A CORAGEM DA VERDADE EM NOVA TEMPORADA: Sobre Greenwald & David Miranda, #VazaJato & #LulaLivreUrgente

Orwell ensina que “quanto mais uma sociedade se afasta da verdade, mais ela vai odiar aqueles que a falam”. Ensina também que “em tempos de enganação universal, falar a verdade torna-se um ato revolucionário.” A distopia de 1984 envolve explicitamente um Partido (encabeçado pelo Grande Irmão) que deseja ser a única entidade a possuir controle total sobre toda a sociedade, e sua inspiração histórica são os partidos Nazista e a perversão do bolchevismo na URSS sob Stálin. Crítica do totalitarismo em forma de romance sci-fi, o livro mostrava a constante falsificação da História de acordo com os interesses da tirania reinante – e, é sempre bom que se lembre, 1984 não era um manual de instruções! Era um manifesto de denúncia.

Aquele contexto orwelliano tem ressonâncias em obras-de-arte posteriores que marcaram época, a exemplo da graphic novel de Alan Moore V For Vendetta, onde as viralização das vertentes anarquistas, através dos sujeitos escondidos por detrás das máscaras de Guy Fawkes, traz à baila um tema crucial: até que ponto é legítimo e direito a insurreição violenta dos oprimidos quando esta se levanta contra a violência estrutural-sistêmica dos opressores? Na HQ de Moore, depois transformada em filme com direção de James McTeigue, um dos ensinamentos principais é este: o governo é que tem que ter medo do povo, e não o povo quem deve temer seu governo.

Ousar sair do rebanho dos conformados e dos obedientes, levantar a voz para dizer uma verdade intragável aos ouvidos dos poderosos, é sempre arriscado. É práxis que tem um preço, é uma ação que suscita reações às vezes intensas, até mesmo psicopáticas e homicidas. É por isso, como Foucault ensina através do exemplo histórico de Diógenes de Sínope, que a coragem da verdade (que os gregos chamavam de parresía) sempre comporta um certo risco.

O que é bastante óbvio: a virtude da coragem exige que o sujeito encare o obstáculo do risco, que vença a ressonância interna deste risco que se manifesta nos afetos do medo. Só é corajoso quem ousa ser verídico pois ele, ao manifestar-se, corre o risco de ter sua língua, ou mesmo seu pescoço, ou até mesmo sua cabeça, cortados. Olympe de Gouges foi guilhotinada por falar contra os jacobinos revolucionários, ousando defender direitos iguais para as mulheres e para as populações dos colonizados africanos sob a opressão do Império Francês…

Hoje, é de praxe que o discurso liberal politicamente correto, conexo à defesa da “democracia capitalista” modelo-ocidental, reclame pela liberdade de expressão como direito inalienável. Desde que fique dentro de certos limites, que não viole os direitos alheios – como, por exemplo, o direito do outro de não ser humilhado em sua dignidade por discursos ofensivos por seu teor racista, misógino ou elitista. De acordo, mas esta mesma atitude liberal “moderada” enche-se de melindres quando uma insurreição popular deixa vidraças de empresas estilhaçadas e caixas eletrônicos em chamas. Aí, aqueles que outrora falavam na sacralidade da liberdade de expressão, pedem pela criminalização e aprisionamento dos “vândalos” – que em seu protesto contra um sistema estruturalmente injusto teriam atentado contra os direitos sagrados das vidraças e dos prédios de bancos.

Em 2018, “o ano em que o Brasil flertou com o Apocalipse”, para emprestar a expressão de Mário Magalhães, tivemos duas tragédias conexas ao tema que estamos discutindo: o assassinato de Marielle Franco e o encarceramento de Luiz Inácio Lula da Silva. Até mesmo os adversários de Marielle e Lula, os que se situam à direita do espectro político, hão de convir que ambos marcam época por sua lábia ousada, ou seja, pelo que ousaram expressar. 

Marielle, criada na favela da Maré, mulher negra e lésbica, teria tudo, caso tivesse respeitado o estereótipo, para não ter “lugar de fala” em nenhum espaço de poder. Ascendeu como um meteoro como agente política, elegeu-se vereadora, envolveu-se por anos nas causas do PSOL, colaborou com Marcelo Freixo, escreveu uma tese de mestrado sobre as UPPs, deliciou-se com a literatura de Chimamanda, fez planos de casar-se com Mônica, e tudo isso fez com voz altissonante, cabeça altiva, postura rebelde, ethos de quem sabe a razão que tem e a relevância do que diz. E ousa dizer, doa a quem doer.

Luiz Inácio também representa o raro caso de uma vida ascensional, que estabelece no universo uma espécie de arco de empoderamento: ele poderia ter sido só mais um zé-ninguém, um anônimo retirante nordestino que, escapando das dificuldades conexas à seca e à miséria em Pernambuco, muda-se para o centrão industrial paulista para se tornar proletário, uma das carnes mais baratas do mercado. Lula poderia ter sido um dentre muitos operários que já perderam dedos, mãos, pés e outros membros por amputação nas linhas-de-montagem.

Lula poderia ter permanecido nas sombras e longe dos holofotes, mas ousou ir além, fez-se líder sindical e estrategista da greve que confrontou a Ditadura Militar no fim dos anos 1970. Ao invés de apegar-se aos comezinhos interesses pessoais, a um restrito projeto-de-vida conservador que tivesse a família e a religião como centros absolutos (atitude sempre potencialmente idiotizante), lançou-se na aventura da transformação social coletiva. Ajudou a fundar um partido político, candidatou-se a cargos públicos, consagrou-se presidente da república eleito e re-eleito, e fica difícil negar que tudo isso tem a ver com a parresía lulista. 

Não há coragem da verdade senão no exercício de tornar público aquilo que é fato, mas muitos recusam a tomar consciência: por exemplo, a farsa da “democracia racial” brasileira, que Marielle soube tão bem denunciar, de modo recorrente, frisando que há uma cor predominante para a pessoa que é violentada, que morre prematuramente nas mãos do aparato repressor do estado, que está preso em nosso superlotado sistema carcerário. O quanto há de racismo em nossa violência sistêmica que banaliza o genocídio da juventude periférica negra fica velado, semi-mascarado, por reações excessivamente sensacionalistas diante de violências específicas perpetradas por indivíduos.

Por isso é tão importante a distinção operada por Žižek entre a violência sistêmica e a violência individual. Quem oprime mais, o capitalismo neoliberal que abandona a população de Nova Orleans após o rompimento dos diques no pós-Furacão Katrina, ou as famílias que desesperadas e famintas cometeram naquela ocasião saques contra mercados e farmácias? Quem oprime mais, o sistema policial-carcerário que fez do Brasil um dos 3 líderes globais do encarceramento em massa, e com explícitas colorações racistas, ou o revoltado mascarado que vai às ruas com vontade de incendiar carros e quebrar vitrines de bancos?

“As pessoas dormem tranquilamente à noite porque existem homens brutos dispostos a praticar violência em seu nome”, dizia Orwell. E outro grande escritor, Mark Twain, segundo Slavoj Žižek em sua obra Violência, “contesta a afirmação de que a resposta violenta das multidões é pior do que a opressão que a instiga”:

“Havia dois Reinos de Terror, se quisermos lembrar e levar em conta: um forjado na paixão quente; o outro, no insensível sangue frio… Nossos arrepios são todos em função dos horrores do Terror menor, o Terror momentâneo, por assim dizer, ao passo que podemos nos perguntar o que é o horror da morte rápida por um machado em comparação à morte contínua, que nos acompanha durante toda a vida de fome, frio, ofensas, crueldades e corações partidos?

Um cemitério poderia conter os caixões preenchidos pelo breve Terror diante do qual todos fomos tão diligentemente ensinados a tremer e lamentar, mas a França inteira dificilmente poderia conter os caixões preenchidos pelo Terror real e mais antigo, aquele indizivelmente terrível e amargo, que nenhum de nós foi ensinado a reconhecer em sua vastidão e lamentar da forma que merece.” (TWAIN, M. “Um ianque na corte do rei Artur”, São Paulo: Rideel, 2011.)

* * * *

PARTE 2 – VAZA JATO E LULA LIVRE

Nos últimos anos, esta saga épica da Coragem da Verdade ganhou novos capítulos e celebridades – como é o caso de Edward Snowden e Julian Assante. Agora, tudo indica que a Operação #VazaJato está destinada a entrar para a História da comunicação social contemporânea, a ser estudada pelos midiólogos em conjunto com os fenômenos Wikileaks e Snowden. Através de sua bem-sucedida operação de vazamento das conversas secretas entre Sergio Moro e os procuradores do Ministério Público Federal, o The Intercept Brasil fez aquilo que espera-se do bom jornalismo: que ilumine a opinião pública com informação bem contextualizada e de interesse de todos, ousando dizer o que Bolsonaro e seus cupinchas não desejam que seja revelado.

Glenn Greenwald, jornalista estadunidense do The Intercept, casado com David Miranda (deputado federal pelo PSOL, que assumiu após o exílio de Jean Wyllys), tornou-se uma espécie de símbolo da Resistência ao ilegítimo e violento desgoverno Bolsonarista. Rapidamente, Glenn e David viraram alvos das milícias digitais e dos assassinos-de-reputação on line, com direito a ofensas homofóbicas e ameaças de morte.

Assim emergiu no “xadrez do Golpe”, para emprestar a metáfora do tabuleiro tão utilizada por Luis Nassif em suas análises, um elemento novo: Glenn Greenwald e sua equipe, como intermediários midiáticos entre a sociedade civil e as antes secretas “tenebrosas transações” que conduziram à condenação e à prisão, em ano eleitoral, de Lula. Não é pouco significativo, neste contexto, que Glenn tenha sido um dos primeiros jornalistas a entrevistar Lula na prisão, em um vídeo com mais de 900.000 acessos:

Sinais de que a cultura popular já acordou para a importância histórica das revelações estão surgindo. Hackeando o samba de Chico Buarque “Quem Te Viu, Quem Te Vê”, o Roni Valk mandou uma pedrada poético-satírica bem na cara do Moro: “Glenn Te Viu, Glenn Te Vê”. Ao parir a paródia, no processo acabou por explicitar uma fenômeno que despontou neste Junho de 2019, a farsa jurídica que costuma ser descrita como um caso típico de lawfare. Confiram a música na interpretação de Leo Almeida Filho:

“Você era a mais bonita das galhofas dessa farsa
Você era o queridinho e ele era seu comparsa
Hoje a gente toda fala da verdade que está nua
Suas noites são em claro porque tem mais falcatrua
Hoje a casa caiu – laiá laiá – já vazaram você
Glenn te viu, Glenn te vê
Quem te enaltece só pode crer na TV
Glenn é do Intercept e a culpa é do PT
Quando o Telegram rolava, você era o mais brilhante
O showzinho da defesa e que in Fux we trust
Pra Deltan deu tanta dica. Juiz Investigador
Pelo que vi tudo indica que mentira é o senhor
Hoje a casa caiu – pra Dallagnol – já vazaram você
Glenn te viu, Glenn te vê
Quem te enaltece só pode crer na TV
Glenn é do Intercept e a culpa é do PT
Hoje é só esperar mais lista com sua demagogia
Quero mais que você vaze com sua conje e companhia
E pra quem tá arrependido, por favor não dê na vista
Bate palmas com vontade, faz de conta que é esquerdista
Hoje a casa caiu – desmoronou – já vazaram você
Glenn te viu, Glenn te vê
Quem te enaltece só pode crer na TV
Glenn é do Intercept e a culpa é do PT…”
(Roni Valk)

Não estava nos planos dos golpistas que fosse nascer, logo no primeiro semestre do “novo” governo, vazamentos de tal monta que explicitam as vergonhas das entranhas da Lava Jato, transformada em instrumento de luta política, pontiaguda lança de lawfare que apunhalou a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva e, por tabela, feriu de morte a legitimidade das eleições presidenciais de 2018.

Vencedor do prêmio Pulitzer de jornalismo, Glenn Greenwald participou ativamente do “Caso Snowden” – o gigantesco leak de documentos secretos da NSA (National Security Agency) que explicitou o grau e a magnitude da espionagem global dos cidadãos comuns praticada à margem da lei pela “inteligência” de Tio Sam. E por aquela mesma CIA e aquele mesmo Pentágono tão especialistas em golpes de Estado e guerras imperiais de agressão fora das suas fronteiras.

Torna-se um pouco ridículo, e extremamente desleal, o ataque bolsonarista contra Glenn, que não é apenas um jornalista de comprovada competência, um premiado agente das mídias digitais, como também já marcou até mesmo o cinema contemporâneo. No filme de Oliver Stone, baseado em fatos reais, sobre Snowden, Glenn é um dos personagens principais, auxiliando o dissidente Eddie Snowden a publicar o material que tinha em mãos em órgãos como o The Guardian, de modo a fazer com que o apito deste whistleblower não pudesse ficar ignorado. Glenn também já esteve com um Oscar nas mãos, de Melhor documentário, por sua parceria na realização de Citizenfour (2014), de Laura Poitras.


Greenwald torna-se agora uma das vozes globais com maior responsabilidade de iluminar as consciências, lá fora, sobre o que se passa aqui dentro – o que pode inclusive ser determinante para a plausível premiação de Lula com o Nobel da Paz. A cada dia que passa, Lula aparece a uma quantidade maior de consciências bem-informadas em nossa Aldeia Global como a vítima de um mecanismo de lawfare que equivale a um crime político infligido contra sua cidadania.

Nos últimos dois meses, tivemos um significativo e massivo #TsunamiDaEducação, uma greve geral em 14 de Junho e agora o maremoto da Lava Jato: sinal de que a “Bolsonada” suscita ampla resistência e rebeldia. Com a #VazaJato bombando em Junho de 2019, o xadrez ganha novos elementos e a saga épica de nossa infindável luta de classes, em acelerado processo de uma polarização que se encaminha para a tragédia (afinal, a tragédia provem do entrechoque de forças irreconciliáveis, que possuem entre elas uma contradição ou conflito que não há remédio que sane).

Aqui n’A Casa de Vidro, onde não acreditemos no mito do jornalismo imparcial, não acreditamos tampouco num jornalismo que minta por interesse. Na medida do nosso possível, estamos na blogosfera e nas mídias sociais para tomar posição na trincheira ao lado daqueles que julgamos como os mais justos e os verídicos. E isto significa, hoje, imbuídos do ethos do “ninguém segura a mão de ninguém”, estar de mãos dadas com Marielle Franco, Jean Wyllys, Débora Diniz, Glenn Greenwald, David Miranda, Luiz Inácio Lula da Silva. Os que têm a ousadia da verdade e assim não permitem que o fluxo da História fique esclerosada na estagnação em que os conservadores desejam imobilizá-la.

TRANSMISSÃO – THE INTERCEPT INTERNACIONAL

RAFINHA BASTOS ENTREVISTA GLENN GREENWALD

DEMOCRACY NOW ENTREVISTA GREENWALD

CONHEÇA ALGUNS ESCRITOS DE GLENN GREENWALD:

GLENN: POR QUE MINHA AMIGA ERA UM POÇO DE ESPERANÇA E A VOZ DOS BRASILEIROS QUE NÃO TINHAM VOZ17 DE MARÇO DE 2018 

Enquanto milhares tomam as ruas do Brasil para protestar contra esse brutal assassinato, Glenn Greenwald lembra a vida e a amizade desta formidável e destemida defensora dos mais pobres.

Original, em inglês, em Independent.

Uma das mais promissoras, carismáticas e amadas figuras políticas brasileiras foi brutalmente assassinada na noite de quarta-feira no centro do Rio de Janeiro, em um crime que as autoridades concluem que foi uma execução política. A vereadora Marielle Franco, de 38 anos, foi assassinada quando seu carro foi atingido por atiradores com nove balas, quatro nas quais em seu crânio. Seu motorista, Anderson Pedro Gomes, de 39 anos, também foi morto.

Franco foi assassinada por volta das 9h30, depois de deixar um evento intitulado “Jovens Negras movendo estruturas”. A polícia acredita que ela foi monitorada por seus assassinos desde que ela deixou o prédio, afinal, apenas assim eles saberiam onde, exatamente, ela estaria sentada no carro, que possuía vidros escuros.

O assassinato de Marielle sacode o Brasil no momento em que o país atravessa um massivo escândalo político, um crise política sem fim visível, anos de recessão econômica e ainda uma espiral de violência epidêmica.

O ousado assassinado ocorreu nas ruas do Rio de Janeiro justamente um mês depois que o presidente brasileiro, Michel Temer, ordenou uma intervenção militar na cidade com o objetivo de estabilizar a segurança. Foi a primeira ação como essa depois dos 21 anos de ditadura, que se encerraram em 1985.

Marielle denunciava veementemente a intervenção militar e recentemente foi nomeada relatora de uma comissão que iria fiscalizar possíveis abusos desta medida.

No entanto, o que é mais notável – e mais devastador – sobre o assassinato de Marielle é como sua trajetória pública é única e improvável: uma mulher negra LGBT, em um país notoriamente dominado por racismo, machismo e conservadorismo religioso, que cresceu em uma das maiores, mais pobres e mais violentas favelas do Rio, o Complexo da Maré.

Ela se tornou uma mãe solteira aos 19 anos, mas, ainda assim, cursou a faculdade de sociologia e se tornou uma das mais efetivas ativistas pelos direitos humanos do Rio de Janeiro, liderando frequentemente perigosas campanhas contra a violência policial, corrupção e execuções extra-judiciais, que atingem os cariocas pobres, negros, moradores de lugares como aquele que ela cresceu.

Assim que ela aumentou sua incidência política, Marielle aderiu ao novo partido da esquerda brasileira, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), e, rapidamente, tornou-se uma de suas estrelas.

Em 2016, ela concorreu para um cargo público pela primeira vez como candidata a vereadora e foi eleita como uma votação expressiva. O resultado atordoou a classe política da cidade: pela primeira vez, uma mulher negra da Maré tornou-se a quinta candidata mais votada (eram mais de 1.500 candidatos, dos quais 51 foram eleitos).

O sucesso solidificou o status de Marielle não apenas como uma nova força política a ser reconhecida, mas também com um sopro de esperança para os brasileiros de grupos excluídos que, historicamente, não tiveram voz: os moradores de favelas, os pobres e as mulheres.

Assim que assumiu o cargo, Marielle, imediatamente, usou a sua estrutura para focar naquilo em que sempre foi seu trabalho: investigar, denunciar e organizar campanhas contra a violência policial que incide sobre os moradores negros e pobres.

Dias antes do seu assassinato, ela esteve em Acari, uma favela plana do Rio, para protestar contra os recentes assassinatos de um dos mais conhecidos, violentos e sem-lei batalhões de polícia. O que torna difícil determinar exatamente quem matou Marielle é, precisamente, sua bravura. Ela era uma ameaça para muitas facções violentas, corruptas e poderosas. Assim, a lista de suspeitos e de motivos da morte é longa.

O assassinato de Marielle é uma terrível perda para o Brasil e para o Rio, mas também devastou a minha família. Meu marido, David Miranda (conhecido por ter sido detido, abusivamente, pelas autoridades britânicas no Aeroporto de Heathrow em 2013) foi eleito como vereador do Rio no mesmo momento que Marielle foi, como parte do mesmo partido. As histórias dos dois eram extremamente similares: como Marielle, David cresceu em uma das mais violentas favelas da cidade e, apesar de se tornar órfão, foi o primeiro homem, assumidamente gay, a ser eleito como vereador.

Eles falavam frequentemente em agregar mais candidatos como eles para o PSOL, que, assim como muitos partidos no Ocidente, tem tido dificuldades de atravessar ricos e intelectuais enclaves da esquerda e chegar até às pessoas pobres, aos trabalhadores, às minorias que reclamam para falarem e serem ouvidas. Isso se deve, em parte, porque muito poucos representantes vêm destes lugares pobres.

Os assentos de Marielle e David no plenário da Câmara eram um do lado do outro, e eles se tornaram não apenas camaradas, trabalhando nos mesmo projetos, mas melhores amigos. Assim como ela fez por muitas pessoas de todo o Rio, Marielle tornou-se uma inspiração essencial para nossos filhos, recém adotados. Ela foi uma poderosa professora para mostrar que, mesmo em um país com racismo, desigualdade econômica, preconceitos de todo o tipo que persistem como uma força tóxica, todos os muros injustos podem ser quebrados.

Qualquer um que conhecia Marielle sabia, logo na primeira vez, que falava com alguém realmente especial, uma certeza que se reforçava a cada vez que você passasse algum tempo ao seu lado.

Nesta semana, não apenas o Rio de Janeiro, mas, praticamente, cada cidade do Brasil, centenas de milhares de pessoas se reuniram no luto da perda de um símbolo de esperança tão virtuoso. Mas essas pessoas ainda registraram seu desgosto e raiva pelos reais culpados de sua morte: a elite, política e econômica, do Brasil que engoliu a si mesmo em corrupção, frutos apodrecidos da desigualdade maciça. Enquanto isso, o resto da população é obrigada a se defender em um clima de violência, ilegalidade desenfreada, abuso policial e pobreza destruidora da alma.

Mais trágico do que tudo é que Marielle era exatamente o que o Brasil, repleto de carências, mais precisa: pessoas que entendam a tragédia da maioria dos brasileiros e que estejam empenhados em melhorá-la, não explorá-la. Marielle vive em sua parceira Mônica; em sua filha Luyara Santos, de 19 anos, que escreveu ontem: “Eles mataram não apenas minha mãe, mas também seus 46 mil votos; Marielle vive em sua mãe e também em seus familiares.

Marielle vive em um país e em uma cidade que a amavam, que agora lutam para entender como isso pôde acontecer. Além do mais, o país é desafiado a encontrar uma maneira de garantir que essa morte não se torne outro episódio que reforça uma antiga realidade onde facções violentas matam qualquer um em impunidade. O desafio é para garantir, finalmente, que a morte de Marielle não foi em vão e que ela servirá para forçar milhares e dezenas de milhares de novas Marielles, inspiradas em seu potente exemplo pessoal.

Glenn Greenwald

SAIBA MAIS:

Greve Geral mobiliza milhões de trabalhadores contra Reforma da Previdência e cortes na Educação – Veja o documentário “Tsunami da Balbúrdia #3″#14J

NINJA – Educação sucateada, aposentadoria em risco, meio ambiente ameaçado, cultura do ódio, mais de 13 milhões de desempregados, escândalos de corrupção, despreparo e vergonha internacional, é por esse motivo que o Brasil parou na #grevegeral do último 14J. O governo Bolsonaro não representa o Brasil. Confira a galeria de fotos da Mídia Ninja e parceiroshttp://bit.ly/2Xii4v1.

A Casa de Vidro lança novo documentário: “É Greve porque é Grave!”, 3ª parte da série documental “Tsunami na Balbúrdia”

Foram três fortes Tsunamis de Cidadania que, nestes últimos tempos, insuflaram ânimo a todos aqueles engajados na construção coletiva de um menos injusto e opressivo. O primeiro tsunami, em 15 de Maio, levantou altas ondas de indignação contra os 5 bilhões e 700 milhões de reais cortados da Rede Ferderal Educação, como anunciado pelo ministro Weintraub (MEC) em já antológica transmissão em que tentou acalmar o furacão a base de chocolatinhos e de percentagens enganosas.

Após tesourarem 30% das verbas discricionárias do Ministério da Educação, o Ministro e seu patrão Bozo tentaram nos convencer a ficarmos apáticos, de bunda sentada no sofá, babando diante de Globos, Ratinhos e outras ratazanas – dizendo que só protestariam os “idiotas úteis” alimentados pelos petralhas com mortadela. Mas fracassou a conclamação dos brucutus a que fôssemos obedientes e bom-comportados, aceitando bovinamente a brutal subtração de nosso direito coletivo à educação pública de qualidade. Fomos às ruas, num levante histórico, demandando: “Tira a Mão do meu IF!”, bradando: “Quero estudar pra ser inteligente / Porque de burro já basta o presidente!”, dentre outras erupções de rebeldia coordenada.

Em 30 de Maio o #TsunamiDaEducação voltou às ruas de mais de 200 cidades pelo Brasil, num segundo tsunami de democracia de alta intensidade, reforçando a mensagem contra o Governo de Bolsonaro: “Nenhum Direito a Menos!” Através do #15M e do #30M, o movimento estudantil, somado à mobilização de professores e servidores técnico-administrativos, mostraram-se capazes de levantar-se na hora certa, em resistência contra o Desmonte dos Bens Públicos, marcando época nestas memoráveis Jornadas de Maio de 2019.

E assim, com este Maio caliente ainda em nossos retrovisores, foi que nos encaminhamos para o 14 de Junho, quando um mar de gente voltou a fluir pelas ruas e praças do Brasil em novas Aulas de Cidadania Ativa: era a Greve Geral contra a Reforma da Previdência e contra os cortes de investimento na Educação.

Foram manifestações em que não faltaram também críticas ao atual Ministro da Justiça, o Sr. Sergio DesMoronando: “o juiz era o bandido”, lia-se em um cartaz; “de herói a vilão”, proclamava outro cartaz que trazia estampadas as Duas Caras do malvadão de “Batman – Cavaleiro das Trevas”). Camisetas e faixas reiteravam a demanda por Lula Livre, com a exigência articulada coletivamente por “justiça de verdade” para o ex-presidente Lula, preso político ainda encarcerado em uma solitária da PF em Curitiba, apesar das acachapantes evidências de que foi vítima de um Tribunal de Exceção.


 
Confira o álbum dos atos pelo Brasil: https://bit.ly/31Bfb7J.

Neste documentário produzido por A Casa de Vidro, acompanhe um pouco dos agitos que animaram o protesto nas ruas de Goiânia neste 14 de Junho. Vibre junto com os discursos de mulheres empoderadas que falam à rua (e ao filme): como Danny Cruz, da UJS – União da Juventude Socialista, além de presidenta da UEE GO, e Kátia Maria, que em 2018 foi a candidata ao Governo de Goiás pelo PT – Partido dos Trabalhadores. Flagre também um pouco da participação do Pedro Wilson, ex-prefeito de Goiânia, além de performances artísticas e batuqueiras por parte dos criativos cidadãos ativos que desfilaram pela urbe suas salutares rebeldias.

O curta-metragem é a 3ª parte da Trilogia Documental TSUNAMI DA BALBÚRDIA. Dê o play, aumente o volume, e boa viagem!

 

ASSISTA TAMBÉM:

  • TSUNAMI DA BALBÚRDIA #2: Somos Gotas Nesse Mar de Revolta: https://wp.me/pNVMz-5mx
  • TSUNAMI DA BALBÚRDIA #1: Documentário sobre a mobilização em defesa da Educação pública em 15 de Maio de 2019: https://wp.me/pNVMz-5kq.

DESMORONOU: Mito de pés de barro, o juiz-golpista Sérgio Moro vai desmoronando no descrédito junto com a legitimidade das eleições de 2018

“Em tempos de enganação universal,
dizer a verdade torna-se um ato revolucionário.”

George Orwell

Não conheço nenhum precedente histórico para o que se passou no Brasil em 2018: quando se aproximava a Eleição presidencial, a primeira desde a derrubada de Dilma Rousseff em 2016 através do golpeachment das “pedaladas”, toda uma maquinaria jurídica, política e midiática se colocou em movimento para aprisionar Luiz Inácio Lula da Silva, que estava disparado na liderança das pesquisas de intenção de voto. Em que país, em que época, já se ouviu falar de algo semelhante?

Ao encarcerar o candidato que venceria o pleito, os estupradores da Democracia pavimentaram o caminho para a ascensão do desgoverno neofascista do Exterminador do Futuro, Jair Messias Bolsonero, idolatrador do torturador-em-chefe Ustra, amicíssimo de milícias, obcecado com armas e falos, que em 30 anos como político profissional não fez nenhum bem a ninguém a não ser ao enriquecimento de seu próprio clã.

O que se viu com o cárcere de Lula está destinado a tornar-se um dos paradigmas globais que ilustra o conceito de lawfare, ou seja, a guerra jurídica que na atualidade tem servido como substituta da estratégia do golpe militar no cardápio de violências das elites contra aqueles que elas consideram como adversários ou inimigos de seus interesses. Como escrevem Carol Proner e Juliana Neuenschwander:

“Os processos contra Lula sempre foram os mais violentos e midiáticos, sendo em tudo excepcionais: nos tempos urgentes do processo, na prisão antecipada e nas negativas aos direitos políticos e civis, desrespeitando até mesmo decisão obrigatória das Nações Unidas. Centenas de juristas democráticos criticaram duramente a sentença do juiz Moro que condenou Lula à prisão, pela ausência de provas e justa fundamentação.”

Apelando pra uma metáfora futebolística, seria como formular uma tática para a vitória que consistisse em tirar do jogo o craque do time adversário, mesmo que fosse quebrando sua perna com um “carrinho” violento, ou então apelando antes do jogo para uma propina ao juiz da partida para que expulsasse de campo o craque com um cartão vermelho, ainda que injusto.

Com as revelações recentes divulgadas pelo site The Intercept Brasil, há toneladas de evidências de que Lula foi vítima de um golpe em que um pseudo-juiz, envolvido numa teia de “delinquência múltipla” (como escreveu Jânio de Freitas na Folha de São Paulo), arrombou todos os princípios mais básicos do Direito e da Constituição Federal, a começar pela imparcialidade, tendo agido como “conje” e comparsa dos promotores que acusavam o ex-presidente.

Trata-se do “maior escândalo do Judiciário brasileiro”, segundo o professor Pedro Serrano da PUC-SP: “É chocante tudo que foi feito, não dá para minimizar o fato. Houve um tipo de relação entre juiz e procuradores absolutamente antiética e fora de qualquer padrão de legalidade. As conversas “mostram a adoção de atitudes judiciais ou pretensão de adotá-las com finalidade politica, para interferir em eleição inclusive, o que é gravíssimo. O processo contra Lula demonstra absoluta nulidade. Se for mantido, o Judiciário brasileiro demonstra ausência de cumprimento mínimo da Constituição e normas básicas de civilização. Temos provado documentalmente a parcialidade de Moro e que os procuradores agiram politicamente.”

Luis Felipe Miguel, professor da UnB – Universidade de Brasília, aponta:

“As fragilidades da sentença de Sérgio Moro já eram conhecidas, mas agora ruiu de vez qualquer possibilidade de sustentar a condenação de Lula. A anulação do julgamento é uma questão básica de justiça. Mas significa enfrentar um veto da classe dominante, verbalizado mais de uma vez pela alta hierarquia do Exército.

Outrossim, como diriam os hackers, a revisão da condenação de Lula abre outro tema espinhoso: a ilegitimidade das eleições de 2018. Os diálogos já publicados comprovam que a Lava Jato se guiou pelo objetivo de impedir a candidatura do ex-presidente e a vitória de qualquer candidato do centro para a esquerda do espectro político. O mesmo imperativo de justiça que exige a imediata libertação de Lula exige a anulação do pleito e a convocação de novas eleições.

Não é um enfrentamento fácil. Mas não cabe ao campo popular se contentar de antemão com soluções de compromisso.

A bandeira “Lula livre” sintetiza o compromisso com o Estado de direito, com a vigência das garantias e das liberdades.

E a bandeira “novas eleições já” sintetiza a defesa da democracia.”

A ação do The Intercept Brasil através da Operação #VazaJato expressa uma daquelas raras ocasiões em que o Jornalismo-de-Verdade se transforma em força histórica, em que o cenário midiático instituído é posto fora de órbita por um vazamento-terremoto que não difere muito de uma irrupção imprevista de verdades inconvenientes, mas relevantes. É claro que muitos obscurantistas vão se recusar a enxergar esta luz excessiva que foi lançada sobre a podridão reinante, mas isto em nada aniquila o valor do agente iluminante.

Devastar as máscaras não é agradável aos mascarados, mas não é a estes que o jornalismo serve, mas sim ao público, que merece ser informado sobre quão podres e torpes foram os agentes públicos no exercício de suas funções. É claro que muitos canalhas vão continuar comemorando o golpe baixo e sujo na candidatura Lula, que mandou pro beleléu a lisura das eleições do ano passado, à semelhança dos que comemoram um campeonato de futebol mesmo que o time tenha vencido com gol de mão e com pseudo-pênalti marcado por um juiz-ladrão.

Mas que os canalhas continuem gozando perversamente com seu triunfo injusto não tira um átimo do valor humano destes que ousam dizer a Verdade ao poder, assumindo todos os riscos e reativando aquela parresía grega que inspira um dos mais belos livros da filosofia no séc. XX: “A Coragem da Verdade” de Michel Foucault.

Que Greenwald e sua trupe sejam recebidos na História em companhia da turma de Diógenes de Sínope, que possam ser reconhecidos como manifestação contemporânea da parresia, mais importante do que nunca por se manifestar em plena hora da “Pós-Verdade”, aparecendo para dizer que “não!”, “ainda não aceitamos nem acatamos que se decretem obsoletos os conceitos de Verdade e de Justiça!”

Vencedor de um Prêmio Pulitzer, Glenn Greenwald é um dos pivôs de um caso que já marcou época: a divulgação, por Edward Snowden, das ações da NSA (National Security Agency), através de um vazamento que expôs as entranhas da maquinaria de espionagem yankee. O caso já foi adaptado para o cinema no documentário Citizenfour, vencedor do Oscar da categoria, e na ficção baseada em fatos reais Snowden, de Oliver Stone. Em ambos, Greenwald é uma figura chave no processo de trazer à luz aquilo que os poderosos gostariam de manter afundado nas trevas.

Talvez não seja exagero dizer que o caso #VazaJato está destinado a entrar para a História como um exemplo paradigmático dos efeitos sociais dos leaks que revelam os “podres do poder”, como fez o preso político Julian Assange através do Wikileaks. Na era do jornalismo digitalizado, um site como o The Intercept foi capaz de causar um terremoto na imprensa escrita, impondo uma pauta – o Juiz está nu! – que não estava nos planos dos grandes jornais e revistas corporativos.

O impactante leak fez com que ilustres membros do P.I.G. (Partido da Imprensa Golpista), que nos últimos anos foram os maiores puxa-sacos de Moro, que construíram sua imagem enganadora de super-herói e de paladino da moral e da luta contra a corrupção, desembarcassem do navio que agora naufraga no mar de dados constrangedores revelados pela Operação#VazaJato.

Diante do oceano de evidências de que Moro violou a lei e participou de uma fraudulenta conspiração com o intento de condenar Lula, até a VEJA, um dos entes mais sórdidos da imprensa burguesa do Brasil, uma empresa de comunicação que sempre desrespeitou a imparcialidade em prol de seus patrões e patrocinadores, que já cometeu crime eleitoral às vésperas de muitas eleições disseminando fake news, que insuflou o antipetismo irracional nas massas suficientemente crédulas para engolir suas lorotas, que serviu de palanque pro Tucanato e pro Empresariado golpista da Fiesp, que por anos contaminou seus leitores com seu podre marketing liberal travestido de jornalismo, até a encarnação suprema do P.I.G. que é a Veja publica agora uma capa em que abandona o ex-juiz, descrito na capa como uma estátua DESMORONANDO. Veja escreve:

“Os diálogos são inequívocos: mostram o estabelecimento de uma relação de coope­ração incompatível com a imparcialidade exigida por lei de qualquer juiz. A dobradinha teria beneficiado os acusadores em detrimento dos acusados, desequilibrando a balança da Justiça e desrespeitando a equidistância entre juízes e as partes do processo. Para garantir a chamada paridade de armas entre defesa e acusação, o Código de Processo Penal (CPP) proíbe que julgadores e procuradores trabalhem juntos em busca de um resultado comum. A lei estabelece que o magistrado deve sempre declarar-se suspeito para julgar um caso quando, por exemplo, “tiver aconselhado qualquer das partes”. Numa das mensagens divulgadas, o então juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba relatou a Dallagnol ter recebido de “fonte séria” a dica de que uma testemunha teria informações sobre transferências de propriedade de um dos filhos de Lula. Em seguida, Moro orientou o procurador a ouvir a pessoa, que, contudo, não aceitou colaborar.

Dallagnol mencionou, então, a possibilidade de forjar uma denúncia anônima para que a testemunha fosse intimada a prestar esclarecimentos. Não se sabe, pelo material divulgado, se isso foi feito, mas é inescapável a conclusão de que Moro se empenhou, fora dos autos, para colher evidências contra Lula. Nesse momento, ele cruzou a fronteira da legalidade. “Muito embora se saiba que juízes, promotores e advogados conversem entre si, isso precisa ser feito sempre de maneira clara e obje­tiva, evitando qualquer tipo de viés ou direcionamento”, diz o desembargador aposentado José Roberto Neves Amorim, membro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) entre 2011 e 2013. Cabe destacar que procurador e juiz não utilizaram seus e-mails funcionais nesses diálogos. Eles usaram um meio de comunicação privado, o Telegram, para combinar uma linha de atuação. Nos Estados Unidos, a então secretária de Estado Hillary Clinton reconheceu o seu erro quando utilizou um e-mail pessoal para tratar de assuntos de Estado. Uma investigação do FBI chegou a ser aberta contra ela. Por aqui, o ministro tentou minimizar o conteúdo das conversas. A questão é que várias das mensagens são muito embaraçosas. Numa delas, Dallagnol comentou que faria alguns pedidos a Moro, mas tudo bem ele indeferi-­los, porque mandou apenas “por estratégia”. Na resposta, Moro adiantou sua decisão dizendo que iria mesmo desconsiderá-los. Na opinião de juristas ouvidos por VEJA, a cooperação de Moro e Dallagnol para encontrar uma testemunha desfavorável a Lula pode configurar crime de fraude processual.”

Fonte >>> https://veja.abril.com.br/politica/a-desconstrucao-do-heroi/

Agora que desMoronou de vez a fraude por trás da condenação injusta do ex-presidente Lula da Silva, temos provas de sobra pra sustentar nossas convicções: com a publicação, das explosivas gravações apelidadas de #VazaJato (acesse:https://bit.ly/2QWCKTA), o Juiz está nu, assim como seu atual patrão, aquele que o consagrou como Ministro da Justiça e pregou que Lula deveria “apodrecer na prisão”.

Ao invés de agir como um juiz imparcial e equânime, revela-se agora com fartas evidências que o Sr. Moro, nos bastidores deste processo kafkiano, atuava praticamente como o “conje” da acusação e seu papel era muito mais o de inquisidor, uma espécie de Torquemada de toga (https://bit.ly/2MyldT5).

Apelidado pelo Jota Camelo de “Mussolini de Maringá”, o Sr. Moro violou regras elementares do seu ofício que são conhecidas até por alunos do primeiro semestre de qualquer curso mequetrefe de formação em Direito. Torna-se difícil refutar, a não ser apelando para o irracionalismo antipetista sectário típico dos Bozominions acéfalos, que Lula é um preso político que está sendo vítima de perseguição política e que está injustamente encarcerado numa solitária na PF de Curitiba como parte de um conluio das elites para evitar a 5ª vitória consecutiva do PT nas eleições presidenciais.

Revelou-se recentemente que vários dos advogados de Lula foram ilegalmente grampeados e Moro, em conluio com a grande mídia burguesa (o P.I.G. – Partido da Imprensa Golpista), fazia vazamentos de conversas gravadas para botar lenha na fogueira da criminalização construída pelo antipetismo irracional em sua Cruzada Por um Brasil Medieval. Como fez Moro quando atuou para impedir que Lula assumisse o cargo de Ministro da Casa Civil para o qual havia sido nomeado pela presidente Dilma Rousseff. Quem com grampo fere, com grampo será ferido!

Isso só explicita ainda mais que o governo do excrementíssimo Jair BolsoNero, o Micto, aquele que é incapaz de construir qualquer coisa que beneficie o povo brasileiro e que por enquanto só destruiu e incendiou o país, é totalmente ilegítimo. Além de ter sido um dos deputados federais que participou ativamente da aliança golpista que derrubou a presidenta eleita (discursando em prol de Cunha, Caxias e Ustra naquele seu pavoroso discurso de 17 de Abril de 2016), o golpeador impune Bozonazi foi o beneficiário das ilegalidades e crimes do conluio Moro-Dallagnol-P.I.G., além de ter violado de modo recorrente os parâmetros mais básicos de Justiça Eleitoral através da compra com caixa 2 de pacotes de disparo de fake news em mídias sociais.

 

Por isso julgamos que o processo eleitoral de 2018, o primeiro após o golpe de Estado parlamentar-jurídico-midiático de 2016, esteve corroído até o osso em sua legitimidade pela exclusão ilegal e criminosa, via lawfare, do candidato que liderava com sobra as pesquisas de intenção de voto. Caso ainda existisse neste país a ação institucional garantidora do Estado Democrático de Direito, o resultado das eleições deveria ser declarado nulo e um novo pleito deveria ser convocado, com Lula candidato e Bolsonaro impedido de concorrer pois já provou sua completa incapacidade de respeitar as regras básicas do “fair play” democrático.

Um dos maiores líderes políticos da América Latina contemporânea, Lula teve toda sua vida revirada, esquadrinhada e investigada até as vísceras, sem nenhum indício crível de que tenha cometido qualquer desvio de conduta ou crime de responsabilidade no decurso de sua vida pública. Desesperados, os Inquisidores resolveram que era preciso condená-lo por algo, e assim extorquiram uma delação premiada em que constrói-se a fábula de que as reformas em um apê no Guarujá – que Lula nunca comprou! – teriam sido uma propina oferecida para que Lula depois beneficiasse a construtora em futuros contratos com a Petrobrás.

Lula foi condenado por “atos indeterminados” conexos a um imóvel que nunca foi dele, criminalizado pela absurda noção de um hipotético favorecimento futuro que um dia porventura ele faria em prol de uma empresa de construção civil cujo empresário-chefe, aprisionado, fez delação premiada interesseira e pouquíssimo crível. Eis a “farsa montada”.
É bizarro, Brasil, que Lula esteja preso sem crime, enquanto está no poder uma família criminosa que faz maracutaias de enriquecimento ilícito com imóveis há tempos, e que é conhecida por múltiplas artimanhas com as milícias: na verdade é o clã Bolsonaro o verdadeiro epicentro da criminalidade impune que corrói a nação e de quem os Coxinhas e Bozominions, pretensos lutadores da batalha épica contra-a-corrupção, lambem as botas.

Em resumo: o ex-juiz Moro agia em explícita violação dos mais basilares preceitos de sua posição, que exige o máximo de imparcialidade no trato com os réus, e colaborou ativamente com os acusadores com o intento de perseguir politicamente a maior liderança do Partido dos Trabalhadores e impedi-lo, através de um golpe do Direito (que também foi um golpe da Direita), de participar das Eleições que Lula venceria.

Ao auxiliar o ascenso ao poder da extrema-direita, Moro foi recompensado com um cargo no Ministério da Justiça e por enquanto só passou pano e fingiu-se de cego para o Caso Queiroz e para as conexões dos Bolsonaros com as milícias que assassinaram Marielle Franco. Aquele power point de Dallagnol já tornou-se assunto infindável para o sarcasmo dos comediantes e evidência clara da incompetência e desonestidade destes excrementíssimos senhores que lançaram a nossa Democracia no esgoto e aprisionaram o presidente da República melhor avaliado de nossa história – sem provas, mas com muitas convicções, como já vimos em outras Inquisições.

No Brasil de BolsoNero, a democracia estaria toda reduzida a cinzas e escombros se não fosse pela vigilância ativa e pela ação conjunta do Tsunami de Resistência que agora se ergue, nestas históricas jornadas de Maio e Junho de 2019, em contestação contra a Elite da Devastação.

 

Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro – 17 de Junho de 2019

EXPLORE MAIS:

TSUNAMI DA BALBÚRDIA #2: Somos Gotas Nesse Mar de Revolta || Documentário A Casa de Vidro

A Casa de Vidro lança a segunda parte do documentário “Tsunami da Balbúrdia”, retrato histórico a quente das manifestações em defesa da rede federal de educação (#30M)

“A praça é do povo
Como o céu é do condor.”
Castro Alves (1847 – 1871)

Um coro de vozes, incontáveis e altissonantes, levantou-se para espalhar pelas cidades os cantos e batuques da emancipação: era 30 de Maio de 2019 e éramos um segundo Tsunami de Gente, dando continuidade aos atos grandiosos do #15M que levaram mais de 2 milhões de cidadãos às ruas de mais de 200 cidades.

Mais uma vez, no #30M, as aulas foram nas ruas. Nestas aulas de cidadania coletiva, nestas multitudinárias manifestações, as bandeiras eram muitas e o colorido humano terrestre superava em muito as cores do arco-íris celeste (como ensina Eduardo Galeano).

Queríamos “mais livros e menos armas”, “+ Freire – Guedes”, “Liberdade para Lula“, “Fora Bolsonaro”. Com entusiasmo e coesão, os “blocos” da luta carnavalizada fluíram pelas praças e avenidas, gritando palavras-de-ordem rimadas e ritmadas, feitas para chacoalhar toda a apatia dos fatalistas e todo o conformismo dos privilegiados. Entre os refrões, ressoavam:

– Trabalhador, preste atenção: a nossa luta é pela educação!
– Trabalhador, preste atenção: o Bolsonaro só governa pra patrão!
– Não é mole não! Tem dinheiro pra milícia, mas não tem pra educação!
– A nossa luta é todo dia, educação não é mercadoria!

Fotos acima: Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo no #30M

No documentário curta-metragem Tsunami da Balbúrdia, parte 2, tentamos captar um pouco destas efervescências cívicas que nos transformaram em gotas nesse mar de revolta. Pois, como Albert Camus ensinava, é na superação do individualismo típico do sujeito egoísta, fissurado em correr atrás de seu interesse privado, que podemos nos alçar para longe do pântano da absurdidade do mundo, rumo à esfera superior da revolta que nos solidariza: “eu me revolto, logo somos” (do livro L’Homme Revolté / O Homem Revoltado). 

TSUNAMI DA BALBÚRDIA #2
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Um filme de Eduardo Carli de Moraes (câmera, montagem e direção), com apoio de Lays Vieira (câmera) e participação de Aymê VirgíniaKleuber GarcezBeatriz DurãesLucas CardosoHenrique SouzaLey SilvaNicolle PiresAndreoly N. MonçãoDanny Cruz. Com fotografias de Hugo Brandão, Marianna Cartaxo, José Almeida, dentre outros. Trilha sonora com canções de: Flaira Ferro, Francisco El Hombre, Adriel Vinícius e Ceumar.

A vida só se renova com revolta contra as injustiças e as opressões que nos imobilizam. Quando animada por um espírito de solidariedade, a revolta é a força material que impele um princípio ético em sua tentativa de devir carne. Na Praça Universitária, enquanto os estudantes da EMAC (Escola de Música e Artes Cênicas) / UFG faziam a sua performance subversiva, vivi na pele aquela verdade dos existencialistas mais lúcidos e que ganhou sua mais bela expressão em Paulo Freire: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão.” (Pedagogia do Oprimido, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.)

A “Tropa de Choque” da Educação, empunhando escudos de papelão transformados em reproduções de capas de livros, vai na vanguarda da marcha, levando seus estandartes que sinalizam a vontade e o ímpeto de defender a cultura, a inteligência, a criatividade, nas figuras de George Orwell, Hilda Hilst, Michel Foucault, Cabral de Melo Neto, Mário de Andrade, Angela Davis, Paulo Freire, Augusto Boal, Cervantes, dentre outros.

Protestando também com muita arte, a galera da Faculdade de Artes Visuais deu expressão à palavra tsunami com uma grande onda que conectava os indivíduos ali presentes numa espécie de centopéia. O super-organismo da cidadania organizada e insurgente cantava canções irreverentes e ousadas como aquele adorável “ô Bolsonado, seu fascistinha, os estudantes vão botar você na linha!”

Em marchas repletas de beleza, em que ética e estética davam as mãos para fazer da cultura em movimento uma força de transformação social, estávamos unidos na diversidade. Questionávamos Weintraub, o Bobo dos Cortes, indignados com a tentativa de desmonte da rede federação de educação que está em curso. Assim como em Junho de 2013, não eram só 20 centavos, desta vez também podemos dizer: não são 3 chocolatinhos e meio.

Estar nas ruas fervilhantes de gente desperta e valente foi um bálsamo para as energias. É que nestes tempos de hegemonia da idiocracia neofascista e sua necropolítica, o pessimismo imobilizador poderia muito bem ter tomado conta, feito uma epidemia, matando no nascedouro qualquer capacidade de mobilização e resistência. Não foi o que aconteceu. Os Tsunamis da Educação foram gigantescos sopros de vida de um povo guerreiro e que não aceita o jugo do opressor, com protagonismo de uma “juventude que sonha sem pudor”, como canta a linda Flaira Ferro inspirada pelo tsunami recifense:

“na calada da noite
os estudantes fazem o futuro amanhecer
quem aprendeu a ler e escrever
sabe bem que analfabeto
jamais voltará a ser

mesmo que o destino
reserve um presidente adoecido
e sem amor
a juventude sonha sem pudor
flor da idade, muito hormônio
não se curva a opressor

pode apostar
a rebeldia do aluno é santa
não senta na apatia da injustiça
agita, inferniza e a rua avança
escola não tem medo de polícia

pode apostar
balbúrdia de aluno é o que educa
ensina ao governante que caduca
retroceder não é uma opção
respeito é pra quem dá educação.”

Aos historiadores do futuro que quiserem saber quais as causas da revolta destas gotas cidadãs que se uniram neste tsunami de gente, deixamos algumas pistas. Não se trata apenas de protestar contra os cortes nos investimentos públicos na rede federal de educação, mas de protestar um contexto mais amplo em que a educação já vive um “clima de Ditadura”, como argumentou Juan Arias em El País.

Através da idiocracia de extrema-direita encabeçada por Bolsonaro, Guedes, Damares, Moro etc., o que está em ascensão é uma Cruzada Obscurantista, uma lunática campanha para livrar o Brasil das várias faces de Satanás: na mente desses dementes, Satã é representado na face da Terra por Paulo Freire, Gramsci, o Marxismo Cultural, mas sobretudo o lulismo e o petismo. Gente de Deus? Damares, Edir Macedo, MC Reaça, Malafaia, Ustra… Há quem até mesmo diagnostique na loucura da “mitologização” de Jair Messias Bolsonaro um sintoma do cristofascismo à brasileira.

Estes fanáticos – tanto do Livre Mercado quanto de um Deus conexo à Teologia da Prosperidade – agora atacam numa espécie de Cruzada Anti-Iluminista, numa Aliança Terraplanista em prol do retorno da Inquisição, do fortalecimento da Klu Klux Klan, de “programas sociais” como o Arma Para Todos, o Escola Para Poucos e o Menos Médicos (especialidades Bolsonaristas).

A intentona de criminalização do pensamento crítico e dos docentes que facilitam o avanço da pedagogia crítica está a todo vapor, sendo que filósofos e sociólogos “esquerdistas” e “marxistas” são pintados como chifrudos comedores de criancinhas, “uma paranoia ideológica que enxerga ‘esquerdismo’ e ‘comunismo’ em tudo que cheire à defesa dos interesses populares pelo Estado, flertando com o fascismo e com o ‘darwinismo social’.” (FREITAS: 2018, p. 28)

Temos “movimentos destinados a cercear a liberdade docente como o Escola Sem Partido que, como bem destaca o prof. Luiz Carlos de Freitas, é financiado e apoiado por interesses empresariais e privatistas. Imensas maquinarias de desinformação e idiotização são postas em marcha – por exemplo pelo MBL, turbinado com os dollars dos Kocj Brothers – fortalecendo a viralização das fake news, do discurso de ódio e da noção de uma da “pós-verdade”.

Esse caos todo é destravado pela ação de uma “nova direita” repleta de “velhas ideias”, uma direita que fede a velharia por ser composta sobretudo por homens, brancos, ricos, pseudo-religiosos, ambiciosos e gananciosos até a patologia, e que idólatras de Mammon querem só saber da mercantilização de tudo. Quem tenta nos dominar hoje é uma Direita que une o neoliberalismo na economia e o conservadorismo tacanho na moral (ou “costumes”).

No âmbito educacional, além de desejar sucatear e precarizar as escolas públicas, para depois tentar justificar perante a sociedade a necessidade de privatização ou terceirização, esta Direita tende a idolatrar o Mercado com uma devoção cega com que também parece cair no abismo de idolatrias ainda mais estúpidas e nefastas. Para esses debilóides, Bolsonaro não é um calhorda apologista da tortura e da Guerra Civil, mas um “Mito” e um “Cidadão de Bem”, assim como MC Reaça é um “grande artista”, Olavo nosso “maior pensador” e Edir Macedo ou Silas Malafaia os próprios enviados do Senhor para conduzir-nos à salvação (desde que possamos pagar por ela).

Como escreve Freitas, em seu texto “Um Outro Horizonte Possível”, não podemos e não devemos nos submeter docilmente à lógica privatista e à tentativa de redução da escola ao modelo empresarial:

“A privatização da escola introduz formas de gestão empresariais e verticalizadas, ensina nossos jovens a praticar o individualismo e a competição, reforçando na sociedade formas de organização limitadas e injustas – sem falar da ampliação de processos culturais relativos à violência cultural e ao não reconhecimento das diferenças raciais e de gênero.

Por tudo isso, tal perspectiva é incompatível com a qualidade social que se espera de uma educação voltada para formar lutadores e construtores de uma sociedade mais justa, sob as bases da participação na vida coletiva – na escola e na sociedade – em estreita relação com sua comunidade, da qual a escola faz parte. A competição não é, nem do ponto de vista da convivência social, nem do ponto de vista educacional, um modelo que induza uma humanização crescente das relações sociais em uma ambiência democrática.

Se estamos compromissados com a democracia, todos os espaços da escola devem permitir a vivência da democracia; devem chamar os alunos para a participação em seu coletivo, permitindo o desenvolvimento de sua auto-organização e seu envolvimento com a construção coletiva, com espírito crítico. O conhecimento que se adquire nos processos escolares deve um instrumento de luta voltado para esses objetivos…

A escola pública, no presente momento histórico, é a única instituição educativa vocacionada a acolher a todos de forma democrática. As dificuldades que ela tem para cumprir essa tarefa devem nos mobilizar para uma luta que a leve a cumprir essa intenção com qualidade e não, pelo oposto, nos leve a apostar em sua destruição.”

LUIZ CARLOS FREITASA Reforma Empresarial da Educação – Nova Direita, Velhas Ideias. São Paulo: Expressão Popular, 2018. Pg. 128.

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TSUNAMI DA BALBÚRDIA – #15M

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