DIVINAS EPIDEMIAS: A propagação das religiões explicada pela midialogia de Régis Debray

Ilustração por Charb, presente no livro de Daniel Bensaïd, “Marx: Manual de Instruções” (Ed. Boitempo)

DIVINAS EPIDEMIAS: A propagação das religiões explicada pela midialogia de Régis Debray – por Eduardo Carli de Moraes

“Sem dúvida, crer é natural para o único animal que sabe que vai morrer.” – Régis Debray em Deus, Um Itinerário (p. 16)

Foi Deus quem criou Humanidade, ou a foi a Humanidade quem criou Deus? Talvez este seja o equivalente teológico da famosa querela zoológica do ovo e da galinha. Quem nasceu primeiro, afinal de contas, o Criador ou suas criaturas? O homo sapiens inventa Deus, ou Deus inventa o homo sapiens?

A esta enrolada controvérsia, adiciona a querela entre os crentes: há um único Deus, ou os deuses são vários? Os inumeráveis e muito variados povos, através da história, que aderiram a uma espiritualidade politeísta – como os gregos que idolatravam um Olimpo repleto de deuses, e que povoaram suas epopéias homéricas com as brigas por supremacia entre as divindades – “morreriam de rir se ouvissem falar que só há um deus verdadeiro”, como diz Débray [2001, p. 82].

Para além da briga interminável entre teístas e ateus, e entre os primeiros a treta que opõe monoteístas e politeístas, há algo mais a se considerar: as representações sobre o Tempo, radicalmente discrepantes, que os seres humanos fazem de acordo com as opiniões e crenças que nutrem (por terem sido com elas nutridos).

Um dos debates científicos e filosóficos mais quentes da contemporaneidade resume-se na pergunta: Nature or Nurture? Isso que nós pensamos sobre o Tempo e sobre os Deuses, vem da natureza e nos é inato, ou então fomos nutridos com algo que nos inculcou aquilo que hoje consideramos como dogma, artigo de fé e verdade absoluta?

É impossível que estejam ambos com a verdade estes dois personagens irreconciliáveis, ícones da controvérsia milenar entre Fé e Razão: 1) aquele que afirma , com as Escrituras cristãs, que um deus único criou tudo o que existe há cerca de 6.000 anos, como está escrito no Gênesis, e 2) aquele que afirma com base na Ciência que o planeta Terra formou-se há cerca de 4,56 bilhões de anos e que as primeiras formas de vida só nasceram um bilhão de anos depois.

É impossível que ambos personagens estejam certos, pela razão simplérrima de que o Mundo não pode ter simultaneamente 6.000 anos e 4,5 bilhões de anos de idade. O que quer dizer que… das duas uma: ou ambas as hipóteses estão erradas, ou um destes dois personagens está equivocado e delira, falseando o Tempo pretérito já transcorrido com uma representação falsa do Passado.

“E Elohim criou Adão”, de William Blake

“Vamos abrir a Bíblia. Uma semana para criar os céus e a terra, pronunciando algumas palavras-chave – luz, água, árvore, estrela, animais, homem -, seguida de milhões de semanas de boca fechada, sem se manifestar. Sem revelar sua proeza – ou seu delito…” (Regis Débray, Deus: Um Itinerário, Companhia das Letras, 2001, p. 36)

Ora, o mito de Criação do monoteísmo situa a invenção do ser humano por Deus – o parto milagroso de Adão e Eva, que nascem já prontos, com corpos de homo sapiens que nunca precisaram antes evoluir a partir dos símios através dos milênios – há 6.000 anos atrás. Darwin gargalha no túmulo diante de tamanha ingenuidade da Humanidade nos primórdios toscos de sua cultura ainda bárbara.

Ora, os historiadores e arqueólogos sabem muito bem que, há 6.000 anos atrás, os seres humanos já estavam sobre a face do planeta há muito tempo, tendo logrado o controle do fogo há cerca de 500.000 anos atrás… Reduzir a História total de tudo o que já ocorreu à cifra minúscula de 6.000 anos é quase que certamente um equívoco, um erro, uma ilusão, uma mentira. Uma crença merecedora de ser aposentada por quem respeite as evidências.

A questão pode ser formulada de outro modo: se considerarmos como correta a teoria da evolução das espécies, comprovada cientificamente por milhares de experimentos empíricos e descobertas arqueológicas (os paleontólogos e antropólogos dirão: “os fósseis não mentem!”), seria possível dizer que Deus ou deuses existiram durante os milhares de milênios onde ainda não havia surgido sobre a face da terra o homo sapiens?

 Não é verdade que a crença em Deus, recentíssima na história natural, que se manifesta apenas em uma espécie animal entre milhões de outras, dependeu, para se constituir, do advento das capacidades simbólicas e da “função fabulatriz”, de que nos fala o filósofo Henri Bergson? Para que os deuses começassem a nascer, não foi preciso que a história cósmica, que o processo natural, atravessasse milhões de anos até que nascesse este primata ereto que somos, este mamífero com polegar opositor e tele-encéfalo altamente desenvolvido?

Em outros termos: se os símios nunca tiveram religião (alguém já viu orangotangos rezando ou gorilas construindo catedrais?), não é evidente que a religião começa a certo ponto do processo de hominização da criatura que Platão chamou de “bípede sem plumas”?

Os estudos de história das religiões, conduzidos por pesquisadores respeitáveis como Mircea Eliade e Leroi-Gourhan, não demonstram, através das revelações que nos fazem sobre as crenças e mitos da pré-história, que a religião faz sua entrada no palco do mundo a certo ponto da caminhada humana? Ora, a caminhada humana é profundamente determinada pelos avanços técnico-científicos, de modo que o surgimento histórico das religiões não seria separável de fenômenos tecnológicos e científicos que foram pontos-de-virada na evolução da espécie.

Aquilo que chamamos de Deus único, sustentáculo do credo monoteísta, quando visto de uma perspectiva histórica e genealógica, aparece-nos como uma invenção recentíssima: os crentes monoteístas chamam de Eterno aquilo que nasceu agora pouco!

Os credos monoteístas, nos seus cerca de 3.000 anos de existência (uma gotícula minúscula na vastidão do oceano do Tempo!), não cessaram de transformar-se sob o impacto das transformações nas condições materiais e concretas da Humanidade.

Por isso, em seu instigante livro Deus – Um Itinerário, Régis Debray propõe realizar uma “história do Eterno no Ocidente”, mobilizando todo o arsenal da disciplina científica que ajudou a fundar: a midialogia.

Debray dedica-se a explicar como se deram as inúmeras metamorfoses do monoteísmo em sua curta estadia neste planeta. Afirma com todas as letras que a invenção de Deus só pôde se dar quando os humanos tinham desenvolvido a escrita e a roda:

“O Deus [Único, o deus dos monoteísmos] é impensável sem a escrita essencialmente e sem a roda secundariamente, as quais reduzem, em vários graus, a dependência do homem em relação ao espaço (a roda) e ao tempo natural (a escrita). O Único é tardio porque foram tardias as próteses que remetem a certas maneiras de circular e de memorizar, dependentes elas próprias de ecossistemas bem delimitados.

Não foi no alto do monte Sinai, numa bela manhã, que o Todo-Poderoso finalmente encontrou a ocasião apropriada de manifestar-se como tal. Foi um certo uso político, dado a inovações técnicas, que conferiu consistência e necessidade ao monoteísmo. As panóplias do primata inventivo têm seu tempo próprio (ultra-rápido desde a Revolução Industrial, porém ainda bastante lento após a Revolução Neolítica). O homem descende do símio, mas Deus descende do signo, e os signos têm uma longa história.” (Débray, 2001, p. 38)

É em virtude de um preconceito tenaz, que nos foi inculcado desde tenra idade, que nós temos a tendência a pensar no Deus judaico-cristão como algo que sempre existiu, não atentando ao seu processo de constituição e às técnicas culturais que estiveram em ação na formação deste produto histórico.

Enxergar toda a história das religiões anteriores ao monoteísmo como uma longa noite bárbara-pagã, onde os idólatras adoravam os falsos deuses do politeísmo greco-romano ou os orixás das cosmologias africanas, é um vício do olhar retrospectivo. Não podemos seguir falseando o tempo pretérito com uma visão contaminada de presunção etnocêntrica, como ocorre tão frequentemente entre judeus, muçulmanos e cristãos, os acólitos de religiões monoteístas.

Eles querem tornar o monoteísmo uma norma, algo que deve ser universalizado, algo que deve ter a aderência de todos, mas acabam mentindo sobre a eternidade, pois supõe como Eterno aquilo que veio-a-ser, postulam como dogma um Deus sem História que na verdade é um produto histórico do caminhar coletivo dos seres humanos. Assim, muitos crentes monoteístas acabam reprimindo, perseguindo ou mesmo massacrando aqueles que querem contar a história dos respectivos processos de constituição e propagação das seitas.

Regis Debray, pensador francês

“Quando se trata do Deus judaico-cristão, é difícil, para nós, nos desfazermos de hábitos de pensamento imperial, no qual um teocentrismo tranquilo recobre a presunção etnocêntrica. Esse Deus central e culminante se apresenta, ao nosso espírito, como o ponto de origem de um impulso irreversível característico da humanidade civilizada, ultrapassado o limiar das religiões ‘primitivas’. (…) Podemos ler, no Dicionário de Teologia Católica: ‘a revelação bíblica indica aos crentes que, na origem, existiu não o animismo, mas uma religião pura e monoteísta. Os politeísmos antigos não passam de uma degradação.’

Para essa convicção de anterioridade cronológica não contribui pouco a imemorial feitiçaria da fonte. Por natureza, o Ser perfeito predispõe a isso. ‘A concepção de que, no início de todas as coisas, encontra-se o que há de mais precioso e de mais essencial’, Nietzsche a caracteriza como ‘resíduo metafísico’. Como conjurar a quimera da origem no cume da metafísica, na figura de um Deus que não passa do que a idéia de origem O faz ser? Como escapar à suposição de que, no Seu berço, se encontra a essência mais pura?

(…) O monoteísmo nada tem de princípio fundador e genérico, desde a origem destinado a preencher toda a terra… Podemos nos dirigir em voz alta a um cadáver, dialogar com ele por meio de oração e oferendas, depositar na sua tumba algo com que se restaurar, sem supor um onipotente a controlar, amorosamente, todos os homens. Isso ocorreu bem antes do nosso bom deus e continuo a acontecer depois Dele por longo tempo. O reflexo que consiste em investir a morte com uma mensagem de vida, para suavizar o traumatismo de uma perda, não implica nenhuma teologia particular… Sustentar que a primeira personagem que intervém na espiritualidade é Deus é esquecer o Sol, os ancestrais, os espíritos e o Grande Pã, ou seja, nove décimos do trajeto.” (Débray, 2001, p. 42)

“Sem dúvida, crer é natural para o único animal que sabe que vai morrer”, escreve Débray, sugerindo que o homo sapiens já vem ao mundo com uma certa predisposição inata para a crença, já que é o único animal cuja evolução psicobiológica o conduziu à difícil e angustiante posição de um ser consciente de sua finitude.

Condenados pela biologia à incompletude e à dependência – que criatura frágil e dolorosamente incompleta é esta que sai do ventre da mãe, e que precisa ser amamentada e cuidada com esmero por um tempo muito mais amplo do que recém-nascidos de outras espécies, que já “se viram sozinhos” desde muito mais cedo! -, os seres humanos estariam predispostos à credulidade.

Porém, através da história, esta credulidade passará por imensas mutações de acordo com fatores variáveis como cultura, etnia, estado da tecnologia na sociedade. Normalmente não pensamos no quanto uma discussão sobre técnica pode elucidar nossas controvérsias sobre teologia. E é nisso que a obra de Débray chega para provar, com um brilhantismo que emana de suas páginas em jato contínuo, que não é possível compreender as religiões sem atentar para os meios de transmissão das mesmas.

Não é possível compreender a Reforma Protestante inaugurada por Lutero desvinculada da invenção da imprensa de Gutenberg, assim como não é possível compreender a constituição do cristianismo sem o trabalho de difusão da boa nova realizado por figuras como Paulo, o marketeiro de Cristo. O que nos obriga a concluir que Jesus de Nazaré jamais fundou o cristianismo e que foi apenas séculos após a morte de Jesus que a instituição que agia em seu nome pôde de fato inventar o cristianismo sobre o legado de um judeu dissidente, executado na cruz, e que nunca foi cristão.

“A Dúvida de Tomé”, 1599, de Caravaggio

“Não foi São Tomé, mas São Paulo – o qual não chegou a ver ou ouvir Jesus de Nazaré – que tornou transportável a fé no Cristo. Esse ‘contágio’ operou-se à distância, historicamente e geograficamente, de seu ‘ponto de origem’, por vias não genéticas e não familiares, sem efeito de multidão nem sugestão sonambúlica, sem que os convertidos tivessem sido hipnotizados. Eis a razão pela qual essa propagação teve necessidade, precisamente, de uma instituição, a Igreja, e de determinado conjunto de técnicas de inculcação (a evangelização).” – DÉBRAY, Transmitir – O Segredo e a Força das Idéias (Ed. Vozes, RJ: Petrópolis: 2000, p. 137)

O que Débray ensina é que a difusão de uma doutrina – no caso, a dogmática cristã – só pode ser corretamente compreendida se atentarmos para as técnicas de difusão, dependentes dos meios tecnológicos disponíveis em determinada época e lugar. De modo que o cristianismo não teria sido o que foi, isto é, um caso de bem-sucedida epidemia simbólica de disseminação global, caso e os evangelizadores não tivessem sabido se aproveitar das tecnologias de comunicação e de transporte que tinham às mãos em seu tempo histórico e território geográfico:

“Que o grandioso nascimento do Deus único não rejeite, em nota acessória, a itinerância em meio desértico e o grande nomadismo pastoral que forçaram a inventar uma coisa diferente do altar de mármore em seu perímetro citadino, uma coisa diferente dos deuses do lar intransportáveis, a saber: um Deus móbil e amovível!” (Débray, Transmitir, p. 153)

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PARTE 2: TALVEZ DEUS NÃO EXISTA, MAS SEUS FÃ-CLUBES EXISTEM COM CERTEZA

É claro que poderíamos discutir até o fim dos tempos se Deus (o Criador da Natureza, causa de si mesmo, Pai que não tem pai…) existe ou não. Eis uma questão das mais polêmicas já formuladas pelo ser humano, o único animal que se pergunta e que se angustia.

Porém, ainda que muitos possam negar a existência de Deus, poucos ateus ou agnósticos seriam capazes de negar a presença da crença religiosa através da história humana, o que nos leva a uma discussão que se desvia da teologia e abraça a antropologia, como o velho Ludwig Feuerbach já propunha: o ser humano é naturalmente crédulo? É inimaginável um tempo histórico vindouro onde vivesse uma humanidade completamente desprovida de fé?

Em outros termos: ainda que Deus não exista, nem nunca tenha existido, não existirão sempre os crentes? Ainda que os céus estejam vazios do divino, não seguirão os humanos dirigindo às nuvens e às estrelas as suas preces?

A história das controvérsias sobre a existência ou não de Deus, ou seja, as controvérsias infindáveis sobre a natureza do Ser Supremo, dão pano pra manga a intermináveis conversas de boteco, simpósios acadêmicos e guerras sangrentas. Milhares de histórias poderiam ser contadas sobre os conflitos de religião, desde querelas meramente verbais e intelectuais às chacinas e massacres sectários. Das tretas escolásticas opondo os fiéis de Tomás de Aquino aos adeptos da Reforma de Lutero, às Noites de São Bartolomeu e às fogueiras da “Santa” Inquisição.

Outra pergunta, no entanto, tem me fascinado e me forçado a mobilizar minhas limitadas forças intelectuais e sensíveis para decifrá-la: se Deus não existe, se nunca houve uma divindade que fabricou a Natureza (e tudo que ela contêm) a partir de sua potência criadora, se a crença nesta entidade não passa de um calmante psíquico inventado pelo único organismo vivo que se sabe mortal, como é possível que a religião, como mero ópio mental, possa determinar em tão larga medida a história concreta dos povos? É esta questão que a midialogia pode nos ajudar a elucidar.

Quando Marx, em sua célebre formulação, afirmou que a religião é o ópio do povo, talvez não estivesse inconsciente do quanto o ópio foi uma mercadoria de suma importância, muito demandada e ofertada no mercado, a despeito de quaisquer leis proibicionistas.

Se a fórmula de Marx é verdadeira, aconteceria com a religião o mesmo que ocorre com os opiáceos: se tentássemos proibi-la, ela se vingaria de nosso tolo ímpeto proibicionista e se faria uma mercadoria clandestina, amplamente comprada e vendida nos supermercados das ideias, valores e pertenças que são as religiões instituídas.

Ademais, precisamos compreender a fundo os meios de comunicação e mobilização que as religiões instituídas detêm, e que vem sendo há milênios amplamente utilizados para pôr em circulação esse sagrado ópio.

Em seu artigo “Marxismo e Religião: O Ópio do Povo” (presente no livro Centelhas), Michael Löwy chama a atenção para o fato de que a luta de classes se aplica também ao campo religioso e que não é à toa que certos grupos sociais filiem-se à Opus Dei, alguns outros encham os mega-templos da Igreja Universal do Reino de Deus, enquanto outros se digam fiéis da Teologia da Libertação, todos eles declarando-se igualmente cristãos, a despeito das imensas diferenças de comportamento que implicam estas diversas pertenças.

Deveríamos, portanto, estabelecer uma diferenciação entre vários tipos de ópio religioso? Poderíamos, além disso, julgar esses ópios não apenas a partir de seus efeitos analgésicos, mas pela veracidade da experiência vivida que eles implicam para seus usuários?

“Partidários e adversários do marxismo parecem concordar num ponto: a célebre frase ‘a religião é o ópio do povo’ representa a quintessência da concepção marxista sobre o fenômeno religioso. Ora, essa afirmação não tem nada de especificamente marxista. Podemos encontrá-la com poucas diferenças, antes de Marx, em Immanuel Kant, J. G. Herder, Ludwig Feuerbach, Bruno Bauer, Moses Hess, Heinrich Heine e muitos outros.

Heine já a usava de uma maneira positiva, embora irônica: ‘Bendita seja a religião que derrama no amargo cálice da sofredora espécie humana algumas doces e soníferas gotas de ópio espiritual, algumas gotas de amor, esperança e crença.’ Moses Hess, em ensaios publicados na Suíça em 1843, adota posição mais crítica: ‘A religião pode tornar suportável a infeliz consciência da servidão da mesma forma que o ópio é de boa ajuda nas doenças dolorosas.’

(…) A expressão apareceu pouco depois na introdução de Marx para ‘Crítica da Filosofia do Direito de Hegel’ (1844), onde Marx diz que a religião é dual: expressão da miséria real e protesto contra ela. Ora legitimação da sociedade existente, ora protesto contra ela.” (LÖWY, Centelhas, p. 34)

Parece-me evidente – e creio que ateus e agnósticos não discordariam – o quanto vivemos hoje em um mundo radicalmente moldado pelas religiões, a despeito do avanço de uma restrita maré de secularização / laicidade.

Os povos não parecem nem um pouco a fim de renunciar ao seu cômodo ópio espiritual, remédio que não se encontra nas farmácias e que visa amainar a fúria dos sentimentos de angústia e finitude que experimentam os seres humanos, esses animais mortais que sabem que vão morrer (feito inédito na história dos corpos vivos conscientes).

A sociedade em que vive o ateu fornece-lhe inúmeras provas de que sua negação da existência concreta do ente venerado sob o nome de Deus, seu a-teísmo enquanto tese sobre a realidade cósmica, não permite ao ateu negar que as ilusões são fecundas em consequências. 

Tanto que Sigmund Freud não chamou seu livro de O Passado de Uma Ilusão… Ou seja, não fez uma arqueologia da fé morta e posta sob autópsia, mas sim falou sobre O Futuro de Uma Ilusão. O ópio da fé, por mais mentiroso que seja, terá ainda um longo porvir. Freud explica: isso se dá porque a força da fé não está em sua verdade, mas nos desejos humanos que ela visa satisfazer. Não há sinal de vitória final, de triunfo total, das Luzes sobre as Trevas. Os iluministas estão sempre sendo obrigados a testemunhar as re-ascensões do obscurantismo.

É só pensar que, por mais ateu que eu seja, não escapo de viver numa sociedade em que todos estão em consenso sobre contar o tempo a partir de um certo sujeito nascido em Nazaré, na Galiléia, há cerca de 2018 anos atrás. Por mais agnóstico roxo que você seja, não há como evitar que no dia 25 de Dezembro seja feriado. Nem que haja diferenças significativas na vida social organizada em épocas do ano em que tudo se transmuta: o labor comum é paralisado, ações rituais de massa ocorrem, quando o Calendário aponta dia de Páscoa, Sexta Feira da Paixão… Quem explicou isso brilhantemente foi Maurice Halbwachs (1877 – 1945), filósofo da Memória Coletiva, autor de Les Cadres Sociaux de la Mémoire.

Por mais descrente que o sujeito seja, ele não pode negar tampouco o quanto a religião tem força de mobilização, convocando como ímãs os fiéis para encherem os templos da Universal, peregrinarem a Meca ou ao Vaticano, participarem de imensas procissões hindus na Índia, ou incorporarem em mil terreiros o poderio ancestral dos orixás…

O animal que pergunta e que sabe que irá morrer é também o único bicho religioso. Ao menos é o que indica a experiência empírica, através da História, que nunca ofereceu ao biólogo ou zoólogo o espetáculo de orangotangos que construíssem igrejas ou de cachorros que ficassem de joelhos rezando sob um crucifixo.

Por mais ateus que sejamos, não é possível decretar, no íntimo da subjetividade, que o conceito de Deus é apenas um fantasma vazio, uma ilusão que perdura nas mentes ingênuas, um ópio a que se apega o vulgo para suportar as agruras da existência, não tendo as religiões nenhuma importância objetiva. Isso equivaleria a ser cego àquilo que temos diante de nossos olhos: o resultado de uma História onde as ideologias religiosas estiveram diretamente envolvidas com o tecer coletivo do mundo que compartilhamos.

Pois as religiões, se é óbvio que nos separam, também nos unem. A própria etimologia o sugere, pois religião vem de re-ligare, e não são poucas as pessoas que tem uma religião por causa da vontade de pertença a uma comunidade, o que sugere que quando comungamos da mesma religião, ela opera no espaço entre nós um trabalho de religação, criando a coesão que dá coerência a uma seita e a distingue de outras.

“Trânsfugas da zoologia que somos, animais políticos, nós teríamos interesse em observar de perto como se engendra um lar durável de pertença”, escreve Débray. “O nascimento de uma Igreja é, a esse respeito, uma lição de coisas, um fenômeno a ser perscrutado como um arquétipo numa dinâmica de grupos.”  (p. 233)

Ou seja, a chave de compreensão das religiões pode estar numa análise de psicologia social, ou de sociologia psíquica, que enxergasse nas massas unidas pela argamassa religiosa um fenômeno de identificação do sujeito com o coletivo que representa uma força concreta na história.

Há nisso um risco, um perigo, que permanentemente nos assola: a identificação excessiva com um grupo X, por parte de Fulano, pode transformar os grupos Z e Y em entidades malévolas aos olhos deste Fulano. Sendo Z uma comunidade religiosa que discorda de todos os dogmas de X, e sendo Y uma comunidade de pessoas que se dizem liberadas da religião, Fulano tem grandes chances de transformar-se num sanguinário militante da causa X, que pegará em armas em santa Cruzada para limpar o mundo dessas impurezas que são os crentes em Z e os descrentes de Y.

Deus pode até não existir, mas os diferentes fãs-clubes de diferentes deuses existem com certeza. Deus pode até ser o nome da mais bela mentira que teimamos em inventar para remédio de nossas insônias e agonias, mas os exércitos de Deus decerto existem, e seu entrechoque nos campos de batalha já forneceu aos vermes da terra um farto alimento de cadáveres de seres humanos mortos precocemente. Ainda somos a todo tempo lembrados do quanto o solo deste planeta já foi banhado com o sangue dos mártires.

Isso coloca a necessidade, mesmo para o filósofo ou o sociólogo que se comprometem com a causa do ateísmo e da laicidade, de um esforço de compreensão de como se mesclam o Homo Religiosus e o Homo Politicus. Desde pelo menos Spinoza e seu fulgurante Tratado Teológico-Político, aprendemos a não separar em territórios estanques o que é da teologia e o que é da política. Podemos sem dúvida criticar a fé em milagres ou a subserviência a um deus de mentirinha como “asilos da ignorância”, mas o mundo social é indelevelmente transformado e transtornado por ações humanas conectadas a ideias, práticas, valores e ritos de natureza teológica.

A distinção entre sagrado profano, analisada com maestria por Mircea Eliade, é uma chave importante para sondarmos de que modo as religiões se metem a fazer política. Sacralizar um certo espaço significa tomar as medidas cabíveis para que a sujeira comum do mundo profano não penetre naquela área santificada. A noção de santo está conectada à de uma pureza, àquilo que não se mistura com o que é baixo, sujo e vil.

“A etimologia da palavra o estipula: é ‘santo’ o que foi posto à parte, separado do profano e do impuro. Não haveria, na noção mesma de sacralidade, um fermento de apartheid?” (DEBRAY, Régis. Deus – Um Itinerário. Cia das Letras, p. 106)

Apartheid vem do termo inglês apart. As religiões, se unem certos grupos através do cimento invisível de uma fé comum, inegavelmente também acarretam divisões radicais entre seitas de crentes, tendo como frutos amargos estas instituições bastante concretas de apartação. Os muros do apartheid são com frequência construídos com o combustível psíquico de crenças religiosas motivadoras dos indivíduos que, constituídos em grupos, por razões de fé, tornam-se xenófobos e racistas, ou seja, odiadores da diferença.

Não é novidade para ninguém que a Nação que faz imprimir em suas cédulas o In God We Trust desejaria que a economia global caísse inteira de joelhos diante da supremacia dos U.S.A., a ponto de até nos reinos de Alá ou nas regiões onde quem diviniza-se Mao Tsé-Tung ou Ho Chi Minh, tudo se curve ao poderio do Deus Dólar…

Débray nos lembra, bem a propósito, que “na Guerra Fria, o Senado dos EUA integrou o ‘One Nation Under God’ ao ‘Pledge of Allegiance‘; o banco federal, pouco depois, emitiu dólares com o famoso ‘In God We Trust’.” (p. 166) Mesmo na nação que alguns insistem em idolatrar como Primeiro Mundo, como Paradigma de Modernidade, o obscurantismo religioso e os genocídios motivos pela fé são moeda corrente.

A as chacinas de George W. Bush e sua corja, perpetradas no Oriente Médio, na Guerra Contra o Terror que visava destruir o diabólico “Axis of Evil”, não nos deixam mentir. Posando de Cidadãos-de-Bem, em Missão Sagrada de Intervenção, os EUA conseguiram cometer alguns dos piores crimes contra a humanidade do século 21 (como está vastamente argumentado nos livros políticos de Arundhati Roy). Longe de serem os Bons, os Justos, os Salvadores, os que encabeçam o militarismo imperialista Yankee não podem ser descritos como aqueles que vão nos livrar do Estado Islâmico, são ao contrário co-responsáveis por seu surgimento, pois esta é uma treta de fanáticos, um clash de obscurantismos.

Esse recorrente “retorno do religioso”, apesar dos Iluminismos, faz da crença em Deus uma espécie de perpétuo bumerangue: quando parece que distanciou-se, volta voando em nossa direção. É esse um dos temas discutidos pelo brilhante Daniel Bensaïd em Os Irredutíveis: 

“As novas místicas reagem às formas modernas de desolação social e moral do mundo, assim como às incertezas sobre a maneira de habitar politicamente um mundo em convulsão. Não são, como se ouve muito frequentemente, ‘velhos demônios’ que voltam, mas demônios perfeitamente contemporâneos, nossos demônios inéditos, nascidos das núpcias bárbaras entre o mercado e a técnica.

Quando a política está em baixa, os deuses estão em alta. Quando o profano recua, o sagrado tem sua revanche. Quando a história se arrasta, a Eternidade levanta vôo. Quando não se querem mais povos e classes, restam tribos, etnias, massas e maltas anômicas. No entanto, seria errôneo acreditar que essa volta da chama religiosa seria particularidade dos bárbaros acampados sob as muralhas do Império. O discurso dos dominantes não é menos teológico, como mostra o revival de seitas de todos os gêneros nos próprios Estados Unidos.

Quando George Bush, no dia seguinte ao 11 de Setembro de 2001, falou de Cruzada contra o Terrorismo, não se tratava de um lapso infeliz. Quando se pretende conduzir não mais uma guerra de interesses contra um inimigo com o qual será preciso acabar negociando, mas uma guerra do Bem absoluto contra o Mal absoluto (com o qual se diz que não se pode negociar), trata-se de uma guerra santa, de religião ou de ‘civilização’. E quando o adversário é apresentado como uma encarnação de Satã, não é de espantar que ele seja desumanizado e bestializado, como em Guantánamo ou em Abu Ghraib.” (BENSAÏD, p. 15)

“Judas Iscariotes se enforca”, um detalhe do afresco sobre o Juízo Final, de Giotto, na Capella degli Scrovegni, em Pádua, Itália.

BIBLIOGRAFIA

BENSAÏD, DanielOs Irredutíveis – Teoremas da Resistência Para O Tempo Presente. Boitempo, 2017.

DÉBRAY, RégisDeus – Um Itinerário. Cia das Letras, 2004.

LÖWY, Michael; BENSAÏD, DanielCentelhas. Boitempo, 2017.

Por Eduardo Carli de Moraes, Professor de Filosofia (IFG – Anápolis). Goiânia, 2018.

“No dia seguinte ninguém morreu” – José Saramago sonda a tragicomédia da existência em “As Intermitências da Morte” (2005)

Nunca houve, desde que há mundo, um único dia que tenha transcorrido sem mortes. Não há registro ou notícia, desde que há vidas nesta esfera que rodopia ao redor do sol, de um giro completo do planeta ao redor de seu próprio eixo em que não tivessem se entremesclado no Theatrum Mundi os primeiros gritos dos recém-nascidos com os últimos suspiros dos agonizantes (como já nos ensinava a poesia epicurista de Lucrécio).

Se na realidade nunca houve época em que a morte tivesse entrado em férias, na literatura pode-se fantasiar livremente sobre o inaudito, o inédito, o nunca-dantes-nos-anais-da-história: como aquela formidável época em que a gente parou de morrer. A crônica imaginária destes sucessos extraordinários foi realizada em As Intermitências da Morteromance publicado em 2005 por José Saramago e que assim se inicia:

“No dia seguinte ninguém morreu. O fato, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme… não havia notícia nos 40 volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenômeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas 24 horas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar.” (SARAMAGO – Cia das Letras, 2005, p. 11)

Na trajetória do escritor, este livro é da fase tardia, escrito após a consagração mundial de Saramago em 1998, quando o hoje defunto autor português foi laureado com o Nobel de Literatura, aquele prêmio que concede a tão poucos e seletos mortais a aura de sua glória, auréola de fama que promete a seu detentor que sua obra irá seguir ecoando, enganando a bocarra gigantesca da obscuridade do túmulo que engoliu quem esta obra pariu.

Neste livro, como de praxe, o Saramago é o cronista sagaz de nosso absurdo individual e coletivo. É o autor capaz de enxergar com profunda ironia, tingida de melancolia, todas as nossas adversidades, todas as nossas idiotices, todas as nossas incompletudes. É também o crítico mordaz das religiões instituídas, das máphias políticas, das velharias autoritárias, agindo como um iluminista tardio que age contra todos os obscurantismos que insistem em medievalizar a terra.

Saramago atua, através de sua caudalosa escrita, como um pedagogo sábio que quer nos ensinar a travessia que vai da cegueira à lucidez. Pela via régia do ateísmo, busca a emancipação do pensamento e da sensibilidade, libertos das cataratas de mentiras que nos vendam os olhos. O pior cego é o que não quer ver, o que pôs vendas em seus próprios olhos, em atitude análoga à daquele que está perecendo em uma cela de prisão sem perceber que a chave está por dentro.

Explorado em outras de suas obras, como Ensaio Sobre a Cegueira, o tema da cegueira – não literal, mas sim moral, existencial, relacional – parece estar correlacionado, na obra saramaguiana, com a condição mortal. Como se fôssemos demasiado covardes, a maioria de nós e a maior parte do tempo, para estar with eyes wide open diante de nossa condição.

Preferimos a semi-obscuridade – a falta de lucidez – de nossas fés e ideologias, que tanto contribuem para que vivamos com eyes wide shut (nome, aliás, do notável filme de despedida de Stanley Kubrick). Cegos de propósito, pois nunca suficientemente corajosos para encarar, no espelho, a caveira que nos olha de volta por detrás da pele da face. Crânio escondido por detrás da cara que é o retrato de nosso futuro incontornável.

O único animal que sabe que vai morrer inventa, através da história, os ópios e morfinas espirituais que mediquem sua angústia da finitude. A música do Morphine expressa isto à perfeição em Cure for Pain, uma das mais belas canções do finado Mark Sandman: “someday there’ll be a cure for pain, that’s the day I’ll throw my drugs away”.

Saramago sabe que as religiões instituídas, aí incluída a católica apostólica romana, sempre insistiram no tema da “morte como porta única para o paraíso celeste, onde, dizia-se, nunca ninguém entrou estando vivo, e os pregadores, no seu afã consolador, não duvidavam em recorrer a todos os métodos da mais alta retórica e a todos os truques da mais baixa catequese para convencerem os aterrados fregueses de que, no fim de contas, se podiam considerar mais afortunados que os seus ancestres, uma vez que a morte lhes havia concedido tempo suficiente para prepararem as almas com vista à ascensão do éden” (p. 133). A extinção da morte é um perigo para a sobrevivência das religiões instituídas, estas profanas criações humanas destinadas a pôr em circulação os ópios fantasiosos que acalmam os terrores e angústias do bicho que sabe que vai morrer.

Há muito tempo estou convencido – e nisto a leitura de Saramago muito contribuiu – de que as religiões e as mitologias são incompreensíveis em um horizonte onde não coloquemos, no cerne, a mortalidade humana e o nosso protesto contra ela. Diante da morte invencível, os seres humanos erguem suas catedrais e suas preces; imaginam-se triunfantes em um além-túmulo que o poeta Tennyson chamará de local do Segundo Nascimento; Idolatram a figura de um crucificado que supostamente voltou à vida depois de três dias morto. Só inventamos deuses pois morremos – e é porque morremos que “se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo.”

Pintura de Andrea Mantegna – “Lamentação de Cristo”

Mortais humanos apegam-se com esperanças fervorosas ao sonho de ressurreição, e olhando, seja de frente ou de soslaio, seus destinos de criatura temporárias, abraçando ou recusando esta ciência fatal, os seres que somos recusam-se a ir ladeira abaixo, no processo que conduz pra baixo da terra, em silêncio e resignação. Para lembrar o célebre estribilho poético: We not go quietly into that good night… We rage, rage against the dying of the light! (Dylan Thomas)

Como disse Albert Camus, “o ser humano é a única criatura que se recusa a ser o que é.” E a danada da morte tem tudo a ver com isso. Ela é, para os viventes, aquilo que Manuel Bandeira chamou de “a indesejada das gentes” – e os suicidas sempre foram minoria da humanidade, pois os que buscam com ânsia uma morte que lhes dê fim aos tormentos e angústias sempre foram menos numerosos do que aqueles que foram impelidos à sobrevivência resiliente até que o tempo os matasse com seus instrumentos do costume, como as doenças e as violências bélicas. Ainda assim, o suicídio e a eutanásia são fenômenos que nos obrigam a refletir sobre o direito de morrer, quando a vida não é mais sentida como digna de ser vivida, um tema abordado com muita sensibilidade e pungência por filmes como Mar Adentro de Amenábar ou Amor de Haneke.

Saramago, no espaço livre de seu livro, suspende as leis natural que estão por aí desde que o mundo é mundo. Mago plenipotente no espaço de seu romance, ele conta uma história fantasiosa: na alvorada de um ano novo, todos os 10 milhões de habitantes de um certo país subitamente descobrem que a morte saiu de férias. Por tempo indeterminado. Sem aviso prévio, abandonou o posto e desistiu de seu fatal ofício, há tantos milênios incansavelmente exercido.

Não se sabe os motivos de sua greve, e ninguém explicou se o fenômeno é uma casual e efêmera transformação da ordem cósmica, que logo re-entrará nos eixos costumeiros, ou se as regras da vida e da morte foram alteradas para sempre neste pequeno rincão da terra. A princípio, é o fervor patriótico e todos comemoram o privilégio. Logo depois, percebem que a morte sair de férias irá acarretar um imenso transtorno – tanto é assim que os fluxos migratórios irão se acentuar, com inúmeros nômades-peregrinos querendo chegar a outro país onde ainda se tem a possibilidade de morrer.

Tudo se transtorna com as férias que a morte resolveu tirar: os hospitais ficam repletos de doentes terminais, os asilos de velhos sofrem com o excesso dos agonizantes estão à espera de seu ocaso, os escritórios das companhias de seguros e os bancos onde elas depositam seus capitais entram em crise…

Os impactos na economia são tremendos – e não apenas no pequeno nicho que são as empresas funerárias, que fornecem aos que sobrevivem os necessários auxílios para o despojo daquelas partes do ex-vivo tão brutalmente chamados por alguns de “restos mortais”, aquilo que, abandonado pela chama da vida, apodrece logo com exalações de odores pútridos e que por isso corremos a afastar de nossas fuças e vistas.

A teledramaturgia, nos últimos anos, foi responsável pela criação de uma obra-prima das séries dramáticas com A Sete Palmos (Six Feet Under), da HBO, cujas 5 temporadas expuseram em minúcias as vidas da família Fisher e seus agregados afetivos enquanto tocam avante a difícil empreitada de gerir uma funerária.

Saramago também se interessa por todas as indústrias que lucram com a morte, mas é mais como um crítico ácido que ele atua, nunca como alguém que não enxergue a problemática complexa que envolve hospitais, asilos, funerárias e os elos que os conectam aos poderes políticos e eclesiásticos. As altas cúpulas do clero e as altíssimas autoridades do reino são alvo da pena mordaz de Saramago, que em inúmeros livros despeja sua ironia sobre o fenômeno da vinculação teologia-política (Memorial do Convento, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Caim etc.).

Em As Intermitências da Morte, o romance revela tudo o que ocorre no curto período em que a morte cessa de desempenhar suas funções.

“A igreja”, por exemplo: “saiu à arena do debate montada no cavalo-de-batalha do costume, isto é, os desígnios de deus são o que sempre foram, inescrutáveis, o que, em termos correntes e algo manchados de impiedade verbal, significa que não nos é permitido espreitar pela frincha da porta do céu para ver o que se passa lá dentro.

Dizia também a igreja que a suspensão temporária e mais ou menos duradoura de causas e efeitos naturais não era propriamente uma novidade, bastaria recordar os infinitos milagres que deus havia permitido se fizessem nos últimos 20 séculos, a única diferença do que se passa agora está na amplitude do prodígio, pois que o que antes tocava de preferência o indivíduo, pela graça da sua fé pessoal, foi substituído por uma atenção global, não personalizada, um país inteiro por assim dizer possuidor do elixir da imortalidade, e não somente os crentes, que como é lógico esperam ser em especial distinguidos, mas também os ateus, os agnósticos, os heréticos, os relapsos, os incréus de toda a espécie, os afeiçoados a outras religiões, os bons, os maus e os piores, os virtuosos e os maphiosos, os verdugos e as vítimas, os polícias e os ladrões, os assassinos e os doadores de sangue, os loucos e os sãos de juízo, todos, todos sem exceção, eram ao mesmo tempo as testemunhas e os beneficiários do mais alto prodígio alguma vez observado na história dos milagres…” (p. 75)

Descrente em milagres como bom ateu, Saramago brinca de imaginar as consequências que tomariam o mundo caso este milagre ocorresse e a “Velha da Capa Preta” parasse de trabalhar. O desemprego dos coveiros seria a menor de nossas encrencas. A editora Companhia das Letras sintetizou bem os charmes e graças do romance:

De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema.

Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder “passar desta para melhor”. Os empresários do serviço funerário se vêem “brutalmente desprovidos da sua matéria-prima”. Hospitais e asilos geriátricos enfrentam uma superlotação crônica, que não pára de aumentar. O negócio das companhias de seguros entra em crise. O primeiro-ministro não sabe o que fazer, enquanto o cardeal se desconsola, porque “sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja”.

Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o cotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna?

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Vale lembrar que, na arte brasileira, há também um magnum opus que se equipara a Saramago na capacidade de expressar de maneira criativa e expressiva o enrosco humano com a mortalidade: estou falando da música de Siba, depois regravada por Juçara Marçal em seu álbum Encarnado, “A Velha da Capa Preta”:

A morte anda no mundo
Vestindo a mortalha escura
Procurando a criatura
Que espera a condenação
Quando ela encontra um cristão
Sem vontade de morrer
Ele implora pra viver
Mas ela ordena que não
Quando o corpo cai no chão
Se abre a terra e lhe come
Como uma boca com fome
Mordendo a massa de um pão

A morte anda no mundo
Espalhando ansiedade
Angústia, medo e saudade
Sem propaganda ou esparro
Sua goela tem pigarro
Sua voz é muito rouca
Sua simpatia é pouca
E seu semblante é bizarro
A vida é corno um cigarro
Que o tempo amassa e machuca
E morte fuma a bituca
E apaga a brasa no barro

A morte anda no mundo
Na forma de um esqueleto
Montando um cavalo preto
Pulando cerca e cancela
Bota a cara na janela
Entra sem ter permisão
Fazendo a subtração
Dos nomes da lista dela
Com a risada amarela
É uma atriz enxerida
Com presença garantida
No fim de toda novela

Disse a morte para a foice:
Passei a vida matando
Mas já estou me abusando
Desse emprego de matar
Porque já pude notar
Que em todo lugar que eu vou
O povo já se matou
Antes mesmo d’eu chegar
Quero me aposentar
Pra gozar tranqüilidade
Deixando a humanidade
Matando no meu lugar

A personificação da morte não é novidade na história da arte – de Van Gogh (pintura acima) a Bergman (em um filme como O Sétimo Selo), artistas de várias vertentes já representaram a dita cuja de muitas maneiras, como um esqueleto que fuma um cigarro ou como uma jogadora de xadrez que oferece ao rival a oportunidade de adiar sua estadia entre os vivos, desde que consiga não tomar um xeque-mate.

No caso de Saramago, ele se deleita em imaginar as enrascadas em que a morte responsável por matar os humanos entraria caso mudasse seus métodos imemoriais. A morte, quando sai dos trilhos, acaba por descarrilhar todo o trem da vida. Primeiro, ela escolhe as férias, mas depois decide retornar à labuta, mas com outra estratégia: mandará pelo correio uma carta de cor violeta, avisando aos que estão na iminência de morrer que lhes resta apenas uma semana de vida…

Poética, a morte pensa em enviar, ao invés de cartas, borboletas – em especial a espécie acherontia atroposdotada pela natureza de um visual curiosamente fúnebre. São maneiras irônicas de Saramago nos sugerir, com muita graça, que a morte sempre fez parte da vida e que ainda bem que é assim. Esta funcionária exemplar causaria o caos caso falhasse no desempenho de suas funções. Hospitais engarrafados de tantos doentes, asilos às dúzias tendo que ser construídos às pressas, empresas de enterros indo à falência, e religiões instituídas caindo no colapso – tudo isso como resultado da temporária intermitência da morte em seu ofício.

Se a vida fosse impossível de perder, que valor teria? Não temos apreço senão por aquilo que é a um só tempo precioso e destrutível. Sabemos e sentimos que tudo de bom que vivemos é efêmero e temporário, e André Gide ensinava que quem não pensa suficientemente na morte não consegue dar o devido peso e urgência à vida: “Um pensamento insuficientemente constante sobre a morte”, escrevia Gide, “nunca deu valor suficiente ao mais ínfimo instante de vida.”

Nas páginas de Saramago, é como se a morte aparecesse como a necessária força de renovação das coisas. Sem morte, tudo estagnaria e o mundo viraria um amontoado de velharias. O fluxo cósmico perderia sua fluidez. As velharias se amontoariam, sufocando o novo. Só através da morte é que a vida pode inovar. No balé infindável de Eros e Tânatos, o palco do mundo vê a emergência sem fim de novas formas. Metamorfoses advindas interminavelmente da dialética inextirpável da vida e da morte.

Pintura de Michael Wolgemut, “A Dança dos Esqueletos”

Em seus momentos mais filosóficos, As Intermitências da Morte nos faz refletir sobre os diversos modos de findar a existência, de acordo com o organismo vivo que chega a seu ocaso, como no capítulo 6, em que um peixinho de aquário, alçando-se por sobre as águas, pergunta (perdendo seu pobre fôlego):

“Já pensaste se a morte será a mesma para todos os seres vivos, sejam eles animais, incluindo o ser humano, ou vegetais, incluindo a erva rasteira que se pisa e a sequoia giganteum com os seus 100 metros de altura, será a mesma a morte que mata um homem que sabe que vai morrer, e um cavalo que nunca o saberá. E tornou a perguntar, Em que momento morreu o bicho-da-seda depois de se ter fechado no casulo e posto a tranca à porta, como foi possível ter nascido a vida de uma da morte da outra, a vida da borboleta da morte da lagarta, e serem o mesmo diferentemente, ou não morreu o bicho-da-seda porque está na borboleta… Disse o espírito que paira sobre as águas do aquário, o bicho-da-seda não morreu, dentro do casulo não ficou nenhum cadáver depois de a borboleta ter saído, tu o disseste, um nasceu da morte do outro, Chama-se metamorfose, toda a gente sabe do que se trata, disse condescendente o aprendiz de filósofo….” (p. 72)

Morte e vida dançam o rock da metamorfose no fluido palco do universo, mas cada organismo tem seu modo de experenciar o seu próprio processo de dissolução: se é verdade que o homo sapiens é o único animal consciente de sua própria mortalidade, ainda que ele tanto se esforce para recalcar e reprimir esta ciência (através de métodos psicológicos brilhantemente iluminados por Ernest Becker em A Negação da Morte, belíssimo livro laureado com o Pulitzer), não se pode negar que outros animais dotados de sistema nervoso central e altamente sensíveis aos estímulos ambientais também batalhem com todas as forças de seu âmago contra quem quer lhes impor a morte. Ser um animal é estar animado pelo duro desejo de durar.

Um pomar não nos dá a mesma impressão de resiliência, de perseverança na existência, de manifestação concreta do conatus conceituado na filosofia de Spinoza, o que torna bastante cômicos e risíveis os argumentos de certos carnívoros que, diante da argumentação de vegetarianos em prol da libertação animal, argumentam que as cenouras e os alfaces gostam tão pouco de terem suas vidas abreviadas quanto os porcos e bois abatidos nas milhares de factory farms desde nosso mundo.

Neste debate, Jacques Derrida foi ao cerne do problema ao dizer que a questão crucial a se colocar, diante da vida de um outrem não-humano, é esta: “esta criatura pode sofrer?” E só um mentecapto seria capaz de avaliar, no termômetro da sofrência, que um porco ou uma galinha sofrem menos que uma maçã ou um brocólis com a interrupção de sua existência para fins alimentícios humanos. O apego à vida é evidente maior quanto mais ampla é a consciência que o animal possui de sua condição existencial – e, como Peter Singer argumenta, é um escândalo global chocante o quanto nossas economias ainda estão baseadas no morticínio ultra-disseminado de criaturas que sofrem imensamente com o processo mortífero que os humanos lhes impõem, ao invés de adotarmos uma cultura culinária mais sábia pois atenta aos interesses de seres sencientes semelhantes a nós mesmos.

Passando ao largo dessas questões, o romance de Saramago prefere focar nas reações humanas diante da aproximação da data fatal nas novas condições impostas pela Dona Morte, que no âmbito do romance resolveu inovar em seus métodos. O affair quase romântico da morte com um violoncelista serve como emblema saramaguiano para os poderes transformadores da arte: sob o impacto da aproximação da morte, o músico toca seu Bach, seu Chopin, seu Beethoven, com tal feeling e potência expressiva que tudo transfigura a seu redor.

Saramago imagina então que a morte, encantada com a musicalidade deste mortal que ela não consegue se decidir a matar, escolhe fazer o que nunca antes fizera – é só lembrar que ela não teve piedades, em sua ação pretérita, de gênios musicais colhidos tão cedo do jardim da vida como Schubert, Mozart ou Janis. A morte depõe suas armas diante da música, adia suas tarefas, deixa para depois o único mandamento que segue – “matarás!” Enfeitiçada pela música que fazem os vivos, a morte que nunca dorme decide-se a deixar a foice encostada e vai tirar uma soneca – afinal suas pálpebras pesam após tanto tempo de ação em completa insônia. “E no dia seguinte ninguém morreu…”

“O que à morte impressionava era ter-lhe parecido ouvir naquela música uma transposição rítmica e melódica de toda e qualquer vida humana, corrente ou extraordinária, pela sua trágica brevidade, pela sua intensidade desesperada, e também por causa daquele acorde final que era como um ponto de suspensão deixado no ar, no vago, em qualquer parte, como se, irremediavelmente, alguma cousa ainda tivesse ficado por dizer… (p. 171)

É nossa sina de seres temporários que nunca possamos abandonar o palco depois de tudo termos dito. Resta sempre muito por dizer, e o resto é silêncio. Na literatura de Saramago, este incontornável da condição humana recebe um tratamento literário que é tonificante, não só pela liberação lúdica que nos fornece, aliviando a gravidade com que costumamos tratar do assunto e polvilhando tudo com um espírito de jocosa ironia, mas também pela intensificação de nossa consciência do quão tragicômico é este clarão entre dois nadas que cada um de nós chama de vida.

A morte saramaguiana tem muita graça e lendo este romance pude me divertir a imaginá-la como um funcionária exemplar, que desde a alvorada da vida exerceu suas funções de maneira impecável, mas que enfim decide reclamar seus direitos trabalhistas e reclamar do patrão (deus ou o universo, segundo o gosto do freguês…), já que ela já labuta há milênios, sem férias nem direito a greve, matando 24 horas por dia, inclusive em feriados religiosos e nos horários mais impróprios da madrugada.

A morte é parte inextricável e incontornável da vida de que cada um de nós não detêm a posse mas somente o fugaz usufruto. E a sabedoria epicurista sempre ensinou que não há carpe diem sem memento mori. Saramago, acredito, assinaria embaixo caso a morte tivesse lhe deixado mãos para escrever. Também assinaria embaixo, provavelmente, de duas idéias filosóficas que muito aprecio: a primeira, de Montaigne, que dizia que “filosofia é aprender a morrer”, e a segunda, de André Comte-Sponville, que ensina que “é preciso pensar a morte para amar melhor a vida – em todo caso, para amá-la como ela é: frágil e passageira.”

O pensamento de Saramago, tão filiado a um certo ímpeto de lucidez iluminista que batalha contra o obscurantismo e o fanatismo, busca conduzir-nos a esta sábia apreciação de nossa existência mortal que é tão rara e preciosa. Escrevendo logo após os atentados de 11 de Setembro de 2001, Saramago soube conectar com profundidade os fatores inextricáveis mortalidade religiosidade ao escrever “O Factor Deus”, excelente provocação filosófica-política que é recomendável como posfácio às Intermitências da Morte:

“De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta dos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas sem excepção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que isto seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel.

Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os taliban, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente os textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conluio pactuado entre Religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos, o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gémeas de Nova Iorque e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela acção dos homens, cobriram e teimam em cobrir de torpor e sangue as páginas da História.

Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o “factor Deus”, esse está presente na vida como se efectivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o “factor Deus” o que se exibe nas nota de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos e não a outra…) a benção divina. E foi o “factor Deus” em que o deus islâmico se transformou que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o “factor Deus”, esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem, acabou por fazer do homem uma besta.

Ao leitor crente (de qualquer crença…) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiram, não peço que passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento se não puder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do “factor Deus”. Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.” – SARAMAGO / O FACTOR DEUS

Por Eduardo Carli de Moraes, Goiânia, Julho de 2018

 

NASCER É UMA ENCRENCA: Leitura em paralelo de “Enclausurado” de Ian McEwan e “O Trauma do Nascimento” de Otto Rank (por Eduardo Carli de Moraes @ A Casa de Vidro)

I. PRELÚDIO: CARTOGRAFIA DOS QUE ENCRENCARAM COM O FATO DE TERMOS NASCIDO

Em uma das frases mais impactantes já paridas na história da literatura brasileira, Machado de Assis põe na boca de Brás Cubas, que narra suas memórias direto do além-túmulo, uma súmula de sua estadia entre os vivos: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”

Este sarcástico petardo de pessimismo Schopenhaueriano, que serve de inesquecível epitáfio para as Memórias Póstumas, revela o imenso talento de Machado para inserir em uma única frase todo um tratado de filosofia.  Na tradução do livro para o inglês, o título da obra tornou-se Epitaph For A Small Winnerde modo que o pensamento de Cubas ganha ainda mais destaque como “o epitáfio de um pequeno vencedor”.

É uma frase tão magistral que o Emil Cioran (1911 – 1995), um dos melhores forjadores de frases assim, poderia tê-la invejado e ter sentido comichão por não tê-la escrito. Este filósofo romeno, aliás excelente escritor e talentoso estilista da prosa, explorou como ninguém, no pensamento do século 20, o fenômeno que chamou de “o inconveniente de ter nascido”. 

Estudioso voraz da história da filosofia, Cioran encontrou seus heróis bem longe de nomes consagrados como Platão e Kant, pensadores de quem foi antagonista e crítico feroz. Preferia mirar-se no exemplo de obscena lucidez do filósofo cínico Diógenes, “um santo da chacota”.  Também um profundo conhecedor e debatedor dos escritos de Nietzsche, Cioran decerto sabia muito bem que os pensamentos que problematizam a encrenca que é nascer circulam desde tempos imemoriais. Encontramos um excelente exemplo na mitologia grega: ela nos conta que Sileno, companheiro de Dionísio, teria sido questionado pelo rei Midas sobre qual era, dentre todas as coisas, a melhor para o ser humano.

Em O Nascimento da Tragédia, Nietzsche relembra o mito e conta que Sileno, após ser perseguido pelo Rei Midas pela floresta, foi capturado e questionado sobre o sumo bem para as pessoas, tendo dado uma resposta que atravessará os séculos como um emblema do niilismo:

“Forçado pelo rei, prorrompeu finalmente, por entre um riso amarelo, nestas palavras:

– Estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer.”

“Sileno Ébrio sustentado por sátiros”, pintura atribuída a Antoon van Dyck. Aproximadamente 1620. Copyright (C) The National Gallery, London.

Fico me perguntando, diante de idéias assim, rotuladas como niilistas ou pessimistas, se isso tudo é pra ser levado a sério. Em mim, confesso, idéias assim fazem cócegas. Isso de “não ter filhos para não transmitir a ninguém o legado de nossa miséria”, isso de ser delicado e generoso o bastante com os não-nascidos para evitar que sofram “o inconveniente de nascer”, são propostas éticas e existenciais a serem seguidas a risca? Ou estas propostas são veículos também de um certo escárnio, de um libertador humor que nos emancipa até mesmo daquele fardo que é crer na seriedade da vida?

O que fascina em idéias deste teor é a ousadia com que confronta-se o senso comum, que tende a conceber a vida como: um dom de Deus, o maior dos bens, a maravilha das maravilhas, valor absoluto e independente de quaisquer circunstâncias. Questionar o valor do nascimento ou da transmissão da vida é pôr em dúvida o próprio dogma quase nunca questionado da vida como um valor absoluto.

Ouvi outro dia que “a vida é uma doença sexualmente transmissível e com um grau de letalidade de 100%”. E não só encontrei aí motivos para o riso, mas também achei neste pensamento tragicômico um bom grau de verdade. Na filosofia budista, aliás, a pior coisa que pode acontecer ao sujeito é ficar empacado na roda do Samsara, renascendo sem fim neste mundinho de tédios e sofrimentos, retornando sempre para a mesma sede insaciável, a insatiable craving que nos torna, segundo Schopenhauer, parecidos a torturados míticos como Íxion ou as Danaides. Nada parece mais desejável aos praticantes do budismo, que aspiram atingir o Nirvana, do que cessar de (re)nascer!

Tendo a achar graça quando leio pensamentos desta estirpe – que abundam também nas páginas de Samuel Beckett ou de Louis-Ferdinand Céline… – pois decerto há algo de cômico nas hipérboles pessimistas, algo que as aproxima do chamado “humor negro”. Descrever o nascimento como um péssimo negócio pode inclusive aliviar o insustentável pesadume de ser: há possibilidade de alívio afetivo na expressão de nossas inquietações existenciais, inclusive aquelas que nos levam a pôr em questão se a vida vale a pena ser vivida.

Em O Mito de Sísifo, Camus dizia que o suicídio é a maior das questões filosóficas. Acredito que Camus pensava que decidir-se quanto à questão do suicídio, abraçá-lo ou recusá-lo, significa escolher entre permanecer na vida, apesar de todo seu absurdo e de todos os aspectos revoltantes e intragáveis da realidade, ou aniquilá-la de vez, manifestando assim, em ato e de fato, o veredito do sujeito sobre a indesejabilidade de viver. Decidir se nascer foi uma boa ou má coisa é algo que implica-nos na filosofia mesmo que não o saibamos; somos filósofos, ainda que inconscientes disso, quando por atos e palavras buscamos dar sentido, forma e mérito a isto que nos aconteceu a todos: nascer.

O aspecto mais enigmático de nascer consiste, certamente, no fato de que ninguém solicitou vir à vida: dão-nos à luz, é verdade, mas é à nossa revelia. Sempre podemos dizer, cada um de nós, com justiça: “não pedi para nascer”. O mundo é um espaço ao qual fomos lançados por forças que parecem transcender totalmente a nossa escolha. O nascimento prescinde da vontade do sujeito que nasce; ele é produto da união de outras vontades, mas vêm à existência sem ter escolhido este rumo, este destino, este fatum. Pelo menos assim parece ser àquele que segue a filosofia materialista, de matriz epicurista, que concebe o tempo de existência como rodeado, no passado e no futuro, por dois grandes e misteriosos nadas:

O filósofo romano Lucrécio (1º século antes de Cristo)

“Olhe para trás: nada foi para nós
Todo o tempo infinito antes da gente nascer!
Isto é como um espelho vazio onde vêm se refletir
Aquilo que será o tempo que se seguirá à nossa morte.
O que perceberíamos nisto de horrível ou de triste?
Não é isto um repouso mais doce que o sono?”

(LUCRÉCIO: Da Natureza, III, 972-977)

Lucrécio, no clássico poema epicurista Da Natureza, explicitará seu estarrecimento diante do quão pouco os seres humanos se espantam diante do fato de que um tempão gigante decorreu antes deles terem nascido. O tempo que precedeu nosso nascimento é como se não existisse. Tendemos a ficar mais angustiados com a perspectiva do tempo, supostamente infinito, que decorrerá depois que morrermos. No entanto, ambos os tempos – o que precede nossa chegada ao mundo, o que sucede à nossa partida – são enigmáticos, pois transcendem a duração em que está comprimida a efêmera vela de vida dos mortais.

O enigma do mundo antes de nós parece ter premência menor sobre nossa curiosidade do que o enigma similar do mundo depois de nós. Alguns dos mais belos versos de Lucrécio são dedicados a isso, e uma de suas missões na vida, como a de seu mestre Epicuro, era curar o ser humano de seu medo da morte.

Estes exemplos, evocados en passant, são alguns indícios da dificuldade humana de suportar nossa condição. Também mostram uma miríade de diferentes expressões deste desconforto que parece inerente à condição humana, afinal somos (lá vem clichê…) o único animal que sabe que vai morrer. Talvez esta expressão da angústia de ter nascido mortal seja terapêutica, talvez seja até mesmo aquilo que salva alguns do auto-aniquilamento: falar mal da vida e de ter nascido pode às vezes salvar alguém do desejo de morrer, fazendo-o ter pelo menos a ânsia de quedar entre os vivos pelo prazer de expressar os desacertos e desencontros de que nossa condição está repleta.

Sabe-se do potencial de terapia da expressividade autêntica dos afetos há muito tempo, bem antes do advento histórico da psicanálise e de sua terapêutica, batizada por Anna O, desde os primórdios, como talking cure (cura pela fala) e chimney sweeping (limpeza de chaminés). Eu ousaria dizer que toda a poesia – Octavio Paz que me perdoe… – bebe eternamente na fonte da angústia. E diria ainda que falar mal da vida é um dos prazeres mais puros destes viventes que somos diante da encrenca que é termos nascido mortais, passageiros, adoecíveis, frágeis, incompletos, além de condenados sempre a amar o que está fadado a terminar. 

Eis algo também encapsulado com perfeição por Woody Allen em uma frase hilária: “a vida é repleta de miséria, solidão e sofrimento – e o pior de tudo é que acaba rápido demais.”

Ora, se “a vida é cheia de miséria, solidão e dor”, não teríamos porquê lamentar seu rápido fim, muito pelo contrário: morrer rápido seria a segunda melhor de todas as coisas, como sugere Sileno ao Rei Midas (a primeira melhor coisa seria, é claro, nunca ter nascido). O brilhantismo da frase de Woody Allen está em explicitar o paradoxo que está em lamentarmos que esta vida-encrenca acabe tão rápido, quando a julgamos tão lotada de aporrinhações. É tão lamentável que esta vida que nos espanca, nos humilha, nos maltrata, que por fim nos destina à condição de comida na cadeia alimentar, tenha ainda o atrevimento e a insolência de ser tão efêmera!

Na sequência, gostaria de explorar duas obras que mergulharam fundo em toda a maravilha e todo o horror de nascer: o inspirado romance Enclausurado (Nutshell), de Ian McEwan (Companhia das Letras, 2016), e o heterodoxo clássico psicanalítico O Trauma do Nascimento, de Otto Rank (Cienbook, 2016). Ambos são contribuições muito originais aos seus respectivos campos e fornecem incontáveis pretextos para a reflexão de todos aqueles que um dia nasceram – vulgo “nós” ou “todo mundo”. São livros repletos de food for thought para todos aqueles que um dia serão food for worms. 


II. ENCLAUSURADO: DILEMAS HAMLETIANOS DENTRO DE UM ÚTERO

“Ser ou não ser: eis a questão” – o dilema hamletiano é subvertido por McEwan em Enclausurado e torna-se um “nascer ou não nascer, eis a questão.” O romance é inteiro narrado por um feto dentro do útero e inspira-se diretamente no plot da peça Shakespeareana Hamlet.

Relembremos. Há algo de podre no reino da Dinamarca, vocês sabem bem: o Rei Hamlet foi morto por seu próprio irmão Claudius, que assume o trono e casa-se com a rainha recém-enviuvada Gertrude. O fantasma do rei morto aparece ao príncipe Hamlet, exigindo vingança e reparação; corroído pela insegurança, pela confusão, pela sedução do suicídio, pelo dever da vendeta, o atormentado príncipe descrito por Shakespeare é célebre por monólogos onde reflete interminavelmente sobre o que deve fazer.

Pegando carona neste célebre plot, McEwan encena um genial Hamlet Intrauterino. Já em seu terceiro trimestre de gestação, nosso minúsculo narrador testemunha de dentro de sua clausura maternal um tenebroso conluio entre sua mãe Trudy e seu tio Claude para assassinar seu pai, John Cairncross. O romance extra-conjugal de Trudy e Claude, que logo transforma-se em plano de homicídio com intentos de lucro prodigioso, têm por testemunha fetal nosso pobre protagonista e narrador em primeira-pessoa.

Tanto o pequeno herói de McEwan, confinado na barriga de sua mãe, quanto o príncipe de Shakespeare, têm em comum uma angustiada sensação de impotência, somada à necessidade premente de agir, diante de situações pra lá de encrencadas.

Quando esteve no Brasil, participando das comemorações dos 30 anos da Companhia de Letras, Ian McEwan comentou que um dos principais temas de Enclausurado é a “agência” [agency], ou seja, aquilo que compele o personagem a agir mesmo em um cenário onde tudo conspira para reduzi-lo à total impotência. Pois não parece haver alguém mais utterly powerless, mais totalmente desempoderado, do que um embrião em gestação.


McEwan, cuja trajetória artística têm consistido em ousadias narrativas cada vez mais arrojadas, é um dos gênios da literatura global contemporânea, autor dos magistrais Reparação (Atonement), Enduring Love, Amsterdam, Sábado, Solar, dentre outros. Este escritor britânico já faz por merecer um Nobel de Literatura ou o reconhecimento como autor destinado ao cânone futuro da escrita em língua inglesa. Qualquer crítica supostamente demolidora sobre a “inverossimilhança” de seu enredo cai por terra quando lemos Enclausurado, livro que demonstra que a literatura é um campo para a liberdade imaginativa e não para os realismos confinantes.

 De fato, é inacreditável que nosso narrador, com seus 8 meses de existência intra-uterina, tenha tal domínio linguístico e narrativo quanto está manifesto em cada frase, repleta de wit, de Enclausurado. Qualquer realismo foi chutado para escanteio, mas assim é também em grandes clássicos da literatura, e não somente do gênero ficção científica, que também não se deixaram engaiolar pela descrição realista. Caso a literatura tivesse se mantido agrilhoada ao realismo estrito, não teriam nascido obras-primas como o Frankenstein de Mary Shelley,  a Viagem ao Centro da Terra de Julio Verne, as Crônicas Marcianas de Ray Bradbury, nem as obras de Vonnegut, William Gibson ou  Philip K. Dick, nem… os exemplos são infindáveis.

Em Enclausurado, a leitura é tão deliciosa, a narrativa é tão arrojada, que não nos incomoda nem um pouco a absurdidade patente de que estamos diante de um bebê com uma inteligência e uma sensibilidade tão prodigiosas e precoces. Na real ele mais parece um bebê que tivesse o cérebro… de Ian McEwan.

“Então estou aqui, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda. Meus olhos se fecham com nostalgia quando lembro como vaguei antes em meu diáfano invólucro corporal, como flutuei sonhadoramente na bolha de meus pensamentos num oceano particular, dando cambalhotas em câmera lenta, colidindo de leve contra os limites transparentes de meu local de confinamento, a membrana que vibrava, embora as abafasse, com as confidências dos conspiradores engajados numa empreitada maléfica. Isso foi na minha juventude despreocupada…” (Cap. 1, p. 9)

O livro já começa encapsulando em poucas linhas muitas das melhores qualidades da prosa de McEwan: seu humor cáustico, que remete a Sterne ou Swift, explorado com magistrais efeitos também em seu romance Solar, tão genial e ainda subestimadoseu interesse pela vivência carnal, biofísica, de personagens que são enxergados sob o viés de um olhar “científico”, informado pela neurociência, pelo evolucionismo e pela pertença à complexas circunstâncias geopolíticas; sua capacidade de criar um suspense, uma thrilling vibe, através de situações extraordinárias que parecem desafiar a possibilidade da palavra escrita de descrevê-las.

O bebê que está enclausurado no ventre de Trudy, observando a mãe transformar-se em cúmplice do assassinato do pai, terá para si o dilema de Hamlet: vingar ou não vingar o ato horrendo de envenenamento de John Cairncross, não só pai da criança, mas talentoso editor de livros de poesia e “caça-talentos” no mercado editorial inglês. O bebê que antes curtia o resort aquático de seu oceano particular, curtindo a beatitude de um útero espaçoso, nutrido sem esforço algum (inclusive com doses embriagantes de bom vinho!), aproxima-se do momento de nascer quando a situação lá fora está pegando fogo.

Ele vê-se na necessidade de agir antes de nascer, de intervir no enredo de algum modo. Em cenas impagáveis e hilárias, descreve sua relação de ódio e rechaço diante da pica ereta de seu tio traíra; na hora do boquete, fica temendo que sua mãe engula a porra do tio e que aquilo acabe chegando para nutri-lo através do cordão umbilical; a certo ponto, desesperado, tenta suicidar-se, enforcando-se no próprio cordão umbilical. É um fracasso  (Cap. 13). A vida deste ainda-não-nascido não é mole…

Antes mesmo de ser plenamente, ele parece pender para a escolha do não-ser: “A gloriosa sociedade à qual em breve me reunirei, a nobre congregação de seres humanos, seus costumes, deuses e anjos, suas ideias ardentes e brilhante fermentação intelectual, já não me excitam… No meu estado de espírito, me inclino pela esterilidade do natimorto, depois as cinzas.” (Cap. 10, p. 97)

Em outros momentos, este mood suicida é vencido por um temperamento mais jovial, por uma ânsia de vida, em que o bebê mostra-se corajoso, cheio de audácia para enfrentar a aventura perigosa do viver: “Quero minha chance, a vida que me espera… Posso aguentar. Acredito na vida após o nascimento, embora saiba como é difícil separar a esperança dos fatos. Qualquer coisa mais curta que a eternidade vai servir. Setenta anos? Embrulhe, vou levar.” (p. 164)

Estas oscilações e mood swings são parentes próximas dos monólogos hamletianos. Mas McEwan sabe evocar temas que não poderiam estar nas reflexões de Hamlet enquanto procura determinar se deve ou não vingar a morte do pai. Hamlet não poderia, por exemplo, debater as idéias do filósofo político Thomas Hobbes, o que o bebê prodigioso de McEwan faz. Evocando o Leviatã do Estado, o bebê a certo ponto procura dissuadir-se da vingança:

 “Fazer a lei com as próprias mãos – isso é coisa do passado, típica de velhos albaneses com rixas de família e subdivisões do Islã tribal. A vingança está morta. Hobbes tinha razão, meu jovem. O Estado precisa deter o monopólio da violência, um poder centralizado que inspire em todos nós um temor reverencial.” (p. 61)

E é justamente o avanço dos agentes do Leviatã que servem de prelúdio ao nascimento do enclausurado: os policiais, a detetive de homicídios, despontam no horizonte existencial do embrião, enquanto ele assiste, de camarote, ao plano tétrico de sua mãe e seu tio chafurdar na lama de uma comédia de erros, daquelas que poderia ser filmada pelos irmãos Coen.

O bebê de McEwan vai percebendo, filósofo político mirim alimentado pelo noticiário, que a vingança sangrenta – o caminho Hamletiano, que arrastou em seu turbilhão de sangue os cadáveres de Ofélia, de Polônio, de Claudius, de Gertrude e do próprio príncipe, naquele banho-de-sangue palaciano que Shakespeare pinta em tão fortes cores – não será o seu.

“Hamlet e a Caveira de Yorick” – Pintura de Delacroix

“Vingança: o impulso é instintivo, poderoso – e desculpável. Insultado, enganado, ferido, ninguém pode resistir à atração de um pensamento vingativo. E aqui, nessa extremidade onde me encontro, um ente querido assassinado, as fantasias são incandescentes. (…) A vingança pode ser executada 100 vezes ao longo de uma noite insone. O impulso, a intenção sonhadora são humanos, normais, e devíamos nos perdoar. Mas a mão erguida, a execução violenta, essa é amaldiçoada. A matemática diz isso. Não há volta ao statu quo ante, nenhum refrigério, nenhum doce alívio – ou algum que dure. Só um segundo crime. Antes de embarcar numa viagem de vingança, cave duas sepulturas, disse Confúcio. A vingança desfaz as costuras de uma civilização. É um retrocesso rumo ao medo visceral e constante… A eliminação de Claude não trará meu pai de volta.” (p. 139)

Vocês vêem que o bebê, sábio apesar da tenra idade, consegue controlar seus impulsos de derramar o sangue do tio assassino e boçal; apesar das fantasias sangrentas que nutre, chega à decisão ética de que não vale a pena nascer para matar Claude, por vingança. O que vemos, na verdade, é o bebê transformar-se sorrateiramente em parceiro do Leviatã.

Legalista, o bebê enfim decide pela ação que dá desfecho à trama: diante do plano de fuga da mãe Trudy e do tio Claude, casal com as mãos sujas de sangue (ou melhor, de veneno…), ele toma a decisão de colaborar com a polícia. De dentro do útero, escolhe o momento mais inoportuno possível para romper a bolsa, forçando a barra para sair logo de sua bolsa de líquido amniótico. Sua vingança, ao invés de pagar na mesma moeda, consiste em sabotar o plano de fuga dos criminosos, contribuindo assim para a prisão dos homicidas.

“Depois de todas as minhas considerações e revisões, lapsos de percepção, tentativas de autoaniquilamento e tristeza pela passividade, tomei uma decisão. Chega. Hora de entrar em ação. Hora de começar… Duas semanas antes do tempo e unhas muito compridas…” (p. 193)

O rompimento da bolsa pelas unhas compridas da crianças, duas semanas antes do previsto, é também uma espécie de irrupção da liberdade na existência do bebê que narra Enclausurado. Ele tomou uma decisão, entrou em ação, sepultou a passividade, parou de pensar e passou a fazer. Nasce experimentando toda a glória e todo o horror da condição destas criaturas que, segundo Sartre, estão “condenadas à liberdade.”

Jovem grávida (2010) – de Dimitri Kozma

“Atravesso uma região que, eu sei, um pedaço do meu tio frequentou com demasiada frequência indo na direção oposta. Não me preocupo. O que nos dias dele era uma vagina agora tem o orgulho de ser um canal de nascimento, meu Panamá, e sou maior do que ele, um imponente navio de genes, enobrecido pelo avanço sem pressa, transportando minha carga de informações antigas. Nenhum caralho ocasional pode competir com isso. Durante algum tempo, fico surdo, cego e mudo, tudo me dói. Mas a dor é maior para minha mãe, que, aos gritos, faz o sacrifício de todas as mães por suas crias de cabeça grande e pulmões vigorosos…” (p. 198)

É como se McEwan fizesse o seu pequeno Hamlet decidir-se quanto aos dilemas do ser ou não ser, do vingar ou não vingar, de maneira mais “madura” e “civilizada” do que o príncipe da tragédia Shakespeareana. Apesar de todos os pesares, o herói em sua Nutshell – literalmente, “casca-de-noz” – vivencia altos dramas em seus 9 meses de vida, em que flerta com o pessimismo suicida mas termina como cúmplice do Leviatã. Nasce, como todos nós, berrando um primal scream saído dos pulmões de alguém que sabe que, ao nascer, a sua encrenca só começou. A última frase, genial, é simplesmente: “the rest is chaos” (“o resto é caos”).

Um aspecto pouco explorado do talento de McEwan está naquilo que eu chamaria de suas digressões geopolíticas, em que a literatura mostra-se profundamente antenada com os problemas coletivos globais, como o escritor já havia realizado, por exemplo, em Sábado, que se passa naquele memorável dia de mobilização global contra a Guerra do Iraque – 15 de Fevereiro de 2003 – e que levou às ruas de 600 cidades, em 60 países, mais de 5 milhões de cidadãos (Folha De São Paulo: “Maior Protesto da História Pede Paz”).

O protagonista de McEwan em Enclausurado têm sérias dúvidas sobre se nascer será um bom negócio, e isto não se deve somente à sua situação familiar e privada, mas também por sua percepção de que o mundo anda muito complicado e conflitivo. De dentro do útero, ele informa-se sobre a realidade do planeta através de podcasts e palestras ouvidas por sua mãe, de modo que transforma-se logo em alguém que debate internamente com pensamentos pessimistas e desesperados diante do estado das coisas:

“Uma especialista em relações internacionais me informou que o mundo não vai bem… A palestrante mostrou uma visão sombria de nossa espécie, em que os psicopatas constituem uma fração permanente, uma constante humana. A luta armada, justa ou não, os atrai. Eles ajudam a transformar desavenças locais em conflitos mais amplos. Segundo ela, a Europa, em meio a uma crise existencial, está irascível e fragilizada porque muitas variedades de nacionalismo autoindulgente estão provando dessa mesma poção saborosa… Unindo e nivelando toda a humanidade, os velhos e tediosos fatos da mudança climática, do desaparecimento das florestas, das criaturas e das calotas polares. A agricultura rentável e perniciosa destruindo a beleza biológica. Os oceanos se transformando em bacias de ácido diluído… Robôs roubando empregos…” (p. 32 -34)

Há páginas em que McEwan parece um sociólogo à la Bauman, fazendo leituras de conjuntura, mas isto está sempre inserido, como digressão, em sua teia narrativa. O bebê de Enclausurado, longe de ser totalmente narcisista e auto-centrado, focado apenas em sua intriga familiar, é alguém com interesse pela história, pela política, pelas relações internacionais, pela ecologia etc. Apesar da situação desgraçada em que ele vai nascer, num contexto tanto individual quanto coletivo dos mais encrencados, ele dá mostras de uma intensa ânsia de viver, mesclada com curiosidade, desejo de vivência, conatus em estado puro, invencível por quaisquer reflexões teóricas ou racionais.

“Quero ler até o final a Minha História do Século XXI. Quero estar lá, na última página, com oitenta e poucos anos, debilitado mas cheio de vigor, dançando uma música ligeira na noite de 31 de Dezembro de 2099. Pode ser que tudo acabe antes dessa data, sendo assim uma espécie de história de suspense, violenta, espetacular, altamente comercial. Um compêndio de sonhos, com elementos de horror. Mas está fadada a ser também uma história de amor e uma narrativa heróica de invenções brilhantes. Para sentir o gostinho, veja o volume anterior, de 100 anos antes. Uma leitura lúgubre, pelo menos até a metade, mas irresistível. Alguns capítulos que a redimem, digamos, sobre Einstein e Stravinsky.

No novo livro, uma das muitas tramas não resolvidas é a seguinte: será que os 9 bilhões de personagens vão conseguir escapar de um conflito nuclear? (…) E quanto nossos protagonistas estão decididos a superaquecer seus lares? Um ameno 1,6 grau, projeção ou esperança de alguns poucos céticos, criará montanhas de trigo na tundra, tavernas na beira das praias do Báltico, borboletas coloridas em territórios ao norte do Canadá. Na ponta mais sombria e pessimista, um aumento de 4 graus, caracterizado por fortes ventanias, provoca calamidades de inundação e seca, com o consequente agravamento do clima político…” (p. 133-134)

Eis um exemplo do quanto Ian McEwan é um autor plenamente embarcado no século 21, com suas sombrias perspectivas de disrupções climáticas, conflagrações nucleares e os fantasmas sempre redivivos do totalitarismo, do fascismo e do obscurantismo religioso militante. Pulsa nele também um forte espírito de valorização da empreitada tecno-científica, que não parece ser deslumbre acrítico diante de geringonças hi-tech e de prodígios como a Internet e os satélites, mas sim reconhecimento dos imensos avanços ocorridos, por exemplo, na área da neurociência, da genética e da medicina, sensível na ampliação inegável de nossa expectativa de vida (ao menos nos locais da terra onde há acesso à médicos e medicamentos…).

Enclausurado é um livro poderoso, que dá novo sentido à expressão “literatura visceral”, dialogando de modo fecundo e criativo com este clássico universal que é Hamlet. Revela também potência para ser debatido no âmbito da psicologia – tema do próximo capítulo, centrado na obra de Otto Rank, O Trauma do Nascimento. O protagonista de Enclausurado é alguém para quem nascer é um trauma, e mesmo aquilo que precede o nascimento está longe de ser um picnic de beatitude e despreocupação. Seus últimos momentos de vida intra-uterina e sua irrupção no mundo revelam um inesquecível personagem que sabe e sente, em carne viva, que nascer é uma grande encrenca.


III. OTTO RANK: O TRAUMA DO NASCIMENTO

O Trauma do Nascimento (Cienbook, 2016, 192 pgs) foi originalmente publicado em 1924 e levou seu autor, Otto Rank (1884 – 1939) a romper com o movimento psicanalítico fundado pelo “professor Freud”, com quem havia colaborado e debatido por duas décadas. Otto nasceu em Leopoldstadt, uma periferia de Viena, em 1884, em família de raízes judias, os Rosenfeld. Otto Rosenfeld, em certo momento, decide-se a mudar de sobrenome, adotando “Rank” por inspiração na peça de Ibsen, Casa de Bonecas. 

Ainda com 20 e poucos anos, escreve um livro sobre um dos temas que mais o ocupará em sua vida: a criação artística à luz da psicanálise. O trabalho impressiona o próprio Freud, que ajuda a publicá-lo; o “pai da psicanálise”, “impressionado com as qualidades intelectuais e o entusiasmo do jovem Rank, não apenas lhe concede um posto de secretário da Sociedade Psicanalítica de Viena (entre 1910 e 1915, quando teve oportunidade de protocolar todas as discussões do período), como também financia seus estudos universitários até o doutorado em filosofia, em 1912, com a tese O tema do incesto na literatura e no mito. (…) Em 1920, começa a atuar como psicanalista, com uma clínica no coração de Viena. Ele gozava do respeito e do afeto de Freud mas não um diploma em medicina…” (Érica Gonçalves de Castro, p. 11-12)

Da esquerda para a direita, sentados: Sigmund Freud, Sándor Ferenczi, Hanns Sachs. De pé; Otto Rank, Karl Abraham, Max Eitingon, Ernest Jones. 1922.

A obra de Otto Rank, de fato, manifesta um desejo de libertar a Psicanálise do confinamento no âmbito da medicina e da cura dos transtornos mentais e emocionais; sua ambição é que a psicologia, para além de seu benefício prático/terapêutico, possa fornecer chaves de compreensão para os mais longevos e insistentes mistérios, enigmas e esfinges da existência humana. Na década de 1920, Rank exporá sua polêmica teoria, fadada a tornar-se razão para muitas desavenças com seus colegas, em que concentra-se no sentimento de desamparo que sentimos após o nascimento e que seria determinante, vida afora, como um anseio de retorno ao útero materno.

O nascimento como trauma universal geraria um fenômeno subjetivo muito disseminado, um desejo onipresente apesar de recalcado, encontrável numa inumerável amplidão de produtos culturais e fantasias individuais: a nostalgia do útero, a fantasia de retorno a um estado concebido como paradisíaco (e que foi perdido). Este ímpeto libidinal de retorno ao contexto intrauterino, do qual fomos expulsos pelo parto, marcaria não só o mundo onírico de nossas noites (tanto as amenas quanto as de pesadelo), mas estaria presente, ainda que de modo disfarçado, nos mitos, nas religiões, nos produtos culturais, nos artefatos, nas criações artísticas, nos sistemas filosóficos etc.

Trauma do Nascimento cai como uma bomba no seio da ortodoxia Freudiana: pela primeira vez, alguém ousava questionar os dogmas do Complexo de Édipo e sugerir que a ansiada chave de explicação para os fenômenos psíquicos podia estar em um momento anterior à própria emergência do curinga Freudiano. Antes do Édipo, o trauma do nascimento – nisto seria resumível a contribuição de Otto Rank a este ponto de sua reflexão.

Ele ousou sustentar que havia uma espécie de fato psíquico universal, que atinge os sujeitos em todas as épocas e espaços geográficos, vinculado à experiência que todos compartilhamos de termos vivenciado o contraste entre o ambiente intrauterino (pré-natal) e o extra-uterino (pós-natal). Nascer, para Rank, ainda que nenhum sujeito possua memórias claras e nítidas de sua vivência nas horas do parto, deixa profundas marcas não só no âmbito da psique individual, mas na determinação dos destinos coletivos.

Quando Otto Rank busca aclarar as obscuras maquinações da sexualidade humana, quando visa explicar as complexas criações culturais da libido sublimada e do amor socialmente codificado, chega a conclusões que, reconhecendo o poder do platonismo e suas concepções sobre o Eros, parece atingir Platão em sua raiz, ou seja, em seu idealismo, já que o corpo animado pela libido ganha a primazia, e não mais o mundo inteligível das idéias-paradigmas eternas, que  lá da transcendência exerceriam uma misteriosa atração sobre nós:

“O amor sexual, que atinge seu ápice na união sexual, surge como a tentativa mais admirável de um restabelecimento da situação original entre mãe e filho, que só se completa com a fertilização de um óvulo. E quando Platão, seguindo as tradições orientais, define a essência do amor a partir da atração de duas partes separadas que outrora estiveram unidas, esta é a descrição poética mais bela da maior tentativa biológica de superação do trauma do nascimento através do amor genuinamente ‘platônico’ – o da criança pela mãe.” (OTTO RANK, p. 56)

O Eros platônico – que, durante o Banquete, Aristófanes vincula à busca pela metade perdida – é re-inserido no âmbito da biologia por Otto Rank, que formula uma explicação que dispensa quaisquer elementos sobrenaturais ou transcendentais para a explicação do chamamo “amor platônico”. Este têm por paradigma original, não qualquer ideal eterno, mas a vivência carnal e concreta da gestação e posterior nascimento. Não foi o raio de Zeus enfurecido que cortou em dois as criaturas duais e conexas que éramos no passado mítico; foi simplesmente o trauma do nascimento que instaurou uma situação existencial originária de separação, em que o sujeito fica com seu desejo de certo modo atado ao desejo impossível de retorno ao útero. A proibição cultural do incesto, o poderio repressor do pai, a rivalidade entre irmãos, a competitividade social, tudo isto virá depois deste fato básico incontornável de que nascer foi uma ruptura orgânica que separou em dois organismos o que por 9 meses foi uma conectadíssima simbiose.

O componente de heresia e de heterodoxia que torna-se explícito quando lemos O Trauma do Nascimento está essencialmente na ousadia através da qual Otto Rank explica uma ampla miríade de fenômenos remetendo à experiência visceral da primeiríssima infância. Deuses e demônios, Édens e Infernos, não escaparão de serem explicados como projeções fantásticas realizadas por sujeitos que possuem complicadas relações com sua libido, que não se resignou à perda de seu paraíso primevo, o intrauterino. Estou simplificando muito, mas em última análise Rank afirma que o útero é a fonte de todos os paraísos e todos os infernos. A experiência visceral do parto é aquilo que explica todos os mitos da Queda e do – esqueçam Milton! – Paraíso Perdido.  “O problema do nascimento humano de fato está no centro do interesse mítico e do infantil, influenciando de forma decisiva no conteúdo dos produtos da imaginação.” (p. 78)

Quando rompe-se a bolsa de líquico amniótico, quando o cordão umbilical é cortado, quando o corpo migra de sua caverna maternal para todo o som e toda a fúria do mundo exterior, não parece haver bebê capaz de conter o grito. O que dará aos pessimistas de todos os tempos o pretexto de brincarem que, se choramos todos ao nascer, é por uma espécie de premonição de que estamos entrando numa baita encrenca. Otto Rank criará uma teoria da neurose que a vinculará a um ímpeto de regressão, a um desejo libidinal de re-entrar no ventre materno, o que é uma impossibilidade objetiva. Desejar o impossível adoece o sujeito que fixa-se nesta vontade retrógada, recusando a difícil empreitada do amadurecimento, o qual consiste necessariamente numa tentativa de lidar de maneira criativa e construtiva com as cicatrizes e saudades vinculadas ao trauma do nascimento.

“…por causa do longo período de gestação e com ajuda das faculdades intelectuais superiores que posteriormente foram desenvolvidas, o homem procura restabelecer, de todas as formas possíveis, enquanto por assim dizer criador, o estado primitivo. E isso ele consegue, até um nível elevado de prazer, por meio dos produtos socialmente adaptados de sua imaginação, como a arte, a religião, a mitologia; na neurose, porém, esses esforços adaptativos sofrem um fracasso lastimável.” (OTTO RANK: p. 45)

Otto Rank não pensa estar praticando nenhuma ruptura radical com Freud, ele concebe seu trabalho como uma espécie de continuação criativa das descobertas freudianas; não é, porém, um daqueles discípulos puxa-sacos, papagaios, que só sabem repetir o que já foi dito pelo mestre. “Não sabemos o que é mais admirável em Freud: sua coragem de descobridor ou seu caráter combativo e tenaz, com o qual ele sempre soube defender suas descobertas contra as resistências vindas de toda parte” (p. 162). Figuras como Breuer, precursor da psicanálise, que buscou tratar histerias, desde a década de 1880, com uma espécie de terapia dialogada que prenuncia o método psicanalítico, ou posteriormente Carl G. Jung, muito próximo de Freud por um tempo mas que tornou-se seu antagonista, são criticados por não admitirem a centralidade da sexualidade como fator essencial para o aclaramento da verdade sobre os sujeitos.

Uma psicologia que se esquive da libido será sempre suspeita de estar recalcando aquilo que melhor explica as dinâmicas afetivas do ser humano, e a teoria do trauma do nascimento é em essência uma espécie de epopéia que narra “os destinos da libido”. Perto do fim de seu livro, Otto Rank pontua:

“Por várias vezes, no curso de nossa exposição, nos esquivamos da questão de saber como é possível que o anseio – agora reconhecido como sendo a tendência primordial da libido – de reconstituir a situação primitiva e prazerosa no útero materno, e que temos de considerar como a expressão máxima da possibilidade de prazer, esteja ligado de maneira tão indissolúvel ao sentimento primitivo de angústia, como o revelam o pesadelo, o sintoma neurótico, mas também tudo aquilo que deriva desses fenômenos ou que se assemelhem a eles. Para que compreendamos este fato, precisamos ter em mente que o estado primitivo prazeroso é interrompido de maneira indesejada pelo ato do nascimento… e que toda vida posterior consistirá em substituir esse paraíso perdido, e que não pode mais ser encontrado, pelos já descritos, e extremamente complicados, atalhos dos destinos da libido.” (p. 164)

Trocando em miúdos: não existem paraísos senão os paraísos perdidos. Todo paraíso sonhado, fantasiado, ansiado, todo paraíso representado em pinturas ou filmes, em sonhos ou delírios, é uma espécie de fantasma compensatório. As religiões oferecem prêmios de consolação para estas criaturas que somos e que às vezes convivem mal com a necessidade de amadurecer e reconhecer que a vida é uma via de mão única, que não se entra duas vezes nem no mesmo rio, como diz Heráclito, nem no mesmo útero, como diz Rank.

Parece-me que a neurose, segundo Rank, usualmente está vincula com uma espécie de vontade regressiva, de desejo de retorno a uma situação primitiva perdida, de fixação (ainda que inconsciente, recalcada, não-reconhecida pelo sujeito) de reconquistar um paraíso que é sentido como perdido. A situação anterior ao trauma do nascimento seria a “tendência primordial da libido”, ou seja, nosso hedonismo infantil vincula-se àquela época (“minha juventude despreocupada”, como diz o bebê de McEwan em Enclausurado) quando éramos nutridos sem esforço algum de nossa parte, flutuávamos sem preocupações num lago amniótico, quentes e protegidos, e não precisávamos derramar o suor de nosso rosto no trabalho por um salário que nos permita comprar nosso pão, nossa vestimenta, nossa moradia; enfim, estávamos no paraíso dos preguiçosos. Estávamos fundidos, como no mito grego narrado por Aristófanes no banquete, antes do raio punitivo do Olimpo rachar-nos em pessoas inconclusas, incompletas, que vagam pela vida em busca de re-unificação.

Não é difícil de entender porque Rank insiste em descrever o ato do nascimento como um acontecimento extremamente traumático para a vida do bebê – tão traumático que deixará sequelas em nossa vida psicológica por toda a vida. Imaginem vocês que o bebêzinho estava lá, “numa relax, numa tranquila, numa boa” (para lembrar Tim Maia), só curtindo umas férias preguiçosas num resort aquático cinco estrelas, sendo alimentado sem precisar mexer um dedo, livrando-se de seus cocôs e xixis sem nem precisar ir ao banheiro, não tendo nem que trabalhar, nem que estudar, nem que acordar cedo todo dia… Ê maravilha! Uma vida de príncipe num trono de delícias!

E aí, de supetão, ele toma um pé-na-bunda súbito e é expulso de sua casa como quem não pagou aluguel e agora é despejado. Sem aviso prévio e sem o menor respeito por seu desejo, ele é evacuado – e com que grosseria! Ele vai sendo empurrado para fora do corpo que o acolhera, tendo que passar por um portal apertado, que lhe dá talvez a sensação terrível de asfixia e esmagamento… E eis que ele se vê num lugar estranho e bizarro, separado pela primeira vez do corpo de sua mãe, longe do calor protegido do seu antigo ninho, tendo o cordão que os ligava tão intimamente cruelmente rasgado, de pulmões entregues aos ventos do mundo poluído ao qual o trouxeram, sem nem antes consultá-lo…

E ei-lo ali, entregue ao frio, entregue a mãos estranhas, entregue, pela primeira vez, à solidão que tanto o fará chorar pela vida afora… É por isso que todos nós choramos quando nascemos. É por isso que todos os bebês humanos nascidos de mães de carne-e-osso, e não de tubos de ensaio ou de robôs, não importa o quanto a tecnologia se desenvolva, vão continuar para sempre a nascer berrando e chorando… Porque nascer não é exatamente divino, mas uma visceral vivência da qual a carne não se esquece. E Rank dirá algo assim: nascer equivale, em termos metafóricos, a ser expulso do paraíso.

Essa experiência primordial, segundo Rank, vai deixar no nosso psiquismo uma tatuagem perpétua e indelével. Nossa vida inteira ficará marcada por essa temporada no céu e por esse trauma da expulsão. O cristianismo, com o mito do Éden, não fez nada além de inventar uma historinha que serve como metáfora para a perda real do útero-ninho, sofrida por todos nós – e que é o fardo que carrega todo ser humano. Como bom ateu, discípulo de Freud em matéria de religião, Rank também dirá que as religiões, no fundo, inventam e imaginam um céu onde colocam somente projeções de desejos regressivos. Projetamos no além-túmulo a vida in utero!

E assim Rank vai explicando tudo como uma espécie de efeito do trauma do nascimento: a transformação da natureza pela técnica e pela ciência teria como objetivo principal transformar o mundo tendo como molde a vida intra-uterina e o nosso desejo de voltar a habitar num “ambiente” semelhante ao corpo maternal. A quem retrucar dizendo que tudo o que queremos através da transformação da natureza e dos avanços tecnológicos é nada mais do que “conforto” e “prazeres fáceis”, Rank responderia, provavelmente, que queremos essas coisas justamente em virtude da saudade que temos do conforto e dos prazeres fáceis que experimentamos na vida intra-uterina…

A arte, por sua vez, também teria relações umbilicais com uma tentativa de expressar a angústia, perpétua dentro de nós, associada com a expulsão do útero e com a impossibilidade de retornar a ele, de modo que a criação artística serviria para fabricar “satisfações substitutivas” que nos consolem de nossa sina de exilados… Ainda não tive acesso aos livros de Rank sobre o tema, como Art and Artist, mas parece-me que ele segue nos trilhos da teoria Freudiana que vê a arte como decorrente da “sublimação”, mas dá primazia a uma sublimação libidinal tanto do anseio de regresso quanto da angústia de ruptura com as quais convivemos desde que nos ocorreu esse evento espantoso e repleto de consequências – nascer. 

Se entendi bem, a sabedoria, para Rank, é conexa à conquista de uma maturidade, de uma vitória sobre o infantilismo, em que enfim percebemos que a vida é pra ser olhada com os olhos voltados para frente e não para trás; com os pés saudavelmente implantados num aqui-agora durável (penso na duração Bergsoniana) e não na nostalgia pelo impossível. Precisamos superar em nós a fantasia do regresso, o delírio de que um dia reencontraremos um amor de perfeita unificação e fusão, destruir a enorme atração da nostalgia que informa e deforma nosso imaginário… E acho que isso representa, no fundo, aquela velha necessidade, que Freud tanto destacava, de fazer triunfar o princípio de realidade sobre o princípio de prazer. Não para sejamos ascéticos e puritanos, mas, pelo contrário, para que nossas interações sexuais-afetivas possam ser sublimes, satisfatórias, sábias, crescidas, na plena aceitação de nossos limites e na gloriosa consumação de paraísos efêmeros e parciais possível àqueles que descrêem por completo dos paraísos eternos e totais.

Pode-se criticar, é claro, Otto Rank por ter uma espécie de idéia fixa: pelo menos neste livro, o trauma do nascimento parece ser como um Sol na galáxia teórica de Otto Rank; todo o resto parece orbitar ao redor desse conceito. Porém, uma leitura de outras obras, como o Mito do Nascimento do Herói, permite-nos vislumbrar um pensador profundo, eclético, que soube ir muito além deste seu conceito central e que inspirou também o trabalho posterior de figuras revolucionárias no âmbito da psicologia e da antropologia, caso de Ernest Becker, autor de A Negação da Morte, livro de 1984, vencedor do Prêmio Pulitzer, profundamente inspirado por Rank.

Depois de ler Otto Rank, é como se começássemos a enxergar o trauma do nascimento em locais e obras que antes pareciam-nos somente estranhas, absurdas, obscenas, malucas. Ele fornece-nos uma chave explicatória que parece fornecer frutíferos caminhos para a decifração, por exemplo, de mitos ancestrais e de sonhos aparentemente nonsense; mesmo coisas de que ele não trata em seu livro ganham um grau mais alto de inteligibilidade a partir de sua teoria – como é o caso, por exemplo, de quadros de Salvador Dali ou da arte de Kurt Cobain.

Um dos exemplos mais impressionantes na arte contemporânea de uma referência explícita à problemática analisada por Rank é decerto In Utero, o último álbum de estúdio lançado pelo Nirvana, uma obra que desde sua capa, em cada uma de suas distorções e dissonâncias, na sua lírica e na pregnância afetiva de uma angústia onipresente, está toda impregnada por uma imagética e uma ansiedade que estão explicitamente marcadas por uma psiqueê que têm a ânsia, confessada em “Heart Shaped Box”, de esconder-se dos percalços do mundo no refúgio do womb: Throw down your umbilical noose / So I can climb right back.”   Outras pistas impressionantes para a compreensão do universo psíquico Cobainiano estão nas análises de Simon Reynolds em Beijar o Céu (Ed. Conrad) ou no documentário-ensaio Montage of Heck (de Brett Morgen).

Continua em breve…

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Março de 2017
Contato: educarlidemoraes@gmail.com

Do corpo efêmero à glória imorredoura – Reflexões sobre a “Bela Morte” na companhia de Jean-Pierre Vernant

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Do corpo efêmero à glória imorredoura:
Reflexões sobre a “bela morte” na companhia de J-P Vernant

por Eduardo Carli de Moraes ::: A Casa de Vidro.com

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“Assim como a linhagem das folhas, assim é a dos homens.
Às folhas, atira-as o vento ao chão; mas a floresta no seu viço
faz nascer outras, quando sobrevêm a estação da primavera:
assim nasce uma geração de homens; e outra deixa de existir.”

HOMERO. Ilíada. Canto 6.
(Pg. 239 da edição Penguin & Companhia das Letras,
São Paulo, 2003. Tradução de Frederico Lourenço.)

I. AQUILES E A HIPERTROFIA DO AGONÍSTICO

A morte é um bem ou um mal? As respostas possíveis a esta questão são numerosas, mas podemos exemplificar as opiniões em debate pintando o retrato de duas atitudes que estão em pólos opostos: aqueles que crêem que a morte é uma ponte gloriosa para um Além redentor ou porta-de-entrada para o Paraíso, em contraste com aqueles que acreditam que a morte é somente o colapso do organismo físico e o início de sua desintegração.

A morte pode ser um mal, por exemplo quando ceifa em plena juventude alguém cujas potencialidades não haviam ainda desabrochado, ou um bem, como quando traz repouso a um corpo torturado pelo sofrimento e sem perspectivas de convalescença. Tanto o jihadista que imola-se em um atentado terrorista, na crença de que tão bela morte irá certamente arrancar aplausos de Alá e impelir o Senhor a liberar a entrada do Paraíso para o heróico mártir, quanto o doente terminal que escolhe o caminho da eutanásia (suicídio assistido), acreditam que algum bem pode provir da morte, esta que o poeta Manuel Bandeira tão bem descreve como “a indesejada das gentes”.

A condição humana é tão complexa e surpreendente que a morte, às vezes, é sim a desejada das gentes, desde que seja uma bela morte, repleta de sentido, cuja memória não se apagará da posteridade (mortes tão díspares quanto a de Sócrates, Jesus, Giordano Bruno ou Kurt Cobain podem dar-nos muito alimento para reflexão neste contexto). Longe de ser fácil pontificar sobre a negatividade absoluta da morte, na verdade ela – que o poeta chama de “a ineludível” – aparece-nos como algo inescapavelmente mesclado: algo que suscita terror e êxtase, que é ameaça e promessa, que é odiada como a peste e abraçada como a salvação.

Faço um ritornello para a questão que abriu este texto: “A morte é um bem ou um mal?”  Esta questão, que parece ter o dom da imortalidade (pelo menos enquanto durarem os mortais…), também interessava intensamente aos gregos. Entre os gregos também haviam muitos que acreditavam em boas e más mortes. Diferentes seitas vinculam a glória imorredoura a diferentes atividades: alguns põe a ênfase nas façanhas de conquista, de domínio e predomínio político; outros enxergam honra imperecível na realização de proezas artísticas, científicas, intelectuais, desportivas; enquanto outros ainda creem que morrerão bem caso tenham contribuído com sua semente para a perpetuação da espécie e tenham acendido as tochas de outras vidas humanas; e por aí vai…

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Ao lermos os poemas épicos de Homero, a Ilíada e a Odisséia, conhecemos não apenas os detalhes das carnificinas que gregos e troianos cometiam uns contra os outros durante a década que durou sua guerra fratricida. Em Homero, mais do que apenas descrições intermináveis de batalhas, conhecemos também muito do que se passa no íntimo, nos recessos da intimidade destas figuras heróicas, como Aquiles e Ulisses, que protagonizam muitas das façanhas celebradas em verso pelo poeta.

Um dos méritos maiores da obra tão iluminadora e bem-informada de Jean-Pierre Vernant está na profundidade de sua reflexão sobre o que de fato moldava o caráter, motivava o comportamento e fundamentava a visão-de-mundo dos gregos. Helenista capaz de unir a filosofia à antropologia, a sociologia à história, Vernant mostra-nos como na Grécia da era arcaica/homérica os ideais vinculados à bela morte já estavam em plena atividade.

Na guerra de Tróia, por exemplo, manifestam-se como motivação psicológica recorrente na determinação do comportamento belicista e assassino dos combatentes a idéia de que há glória a se conquistar no exercício da força, da violência, contra um certo outro, estigmatizado demonizado. Há glória para um grego em tripudiar sobre bárbaros e troianos, e vice-versa: eis uma ideologia altamente aristocrática, patriarcal, belicista, sem a qual não é possível compreender os porquês daquela absurdidade de violência interminável que a Ilíada nos descortina.

 Em meio às carnificinas, Homero também pinta o retrato de psiquês, revela-nos nos soldados em batalha a presença de uma fé: a de que para além da finitude do corpo, pode existir sobrevida na posteridade, em especial se levarmos uma vida heróica o bastante para merecer que seja relembrada por gerações futuras. A ambição de sobreviver à morte do corpo com uma espécie de segunda vida feita de glória imorredoura – eis uma das paixões que mais interessam à Jean-Pierre Vernant decifrar, até por ser uma das chaves para a compreensão de quebras-cabeças como o drama épico e trágico, estes monumentos gloriosos da defunta Civilização antiga.

Uma bifurcação do destino revela-se a Aquiles desde cedo, anunciada por sua mãe, a deusa Tétis. Ele cresce sob a pressão de uma ideologia que o impelia a escolher entre duas vidas, mutuamente exclusivas: uma breve e gloriosa; a outra duradoura mas condenada ao esquecimento. Não é possível abraçar ao mesmo tempo as duas alternativas: ele precisa tomar um caminho sabendo que isso excluirá o trilhar do caminho preterido, deixado para trás como uma potencialidade não-aproveitada.

A opção de Aquiles só é dita heróica pois é a escolha pela brevidade da existência. É a afirmação de uma vontade de glória que torna-se mais determinante da motivação do comportamento do que o tradicional freio que o medo da morte impõe aos corpos mortais dos humanos. Aquiles não considera sua vida como valiosa por si própria, pois seu valor é encontrado somente nas vestimentas que o louvor público e o reconhecimento geral conferem, como uma aura, àqueles dignos de figurar nas epopéias que os poetas cantarão. Para certos gregos, o único sentido da vida plausível estava em realizar feitos que os tornassem celebráveis em Ilíadas e Odisséias como os heróis inolvidáveis de um povo!

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Em um artigo sobre a Ilíada bem elucidativo, Douglas Greenfield resume o “Código Heróico”:

The Heroic Code

A few basic principles, the so-called “heroic code,” guide the conduct of the Homeric heroes: to be the best and the bravest and to be distinguished above others; to stand fast in battle; and to help one’s friends, while harming one’s enemies. The Homeric hero endlessly competed with his peers for prestige (timê) with the goal of being recognized as “best” (aristos) and winning the imperishable glory (kleos) celebrated in epic song. His exemplary death is dazzling. It is a “beautiful death” (kalos thanatos). The hero’s greatest fear was failure and the resulting public shame. His responsibility and loyalty were directed towards his immediate circle of friends and companions (philoi).

Aquiles, aquele que deseja que sua vida e seus feitos tenham intenso eco nas gerações subsequentes, leva ao extremo a noção de glória, associando-a principalmente a proezas bélicas. Aquiles é o jovem que põe-se em perigo de morte, que constantemente vai à refrega que tanto ceifa vidas nos ardores sanguinolentos da batalha. E tudo pois foi convencido pela ideologia de seu tempo e de sua classe social a crer como um patinho na lorota imortal: a de que o valor de um homem deve ser medido por sua coragem no cometimento de carnificinas cruéis e por sua capacidade de apropriar-se de butims (inclusive mulheres, cativas da lança, forçadas à escravidão sexual, como é Briseida para Aquiles ao início da Ilíada….).

Um inconfesso pânico íntimo parece também esconder-se em Aquiles: pode ser que ele esteja enganado quanto à sua própria supremacia na braveza. Sempre descortina-se diante dele a perspectiva, vivenciada com um forte temor, de uma derrota humilhante, seguida de uma morte desonrosa. Novamente trombamos com a questão da bela morte e de seu oposto, a morte desonrosa, o que constitui decerto já um bom caminho andado, já que nos recoloca de novo no cerne palpitante da obra de Vernant, em especial em L’Individu, La Mort, L’Amour.

Aquiles, na perspectiva de Vernant, não é uma figura que mereça somente palmas – muito pelo contrário, ele é cheio de vícios, em especial seu extremismo bélico, sua agressividade exacerbada, seu ímpeto de “resolver na porrada”, na crença de tirar da luta um lucro em mérito com o quê exaltar seu pequeno eu trêmulo, ansioso pela aprovação jubilosa dos outros aristocratas guerreiros.

A mentalidade de Aquiles é viciosamente competitiva, bélica, marcada por uma hipertrofia do agonal. Ele não quer parceiros de jogo; não quer companheiros de dança; não quer conviventes em diálogo; o que ele enxerga como caminho para a glória é o derramamento de sangue alheio em duelos bélicos infindáveis, nos quais ele supostamente adquire capital simbólico (para falar no idioma sociológico tão pertinente de Pierre Bourdieu) sob a forma de glória.

Aquiles é um pouco a encarnação de uma condição masculina ainda muito contemporânea, o fenômeno do machão metido a alfa, que de peito inflado bate com os punhos sobre os próprios peitos feito um Tarzan, urrando que é o maioral e que quem discordar vai tomar é sopapos. Um protótipo antigo da atitude do macho que deixa muita testosterona subir ao cérebro e acaba assim prejudicando seus neurônios. O militarismo bronco de quem acredita que há glória em massacrar adversários no campo de batalha, em nome de patriotismos e sectarismos de toda sorte, manifesta-se já em Aquiles – mas nele, também, algumas auroras de questionamento e revolta contra a ideologia hegemônica.

É como se a glória fosse um fantasma constante no horizonte subjetivo de Aquiles, algo que convoca-o à ação, fazendo-lhe buscar tornar-se um imprescindível herói. De fato, é quase unanimidade que Aquiles é o mais valente, o mais audaz, o mais mortífero dos soldados aqueus envolvidos na Guerra de Tróia. E Aquiles é também o mais excessivamente devotado ao extremismo da glória, à ideia fixa da bela morte. Tanto que Vernant escreve que “Aquiles parece empurrar até as últimas consequências – até o absurdo – a lógica da honra.” (L’Individu, La Mort, L’Amour, Ed. Gallimard, pg. 42).

Aquiles é antipático a muitos de seus concidadãos. Este perseguidor da glória, no processo de conquistar para si os holofotes e os aplausos, fez muitos inimigos e largou pelo caminho muitos cadáveres de adversários assassinados. Vernant pinta um retrato de Aquiles que o alça ao status de um vilão shakespeareano: “de coração desumano e selvagem, surdo à piedade, insensível às súplicas”, Aquiles aparece à Vernant como desprovido de algumas das virtudes essenciais que os gregos vinculam à deusa Aidos

Deusa Aidos

Aidos é a deusa da modéstia, da reverência, da humildade – isto, é claro, em um contexto pré-cristão. Para Vernant, Aidos nomeia aquelas atitudes de timidez respeitosa, de renúncia prévia ao trato violento, que tanto auxilia o estabelecimento de vínculos de amizade, de Philia. É a isso que Aquiles é cego: à possibilidade de que um grego e um troiano possam perfeitamente fazer as pazes e tomar um vinho juntos, às risadas, convivendo joviais. O próprio rei Agamemnon “reprocha ao herói de levar tão a sério seu espírito de competição que, em toda parte e em tudo, não tem na cabeça outra coisa senão rivalidade, querela, combate.” (VERNANT,op cit, p. 43)

Quando a Ilíada inicia, Aquiles está em pé de guerra com Agamemnon. A treta que os opõe em tão intenso antagonismo não tem a ver somente com mulheres – Briseida e Criseida – que estes machões autoritários tratavam como se fossem troféus-de-guerra, prêmios de butim. O que está em jogo, como Jean-Pierre Vernant argumenta com tanta ênfase, é mais do que uma briga-de-galos-tarados. Aquiles odeia em Agamenon não somente que este lhe tenha roubado Briseida, que Aquiles por sua vez já havia roubado. Aquiles odeia em Agamenon o rei que fica sempre protegido, em refúgio seguro, com guardas sempre cuidando por sua segurança, enquanto derramam o suor e o sangue os heróicos autênticos, dentre os quais, é claro, Aquiles acredita piamente estar – e destinado por isto a brilhar.

A Ilíada é tão interessante pois coloca-nos no epicentro de uma crise, de um antagonismo explícito como uma fratura exposta entre o rei dos Aqueus – Agamemnon – e o mais eficaz guerreiro dentre os aristocratas aqueus – Aquiles. Quando chegamos ao Canto X da epopéia homérica, Aquiles já fala na linguagem ambígua, densa e revoltada que será depois a de personagens shakespeareanos como Hamlet. Aquiles questiona a própria ideologia que nutriu e derramou sangue por; começa a descrer que há valor e mérito em viver nas batalhas, sofrendo e suando, matando e escapando de tentativas de homicídio, tudo para alimentar os privilégios imundos do déspota, do tirano, que ainda por cima – ó suprema canalhice de Agamemnon – ainda teve a desfaçatez de roubar de Aquiles sua escrava sexual predileta.

Aquiles, este herói em que manifesta-se em hipérbole o impulso agonístico e belicista, está em guerra contra seu rei, que ordenou ir à guerra contra Tróia. E é assim, no canto X, que um desconsolado Aquiles fala:

“Igual porção cabe a quem fica para trás e a quem guerreia;
na mesma honra são tidos o covarde e o valente:
a morte chega a quem nada faz e a quem muito alcança.
Nunca tive vantagem alguma por sofrer dores no coração
ao pôr constantemente em risco a minha vida na guerra.
Tal como a ave que leva no bico a seus pintos implumes
aquilo que encontra, enquanto ela própria passa mal,
de igual modo eu mantive vigília durante muitas noites
e suportei dias sangrentos em atos de guerra,
combatendo homens inimigos por causa das suas mulheres.
Doze cidades de homens eu destruí com as minhas naus;
por terra afirmo que saqueei onze na terra fértil de Troia.
Destas cidades retirei numerosos e excelentes despojos,
e carregando todas as coisas dava-as a Agamêmnon,
o Atrida, enquanto ele ficava atrás, nas suas naus velozes,
para receber. Depois distribuía pouco e ficava com muito.”

Fala de Aquiles no Canto X da Ilíada

Pompeo Batoni - Aquiles

Pompeo Battoni – “Thetis Takes Achilles from the Centaur Chiron” (Via Art Hermitage)

II. DEUSES FABRICADOS À NOSSA IMAGEM E SEMELHANÇA

A história dos gregos é tão imensa, e a paisagem intelectual e artística que nos legaram tão múltipla e diversa, que diante de tal complexidade às vezes nos acovardamos, petrificados como se tivêssemos focado nossos olhos na Medusa, aquela cujo olhar transforma o voyeur em estátua. Mas não nos deixemos petrificar pelo temor e sigamos adiante em busca de um encontro com os gregos que possa nos servir para iluminar nosso hoje!

Como venho tentado explorar, a obra de Jean-Pierre Vernant, brilhante helenista e teórico da civilização, oferece-nos uma preciosa contribuição à nossa compreensão dos gregos, tornando-nos acessível, para reavivamento contemporâneo, lições tão preciosas e fontes vitais tão fortes e profundas que estaríamos traindo a vida e seu élan ao ignorá-las e não aproveitá-las. A Grécia ainda pode fornecer-nos raízes, intensamente transmissoras de seivas, se soubermos entrar em comunicação e contato com os gregos como eles foram em carne-e-osso, no presente de então.

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Zeus e Hera

Por falar em carne-e-osso… uma das sacadas de Vernant foi notar, após seus impressionantes estudos de alta erudição sobre a mitologia grega, que os deuses do politeísmo grego são todos dotados de corpo, ou seja, são divindades antropomórficas e carnudas a quem atribui-se um organismo físico e psíquico muito semelhante ao humano, ainda que os deuses possuam poderes e privilégios sobre-humanos. Os deuses são tão carne-e-osso como os humanos, parece: também comem e bebem através de suas bocas, com a diferença de que por suas goelas privilegiadas só descer ambrosia e néctar, nutrição exclusivamente para VIPs olímpicos.

Atena, Afrodite, Hera ou quaisquer das outras deusas do panteão politeísta grego podem ser imaginadas perfeitamente com uma vestimenta que deixe em evidência as protuberâncias dos seus seios – e além do mais agem com frequência baseadas em motivos tão demasiado humanos como o ciúme, a inveja e a ambição. Já Zeus, Apolo, Dionísio – ou qualquer outro dos olímpicos – também são claramente corpulentos, às vezes beberrões, passíveis de cóleras, apreciadores de bacanais, o que nos conduz à suspeita de que foram fabricados à imagem e semelhança dos gregos em-carne-e-osso, dos gregos concretos, que também muito apreciavam gorós báquicos, bacanais enche-pança e jogos de violência.

Seis séculos antes de Cristo, Xenófanes já havia percebido e denunciado um procedimento que só muito recentemente a antropologia começou a descrever com o termo “etnocentrismo”: “os Etiópios dizem que seus deuses tem a pele negra”.

Com imensa predileção por si mesma, uma cultura ingenuamente narcísica e auto-centrada fabrica deuses à imagem-e-semelhança de seus criadores humanos específicos. Não se entenderá a mitologia separada da etnosfera. Esta tendência Xenófanes chega a transpor, de modo alegórico, para o domínio da animalidade, ao escrever que “se os bois, os cavalos, os leões tivessem mãos para desenhar e criar obras como fazem os homens, os cavalos representariam os deuses à semelhança do cavalo, os bois à semelhança do boi, e eles fabricariam os deuses com um corpo tal qual cada um possui ele mesmo.” [1]

Em termos mais contemporâneos, poderíamos dizer que um certo povo têm uma forte tendência a projetar em seus deuses o seu próprio etnocentrismo, os seus conceitos latentes do que são os valores civilizados e o que é a barbárie. Vale relembrar aliás as origens do conceito de “barbárie”, aliás: os gregos chamavam de bárbaros todos aqueles que não falavam a língua grega, ou seja, aqueles cujos idiomas soavam como mero blábláblá e nonsense. Os gregos, pois, tinham uma identidade coletiva que definia-se não somente a partir do que eram em isolamento, “em si mesmos” e em suas relações “internas”, mas também a partir de suas relações com o exterior, com o território vasto do não-grego, com o mundo estranho para além das fronteiras, aliás frágeis e mutáveis, que delimitam a Grécia. Talvez os mais lúcidos dentre os gregos percebessem claramente também que os bárbaros são legião. A identidade não se faz sem a alteridade, eis um dos pontos mais insistentemente comunicados por Vernant.

Como exímio conhecer tanto da mitologia quanto da filosofia dos gregos, Vernant percebe claramente que “os mais sábios dos antigos, pela luz da razão, souberam reconhecer a vaidade [vanité] do culto idólatra e lançar derrisão sobre os deuses de Homero, esses fantoches inventados pelos homens à sua imagem, com todos os seus defeitos, seus vícios, suas paixões, suas fraquezas.” (VERNANT, op cit, pg. 8)

Isto soa como uma crítica da ideologia religiosa que compreende a fé como uma projeção psicológica, realizada por organismos humanos efêmeros, através da qual eles constituem fantasticamente, em seres mitológicos, tudo aquilo que os humanos gostariam de ser mas não são. Os deuses são versões melhoradas de nós mesmos, fabricados a partir da exclusão da doença, da velhice e da morte que é o fado comum dos viventes.

Vale lembrar que o materialismo filosófico europeu do século XIX havia, através de figuras como Ludwig Feuerbach e Karl Marx, decifrado a fundo os mecanismos de projeção através dos quais o ser humano, condicionado por seu meio social, forja as imagens dos deuses com material que tira de si e de seu entorno cultural. Como se quisesse construir um espelho idealizado de si no céu. O segredo da teologia – dirá Feuerbach – só será desvendado com a chave da antropologia. De certo modo, Vernant parece abraçar este legado, ainda que coloque-o em atividade de modo muito próprio em sua obra como helenista.

Jean-Pierre Vernant escreve em um momento histórico – o século 20 da era comum – em que o corpo gozava já de um estatuto de objeto científico, definível e estudável em termos de anatomia e fisiologia, curável por terapêuticas químicas e psíquicas; não era mais aquele corpo que o fanatismo religioso havia condenado, por séculos, às trevas ascéticas da auto-mortificação. Um problema muito interessante é averiguar o que era o corpo para os gregos, ou melhor, quais foram as diferentes doutrinas e condutas que desenvolveram eles em seu trato com a materialidade do organismo.

O platonismo, decerto, carrega em si uma doutrina de desprezo pelo corpo, ainda que não atinja os extremismos que posteriormente a tradição judaico-cristã, com sua vulgarização de Platão, pregaria. O imperativo ético supremo em Platão é a ascese, que consiste em abandonar a lama imprestável das impressões sensíveis, que afetam nosso aparelho sensorial corporal, e subir a escada dourada rumo às ideias imperecíveis e transcendentes. Sintomas de platonismo podem mesmo ser facilmente identificados e diagnosticados quando deparamos com uma tendência ao dualismo, em especial a cisão entre corpo e alma (mas também entre o sensível e o inteligível, dentre outras oposições duais).

O corpo torna-se então, na perspectiva platônico-cristã, um mero receptáculo provisório de uma alma imortal, esta sim valiosa e que deve ser purificada para que um dia possa voar para longe de seu envelope de carne. É o que Vernant assim sintetiza: “Os Gregos, em especial nas seitas cujas doutrinas Platão transpôs para a filosofia, elaboraram uma nova noção da alma – alma imortal que o homem deve isolar, purificar, de modo a separá-la de um corpo que passa a ter como função nada mais que ser um receptáculo ou um túmulo.” (“Les Grecs ont, dans des milieux de sectes dont Platon reprend et transpose l’enseignement sur le terrain de la philosophie, élaboré une notion nouvelle de l’âme – âme immortelle que l’homme doit isoler, purifier pour la séparer d’un corps dont le rôle n’est plus alors que celui d’un réceptacle ou d’un tombeau.”) (p. 8)

"Wonder", uma obra de Alex Grey

“Wonder”, uma obra de Alex Grey

III. O CORPO É UM FLUXO

Voltar aos pré-socráticos é quase sempre jornada que vale a pena, e também no caso do corpo temos muito a aprender com aqueles que precedem o advento histórico do platonismo. Dos pré-socráticos pode-se dizer que ainda viviam em uma cultura que não estabelecia um corte e uma cisão tão radicais entre corpo e alma, natureza e sobrenatureza, humano e divino. O impacto das doutrinas atomísticas, como a de Demócrito, convidava ao estudo naturalista do organismo em sua unidade e complexidade, de um modo que diríamos hoje holístico, mas é claro que com predominância do somático sobre o psíquico.

Como é que os gregos vestiam simbolicamente o corpo? Eis como nosso problema poderia ser formulado. Pois o corpo, que porta a marca da limitação, da mutabilidade, da incompletude, da deficiência, da precariedade, não é nunca deixado inteiramente nu por uma cultura humana. E não é só com trapos que vestimos os corpos, mas também com uma profusão de símbolos. Inclusive estes mitos de corpos divinos que deixam Jean-Pierre Vernant espantado e instigam algumas de suas reflexões mais incisivas sobre a civilização grega. Se isto continua a nos interessar vivamente, é pois o corpo dos gregos (e gregas) era muito semelhante ao corpo que nós, os mortais vivos de hoje, provisoriamente portamos. E nunca inteiramente nus, nem mesmo nos ardores dos amores carnais, aos quais sempre levamos em nossos corpos despidos, junto conosco, as nossas fantasias…

livro“Engajados no curso da natureza, a phýsis, que ao ritmo dos dias, das estações, dos anos, das durações de vida próprias a cada espécie, faz surgir, crescer e desaparecer tudo o que venha a nascer cá embaixo, os humanos e seus corpos portam a marca de uma enfermidade congenital [infirmité congénitale]; como um estigmata está impresso neles o impermanente e o passageiro. Como as plantas e outras criaturas vivas sobre a terra, é necessário que passem por fases sucessivas de crescimento e declínio: depois da infância vem a juventude, e em seguida o corpo amadurece e envelhece, perde seu vigor, até que chegada a velhice ele altera-se, enfraquece-se, enfeia-se, degrada-se, antes de abismar-se para sempre na noite da morte.” (VERNANT, p. 14)

A inconstância de um corpo submetido inelutavelmente ao rio do tempo, como que acorrentado à physis, talvez explique este ímpeto de criação de mitos que tanto celebrizou os gregos pela posteridade afora. O titã Prometeu é um mito onde os gregos projetaram, de modo hiperbólico, os ímpetos de rebeldia, de rebelião, de desobediência diante dos ditames do Olimpo; nele também vê-se encarnado em mito o temor ancestral de uma punição divina que golpeie com sofrimentos infindos as atitudes ímpias de homens e titãs. Condenado a ficar amarrado a uma montanha e ter seu fígado devorado por um abutre, dia após dia, Prometeu é escancaradamente um mito corpóreo, e tanto é assim que seu presente à humanidade, o fogo roubado dos olímpicos, é uma benesse justamente para os corpos, que ele acalenta e ajuda a alimentar (ao possibilitar o cozimento de alimentos animais, por exemplo).

Do corpo pode-se dizer com certeza que é efêmero. E dos humanos é bem provável que se possa dizer que, se não conseguem contentar-se de ser somente corpo, é pois tem náusea de serem meramente transitórios. Os humanos são os únicos animais que revoltam-se contra a efemeridade do corpo ao fabricar fantasias sobre a suposta imortalidade de uma alma. Esta alma supostamente imortal, figuram como um fantasma na máquina, libertável pela morte, passível de ascender aos domínios etéreos onde vivem os deuses bem-aventurados.

A condição humana, ensina-nos Vernant, está indissoluvelmente conectada a um corpo: “como um fogo que se consome ao queimar e que devemos alimentar sem cessar para impedir que se apague, o corpo humano funciona por fases alteradas de dispêndio e recuperação.” (p. 14) Somos os efêmeros, aqueles cujos corpos são constituídos por fluxos (o sanguíneo, o respiratório, o libinal etc.). Embarcados no rio sempre corrente da phýsis e dotados de um organismo que trabalha por ciclos e conhece seus eclipses. Avançamos, pelos dias afora, na dança entre os sonos e as vigílias, os sóis e as luas, as primaveras e os invernos, bailantes na dança dinâmico do destino. E nunca a sós, pois sempre acompanhados pela alteridade, em toda a sua estonteante multiplicidade.

Sabedoria há em aceitar o corpo, sabendo que todo esforço conduz ao cansaço, mas que todo repouso reconduz à potência; que toda fome saciada por um banquete não é nunca mais que uma satisfação provisória de um ímpeto que tornará a surgir; e que não somente precisamos ir nutrindo nosso organismo conforme ele gasta suas energias, como também é inelutável que, com o uso, o corpo seja conduzido pelo tempo à tumba, este laboratório terrestre onde trabalham incessantemente as forças da renovação.

O que emerge das páginas de Vernant é um retrato da condição humana em que desaparecem as cisões costumeiras entre corpo e alma, vida e morte, bem e mal, de modo que a vida aparece como mélange inseparável dos pólos positivo e negativo. Não podem existir separados nem a tensão e o relaxamento, nem a lucidez e a inconsciência, nem a vigília e o sono, nem o bem e o mal, nem a vida e a morte. Eis a dança da complementaridade de yin e yang que a ancestral sabedoria taoísta chinesa sedimentou em um símbolo imorredouro.

A morte, portanto, não é apenas um evento futuro prometido a qualquer corpo; a morte está mesclada à vida, já que esta tem seus sonos, seus comas, suas fomes, suas sedes, seus desânimos, em suma: seus estados de enfraquecimento orgânico, de declínio do conatus (para usar o termo de Spinoza) ou do élan vital (para falar a língua de Bergson). O sono, a fadiga, a velhice, tudo isso aponta para a incompletude de um corpo como que esculpido diariamente pela morte que habita e coexiste em nossas vidas precárias, que perseveram e persistem até que não podem mais.

O corpo é um fluxo. Isso quer dizer também que não há para os corpos nenhuma escapatória da sina de perecibilidade. É também o decreto cósmico que impõe a renovação periódica de todas as coisas através de um recombinação constante dos elementos. Os deuses, em oposição, caracterizam-se por serem os imortais, os imperecíveis, de modo que é de se suspeitar que os corpos humanos projetaram em suas divindades aquilo de que estavam privados mas sonhavam possuir.

O corpo é inescapavelmente dinâmico, isto é, mutante. E nada simboliza isso melhor do que o sangue, esta substância que flui pelas veias e artérias nutrindo o organismo animal, e que deve sua virtude à seu movimento ininterrupto, impelido pela bomba cardíaca que está encarregada de não permitir parada à circulação. Quando derrama-se de uma ferida, de um corte na pele, de um ferimento de bala ou faca, o sangue então exposto, retirado de seu circuito natural, aparece como propiciador da morte, culpado pela vida que esvai-se. Não há vida sem sangue e há morte possível na hemorragia.

Esta ambiguidade do sangue – vital e precioso quando circula dentro do corpo, horrendo e mortífero quando jorra para o exterior… – pode servir-nos como símbolo da vida mesma, ela que é ao mesmo tempo benesse e maldição, bem e mal, eu e outro, individualidade e conexão.

O corpo para os gregos, longe de ser somente um obstáculo ou um fardo, é algo a ser exercitado, cultivado, bem-cuidado, para o que contribui uma civilização que inventou os jogos olímpicos e que incentivava ginásticas e danças. A palavra kháris, por exemplo, significa uma certa graça que faz brilhar um corpo com uma emanação alegre, um charme carismático que encanta quem o observa.

Também sabe-se o quanto os gregos, em seu militarismo vestido com a grandiosidade da poesia época, celebravam os guerreiros quando seus corpos demonstravam fortitude, ardor no combate, capacidade de auto-sacrifício. Como Vernant lembra, “para designar a nobreza d’alma, a generosidade de coração dos melhores homens, os aristoi (aristocratas), o grego diz kalòs kágathos, sublinhando que a beleza física e a superioridade moral não sendo dissociáveis, a segunda pode ser avaliada somente pela visão da primeira.” (p. 20)

O corpo humano é certamente delimitado, dotado de fronteiras bem concretas, separado de outros corpos e coisas, possuindo seu interior e seu exterior. Mas seria um erro concluir que o corpo está fechado na fortaleza de si mesmo, sendo portanto uma espécie de mônada incomunicável, estanque e sem poros. Pelo contrário, a delimitação do corpo não impede-o de ser uma entidade intensamente comunicante, com uma pele repleta de poros e com orifícios que servem de pontes para o tráfego de substâncias. É imprescindível aliás que o corpo possa receber continuamente, através de suas aberturas ao exterior, o ar e o alimento sem os quais ele não pode sobreviver, além de ser essencial a excreção daquilo que o organismo não pode aproveitar e que exclui de si através das fezes e da urina, também sine qua nons da manutenção vital. O corpo, sintetiza Vernant, é “fundamentalmente permeável às forças que animam-lhe, acessível à intrusão de potências vitais que fazem-no agir.” (p. 21)

Não há escapatória para os mortais: seus corpos estão submetidos à sina da mutação, que inclui também a possibilidade de modificações súbitas, daquele tipo que Lewis Carroll ilustrou tão bem em sua Alice.

Ainda que modifique-se de modo moroso e suave, o corpo segue sendo um fluxo e ninguém melhor do que o velho Nestor, na Ilíada, para exemplicá-lo, já que ele sente saudades de sua força perdida, de seu ardor diminuído, de seu vigor arrefecido. A chamada Terceira Idade conduz à conclusão de que o corpo humano está embarcado num rio de mão única, que flui do presente para o futuro, e nenhum velho recupera a força vital – aquilo que os gregos chamam de ménos – que teve em sua juventude.

Tendo isto em mente, podemos abordar a epopéia sob a perspectiva do corpo: o herói, quando morre em batalha, decerto perde seu corpo, transformado em cadáver, mero soma a caminho da decomposição, mas a história não finda aí. Quando afirmamos que nenhuma cultura permite que o corpo exista em sua nudez crua, queremos dizer também que nenhuma cultura é indiferente ao corpo abandonado pelo fogo vital. Um herói que realizou façanhas será honrado com pompas fúnebres e monumentos póstumos. Um adversário morto em combate às vezes pode continuar a sofrendo novos ataques sobre o seu cadáver, de modo a realizar o inverso de um funeral, a profanação da possibilidade de qualquer rito de louvor ao morto.

No local onde os corpos gloriosos são enterrados, são edificados memento destinados a “lembrar aos homens do porvir, na sequência das gerações, seu nome, seu renome, suas ações”, algo que serve como “testemunho permanente portanto da identidade de um ente que abismou-se, com seu corpo, na ausência definitiva.” (p. 26)

Os poetas adquirem importância crucial para os gregos como aqueles que, através de seus cantos em louvor dos heróis, ajudam a criar para os ausentes uma glória imperecível destinada a passar de geração em geração. Aqueles corpos falecidos são, através da palavra poética que rememora e celebra, “arrancados do anonimato onde evapora-se, na noite do Hades, o comum dos homens; pela constante rememoração, a recitação épica transforma os desaparecidos em heróis brilhantes” (p. 27).

O procedimento de vestir os corpos não deve portanto ser compreendido somente no sentido literal – vestimentas, adornos, calçados, armamentos, paramentos, insígnias etc. – mas também em um sentido mais simbólico: os corpos são ungidos de glória pelos monumentos funerários, pelos louvores públicos, pela poesia épica, de modo que “a permanência de uma beleza imortal, a estabilidade de uma glória que não perece, é a cultura somente que tem o poder de edificar, em suas instituições, conferindo às criaturas efêmeras, desaparecidas daqui debaixo, o estatuto de belos mortos, de mortos ilustres.” (p. 27)


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Leia também: O Mito de Dioniso por J-P Vernant

“O túmulo do homem é o berço dos deuses.” – Reflexões ecológico-filosóficas na companhia de Nietzsche, Vernant & Feuerbach…

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PRELÚDIO


“Everything that lives

Lives not alone
Nor for itself.”

WILLIAM BLAKE

A vida, este fruto da terra e este mistério da energia! Estas energias que cada um de nós sente pulsando e fluindo em seu corpo, estas energias que circulam serelepes pelo cosmos, ninguém delas é dono. Qualquer eu minimamente lúcido sabe que sua vida depende de fontes alimentadoras da vida que existem fora de si. Viver só é possível em conexão com as fontes da vida, através das interações e apropriações das energias possibilitadoras da sobrevivência –  a água com que sacio minha sede, o alimento que me nutre, o ar com que meus pulmões se banqueteiam, os raios de sol que me aquecem, os outros com quem convivo…

É necessariamente através das interações, na troca contínua com a Natureza que me circunda, que me contêm e que ajudo a constituir (ainda que seja ínfima parte), que minha vida – que toda vida – segue, prossegue, transmite-se, evolui. Isso que circula nas minhas veias e artérias cheias de sangue, esta energia líquida que meu coração espalha pelo organismo através do ritmo incessante das sístoles e diástoles, é o que permite o mistério da vida que resiste e sobrevive, mas bem sei que isto também atesta minha radical dependência. Não sou nada sem aquilo que fora de mim me nutre e me permite prosseguir na senda efêmera de existir e resistir. Dependo, para que a vida prossiga, de buscar energias, a cada instante, fora de mim – e sem a existência prévia do Sol nunca teriam surgido olhos que o enxergam!…

E, no entanto, temos uma tendência espontânea, um tropismo natural, a conceber a existência individual como de alguma forma “separada” do todo, independente, dotada de uma certa autonomia. As fronteiras do corpo talvez sejam responsáveis por dar a cada um dos corpos uma tenaz e quase inextirpável noção de limitação espaço-temporal. Nossos sentidos corporais nos oferecem um vislumbre do infinito ao mesmo tempo que o certificado de nossa finitude.

Se há algo de específico na sina destes animais que somos, é a consciência prévia, não-compartilhada, ao que parece, por nenhuma outra espécie de criatura terráquea, de nossa mortalidade, e do caráter inescapável desta. O homem, único animal que se sabe mortal, sabe-se dotado de um corpo cujo óbito não é contornável, e no entanto recusa-se a admitir isso, tornando-se, como diz Albert Camus, “a única criatura que se recusa a ser o que é.” Que a palavra recusa não nos engane: não se trata apenas de dizer não, mas de fazer algo contra esta angustiante e terrificante perspectiva, presente no horizonte humano, de um dia deixar de ser.

Não seriam as religiões passíveis de serem compreendidas como sistemas criados e forjados por humanos como modos de lidarem com as angústias e pavores de se saberem dependentes e mortais? Eis porque julgo que a filosofia de Ludwig Feuerbach conserva ainda tanta vitalidade e atualidades, apesar das “cacetadas”  que tomou de Marx e Engels. Feuerbach explica a gênese das religiões enfatizando a dependência em que nos encontramos em relação à Natureza, o fato de ser impossível vivermos sem nos relacionarmos com as fontes naturais que sustentam a vida – de modo que o ateísmo monista feuerbachiano me parece muito solidário ao pensamento e ao ativismo ecológico. Eis um filósofo a ser estudado com carinho por ecologistas e ambientalistas! Assim como Spinoza!

Ludwig Feuerbach (1804-1872)

Ludwig Feuerbach (1804-1872)

#01. OS VIVOS COMO FRUTOS DA TERRA

Ao invés de pensarmos os corpos como mônadas incomunicáveis (visão cósmica do cada um no seu canto), ou imaginar os eus como se fossem territórios cercados por muros, por que não pensar que cada vivo é permeável? A vida individual não existe solitária, mas sempre conectada e em intercâmbio com algo de exterior, com algo de mais amplo, com algo que transborda de nossos limites: não é possível existir fora da natureza. Existir é necessariamente existir nela, estar integrado nela. Também é ter consciência de uma dependência radical e necessária.

Só no seio da Natureza, só de “dentro” de seu ser transbordante de energia e criador de vida evoluinte, só no interior da Natureza, e constituindo-a de dentro, é que emergem, vivem e fenecem os vivos.  Que somos permeáveis, prova-o a luz que entra por nossos olhos, o ar que nossos pulmões sugam, os alimentos e líquidos com que nos nutrimos etc. A vida, portanto, é a arte da troca, a dança dos conectados, o mutante escarcéu cujo início, afundado nas brumas do passado, já não se vê mais – e cujo futuro é mistério.

A afeição que me conquistou  Feuerbach vem muito de sua atitude de abertura para o mundo: imagino-o como um homem de sentidos muito vivos e perceptivos, atentíssimo aos sinais que lhe chegam do mundo lá fora. Alguém que está sempre consciente de sua carnalidade, mas ao mesmo tempo de sua conexão com algo de mais vasto – e que insistentemente preferiu chamar de Natureza e não de Deus.

Talvez o único ponto de severa discórdia entre Feuerbach e Spinoza esteja no nome que este último deu para aquilo que ambos veneravam como o ser supremo – a Natureza. A palavra “deus” já rodou um bocado nos trilhos da humana história, e quantas diferentes interpretações já se deu a ela! De modo que o autor da Ética talvez tenha contribuído para muitas incompreensões e mal-entendidos ao insistir no epíteto teológico, ainda que tenha sido explícito em afirmar – naquela fórmula que talvez a síntese mais simplificada de todo o Spinozismo – “DEUS = NATUREZA”. Feuerbach prefere descartar os termos já saturados de teologia, e falar, simplesmente, em “Natureza” – e ela não é pra ele nada parecida com uma divindade. Talvez tenha uma leve semelhança ou parentesco com Gaia, mas definitivamente não tem nenhuma afinidade com Alás e Jeovás… A Natureza não é, em geral, dotada de consciência e vontade (que só aparecem neste fragmento da natureza que é o humano); a Natureza tampouco é milagreira ou justiceira. Simplesmente é. E nela somos.

As portas de permeabilidade que permitem o intercâmbio entre os indivíduos e a natureza que os circunda são os sentidos, aqueles que se costuma contar no número de cinco – visão, audição, tato, olfato, paladar – e que Feuerbach soube venerar com belas palavras:

 “A contemplação sensorial nos revela os indivíduos enquanto indivíduos, isto é, em sua multiplicidade, diversidade e individualidade… Por exemplo: a cabeça é uma característica comum a todos os homens, uma marca ou predicado geral, essencial do homem; um ser que nasce sem pernas e braços é certamente um homem, mas um ser sem cabeça não é homem. Mas ora – os sentidos não me mostram que todo homem tem sua cabeça própria? Que existem tantas cabeças quantos homens? Que não existe então uma cabeça geral ou universal, mas somente cabeças individuais? E que a cabeça como conceito genérico, a cabeça da qual abandonei todas as diferenças e características individuais, só existe em meu cérebro?  (…) Não é a cabeça universal, mas somente a cabeça real, individual, que trabalha, cria e pensa…” (p. 107)

Eis um pensador, portanto, que sabe que pensa com a cabeça, mais precisamente com o cérebro que ela abriga, o que pode até parecer pouca coisa, mas já o distingue de toda uma tradição idealista, metafísica ou religiosa que concebe o pensamento como algo de “imaterial”. Em Feuerbach, o pensamento está com os pés juntos à terra como um frondoso  carvalho que finca suas raízes no solo e daí suga seu alimento. Por isso, me parece, dentre os filósofos materialistas dos últimos séculos, ele é  de alto potencial ecológico, tendo muito a ensinar a ambientalistas, ativistas de Greenpeaces, profissionais de todos os ramos que estão preocupados com os ecocídios e as devastações ambientais:

“Eu não só estou sobre a terra com as duas pernas, mas também só penso e sinto sob o ponto de vista da terra, só em conformidade com esta situação que a terra ocupa no universo; certamente elevo minhas vistas até o mais distante céu, mas vejo todas as coisas à luz e segundo o critério da terra. Em síntese, o fato de ser eu um ente terrestre, de não ser um habitante de Vênus, Mercúrio ou Urano, faz minha substância, realiza minha essência fundamental, como dizem os filósofos.” (Preleções…, 11ª, p. 83)

Um pensador que sabe que pensa com uma cabeça terráquea, que se compreende como fundamentalmente fruto da terra, para usar a expressão de André Gide, Feuerbach também é um poeta brechtiano: “Necessito comer antes de pensar, mas não pensar antes de comer; posso pois comer sem pensar, como demonstram os animais, mas não pensar sem comer.” (pg. 78) Sua obra insiste em jamais “esquecer que o homem só pensa através de sua cabeça, que existe sensorialmente, e que a razão tem sua base sensorial permanente na cabeça, no cérebro, o centro de convergência dos sentidos.” (pg. 79)

Uma boa fração da intelectualidade da Alemanha, terra célebre por seus filósofos idealistas e poetas românticos, recebe alfinetadas de Feuerbach: “Como pois nós alemães nos tornamos alheios e infiéis a nossa mãe, à nossa origem, através do cristianismo, que nos indica o céu como nossa terra de origem!” Ser ateu, para Feuerbach, equivale a acreditar que o ser humano é essencialmente, fundamentalmente, desde o princípio de sua caminhada, um ente terrestre, um dos filhos da grande Mãe Natureza, um dos múltiplos frutos do grande jardim global que viaja pelas galáxias a velocidades estonteantes…

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#2. AO DESPIRMOS AS AURÉOLAS SAGRADAS…

“Odeio o idealismo que arranca o homem à natureza; não me envergonho de depender da natureza; confesso abertamente que as influências da natureza não só afetam minha superfície, minha pele, meu corpo, mas também meu âmago, meu íntimo, que o ar que respiro em bom tempo atua beneficamente sobre meu pulmão mas também sobre minha cabeça… Igualmente sei que sou um ser finito, mortal, que um dia não mais existirei. Mas julgo isso perfeitamente natural e por isso sinto-me inteiramente conciliado com esta ideia.” – FEUERBACH, 5ª Preleção, Pg. 38

Todo e qualquer vivente não existe em estado de plena independência, mas sim de inter-conexão e dependência. Segundo Feuerbach, é desta fonte que brotam todas as religiões, independentemente de suas diferenças, das épocas em que emergiram, dos ritos que celebravam etc. Da consciência da dependência, que acarreta a simultânea consciência da finitude, os humanos em sua terrestre jornada forjaram a ideia de um ser divino do qual sua sorte e seu azar, seu bem e seu mal, dependiam permanentemente. Em outras palavras: é pois os humanos sabem-se limitados, temporários, mortais, que emerge, do próprio seio desta consciência da finitude, a crença em deuses salvíficos que os livrem de um destino que inclui a dor, a velhice e a morte.

Feuerbach, como é de costume na tradição filosófica materialista, investiga o real com um olhar que ousa olhar através do véu religioso, da auréola sagrada. Sente-se, lendo-o, o contato vivificante com uma mente de grande poder científico. “Não é necessário que a natureza ou qualquer objeto se torne nada, objeto nulo, só porque o despimos de sua auréola divina. Em verdade um objeto só penetra em sua dignidade genuína e própria quando é despido de sua auréola sagrada. E isso porque enquanto um ser ou coisa for objeto de adoração religiosa, enfeitar-se-á com plumas alheias, com as penas de pavão da fantasia humana…” (5ª preleção, pg. 40)

Dentre as fantasias humanas, Feuerbach elenca a crença em um Deus que existe fora da Natureza, transcendente a ela, numa dimensão celeste totalmente à parte dos espaços terrenos. “Não pretendo endeusar  a natureza no sentido da teologia ou do panteísmo”, diz o professor Feuerbach a seu auditório, “mas posso reconhecer a natureza como o ser sem o qual eu nada sou sem com isso esquecer a ausência nela de coração, razão e consciência, que ela só atinge com o homem.” (Idem, pg. 40) O homem, portanto, é uma criatura de um certo ineditismo, além do mais porque parece ser a única dentre todas as espécies animais que é consciente da finitude da vida.

“O sentimento de finitude mais delicado, mais doloroso para o homem, é o sentimento ou a consciência de que ele um dia certamente acaba, de que ele morre. Se o homem não morresse, se vivesse eternamente, não existiria religião. Por isso digo em meu livro A Essência da Religião que somente o túmulo do homem é o berço dos deuses. (…) Na religião, procuram as pessoas os meios contra aquilo de que se sentem dependentes. Assim é o meio contra a morte a crença na imortalidade. Sim! O único desejo religioso, a única oração que o homem rude endereça à sua divindade é… ‘NÃO ME MATES!’” (5ª, pg. 36)

Feuerbach, como Nietzsche, é um filósofo que procura analisar não só a coerência interna dos argumentos religiosos, mas também as consequências práticas das crenças. Ou seja: é preciso perguntar “como vivem os crentes, com quê grau de saúde ou de doença, de energia ou de prostração, de júbilo ou de deprimência?” Os ídolos e crenças religiosos deixam de ser intocáveis, deixa de pairar sobre eles a auréola terrificante do sagrado, e são questionados por uma mente profundamente ancorada na Terra e que desconfia das quimeras celestes – pois suspeita que todas as quimeras nascem em cabeças de mortais. E os mortais, angustiados por terem que morrer, às vezes se deleitam em fingir que não são corpos, dotados de cérebros dentro de cabeças e corações e pulmões pulsantes no peito, mas sim “espíritos imateriais”, intangíveis e invisíveis Gasparzinhos…

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 "A Tentação e Queda de Eva" (1808), uma das ilustrações de William Blake para o poema "Paraíso Perdido" de Milton


“A Tentação e Queda de Eva” (1808), uma das ilustrações de William Blake para o poema “Paraíso Perdido” de Milton

#3. DESINVENTAR O PECADO E REDIMIR OS CORPOS

“A DOENÇA DE CRER NA DOENÇA – Foi o cristianismo que pintou o Demônio na parede do mundo; foi o cristianismo que trouxe o pecado ao mundo. A crença nos remédios que ofereceu para ele foi gradualmente abalada em suas raízes profundas: mas ainda existe a crença na doença que ensinou e difundiu.” – NIETZSCHE em O Viajante e Sua Sombra

Entre estas duas ideias – “foi pecado desde sempre” e “começou a ser pecado um dia” – há imensa diferença. A tradição judaico-cristã se alia à primeira destas teses: quer que acreditemos que existe, instituído desde o início dos Tempos, uma imutável e eterna tábua de vícios e de virtudes, além de um deus juiz que preparou para os mortos locais de punição e recompensa.

 Em suma: está fixado por Deus o que é pecado e o que não é, desde a alvorada do tempo, e seremos alçados ao Paraíso ou precipitados nas chamas infernais conforme obedeçamos ou não à “vontade de Deus”. Todos conhecem o mito: somos todos culpados por um pecado cometido por nossos ancestrais, segundo o Gênesis, e a existência terrena não passa de uma expiação desta falta primordial que nos condenou ao exílio, ao labor, ao sofrer, ao perecer. Estamos manchados, de nascença, pelo pecado, pois Adão e Eva morderam o fruto proibido, sendo por isso expulsos e rechaçados, condenados a vagar a esmo, a Leste do Éden, como órfãos que tomaram um pé-na-bunda divino…

Ao invés de argumentar sobre a plausibilidade ou a credibilidade desse mito, prefiro seguir outra via e destacar, com um olhar mais sociológico, que a situação factual do cristianismo no planeta (e não só dele, mas de toda e qualquer religião…) jamais foi a de uma religião universal – no sentido de unanimidade, de uma Igreja que congregasse toda a humanidade… – mas sim de convivência difícil e conflituosa com o imenso oceano da alteridade, da diferença, da multiplicidade.

Em outros termos: o planeta é palco, história afora, de uma co-existência de religiões, seitas, cultos e mitologias sem que nenhuma delas em particular jamais tenha conseguido de fato se universalizar. A ambição de conquistar um império universal é sempre fracassada, mesmo quando as seitas tem esta ambição e a põe em prática através de campanhas de conversão, cruzadas, jihads, fogueiras, pogroms e outras atrocidades contra sectários, hereges, ímpios, descrentes…

Para um filósofo como Nietzsche, conhecedor profundo de muitas civilizações e culturas pré-cristãs, aparece como um fato evidente que a noção de pecado é uma invenção, ou seja, algo que emerge historicamente com o cristianismo, sendo que muitas civilizações (antes dele, exteriormente a ele, posteriormente a ele…) desconhecem, desconheceram e desconhecerão. Há muitas culturas sem pecado (apesar de quase todas terem seus tabus!).

E quão curioso é isso: que a cultura que inventou o pecado cometeu, em seu processo histórico, através de fenômenos como o Tribunal da Inquisição, a Noite de São Bartolomeu, a Caça às Bruxas etc. – e de modo recorrente e sistemático! – muitos dos pecados que critica nos outros. “Amar ao próximo” foi um preceito praticado por aqueles que queimavam mulheres nas fogueiras por crimes de “feitiçaria”? Por aqueles que massacraram huguenotes protestantes nas ruas de Paris? Para aqueles que reduziram Giordano Bruno e Joana D’Arc a cinzas?…

Se os ateus têm razão quando afirmam que o ser humano é o útero de todos os deuses, que a humanidade é a criadora de todas as divindades das quais acredita ser a criatura, isso acarretaria que existe um potencial na mente humana de “idealização” através do qual fabricam-se imagens de entes que, apesar de nunca terem sido, possuem certo “poder” sobre os sujeitos que as nutrem.  É o que Nietzsche sugere quando escreve – de modo muito próximo de Ludwig Feuerbach e Max Stirner – que há “pessoas que se apegam muito mais às suas ideias do que àqueles que mais amam: por esse motivo se sacrificam pelo Estado, pela Igreja e também por Deus – enquanto ele continua seu produto, sua ideia…” (O Andarilho e Sua Sombra, #207).

Este processo de idealização acarreta, com certa frequência, uma falsificação do real – como diz Nietzsche na Genealogia, “vocês nunca se perguntaram realmente quanto custou nesse mundo a construção de cada ideal? Quanta realidade teve de ser denegrida e negada, quanta mentira teve de ser santificada…? Já por tempo demais o homem considerou suas propensões naturais com ‘olhar ruim’, de modo que elas nele se irmanaram com a má consciência…” (2ª D, #24, pg. 77).

A má consciência, cheia de culpa, oprimida por uma carga pesada de angústia, é produto desta tendência de considerar as propensões naturais como impuras, pecaminosas, reprováveis. A transvaloração dos valores que Nietzsche propõe passa necessariamente por uma des-invenção desta noção de “pecado carnal”. O nietzschianismo inclui uma terapêutica, proto-Wilhelm-Reichiana, que preza a redenção dos corpos. Nietzsche deseja libertar da culpa e da má consciência ao dar plena anuência e direito de existência às vontades e aos afetos do corpo, uma espécie de espontaneísmo orgânico parece ser seu ideal de saúde. A “grande saúde”, tanto psíquica quanto corporal, não existirá desvinculada de uma superação desta ideia fixa da culpa, da má consciência, do pecado, da possível danação etc.

O que Nietzsche propõe é que não mais sejam consideradas como más (moralmente) as propensões naturais dos corpos, as vontades que os animam, inclusive a vontade que Nietzsche pensa fundamentar todas as outras (a de potência). A crítica do filósofo é contra as “propensões inaturais, todas essas aspirações ao Além, ao que é contrário aos sentidos, aos instintos, à natureza, ao animal, em suma, os ideais até agora vigentes, todos ideais hostis à vida, difamadores do mundo…” (2ª D, #24).

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Delacroix

#4. NÓS, OS EFÊMEROS, FACE-A-FACE COM A FOICE

Que todos os viventes possuem um corpo é algo de consenso entre os mortais. Quanto ao que ocorre com este corpo após a morte, a algazarra e a discórdia são intensas. Uns acreditam no fantasminha imaterial a voar do cadáver como um diáfano Gasparzinho, que ascende às beatitudes do Senhor; outros, que há um espírito capaz de transmigrar para outras pessoas ou animais (quem hoje é gente depois pode virar leopardo ou pardal…); outros acham que tudo simplesmente se desfaz em pó e retorna ao seio primordial da matéria-mãe; outros que…

Enfim: nestas matérias, não há nem pingo de unanimidade, mas conflito, debate, hipóteses, elucubrações, dogmas, espantos, incompreensões… As culturas diferem enormemente nas crenças e mitos que criam na tentativa de compreender e significar a morte; mas nenhuma cultura parece poder se esquivar deste face-a-face com a foice.  Jean-Pierre Vernant realizou uma série de estudos magistrais, em O Indivíduo, O Amor e A Morte, sobre a diversidade de maneiras que encontraram os povos para lidar com esta consequência necessária do fato de possuirmos, todos nós, um corpo perecível cujo inevitável ocaso não é contornável.

Em Platão, por exemplo, encontramos um modo de lidar com a morte que pende para o pólo do espiritualismo, ou seja, a noção de que possuímos “uma alma imortal que o homem deve isolar, purificar para separá-la do corpo; este não tem mais função que não seja a de receptáculo ou tumba” (VERNANT: Le corps divin, p. 9). Este esforço de “purificação”, esta disciplina ascética, é aquilo que Nietzsche critica, diagnosticando aí uma perigosa tendência cultural que gera como subproduto indivíduos organicamente enfraquecidos, de vitalidade prejudicada.

Em outros termos, a reprovação do filósofo contra o cristianismo, este platonismo para o povo, é essencialmente fisiológica, ou seja, tem como critério a vida. O critério que permite a Nietzsche julgar os valores morais é a saúde dos corpos humanos, e o cristianismo é reprovado neste quesito pois Nietzsche enxerga-o submetendo os corpos aos cilícios, aos jejuns, àsmasmorras, às auto-flagelações, à trilha “piedosa” do martírio… Nietzsche conhece outras tábuas de valores, de outras civilizações que não se baseiam na tese de que uma “alma, divina e imortal, encontra-se aprisionada no envelope do corpo, material e perecível” (VERNANT, p. 16).

wotling

Patrick Wotling, filósofo francês, autor de “Nietzsche e o Problema da Civilização”

Longe de nos convidar a pensar o corpo como perigoso, como corruptor, como pecaminoso, como algo digno apenas de lástima, a ser lançado na lama e espezinhado, a filosofia de Nietzsche procura reabilitar o corpo e re-inseri-lo em local privilegiado. Eis uma filosofia que busca retornar ao corpo a primazia que havia sido erroneamente concedida à ideia de “alma imortal”. É este um dos temas nietzschianos que Patrick Wotling soube explorar com maestria em sua obra, recentemente publicada no Brasil, “Nietzsche e o Problema da Civilização” (Coleção Sendas & Veredas, Coord: Scarlett Marton, Ed. Barcarolla. Trad. Vinicius de Andrade. 2013. 447 pgs.).

Wotling destaca que a ruptura radical que Nietzsche realiza contra a tradição dualista, aquela que cinde o ser humano em dois – um corpo material perecível e uma alma imaterial imortal – acarreta uma revalorização do corporal. O próprio “espírito”, longe de ser considerado como independente do corpo, é considerado pelo filósofo como um nome para algo que existe no corpo, dentro do corpo, inseparável do corpo, de modo que Nietzsche rejeita a quimera de um pensamento que fosse imaterial ou de uma alma pensante capaz de existir desvinculada de qualquer base corporal temporal.

É como se Nietzsche bradasse que é chegado o tempo da filosofia banir de vez todos os seus “Gasparzinhos” e reconhecer o primado incontestável do corpo como “espaço” de onde nascem todas as ideias e valores – mesmo os sistemas filosóficos idealistas!  Em seu esforço de compreensão das civilizações que estuda, Nietzsche privilegiará, pois, uma investigação “psico-fisiológica”, que enxerga por detrás das tábuas de valores e das crenças religiosas dos povos as causas orgânicas e psíquicas que as explicam.

Se o asceta que pratica o jejum e a auto-mortificação julga estar obedecendo à “vontade de Deus”, ou acredita estar “purificando” a alma, que julga capaz de sobreviver a seu cadáver e ascender ao reino celeste, a filosofia nietzschiana se esforçará, em sua crítica ao ideal ascético, em mostrar o vínculo entre crenças religiosas deste tipo e o complexo psico-fisiológico do devoto.

Nietzsche desconfiará da tese de que o ser humano é capaz de empreender a busca desinteressada pela verdade e irá apontar as dinâmicas afetivas que se escondem detrás de crenças e práticas religiosas que, longe de revelarem probidade intelectual ou um respeito científico pela efetividade, são em larga medida indícios de que o sujeito sente-se incapaz de “digerir” certas realidades que, em sua fraqueza, considera intragáveis.

Como diz Patrick Wotling, “analisar a cultura será para Nietzsche examinar a maneira com que se efetua o processo de digestão da realidade, pois o pensamento e a consciência, instâncias produzidas pelas relações e pela atividade de troca entre instintos, podem ser definidos como uma atividade gástrica, mais ou menos feliz. (…) Se o forte dá conta de suas experiências e chega a assimilá-las para aumentar sua potência, pelo contrário, o idealismo, enquanto recusa da realidade e produção de entidades imaginárias (a verdade, o ‘mundo verdadeiro’), é o sinal de uma disfunção do corpo, sobretudo, de um enfraquecimento de sua capacidade de digestão da aparência, donde a fórmula, sem dúvida lapidar e desnorteante: ‘Todos os preconceitos vêm das entranhas’ (Ecce Homo).” (WOTLING: Pg. 139)

Trata-se, para Nietzsche, de “denunciar as interpretações falíveis que desde Platão triunfam na tradição filosófica”, escreve Wotling, “interpretações idealistas, que esquecem seu estatuto e sua fonte produtora, o corpo” (pg. 155). Se Nietzsche pôde suspeitar que “a filosofia até agora não foi em geral um mal-entendido sobre o corpo” (KSA 3. 348, GC, Prefácio à 2ª edição, #2), é pois os filósofos tendem a ignorar que todas as suas ideias são produzidas pelo corpo e que este não pode ser identificado com a razão ou a consciência, já que todo corpo é necessariamente animado visceralmente e necessariamente por instintos e afetos.

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“Assim como as obras de um músico traduzem seu sistema de afetos, os textos de um filósofo são sintomas que revelam o acordo ou os conflitos entre as instâncias cuja organização constitui o corpo. Assim, não se pode mais considerar a filosofia a partir do ângulo da objetividade, como busca serena e desinteressada da verdade: ela é também um procedimento de simbolização, de transferência de sentido a partir do corpo, portanto, uma arte da transfiguração…” (Wotling: p. 156).

Precursor de Freud e da Psicanálise, Nietzsche concebe a consciência e o pensamento racional inextricavelmente ancorados no corpo e servindo como seus instrumentos. Este corpo, que tem a razão e a consciência como seus instrumentos na lida diária da vida, é compreendido como uma complexa multiplicidade de afetos e instintos cuja essência não é a mera vontade de conservação, mas sim a vontade de potência: “a vida não é um querer-conservar-se, mas um querer-crescer” (KSA 12. 155, 2 [179] via Wotling, p. 158).

 A tese nietzschiana de que o espírito se assemelha a um estômago serve para enfatizar que a relação dos sujeitos humanos com os estímulos sensíveis e com os conteúdos culturais que chegam até eles provindos do meio externo jamais é de plena anuência e receptividade, mas há frequentes e recorrentes decisões

“de ignorância, de exclusão arbitrária, um fechar suas janelas, um íntimo dizer-não a esta ou aquela coisa, um não-deixar-aproximar, uma espécie de estado-de-defesa contra muito do que se poderia saber, uma satisfação com o escuro, com o horizonte exclusivo, um dizer-sim e aprovação à ignorância – tudo isso necessário segundo o grau de sua força de apropriação, de sua ‘força digestiva’, para falar em imagem – e efetivamente o ‘espírito’ ainda se assemelha ao máximo a um estômago.” (KSA 5. 167-168, BM 230).

 Se a filosofia de Nietzsche é tão marcada por uma reflexão sobre a saúde e a doença, isto se deve não somente aos sofrimentos corporais que Nietzsche vivenciou e que as boas biografias sobre ele relatam em detalhe (ver, por exemplo, o livro de Rüdiger Safranski, Biografia de uma Tragédia), mas também pois colocar “a saúde como critério”, como aponta Wotling, “implica um deslocamento radical do questionamento filosófico”, que “escapa do dualismo metafísico”, já que “o critério elaborado por Nietzsche confirma o primado do corpo” (pg. 160).

 Contra a cisão metafísica-religiosa entre corpo mortal e alma imortal, entre uma dimensão terrena e um reino transcendente, Nietzsche filosofa tendo os corpos terrestres como foco e julga as tábuas de valores das civilizações a partir da saúde que possibilitam ou da decadência psico-fisiológica que causam. Mas não devemos considerar que a oposição entre saúde e doença instaure um novo dualismo metafísico, já que, para Nietzsche, “não é preciso fazer deles princípios ou entidades distintos que lutam pelo organismo vivo e fazem dele seu campo de batalha. (…) O exagero, a desproporção, a não-harmonia dos fenômenos normais constituem o estado doentio (como defendia Claude Bernard).” (KSA 13. 250, 14 [65] via Wotling, pg. 162).

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5. O VENENO DO DESPREZO PELO MAIS PRÓXIMO

Em seu esforço de compreensão das consequências psico-fisiológicas de certas tábuas de valores, ou seja, ao analisar se a vida floresce ou murcha em certas condições culturais, Nietzsche diagnostica, como se fosse um médico da civilização, as consequências deletérias do desprezo pelas coisas mais próximas. No 5º aforismo de O Andarilho e sua Sombra, por exemplo, “sacerdotes e metafísicos” são acusados por seu desdém ao cuidado cotidiano com a saúde, o bem-estar e o prazer do corpo. Uma “deplorável consequência” disto é que as pessoas passam “a não tomar as coisas mais próximas, como alimentação, moradia, vestuário, relacionamentos, por objeto de reflexão e reorganização contínua, desassombrada e geral, mas sim a afastar delas a seriedade intelectual e artística, pois aplicar-se a elas é tido por degradante” (#5, pg. 165).

A exortação zaratustriana à que permaneçamos “fiéis à Terra” é prefigurada em vários aforismos da obra nietzschiana anteriores a Assim Falou Zaratustra, nos quais Nietzsche sugere que a existência humana seria bem mais venturosa caso pudéssemos superar estas doutrinas que nos conduzem a menosprezar ou depreciar aquilo que a tradição judaico-cristã rotulará como “vida mundana”:

“Ser insciente e não ter olhos agudos para as coisas mínimas e mais cotidianas – eis o que torna a Terra um ‘campo do infortúnio’ para tantos. Não se diga que aí a causa é a desrazão humana – há razão bastante e mais que bastante, isso sim, mas ela é mal direcionada e artificialmente afastada dessas coisas pequenas e mais próximas. Sacerdotes e professores, e a sublime ânsia de domínio dos idealistas de toda espécie, inculcam já na criança que o que importa é algo bem diferente: a salvação da alma, o serviço do Estado, a promoção da ciência, ou reputação e propriedades, como meios de prestar serviço à humanidade, enquanto seria algo desprezível ou indiferente a necessidade do indivíduo, seus grandes e pequenos requisitos nas 24 horas do dia.” (#6, p. 166)

Neste contexto, Nietzsche elogia Epicuro por uma “maravilhosa percepção, ainda hoje tão rara, de que não é absolutamente necessário resolver as questões teóricas derradeiras e extremas para tranquilizar o coração.” (#7, pg. 167) Em contraste com a super-valorização do teórico que encontramos em Sócrates, o epicurismo aparece mais como uma doutrina do savoir-vivre, uma ética prática vista como caminho para a beatitude e a ataraxia. Como Lucrécio irá celebrar tantas vezes em seu poema Da Natureza, clássico na história da filosofia epicurista, Epicuro queria livrar a humanidade do temor aos deuses e de todos os malefícios causados pelas superstições.

Como lembra Nietzsche, “bastava-lhe dizer, àqueles angustiados pelo temor dos deuses: ‘Se existem deuses, eles não se ocupam de nós.’” (#7, pg. 167). Ou seja: Epicuro, ao invés de afirmar peremptoriamente que os deuses não existem, atitude que poderia ser considerada dogmática, apenas afirma que eles “não se ocupam de nós”, que são indiferentes aos destinos humanos, que não realizam intervenções nem milagres. Isto permanecerá para Nietzsche uma espécie de paradigma do “humor do ateu puro”, aquele que diz: ‘Que me importam os deuses! Que o Diabo os carregue!” (idem)

Se Nietzsche é epicurista em sua recusa da ideia de um “deus moral”, que se ocupe de nós, que esteja vigiando-nos com olhar de juiz e fazendo as contas dos merecimentos para decidir se merecemos a salvação ou a danação eterna, isto acarreta uma valorização daquilo que havia sido depreciado pelo sujeito de fé: justamente o mais próximo do chão, o mais rente à terra, o mais próximo de nós.

A superação da religião, da metafísica, do idealismo, acarreta um retorno à terra e ao corpo: “Temos que novamente nos tornar bons vizinhos das coisas mais próximas e não menosprezá-las como até agora fizemos, erguendo o olhar para nuvens e monstros noturnos…” (#16, p. 174). Precisamos desaprender aquilo que aprendemos com os “desprezadores do tempo presente, das coisas vizinhas, da vida e de si mesmos” e nos livrar de qualquer resquício de “herança por esse veneno do desprezo pelo que é mais próximo.” (idem)

Nietzsche dá expressão quase idílica e romântica a este “amor pelo mais próximo” quando escreve, em O Viajante e sua Sombra, algo que ajuda-nos a compreender a noção de “fidelidade à terra” e a parábola das três transmutações (o camelo, o leão e a criança) presentes no poema nietzschiano Zaratustra: “Deve-se estar ainda tão próximo às flores, relvas e borboletas como as crianças, que não são muito mais altas que elas.” (Andarilho e sua Sombra, #51).

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Eduardo Carli de Moraes,
Goiânia, Setembro de 2013.
Contato: educmoraes@hotmail.com