O CINEMA COMO HINO A GAIA: Terrence Malick e “A Viagem do Tempo: Jornada da Vida” (2016, 90 min)

Quando lançou o divisor-de-águas em sua filmografia, “A Árvore da Vida”, de 2011, Terence Malick era artista um tanto “recluso”, que só saía de seu silêncio raramente e que havia realizado apenas quatro longas-metragens no período entre 1973 e 2010: “Badlands: Terra de Ninguém” (1973), “Days of Heaven: Cinzas no Paraíso” (1978), “Além da Linha Vermelha” (1998) e “O Novo Mundo” (2005). Depois de “A Árvore da Vida”, ele começou a fase mais fértil de sua carreira, com três longas-metragens de ficção lançados entre 2012 e 2017: “Amor Pleno” (2012), “Cavaleiro de Copas” (2015), “De Canção em Canção” (2017).

Após a consagração no Festival de Cannes, onde “A Árvore da Vida” papou a Palma De Ouro, o cinema de Terrence Malick embarcou numa viagem estética personalíssima, inimitável, que divide opiniões e que o torna uma figura a um só tempo cultuada e defenestrada. Seus filmes de ficção mais recentes são acusados por seus detratores de formalismo vazio, de viagens sem nexo, de virtuosismo fílmico gratuito… E decerto que há muitos argumentos punk a lançar como molotovs contra um cineasta cada vez prog. É o King Crimson ou o Pink Floyd do cinema, tomando pedrada dos fãs de um cinema mais The Clash ou Ramones

Um filme como “Voyage of Time: Life’s Journey” (2016) prova que ele é sim um criador cinematográfico relevante, alguém cuja obra traz a marca de uma certa originalidade que impressiona por sua capacidade de abandonar os cânones do cinema comercial, investindo em algo altamente idiossincrático e às vezes abertamente anti-mercadológico. O cineasta nos leva a uma jornada cósmica deslumbrante, repleta de imagens que impressionam por sua beleza, por sua estranheza, por sua bizarrice, por seu esplendor. Imagens que nos deixam sem palavras diante de um inefável banquete para nossa sensibilidade. Ao assisti-lo, fica evidente que Malick é um dos principais artistas que está propondo novos horizontes às poéticas visuais na arte contemporânea.

A voz serena e cadenciada de Cate Blanchett narra este filme incatalogável, que não conseguimos encaixar na díade de categorias prontas “ficção” ou “documentário”. Eu o chamaria de filme-poema, mas ele é também uma espécie de tratado científico, de especulação filosófica, de convite ao misticismo… É uma obra pra ser contemplada com os olhos bem arregalados, com a consciência alerta e desperta, e de preferência com a sensibilidade expandida com algum estupefaciente (em palavras mais simples: THC e LSD combinam muito bem com esse cine-rolê!).

É um filme de ambições estratosféricas e cujo texto pode soar para alguns ouvidos como alguma incompreensível baboseira esotérica trip-hippie, mas que inclui vários momentos de alto lirismo e densa poesia. Malick é, no fundo, uma espécie de filósofo panteísta, dedicando seu épico poema-visual a uma divindade universal, a Grande Mãe do Cosmos, “giver of life, bringer of light”. Ele quer, nada mais, nada menos, do que tentar sugerir os caminhos da Vida pelo Tempo desde os primórdios até hoje em dia. Supernovas, meteoros, dinossauros, crocodilos, hominídeos e mega-cidades todos participam desta sopa cósmica filmada. É embasbacante. Sonda a multiplicidade de formas que a Vida assume em seu ímpeto de recriação constante. Dá-nos vislumbres de pontos distantes do Universo onde nunca estivemos nem estaremos. Mescla a história natural com a história cultural.

É uma obra que pode cair muito bem em aulas de filosofia que busquem ilustrar os pensamentos de Heráclito, de Lucrécio, de Spinoza, de Darwin, de Bergson, dentre outros. Mas Malick jamais cita teorias, jamais abre aspas. Quer que a obra venha marcada por sua singularidade de visão. Só que sua visão de mundo, sua explicação geral sobre a Phýsis, seu tratado cinematográfico sobre Tudo Que Existe, têm vários precedentes históricos não só na história da filosofia e da poesia, mas também no misticismo.

Quem busca filmes que propiciem jornadas místicas, possibilidades de insights sobre o cosmos, ou mesmo fusões transcendentais com o que está para além da jaula do ego, não deve temer lançar-se às águas desta jornada. Em “Voyage of Time”, um artista maduro, que se enxerga como veículo de sabedoria, explora com muita maestria e virtuosismo os maiores mistérios de nossa existência no espaço exíguo de uns 90 minutos de projeção, no caso da versão do filme que assisti (uma versão de 60 minutos, para IMAX, com narração de Brad Pitt, é a opção alternativa).

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É um filme que evoca tanto o “2001: Odisséia Espacial” de Kubrick, baseado em Arthur C. Clarke, quanto a viagem de Carl Sagan em sua série “Cosmos”. Têm precedentes na história do cinema experimental em obras como “Koyaanisqatsi” de Godfrey Reggio, mas ao mesmo tempo nos dá a impressão, em certos momentos, de algo cada vez mais raro diante dos filmes: a sensação de “nunca vi nada parecido com isso antes”.

Algumas vezes Malick já pôde ser comparado por críticos a Kubrick, em especial pelo fato de que ambos tinham como marca a excelência de seu corpo de trabalho e o fato de que espaçavam bastante suas produções. Ao invés de apostarem no modelo produtivista à la Woody Allen – um filme por ano, pelo menos! – tanto Malick quanto Kubrick às vezes ficavam muitos anos sem aparecer no pedaço com novos filmes.

Voyage of Time integra esta filmografia de Malick na década de 2010 como um dos itens mais importantes, que fornece chaves para a compreensão das outras obras. Ele agora faz filmes que visam produzir em nossas consciências alguma espécie de unio mystica, de transe contemplativo.

Essa é uma das críticas possíveis a ele, aliás: ele não convida ao ativismo, à mudança concreta da realidade através da ação coletiva. Não é o cineasta da Arendtiana vita activa. É o cineasta que pode ser visto como aquele que seduz à evasão mística.

Mas quem disse que misticismo é necessariamente sinônimo de alienação e evasão? Ter lido William James – The Varieties of Religious Experience – e Henri Bergson – A Evolução Criadora – me livrou de vez da tentação de juízo tão reducionista. Spinoza, aliás, pode ser lido como conceito místico, e seu Deus sive Natura nada perde com isto de sua potência explicativa e de seus mananciais de motivação ética e existencial.

Malick oferece seu filme ao espectador como alguém que estende um convite para o mergulho pleno nas águas do fluxo universal resplandecente de mistério. Põe fogo em todos os elementos que constituem o Todo, como Heráclito fazia, propondo um cosmos que queima sem nunca se reduzir a cinzas.

Tudo está em um incêndio eterno onde o nascimento jamais irá morrer, por mais que morram os indivíduos. Malick dá expressão fílmica ao tudo flui, ao panta rei, que marca uma das vertentes mais fortes da filosofia pré-socrática, transbordando até nossos dias na contemporaneidade, onde Everything Flows e “tudo que é sólido se desmancha no ar”…

Seu panteísmo dialoga também com o materialismo que, desde a Antiguidade, com Demócrito e Epicuro, propõe que os átomos que tudo constituem são indestrutíveis, de modo que os pequenos tijolos que formam tudo o que há não podem jamais ser nadificados. Panteísmo e materialismo não são tão irreconciliáveis assim, acredito. O materialismo é um panteísmo da matéria eterna como Ser Supremo.

O poeta Malick é econômico nas palavras e endereça seus versos à Vida, à Natureza, à Grande Mãe, seduzindo o espectador a uma espécie de união mística repleta de amorosidade e aceitação. Que haja muita beleza na obra é difícil de negar, mas também acho que esta beatificação cósmica precisa ser problematizada, já que parece conter também uma boa dose de recalque e censura de tudo aquilo que há de horrendo e terrível nesta jornada. Malick fala pouco sobre a extinção de espécies, sobre as eras glaciais, sobre as múltiplas expressões da predação no reino animal, sobre a cadeia alimentar e suas impiedosas comilanças, sobre catástrofes ecológicas e colapsos de equilíbrio sócio-ambiental…

De todo modo, oferece-nos quadros impressionantes do salto que ocorreu dos hominídeos, nus diante das presas na selva e nos desertos primevos, ao Antropoceno das urbes metropolitanas atuais, polvilhadas de luzes eletrônicas, veículos em enxames e comunicações digitais.

Eis um filme que decerto merece ser visto, ou melhor, uma obra na qual vale a pena mergulhar e dentro desse rio fluir a refletir. Mas de preferência para re-emergir no real, após esta sessão de cinema de uniões místicas e insights hippies, com a capacidade crítica ainda intacta. Pois tomar um banho de Mistério e uma overdose de Espanto pode ser benefício, é claro, mas jamais o será pôr pra dormir na cama das consolações agradáveis a indispensável força criadora e transformadora que é a criticidade.

Se o filme corre o risco, em certos momentos, de chafurdar no kitsch, de fazer pregação da Amorosidade Cósmica como panacéia universal, de pintar um retrato demasiado idealizado da Grande Mãe (que Malick não chama nem de Gaia, nem de Pachamama, perdendo também a chance de debater o tema antropológico-político do Matriarcado), no entanto em outros momentos o filme de Malick ascende à uma dimensão trágica, a uma cosmovisão que evoca o Cronos de Goya, o deus-tempo que devora suas crianças. O que evoca também o deus-criança de Heráclito que cria e destrói mundos. De todo modo, a Imensidão é demasiado grande para que possamos enxergá-la a olhos nus e a partir da perspectiva de nossa pequenez. É como diz aquela canção do Bright Eyes (Conor Oberst), “The Big Picture”:

“The picture is far too big to look at, kid!
Your eyes won’t open wide enough!
And you are constantly surrounded
By that swirling stream of what is and what was.”

O filme acaba e, se antes estávamos com a bunda na poltrona de um quarto idiota qualquer, agora estamos no mesmo quarto mas ele está inserido no Cosmo que flui pelo tempo afora em um processo gigantesco, mais do que épico, de devoração e de esplendor. Light and Dark. The moth and the flame. E perdura Tudo na devoração de si mesmo, no incêndio infindável da matéria em interação. A viagem do Tempo é a permanência da impermanência. A mudança é a única constante. As mortes todas fazem parte da perdurante sinfonia da vida. E o cinema às vezes nos agarra pelo pescoço e nos lança, estarrecidos e sem respostas, no meio pulsante da sopa cósmica que integramos. E nos dá, para ajudar a suportar tanto mistério, um hino a Gaia.

“You: too great to see. No end to your birth. Eternal birth. (…) Time: ravaging. Devouring all. What lasts?”

 

Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro 

Mais ensaios sobre cinema em Cinephilia Compulsiva

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FILMES RECOMENDADOS DO MESMO DIRETOR:

  • O NOVO MUNDO (The New World) 
  • ALÉM DA LINHA VERMELHA (The Thin Red Line)
  • A ÁRVORE DA VIDA (The Tree of Life)
  • CINZAS NO PARAÍSO (Days of Heaven)
  • BADLANDS  – TERRA DE NINGUÉM

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Saiba mais:

IMDb – http://www.imdb.com/title/tt1945228/

Omelete – https://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/voyage-of-time/?key=114716

The Guardian – https://www.theguardian.com/film/2016/sep/06/voyage-of-time-review-terrence-malick-venice-film-festival-2016

Wikipedia – https://en.wikipedia.org/wiki/Voyage_of_Time

Folha de S.Paulo – http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/09/1811165-terrence-malick-decepciona-com-jornada-filosofica-voyage-of-time.shtml

 

FRATURAS NO ARCO-ÍRIS TERRESTRE – UMA REFLEXÃO SOBRE AS “ZONAS DE SACRIFÍCIO”

Broken Rainbow 2

FRATURAS NO ARCO-ÍRIS TERRESTRE

UMA REFLEXÃO SOBRE AS “ZONAS DE SACRIFÍCIO”

 

E.C.M. || A CASA DE VIDRO

Imagino que o homem branco, europeu e pretensamente “civilizado”, quando aportou neste continente que batizaria de América (em homenagem ao branquelo europeu Vespúcio), deve ter aparecido aos habitantes nativos destas terras como um medonho alienígena invasor. Nas páginas de Galeano, Todorov, Clastres ou Viveiros de Castro, dentre outros, podemos compreender a Conquista da América como uma hecatombe de gigantescas proporções. Também no território que viria a ser chamado de “Estados Unidos da América”, os branquelos europeus meteram-se a marchar para o Oeste na certeza de que tinham sido apontados por deus para a dominação daquelas terras e a apropriação de suas riquezas. O documentário Broken Rainbow – vencedor do Oscar da categoria em 1985 – narra-nos os encontros traumáticos entre estes branquelos (greedy bastards!), e os povos originais do continente, em especial os Navajo e os Hopi.

Sem dourar a pílula ou suavizar a história, o filme relata-nos um pouco das dores de parto de um Estado Nacional constituído pelos branquelos no território que haviam invadido e conquistado através de chacinas e deslocamentos forçados. Os Navajo e os Hopi, no século 19, chegaram a ser encerrados em campos de concentração, onde viviam detidos sem nunca terem cometido nenhum crime. O Terceiro Reich alemão, sugere Broken Rainbow em uma de suas cenas mais provocativas, inspirou-se nesta iniciativa yankee ao inventar os campos onde seriam encerrados e dizimados os judeus, vitimados pela máquina de assassínio em massa do regime hitlerista. É: os nazi-fascistas tiveram muito a aprender com as empreitadas anteriores do proto-fascismo anglo-saxão e ibérico, “mestres” das atitudes supremacistas em relação às populações nativas do continente invadido.

Durante a Segunda Guerra, os índios Navajo e Hopi foram empurrados para os campos de batalha ou para as minas de urânio. Ninguém lhes explicou as razões para o mega-conflito entre os imperialismos branquelos europeus, nem ninguém teve a dignidade de alertá-los sobre a radioatividade tóxica do urânio que eles eram forçados a colher (para quê? para que pudesse ser matéria-prima para bombas atômicas!). O mesmo regime que despejou as hecatombes nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki empregou os Navajos como mineradores da morte radioativa em fábricas de munições mortíferas.

A grande infelicidade dos Navajo e dos Hopi está em habitarem uma terra riquíssima em minérios e petróleo. O homem branco julga necessitar a todo custo tomar conta destes recursos naturais, para alimentar suas megalópoles industriais-comerciais. Mega-corporações desejam varrer as pessoas do mapa, como se não passassem de pulgas, para ter acesso ao carvão, ao ouro negro, ao urânio, a tantos outros minérios que o solo contêm. A explosão demográfica dos grandes centros-urbanos norte-americanos fez com que a demanda energética também subisse feito um foguete, de modo que Washington se sentisse no direito de invadir territórios Navajo e Hopi para, por exemplo, roubar carvão a ser queimado nos power plants produtores de eletricidade e poluição às mancheias.

Para extrair os minérios de que precisavam, os branquelos não tiveram pudores de dinamitar certos lugares que, para os Navajo e os Hopi, eram sagrados. “É como demolir a catedral de Saint Peter para roubar seu mármore”, compara o narrador de Broken Rainbow. De fato, o filme mostra bem que, na perspectiva dos Navajos e Hopis, aqueles “empreendedores” branquelos estavam cometendo horríveis sacrilégios. Os branquelos, é claro, consideram titica de galinha as superstições bárbaras de povos não-esclarecidos e selvagens. Procedem com sua exploração: retiram toneladas e toneladas de carvão, urânio, petróleo e gás natural dos territórios indígenas; instalam vastas linhas de transmissão de eletricidade neles; os ares e as águas, outrora puros, enchem-se de gases tóxicos e poluentes cancerígenos.

Em This Changes Everything, Naomi Klein mobiliza o conceito de zonas de sacrifício, territórios que são “eleitos” pelas elites para a exploração predatória destravada, e que se fodam os direitos humanos. Passa-se como um rolo compressor sobre sociedades milenares, que há dezenas de gerações viviam em harmonia com o meio ambiente. Populações inteiras são consideradas sacrificáveis no altar do deus Capital. Os Navajo e os Hopi foram vítimas desta política etnocida, genocida, ecocida, que com autoritarismo fascista quis varrê-los do mapa para então roubar suas terras e suas riquezas naturais.

Apesar de 30 anos terem se passado desde o lançamento de Broken Rainbow, o filme prossegue atualíssimo como emblema da sina que sofrem os povos indígenas globais, seja em Alberta no Canadá – onde a exploração dos tar sands e a construção de pipelines representa gigantesca devastação para muitas tribos das First Nations – seja na Amazônia latino-americana – onde mega-hidreléticas à la Belo Monte também explicitam a mentalidade supremacista deste neodesenvolvimentismo bárbaro que elege zonas de sacrifício em nome do sacrossanto progresso capitalista. Aquele mesmo que empurra a Humanidade para a borda do penhasco e produz o caos climático cada vez mais exacerbado.

O arco-íris prossegue fraturado e não há sinal de que será consertado tão cedo. No desconcerto do mundo, convêm ouvir com atenção as vozes e as vidas daqueles que “podem parecer guardiões do passado, mas são na real os guias para nosso futuro” (Arundhati Roy).

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BROKEN RAINBOW (1985)
Direção: Maria Florio and Victoria Mudd
Vencedor do Oscar de Melhor Documentário
Assista na íntegra:

“1985 documentary film about the government-enforced relocation of thousands of Navajo Native Americans from their ancestral homes in Arizona. The Navajo were relocated to aid mining speculation in a process that began in the 1970s and continues to this day. The film is narrated by Martin Sheen. The title song was written by Laura Nyro.”

A Torre de Babel e os Frutos da Terra

Pieter Bruegel, o Velho (1530-1569)

“Torre de Babel” – de Pieter Bruegel, o Velho (1530-1569)

A TORRE DE BABEL
E OS FRUTOS DA TERRA

Há tempos que eu não me chocava tanto diante do talento incomensurável de um artista quanto ando fazendo diante dos quadros de Pieter Bruegel, “o Velho” (“The Elder”). Uma de suas mais impressionantes criações retrata o mito judaico-cristão da Torre de Babel com uma tridimensionalidade tão perfeita, uma beleza arquitetônica tão estarrecedora, que os olhos ficam encantados de “passear” o olhar pela tela. Mas o que mais me impressiona é o caráter arruinado e caótico da construção que o quadro traz como protagonista, numa perfeita comunicação do fracasso e do desastre deste mítico empreendimento humano.

A Torre de Babel simboliza pra mim muitas coisas além do significado mais “escancarado” que é a discórdia entre os homens, a divisão que ocorre entre eles por causa da diferença de línguas e costumes. É, além disso, o símbolo de uma tentativa humana que fracassou, de um sonho que gorou, de uma esperança que se decepcionou…

Conta-nos o mito de Babel que tentaram os homens erguer uma suntuosa construção que os aproximasse de uma certa divindade que supunham habitar nas regiões celestes. Na versão oficial, com a qual catequisam as criancinhas e que os pregadores propagam de seus púlpitos, foi Jeová quem impediu que o projeto chegasse a bom-termo. Irritado com os homens por quererem estreitar as distâncias entre o sagrado e o humano, este deus teria confundido os idiomas, impossibilitando a comunicação entre os homens, agindo de modo a manter a hierarquia que estabelece um fosso entre o cá-embaixo e o lá-em-cima, entre os reles mortais e o soberano dos céus.

Eis um mito de um deus abscôndio, anti-social, que não quer papo com suas criaturas e deseja se manter como um inacessível e distante juiz das virtudes e pecados de seus rebentos, julgando-os com olhar severo e às vezes punindo-os com hecatombes, bolas-de-fogo e condenações à danação eterna. Desta matéria são feitos os delírios humanos derramados nos livros e nos mitos ditos “sagrados”….

O que mais me interessa no mito é que os homens, neste empreendimento coletivo alucinado de tentar atingir um “contato com a divindade”, não atingiram seu objetivo: não chegaram à Harmonia ou à Comunhão, mas sim à Discórdia e à Calamidade. Por mais alto que se erguesse a torre, nenhuma altura parecia ser jamais suficiente: subiam e subiam, e não trombavam com nada além de vento, atmosfera, vazio. Nenhum deus foi encontrado nesta marcha para cima de uma humanidade ávida por contatos sobrenaturais.

A Torre de Babel não tem um final feliz para as esperanças daqueles que empreenderam a construção: é muito mais um mito que desilude, desengana e põe a fé em maus lençóis. Naquele “experimento empírico” de subir rumo ao divino, a humanidade descobriu-se insatisfeita em seu anseio e, nas palavras de John Lennon, descobrimos “above us only sky”. Ou, nas palavras do astronauta russo Yuri Gagárin, ao chegar ao espaço sideral: “Não vejo deus nenhum aqui em cima…”.

A Torre de Babel mostra o ímpeto religioso levando-nos a empreendimentos absurdos, a imensos desperdícios de energia, em busca de um Papai-do-Céu que fantasiávamos que estava sentado nas nuvens, nos julgando e nos cuidando. Como depois comprovaríamos novamente com nossos aviões e foguetes, o Céu não tem nada de Paraíso: não passa de ar atravessável, espaço vazio, quietude a-linguística, presença muda do que não está aí para satisfazer nossos corações…

Pintura de Bruegel, "Paisagem Com Queda de Ícaro"

Pintura de Bruegel, “Paisagem Com Queda de Ícaro”

Os gregos, com o mito de Ícaro, representaram algo semelhante: o ímpeto alucinado de transcender os limites humanos, que leva Ícaro a tentar alçar vôo rumo ao Sol, acaba sendo severamente punido pelo derretimento de suas asas e sua queda abismal. De certo modo, um dos temas mais recorrentes da mitologia grega, a batalha entre Diké (Justiça) e Húbris (Desmesura), encontra-se também em Ícaro. Ele foi desmesurado em sua ambição de atingir um fim inacessível aos humanos (acercar-se do Sol, abraçar os astros distantes…). Acabou pagando o preço por sua tentativa fracassada de ascender a domínios que não são os seus.

Pode-se ver no quadro de Bruegel o tamanho diminuto da cidade diante deste colosso de pedra que é a Torre de Babel, toda incompleta e imperfeita, imagem e semelhança de seus mortais artesãos. Pequenos como formigas, os trabalhadores da construção, esparramados por todos os lados, não tem a mínima visão de conjunto: é o pintor que a detêm e que põe sua perspectiva privilegiada a serviço de quem se depara com o quadro. Este quadro possibilita a quem o observa ter sua consciência imediatamente amplificada a dimensões amplíssimas. Percebam que o topo da Torre penetra nas nuvens, bem mais envolto em névoa do que os andares inferiores; no entanto, é perto do topo que a feiúra e a incompletude parecem se manifestar com mais força. Quão eloquente!

Ao rés-do-chão, súditos de joelhos se submetem em silêncio a um nobre com cetro de ouro, acompanhado por um séquito de soldados com espadas afiadas.  Se fôssemos Brechtianos e perguntássemos a opinião daqueles trabalhadores sobre a construção em que estão obrigados a trabalhar, talvez muitos expressassem sua discórdia em relação ao projeto, julgando-o absurdo, ineficaz ou mesmo terrivelmente e opressor. É bom lembrar que muitos daqueles que foram obrigados a trabalhar na construção da torre, de modo similar aos escravos que penavam para erguer as pirâmides para os faraós egípcios, foram coagidos pelos poderosos-da-vez a este extenuante labor. Pobres de todos aqueles, História afora, que foram escravizados por homens com a idéia-fixa, maníaca e mirabolante, de “ganhar o Paraíso” ou “subir até Deus” (anseios que, julgo eu, cada dia mais serão tidos como material de reflexão mais para a psiquiatria do que para a teologia…).

Hoje, os arranha-céus que, no mundo capitalista desenvolvido, enxameiam nas metrópoles, e através dos quais algumas empresas e alguns milionários parecem envoltos numa trama sinistra de competitividade babélica, parecem ter esquecido a lição original da Torre, tão magistralmente pintada por Bruegel: não há Deus algum a se encontrar em Cucolândia das Nuvens. E só há hedionda opressão no fato de escravizar milhões a projetos faraônicos de poder teológico-político.

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moinho e cruz

O filme O Moinho e a Cruz foca sua atenção sobre outro quadro impactante e magistral de Bruegel, O Caminho da Calvário. Similar a outro excelente filme dedicado a um grande pintor – Sombras de Goya, de Milos Forman – O Moinho e a Cruz se passa também em um período histórico ainda chafurdado na medievalidade e assombrado pelos morticínios em massa ordenados pela Santa Inquisição, o braço armado da Igreja Católica.

A Inquisição, como todos sabem, era responsável pelo assassinato de pessoas tidas como hereges, descrentes, desviantes, feiticeiras, bruxas, pagãos. Foi um holocausto de milhões que foram acusados de crer nos deuses errados. Queimadas vivas eram as mulheres que preferiam louvar Dionísio a Javeh; aqueles que usassem ervas da mata e cogumelos mágicos em rituais eram decerto merecedores do suplício da roda; sequer supor a inexistência do deus que as autoridades doutorais da Igreja pregavam em seus sermões era o bastante para que a alma do incrédulo fosse prometida ao inferno, que seu caráter fosse declarado malévolo e que toda a violência contra o seu corpo estivesse justificada.

O historiador francês Jules Michelet soube narrar com eloquência inimitável estes horrores em seu livraço A Feiticeira, recomendado para qualquer um interessado em compreender como pôde a História humana chegar a tamanhas carnificinas e a tamanhos perigosos delírios…

“O Caminho do Calvário”

No filme, Bruegel (encarnado por Rutger Hauer, em um de seus melhores papéis desde Blade Runner – Caçador de Andróides) é honrado com uma descrição cinematográfica de seus métodos de trabalho que atinge alturas poéticas de inebriar. Como uma “aranha que constrói sua teia”, ele pretende “capturar” em sua obra toda a riqueza de diversidade humana que enxerga à sua volta. O quadro é pensado como uma representação de um momento da História Humana onde os mais lúcidos dentre os espectadores desejavam fazer parar o moinho do Tempo para que se pudessem consertar os males do mundo.

Pois os males são tão difíceis de remediar e curar justamente pois não cessam de modificar-se, são também eles fluidos e variáveis. O Tempo não pára e é no seio dele que devemos nos aplicar a remediar e vencer aos males que devêm. Cronos em sua fome insaciável não cessa um segundo sequer de mastigar seus filhos: nós, as devoradas criaturas do tempo. E males não faltam na obra de Bruegel e no filme dedicado a nos fazer mergulhar em seu mundo.

Os horrores vivenciados pelas massas daquela época foram espetacularmente retratados por este artista, tão imensamente talentoso que legou à posteridade retratos tão vivazes da desgraça de seu tempo: uma das personagens principais de O Caminho do Calvário é a mãe do condenado, uma velha senhora, com feições de Virgem Maria, mas que é apresentada já na velhice, ferida pelo fardo de uma experiência demasiado incompreensível e dolorosa. Esta figura se assemelha a Maria, mãe de Jesus, mas pintada cerca de 30 anos depois do assassinato de Cristo. Aquela mulher é uma das mais fortes representações de uma fraqueza absolutamente impotente, de uma tristeza profunda diante do rolo compressor das autoridades que estão executando seu filho.

Por que ele está sendo morto, este supliciado de um novo Gólgota? Principalmente pois os rigores dos tiranos da Espanha, nesta época, haviam convertido em rotina o assassinato sistemático de todos aqueles que não considerassem “bons cristãos”. Aqueles que se auto-proclamaram bons cristãos e defensores da verdade absoluta perseguiam, nestes tempos, uma seita que havia nascido no próprio seio do Cristianismo e que havia progressivamente se distinguido dele: a Reforma Protestante de Lutero já agia sobre o ar dos tempos e os defensores da nova seita já eram perseguidos pelos defensores dogmáticos das tradições antigas.

Há em Bruegel muito do zeitgeist que conduziu a horrores como o Massacre da Noite de São Bartolomeu, quando 30.000 huguenotes foram assassinados nas ruas de Paris a mando dos reis católicos, desejosos de calar a voz dos asseclas de Lutero e Calvino pelo método mais bruto conhecido: cortando-lhes as gargantas. Não é o próprio Sermão da Montanha que enuncia: “Se teu olho te escandaliza, arranca-o”?

Esta medicina grotesca, que equivale a de um médico que, para a enxaqueca de seu paciente, receitasse que ele cortasse fora a cabeça, ou de um dentista que só lidasse com cáries através da extração dos dentes, foi posta em prática também pelos piedosos defensores das “verdades sagradas” em relação aos considerados “males da alma”, também conhecidos, na linguagem dos teólogos, como “vícios” e “pecados”.

Aquilo que a Igreja Católica Apostólica Romana define como “pecado”, porém, não é assim compreendido por aqueles que são rotulados de fora como pecadores: quem louva Baco e Pã, cantando pelado pelos bosques, embriagando-se de vinhos e cogumelos, não necessariamente considera-se alguém que merece ser queimado vivo por estar ferindo um dogma eclesiástico ao qual aderem alguns monarcas supersticiosos e seu clero privilegiado…

Um quadro de Bruegel, quando compreendemos o que está por trás daquela imagem, quando conseguimos usar o quadro como uma espécie de janela que podemos atravessar rumo a um outro período histórico, tem a força e o impacto que a leitura de Voltaire ou Michelet oferece ao leitor que se aventura pelos sinistros labirintos da medievalidade.

Ao mesmo tempo, já se respira com mais liberdade em Bruegel o aroma liberador do Renascimento. Estes quadros nos ensinam também sobre o porquê da Revolução Francesa, ou melhor, nos ajudam a compreendem o que a tornou necessária. Era inevitável uma maré da revolta contra os horrores perpetrados num mundo onde vigia o dogma do Direito Divino dos Reis e onde eram correntes as carnificinas sectárias, ordenadas por certas facções religiosas contra inimigos de outras facções (e que conduziram a ciclos intermináveis de violências). Tudo isso já carrega em germe a indignação que daí brotou, a maré de oposição a este mundo babélico.

O Moinho e a Cruz é um dos melhores filmes que já vi sobre as artes plásticas: consegue a proeza de, partindo de um quadro específico, lançar o espectador para uma História repleta de horrores e de ensinamentos. A certo momento, Bruegel assim explica o significado do Moinho que ocupa a posição mais alta do quadro, envolto nas nuvens como o topo da Torre de Babel: “quase todas as representações de Deus o mostram acima das nuvens, olhando para baixo em direção à Terra com expressão de desgosto e desagrado”.

 Todos aqueles que cresceram sob a influência da doutrinação religiosa judaico-cristã conhecem esta figura de uma divindade furibunda, irascível, juiz inexorável dos pecadores, que inclusive inventou o Inferno para torturar pelas eternidades os seus desafetos. Deus é representado como uma figura que expulsa o desobediente às regras, por mais absurdas que as regras sejam. Afinal de contas, Adão e Eva deveriam por acaso obedecer à regra de manterem-se ignorantes? Porque uma Árvore onde se come Conhecimento seria proibida senão por aqueles que reinam através da Ignorância?

 Deus é representado como capaz de genocídios, como os de Sodoma e Gomorra, nos quais se mostrou especialmente homofóbico e genocida. Enfim: acreditam os crentes no monoteísmo que acima das nuvens haveria um Todo Poderoso capaz de fúria e vingança, que observa todos os atos e pensamentos dos homens, julgando-os moralmente para decidir se lhes dá a Beatitude Eterna ou o Suplício Infindo? Bruegel nos pinta este mundo com a voz discordante de quem sabe que tais fés não conduziram, no palco da História, à concórdia universal. É um pintor da luta fratricida e sectária, um retratador de horrores reais, ao invés de um propagandista ou marqueteiro de uma rósea fantasia de Redenção.

Tanto o Moinho no cimo da montanha quanto o topo da Torre de Babel roçam as nuvens mas só encontram ali a solidão.

É debaixo de um céu indiferente, todo éter e espaço transitável, que os seres na Terra penam, lutam, nascem, vivem, morrem. Da antiquíssima e lendária construção da torre que subia aos céus na Babilônia, aos atuais experimentos com arranha-céus, satélites e foguetes, a recorrente descoberta da Humanidade é a da ausência de qualquer Providência Benigna nas nuvens.

Dizem que o ateísmo não é comprovável, mas tenho minhas dúvidas: são milênios de experimentos empíricos feitos para tentar contatar um deus que permaneceu eternamente silente. E silêncio eterno é algo típico dos mortos, ou melhor, dos que não existem.

Talvez haja um deus nos confins do Universo, em alguma galáxia distante, preocupado em gerir a órbita de planetas e a incandescência de sóis de que nem temos ideia? Isso o mistério recobre. Mas o que já descobrimos é que nossos arredores galácticos estão desabitados por ETs e deuses. Apesar de só podermos dizer que não há vivalma nesta minúscula fração das redondezas galácticas que pudemos explorar deste Universo do qual desconhecemos ainda tanto…

Joseph Campbell, em O Poder do Mito, descreve dois modos opostos de se imaginar o início da aventura humana sobre a Terra: 1º) a ideia de que “caímos do céu”, tendo sido jogados aqui de uma “fonte” no alto; ou seja, uma Mão nas Nuvens nos confeccionou e depois nos fez descender ao rés-do-chão terrestre; 2º) a ideia de que emergimos do próprio seio do planeta, filhos de Mãe Gaia, rebentos da Natura Creatrix; o que eu gosto de chamar, usando uma expressão de André Gide, de teoria dos “Frutos da Terra”.

Que a primeira dessas ideias não nos tenha conduzido à concórdia e à harmonia é o que a História oferece provas em profusão. Que a segunda ideia tenha um poder maior de concretizar a fraternização, ainda resta a ser experimentado, tentado, avaliado, mas me parece muito plausível. Venceríamos o tenebroso colosso da Discórdia caso pudéssemos cessar de construir a Torre de Babel rumo a deuses que não existem e enfim nos compreendêssemos como Frutos da Terra, Filhos de Gaia, fios na grande teia terráquea em que a vida tece seu drama?


(Eduardo Carli de Moraes)

Outras obras do Bruegel…
Casamento Camponês
Parabola dos Cegos
Peixão come peixinho
Provérbios Flamengos

The Earth Woman (by Arundhati Roy, in “The God Of Small Things”)

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THE EARTH WOMAN
Arundhati Roy (1961 – )

1“We belong nowhere”, Chako said. “We sail unanchored on troubled seas. We may never be allowed ashore. Our sorrows will never be sad enough. Our joys never happy enough. Our dreams never big enough. Our lives never important enough. To matter.”

Then, to give the twins Estha and Rahel a sense of Historical Perspective, he told them about the Earth Woman. He made them imagine that the earth – 4600 million years old – was a 46-year-old woman. It had taken the whole of the Earth Woman’s life for the earth to become what it was. For the oceans to part. For the mountains to rise. The Earth Woman was 11 years old, Chacko said, when the first single-celled organisms appeared. The first animals, creatures like worms and jellyfish, appeared only when she was 40. She was over 45 – just 8 months ago – when dinosaurs roamed the earth.

“The whole of human civilization as we know it”, Chacko told the twins, “began only 2 hours ago in the Earth Woman’s life.”

It was an awe-inspiring and humbling thought, Chacko said, that the whole of contemporary history, the World War, the War of Dreams, the Man on the Moon, science, literature, philosophy, the pursuit of knowledge – was no more than a blink of the Earth Woman’s eye.

“And we, my dears, everything we are and ever will be are just a twinkle in her eye…”

 ARUNDHATI ROY, The God Of Small Things (1997).

Harper Perennial.
Winner of the Booker Prize 1998.

David Suzuki Ensina

David Suzuki in this interview about facing the reality of climate change and other environmental issues from Moyers & Company.

Gaia no Antropoceno – Bruno Latour em “Uma Antropologia dos Modernos”

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GAIA IN THE ANTHROPOCENE By Bruno Latour

“Geologists are beginning to use the term ANTHROPOCENE to designate the era of Earth’s history that extends from the scientific and industrial revolutions to the present day. These geologists see humanity as a force of the same amplitude as volcanoes or even plate tectonics. It is now before GAIA that we are summoned to appear: Gaia, the odd, doubly composite figure made up of science and mythology, used by certain specialists to designate the Earth that surrounds us and that we surround, the truly global Globe that threatens us even as we threaten it.

If I wanted to dramatize – perhaps overdramatize – the ambiance of my investigative project, I would say that it seeks to register the aftershocks of the MODERNIZATION FRONT just as the confrontation with Gaia appears imminent.

At all events, we shall not cure the Moderns of their attachment to their cherished theme, the modernization front, if we do not offer them an alternate narrative… After all, the Moderns have cities who are often quite beautiful; they are city-dwellers, citizens, they call themselves (and are sometimes called) “civilized”.

Why would we not have the right to propose to them a form of habitation that is more comfortable and convenient and that takes into account both their past and their future – a more sustainable habitat, in a way? Why would they not be at ease there? Why would they wander in the permanent utopia that has for so long made them beings without hearth or home – and has driven them for that very reason to inflict fire and bloodshed on the planet?

After all these years of wandering in the desert, do they have hope of reaching not the Promised Land but Earth itself, quite simply, the only one they have, at once underfoot and all around them, the aptly named Gaia?”

BRUNO LATOUR.
“An Inquiry into Modes of Existence: An Anthropology of the Moderns”
Harvard University Press, 2013. Translated by Catherine Porter.
Download e-book at Library Genesis.
Join: http://www.modesofexistence.org

 

Adam and Eve (Art by Alex Grey)

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The Affects of Capitalism (full lecture)
(If you wanna skip the intro, Latour actually starts speaking at 12 min and 45 seconds.)