[Encontro de Culturas 2016 – Txt 07] “Tempo de Kuarup”: documentário revela detalhes do rito Kuarup realizado pelos povos do Alto Xingu

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Fotografias: Mariana Florêncio, X Aldeia Multiétnica / 2016

“TEMPO DE KUARUP”

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

Com direção e roteiro de Neto Borges, patrocínio do MinC (Ministério da Cultura) e do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o documentário “Tempo de Kuarup” é uma produção da Olho Filmes e foi realizada por uma parceria da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, do instituto Darcy Ribeiro e da AWAPÁ – Associação Yawalapiti. O documentário foi uma das atrações do cineclube que integra a programação do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros e foi exibido, para deslumbre do público, na noite desta quarta-feira, 27 de Julho de 2016. (Assista ao trailer oficial.)

É através do Kuarup, ritual sagrado praticado pelos povos do alto Xingu, que os viventes despedem-se de seus mortos ilustres. “Após o falecimento de um líder notório”, explica o doc, “a comunidade discute a pertinência de realizar o ritual.” Ao manter acesa a chama do Kuarup, honram os costumes dos antigos e expressam uma mitologia própria (saiba mais). Tradições milenares são assim preservadas e perpetuadas, ainda que elementos estranhos e hostis – como projetos hidrelétricos e sua procissão de devastações e etnocídios – rondem, como uma ameaça palpável, essas tribos ancestrais e suas celebrações.

Kuarup é o nome de uma das árvores da floresta que marca presença no ritual sob a forma de três troncos, representativos dos entes queridos que morreram. Os troncos são decorados e pintados pelos Yawalapiti em seus preparativos para uma grande congregação onde recebem na aldeia os convidados de várias outras etnias. Os preparativos para a cerimônia são longos e envolvem os cuidados culinários: a pescaria de uma fartura de peixes, a serem servidos aos convivas, e a preparação de alimentos à base de polvilho e pequi, dentre outros ingredientes. Tudo minuciosamente preparado para a consumação de um Encontrão de tribos durante as festividades Kuarupianas (em 2016, eles até mesmo incluíram uma alfinetada no traíra usurpador e teve #ForaTemer berrado pela pele).

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 A música e a dança são elementos essenciais para o bom andamento do ritual. A música é produzida tanto por chocalhos e maracás, que produzem a percussão e instituem um consenso rítmico, quanto por imensas “flautas” que, de acordo com Aritana Yawalapiti, tem por dono “o espírito da raiz”. Através dos sons, das danças, das pinturas corporais, dos movimentos  coreografados, o filme revela alguns ricos vislumbres da cultura xinguana, dotada de gramática rítmica própria e que expressa toda uma cosmologia, com seus mitos de origem e suas narrativas sobre a vida e a morte, a finitude e a eternidade.

O filme também é eficaz ao fazer a denúncia, sem nenhum panfletarismo ou demagogia, das devastações acarretadas por madeireiras e monoculturas, que vão invadindo e matando a mata, devastando a diversidade sociocultural e aniquilando a biodiversidade de fauna e flora. Revela também a discordância do povo Yawalapiti em relação às barragens hidrelétricas que estão sendo construídas e planejadas para a região do Xingu, devastadores projetos como Belo Monte, obras megalomaníacas que são terríveis para o equilíbrio do ecosistema todo no qual vivem a milênios os povos originários. Não são só os seres humanos que ali (re)existem que estão sendo tratorados pelo Brasil Grande das nossas elites, ecocidas, genocidas, golpistas; a Natureza sofre junto, colapsam seus equilíbrios, por exemplo nos peixes impedidos de realizar sua piracema.

“Tempo de Kuarup” é prova viva da potência do cinema-verdade para agir como expansor de horizontes. A câmera como janela que permite-nos aprender sobre perspectivas alternativas, modos-de-viver de múltiplas outras alteridades, permitindo um contato possível com culturas de densa ancestralidade. E que perpetuam a duras penas a beleza e a força de seus ritos e práticas em tempos sombrios de devastação institucionalizada. É um dos documentários essenciais para quem quer entrar em contato – ainda que mediado pelo audiovisual, o que não dispensa ninguém de outros modos de mais imediata e radical vivência de interação – com a vivacidade da tradição xinguana, que vive e resiste em rituais como o Kuarup. É todo o cotidiano existencial e arranjo político da aldeia Yawalapiti que encontra no filme um retrato à altura de sua beleza e complexidade.

SAIBA MAIS

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CONHEÇA OUTROS DOCUMENTÁRIOS INTERESSANTES DE TEMÁTICA SEMELHANTE:

* SERRAS DA DESORDEM, de Andrea Tonnacci
*  RAONI (1978), de Jean-Pierre Dutilleux e Luiz Carlos Saldanha
* ÍNDIO CIDADÃO?, de Rodrigo Siqueira
A GUERRA DE PACIFICAÇÃO DA AMAZÔNIA, de Yves Billon
MUNDURUKANIA – NA BEIRA DA HISTÓRIA, de Miguel Castro

P.S. Vale lembrar que Kuarup é também o nome de um filme brasileiro lançado em 1989, dirigido por Ruy Guerra e baseado em obra de Antônio Callado, cuja narrativa se passa no Parque Indígena do Xingu. O recente filme Xingu (2011), de Cao Hamburger, oferece uma reconstrução narrativa, altamente cinematográfica, da trajetória dos irmãos Villas-Bôas. Ambos filmes, apesar de serem obras ficcionais ou “biopics”, abrem janelas para o concreto da História real em que se inspiram.

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LEITURA SUGERIDA:

FRANCHETTO, Bruna e HECKENBERGER, Michael (orgs.). 2001. Os Povos do Alto Xingu: História e Cultura. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 496 pp.

FRANCHETTO, Bruna e HECKENBERGER, Michael (orgs.). 2001. Os Povos do Alto Xingu: História e Cultura. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 496 pp. Saiba mais.

[Encontro De Culturas 2016 – Txt 01] – A POLIFONIA DAS PROSAS: Aldeia Multiétnica chega à sua 10ª edição propiciando multiplicidade de encontros e vivências

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Pajé Raimundo Dessana fala numa roda-de-prosa durante a X Aldeia Multiétnica 2016. Foto: Pedro Henriques.

A POLIFONIA DAS PROSAS

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (16 / 07 /2016)

Catalisadora de interações interculturais e intersubjetivas intensas, a Aldeia Multiétnica 2016 chegou à sua 10ª edição e veio repleta de rodas-de-prosa. Estas propiciam ricas vivências aos presentes – indígenas, viventes, voluntários e visitantes – numa multiplicidade de encontros, debates, interconexões e partilhas.

A polifonia das prosas que emerge das rodas abarca vários temas, como extrativismo sustentável, segurança alimentar dos povos indígenas, artesanato indígena e economia criativa, convenções da Organização Internacional do Trabalho, dentre muitos outros (confira a programação completa).

Vivenciar uma roda-de-prosa revela-nos passado, presente e futuro dançando uma ciranda. Debatem-se assuntos urgentes da vida política presente, compartilham-se costumes e saberes ancestrais e abrem-se janelas para a construção de um futuro comum. Proseando é que se vão tecendo teias de solidariedade e resistência, circuitos de circulação de sabedorias. Cada um daqueles que toma a palavra busca sintetizar experiências vividas no esforço de tornar comum uma riqueza partilhável. E há magia infinda em perceber que a realidade fica enriquecida, e não diminuída, pela partilha.

A multiplicidade de oradores que se manifestam, buscando harmonizar suas diferenças, revelam várias abordagens sobre o poder do verbo e o trato correto com a palavra. Há quem não goste de palmas ao final de discurso: “eu não quero que meu espírito vá avoar e não vá voltar mais não”, reclama dos aplausos uma das lideranças indígenas.

Um exemplo da urgência do tempo presente que se impôs nas prosas deste sábado, 16 de julho, foram os rumos da FUNAI, já que neste momento histórico a ameaça de retrocesso pesa como uma nuvem ameaçadora no horizonte, como ficou claro após a possível nomeação do general Peternelli para a presidência da Fundação Nacional do Índio.

Movimento Ocupa Funai manifesta-se em Brasília, em  13 de Julho de 2016

Movimento Ocupa Funai manifesta-se em Brasília, em 13 de Julho de 2016. Acesse o blog da Mobilização Nacional Indígena.

A Aldeia Multiétnica raiou sob o impacto de eventos recentes, como a onda de ocupações e protestos do #OcupaFunai, que atingiu seu auge poucos dias antes do início do 16º Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiro, em 13 de julho, quando, como informa o Instituto Sócio-Ambiental,

“indígenas e servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai) promoveram ocupações em pelo menos 32 locais em todas as regiões do país, incluindo escritórios regionais da Funai e rodovias (veja abaixo mapa interativo). Eles protestam contra a revisão e paralisação das demarcações de Terras Indígenas (TIs), os cortes de verbas e servidores da Funai, o loteamento político da presidência do órgão, a municipalização da saúde indígena e as violências cometidas contra os povos indígenas. O movimento “Ocupa Funai” foi encabeçado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e servidores do órgão indigenista (leia a carta da APIB).”

As urgências do presente, debatidas com ardor, não impedem que os portadoras de sabedoria ancestral também se utilizem das rodas-de-prosa para comunicarem saberes e partilharem angústias, como fez o pajé Raimundo Dessana, proveniente do Amazonas. Ele refletiu em público sobre temas dos mais diversos, inclusive sobre o “fim do mundo” e a crise ecológica-civilizacional que nos assombra (saiba mais sobre Raimundo Dessana neste perfil).

Esta sinfonia polifônica de debates e partilhas constitui um mosaico onde passado, presente e futuro marcam presença conjuntamente. As rodas-de-prosa servem à transmissão dos saberes e fazeres consagrados que mantêm viva a chama da memória coletiva, mas também para discutir problemas candentes do presente que demandam a urgente ação coletiva. Assim deliberam-se rumos para a construção do futuro, no qual nada impede que floresçam iniciativas inovadoras e cheias de potencial, como a própria Aldeia Multiétnica e sua Tenda Multimídia Indígena. Ali ocorre no domingo (17/07), às 14h, a roda-de-prosa “Etnomídia e afirmação da identidade indígena”, com Denilson Baniwa, da Rádio Yandê, lideranças indígenas e convidados ligados ao tema. Vivencie!

CONFIRA ALGUMAS FOTOS DA X ALDEIA MULTIÉTNICA

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Foto: Mariana Florêncio

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Foto: Mariana Florêncio

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Foto: Mariana Florêncio

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Foto: Bruna Brandão

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Foto: Bruna Brandão

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