AS CILADAS DA CREDULIDADE: Spinoza como crítico da superstição

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Não são poucos os filósofos que pretendem agir como demolidores da superstição: uma das metas explícitas de Lucrécio, em seu poema-tratado Da Natureza, era justamente disseminar as luzes do epicurismo e da atomística materialista de modo a dissipar os terrores vãos e esperanças ilusórias que são a praga da consciência supersticiosa. Nietzsche, por sua vez, também declara-se engajado na causa não só de descrever um Crepúsculo dos Ídolos, mas também de acelerar e catalisar uma renovação de valores que fará as velhas idolatrias caírem por terra (elas têm, afinal, pés-de-barro). Spinoza também se insere nesta tradição e sua filosofia fornece-nos amplos meios para a crítica daqueles que “interpretam a natureza da maneira mais extravagante, como se toda ela delirasse ao mesmo tempo que eles.” (TTP, p. 6)

Spinoza fornece-nos um retrato psicológico do supersticioso em que oferece tanto um diagnóstico quanto uma terapêutica. Comecemos pelo diagnóstico clínico: “a que ponto o medo ensandece os homens!”, escreve Spinoza no Prefácio do TTP. “O medo é a causa que origina, conserva e alimenta a superstição. Os homens só se deixam dominar pela superstição enquanto têm medo; todas essas coisas que já alguma vez foram objeto de um fútil culto religioso não são mais do que fantasmas e delírios de um caráter amedrontado e triste…” (p. 6)

O filósofo não poderia ser mais claro: a causa evidente da superstição é o medo, e sabemos que o medo tem uma irmã siamesa que sempre aparece junto dele, a esperança. Medo e esperança, de mãos dadas, entre fantasmas e delírios, geram esta interpretação extravagante da natureza que Spinoza pretende sanar e curar através de sua Ética tão terapêutica. Abaixo os afetos tristes, os temores opressivos, os medos que nos murcham!

 Aquilo que é superstição no âmbito do indivíduo aparece à Spinoza, quando este considera o espaço mais amplo da sociedade como um todo, como instrumento eficaz para governar as multidões. Religiões institucionalizadas são ferramentas inventadas para manipular superstições, manobrando-as na massa com certos fins às vezes bastante perversos e repletos de barbárie. Exemplo: a escravidão – ato violentador e cruel em vasta escala – que praticavam os europeus da época de Spinoza, branquelos bárbaros que sequestravam na África os seres humanos que punham para labutar escravamente nas colônias americanas; brancos imperialistas e etnocêntricos, não hesitavam em chacinar populações indígenas, tudo isso com pequenos crucifixos nos peitos e muitas palavras bíblicas nos lábios para justificar seus atos tão agradáveis a Deus (afinal de contas, diziam, nem índio nem preto tem alma).

Spinoza viveu na Holanda do século XVII, quando esta era uma das poucas nações européias já em regime republicano, e têm rajadas de críticas contra o Antigo Regime de que foi contemporâneo e que só ganharia de fato este nome – l’ancien régime – na época da Revolução Francesa, em fins do século XVIII. “Se, efetivamente, o grande segredo do regime monárquico e aquilo que acima de tudo lhe interessa é manter os homens enganados e disfarçar, sob o especioso nome de religião, o medo em que devem ser contidos  para que combatam pela servidão como se fosse pela salvação e acreditem que não é vergonhoso, mas sumamente honroso, derramar o sangue e a vida pela vaidade de um só homem…” (p. 8)

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Spinoza não disfarça sua simpatia desabrida pelo republicanismo, que vincula ao secularismo, ou seja, a um regime político em que a laicidade do Estado é plena: o Estado não está à serviço de nenhuma facção religiosa. Ode à Holanda, a terra de Spinoza e Nassau e Van Gogh: “Já que nos coube em sorte essa rara felicidade de viver numa República, onde se concede a cada um inteira liberdade de pensar e de honrar a Deus como lhe aprouver e onde não há nada mais estimado nem mais agradável do que a liberdade…” (p. 8)

A monarquia, que se sustenta na ideologia falaciosa do “direito divino dos reis” e que instaura um regime tirânico, em que a massa da população serve de capacho a um punhado de nobres, aristocratas reinando amontoados na corte real e em suas ramificações eclesiásticas e jurídicas, é dardejada pela crítica de Spinoza, defensor da laicidade, da secularização, da liberdade de crença e opinião. Spinoza entusiasma-se pela república democrática e pluralista onde são hegemônicos os valores invioláveis da liberdade de pensamento, expressão e crença.

Atacar os preconceitos, parece pensar Spinoza, é realizar atos em prol do bem público (Marilena Chauí, creio, concordaria). Pois os preconceitos são danosos e “de racionais transformam os homens em irracionais, os preconceitos tolhem por completo o livre exercício da razão e a capacidade de distinguir o verdadeiro do falso, parecendo expressamente inventados para apagar definitivamente a luz do entendimento!” (p. 10)

Note-se: tais palavras iluminadas são precursoras da maré montante de Iluminismo que começa a erguer-se na Europa, saturada então com conflitos fratricidas entre grupos de diferentes inclinações religiosas e massacres cometidos por facções de crentes contra seus adversários. “A luz natural é não só desprezada mas até condenada por muitos como fonte de impiedade”, reflete Spinoza, que em seu Tratado Teológico-Político trata de pôr em atividade em toda a lucidez esta “luz natural” da razão para que esta batalhe contra os preconceitos e superstições que encerram o mundo no obscurantismo sanguinolento.

Em um contexto de discórdias violentas e conflitos derramadores de tripas, Spinoza propõe-se a empreender um “exame da Escritura” em que assume um compromisso cartesiano: só admitir como verdade aquilo que sua razão puder assim considerar clara e distintamente. Os poderes que só se sustentam sobre a base do obscurantismo que eles assumem e propagam sentem-se temerosos diante de qualquer figura que ouse pôr em questão aquilo que é tradicionalmente santificado como verdadeiro e indubitável. Spinoza será excomungado da comunidade judaica holandesa – assim como Platão havia mandado queimar a obra de Demócrito, sua obra será estigmatizada como algo “forjado no Inferno”, para citar o título do elucidativo estudo escrito por Steven Nadler, A Book Forget In Hell.

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Spinoza (1632-1677), vivente-vidente, polidor de lentes, advogado das alegrias dos entes, entusiasta de tudo que nos liberta das correntes, as de ferro e as da mente! Spinoza foi “o mais puro dos sábios”, segundo Nietzsche, que não tinha o costume da adulação incontida e injustificada – deve ter sentido, pois, que Spinoza de fato merecia tão altos louvores! Na história da filosofia, há poucos pensadores mais “radicais” em sua denúncia das superstições e que tanto tenha feito para libertar a humanidade – tal como haviam tentado Lucrécio e Epicuro antes dele, tal como farão depois Diderot, Nietzsche, Marx ou Freud – das esperanças e temores absurdos a que se aferrolham os apavorados supersticiosos…

Algumas das teses spinozistas mais ousadas, que batiam de frente com as superstições religiosas de sua época, valeram-lhe a excomunhão e a perseguição dos fanáticos: Deleuze conta-nos a curiosa estória de que,  tendo sobrevivido a um atentado (uma tentativa de homicídio) perpetrado por um um fanático, Spinoza guardou o casaco com o furo da facada como um souvenir sinistro do quão pouco alguns homens respeitam o livre pensamento. Já ele, Spinoza, avesso a todos os fanatismos e dogmatismos, prestou um culto ao livre-pensar de uma vitalidade que prossegue até hoje imensa: é um aliado na ampliação atual de nossas potências e na expansão da nossa lucidez!

Na sequência, seguem alguns trechos de Spinoza – Filosofia Prática, em que Deleuze sintetiza muito bem o spinozismo em seu aspecto afirmador, rejubilante, empoderador: uma sabedoria de vida que nos ensina a vencer escravidões e tiranias, tristezas e impotências, temores e esperanças, fazendo-nos compreender que só há expansão de potência na alegria e que nos convida à beatitude dos agentes, ao invés da impotência dos pacientes. Agir ao invés de padecer, amar ao invés de depreciar, “não zombar nem lamentar, mas compreender”: eis alguns dos sábios conselhos spinozistas.

Como o entendo, Spinoza nos diz que Deus não é um velhinho barbudo e furibundo que mora nos céus, de onde lança bolas de fogo para punir os ímpios e de onde prega sermões e promulga leis que, se obedecidas com servilismo, serão recompensadas na Confeitaria Paradisíaca. Isso não passa de um delírio grotesco da imaginação humana, interesseira e ego-cêntrica. Não é preciso subir uma montanha, como fez Moisés, para se comunicar com Ele: para Spinoza, o único Deus concebível é um Deus que está em toda parte já que é a Natureza mesma, um Deus que se confunde com o Universo, um Deus que é idêntico ao Ser-na-Totalidade. A morte da transcendência é o triunfo da mais radical imanência: Deus não existe lá longe, numa nuvem distante, numa dimensão transcendente, num outro mundo qualquer, exilado nas lonjuras inatingíveis. Deus é o nome que damos a esse Todo de que fazemos parte: estamos Nele como os peixes estão no oceano e como os pássaros estão no ar…

Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro

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DE GILLES DELEUZE
Spinoza – Filosofia Prática
Editora Escuta, São Paulo, 2002
Capítulo I & II

“As principais interrogações do Tratado Teológico Político são: por que o povo é profundamente irracional? Por que ele se orgulha de sua própria escravidão? Por que os homens lutam por sua escravidão como se fosse sua liberdade? Por que é tão difícil não apenas conquistar mas suportar a liberdade? Por que uma religião que reivindica o amor e a alegria inspira a guerra, a intolerância, a malevolência, o ódio, a tristeza e o remorso? É possível fazer da multidão uma coletividade de homens livres, em vez de um ajuntamento de escravos?

Poucos livros suscitaram tantas refutações, anátemas, insultos e maldições: judeus, católicos, calvinistas e luteranos rivalizam em denúncias. […] Um livro explosivo mantem sempre sua carga explosiva: ainda hoje não se pode ler o Tratado sem nele descobrir a função da filosofia como tentativa radical de desmistificação.

Espinosa faz parte dessa estirpe de pensadores que mudam os valores e praticam uma filosofia a marteladas, e não daquela dos ‘professores públicos’, aqueles que, segundo o elogio de Leibniz, não interferem nos sentimentos estabelecidos, na ordem da Moral e na Polícia. (…) Tanto na sua maneira de viver como de pensar, Espinosa oferece uma imagem da vida positiva e afirmativa, em detrimento dos simulacros com os quais os homens se contentam.

Nenhum filósofo foi mais digno do que Espinosa, mas também nenhum outro foi tão injuriado e odiado. […] A grande tese teórica do spinozismo é: há uma única substância que possui uma infinidade de atributos, Deus sive Natura (“Deus, ou seja, a Natureza”), sendo todas as “criaturas” apenas modos desses atributos ou modificações dessa substância. O panteísmo e o ateísmo se conjugam em Espinosa, negando a existência de um Deus moral, criador e transcendente. Há três grandes semelhanças com Nietzsche e elas são as razões pelas quais ele é acusado de materialismo, imoralismo e ateísmo.

 “Não tendemos para uma coisa porque a julgamos boa; mas, ao contrário, julgamos que uma coisa é boa porque tendemos para ela”(Spinoza, Ética, III, 9, esc.) O bom existe quando um corpo compõe diretamente a sua relação com o nosso e, com toda ou com uma parte de sua potência, aumenta a nossa. Por exemplo, um alimento. O mau para nós existe quando um corpo decompõe a relação do nosso corpo… por exemplo, um veneno que decompõe o sangue. Bom e mau têm pois um sentido relativo e parcial: o que convém a nossa natureza e o que não convêm.

Bom e mau tem um segundo sentido, qualificando dois modos de existência do homem: será dito bom (ou livre, ou razoável, ou forte) aquele que se esforça, tanto quanto pode, por organizar os encontros, por se unir ao que convém a sua natureza, por compor a sua relação com relações combináveis e, por esse meio, aumentar sua potência. Pois a bondade tem a ver com o dinamismo, a potência e a composição das potências. Dir-se-á mau, ou escravo, ou fraco, ou insensato, aquele que vive ao acaso dos encontros, que se contenta em sofrer as consequências, pronto a gemer e a acusar toda vez que o efeito sofrido se mostra antagônico e lhe revela a sua própria impotência.

Spinoza, em toda a sua obra, não cessa de denunciar três espécies de personagem: o homem das paixões tristes; o homem que explora essas paixões tristes, que precisa delas para estabelecer o seu poder; enfim, o homem que se entristece com a condição humana e as paixões do homem em geral (que tanto pode zombar como se indignar…). O escravo, o padre, o tirano… trindade moralista.

Nunca, desde Epicuro e Lucrécio, se mostrou melhor o vínculo profundo e implícito entre os tiranos e os escravos: o tirano precisa da tristeza das almas para triunfar, do mesmo modo que as almas tristes precisam de um tirano para se prover e propagar. De qualquer forma, o que os une é o ódio à vida, o ressentimento contra a vida. AÉtica de Spinoza traça o retrato do homem do ressentimento, para quem qualquer tipo de felicidade é uma ofensa e que faz da miséria ou da impotência sua única paixão. “Os que não sabem fortificar os homens mas sim deprimi-los, esses são insuportáveis para si mesmos.” (Spinoza, Ética, IV, apêndice, Cap. 13).

Há efetivamente em Spinoza uma filosofia da “vida”: ela consiste em denunciar tudo o que nos separa da vida, todos esses valores transcendentes que se orientam contra a vida… A vida está envenenada pelas categorias do Bem e do Mal, da falta e do mérito, do pecado e da remissão. O que perverte a vida é o ódio, inclusive o ódio a si mesmo, a culpabilidade. […] Antes de Nietzsche, ele denuncia todas as falsificações da vida, todos os valores em nome dos quais nós depreciamos a vida: nós não vivemos, mantemos apenas uma aparência de vida, pensamos apenas em evitar a morte e toda a nossa vida é um culto à morte.

Essa crítica das paixões tristes está profundamente enraizada na teoria de Spinoza a respeito das afeições. Um indivíduo é antes de mais nada alguém com poder de ser afetado. […] Devemos distinguir dois tipos de afeição: as ações e as paixões. O poder de ser afetado apresenta-se então como potência para agir, na medida em que supõe preenchido por afeições ativas, e apresenta-se como potência para padecer, quando é preenchido por paixões.

O próprio da paixão consiste em preencher a nossa capacidade de sermos afetados, separando-nos ao mesmo tempo de nossa capacidade de agir, mantendo-nos separados desta potência. A paixão triste é sempre impotência. […] Ao contrário, quando encontramos um corpo que convém à nossa natureza e cuja relação se compõe com a nossa, diríamos que sua potência se adiciona à nossa: as paixões que nos afetam são alegria, nossa potência de agir é ampliada ou favorecida.

As paixões tristes representam o grau mais baixo de nossa potência: o momento em que estamos separados ao máximo de nossa potência de agir, altamente alienados, entregues aos fantasmas da superstição e às mistificações do tirano. A Ética de Spinoza é necessariamente uma ética da alegria: somente a alegria é válida, só a alegria nos aproxima da ação e da beatitude da ação.”


GILLES DELEUZE

Spinoza – Filosofia Prática
Editora Escuta, São Paulo, 2002
Capítulo I & II

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Outra das obras mais esclarecedoras e iluminantes sobre o pensamento spinozista é o pequeno livro de Alain, Spinoza (Ed. Gallimard). Abaixo, compartilho alguns trechos dele, no original em francês, infelizmente ainda sem tradução no Brasil:

Alain“Les hommes sont pour la plupart méchants et mal-heureux. Ils sont méchants parce qu’ils mettent leur bonheur dans la possession d’objets qui ne peuvent être à la fois à plusieurs, comme les honneurs et l’argent, et qu’ainsi le bonheur d’autrui les rend malheureux, et qu’ils ne peuvent, em revanche, être heureux qui si leurs semblables souffrent. (…) Ils sont de plus en plus malheureux parce qu’ils s’attachent à des objets dont ils ne sont point les maîtres, à des choses périssables qui ne font qu’apparaître dans l’existence, et que le cours ordinaire des événements suffits à leurs enlever…” (pg. 29)

“Il est facile de voir que les Religions ne sont presque toujours pour l’homme qu’une source nouvelle de crainte et de tristesse. Car ceux qui ont l’habitude de conduire les hommes par la crainte et l’espérance n’ont pas perdu cette occasion de leur représenter que Dieu est un être méchant et redoutable, qui est jaloux de leurs pauvres joies et qui se réjouit de leurs larmes. Et ainsi les hommes, au lieu d’un libérateur, ont trouvé leur maître; et la fausse Religion les fait deux fois esclaves…” (pg. 30)

“Il n’y a point, dans l’âme humaine, de volonté libre. Rien au monde ne peut être indépendant de Dieu, et le cours des événements, qui résulte, nécessairement et selon des lois éternelles, de la nature divine, ne peut pas dépendre des caprices de l’individu. (…) Et assurément cela ne veut point dire qu’il n’y ait pour l’homme aucune puissance ni aucune liberté, c’est-à-dire aucun salut, puisque nous traiterons bientôt de la puissance de l’homme sur ses passions et de la liberté humaine. Cela veut dire seulement que l’homme n’a point de puissance sur les événements, et qu’il doit d’abord les accepter et comprendre que dans l’ordre du fait aucun salut, aucun délivrance, aucun progrès n’est possible. Ce n’est point en modifiant les événements de sa vie que l’homme se sauvera et se libérera, c’est en les appréciant à leur juste valeur, en comprenant que sa vie véritable est autre part, au-dessus des événements qui passent, dans l’éternel. En vain cherchera-t-il à tirer de ses perceptions la moindre vérité; il ne fera jamais que changer une erreur pour une autre; la vérité est d’un autre ordre et dans une autre région; c’est par la déduction des essences qu’on y peut arriver. (…) La puissance de l’homme est d’un autre ordre; elle est non sur le corps ou sur les faits, mais sur les idées, dans l’ordre des essences; elle est dans la Raison. Et la liberté est encore d’un autre ordre; elle est dans la connaissance de tout cela par Dieu et em Dieu, dans la contemplation immédiate du vrai, dans la connaissance du troisième genre.” (p. 61)

“On ne peut rendre responsable aucune volonté libre de l’injustice et de la méchanceté des hommes. Quand on a compris cela, on ne peu plus ni s’indigner, ni blâmer, ni häir, et, en ce sens, on est dèjà meilleur.” (p. 75)

“On comprend très bien, par exemple, qu’un homme s’abstienne de faire du mal à quelqu’un qu’il hait, par crainte d’un mal plus grand. Et c’est ainsi qu’une societé peut s’établir et durer, pourvu qu’elle se charge de punir ceux qui feront tort à leur voisin, et d’établir des lois appuyées sur la menace. (…) Si, de plus, on ajoute à la puissance des lois celle de la superstition, et si l’on ajoute à la crainte des tribunaux et des peines infligées par les hommes, la crainte d’un Dieu cruel qui punira de plus les hommes après leur mort, tout dans cette cité donnera l’image parfaite de la paix, de la concorde, de la bonne foi et de la religion. Et pourtant les passions y seront reines, et toutes ces prétendues vertues résulteront seulement de la crainte que la société tout entière aura su inspirer à chacun de ses membres. C’est ce qu’il faut d’abord comprendre, afin de n’être pas trompé par ce faux bien, cette fausse justice, cette fausse vertu que, s’ils rendent l’homme moins malfaisant, le font deux fois esclave.” (p. 77-78)

“Les superstitions et fausses religions, qui ne cherchent point à rendre réellement les hommes meilleurs, mais seulement à contenir leurs passions dans l’interêt commun, font, de la crainte et de la tristesse, des vertus, comme aussi elles font, de la sécurité et de la joie, des vices, et imaginent un Dieu cruel et jaloux qui se réjouit des larmes et de la terreur des hommes, et qui s’irrite de leurs joies.” (p. 79)

“La joie est toujours un bien, parce qu’elle est le signe certain de notre passage à une plus grand perfection.” (p. 88)

“Seule parmi tous les biens, la verité peut être toute à tous.” (p. 96)

“La plupart des hommes croient qu’ils sont libres quand ils peuvent obéir à leur caprice, et ne cèdent un peu de cette liberté que parce qu’ils attendent un châtiment ou une récompensee dans une autre vie. Ils se disent que s’ils n’avaient pas cette crainte et cette espérance, s’ils ne croyaient ni à Dieu, ni à l’éternité de l’âme, ils s’affranchiraient du joug de la vertu. Mais l’homme raisonable n’a pas besoin d’être ainsi dominé par la crainte et par l’espérance pour être juste et bon. Même lorqu’il croit que Dieu n’est pas, et que l’amê périra avec le corps, il n’en vit moins selon la vraie Religion.” (p. 100)

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OUTRAS LEITURAS RECOMENDADAS

BalibarEtienne Balibar
Spinoza and Politics

Download (pdf, 14 mb):
http://bit.ly/1cZ8O0U

“A rich analysis of Spinoza’s key works within the context of his political, religious and ideological life. With Hobbes and Locke, Spinoza is arguably one of the most important political philosophers of the modern era, a premier theoretician of democracy and mass politics. In this revised and augmented English translation of his 1985 classic, Spinoza et la Politique, Etienne Balibar presents a synoptic account of Spinoza’s major works, admirably demonstrating relevance to his contemporary political life.

Balibar carefully situates Spinoza’s major treatises in the period in which they were written. In successive chapters, he examines the political situation in the United Provinces during Spinoza’s lifetime, Spinoza’s own religious and ideological associations, the concept of democracy developed in the Theologico-Political Treatise, the theory of the state advanced in the Political Treatise and the anthropological basis for politics established in the Ethics.”

PUXANDO O FREIO DE EMERGÊNCIA: Reflexão na companhia de “Crédito à Morte”, de Anselm Jappe (Ed. Hedra, 2013)

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PUXANDO O FREIO DE EMERGÊNCIA
Reflexão na companhia de Anselm Jappe

por Eduardo Carli de Moraes
http://www.acasadevidro.com

Cartão de Credito

AS ESPERANÇAS CATASTROFISTAS DE DECOMPOSIÇÃO DO CAPITALISMO

Uma velha esperança, que “gerações e gerações de revolucionários proclamaram”, é esta: o capitalismo será o “coveiro de si mesmo”. Segundo esta esperança, explica o filósofo Anselm Jappe, “o capitalismo é de tal modo devastador que forçará a humanidade a se desvencilhar dele ou, pelo menos, a fazer mudanças drásticas.” (pg. 28) É a tese que Jappe chama de “catastrofista”, disponível em versão ecológica e econômica, e que é expressa muitas vezes com um certo entusiasmo esperançoso: “O instinto de sobrevivência fará com que a humanidade pare às bordas do penhasco” e “diante do perigo extremo, as pessoas acordarão e um milagre acontecerá”! (pg. 29)

Mas se não há Providência divina que zele pelo futuro da Humanidade, nem ética que governe a livre barbárie do Mercado, de onde este evento milagroso surgiria para despertar as multitudes de seu conformismo, de seu consumismo, de sua zumbizice? O capitalismo não é algo que diz respeito somente às estruturas da economia, da produção objetiva de mercadorias e serviços, mas também à nossa estrutura subjetiva: “Desde pequeno fomos programados a receber / O que nos empurraram com os enlatados do U.S.A. das 9 às 6”, canta Renato Russo em “Geração Coca-Cola”. “Desde pequenos nós comemos lixo comercial e industrial – e não somente o capitalismo agarra-nos com seus tentáculos por fora, como também coloniza nosso mundo íntimo. 

Um dos conceitos mais interessantes mobilizados por Anselm Jappe em sua análise da presente crise ecológico-climática planetária (milhares de alarmes soando, enquanto a Shell avança pelo Ártico e a Monsanto coloniza nosso solo…) é a do capitalismo como forma-sujeito. Capitalismo é também uma forma do sujeito ser, o que acarreta a possibilidade, para todos e cada um, de que o capitalismo seja um crime de que somos cúmplices. Nós o sustentamos.

As “revoluções”, opina o autor de Crédito À Morte, emergem de um desejo de “romper com o capitalismo e com a própria forma-sujeito imposta por ele e que cada um carrega consigo” (pg. 112). Nosso imaginário foi colonizado e agora sonha seus delírios de consumo: sonhamos não mais sobre a esfinge proposta pelo dínamo estrelado da noitemas sim com um novo automóvel zero km que queremos comprar. Narcisos perdidos em suas narcoses de auto-celebratório conformismo, permanecemos firmemente abraçados a um Titanic que já teve seu casco ferrado pelo clash com o iceberg. 

É insistente, teimoso, este nosso velho conhecido: o antropocentrismo. Ele resistiu e sobreviveu às 3 feridas narcísicas de que fala Freud e que acometeram-nos quando as doutrinas científicas heliocêntricas, evolucionistas e psicanalíticas começaram o processo de demolição de nosso antropo-ego. Não cremos mais numa Terra imóvel no centro de tudo, mas cremos numa Terra que é legitimamente colonizada pelos humanos como se fosse algum tipo de rocha morta em território alienígena. Cremos no nosso direito de sujar a atmosfera com toneladas de poluentes, apesar de não crermos mais que todas as estrelas no céu foram criadas para agradar a nossa vista, como pintava aquela visão, teleológica e narcisista, tão finamente ironizada por Fontenelle no clássico iluminista Diálogos Sobre a Pluralidade de Mundos:

“A nossa loucura é acreditar também que toda a natureza, sem exceção, é destinada a nosso uso; e quando perguntamos a nossos filósofos a serventia desse número prodigioso de estrelas fixas… eles nos respondem friamente que servem para lhes agradar a vista. Nessa base, a princípio não faltou quem imaginasse estar a Terra necessariamente imóvel no centro do universo, enquanto todos os corpos celestes, que eram feitos para ela, davam-se ao trabalho de girar em volta para iluminá-la.” (FONTENELLE, Diálogos Sobre a Pluralidade de Mundos. Campinas/SP: Editora da UNICAMP. Pg. 53)

Se abandonamos o geocentrismo, no entanto ainda cremos numa Terra que está aí para que nós a dominemos, e que aceita passivamente tudo o que impusermos a ela como subprodutos de nossos empreendimentos produtivos: grande parte de nós não é capaz de “expressar dúvidas sobre o rumo como um todo da viagem empreendida pela sociedade industrial” (pg. 113). Jappe quer que foquemos a atenção em algo maior que qualquer existência individual, qualquer grupo social, qualquer pátria ou filiação étnica: é o rumo como um todo desta civilização o que interessa-lhe compreender e criticar, e a palavra rumo é interessante por seu “futurismo”: ruma-se para um certo futuro, ou ou z. Supondo que seja um futuro de caos climático generalizado e grandes emergências humanitárias e mortandades em vasta escala, não seria de interesse humano generalizado uma mudança drástica de rumo?

Rumo ao quê? Quicá a um certo futuro y, que não queime mais combustíveis fósseis como um junkie enlouquecido injeta heroína. Um futuro y em que, ao contrário, a superfície do planeta tenha reverdejado com o engendramento de novos verdes e reganhado a saúde de suas flores e suas colméias de abelhas. Um futuro y, que cabe a nós muito mais construir juntos do que esperar que algum deus, messias ou político faça pela gente, seria por exemplo movido a energia solar e eólica, sua dieta seria mais frugívora do que carnívora, a convivência social mais comunitária e celebratória, bem menos cruel e menos competitiva em relação ao que é hoje.

Que um outro futuro z, de catástrofe apocalíptica – digamos… 90% das espécies vivas do planeta sendo extintas antes de 2.500 d.C. – , seja possível é certamente a crença de Jappe. O pior é possível. E nossos rumos não nos dão razão para otimismos infundados. Rumamos sim para colapsos, para catástrofes climáticas, caso sigamos hoje certos rumos infelizmente já bem trilhados – e que muitos parecem querer seguir trilhando, quiçá pelo medo que nos geram as novas estradas.  “Houve já civilizações inteiras que desapareceram em vez de mudar seus hábitos”, opina Anselm Jappe, um autor bastante ducha-d’água-fria sobre os otimismos. O prognóstico Jappeano é sombrio: “O que está programado é a catástrofe e não a emancipação.” (pg. 28)

O que hoje conhecemos como “Aquecimento Global”, por exemplo, é uma catástrofe programada, já muito anunciada, já infinitamente prognosticada, que no entanto não soubemos, coletivamente, sequer encarar de frente, de olhos bem abertos e disposição para a ação renovadora. A perspectiva de uma iminente crise climática global agora serve como novo avatar deste velho mito: o capitalismo, coveiro de si mesmo. Estamos esperando que ele se auto-destrua, e enquanto isso passeamos pelos shoppings centers e circulamos pela metrópolis queimando fósseis em nossos motores? Mas e quanto – eis a questão do milhão… – à tarefa de matar o capitalismo dentro de si?

Antidepressivos

A globalização do sistema de produção capitalista trouxe-nos à beira do penhasco, mas muitos de nós estão demasiado distraídos, clicando compulsivamente em botões de celulares e PCs, zapeando por centenas de canais de TV repletos de besteirol imbecilizante e iscas para o consumo sem freios, e enquanto isso a atmosfera do planeta é tratada como se fosse uma gigantesca privada. O privatismo caga sobre a biosfera, perdido na narcose de seu narcisismo, obcecado com o conforto e o bem-estar, mas despreocupado das próprias condições ambientais para o prosseguimento desta velha trama: a evolução da vida.

Lendo “Crédito à Morte”, de Anselm Jappe, fico com a impressão de que existem pelo menos duas vertentes para o catastrofismo intelectual atual, e que daria para rotular, de modo um tanto simplista, como vertentes otimistas e pessimistas. Os otimistas acham que “o instinto de sobrevivência fará com que a humanidade pare às bordas do penhasco e reconheça que a continuidade do capitalismo é incompatível com os interesses fundamentais de sobrevivência.”

Já os pessimistas, como Jappe, argumentam: “infelizmente não existe instinto de sobrevivência generalizado… A consciência dos riscos ecológicos não leva necessariamente à emancipação. Pelo contrário, também pode levar a soluções autoritárias, à concorrência extrema para ter acesso aos lugares não poluídos, ou a novas guerras. A derrocada econômica também não traz consigo um vento que sopra rumo à emancipação…” (pg. 29)

Emancipação, palavra menos judiada pela história que “revolução”, prossegue servindo-nos como conceito fundamental para pensar nossa ação, ainda que precisemos renovar o rol de tudo aquilo de que precisamos (urgentemente) nos emancipar. Anselm Jappe despeja seu sarcasmo sobre movimentos políticos que desejassem, por exemplo, demandar “o direito de todos comerem no McDonald’s”, quando ele acredita que “a emancipação não pode ser outra coisa senão a libertação em relação àquilo que impede a autonomia num nível mais profundo e mais geral. Essa emancipação só pode dizer respeito ao sistema capitalista e tecnológico em seu conjunto.” (pg. 30)

Diante da disseminação dos transgênicos e dos pesticidas, da proliferação dos ecocídios petrolíferos e das táticas de fracking, da possível clonagem humana e do fantasma da eugenia rediviva, da certeza de que o capitalismo seguirá produzindo crises como a de 2008 (e quiçá ainda mais graves), diante do desmate de florestas tropicais e da extinção de milhares de espécies, e frente às geleiras que derretem-se enquanto a Shell avança como vampira sobre o Ártico, talvez devamos prestar um tantinho de atenção aos catastrofistas, estes que sugerem que talvez seja hora de… puxar o freio de emergência!

“É conhecida a frase de Walter Benjamin escrita na época em que o fascismo triunfava:

“Marx diz que as revoluções são as locomotivas da história. Mas talvez não seja bem assim. É possível que as revoluções sejam, para a humanidade que viaja nesse trem, o gesto de puxar o freio de emergência.”

(BENJAMIN, W. Notes préparatoire pour les thèses sur le concept d’histoire. Paris: Gallimard, Vol. III, p. 442)

Vivemos tossindo em nossas metrópoles megapoluídas e todo este CO2 causa no cérebro coletivo uma crise das utopias? De todo modo, aos que insistem em proclamar e decretar a invencibilidade do capitalismo, convêm perguntar: “Por que estamos tão certos de que o capitalismo pode escapar ao ciclo do nascimento, crescimento e morte? Será que ele não poderia conter limites intrínsecos a seu desenvolvimento, limites que não residem somente na existência de um inimigo declarado (o proletariado, os povos oprimidos), nem unicamente no esgotamento dos recursos naturais?” (JAPPE, pg 48)

Montt

O prognóstico catastrofista sobre nosso futuro é o de que caminhamos correndo rumo a um abismo que não enxergamos pois diante de nossas mentes está a imensa Matrix do Mercado. Caminhamos a passos largos para a catástrofe ecológica de vasta escala, a uma desregulação tão bárbara do sistema climático que suas consequências para o futuro da vida são imensos, e muitos seguem tão apegados a seus cartões-de-crédito quanto o são de seus crucifixos e pingentes santos. Evocando Céline, Anselm Jappe diagnostica que o capitalismo é morte à crédito. E que “o crédito, que é um lucro consumido antes de ter sido realizado, pode adiar o momento em que o capitalismo vai atingir seus limites sistêmicos, mas não abolir esse limite.” (pg. 51)

Celulares em 10 parcelas, sem juros! Financie seu carro e sua casa, pague nas três décadas futuras! Quem não ouve às mancheias, hoje em dia, serem trombeteadas, como iscas, pelos publicitários de plantão, convites ao crédito, seduções sobre as maravilhas inumeráveis do crédito? Ser pessoa “digna de crédito” é elogio. Tem quem adorne-se com terno e gravata (item de vestuário apelidado pelo iconoclasta Tom Zé como uma “forca portátil”) pois quer parecer pessoa de crédito. E no entanto o crack de 2008 chegou feito cataclismo, com muitas analogias históricas com a Grande Depressão iniciada em 1929, e mostrou que crédito e catástrofe são irmãs siamesas. A tese de Anselm Jappe é a de que a mais grave das crises do capitalismo global recente não pode ser explicada apenas com aquela que é a “explicação mais despachada, e também a mais difundida, que atribui a culpa de tudo isso à ‘avidez’ de um punhado de especuladores que teriam jogado com o dinheiro de todos como se estivessem num cassino.” (pg. 40)

crédito massificado merece ser o alvo de nossa crítica, argumenta Jappe, não para encontrarmos aí um bode expiatório, mas para que sejamos ilustrados por um dos sintomas do capitalismo contemporâneo e sua Schumpeteriana “destruição criadora”. O trem do capitalismo globalizado choca-se com os limites naturais e as resistências ético-políticas, está sob ameaça de desintegração, pois duas fronteiras foram transgredidas: “um limite externo foi atingido, tanto com o esgotamento dos recursos – principalmente do recurso mais importante e o menos substituível: a água potável -, quanto com as mudanças irreversíveis do clima, a extinção das espécies naturais e o desaparecimento de paisagens. Mas o capitalismo também se dirige a um limite interno… a transformação do trabalho em valor está historicamente destinada ao esgotamento por causa das tecnologias que substituem o trabalho.” (60) A tecnê há de enterrar o velho vilão?

Dahmer Tecnê

Os catastrofistas encontram esperanças onde podem. É perdoável diante do trauma daquilo que vivenciaram assim que ousaram pôr as caras fora da Matrix midiática, para investigar o que de fato está sendo feito com o planeta atualmente. É de imensa valia a obra, nascendo tão belamente diante de nossos olhos, de pessoas como Arundhati Roy, Raj Patel, Naomi Klein, Vandana Shiva, dentre tantos outros, que corajosamente ilustram-nos sobre nosso habitat e nossa responsabilidade, ajudando-nos também a confrontar o monstro em si, monstro dentro de cada um, esta tarefa que muitos pensadores da esquerda radical anti-capitalista às vezes praticam de modo débil e esquivo… Não basta dizer que é tudo culpa de uma conspiração de ricos, uma corja de canalhas endinheirados, que gerem um desastroso cassino capitalismo: precisamos confrontar, cada um de nós, dentro de nós mesmos, o quanto somos cúmplices do capitalismo que às vezes, da boca pra fora, repudiamos.

Se ando julgando que a obra de Anselm Jappe merece ser lida, é um pouco pelo efeito de gerar no leitor uma sensação de repúdio refletido ao capitalismo. Jappe defende uma “lucidez” que nos faça ir além do mero “engrossar o coro dos populistas de toda cor que se limitam a resmungar contra os bancos, as finanças e as bolsas… Esse populismo desembocará facilmente na caça ‘aos inimigos do povo’, na parte de baixo (os imigrantes) e na parte de cima (os especuladores), no caso da França, evitando toda e qualquer crítica dirigida contra as verdadeiras bases do capitalismo, que aparecem, ao contrário, como sinônimo da civilização a ser salva: o trabalho, o dinheiro, a mercadoria, o capital, o Estado.” (pg. 63)

Parece vigorar uma espécie de desilusão crônica no seio da intelectualidade crítica. Hoje em dia Zizek, Badiou e Negri, três dos principais representantes de uma filosofia crítica à supremacia capitalista, não me parecem exatamente otimistas quanto ao futuro, já que é “mais fácil imaginar o fim do planeta do que imaginar o fim do capitalismo” (Zizek). Mas será que não se trata de algo mais do que imaginar fim do capitalismo? Não se trata sobretudo de emancipar os corpos e mentes dos seres humanos da escravidão em que insistem em viver, comprando fielmente as mercadorias e as ideologias das mãos daqueles que são os coveiros do nosso futuro“Efetivamente, dá vertigem encarar o fim de um modo de vida em que todos estamos afundados até o pescoço”, escreve Anselm Jappe, e “que agora está naufragando sem que ninguém tenha decidido, deixando-nos numa paisagem de ruínas.” (p. 63)

Bem vindo à wasteland do real. O lugar da distopia realizada, onde a utopia (eco-socialista, por exemplo) só brilha por sua ausência. Ou melhor: as utopias anti-capitalistas parecem queimar em fogo baixo, enquanto proliferam-se os reformismos e os green capitalisms, pregando que o capitalismo seria eternamente corrigível, como se tivéssemos que nos resignar ao melhorismo gradativo do que aí está.

O fundamentalismo de mercado pôde impor em boa parte do globo terrestre as suas maquinarias de produção e consumo, mas ainda não colonizou totalmente nossos corações e mentes, disso Jappe bem sabe. O outro mundo possível frequentemente acompanha os catastrofistas em sua atribuladas jornadas teóricas e práticas – e a tarefa do intelectual jamais pode ser somente denuncista e nada propositiva. “Para além das rebeliões abertas, há infinitos atos cotidianos que dão o testemunho da resistência, frequentemente muda, que quase todos os homens, num momento ou em outro de seu dia, opõem à utopia invivível de uma sociedade inteiramente capitalista. (…) Talvez seja uma ‘utopia ingênua’ crer que a humanidade possa viver sem a propriedade privada e as hierarquias, a dominação e a exploração; é seguramente uma utopia terrível crer que a vida possa continuar a se basear sempre no dinheiro e na mercadoria, no vender e no comprar, quando as consequências disso já estão debaixo dos nossos narizes.” (JAPPE, pg. 202)

Walter Benjamin

“Marx diz que as revoluções são as locomotivas da história. Mas talvez não seja bem assim. É possível que as revoluções sejam, para a humanidade que viaja nesse trem, o gesto de puxar o freio de emergência.” (BENJAMIN, W. Notes préparatoire pour les thèses sur le concept d’histoire. Paris: Gallimard, Vol. III, p. 442)

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Este post dialoga com o livro “CRÉDITO À MORTE”, de Anselm Jappe. Editora Hedra/SP, 2013.

:: Camus e Nietzsche ::


Albert Camus
 (1913-1960) falando sobre Nietzsche no clássico “O Homem Revoltado”(originalmente publicado em 1951 pela Gallimard). Tradução de Valerie Rumjanek. Editora Record, 5ª edição, 2003.

“Nietzsche: com ele, a revolta parte do ‘Deus está morto’, que ela considera fato consumado; volta-se em seguida contra tudo aquilo que visa substituir falsamente a divindade desaparecida e desonra o mundo. (…) Nietzsche não meditou o projeto de matar Deus. Ele o encontrou morto na alma de seu tempo. Foi o primeiro a compreender a dimensão do acontecimento, decidindo que essa revolta do homem não podia conduzir a um renascimento se não fosse dirigida. Qualquer outra atitude em relação a ela, quer fosse o remorso, quer a complacência, devia levar ao apocalipse.” (pg. 89)

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“Qual é a corrupção profunda que o cristianismo acrescenta à mensagem de seu senhor? A ideia de julgamento, estranha aos ensinamentos do Cristo, e as noções correlativas de castigo e de recompensa. A partir desse instante, a natureza torna-se história, e história significativa: nasce a ideia da totalidade humana. Da boa-nova ao juízo final, a humanidade não tem outra tarefa senão conformar-se com os fins expressamente morais de um relato escrito por antecipação. (…) O cristianismo acredita lutar contra o niilismo, porque ele dá um rumo ao mundo, enquanto ele mesmo é niilista na medida em que ao impor um sentido imaginário à vida impede que se descubra o seu verdadeiro sentido: ‘Toda igreja é uma pedra que se coloca sobre o túmulo do homem-deus; ela tenta evitar sua ressurreição à força.” (pg. 90)

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“O espírito livre destruirá tais valores [judaico-cristãos] ao denunciar as ilusões sobre as quais repousam, a barganha que implicam e o crime que cometem ao impedir que a inteligência lúcida realize a sua missão: transformar o niilismo passivo em niilismo ativo. (…) Por ser um espírito livre, Nietzsche sabia que a liberdade do espírito não é um conforto, mas uma grandeza que se quer e obtém, uma vez ou outra, com uma luta extenuante. (…) Compreendeu que o espírito só encontrava sua verdadeira emancipação na aceitação de novos deveres. (…) O essencial de sua descoberta consiste em dizer que, se a lei eterna não é a liberdade, a ausência de lei o é ainda menos. (…) O próprio caos também é uma servidão. (…) Sem lei, não há liberdade. Se o destino não for orientado por um valor superior, se o acaso é rei, eis a marcha para as trevas, a terrível liberdade dos cegos.” (pg. 92)

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“NIETZSCHE: ‘Se não fizermos da morte de Deus uma grande renúncia e uma perpétua vitória sobre nós mesmos, teremos que pagar por essa perda.’ (…) Se o homem não quiser perecer nas dificuldades que o sufocam, será preciso que as desfaça de um só golpe, criando os seus próprios valores. A morte de Deus não dá nada por terminado e só pode ser vivida com a condição de preparar uma ressurreição. ‘Quando não se encontra a grandeza em Deus’, diz Nietzsche, ‘ela não é encontrada em lugar algum; é preciso negá-la ou criá-la.’ Negá-la era a tarefa do mundo que o cercava e que ele via correr para o suicídio. Criá-la foi a tarefa sobre-humana pela qual se dispôs a morrer.” (pg. 93)

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“Nietzsche grita-nos que a terra é a única verdade, a qual é preciso ser fiel, na qual é preciso viver e buscar a sua salvação. Mas ensina-nos, ao mesmo tempo, que é impossível viver em uma terra sem lei. (…) A partir do momento em que se reconhece que o mundo não persegue nenhum fim, Nietzsche propõe-se a admitir a inocência do mundo, a afirmar que ele não aceita julgamentos, já que não se pode julgá-lo quanto a nenhuma intenção, substituindo, consequentemente, todos os juízos de valor por um único sim, uma adesão total e exaltada a este mundo. Dessa forma, do desespero absoluto brotará a alegria infinita… A mensagem de Nietzsche é que o revoltado só se torna Deus ao renunciar a toda revolta, mesmo à que produz os deuses para corrigir este mundo. (…) Há, na verdade, um Deus, que é o mundo. Para participar de sua divindade, basta dizer sim. ‘Não rezar mais, mas dar a bênção’, e a terra se cobrirá de homens-deuses. (…) Da mesma forma que Empédocles, que se atirava no Etna para ir buscar a verdade onde ela está, nas entranhas da terra, Nietzsche propunha ao homem mergulhar no cosmos…” (pg. 93)