LIVRARIA A CASA DE VIDRO – Novidades no Acervo (Julho de 2017)

Foo Fighters – Learning to Fly, a Biografia Definitiva da Banda
Mick Wall

Tipo: novo
Editora: Planeta
Ano: 2017
Estante: Biografias
Peso: 680g
Idioma: Português

A biografia de Dave Grohl e os Foo Fighters, uma das maiores bandas de rock da atualidade: “Há um motivo pelo qual Dave Grohl é conhecido, ainda que ingenuamente, como o cara mais legal do rock. Um motivo que explica por que milhões compram os CDs e DVDs do Foo Fighters, os ingressos de shows e de festivais; por que gerações acreditaram na história, no sonho e nas profecias deles, que se realizaram. Dave é generoso. Ele pode não ter o glamour culto de Kurt Cobain, do Nirvana, mas Kurt era alguém que tirava em vez de doar. Kurt afundou na escuridão, no lado escuro da lua. Dave é um adorador do Sol, um amante e não um solitário, um canal de luz, defende o biógrafo Mick Wall, o mesmo autor de Led Zeppelin – When Giants Walked the Earth.

Sinopse, via Travessa: Foo Fighters – Learning to Fly é a verdadeira história do Foo Fighters – como nunca foi contada antes. Desde o tempo de Dave como um garoto novo do Nirvana até se tornar o Ringo Grunge do Foo Fighters, onde ele está agora –  talvez o maior e mais popular astro mundial do rock na categoria masculina. Nada disso aconteceu por acidente. E o internacionalmente famoso crítico de rock Mick Wall nos conta como e por que, em um estilo que pulsa com os próprios ritmos do rock, ao entrevistar amigos, antigos colegas de bandas, produtores, executivos de gravadoras de discos e as pessoas mais íntimas de Dave Grohl e dos Foos… Essa explosiva biografia – a primeira, completa e sem censuras literárias – explica por que.”



Kurt Cobain: a Construção do Mito
Charles R. Cross

Tipo: novo
Editora: Agir
Ano: 2014
Estante: Música
Peso: 450g
Idioma: Português
Comprar em Estante Virtual

Do mesmo autor de “Mais Pesado Que o Céu”, este livro foi lançado mundialmente em Abril de 2014, vinte anos após o suicídio do líder do Nirvana. Em Tenho Mais Discos Que Amigos, uma boa síntese do livro: contextualiza o impacto de Cobain e sua obra não só no cenário do rock, mas também como tem influenciado, desde então, a moda, o papel dos gêneros, o feminismo, a forma com que o mundo encara o suicídio, o vício em drogas, e o papel de Seattle e do grunge na cultura pop. Livro novo, sem grifos, 176 pgs. Relembre:



Na Livraria A Casa de Vidro:
Ray BradburyFarenheit 451 (2016, 165 pgs, capa dura): http://wp.me/pNVMz-1Sb.
Compre em Estante Virtualhttp://bit.ly/2eL96lm.
Adaptado para o cinema por François Truffaut.
Saiba mais: https://acasadevidro.com/2015/06/23/a-distopia-de-truffaut-adaptada-de-bradbury-livros-ardem-a-451-graus-fahrenheit/



GEORGE ORWELL (1903 – 1959) – “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro)

“A liberdade de expressão, que era definida por George Orwell (1903-1950) como “o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir”, é um dos ingredientes que torna tão cativantes os escritos do autor de 1984 Revolução dos Bichos. Sem papas na língua, com uma prosa lúcida e sem firulas, sempre corajoso na manifestação de suas opiniões e impressões, o escritor inglês também tem uma significativa produção jornalística e ensaística que se torna cada vez mais disponível ao público brasileiro.

Com o lançamento de “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, compre por R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro), que contêm 24 artigos selecionados por Sérgio Augusto, já gozamos de acesso a 3 livros que coletam os ensaios políticos de Orwell – os outros dois são Como Morrem Os Pobres Dentro da Baleia. Além disso, podemos nos deliciar com relatos autobiográficos como Na Pior Em Londres e Paris e com romances excelentes, ainda que menos conhecidos, como A Flor da Inglaterra A Filha do Reverendo. 

Frequentemente descrito como um dos críticos mais perspicazes do totalitarismo, George Orwell defendia o que chamava de “socialismo democrático”. Tal tomada de posição não torna seus artigos na imprensa culpáveis de panfletarismo ou proselitismo. Sem afetar nenhum tipo de neutralidade angelical, aliás inacessível aos animais políticos que somos, Orwell mantêm-se fiel a certos parâmetros éticos que norteiam sua conduta na ação e na escrita, em especial sua convicção de que é preciso respeitar a verdade objetiva e sua noção de que a missão do socialismo é a invenção de uma sociedade baseada na fraternidade humana.” – Saiba mais



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A distopia de Bradbury, filmada por Truffaut: livros ardem a 451 graus Fahrenheit!

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1<<< Fahrenheit 451 – quinto longa-metragem de François Truffaut e nono título de sua filmografia – foi realizado dois anos após Um só pecado (La peau douce, 1964) e um ano antes de A noiva estava de preto (La mariée etait en noir, 1967).

É adaptação da novela de ficção científica de Ray Bradbury. Para muitos, é um tropeção na carreira do diretor. Não é verdade! Mas pode ser classificado como a mais incomum e paradoxal de suas realizações. Nunca mais Truffaut manifestaria visão tão pessimista, árida, fria e francamente marcada pela desumanização.

Mais que estranhamento, Truffaut sentia verdadeira repulsa por filmes e livros de ficção científica. Contra o gênero, segundo consta, escreveu artigo dos mais virulentos. Alegou gostar apenas de O monstro do ártico (The thing from another world, 1951), de Christian.[1] Talvez por ter Howard Hawks na produção, realizador de sua particular predileção ao lado de Alfred Hitchcock e Jean Renoir.

787c8702fbb20e5076a38963a6b758d9Foi por recomendação do amigo Raoul Lévy que Truffaut chegou ao livro de Bradbury no começo dos anos 60. Gostou tanto que, de imediato, procurou o autor para lhe comprar os direitos de adaptação e conversar sobre a realização. Com esse exclusivo fim viajou a New York em 1962.

Fahrenheit 451, o filme, é ficção científica muito pessoal. Localiza a ação em futuro distante, num país de governo totalitário. São essas as únicas informações dadas ao espectador para a contextualização da história. A vida inteligente, a fruição intelectual e o prazer do conhecimento estão banidos de todos os setores da sociedade. Espaços e comportamentos foram padronizados. Ler não é permitido. Logicamente, não são admitidos livros e outros materiais escritos, considerados de alto risco à segurança nacional. Tais ameaças, quando surgem, são entregues aos cuidados da brigada incineradora, composta por bombeiros. Leitores são tratados como subversivos e podem, dependendo da gravidade do crime, receber punições como execração pública, prisão e morte. Apesar das analogias permitidas pelo tema, Truffaut desaconselhou qualquer identificação da sociedade imaginada de Fahrenheit 451 com as “democracias populares” do Leste Europeu.


Fahrenheit 451
permitiu a Truffaut dar vazão a duas de suas mais caras obsessões: o amor aos livros e o fascínio pelo fogo. Quanto à última, alegou sem nenhum pudor que sempre vibrou com cenas de incêndio e se considerava um pouco incendiário. O título do filme diz respeito à temperatura de combustão de uma folha de livro. (…)

2O tema da queima de livros é tão gritante que fala por si. O filme é a própria denúncia de fato tão ignóbil. Diante das cenas que mostram as labaredas envolvendo títulos os mais diversos, nada mais precisa ser dito. Principalmente quando a câmera se aproxima das chamas, permitindo ao espectador a identificação de exemplares de obras fundamentais. Por isso, Fahrenheit 451 não faz qualquer defesa da literatura, da cultura ou do saber. Cena alguma transmite mensagem de amor e respeito aos livros. A falta desse discurso a favor aumenta a secura da história, tornando-a mais contundente. Foi pensando nisso que Truffaut eliminou um dos personagens do original de Bradbury, o filósofo Faber. Suas falas,lamentando o destino dado aos livros, poderiam soar redundantes. >>> Jose Eugenio Guimarães

LEIA O ARTIGO COMPLETO @ ESPAÇO ACADÊMICO

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COMPRE O LIVRO DE RAY BRADBURY NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO (CAPA DURA, FOLHA, 2016)

 

A MORTE DO GLAMOUR NA RUA DO CREPÚSCULO – Explorações sobre o clássico filme de Billy Wilder, “Sunset Boulevard – Crepúsculo dos Deuses” (1950)

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“Prédios vão se erguer
E o glamour vai colher
Corpos na multidão.”

CRIOLO. Casa de Papelão.
Do álbum Convoque Seu Buda, 2014.

Avançando pela rua do crepúsculo, envolvida por um brilho de empréstimo, roubando luz de seu passado, Norma Desmond tece – com a ajuda de seus cúmplices e serviçais – um véu de Maya diante dos próprios olhos.

O cinema já produziu inúmeros filmes em que o próprio cinema está em questão, mas poucos são tão magistrais e sublimes quanto Sunset Boulevard – Crepúsculo dos Deuses, uma das obras-primas de Billy Wilder.

É um filme sobre filmes, em especial sobre como a megaindústria Hollywoodiana funciona e como influi nas vidas de cineastas, escritores, atores, produtores, magnatas e escroques de toda estirpe. Sem sinal do kitsch costumeiro nos filmes comerciais de Hollywood, Billy Wilder fez em Sunset Boulevard um de seus filmes mais dark e Hitchcockescos.

É também, parece-me, o inaugurador de um subgênero, que eu chamaria de cinema metalinguístico, que tem entre seus clássicos Oito e Meio, de Fellini (1963),  A Noite Americana, de François Truffaut (1973), A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen (1985), O Jogador, de Robert Altman (1992), Mulholland Drive – Cidade dos Sonhos, de David Lynch (2001), dentre outros.

O pai de todos os grandes filmes-sobre-o-cinema talvez seja esta obra de 1950 – que eu preferiria que se chamasse Crepúsculo dos Ídolos (e não Dos Deuses) – em que Wilder cria este inesquecível retrato das transformações radicais vivenciadas por uma celebridade da indústria cinematográfica, encarnada pela expressiva Gloria Swanson, atriz que sabe muito bem abraçar a insânia quase trágica, Lady Macbethiana, desta star do showbizz, Norma Desmond, retratada décadas depois de seu auge glorioso.

Como uma aranha, esta estrela caída, que há muito já não brilha nas telonas, tece uma Matrix diante de si onde seu ego continua no trono máximo. É o mito de Narciso que renasce: esta mulher vive rodeada por imagens de si mesma, prisioneira na Caverna do egocentrismo exacerbado, o que revela-se claramente tanto pelo excesso de fotos de si mesma com as quais ela abarrota com porta-retratos incalculáveis sua vasta casa, quanto por seu cinema doméstico, onde ela só assiste aos filmes em que ela própria aparece. Os limites estreitos de seu mundo parecem limitar-se a uma mansão que não passa de um gigantesco labirinto cujas paredes e chão e tetos são constituído inteiramente de espelhos.

 Billy Wilder soube retratar de modo genial todo um jogo de ilusionismo, aliás bastante próprio ao cinema como arte, que acaba transcendendo os domínios estéticos e transbordando para a existência daqueles que envolvem suas vidas demasiadamente com as engrenagens impiedosas de uma indústria do entretenimento que soube, por exemplo, conduzir Marilyn Monroe a seu suicídio e fez com que James Dean (outrora) e Heath Ledger (recentemente) se auto-aniquilassem ainda na juventude.

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Salomé com a cabeça de João Batista em uma bandeja, obra de Caravaggio (1607)

Em Sunset Boulevard, o drama da atriz decaída em sua fama atinge alturas míticas: estamos diante de uma nova Salomé. As relações de amor de Norma Desmond, longe de possibilitarem o desabrochar das jovialidades e dos deleites que preenchem as comédias alegres de Wilder como Sabrina ou Love in The Afternoon, são matéria digna de Shakespeare ou Shelley. Norma Desmond tem poder demais em suas mãos, até mesmo pelo capital que concentra e mobiliza, para que esta mulher seja banal e sem consequências – pelo contrário, ela não somente quer ser gente importante, como também sua conduta e suas práticas tem quase sempre como télos uma ambição desmesurada, uma fome de glamour que é devoradora.

Há nela algo de vampira, mas não é exatamente uma personagem vilanesca caricatural, já que Wilder sabe também mostrar a humanidade de uma mulher frágil, insegura, com fome de amor, perdida em suas reminiscências de uma glória que em seu presente queima em fogo baixo, mas que ela está disposta a re-incendiar.

O véu de Maya de sua Matrix mulheril é a miragem de fama continuada que serve para acalentar um pouco a desolação daquela mansão. Ser milionária é tão triste que ela traz os pulsos marcados por várias tentativas de suicídio. Em sua primeira visita, o visitante surpreende-se com os ritos fúnebres de um macaco: Norma Desmond estava em luto após a morte de seu pet primata. Diante disso, o visitante – que se tornará, é claro, roteirista-ajudante e logo amante-serviçal – pergunta-se melancólico e assombrado: será que a vida desta mulher é assim tão vazia que ela tenha que investir tanto afeto em um macaco, a ponto dela ir toda solene enterrá-lo com pompas fúnebres Bergmanianas?

Sim: no clássico de Billy Wilder, Sunset Boulevard, Hollywood é uma terra impiedosa com aqueles que já deixaram para trás seus 15 minutos (ou no máximo 15 anos) de fama. A protagonista vive o pesadelo do pop, para lembrar uma expressão de Marcelo D2. Ou melhor, ela vive o melodrama da perda da aura: deixou de ser pop, mas quer intensamente continuar a crer em seu renascimento como estrela, em um sonhado futuro re-brilhante no pop stardom. Rodeada por fotos de sua juventude, assistindo seus filmes em replay, tem fome de uma glória reencontrada, o que é a motivação para seus atos profundamente egocentrados.

Narciso de saias, esta atriz sedenta por holofotes e um tanto rejeitada pelo sistema (que quer as novinhas e despreza as envelhecidas), transformada em figura excêntrica demais para o gosto da indústria do entretenimento normalóide, Norma Desmond vai seguindo o declive que conduz o filme a profundezas dignas de Bergman ou Tarkovsky. Apesar de seus momentos de novelão melodramático mexicano, Sunset Boulevard é de um impacto equiparável ao de O Sétimo Selo ou A Infância de Ivan.

Norma acaba por ser uma encarnação hollywoodiana da lendária Salomé, símbolo de uma feminidade traída que acaba demandando a cabeça na bandeja ou o cadáver boiando na piscina daquele que ousou rasgar o tecido precioso da ilusão romântica. Se ela investe (afeto e dinheiro) às mancheias em seu escritor de estimação, é um pouco com a atitude mandona e megera de quem acha que a grana compra tudo. Mas descobre que o capital não compra fama eterna assim de forma tão fácil e mecânica quanto os capitalistas desejariam. Fama efêmera, capital impotente.

Esta estrela de Hollywood olha para os astros da noite murmurando: the stars are ageless (“as estrelas não envelhecem”). Mas descobre amargamente que a condição humana não comporta escapatórias: é rua de mão-única, da maternidade ao cemitério, e envelhecer é destino inelutável para aqueles que desejam seguir vivendo até encontrarem seu crepúsculo natural.

Tudo passa, até a glória.

E isso descobrem muitos dos que tornaram-se gloriosos muito cedo, de Marilyn Monroe a Kurt Cobain. Sempre me impressionou o fato de que os famosos muitas vezes acabam suicidados: é como se batessem suas cabeças até o coma cerebral contra o labirinto de espelhos onde vivem. Norma Desmond deseja as câmeras, os holofotes, as atenções, mas quer mais: deseja ser regida pelos maiores, estar em relações com os grandes criadores, de modo que investe esperanças no plano de ser estrela de um novo épico de Cecil B. De Mille. Grandes planos, imensos tombos.

No fim das contas, quando seu plano mirabolante mostra-se vão e esfacela-se no chão, como castelo de areia à beira da praia que era, aí então destrava a psicose, aflora a fúria de Salomé, ela pega um atalho para outro tipo de fama. Melhor alguma fama do que fama nenhuma. Ainda que seja a fama dos loucos, dos assassinos, dos pinéus, dos que colapsaram, dos que perderam as estribeiras e cometeram o irremediável.

São raros os momentos da história do cinema onde uma obra-de-arte chega ao grau de reflexão profunda sobre a loucura que Billy Wilder conseguiu realizar no desfecho inolvidável de Crepúsculo dos Ídolos. Um filme que acaba possibilitando um diálogo com a obra de um Artaud, um Nietzsche ou um Van Gogh. Se algum Foucaultiano um dia tivesse a ideia de mapear uma História da Loucura no Cinema, Norma Desmond teria que aparecer em uma tribuna de honra. Pois esta personagem tem a mistura de comédia e tragédia, de esperança grandiosa e fragilidade emocional, que marcou tantos dos maiores e mais atormentados artistas da história…

Wilder aproveita também para satirizar – como já havia feito de modo brilhante em The Front Page – uma indústria cultural e uma mídia de entretenimento que usam as estrelas como se fossem absorventes, estes que depois da menstruação delem ser logo lançados no lixo. Depois do spotlight, o olvido. A fila anda. Mais recentemente, Kurt Cobain e Courtney Love – casal trágico e desajustado, deveras, mas que também eram capazes de intensa empatia e conexão – souberam satirizar toda esta cultura hegemônica do “use once and destroy”. 

O que me leva a pensar que a colonização que o capitalismo opera sobre a indústria do cinema gera fenômenos como as estrelas descartáveis, usadas em sua juventude para adornar os filmes com belos rostinhos, e cujas vidas pessoais podem ser investigadas de modo impiedoso pelo comércio de fofocas e pelos sensacionalismos midiáticos que propulsionam a mídia marrom a esta indústria conexa. Mas vou fechar o bico quanto a outras especulações e Pierre Bourdieuísmos que talvez não venham tanto a propósito aqui.

Em suma: não é só um filmaço, é uma obra-de-arte das mais magistrais do século 20, de tanta qualidade quanto um romance de Proust ou um álbum sessentista de Bob Dylan. Sunset Boulevard é um pouco como a lendária Salomé se fosse renascida em Hollywood, com pitadas de Cleópatra e algo de Elizabeth Taylor. No filme, uma apaixonada desiludida vê desmoronar seu castelo de cartas: o filme é sobre o colapso de uma fantasia subjetiva, mas descreve este procedimento de decadência e de insânia como parte de uma teia de relações bastante complexa, analisável inclusive pelo seu aspecto sociológico e político.

Norma Desmond, em seu momento de fúria, ao notar que sua Salomélica dança dos 7 véus não havia surtido o efeito desejado sobre o mundo, perde o controle e transforma-se em criminosa. Será que seu inconsciente lhe ditou que era melhor ser famigerada do que não ter nenhuma fama? Eis a condição humana, desde Homero descrita de modo pungente através dos inesquecíveis desvarios de Aquiles na Ilíada: nós humanos não queremos somente sobreviver, e não suportamos apenas viver, queremos mais do que isto: temos vontade de significar valer. 

Debaixo da luz cósmica de estrelas silentes e enigmáticas, banhados pelas emanações cósmicas da estrela solar, não suportamos bem as sombras, as catacumbas, os porões: no isolamento sofremos e murchamos. “Nenhum homem é uma ilha”, como lembra o lapidar verso de John Donne, e o ser humano que tentar ilhar-se irá certamente violentar sua própria natureza. Isolar-se em uma mansão repleta de espelhos, habitar ali em narcísica auto-celebração que não cessa, é a receita para a catástrofe – e uma que Norma Desmond continua a nos ensinar. Sunset Boulevard: tratado sobre a tragédia do narcisismo.

De todo modo, o filme parece animado pela presença deste afeto talvez universal e que faz com que todo ser humano possua a vontade de que o outro enxergue-o, reconheça-o, valorize-o. Somos universalmente desejosos de relações com o amplo domínio da alteridade, sem o qual nosso valor próprio naufraga aos nossos próprios olhos. Só sei o quanto valho a partir do outro, do ouro ou desdouro que o outro me conceda ou me retire. Sedentos por reconhecimento, às vezes marchamos às cegas, irracionais como somos tanto e tão frequentemente, apesar de termos nos auto-proclamado, narcisinhos que somos, como “homo sapiens” (“homens sábios”? Aonde encontrá-los?).

 O glamour é só uma nova embalagem para uma velha isca que mordemos e mordemos, como peixes pescados mil vezes e que jamais aprendem. Glamour: esta mercadoria oferecida em mil anzóis por publicitários e empresários, interesseiros e oportunistas, comerciantes e políticos, e que é um dos símbolos mais fortes do quanto o capitalismo colonizou nosso espaço íntimo, invadiu nossos sonhos, reinando até sobre nossas fantasias. É verdade que o desejo de fama já existia em sociedades pré-capitalistas – e que os gregos, como Jean-Pierre Vernant tão bem argumenta, já discutiam de modo intenso sobre a questão da bela morte, da reputação póstuma, do papel do artista como aquele que transmite à posteridade um retrato imorredouro daquilo que merece ser memória. Mas hoje o capitalismo reina também sobre nossos sonhos de fama e Norma Desmond – ultra-capitalista e mega-neurótica -mostra-nos um caso paradigmático do quanto temos tendência massiva a sermos Hollywoodianescos quando sonhamos com a glória.

Nosso imaginário também precisa ser revolucionado se quisermos cuspir fora das profundezas de nossa psique este vírus ideológico que é o individualismo narcísico competitivista que hoje passa por “natureza humana” no discurso do capitalismo liberal.

Vivendo em uma cultura capitalista que é competitiva até as raias da loucura, somos convidados a pensar a glória como algo acessível a uma pequena elite; mas, apesar dos reality shows e Big Brothers Televisivos, sabemos muito bem que não há democracia autêntica na vigência de uma meritocracia aristocrática. Será que não colheremos o conflito e a violência enquanto continuarmos pondo combustível na maquinaria deste ideário que conduz cada um a querer reinar e brilhar sozinho debaixo dos holofotes de uma glória exclusivista? Pois não há glória do eu que chegue aos pés da glória do commons. Mas ao commons estamos – Saramago ensina – cegos.

Norma Desmond, depois de muito caminhar pela avenida da fama, descobre fatalmente, ao entrar na rua do crepúsculo, que sua fantasia despedaçou-se ao contato com a realidade e sua vida transformou-se nas ruínas de um ídolo destroçado. Afinal de contas, ela tinha, como todos os ídolos, pés de barro.

Eduardo Carli de Moraes
29 de Maio de 2015
A Casa de Vidro.com

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Um texto hilário de Woody Allen em “Fora de Órbita” + 10 filmes prediletos da história do Cinema

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Estou muito aliviado em saber que o universo, afinal, é explicável. Já estava começando a achar que o problema era comigo. Como agora se sabe, a física, feito um parente chato, tem todas as respostas. O big-bang, os buracos negros e a sopa primordial aparecem toda terça-feira na seção de ciência do Times e, em consequência, minha compreensão da relatividade geral e da mecânica quântica agora se equipara ao conhecimento que tenho de Einstein. O Einstein da loja Einstein Moomjy, o famoso vendedor de tapetes de Nova York. Como é que pude ignorar que existem no universo coisas minúsculas, do “comprimento de Planck”, que têm um milionésimo de um bilionésimo de um bilionésimo de um centímetro? Imagine como será difícil encontrar uma coisa dessa, se você a deixar cair num cinema escuro. E como a gravidade funciona? E se ela cessasse de repente, alguns restaurantes ainda exigiriam o uso de paletó? O que sei de fato sobre a física é que, para um homem parado na margem, o tempo passa mais depressa do que para um homem no barco – ainda mais se o homem no barco estiver com a esposa. O mais recente milagre da física é a teoria da corda, alardeada como TT, ou “Teoria de Tudo”. Isso pode incluir até o incidente da semana passada, narrado a seguir.

Acordei na sexta-feira e, como o universo está em expansão, levei mais tempo do que o habitual para achar o meu roupão. Isso me fez sair tarde para o trabalho e, como a noção de alto e baixo é relativa, o elevador que peguei foi parar no terraço, onde foi difícil conseguir um táxi. Por favor, tenham em mente que um homem dentro de um foguete que se aproxima da velocidade da luz pareceria estar indo na hora para o trabalho – ou até um pouco adiantado, e sem dúvida mais bem vestido. Quando, enfim, cheguei ao escritório e me dirigi ao meu patrão, o senhor Muchnick, a fim de explicar o meu atraso, minha massa aumentou à medida que eu me aproximava, o que meu patrão entendeu como um sinal de insubordinação.

Houve uma conversa bastante ríspida sobre reduzir o meu salário, o qual, medido no parâmetro da velocidade da luz, é de todo modo muito pequeno. A verdade é que, em comparação com a quantidade de átomos da galáxia de Andrômeda, eu de fato ganho muito pouco. Tentei dizer isso ao senhor Muchnick, que respondeu que eu não estava levando em conta que tempo e espaço são a mesma coisa. Jurou que, se a situação mudasse, me daria um aumento. Sublinhei que, uma vez que tempo e espaço são a mesma coisa, e levo 3 horas para fazer algo que no final fica com menos de 18cm de comprimento, não dá pra vender isso por mais de 5 dólares. O lado bom de tempo e espaço serem a mesma coisa é que, se você viaja para as regiões remotas do universo e a viagem leva 3 mil anos terrestres, os seus amigos estarão mortos quando você voltar, mas você não vai precisar de Botox.

De volta ao meu escritório, com a luz do sol entrando com força através da janela, pensei comigo que, se a nossa grande estrela dourada explodisse de repente, este planeta voaria para fora de órbita e sairia zunindo pelo infinito para sempre – mais uma boa razão para a gente levar sempre um telefone celular. Por outro lado, se um dia eu pudesse me mover numa velocidade superior a 300 mil km por segundo e recapturar a luz nascida séculos atrás, será que poderia voltar no tempo para o Egito Antigo ou para a Roma Imperial? Mas o que eu iria fazer lá? Dificilmente acharia alguém conhecido.

Foi nesse momento que nossa nova secretária, a senhorita Lola Kelly, entrou. Agora, na polêmica em torno da questão de tudo ser feito de partículas ou de onda, a senhorita Kelly é positivamente feita de ondas. Dá para verificar que ela é feita de ondas toda vez que caminha até o bebedouro de água gelada. Não que ela não tenha boas partículas, mas são as ondas que conseguem para ela as bijuterias da Tiffany. Minha esposa também é mais ondas do que partículas, só que as ondas dela começaram a despencar um pouco. Ou talvez o problema seja que minha esposa tem quarks demais. A verdade é que, ultimamente, ela parece que passou perto demais do horizonte de eventos de um buraco negro e uma parte dela – não toda, de maneira alguma – foi sugada. Isso lhe dá um formato meio gozado, que espero ser remediável mediante a fusão fria. Meu conselho para qualquer pessoa sempre foi evitar buracos negros, porque, uma vez lá dentro, é extremamente difícil conseguir sair e ainda conservar o ouvido para a música. Se por acaso você despencar por um buraco negro e emergir do outro lado, provavelmente vai viver sua vida inteira muitas e muitas vezes, mas vai ficar compactado demais para sair e encontrar garotas.

E assim me aproximei do campo gravitacional da senhorita Kelly e pude sentir minhas cordas vibrarem. A única coisa que sabia era que eu queria embrulhar meus bósons de calibre fraco em volta dos glútons dela, deslizar por um buraco de minhoca e adentrar por um túnel quântico. Foi nessa altura que fiquei impotente em virtude do princípio de incerteza de Heisenberg. Como eu poderia agir se não consegui determinar a posição e a velocidade exatas dela? E se de repente eu causasse uma singularidade – ou seja, uma devastadora ruptura no espaço-tempo? Isso é tão barulhento. Todo mundo ia olhar e eu ia ficar sem graça diante da senhorita Kelly. Ah, mas a mulher tem uma energia escura tão boa. Energia escura, embora hipotética, sempre foi para mim um choque estimulante, sobretudo numa mulher que tem sobremordida. Na minha fantasia, se eu pudesse levá-la para o interior de um acelerador de partículas durante cinco minutos com uma garrafa de Château Lafite, eu estaria ao seu lado com os nossos quanta se aproximando da velocidade da luz, enquanto o seu núcleo colidia com o meu. Claro, exatamente nesse instante caiu um cisco de antimatéria no meu olho e tive que arranjar um cotonete para removê-lo. Eu tinha perdido quase toda a esperança, quando ela se virou para mim e falou:

– Desculpe – disse – Eu ia pedir um café e um bolinho, mas agora parece que não consigo me lembrar da equação de Schrödinger. Não sou mesmo uma tola? Simplesmente se apagou da minha memória.

– Evolução das ondas de probabilidade – falei – E se você vai fazer um pedido ao garçom, eu gostaria muito de um bolinho inglês com múons e chá.

– Com todo prazer – respondeu, sorrindo com ar de coquete e curvando-se numa forma de Calabi-Yau. Pude sentir miha constante de acoplamento invadir o campo fraco da senhorita Kelly à medida que eu pressionava meus lábios nos seus neutrinos molhados. Aparentemente, consegui alcançar uma espécie de fissão, porque o que percebi depois disso foi que eu estava me levantando do chão com um olho roxo do tamanho de uma supernova.

Acho que a física pode explicar tudo, menos o sexo frágil, mesmo assim contei para a minha mulher que fiquei com o olho roxo porque o universo estava em contração, e não em expansão, e na hora eu estava distraído.”

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No Open Culture, Woody elege 10 filmes prediletos na história do cinema:

  • Os Incompreendidos – The 400 Blows (François Truffaut, 1959)
  • 8 ½ – Oito e Meio (Federico Fellini, 1963)
  • Amarcord (Federico Fellini, 1972)
  • Ladrões de Bicicleta – The Bicycle Thieves (Vittorio de Sica, 1948)
  • Cidadão Kane – Citizen Kane (Orson Welles, 1941)
  • Discreto Charme da Burguesia (Luis Buñuel, 1972)
  • A Grande Ilusão – Grand Illusion (Jean Renoir, 1937)
  • Glória Feita de Sangue – Paths of Glory (Stanley Kubrick, 1957)
  • Rashomon (Akira Kurosawa, 1950)
  • O Sétimo Selo – The Seventh Seal (Ingmar Bergman, 1957)

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