Orquestras nas Favelas: Desafios da inclusão cultural e da educação democratizada são retratados no filme “Tudo Que Aprendemos Juntos” (2015), de Sergio Machado

“Tudo que Aprendemos Juntos” (2015), do cineasta baiano Sergio Machado, estrelado por Lázaro Ramos e com participações dos rappers Criolo e RAPPIN HOOD, elege o ensino da Música numa comunidade desfavorecida pela Fortuna como premissa para explorar as fraturas e desafios da sociedade brasileira, enxergada através de um de seus microcosmos-em-convulsão: a favela de Heliópolis (SP).

O filme centra sua narrativa no professor de violino Laerte, considerado em sua infância como um músico prodígio, de ascensão meteórica, transformado em educador “durão” e não muito paciente.

Ele realiza aventuras pedagógicas na favela trampando para uma ONG: sua missão é conduzir alunos que não sabem ler partituras, e que estão mais acostumados com os bailes funk e os rappers do que com as composições de Beethoven, a se tornarem uma autêntica orquestra de música clássica.


Enquanto avança neste trampo desafiador em que entra em contato com uma série de mazelas sociais que afligem seu alunado, Laerte esforça-se para passar em um prestigioso concurso que lhe abriria as portas para tocar na Osesp – Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

A crítica de Omelete destaca:

“Audacioso quando o assunto é Paganini, mas temeroso frente à dificuldade dos acordes de Bach, Laerte cresceu pobre na Bahia e teve chance de estudar violino quando pequeno com o apoio do pai (expresso apenas na voz de Milton Gonçalves).

Figuras como ele são frutos do redesenho sociológico do Brasil tracejado a partir da eleição de Luiz Inácio Lula a Silva em novembro de 2002: ele é conseqüência de um rearranjo da pirâmide social do país, com o desequilíbrio da classe média e a ascensão das parcelas C e D da pirâmide populacional.

Com o acesso destas ao consumo, elas passaram a se subjetivar aos olhos da arte, sobretudo do cinema, que deixou de ver essas classes apenas quantitativamente, como números de censo, e passou a vê-las sob um prisma qualitativo, entendo suas angústias suas necessidades. Dessa operação surgiram personagens como a doméstica Val, vivida por Regina Casé em ‘Que Horas Ela Volta?’, de Anna Muylaert. Val e Laerte têm, portanto, uma parentela sociológica.”

O filme de Sergio Machado foi inspirado na história real de criação da Orquestra Sinfônica de Heliópolis pelo Instituto Bacarelli e baseado na peça “Acorda Brasil” de  Antônio Ermírio de Morais. A grande imprensa já destacou a iniciativa: como nesta matéria de VEJA que fala na “beleza altissonante” deste projeto e o evidencia com “reportagem fotográfica que mostra a revolução que o projeto do Instituto Baccarelli tem promovido na vida de jovens da favela”.

Fotos: Ricardo Matsukawa

O filme revela as dificuldades e desafios de um professor que busca orquestrar alunos envolvidos no cenário dificultoso das periferias onde a violência policial, as gangues do narcotráfico, os atalhos criminosos para a grana fácil (como a clonagem de cartões de crédito), dentre outras tretas, parecem tornar altamente improvável o sucesso de uma Orquestra Clássica da Perifa. Apesar dos perrengues, estes batalhadores da ralé (para emprestar expressões do sociólogo Jessé Souza) vão longe. Ainda que muitos tenham suas asas cortadas. A tiros.

Na resenha de Plano Crítico, destaca-se que este “filme de inclusão”, de tom “engajante”, traz os cidadãos favelados em uma vibe em que são revelados em todo o seu potencial para o extraordinário – como é o caso de Samuel, adolescente ultra-talentoso no violino, talvez destinado à glória, mas que tem sua vida ceifada prematuramente pela violência urbana:

“O ambiente de favela (ou comunidade), em geral ligado a um estilo musical como o funk ou o pagode é “invadido” pelo clássico e Sérgio Machado o faz de forma poética e orgânica, quebrando o tabu de que tais melodias são excludentes e reservadas apenas a pessoas de maior poder aquisitivo. A cultura pode, sim, atingir a todos e o clássico ganha ainda um caráter único por resgatar no interior de cada um sentimentos muito específicos.”

Acusado pela Ilustrada da Folha de São Paulo de “otimismo” em demasia, o que o tornaria “inverossímil”, o filme na verdade é bastante realista, de tom emocional bem lúcido. Mostra com uma boa dose de pessimismo, no destino de Samuel, a aniquilação brutal de jovens negros promissores que não conseguem romper as muitas barreiras que o racismo e a injustiça de classe interpõe a seus caminhos.

Ainda que uma leitura meritocrática possa ser realizada, como se Laerte fosse o emblema do quanto se pode ir longe na vida a partir do próprio mérito, uma outra perspectiva é possível. Uma leitura alternativa à ideologia meritocrática veria no filme o conto trágico sobre as imensas dificuldades que as populações periféricas e faveladas possuem para acessar uma Cultura que nossa sociedade insiste em considerar como privilégio de classe.

Transcendendo o clima de filme-de-entretenimento sobre a escolinha-de-música que marca uma obra como “Escola de Rock” (de R. Linklater), a obra de Sergio Machado atinge sua maior grandeza e intensidade em uma cena particularmente enfurecida em que uma insurreição toma conta de Heliópolis após a polícia assassinar Samuel, o garoto-promessa da turma de música.

Este homicídio estatal de alguém que a comunidade reconhece como inocente e cheio de potencial é descrito no filme como estopim para uma sublevação popular que acarreta um desencadeamento de rebeldias. O levante toma a forma de ônibus incendiados, barricadas improvisadas e violentos conflitos com a polícia, xingada de assassina e cruel – e os “porcos fardados” são aqueles que os moradores tentam expulsar da comunidade como se estivessem numa Intifada Palestina.


É nestas cenas que “Tudo Que Aprendemos Juntos” alça-se à beleza punk e perturbadora de uma outra obra que marca a história recente do cinema paulista, “Riocorrente” de Paulo Sacramento. Dialoga também com o “Jonas” de Lô Politi – que tem na participação em ambos do Criolo, fazendo ponta como ator, um ponto-de-ligação -, obra que se utiliza do Carnaval de São Paulo, e em especial de um carro alegórico que é uma imensa baleia, como cenário onde aninhar um drama incendiário de paixão indomável, sequestro improvisado e esperanças reduzidas a cinzas.


Alguns sonham com um país onde enfim floresçam orquestras nas favelas e escolas de qualidade nos guetos. Alguns colocam-se em ação para a construção coletiva de uma educação mais inclusiva e democrática. O próprio ideal da Cultura Viva de Gilberto Gil e Juca Ferreira, através do revolucionário do-in antropológico que espalhou pontos de cultura interconexos pelo território do país, hoje encontra-se detonado e mal pago pelo Bozonazismo que pilota o Estado feito um ébrio (de ópio, de ódio!) no leme dum Titanic. Aos sonhadores de melhores dias para a educação e a cultura, o presente pode assustar pelo pesadelo pesado de sua distopia: tudo é tão difícil e fica tão emperrado neste país que parece condenado, como dizia Millôr, a ter “um longo passado pela frente”!

Ao fim de Tudo Que Aprendemos Juntos fica na boca, na mente, na ressaca dos olhos, uma confusa resposta à questão que o título coloca: talvez não tenhamos aprendido muito, como país, já que seguimos tombando em velhos erros e insistindo em sórdidos equívocos (como empoderar homens brancos e ricos com tendências autoritárias, ímpetos ditatoriais e idolatrias por torturadores e genocidas…).

Encarnados na expressão e na postura deste magistral artista que é Lázaro Ramos ficam a agridoce e indignante sensação de que, neste país de desigualdades desastrosas e injustiças indignantes, mesmo os mais batalhadores e talentosos muitas vezes acabam triturados e detonados pela Máquina de Desumanização vigente. Quantas Marielles, quantos Samuels, ainda vão ter que morrer?

Os poucos que, saindo do gueto, tornam-se “vencedores” – como Laerte na Osesp – não nos oferecem o consolo edulcorante e enjoativo fornecido pela Meritocracia, ideologia anestesiante propagada por quem está acima na pirâmide social. Estes poucos que vencem nos lembram de que são exceções e não regras, e que as injustiças ancestrais e infelizmente conservadas – como o racismo estrutural – prosseguem tornando a ideologia meritocracia uma piada de mau gosto.

Longe de vivermos a utopia onde triunfam os melhores e mais meritórios, a sensação que sobra é a de um sempre tenso e explosivo conflito entre a Elite do Atraso, ciosa de seus privilégios e que usa a brutalidade da força para defendê-los, e a Massa Excluída, que pastores e políticos desejam convencer à resignação mas que está sempre a um passo da insurreição.

Eduardo Carli de Moraes / A Casa de Vidro

 

SIGA VIAGEM:

PROPOSTA DE OUTROS FILMES PARA DEBATER OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO

  • ELEFANTE / Gus Van Sant
  • A ONDA  / Dennis Gansel
  • CONRACK / Martin Ritt
  • O SUBSTITUTO / Tony Kaye
  • SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS / Peter Weir
  • INHERIT THE WIND / Stanley Kramer

 

TRAÇANDO ALTOS PLANOS PARA CONTRA-ATACAR – Baiana System lança 3º álbum, “O Futuro Não Demora”

“Ele conhece a liberdade sem olhar no dicionário”, canta Russo Passapusso na poderosa canção “Sulamericano”, referindo-se ao “Revolucionário Guevara”. Livres e soltos, os músicos do Baiana System transformam este 3º álbum da banda em uma promessa cumprida: O Futuro Não Demora. Ouvir este disco bombando nos alto-falantes é ter certeza de que o futuro já chegou. Agora cabe a nós sermos plenamente contemporâneos dele.

Dando sequência à obra-prima Duas Cidades, sem demora o grupo botou na praça outro álbum visionário e profético. Uma estética que aprendeu com Gil e a Tropicália a realizar uma arte futurística e futurível. O Futuro Não Demora é a prova viva de que a fervilhância da cultura brasileira – em especial na época com Gil e Juca à frente do MinC, bombando o programa Cultura Viva – não corre o risco de ser apagada, apesar de pilantras e calhordas a fazer merda com políticas públicas de cultura dentro dos aparelhos de Estado. Pois a cultura é do povo, e não do Estado; e quando o Estado busca sucateá-la ou silenciá-la, ela se alça como Fênix. E grita rompendo os cálices.

Pois o futuro chegou, e a soundtrack deste future que entre nós já vem desembarcando com seu peso de mamute e sua foxy esperteza é o BaianaSystem quem propõe através de seu agitado bonde do groove. Botando nas ruas e nas redes o seu som hipnótico, o grupo vem fazendo história nos festivais pelo Brasil com um espetáculo ao vivo impressionante.

Um show do Baiana é uma vivência incrível: é tanto um desafio cognitivo quanto uma oportunidade de experiência coletiva extática, ambas em doses cavalares. Quando estiveram por aqui, no último Bananada (2018), parecia que Goiânia inteira estremecia com um abalo sísmico com o som dos caras. O show era uma aparição telúrica que atingia altos índices na Escala Richter. Parecia que estavam tentando passar como terremoto sônico sobre a apatia e o desengajamento de toda uma geração. Terapia de choque para exorcizar a doentia Sociedade do Lucro.

Por mais desconectados que fôssemos antes, por mais individualistas e fechados que possamos ser para lá dos muros do festival, naquele aqui-e-agora extraordinário nós transcendemos nossas barreiras, caminhamos no sentido de virar uma coisa só, uma centopéia humana, um organismo coletivo. Goste-se ou não de bandas como o Baiana System, os Los Hermanos, a Legião Urbana, é inegável que elas mobilizam uma base de fãs que consegue fazer dos shows autênticas e altissonantes experiências místicas coletivas.

No Baiana no Bananada, foi assim: de repente, estávamos todos acesos, ligados, conexos. E assim o BaianaSystem revela-se como uma engenhosa maquinaria de conectividade. Um mega-corpo, um soundsystem de muitas cabeças, como uma Medusa ciborgue de cérebro plugado no mar de informação da Web.

Uma banda que se apropria da música como meio para fins que transcender a arte, pois adentram o reino da política, da briga por poder, da tentativa aguerrida de valer por parte daqueles tão desvalidos e tão desvalorizados pelos poderosos da vez (que tem uma tendência forte a serem escrotos e agirem como canalhas desumanos, como provam dúzias de exemplos, de Duque de Caxias a Bolsonaro, de Genghis Khan e Átila a Hitler e Pol Pot).

Convocando a força de suas raízes e dos orixás de Feira de Santana, o vocalista do Baiana System está soletrando cada vez melhor a liberdade. Põe à sua poesia, tão bem revelada pelo álbum solo Paraíso da Miragem, para nos levar pra voar. Salte do avião, você chegará vivo no chão. O paraquedas é por conta deles, e é de boa: salte neste abismo, abra-se à esta folia, escute esta sabedoria. O Brasil que deu certo é este, que pulsa diversidade e que ensina ao mundo o valor da água e da floresta, o valor da estima mútua e do respeito pela interdependência e pelas conexões.

Abra-se ao futuro que vira presente. Pois livros, paraquedas e mentes só funcionam bem quando abertos. E estar de portas abertas pro ganjaço sensorial do Baiana System é salutar para nossa cultura. Como foram também, em tempos de antanho, o Planet Hemp, a Legião Urbana, Os Mutantes…

MCs libertos dos cárceres dos dicionários, conectados visceralmente com a gíria das ruas, afiados no rap dos guetos, os caras do sistema baiano de subversão sônica encantam também pelo trato com a palavra. Os ritmados da fala nas ruas e florestas do pluridiverso Brasil pulsam no som do Baiana System. Nesta obra magna da Novíssima MPB, a figura do artista inconformado e inquieto, sempre mutante e criativo, segue “traçando vários planos para contra-atacar.”

O território do drama é aquele continente fraturado pelas injustiças de classe e pelas dominações brutais de elites do atraso sobre massas pisoteadas, aquele continente tão bem descrito por Eduardo Galeano e Gabo Márquez:

“Nas veias abertas da América Latina
Tem fogo cruzado queimando nas esquinas
Um golpe de estado ao som da carabina, um fuzil
Se a justiça é cega, a gente pega quem fugiu
Justiça é cega (contra-atacar)
Justiça é cega (eu quero contra-atacar)…”
“Sulamericano” || BaianaSystem
De “O Futuro Não Demora” (2019)

Descrita pela revista Rolling Stone Brasil como “mais atual do que nunca” e “banda brasileira mais relevante hoje”, a BaianaSystem “se reconecta à música brasileira e prepara o contra-ataque”. Uma enxurrada de participações especiais ajuda o discaço O Futuro Não Demora a zarpar num navio pesadão e cheio de ânimo: tem B Negão, tem Curumin, tem Antonio Carlos e Jocafi.

Tem até Manu Chao, cujo álbum Clandestino segue ecoando, anos e anos a fio, como o clássico da world music que já se tornou, sementeira que segue dando muitos frutos (como também o provam Anita Tijoux, do Chile, e Rebbeca Lane, da Guatemala).

Russo Passapusso tem antenas culturais tão bem fincadas em nossa fértil lama cultural multidiversa que não é absurdo equipará-lo, em elevação estética e visão artística, a figuras como Chico Science, Manu Chao, David Byrne ou Tom Zé.

Manifesto multifacetado de um “Terceiro Mundo” cansado de ser subalternizado, e que ergue sua cabeça com orgulho para mandar uma mensagem que se ouça planeta afora, o BaianaSystem participa de um devir-global do som contemporâneo brazuca, processo de que participam também, cada vez mais intensamente, os Boogarins.

O significado histórico de O Futuro Não Demora ainda não é claro, para nós que somos contemporâneos de seu desembarque por aqui. Mas é lícito supor que, junto com o lançamento do filme Marighella de Wagner Moura, esta será a obra-de-arte mais impactante deste início conturbado e violento da desgovernança Bozonazista. O Carnaval de Salvador terá muito a nos dizer, neste 2019, sobre a potência da cultura subversiva e transformadora através da ação –  emblema e enigma – que será o Bloco Baianasystem pelas ruas de um país convulsionado.

Iluministas conectados à internet, cientes de participarem de uma teia de colaboração, os MCs da Bahia globalizável hoje mostram ao mundo um pouco daquilo que encantou tanta gente pelo globo nas figuras de Glauber Rocha, de Gilberto Gil ou de Jorge Amado… Esta “terra de contrastes” que, segundo Bastide, é o Brasil, costume ser fértil na produção de gênios assim.

Glauber, Gil, Amado, dão sequência à genialidade de Lima Barreto, de Assis Valente, de Castro Alves, de Gregório de Matos. Baiana System vem para se integrar nesta louvável tradição, onde a intimidade com a cultura popular não impede os ousados vôos de vanguarda. Onde soam fortes e sedutores os batuques e os tambores telúricos da Bahia-Roma-Negra.

Eis um álbum classudo, groovado, bomba percussiva de ritmado delicioso, que resiste bem a repetidas escutas, prometendo pôr pra ferver a subversão criativa e botando até o saci pererê pra pular. Mesmo que seja dançando duma perna só.

BaianaSystem – “O FUTURO NÃO DEMORA” (2019).
Ouça na íntegra: https://bit.ly/2BCUsVS.

Faça o download: https://bit.ly/2EdXxx9.

Leituras recomendadas:

[1] O Globo – BaianaSystem é um dos maiores acontecimentos da música brasileira recente. Banda baiana cria um mundo que rima mágico e trágico em ‘O futuro não demora’: https://glo.bo/2T1dgb6

[2] ‘Você tem poder para mudar o mundo’, defende BaianaSystem em terceiro disco:https://oglobo.globo.com/cultura/musica/voce-tem-poder-para-mudar-mundo-defende-baianasystem-em-terceiro-disco-23448359

[3] Revista NOIZE – Entrevista | O batismo de água e de fogo do BaianaSystem em “O Futuro Não Demora”: https://bit.ly/2DNdVUb.

[4] Red Bull – Em seu terceiro álbum de estúdio, a banda nos conduz por histórias e destinos da Bahia; leia com exclusividade como foi o processo criativo de cada uma das 13 faixas do disco:https://win.gs/2GwvQlz.

[5] Tenho Mais Discos Que Amigos: BaianaSystem vai da “Água” ao “Fogo” em seu terceiro disco de estúdio; ouça. Grupo traz chuva de participações no recém-lançado “O Futuro Não Demora”: http://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2019/02/15/baianasystem-terceiro-disco/

[6] Bahia.ba: Grooves e drones: CD do BaianaSystem tem ijexá hi-tech e viagem ao ‘centro da Terra’: http://bahia.ba/entretenimento/grooves-graves-e-drones-cd-do-baianasystem-tem-ijexa-hi-tech-e-viagem-ao-centro-da-terra/

[7] Antônio Risério: Pela pata se conhece o leão

[8] Mídia Ninja: Caetano Veloso entrevista Russo Passapusso

[9] A Tarde / Salvador: Navegar é Preciso

[10] ROLLING STONE: Mais atual do que nunca, BaianaSystem se reconecta à música brasileira e prepara o contra-ataque

* * * *

Acompanhe: A Casa de Vidro (Livraria e Produtora Cultural – www.acasadevidro.com – 1ª Av., Goiânia/GO).

OS MELHORES ÁLBUNS DA MÚSICA BRASILEIRA EM 2018: Ouça a todos na íntegra [Seleção A Casa de Vidro]

“Eles querem um preto com arma pra cima
Num clipe na favela, gritando cocaína
Querem que nossa pele seja a pele do crime
Que Pantera Negra só seja um filme
Eu sou a porra do Mississipi em chamas
Eles têm medo pra caralho de um próximo Obama
Racista filha da puta, aqui ninguém te ama
Jerusalém que se foda, eu tô a procura de Wakanda.”
BACO EXU DO BLUES

Tudo junto e misturado, compartilhamos aqui um apanhado geral com alguns dos grandes discos da MPB (sigla considerada no sentido o mais amplo possível) que consideramos os mais significativos da safra 2018. Um ano em que tivemos o retorno de divas e gênios consagrados, como Elza Soares, Gilberto Gil e Gal Costa; tivemos bandas veteranas do cenário manguebeat pernambucano de volta com lançamentos, como Mundo Livre S.A., Eddie e Cordel do Fogo Encantado; tivemos a revelação e consolidação de novos talentos do hip hop (Baco Exu do Blues, Edgar) e no folk-rock (Joe Silhueta, The Baggios, Bemti) etc.

As mulheres arrasaram com discos de alta qualidade: Mulamba, Luiza Lian, Anelis Assumpção, Ava Rocha, Iza, Ceumar, Ana Cañas, Mahmundi, todas marcaram um ano que teve em Deus É Mulher uma de suas obras mais emblemáticas, reafirmando Elza como lenda viva.

Em específico no cenário goiano, que acompanho mais de perto, tivemos a consolidação do Carne Doce com seu terceiro álbum Tônus, o retorno do Cambriana com Manaus Vidaloka e o primoroso álbum de estréia do Ave Eva. Além disso, fortaleceram-se muito no cenário figuras como Adriel Vinícius, Vitor Hugo Lemes (assista ao video-clipe abaixo), Diego Mascate, Pó De Ser – que prometem excelentes lançamentos para 2019.

Além disso, o documentário Novos Goianos (de Isaac Brum) foi lançado, conquistando o prêmio de melhor curta nacional no Lobo Fest de Brasília, uma relevante premiação para um filme dedicado ao novo cenário musical autoral goianiense, encabeçado pelo sucesso de Boogarins, Carne Doce e Diego de Moraes.

Na sequência, aprecie os bons sons destes álbuns magistrais – uma seleção que A Casa de Vidro realizou baseada nas seleções e listas de melhores do ano de Tenho Mais Discos Que Amigos, Rolling Stone Brasil, Multimodo, Miojo Indie, Eu Escuto, dentre outras fontes. Suba o volume pro talo e boa fruição!

Vale mencionar, entre os eventos memoráveis de 2018, também a conturbada turnê brasileira do Roger Waters @ Pink Floyd, que marcou época em seus protestos contra Bolsonaro. Waters pediu resistência, ironizou a censura e aderiu ao movimento#EleNão, a principal mobilização cidadã ocorrida no Brasil em 2018.

Ao mandar no telão frases como Resist The Unholy Alliance of Church and State – Resistam Contra a Ímpia Aliança da Igreja e do Estado – o tiozão tornou-se um emblema de artista engajado na luta contra o fascismo. De lambuja foi entrevistado por Caetano Veloso em um excelente programa da Mídia Ninja (assista abaixo) e estes episódios renderam um dos melhores artigos de reflexão na crítica musical neste ano: Para o duplipensar brasileiro, Roger Waters é uma ameaçade Maurício Angelo na Revista Movin’ Up.

– Por Eduardo Carli de Moraes

ELZA SOARES – Deus é Mulher


GILBERTO GIL – Ok Ok Ok


BACO EXU DO BLUES – Bluesman


ANDRÉ ABUJAMRA – Omindá


MULAMBA


ANELIS ASSUMPÇÃO – Taurina


IZA – Dona de Mim


THE BAGGIOS – Vulcão [DOWNLOAD]


CAMBRIANA – Manaus Vidaloka


TUYO – Pra Curar


MATEUS TORREÃO


EL EFECTO – Memórias do Fogo


BIG PACHA – 11:11 [DOWNLOAD]


ILLY  – Vôo Longe


EDDIE – Mundo Engano


EDGAR – Ultrasom


JOE SILHUETA – Trilhas do Sol


DISASTER CITIES – Lowa


BLACK PANTERA – Agressão


MENORES ATOS – Lapso


CARNE DOCE – Tônus


AVE EVA


MARIA BERALDO – Cavala


LUIZA LIAN – Azul Moderno [DOWNLOAD]


WADO – Precariado [DOWNLOAD]


GAL COSTA – A Pele do Futuro [DOWNLOAD]


PENSE – Realidade, Vida e Fé


DINGO BELLS – Todo Mundo Vai Mudar


ANA CAÑAS – Todxs


MAHMUNDI – Pra Dias Ruins


HAMILTON DE HOLANDA TOCA JACOB DO BANDOLIM


MAURÍCIO PEREIRA – Outono no Sudeste


MUNDO LIVRE S/A – A Dança dos Não Famosos


AVA ROCHA – Trança


VIOLINS – A Era do Vacilo


TATÁ AEROPLANO – Alma de Gato [DOWNLOAD]


JOSYARA – Mansa Fúria [DOWNLOAD]


FELIPE RET – Audaz


INQUÉRITO – Tungstênio


NEGRA LI – Raízes


RODRIGO CAMPOS – 9 Sambas


E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE – Fundação


ADORÁVEL CLICHÊ – O Que Existe Dentro De Mim


CATAVENTO – Ansiedade na Cidade


BEMTI – Era Dois


MARCELO CAMELO – Sinfonia Número 1


MARRAKESH – Cold as a Kitchen Floor


CEUMAR, LUI COIMBRA E PAULO FREIRE – Viola Perfumosa
https://open.spotify.com/embed/album/3QngmgwnfNw5sQhvZ7iW5X


A SER CONTINUADO…
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PEDRAS QUE ROLAM NÃO CRIAM MUSGO – 50 anos da Revista Rolling Stone em documentário da HBO

Lançada em 1967, em plena efervescência do movimento hippie em San Francisco, a lendária publicação Rolling Stone (Site oficial: https://www.rollingstone.com/), ao comemorar seus 50 anos de existência em 2017, foi honrada com um excelente documentário.

Dividido em 2 partes e com cerca de 4 horas de duração, “Rolling Stone: Stories From the Edge” foi produzido pela HBO e dirigido por Blair Foster e Alex Gibney. O filme é um concentrado alucinante, eletrizante e provocativo do que de mais louco ocorreu na cultura dos EUA nas últimas 5 décadas.

Primeira edição da revista, em Novembro de 1967, com John Lennon na capa e matéria de fôlego sobre o Grateful Dead.

Eis um filme que vai muito além de ser apenas uma crônica histórica de um órgão essencial da imprensa cultural estadunidense (e que depois abriu filiais em outros países, inclusive a Rolling Stone Brasil). O doc é um sobrevôo intenso e comovente sobre alguns dos fatos e agitos sócio-políticos mais fulminantes das últimas décadas: aborda o nascimento do “Gonzo Jornalismo” com os escritos chapados de Hunter S. Thompson; as mobilizações sociais contra a Guerra do Vietnã e em prol da Liberdade de Expressão (Free Speech Movement); o relacionamento do ex-beatle John Lennon com sua parceira Yoko Ono, além das ressonâncias do assassinato de John em 1980; a conversão de Patty Hearst (neta do “Cidadão Kane) à guerrilha que a sequestrou; as lendárias fotografias de Annie Leibovitz que estrelam várias das capas da revista; as reportagens também antológicas do Cameron Crowe (que depois se tornaria um dos grandes cineastas norte-americanos, realizando filmes como “Singles” e “Quase Famosos”). E por aí vai…

Batizada em homenagem à esta imagem emblemática na história do rock – “a rolling stone gathers no moss” -, a revista californiana criada por Jann Werner e seus colaboradores tirou seu nome dessa célebre imagem da Pedra Rolante. Esta aparece primeiro em blues elétrico do lendárioMuddy Waters que inspirará o nome de uma das principais bandas da história do rock inglês: The Rolling Stones. A Pedra Rolante depois vai parar na lendária canção do poeta folk-rock laureado com o Nobel Bob Dylan, na canção que abre o álbum “Highway 61 Revisited”, música que seria também re-interpretada pelo gênio da guitarra Jimi Hendrix (que abre o filme com sua magistral abordagem de “Like a Rolling Stone”).

O filme tem uma montagem espertíssima e uma trilha sonora maravilhosa. Inclui cenas raras e incríveis de artistas como Janis Joplin, Tina Turner, Bruce Springsteen, Ramones, Sex Pistols, dentre muitos outros. Aborda as relações da revista com movimentos como o hippie, o punk, o grunge, o hip hop, mas também tematiza as relações polêmicas com o mercadão da música pop (pois a Rolling Stone também teve seu lado caça-níqueis e estampou muita “propaganda” de boybands popstars, travestidas de jornalismo, para figuras como Britney Spears e NSync… ainda que também soubesse explorar o lado sombrio do “Sonho Americano” com o colapso da fama de Britneys e Amys…).

No filme, as relações da publicação com o establishment político também são abordadas, mostrando uma certa “gangorra” entre a tendência a alianças com a “mainstream politics” (como a adesão um tanto condescendente a Bill e Hillary Clinton) e posturas muito mais subversivas e contraculturais (como ocorreu nas diatribes e críticas disparadas contra Richard Nixon). Recentemente, jornalistas como Matt Taibbi se notabilizaram pelas grandes reportagens, de sabor gonzo e teor subversivo, sobre a ascensão da extrema-direita, a eleição de Donald Trump e o “racha” entre os democratas (a onda Bernie Sanders sendo derrotada pela escolha de Hillary nas Primárias).

O mérito maior do filme está em transcender a música, ou melhor, em inserir as manifestações musicais em um contexto mais amplo, em um horizonte expandido. A Rolling Stone nunca quis ser apenas uma publicação “especializada” e dirigida apenas para fissurados em música; sempre meteu o bedelho em temáticas sócio-políticas, ousando nas suas abordagens dos fenômenos contraculturais, dando voz a movimentos sociais e ensinando ao mundo o escopo amplo da ressonância da Cultura Rocker em vários âmbitos da vida social.

Neste filmaço, podemos conhecer um pouco mais à fundo a história desta publicação lendária que ensinou ao mundo que a música era uma força social, mobilizadora e transformadora, capaz de gerar abalos sísmicos no âmbito do comportamento e da expressividade. Cinquenta anos depois, esta pedra segue rolando pra não juntar musgo e seguir servindo de caixa de ressonância para o que de mais extraordinário se passa na Babel de nossa globalizada cultura de massas. Um filmaço!

Saiba mais: https://www.imdb.com/title/tt7604980/

Baixar em torrent: PARTE 1 e PARTE 2 (via Making Off)

Por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro:www.acasadevidro.com

PROGENITORES DO HIP HOP: Afrika Bambaataa

PROGENITORES DO HIP HOP: Afrika Bambaataa
(Ilustração no início do post por Paul Insect)

Nascido em 1957, o lendário DJ Afrika Bambaataa começou a atuar nos anos 1970 no Bronx (NYC). No começo dos anos 1980 lançou uma bomba no cenário cultural estadunidense: “Planet Rock”, de 1982, um clássico do hip hop em seus primórdios. Ali, ele levava os beats futuristas típicos do Kraftwerk – a canção sampleava “Trans-Europe Express”, dos krautrockers alemães – mas levava o tecno para uma nova aventura cultural. Ouça:


Fundindo a música eletrônica experimental com a experiência afroamericana e diaspórica nos EUA, que começava a ser “rappeada” pelos MCs, figuras seminais como Bambataa, The Last Poets e Grandmaster Flash deram o primeiro boost no que viria a ser o movimento cultural hoje globalmente disseminado, o Hip Hop.

Africa Bambaataa é considerado também o criador do conceito que propõe o Hip Hop como um movimento multi-linguístico que reúne 4 elementos essenciais: o DJ, o MC, a Breakdance, o Grafite. Somado às pick-ups, aos mics, aos bboys/bgirls e aos grafiteiros, há um 5º elemento, aquele que dá liga em tudo: o Conhecimento – eis o que ensinava também o Bambaataa.

Este bombou tanto nos anos 1980 que conseguiu tecer parcerias com ninguém menos que o Mr. Dynamite James Brown (“Unity”) e com John Lydon Official (“World Destruction”), o espevitado esgoelador dos Sex Pistols e do PiL (Public Image Ltd).


Ele foi também o visionário fundador do coletivo Zulu Nation, que congregou artistas como De La SoulQueen LatifahA Tribe Called Quest e Jungle Brothers.

Saiba mais: https://www.allmusic.com/…/afrika-bambaataa-mn000…/biography

Veja mais vídeos:

Siga viagem: Ouça “The Message” do Grandmaster Flash, outro progenitor do Hip Hop:

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