A ODISSÉIA DUM PEIXE DANÇARINO PRA FUGIR DE UM AQUÁRIO-PRESÍDIO – Sobre o filme “FISH TANK” (U.K., BBC Films, 2009), de Andrea Arnold

“I’m good at being uncomfortable
So I can’t stop changing all the time.”

FIONA APPLEExtraordinary Machine [ouça]

O desconforto com o atual enrosco, o inconformismo diante de situações intragáveis, são motores dos movimentos de auto-transcendência. A superação-de-si exige de nós que tenhamos uma boa dose de discórdia conosco mesmos, uma vontade de deixar-se para trás rumo a uma melhor versão de si.

Eis alguns dos ensinamentos possíveis de sugar da narrativa cinematográfica arrojada, comovente e impactante de Fish Tank. Através do belo filme da Andrea Arnold, lançado pela BBC Filmes em 2009, temos acesso a uma vivacidade juvenil intensa, ingovernável, que lida com as opressões à sua volta com o sadio desrespeito pelas correntes que têm, quando capturados, os animais que haviam sido antes selvagens – e que passaram todas as suas vidas correndo livres e soltos pela floresta.

Em um filme que aposta em metáfora bastante significativas, a mensagem parece ser um conclame ao amadurecimento criativo que envolve, sempre, revoltas contra limitações e travas socialmente impostas e que bloqueiam o nosso crescer. A protagonista de Fish Tank é uma peixona adolescente faz de tudo para romper com o confinamento em um aquário que é seu presídio. Melhor dizendo: Mia é uma espécie de símbolo de uma juventude que, caso as velhas gerações ainda vivas, em sua autoritária gerontocracia, tentem encerrar na jaula de uma tanque de peixes onde a ração são só migalhas, explode em revolta.

Mia dá conta, no processo, de que fazer com que esta revolta, para além dos elementos destrutivos que carrega, refulja como uma revolta criativa, uma criatividade revoltada. Uma femme revolté que talvez agradasse a Camus ou Beauvoir, caso estivessem vivos para espiarem com olhar existencialista esta bela obra do cinema contemporâneo. Em Mia, refulge algo à la Emma Goldman,  pulsa no anarquismo espontâneo de Mia a determinação a ir dançando sua revolução.



Ao assistir ao filme, por vezes me lembrei do que canta Fiona Apple na bela canção que dá título a seu maravilhoso álbum em parceria com Jon Brion, Extraordinary Machine: quem é “bom em sentir desconfortável não pode parar de mudar o tempo todo”.

Em Fish Tank (Aquário), filme de Andrea Arnold , a vida de uma adolescente britânica chamada Mia (interpretada por Katie Jarvis) é explorada nos meandros de seu labirinto existencial. Nós somos lançados direto para o epicentro deste labirinto que é Mia, desnorteada e enfurecida, irrompendo na tela com a fúria de uma punk urbana que taca pedras em vidraças e quebra o nariz dos desafetos a cabeçadas. Algumas cenas adiante, a mãe anuncia a Mia que, em 2 semanas, ela irá para a “casa de correção”.

Fish Tank revela, de maneira instigante, o labirinto em que Mia se debate feito um peixe-dançarino em revolta contra as dimensões estreitas demais de seu aquário-presídio, repleto de opressões que a rodeiam e tentam esmagá-la. Envolta numa miríade de opressões, ela vai dando um jeito de driblar as adversidades da vida, um pouco no remelexo, um pouco na irrupção de raiva reativa. Com os beats do hip hop bombando em seus fones-de-ouvido e soundsystem, esta peixa irritada com o confinamento em aquário demasiado estreito debate-se querendo fugir.

Um dos símbolos supremo que o filme ergue para representar este ímpeto de fuga é a égua de seu amigo, sempre acorrentada e raquítica. A égua que ela tenta roubar, arrojando contra o cadeado que mantêm o animal preso a golpes de pedras e marteladas. Esta égua, que ela fracassa em libertar através da martelada, faz com que ela descubra-se confrontada, mais uma vez, pelo “monstro” social onipervasivo, Minotauro de seu labirinto: uma cultura onde as relações sociais são brutas, sem delicadeza, norteadas pela ofensa mútua. À semelhança da estética dos Sex Pistols, ficamos com a impressão inicial de que esta é uma Inglaterra da Juventude No Future e que todos estão cuspindo uns nas caras dos outros.

Incapaz de resgatar a Égua, com quem ela provavelmente fugiria pra bem longe de sua vida-inferninho nos subúrbios de Londres, esta princesa-punk tem que encarar o Minotauro da macheza tóxica. Vemos uma gangue de três caras e um rottweiler tentando estuprá-la. Ela se debate com todas as forças de seu corpo, briga com eles esperneando e desferindo socos. Até que se liberta o bastante para correr na velocidade de um atleta dos 100m raso nas Olimpíadas.

Ter escapado de uma tentativa de estupro não a torna muito predisposta a ser gentil com os homens em geral – muito menos com o novo namorado de sua mãe, Connor (interpretado por Michael Fassbender). Se ela, de cara, antipatiza com ele e o trata como inimigo, é pois isto tornou-se sua reação emocional padrão diante dos humanos em geral. Ela tem antipatia por gente. Uma antipatia que engloba os que tem pica e os que tem buceta numa mesma onda de misantropia adolescente. Tanta fúria precisa expressar-se, caso contrário este aquário explodirá pelos ares como uma panela de pressão esquecida por tempo demais no fogão.

Se me permitem uma digressão pela Cultura Pop contemporânea que me parece significativa como chave de leitura do filme, é importante notar a semelhança do nome da protagonista de Fish Tank, Mia, com a artista, de nome bastante semelhante e de imensa repercussão no Reino Unido neste últimos anos: M.I.A., originária do Sri Lanka, hoje uma das mais provocativas artistas britânicas do séc. 21.

Assim como M.I.A. horrorizou muitos – e atraiu processos contra si que quase a levaram à falência – quando mostrou o dedo médio, em cima do palco com Madonna, no famigerado show da NFL, a Mia do filme também gosta de uma cultura que provoque, que confronte, que não seja demasiado “boa-moça”. Com vínculos fortes com a cultura hip hop, seu corpo, quando tem tempo livre, dedica-se a treinar-se nas artes do breakdancing. 

INDIANAPOLIS, IN – FEBRUARY 05: MIA performs during the Bridgestone Super Bowl XLVI Halftime Show at Lucas Oil Stadium on February 5, 2012 in Indianapolis, Indiana. (Photo by Christopher Polk/Getty Images)

Mia está animada pelo sonho deem tornar-se uma dançarina de sucesso, uma artista de renome. Diante da tela da TV onde assiste a videoclipes sacolejantes da black music globalizada, ela sacode o esqueleto nos interstícios desta vida que parece oprimi-la por todos os lados.

Primeiro e sobretudo, a opressão materna, que explode na tela logo nos primeiros momentos de um filme que explora, a fundo e com densidade poética, a metáfora entre a adolescente rebelde de 15 anos, que protagoniza o filme, e um peixe aprisionado num aquário. Um peixe cheio de inquietude, querendo expressar seus encantos de sereia. Mas, assim como M.I.A., radicalizando no confronto com as situações materiais do mundo em que vive, socialmente convulsionado por conflitos e antagonismos que polvilham por toda parte a praga das relações de dominação e subalternidade, de opressor e oprimido, trava suprema para a superação humana da atual nossa fase de fratricidas no labirinto.

O filme não está interessado na vida de quem é pop star, mas sim na vida anônima que sonha em sair dum pântano de anonimato. A filmagem de Andrea Arnold é bastante realista, lembrando o estilo de mestres britânicos do cinema realista sobre a riff raff como Mike Leigh e Ken Loach, mas o olhar atento à juventude de uma mulher em seu aquário de opressões transforma a obra em algo que toca fundo na questão do feminino no mundo contemporâneo. Dificilmente Fish Tank poderia ser considerado feminista, o que não o impede de ter muita food for thought sobre as relações sociais entre mulheres. A começar por mãe e filha, que estiveram um dia em simbiose tão intensa, fundidas num organismo, e que na adolescência são descritas como extremamente arredias.

Algumas vertentes do feminismo, por centrarem a mira de suas críticas no Patriarcado, acabam por pintar o retrato do opressor como sinônimo de macho, o que dificulta a apreensão da realidade inegável que são as mulheres que oprimem mulheres, a começar pelas mães que oprimem suas filhas, irmãs-mais-velha que oprimem suas irmãzinhas, dentre outras manifestações disso que é o avesso da sororidade. A irmãzinha de Tyler, ao despedir-se de Mia que se vai para o País de Gales, diz: “I hate you”, ao que a irmã responde: “I hate you too.” É uma das cenas mais fofas do filme.

Instantes antes, a mãe, ao ser avisada que a filha maior estava de partida, com malas feitas e uma carona para outro país, lança-lhe na cara um “fuck off!” A mãe, cansada de reter no aquário aquela rebeldia indomável, enfim concede a Mia o direito de vazar. Antes, esta mãe era sentida como carcereira, agora transmuta-se de súbito numa mulher, falível como todas, humano demasiado humana, e que tenta driblar com dança as deprês dessa vida. Mãe e filhas entram na dança da despedida e, sem palavras, estão temporariamente em trégua em sua longa guerra doméstica.

O modo como o filme articula o tema da dança no tecido vital da protagonista. Mia parece se identificar com a figura do animal que tem seus movimentos impedidos: é o caso da Égua que ela tantas vezes tenta salvar, e cuja morte lamenta com lágrimas que ela não derruba, através do filme todo, para nenhum humano. A dança parece estruturar sua subjetividade em transformação como uma espécie de espinha dorsal da fantasia que motiva o caminhar-adiante. Ela faz planos de tornar-se alguém no mundo da dança, articula com Connor uma ajuda para que ela possa participar de um teste, consegue uma câmera com ele pra que filme um vídeo (pré-condição para ser uma das candidatas desta audition que passa a servir como isca para esta peixona louca para saltar de seu aquário direto para a vastidão do oceano.

Desde seu título, Fish Tank demonstra um certo desejo de metaforizar sua narrativa através de peixes e éguas, evocados em relações com Mia que vão revelando para nós as características de seu labirinto. Numa cena chave, Connor leva as 3 mulheres para um rolê de carro que termina numa estranha pescaria. Connor entra no lago a fim de catar um peixão com as próprias mãos e Mia é a única a topar o desafio (ainda que não saiba nadar). A captura do peixe, seguida por um quadro em que o animal agoniza no solo, fora de seu habitat aquático, revela a Mia o poder daquele homenzarrão charmoso capaz de carregá-la nas costas, gentilmente, quando ela corta os pés.

A caminho da daquele episódio de queer fishing, Connor toca no carro a sua canção predileta de todos os tempos, “California Dreaming” na voz de Bobby Womack. A canção traz um eu-lírico que, no Inverno, sonha com uma Califórnia ensolarada – semelhante àquela que, na casa de Mia, decora a sala-de-estar como papel de parede. Mia decide escolher esta canção para dançar. Bola uma coreografia. Todos os incentivos de Connor surtem um certo efeito sobre a auto-estima de Mia, ela vai caindo para os encantos daquele cara que há poucos dias era um completo estranho que dançava com a mãe nas festanças domésticas e que ela observava transando, escondida na obscuridade do corredor.

Fish Tank é um filme desprovido de moralina e retrata comportamentos dificilmente aplaudíveis com tanta empatia que a gente é lançado para além do bem e do mal, como queria Nietzsche. É um filme que não quer nem crucificar nem inocentar sua protagonista – quer que viajemos com a vida dela, com empatia ligada no talo, mas sem perder a capacidade crítica. Nem santa, nem puta: Mia apenas. Mia, cheia de tesões, dançando seu caminho para fora do aquário, rompendo certos limites temíveis – como transar com o namorado da mãe…

Com a mãe desmaiada no quarto após um porre, Connor e Mia transam na sala logo após a performance dela de “California Dreaming” (papel de parede todo Californiano servindo de plano de fundo). A vida de Mia é o próprio inverno, e sua dança é a Califórnia. But the fantasy comes crashing down. No clímax dramático do filme, Mia vai atrás de saber mais sobre a vida de Connor, este cara que já esteve com a pica dentro dela e de sua mãe – e que de repente sumiu. Vazou. Escafedeu-se.

Mia invade a casa de Connor saltando o muro dos fundos e penetrando por uma janela. A câmera com filmagens enfim revela a Mia que Connor é casado e tem uma filha, o que inspira a reação instintiva de tacar a câmera longe e depois mijar no tapete da sala. Na sequência, Mia tenta sequestrar a filha de Connor, que a certo momento escapa pela mata. Em uma das cenas que deixa o espectador gasping for breath, após uma briga violenta em que a criança tenta ser libertar de seu cativeiro aos pontapés contra sua carcereira, Mia empurra a criança na água. Aos 15 anos, Mia quase se torna uma sequestradora e uma assassina.

Evocando outros filmes da história sobre rebeldias juvenis, como Vidas em Fuga de Lumet (com Marlon Brando) ou Rebelde sem Causa de Nicholas Ray (com James Dean), Fish Tank é a crônica de várias pequenas rebeliões contra os jugos opressores. Mia se debatendo para escapar da garra de seus estupradores é uma cena análoga à filha de Connor debatendo-se para escapar da fúria vingativa de Mia. Os elos na cadeia da opressão estão bem encadeados. E este filme não vende falsas esperanças – tanto que o caminho do sucesso permanece vedado para Mia. Não se trata de uma ascensão para o estrelato como dançarina – não estamos diante de nenhum fenômeno semelhante ao de M.I.A., de Janelle Monae ou de Flaira Ferro.

O filme nos frustra ao focar no fracasso de Mia na conquista de seu sonho de ser dançarina – chegando na audition, ela descobre que de fato eles estavam selecionado strip dancers, que ela estava no lugar errado, que ali não havia espaço para sua expressão corporal nem como breakdancer, nem como coréografa dos Sonhos de Califórnia. Ela abandona aquele palco onde o corpo da mulher agita-se apenas para instigar o tesão dos machos e parte para outra.

A atitude de Connor, que comete um adultério duplo, com mãe e filha, antes de abandoná-las e voltar para sua “família tradicional britânica” numa “Safe European Home” (The Clash), é retratada sem panfletagem feminista, mas a mensagem da narrativa é clara: Mia não aceita calada ser comida e depois jogada de lado como uma casca de banana. Mia está disposta a uma irrupção no cenário proibido da família feliz de Connor, para demarcar com seu mijo e sua presença disruptiva aquele território de que está segregada. A área proibida, que Connor impede que ela acesse, temeroso da revelação da verdade, instiga Mia a cometer seu “crime” de sequestro e quase assassinato da filha de Connor.

A cena em que Mia é apedrejada pela criança que dela busca fugir, essa cena que ressoa fortemente na memória pois ali Mia está em full throttle na posição de “opressora” vingativa, é uma das cenas-chave que mostra a disposição do filme em sublinhar o Inferno não é exclusivamente masculino. Quero dizer, com isso, que uma vertente reducionista do feminismo torna-se incapaz de ir mais profundo à raiz dos antagonismos das relações humanas quando culpabiliza unicamente o Patriarcado e “o Macho” por todos os males do mundo, quando é óbvio que também as mulheres são capazes de serem maléficas e opressoras umas com as outras, em diferentes situações onde diferenças de poder propiciem oportunidades para os abusos de autoridade – seja na relação mãe e filha, professora e aluna, médica e paciente, adolescente e criança etc.

Através de seu cinema do fluxo, da transmutação, Andrea Arnold inaugura novos horizontes para a senda dos filmes problematizadores da Juventude na sociedade contemporânea. Há algo de Larry Clark ou de Gus Van Sant em seu cinema, mas algo também singular – e que ela seguirá explorando com maestria em seu próximo filme, Docinho da América. Um Oceano Atlântico inteiro separa EUA e U.K., mas as semelhanças entre eles ainda sobressaem devido ao mesmo caldo de cultura anglo-saxã, protestante e “liberal”. Em seus filmes, Andrea Arnold registra o movimento de reinvenção da juventude nas sociedades contemporâneas através de um cinema de alta intensidade, rica rítmica, montagem de dinamismo videoclíptico e capacidade de propor metáforas de largo alcance.

Ainda sobre o tema da revolta, ou do comportamento revoltado desta figura feminina inconformada e agressiva que é Mia, vale lembrar aos espectadores mais apressados que o filme não está nos convocando para um tribunal, não interessa julgar se Mia é do bem ou do mal, se é uma menina-bandida ou se podemos adorá-la sem culpa. Mia é uma vida complexa que nos oferece seu labirinto para que possamos tentar decifrá-la, e aí percebemos, como fez Jon Savage em seus estudos sobre a Youth, que o individual é indissociável do social. Mia é assim por causa do Patriarcado, da masculinidade tóxica, da cultura do estupro, sim, é possível, mas ela não é redutível a isto, pois estes elementos da cultura, disponíveis a todos os sujeitos que compartilham desta mesma cultura, será “sintetizado” por ela de maneira específica, singular e única.

Seja reproduzindo explosões de agressividade e de dispêndio de força física contra o outro que ela provavelmente aprendeu com os machos da espécie, de certo praticando a mimese das atitudes machomen, seja criando maneiras de empoderamento feminino para sobreviver na selva de intentos de estupro e de irresponsabilidades gerais, tanto masculinas quanto femininas. A ausência completa da figura do pai na família de Mia dá também o que pensar sobre o tema das “famílias desestruturadas” pela falta daquilo que supostamente deveria ser, desta família, a “espinha dorsal”, o pai.

De todo modo, o filme não convida à abstração, não fala sobre o geral, não pretende ser um tratado sobre a família britânica na era contemporânea, é muito mais um dispositivo de ativação de afetos. Mia ativa justamente nossos afetos ativos, nossos afetos que conduzem a ações, nossos afetos que tem um ímpeto inerente de predileção pelo ritmo, pelo movimento, pela mudança, pelo fluxo.

Eis um cinema com alto teor de corporalidade, um cinema que flagra o corpo de Mia movendo-se e agindo-se com uma espécie de volúpia libertária pela captura de imagens onde os gestos falam mais que as palavras. Um filme digno de estudo para quem quer que se interesse por expressão corporal danças contemporâneas. Na esteira de Paul Gilroy e seu livro abre-horizontes O Atlântico Negro, o filme de Andrea Arnold fala também sobre uma Inglaterra das culturas híbridas, que inclui uma forte expressividade da cultura hip hop, esse fruto tardio e hiper contemporâneo da diáspora dos africanos escravizados que pelo mundo se espalharam, sempre criando e recriando a cultura humana em seus movimentos, mesclas, miscigenações e aventuras de fuga.

Com a sabedoria de William Blake já pulsando em seu corpo de 25 anos, Mia sabe: “He who desires but acts not, breeds pestilence.” (“Aquele que deseja e não age gera uma prole de pestilência.”) Não sei se o que pesou foi a sinapse que conectou a personagem Mia à rapper real M.I.A., mas fiquei com a impressão de que o filme sugeria, para além dos créditos finais, que a protagonista não ficaria presa ao pântano. Que esta peixona estava destinada, num futuro que o filme não conta, a arrasar nas artes.

Mina-rebelde na Inglaterra no future forjada pelo neoliberalismo econômico somado ao puritanismo moral, a Mia encarnada por Katie Jarvis é uma força feminina exuberante, quebra-correntes, como que a anunciar ao mundo, com seus gestos e suas danças, a relevância deste episódio supremo na história da linguagem humana que são os Provérbios do Inferno de Blake:

In seed time learn, in harvest teach, in winter enjoy.
Drive your cart and your plow over the bones of the dead.
The road of excess leads to the palace of wisdom.
Prudence is a rich ugly old maid courted by Incapacity.
He who desires but acts not, breeds pestilence.
The cut worm forgives the plow.
Dip him in the river who loves water.
A fool sees not the same tree that a wise man sees.
He whose face gives no light, shall never become a star.
Eternity is in love with the productions of time.
The busy bee has no time for sorrow.
The hours of folly are measur’d by the clock, but of wis­dom: no clock can measure.
All wholsom food is caught without a net or a trap.
Bring out number weight & measure in a year of dearth.
No bird soars too high, if he soars with his own wings.
A dead body, revenges not injuries.
The most sublime act is to set another before you.
If the fool would persist in his folly he would become wise.
Folly is the cloke of knavery.
Shame is Prides cloke.

WILLIAM BLAKE

 

A fabulosa Leslie Feist, cantora-compositora canadense, em um show completo em Paris, 2005, 59 min

A fabulosa Leslie Feist, cantora-compositora canadense “with a haunting soprano voice and a unique style that draws on indie rock, folk, bossa nova and jazz-pop” (All Music Guide) em primoroso show completo em Paris (Le Trabendo, 2005):

SETLIST:
1. When I Was Young Girl
2. Secret Heart 5:45
3. Gatekeeper 11:11
4. Somewhere Down the Road 15:45
5. One Evening 19:30
6. The Build Up 23:19
7. Inside and Out 28:40
8. Now at Last 32:20
9. 1234 37:05
10. I Feel It All 39:37
11. Sea Lion Woman 44:47
12. Let It Die 50:10
13. (?) 55:20

SIGA VIAGEM… ARTISTAS SIMILARES: Joni MitchellPJ Harvey – Aimee Mann

 

NINA SIMONE: REBELDE COM CAUSA

NINA SIMONE: REBELDE COM CAUSA

Eduardo Carli de Moraes @ A Casa de Vidro.com

What-Happened-Miss-Simone-posterO artista genuíno é ao mesmo tempo um espelho de sua época e uma fonte perene de beleza e inspiração para a posteridade. Tal definição me ocorre diante desse fenômeno da natureza que foi Nina Simone (1933-2003), a quem é devotado o documentário What Happened, Miss Simone? (uma produção Netflix, direção de Liz Garbus, 2015).

Eu, que já tinha Nina em alta estima como uma das cantoras mais magistrais da história de sua nação, no patamar duma Ella Fitzgerald, duma Billie Holiday, duma Sarah Vaughan, duma Bessie Smith, só tive minha admiração aumentada ao conhecer mais o ser humano extraordinário que ela foi. Tamanha honestidade e profundidade expressiva, tamanha capacidade de comunicar afetos dos mais diversos, tamanha sensibilidade à flor da pele, tamanha musicalidade genuína e transbordante, é uma jóia rara!

Logo no início do filme, ela revela sua fórmula da liberdade: “freedom”, opina Nina, significa “no fear” (ausência de medo). Levei pra vida este novo emblema, que carregarei lado a lado, no lado esquerdo do peito, junto com o verso da Janis em “Me and Bobby McGee” – “freedom’s just another word for nothing-left-to-lose” – e com as inesquecíveis palavras da Cecília Meirelles – “liberdade é um sonho que o coração humano alimenta, não há quem explique e não há quem não entenda.” Nina Simone, rebelde com causa, voz visceralmente comovente, ensina-nos um bocado, na práxis, sobre os espíritos livres e sobre as batalhas que combatem contra as gaiolas.

Eunice Waymon nasceu numa família pobre, de 8 filhos, na Carolina do Norte. Começou a tocar piano aos 3 anos de idade e desde cedo sonhou em entrar para a história como a primeira pianista clássica negra dos EUA. Estudando de 6 a 8 horas diárias, logo aprimorou-se em suas interpretações de Bach, Debussy, Chopin, Brahms, entre outros compositores. Porém, sentia na pele, desde então, o racismo da sociedade norte-americana na época da lei Jim Crow: para ter aulas de piano, por exemplo, precisava se dirigir ao “setor branco” da cidade, sinal inequívoco da segregação racial vigente.

Criança

A pequena Eunice Waymon

A carreira de “rebelde com causa” de Nina Simone teve seu início precoce aos 12 anos de idade, quando ela apresentou seu recital de estréia em uma igreja. O Sul norte-americano dos anos 1940 não era fácil: o racismo cotidianizado era tão difundido que os pais da pequena Eunice foram proibidos de sentar na primeira fileira para assistir a filha tocar, já que eram negros e aqueles assentos estavam reservados para brancos. Conta a lenda que Eunice recusou-se a começar o concerto antes que seus pais pudessem se sentar na frente.

Sua mãe, pastora metodista, costumava levar a pequena Eunice aos cultos, onde a intensidade da música gospel impressionou indelevelmente a pequena (é bem sabido que algumas das vozes mais sublimes e poderosas da música dos EUA, como Mahalia Jackson e Aretha Franklin, possuíam raízes firmemente plantadas no solo do gospel). Com o desenrolar de sua carreira pianística, Eunice Waymon estuda na escola Julliard em NYC. Posteriormente, é recusada como aluna de conservatórios mais conservadores (leia-se: mais racistas), como o prestigioso Curtis Institute da Philadelphia.

Para ganhar a vida, começa a tocar em bares e cabarés de Atlantic City, ocasião em que decide mudar seu nome de Eunice Waymon para Nina Simone (unindo o diminutivo carinhoso de Eunice, Nina, com uma homenagem à atriz Simone Signoret). A decisão de adotar o nome artístico veio menos de interesses comerciais e mais de seu desejo de que a mãe não soubesse que ela andava tocando “música do diabo” para platéias noctívagas em pubs de reputação duvidosa… 

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Sua carreira deslancha quando ela, além de tocar piano clássico de modo magistral, começa a soltar seu gogó-de-ouro em canções de jazz, blues, folk, soul. Logo ganharia o apelido “High Priestess of Soul” e se consolidaria como uma “diva”, mas com a originalidade de estar conectada à tradição afro dos griots. Nina apresenta-se em importantes festivais internacionais, com destaque para o Newport Jazz Festival em 1960 e para o Festival de Montreux, na Suíça, em 1976. Concretiza também seu sonho de tocar no Carnegie Hall, em 1963. Já sua produção discográfica, que abrange cinco décadas, é impressionante em quantidade e qualidade, levando-nos a pensar em Nina Simone como uma fonte exuberante e inesgotável de música sincera, intensa, sempre heartfelt (obs: ao fim deste post, baixe gratuitamente muitos álbuns dela na íntegra!).

Nem tudo são flores na vida pessoal de Nina, porém. Casa-se com Andrew Stroud, um policial do setor anti-narcóticos de NYC que, depois do casório, torna-se também seu empresário. Andy, como revelado pelo filme, era mandão e capaz de muitas brutalidades com a esposa, forçando-a a uma maratona de trabalho extenuante e violentando-a na vida doméstica. O casamento é problemático ao extremo: Andy pressiona a esposa para que trabalhe até o limite, viajando o mundo em turnês, a ponto dela sentir-se como um cavalo-de-corrida (race horse) que é forçado até às beiras do colapso. Pior: são frequentes os episódios de violência doméstica em que Nina é espancada pelo marido. Nina narra no documentário até mesmo a cena de um estupro perpetrado por um truculento Andy.

O casal tem uma filha, Lisa, entrevistada pelo filme, que revela os graus de violência doméstica em que viveram (e a própria Nina não é poupada de acusações, por parte da filha, já que Lisa revela ter sido vítima de espancamentos perpetrados pela mãe…). A vida privada da diva, sua agenda sempre lotada, sua farmacopéia de pílulas, vão gerando um quadro psíquico de depressão, fadiga, insônia, bi-polaridade, mood swings… O que culmina no divórcio e no auto-exílio de Nina, que deixou os EUA para tentar viver uns tempos na África, na França, na Holanda.

Além de canalizar todos estes afetos de sua vida inter-subjetiva em suas canções – de modo a influenciar a emergência posterior de artistas como Joni Mitchell, Fiona Apple, Tori Amos, Regina Spektor… – Nina Simone também era mestra em transformar em música alguns dos episódios sócio-políticos que vivenciou – o que coloca-a na companhia de figuras como Woody Guthrie e Bob Dylan.

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Na cidade de Birmingham, no Alabama, em 1963, uma igreja batista da comunidade afroamericana é bombardeada pela Klu Klux Klan, com o saldo sinistro de quatro garotinhas mortas. Este crime racista que choca a nação – e que será documentado por um dos grandes cineastas norte-americanos, Spike Lee, em Four Little Girls – gera imensa revolta em Nina Simone, que escreve a canção de protesto “Mississipi Goddam”. Na canção, que logo torna-se uma espécie de hino dos movimentos pelos direitos civis e das lutas anti-racistas, Nina não se acanha de usar toda a força do palavrão (“God damn!”) para transmitir sua indignação diante do descalabro do ato terrorista.

martin_luther_king_jr_s_economic_dream_still_unfulfilled_42_years_later-850x960A politização e radicalização de Nina se exacerbam nos anos seguintes e ela entrega-se de corpo e alma ao Movimento Pelos Direitos Civis dos anos 1960. Em 1965, na histórica marcha liderada por Martin Luther King entre Selma e Montgomery (cuja crônica cinematográfica foi realizada recentemente pelo filme Selma, de Ava DuVernay), Nina Simone esteve lá, cantando para os manifestantes. Porém, como revelado pelo documentário, Nina Simone não era 100% fiel aos preceitos de Luther King e chegou a dizer, sem papas na língua, ao pacifista e gandhiano Doutor King: “I’m not non-violent!” 

Apesar de sua discordância em relação ao pacifismo absoluto de Martin Luther King, Nina Simone admirava-o profundamente como líder político e soube louvá-lo com uma de suas mais belas canções quando King foi assassinado. “The King Of Love Is Dead”, uma composição de Gene Taylor, estava destinada não só a arrancar cachoeiras de lágrimas dos milhões que se puseram de luto diante do cadáver de Martin Luther King, como também se transformaria num espectro a assombrar o país, com seus questionamentos contundentes sobre o que seria do amanhã depois que o amor foi mais uma vez morto a balas.

Once upon this planet earth,
Lived a man of humble birth,
Preaching love and freedom for his fellow man,

He was dreaming of a day,
Peace would come to earth to stay,
And he spread this message all across the land.

Turn the other cheek he’d plead,
Love thy neighbor was his creed,
Pain humiliation death, he did not dread

With his Bible at his side,
From his foes he did not hide,
It’s hard to think that this great man is dead. (Oh yes)

Will the murders never cease,
Are thy men or are they beasts?
What do they ever hope, ever hope to gain?

Will my country fall, stand or fall?
Is it too late for us all?
And did Martin Luther King just die in vain?

Cos he’d seen the mountain top,
And he knew he could not stop,
Always living with the threat of death ahead.

Folks you’d better stop and think
Cos we’re heading for the brink.
What will happen now that he is dead?

He was for equality,
For all people you and me,
Full of love and good will, hate was not his way.

He was not a violent man.
Tell me folks if you can,
Just why, why was he shot down the other day?

Well see he’d seen, the mountain top.
And he knew he could not stop,
Always living with the threat of death ahead.

Folks you’d better stop and think…and feel again,
For we’re heading for the brink.
What’s gonna happen now that the king of love is dead?

Nina9Influenciada pelo discurso e pelo exemplo de Malcolm X, Angela Davis, Stokely Carmichael, Medgar Evers, do partido dos Panteras Negras (Black Panthers), Nina chega à conclusão de que não há numa solução pacífica para a guerra racial nos EUA. A libertação social dos negros passa a ser vista por muitas vertentes de ativismo radical como conquistável apenas pela guerrilha armada. Tal radicalismo pode ser percebido também em figuras como Frantz Fanon ou no grande músico nigeriano Fela Kuti. Neste contexto explosivo, Nina Simone, apesar de nunca ter abraçado uma metralhadora, põe sua música a serviço desta causa libertária. Tanto que, em sua lendária apresentação no Harlem Cultural Festival, em 1969, em plena guerra do Vietnã, conclama o povo à Revolução:

A politização de Nina Simone, sua adesão à doutrina Malcolm-X-iana do “all means necessary”, é fruto de tempos conturbados em que acirram-se os conflitos raciais no país que a própria Nina apelidou de “United Snakes of America” (Cobras Unidas da América). Nesse contexto, Nina Simone recupera e reinterpreta uma canção que ficou clássica na voz de Billie Holiday, “Strange Fruit”, um hino anti-racista que trabalha com imagens poéticas sinistras e impactantes: os tais “frutos estranhos”, pendendo das árvores, são cadáveres de negros enforcados por brancos. “Black bodies swingin’ in the summer breeze…”


Strange Fruit(Tradução via Vagalume)

Outra peça clássica de seu cancioneiro político é “Backlash Blues”, escrita em parceria com Langston Hughes (1902-1967). Neste petardo rebelde, Nina vocifera contra um certo “Senhor Backlash”, que ela interpela em tom acusativo e rebelde: você aumenta meus impostos, congela meus salários, manda meus filhos para morrer no Vietnã; me dá moradia de segunda classe, escolas de segunda classe, trata todos os negros como se fossem tolos de segunda classe. Aliás, o tal do “backlash” significa um tapa com a parte posterior da mão, oposta à palma, simbolizando a atitude supremacista do branquelo espancador.

BACKLASH BLUES

Mr. Backlash, Mr. Backlash
Just who do think I am?
You raise my taxes, freeze my wages
And send my son to Vietnam

You give me second class houses
And second class schools
Do you think that all colored folks
Are just second class fools?
Mr. Backlash, I’m gonna leave you
With the backlash blues

When I try to find a job
To earn a little cash
All you got to offer
Is your mean old white backlash

But the world is big
Big and bright and round
And it’s full of folks like me
Who are black, yellow, beige and brown

Mr. Backlash, I’m gonna leave you
With the backlash blues

Langston Hughes

É provável que a carreira de Nina Simone pudesse ter sido comercialmente mais bem-sucedida caso ela tivesse sido menos radical em suas posições políticas. O Mercado, entidade bastante cruel, boicotou Nina Simone assim que notou seu ativismo radical anti-racista e pró-direitos civis. De todo modo, o documentário congrega vários depoimentos de Nina em que esta diz que foi compelida a assumir tais atitudes pelos eventos históricos que testemunhou. André Barcinski, em seu texto Quando A Música Importava, explora o tema:

Nina passou a cantar somente músicas de cunho político. Seus discos pararam de vender e os shows rarearam. Os assassinatos de John Kennedy (1963), Malcolm X (1965), Bobby Kennedy (1968), Martin Luther King (1968) e Fred Hampton (1969) deram a Nina a certeza de que uma guerra racial estava em curso no país, e ela passou a defender a violência contra o “domínio branco”. Uma das cenas do filme mostra a cantora perguntando à plateia em um show: “Vocês estão prontos para incendiar prédios?”. Se hoje a radicalização política de Nina Simone pode soar paranoica e agressiva, é preciso analisar o contexto da época e o passado da cantora para tentar entender suas motivações. Numa época em que amigos e políticos que ela admirava eram mortos, jovens negros eram mandados para o Vietnã em números proporcionalmente muito maiores que jovens brancos, e grupos armados como os Panteras Negras prometiam incendiar o país, todo o ressentimento de uma infância passada em um lugar segregado, onde os pais não podiam sequer entrar nos teatros onde Nina tocava piano, fez explodir nela uma fúria incontrolável. Por quase dez anos, Nina Simone sabotou a própria carreira. Defendeu o poder negro “por todos os meios necessários”, aproximou-se de grupos radicais e criticou artistas negros que, segundo ela, faziam concessões ao mercado.

Slavery

Lorraine_Hansberry

Lorraine Hansberry (1930-1965)

Prenunciando o espírito que daria o tom de várias vertentes do movimento Hip Hop – se Gil Scott-Heron é o “vovô do rap”, Nina Simone pode ser considerada como sua madrinha nutriz! – a arte de Nina também inclui um forte elemento de valorização identitária, de auto-afirmação da negritude, algo exemplificado bem pela canção “Young, Gifted and Black”. Esta música foi escrita em memória de uma das melhores amigas de Nina Simone, a escritora Lorraine Hasberry, autora de Raisin’ in the Sun, falecida aos 34 anos de idade. Mais uma vez, a canção tornou-se um hino para todos aqueles que eram “jovens, talentosos e negros”, conclamando à uma atitude de auto-estima e cabeça-erguida que lembra um pouco James Brown e seu hit “Say It Loud: I’m Black and I’m Proud”.

Por essas e outras, Nina Simone é uma daquelas celebridades musicais que não se apaga como as estrelas comerciais mais vulgares, que navegam a crista do hype para serem esquecidas no próximo verão. Nina Simone construiu uma obra cujo legado sobrevive e sobreviverá pela qualidade estética, pela expressividade afetiva, pelo caráter de espelho de toda uma época. Não tenho dúvidas de que esta rebelde com causa foi uma das figuras mais geniais que já pudemos testemunhar em ação diante de um piano e de um microfone.

O lançamento recente do documentário What Happened, Miss Simone? e do disco tributo Nina Revisited (com versões primorosas cantadas por Lauryn Hill e outras figuras contemporâneas) só reativa a chama desta inextinguível fogueira humana. Nina não só viveu e cantou, dando-nos tudo o que tinha, como é cada vez mais inadequado conjugá-la no passado: ela ainda vive e ainda canta, pássaro negro exuberante e sublime que, para citar um poema de Maya Angelou, canta tão belamente pois está em rebelião aberta contra as gaiolas e celebra sempre a liberdade.

A liberdade vivenciada, a liberdade ausente, a ambiguidade da liberdade cuja ausência sofremos e cuja presença deliciosamente desfrutamos, tudo isso anima o canto de Nina a ponto de torná-la uma das vozes mais libertárias que conheço – ainda que não ruja como Zack de la Rocha e não faça as macacagens hardcore de Jello Biafra. Em “I Wish I Knew How It Feels To Be Free”, Nina Simone talvez tenha nos presenteado com a mais sintética expressão de sua vontade de liberdade:

“I wish I knew how
It would feel to be free
I wish I could break
All the chains holding me
I wish I could say
All the things that I should to say
Say ‘em loud say ‘em clear
For the whole round world to hear.”

A versão do Cold Blood, grupo psicodélico de San Francisco, 1960s, com uma vocalista meio Janis Joplin:

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Nina66

Caged Bird

By Maya Angelou

A free bird leaps
on the back of the wind
and floats downstream
till the current ends
and dips his wing
in the orange sun rays
and dares to claim the sky.

But a bird that stalks
down his narrow cage
can seldom see through
his bars of rage
his wings are clipped and
his feet are tied
so he opens his throat to sing.

The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom.

The free bird thinks of another breeze
and the trade winds soft through the sighing trees
and the fat worms waiting on a dawn bright lawn
and he names the sky his own

But a caged bird stands on the grave of dreams
his shadow shouts on a nightmare scream
his wings are clipped and his feet are tied
so he opens his throat to sing.

The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Outubro de 2015

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LEIA TAMBÉM: ANDRÉ BARCINSKIJORNAL GGN – OBVIOUS – NINA SIMONE.COMDAZED – BIOGRAPHY.COM

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Playlist files:

  1. Nina Simone – By Any Means Necessary (Interview) (1:13)
  2. Nina Simone – Revolution (4:40)
  3. Nina Simone – Mississippi Goddamn (Interview) (1:54)
  4. Nina Simone – Mississippi Goddamn (4:31)
  5. Nina Simone – Old Jim Crow (Interview) (1:07)
  6. Nina Simone – Old Jim Crow (2:19)
  7. Nina Simone – Backlash Blues (Interview) (2:45)
  8. Nina Simone – Backlash Blues (3:07)
  9. Nina Simone – Four Women (Interview) (2:14)
  10. Nina Simone – Four Women (4:09)
  11. Nina Simone – Nobody (Interview) (1:26)
  12. Nina Simone – Nobody (5:08)
  13. Nina Simone – I Wish I Knew How It Would Feel To Be Free (4:53)
  14. Nina Simone – Strange Fruit (Interview) (0:59)
  15. Nina Simone – Strange Fruit (3:28)
  16. Nina Simone – Definition of an Artist (3:04)
  17. Nina Simone – Why? The King of Love is Dead (9:20)
  18. Nina Simone – To Be Young Gifted and Black (Interview) (1:01)
  19. Nina Simone – To Be Young Gifted and Black (3:40)

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