que fazem os termômetros da cultura explodirem por excesso de temperatura, por explosão do vidro que contêm os mercúrios.

Ensinas a viver mesmo no teu fracasso, dás a lição da fragilidade e da beleza da vida enquanto deixas o ânimo vital cair no nada por causa de um estúpido pico de heroína num hotel qualquer de teu percurso que ainda era tão grávido de futuros.

Janis, escrevo para dizer que o futuro ainda se aquece à luz do teu calor e ainda se encanta com o esplendor da tua voz; sei que não me ouves, mas não posso ouvir-te sem querer este absurdo infazível de agradecer-te. Rock on, sis! Shine on your glowing light!

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Escrito em 18/09/16, em Goiânia, logo após a sessão do documentário “Little Girl Blue” em sessão no Cine Cultura

SIGA VIAGEM:

SHOWS:

AO VIVO EM ESTOCOLMO, SUÉCIA (1969)

AO VIVO EM FRANKFURT, ALEMANHA:

AO VIVO EM WINTERLAND (1968) – Só áudio:

AO VIVO EM MONTEREY POP – Só áudio:

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1965 – This Is J.J.
1966 – Big Brother & The Holding Company – Light Is Faster Than Sound
1966 – Big Brother & The Holding Company – Live In San Francisco 1966
1967 – Big Brother & The Holding Company
1968 – Big Brother & The Holding Company – Cheap Thrills
1968 – Live At The Winterland ’68
1969 – At Woodstock
1969 – Filmore East 1969
1969 – Frankfurt 12Th April 1969
1969 – I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again Mama!
1969 – Janis Joplin & The Cosmic Blues Band – Texas International Pop Festival Vol. 3
1970 – Big Brother & The Holding Company – Be A Brother
1970 – Pearl
1970 – The Rarest Pearls
1970 – Wicked Woman
1971 – Big Brother & The Holding Company – How Hard It Is
1972 – Joplin In Concert
1973 – Janis Joplin’s Greatest Hits
1974 – Janis Original Soundtrack
1980 – Anthology
1983 – Farewell Song
1999 – Mercedes Benz (Rare Tracks – 1962-1970)
2000 – Super Hits
2001 – Love Janis
2005 – Pearl (Legacy Edition)

“When the power of love overcomes the love of power, the world will know peace.” – Jimi Hendrix (1942-1970)

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“Quando o poder do amor
Vencer o amor ao poder
O mundo conhecerá a paz.”

Hippie Jimi

Jimi Hendrix (1942-1970), além de ter sido um dos mais revolucionários músicos do século 20 e um dos mestres maiores da guitarra elétrica que já viveu, também se arriscava nas artes plásticas. Não chega aos pés de um Picasso ou Matisse, mas ainda assim é impressionante. Também através da expressão visual este espírito prodigioso do Hendrix pôs pra fora, em 27 anos de vida incandescente, sua fértil criatividade. Hoje alçado ao status de mito musical mor, lado a lado com Lennon, Marley, Janis ou Cobain, Jimi revela sua fascinante personalidade neste seu quadro “Drifter’s Escape”, que esteve em exposição durante o Festival International de Jazz de Montréal 2014:

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“Hailed as the greatest guitarist of all time by Rolling Stone magazine in 2003, Hendrix recorded only four albums during his brief, incandescent career. Exploring the possibilities of amplification, pedals, wah-wah and feedback, he created a wholly new style, exploding the limits of the electric guitar as none other before or since, but it is above all his virtuoso musical talent that has left such an enduring and deep impression on our culture.

Drifter’s Escape is the title of a song written by Bob Dylan and covered by Hendrix. The song recounts the story of an outsider oppressed by society, put on trial and found guilty without knowing what the charges against him are. In this illustration, Hendrix offers us his visual interpretation of the story. In the upper right-hand corner, you can clearly see the outsider fleeing the injustices of society.”

In: http://www.montrealjazzfest.com/maison-du-festival-online/gallery/jimi-hendrix-silkscreen.aspx


Patti Smith canta “Drifter’s Escape” de Bob Dylan

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SIGAJimi-Hendrix-Wallpapers-1024x768 VIAGEM:

Jimi Zahar

DOWNLOAD EBOOK (RJ: Zahar, 2014)

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DISCOGRAFIA [BAIXAR TUDO]: http://bit.ly/1FFJOIN

1967 – Are You Experienced?
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01 – Foxy Lady.mp3
02 – Manic Depression.mp3
03 – Red House.mp3
04 – Can You See Me.mp3
05 – Love Or Confusion.mp3
06 – I Don’t Live Today.mp3
07 – May This Be Love.mp3
08 – Fire.mp3
09 – Third Stone From The Sun.mp3
10 – Remember.mp3
11 – Are You Experienced.mp3
12 – Hey Joe.mp3
13 – Stone Free.mp3
14 – Purple Haze.mp3
15 – 51st Anniversary.mp3
16 – The Wind Cries Mary.mp3
17 – Highway Chile.mp3

1967 – Axis- Bold as Love
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01 – EXP.mp3
02 – Up From The Skies.mp3
03 – Spanish Castle Magic.mp3
04 – Wait Until Tomorrow.mp3
05 – Ain’t No Telling.mp3
06 – Little Wing.mp3
07 – If 6 Was 9.mp3
08 – You Got Me Floatin’.mp3
09 – Castles Made Of Sand.mp3
10 – She’s So Fine.mp3
11 – One Rainy Wish.mp3
12 – Little Miss Lover.mp3
13 – Bold As Love.mp3

1968 – Electric Ladyland
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01 – … And the Gods Made Love.mp3
02 – Have You Ever Been (To Electric Ladyland).mp3
03 – Crosstown Traffic.mp3
04 – Voodoo Child.mp3
05 – Little Miss Strange.mp3
06 – Long Hot Summer Night.mp3
07 – Come On (Let The Good Times Roll).mp3
08 – Gypsy Eyes.mp3
09 – Burning Of The Midnight Lamp.mp3
10 – Rainy Day, Dream Away.mp3
11 – 1983 … (A Mermaid I Should Turn To Be).mp3
12 – Moon, Turn The Tides … Gently Gently Away.mp3
13 – Still Raining, Still Dreaming.mp3
14 – House Burning Down.mp3
15 – All Along The Watchtower.mp3
16 – Voodoo Child (Slight Return).mp3

1970 – Band Of Gypsys

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01 – Who Knows.mp3
02 – Machine Gun.mp3
03 – Changes.mp3
04 – Power To Love.mp3
05 – Message To Love.mp3
06 – We Gotta Live Together.mp3

1972 – Hendrix In The West
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01 – Johnny B. Goode.mp3
02 – Lover Man.mp3
03 – Blue Suede Shoes.mp3
04 – Voodoo Chile.mp3
05 – The Queen.mp3
06 – Sgt Pepper’s Lonley Hearts Club Band.mp3
07 – Little Wing.mp3
08 – Red House.mp3

1986 – Jimi Plays Monterey
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01 – Killing Floor.mp3
02 – Foxey Lady.mp3
03 – Like A Rolling Stone.mp3
04 – Rock Me Baby.mp3
05 – Hey Joe.mp3
06 – Can You See Me.mp3
07 – The Wind Cries Mary.mp3
08 – Purple Haze.mp3
09 – Wild Thing (Burning Guitar!).mp3

BAIXAR TUDO:
http://bit.ly/1FFJOIN

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SHOW COMPLETO: 
THE JIMI HENDRIX EXPERIENCE
Ao vivo em Estocolmo, Suécia
1969

 

“Grasshopper Night” (Crônica sobre o espetáculo de Paul McCartney em Goiânia, 2013)


GRASSHOPPER NIGHT
Uma Gonzo-Reportagem

“…a imperecível necessidade humana de viver em beleza.” 
Johan Huizinga em “Homo Ludens”
(Ed. Perspectiva, pg. 71)

Paul McCartney teve que percorrer uma longa e tortuosa estrada até vir parar, com mais de 70 anos rodados pelas trilhas da vida, aqui nas terras dos Goyazes…

Em sua primeira infância, na Inglaterra de 1942, durante a 2ª Guerra Mundial, o garoto de Liverpool brincava pelos territórios bombardeados pelo III Reich, como ele mesmo narra no início do Beatles Anthology: “We played on bomb-sites a lot and I grew up thinking the word ‘bomb-site’ almost meant ‘playground’. Reminders of the war were all around…” (pg. 17).

Foi por pouco que Hitler e sua gangue de arianos genocidas não adicionaram ao seu horrendo catálogo de atrocidades a morte da família McCartney: estima-se que 4.000 pessoas morreram durante os ataques da Luftwaffe que ficaram conhecidos como Liverpool Blitz.

Filho de um pai protestante que tocava piano, e que desde o berço fez o pequeno Paul “mergulhar” no mundo do jazz e do folk, e de uma enfermeira católica, que sempre cuidou de sua saúde com muito esmero, McCartney desde cedo esteve rodeado e possuído pelas musas da música.

Desde tenra idade, decorava os hits do rádio, tocava piano em festinhas familiares, compunha cantigas ao violão e ia atrás de conhecer e se amigar com os melhores músicos de Liverpool: antes dos 16 anos de idade, já impressionava os músicos ao seu redor com suas versões bem-timbradíssimas de Eddie Cochran, Little Richard e Elvis Presley, dentre outros roqueiros das antigas. E logo o mocinho integraria a Banda de Besouros, a Banda do Sargento Pimento e do Submarino Amarelo, aquela que se tornaria um dos monumentos musicais mais importantes do século 20 e uma das cerejas no bolo do Sonho Hippie…

E hoje em dia, me parece, McCartney prossegue, apesar de ser um perfeito gentleman britânico, um hippão de coração. Talvez o hippie, neste planeta, com a maior conta bancária (sua fortuna é estimada em mais de U$1.000.000… um bilhão de doletas!), e cujo ideário hippie decerto não inclui como ideal norteante a pobreza voluntária. McCartney ainda fala em favor da legalização da maconha, que, conta a lenda, teria sido apresentado aos Beatles em 1964 por Bob Dylan, o que parece ter sido para Paul o início de um caso de amor de fidelidade ímpar, com o cânhamo sagrado, já que ele segue pró-cannabis mesmo tendo sido preso algumas vezes, em alguns países, por posse de fontes de THC. McCartney também ilita em prol dos direitos animais,  sendo talvez o vegan com maior apelo de massas no atual showbizz global, capacitado para gerar discussão e debate público sobre um tema ainda tabu (os bilhões de criaturas mortas para serem consumidas por humanos na forma de hambúrgueres, salsichas e fatias de bacon).

Outro índice de hippiedade é que em  muitas ocasiões ele já escancarou, em suas declarações, uma mui-hippie predileção intensa pela psicodelia. Teve uma experiência existencial significativa quando olhou através dos telescópios e microscópicos lisérgicos, nos anos 60, época em que ingeriu muitas doses da Poção de Hoffmann que o Dr. Leary andava louvando por aí (o LSD… homenageado singelamente em “Lucy in the Sky With Diamonds”, dentre outras cantigas). Os pendores de Paul McCartney ao louvor arrebatado e hiperbólico às substâncias psicodélicas ficam claros, por exemplo, em declarações como a seguinte, que foi pescada do Anthology e em que ele relata sua experiência com  o LSD:

“After I took LSD, it opened my eyes: we only use one-tenth of our brain. Just think what we could all accomplish if we could only tap that hidden part. It would mean a whole new world. If the politicians would take LSD, there wouldn’t be any more war or poverty or famine.” (Anthology. Chronicle Books, San Francisco, Pg. 255.)


McCartney, hoje em dia? Um setentão que aguenta 3 horas de show sem precisar beber uma gota d’água. E esta turnê pelo Brasil, em 2013, certamente deixará lembranças indeléveis nos corações e mentes dos cerca de 150.000 brasileiros que o viram de perto em Belo Horizonte (no Mineirão), Goiânia (no Serra Dourada) e em Fortaleza (no Canecão).

Foi uma oportunidade magnífica ver em carne-e-osso esse mito-vivo, em sua primeira aparição por Goiás, com um showzaço que satisfez com folga o público que encheu o Serra Dourada. Até agora não conversei com ninguém que não tenha descrito o espetáculo com os mais entusiásticos e gratos dos termos. Foram 38 músicas, com um repertório repleto de clássicos dos Beatles (com destaque para “Hey Jude”, “Let It Be”, “Eleanor Rigby”, “Get Back”, “Helter Skelter”, “The Long and Winding Road”, “Yesterday”, “Back in the U.S.S.R”…) e dos Wings (incluindo as estupendas “Live and Let Die” e “Maybe I’m Amazed”).

Num espetáculo grandioso, cheio de pirotecnias, com psicodelia bem-bolada rolando nos telões, e acompanhado por uma bandaça impecável, Paul McCartney passou por Goiânia impressionando geral com sua vivacidade, sua simpatia e seu embriagante e revigorante tônico musical, bebido com tanta sede e deleite pelas massas-em-festa… Em suma: reativando a beatlemania nestas noites brasileiras repletas de histerias ultra-admirativas e aclamações esfuziantes, Macca encantou geral com sua voz e suas melodias, dando farto alimento à “imperecível necessidade humana” (pois nem só de pão vive o homem…) “de viver em beleza” – como diz no Homo Ludens o Huizinga.

“Goiânia Grasshopper Stage Invasion!”
Vídeo oficial do PaulMcCartney.com

Sem dúvida, o elemento pitoresco do show em Goiânia, e que ficará indelével na memória do público e do músico, foi a alegre invasão daqueles beatlemaníacos alados que não perderam a chance de fazer o que muito mortal fica só passando vontade: tocar a carne de um mito. Viraram até notícia internacional! Goiânia fez jus a sua fama de “roça asfaltada” e, ao mesmo tempo, esta imprevista irrupção de vida fez com que o ambiente, saturado da artificialidade ultra-tecnológica daquele palco hi-tech, se reconectasse com a natureza. Como notório defensor dos direitos dos animais, Paul McCartney em nenhum momento foi agressivo contra os visitantes inesperados – aliás bastante inofensivos, desprovidos que são de malícia e de ferrão. Ao invés de enxotá-los com tapões ou piparotes que poderiam equivaler, para tão frágeis criaturas, a severos hematomas, ou mesmo a golpes fatais, McCartney divertiu-se como um pirralho com os bichinhos – dotados, aliás, de excelente gosto musical.

Tem gente dizendo que eram grilos-esperança, outros que eram gafanhotos, outros ainda “insetos vetores”; pouco importa. O que importa é aquilo que o episódio revelou sobre a personalidade de Paul, seu espírito lúdico tão vivaz e seu senso-de-humor tão espontâneo. Também se tornou clara a capacidade enorme de empatia com outros terráqueos que é uma marca de personalidade de McCartney, que aliás criou uma das máximas mais célebres da história do vegetarianismo (que era também praticado por Linda): “se os abatedouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos”. O estádio Serra Dourada foi proibido de vender espetinhos de carne no espaço do show, por pedido do próprio McCartney, que é militante pelos direitos animais há muitos anos. O que se escancarou com este episódio é que não é somente em prol de vacas, bois, galinhas, porcos e perus – dentre outros animais que os humanos devoram!  – que McCartney milita e defende. Que coerência genuína de pensamento e ação o episódio com os grasshoppers revelou!

Pego de surpresa, McCartney mostrou excelente capacidade de improviso: usou o acaso a seu favor e transformou os bichos numa atração à parte. Um deles (ou seria uma delas?), particularmente obstinado em manter-se coladinho no Beatle, foi batizado de Harold e convidado a saudar a platéia no microfone. Mas Harold se intimidou diante dos mais de 45 mil humanos presentes e manteve-se calado. Quando veio o clássico “Hey Jude”, um dos muitos ápices emocionais do show, com 40 mil vozes se juntando no coro de “nánáná”, ocorreu um momento mágico: o grasshopper beatlemaníaco estava pousado nos ombros de McCartney quando veio o verso “The movement you need is on your shoulder”, e Macca, veloz e sagaz, não perdeu a ocasião da alusão.

(Lembrei de uma das melhores cenas do documentário sobre Raul Seixas, O Início, o Fim e o Meio, quando o diretor Walter Carvalho recebeu, também, um presente do acaso muito bem aproveitado: entrevistando Paulo Coelho em Genebra, cidade onde quase não existem moscas,  Carvalho viu o “set” ser invadido por uma inesperadíssima aparição alada; Paulo Coelho não perdeu a ocasião de apontar: “deve ser o Raul…”. Depois de ser esmagada a mosca pelo místico higienista, a sacada do documentário, aliás brilhante, está edição de som, que faz com que Raulzito, eterno mosca-na-sopa da caretice e do quadradismo, entre cantando logo na sequência: “E nem adianta vir me dedetizar… Pois você mata uma e vem em outra em seu lugar!”)

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O que mais me assombra e me impressiona é uma pessoa com tamanha capacidade (intacta!) para as alegrias fáceis, para as cantorias vivazes, para as melodias memoráveis, quando sabemos quantas tragédias e lutos ele não teve que enfrentar nesta longa e tortuosa estrada da vida! Fora os horrores da guerra, experenciados na infância, que relatamos no começo desta gonzo trip, cabe lembrar que Paul, na adolescência, quando tinha 14 anos de idade, perdeu a mãe para o câncer – foi quando viu seu pai chorar pela primeira vez. Resistiu vivo através de outras tempestades, sobrevivendo ao assassinato que levou Lennon em 1980, ao câncer que matou sua esposa (e mãe de seus filhos) Linda em 1998, tendo também se despedido do caixão de George Harrison em 2001. É uma lição de vida testemunhar que nada disso aniquilou o senso de humor e a capacidade de empatia com os viventes deste artista com espírito perpétuo de menino e que encantou com sua graça os mais de 45 mil mortais que encheram o Serra Dourada para prestigiá-lo.

É bem verdade que este espetáculo Out There usa e abusa da pirotecnia, não economizando no tamanho dos telões, na coloridice extrema das imagens, na variedade de holofotes e luzes, na profusão de fogos de artifício e lançadores-de-chama (que fazem sua estrondosa aparição-clímax em “Live and Let Die”). Há algo de arrasa-quarteirão roliudiano no show, que pretende ser uma torrencial chuva de estímulos sensíveis sobre um público que McCartney deseja levar ao delírio, ao êxtase coletivo, depois recolhendo com deleite as aclamações, as salvas de palmas e os ursinhos de pelúcia lançados sobre o palco por mocinhas apaixonadas.

Um crítico de arte que conhecesse de Adorno e Horkheimer, que soubesse das críticas de Guy Debord à “sociedade do espetáculo”, talvez pudesse destroçar criticamente este show como mero showbusiness alienante, como uma criação do capitalismo hi-tech que serve para algo similar ao que o “Pão & Circo” fazia para o Império Romano. Acho plausível, aliás, que nosso governador tucano e cachoeirista, Marconi Perillo, tenha investido dinheiro público neste show com intenções de, através de uma pão-e-McCartney grandioso e crowd-pleaser, fazer com que os goianos esquecessem de suas tenebrosas e escusas relações com o Al Capone do Cerrado, o gangter Carlinhos Cachoeira, pra não falar do esquema de espionagem escancarado recentemente pela revista Carta Capital.

Só que, me parece, o show de McCartney jamais poderia ser reduzido a isso, um instrumento político na mão de um governo corrupto, pois é um evento cultural que transcende o presente: foi uma oportunidade de receber um “banho de imersão” na história da música pop inglesa em algumas de suas mais geniais criações nas últimas décadas, um embarque numa viagem que nos carrega de volta para os anos 60 e 70, que nos dá um vislumbre do que foi o frenesi da beatlemania, que nos deixa instigados a criar uma cultura cuja efervescência aspire a igualar aquela que incendiou o pop nos crazy sixties.

McCartney escapa do “imediatismo” do showbizz, que costuma dar ao público algo que ele possa consumir e logo esquecer (a fila das mercadorias anda!). McCartney parece desejar que cada um no público leve para casa uma lembrança indelével, algo a ser carregado pelo resto da vida, por isso não se economiza, não poupa seu coração, não retêm seu sentimento; sentimos algo de genuinamente humano e caloroso sobressaindo sobre aquela parafernália técnica toda. McCartney anda fazendo, ao vivo, um ritual auto-celebratório em que resgata seus mais de 70 anos de vida e seus quase 50 anos de carreira, arrastando o público numa jornada colorida, lisérgica, psicodélica, às vezes kitsch, sempre emotiva e emocionada, por uma vida cuja criatividade e talento os milhões de beatlemaníacos não param de celebrar.

Aliás, McCartney consegue muito bem, sem tecnologia pesada o acompanhando, encantar uma multidão com simplicidade e frugalidade: sozinho ao violão, quando canta “Blackbird” ou “Yesterday”, não precisa de pirotecnia alguma para nos deixar encantados. Na homenagem à imortal canção de George Harrison, “Something”, soube deixá-la graciosa em seu despojamento ao re-interpretá-la no ukelele.

Talvez tenha razão quem disse que a música é a única língua universal: Mozart ou Bach, tocados em qualquer latitude, em qualquer continente, independente do idioma que ali domine, são deleitáveis experiências para os tímpanos humanos; e “nánáná” em inglês, em japonês e em português é sempre “nánáná”. Os sons, como anarquistas desrespeitadores de todos os arames farpados, não respeitam as fronteiras: caçoam delas, velejando no vento, voando por sobre os muros e atravessando as paredes. Talvez não haja nada, dentre as criações humanas, nada com mais benéfico potencial de congraçamento do que a música. Quando 50 mil pessoas houvem a mesma música, no mesmo espaço, quando suas vozes se unem para cantar uma melodia, podem sentir-se unidas em um sentimento como só deve ocorrer em raríssimas ocasiões e para raríssimas massas, quiçá só equiparável à fervura de um levante revolucionário… O mínimo que se pode dizer de Sir Paul McCartney é que ele tem uma capacidade de comunicação afetiva com as massas que é rara; que sua música prossegue tendo uma graça que transborda e que não envelhece; que com mais de 70 anos, prossegue com espírito de menino, legítimo espécimen do homo ludens; que muitas de suas melodias tem vocação para a eternidade e muito provavelmente poderão agradar também a nossos bisnetos e tataranetos; e que os Beatles não deixarão mais a história da música do século 20 como um de seus acontecimentos mais dourados.

“And in the end
The love you take
Is equal to the love
You make.”

Siga viagem em outras criações do Mega-Macaco Macca…

ÁLBUNS DE ESTÚDIO (COMPLETOS)

MCCARTNEY (1970)
 ALGUMAS CANTIGAS MEMORÁVEIS
“WHEN I’M 64” DO SGT PEPPERS
“SHE’S LEAVING HOME” OUTRA DO SARGENTO PIMENTA
THE BEATLES ANTHOLOGY (ÁUDIO)
(6 horas de Beatles!)