O Thriller Que Nossos Tempos Distópicos Merecem – Sobre “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”, um filme de Martin McDonagh

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

Um Filme de Martin McDonagh, uma produção Fox Searchlight Pictures. Estrelado por Frances MacDormandWoody HarrelsonSam Rockwell, entre outros. 2017, 115 min.

Três outdoors são colocados à beira de uma estrada por onde quase ninguém passa. Todavia serão capazes de causar altos estragos.

A autora da utilização heterodoxa dos outdoors é uma mãe enfurecida com a impunidade do estuprador e assassino de sua filha. Encarnada por uma Frances McDormand em uma de suas atuações mais magistrais desde “Fargo” (The Coen Brothers), este belo thriller indicado a 7 Oscars é também um campo minado repleto de dilemas éticos e ações repletas de ambiguidade.

Pode parecer à primeira vista mais um hollywoodiano da Fox sobre sexo e violência, pondo em cena o clichêzento duelo entre policiais e bandidos, mas no fundo é uma obra-de-arte que aborda a condição humana em seus aspectos mais dark, no que se aproxima de “Os Três Enterros de Melquiades Estrada”, de Tommy Lee Jones ou de “Onde Os Fracos Não Têm Vez” dos irmãos Coen.

Cansada de esperar sentada, a mãe arregaça as mangas para demandar da polícia a solução do caso de sua filha, vítima de horrendo estupro-com-homicídio ainda sem solução após 7 meses. Com vermelho-sangue como cor de fundo, faz com que as mega-placas, usualmente postas a serviço de fisgar consumidores de mercadorias, agora anuncie em 3 doses: “Raped While Dying. Still no Arrests? How Come, Chief Whilloughy?”

A mensagem é direcionada ao chefe de Polícia, encarnado por Woody Harrelson, personagem que está em seus últimos alentos devido a um câncer pancreático que às vezes o faz tossir sangue na cara de seus convivas. O tira até tenta solucionar o caso e morrer como herói, mas só consegue tornar-se um suicida que lega aos sobreviventes a continuação do mesmo mistério e da mesma impunidade.

A certos momentos, o roteiro parece decair para um esquema um pouco simplório: good cop, bad cop. Se Woody Harrelson assume a primeira função, como detetive comprometido com a descoberta da verdade, mas tendo por obstáculos intransponíveis a falta de evidências palpáveis, para além da brevidade de sua própria vida carcomida pela doença, o estereótipo do “bad cop” é a princípio assumido pelo policial Dixon, interpretado por Sam Rockwell.

Dixon, acusado de torturas e racismo, por boa parte do filme é o porco fardado puro sangue, aquele que resolve tudo na porrada, pratica abusos de autoridade e tem toda a soberba que costuma acompanhar os medíocres. Suas atitudes tresloucadas lhe fazem perdem o emprego: após o suicídio de seu chefe, ele decide descontar sua raiva sobre o dono da agência de publicidade que aluga os outdoors, Red. Quando Dixon lança Red pela janela do segundo andar e quebra-lhe os ossos de tanta porrada estamos diante do paroxismo da caricatura “bad cop”.

O filme de Martin McDonagh prepara, porém, uma redenção para seu tira mau, uma estranha aliança que se forja entre ele e a mãe em sua cruzada. Interessado em questionar quais as forças sociais que fazem com que “fúria gere mais fúria” (“anger begets more anger”), a obra faz as violências proliferarem como epidemias, ou melhor, como incêndios: os outdoors em chamas irão gerar os coquetéis molotovs que reduzem a cinzas a delegacia de Polícia – com Dixon dentro…

Não faltam sintomas de uma sociedade adoecida pelo machismo, pelo patriarcado, pelo militarismo, onde a força bruta é com frequência utilizada no lugar da inteligência. Mesmo esta mãe está bem longe de ser a pureza moral sem nódoas que se esperaria de uma obra mais maniqueísta, pelo contrário: ela está atormentada pelas memórias de um matrimônio cruel, rompido mas resiliente, com o espancador-de-mulheres e semi-pedófilo interpretado por John Hawkes. Além disso, a lembrança-fantasma do dia em que não emprestou a caranga pra filha e esta saiu de casa enfurecida, berrando ironias: “Espero que eu seja estuprada no caminho!”, e a mãe contaminada de fúria respondeu que também gostaria. O filme deixa em aberto a questão: a discussão ocorreu no próprio dia do crime? Pouco importa. E sim que esta mãe não age como paradigma da ética e dos bons costumes, mas como um coração fervendo no coração da fúria e carregando insuportáveis cargas de culpa.

Ela beira nisso o Tarantinesco, e há na construção de personagem feito por Frances McDormand uma espécie de insistência na “virilidade”, na atitude “mulher-machona”, que não deixa de ter precedentes na Beatrix Kiddo de Uma Thurman e na “Monster” de Charlize Theron. Em “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”, a protagonista parece determinada: “this time the chick ain’t losing.”

Nenhuma luz no fim do túnel: o ciclo infernal das violências prossegue até o fim. E invade os créditos finais como sugestão de mais sangue ainda por correr. O real responsável pelo estupro e assassinato, o culpado que os 3 outdoors demandavam ser capturado e punido, é esquivo e permanece escorregando para longe das mãos de qualquer justiça. E esta mãe se pergunta, em diálogo com um Bambi, se é porque Deus não existe e não há nenhuma força cósmica que se importe em impor o que é justo aos descalabros humanos.

A força do filme está em transmitir o quão errôneos e errantes são os caminhos humanos na busca por justiça e reparação – que muitas vezes tornam-se rotas rumo à vingança e à perpetuação das hostilidades. Neste caso a justiça não é do tipo que “tarda mas não falha”; ela falha até mesmo ao ponto de nunca chegar, e seus nobres escudeiros de fardas revelam-se não só como seres humanos falíveis, mas também como uns baitas duns escrotos fardados culpáveis de crimes que também ficarão impunes – como a “tortura de pessoas de cor” de que o policial Dixon permanece impune e que é justificada por seu chefe com a candidata a melhor frase do filme: “Se fôssemos despedir todos os policiais racistas, só sobrariam meia-dúzia na corporação – e eles seriam odiadores de bichas.”

Se Dixon encarna o tipo de macho-alfa cérebro-de-titica que se parece muito com o eleitor de Donald Trump (ou João Dória…), a forte e imponente personagem de Frances McDormand, ainda que sem as piroctenias de efeitos especiais e fantasias rocambolescas do Wonder Woman de Mary Harron, põe em questão o empoderamento feminino, apesar de não conseguir escapar à tosquice de um modelo masculinizante de heroísmo, em que a violência é mobilizada como meio para reparar injustiças e impunidades, o que só faz proliferar violências de um modo que o Patriarcado vem fazendo a milênios. Mas seria irrealista esperar de um filme que deseja o retrato dark de um real que beira o pesadelo que pudesse nos iluminar o caminho para o porvir com a utopia de um Matriarcado de Pachamama. Não é aqui a fonte para utopismos, mas um filme que nos ajuda a decifrar a distopia em que estamos afogamos.

Na cena final, em estranha aliança, a mãe da vítima e o ex-policial estão indo a Idaho, na direção da casa de um suspeito de ser estuprador, e diante do acúmulo de escombros que é o passado recente acabam por ser assolados pela dúvida. Não sabem se o certo a fazer é matar o sujeito com o pretexto de que seria um estuprador a menos no mundo.

É um dilema semelhante àquele de “Thelma & Louise”, de Ridley Scott: é verdade que a personagem de Susan Sarandon matou o estuprador de sua amiga na intenção de libertá-la da tirânica violência sexual do macho-tarado, mas caso se justificasse dizendo “fiz muito bem: é um estuprador a menos no mundo!”, sempre poderíamos responder: “sim, mas também é uma assassina a mais no mundo!”

Debatendo tais dilemas éticos, “Three Billboards…” faz bem em acabar sem solução, mergulhado no ambiente salutar da dúvida. Pois não é só a fúria que gera mais fúria, é também o excesso de certezas um dos vilões de nossos intermináveis ciclos de violência. Duvidar, não saber como agir, hesitar nas encruzilhadas da ação, é essencial para aquela parada para reflexão sem a qual o que se faz é tresloucado e grávido de consequências imprevistas e muitas vezes nefastas.

Afinal, na cena final, paira a neblina da dúvida sobre o oceano de sangue – e esta é uma pequena réstia de luz que vaza por debaixo da porta de uma humanidade que teima em se massacrar sem fim. É um interlúdio de dúvida reflexiva que não afasta a sensação de tempestade que se acerca. Pois haverá fúria, sem dúvida.

#CinephiliaCompulsiva2018 em A Casa de Vidro. Crítica por Eduardo Carli de Moraes.

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LINKS:

https://en.wikipedia.org/wiki/Three_Billboards_Outside_Ebbing,_Missouri

https://www.rottentomatoes.com/m/three_billboards_outside_ebbing_missouri/

http://www.metacritic.com/movie/three-billboards-outside-ebbing-missouri

O CARTEIRO E O POETA – Sobre os retratos de Pablo Neruda (1904 – 1973) no romance de Antonio Skármeta e no filme de Michael Radford

Pablo Neruda (1904 – 1973), poeta chileno, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1971

“Gira e gira a roda atroz das desditas”, lamenta-se Neruda no poema “Os Abandonados”, do livro Memorial de Isla Negra. Este poetaço, que tão bem cantou a roda viva da Vida, com toda a sua polifonia e colorido, com todo seu caos e maravilha,  com frequência é hoje em dia descoberto por novos leitores em virtude do filme realizado por Michael Radford em 1994, O Carteiro e o Poeta (Il Postino). Indicado a 5 Oscars, esta obra cinematográfica é de fato um excelente cartão-de-visita, um portal-de-entrada sedutor à obra do vate laureado com o Nobel em 1971.

O filme nos entrega um retrato carinhoso, cheio de empatia, de um Neruda encarnado com verve e graça pelo ator francês Philippe Noiret (1930 – 2006). Porém, há uma rasidão na película de Radford que só será remediada se mergulharmos nas profundezas do romance de Antonio Skármeta que o inspirou.

Uma comparação entre filme e livro, neste caso, é uma empreitada frutífera: as obras não se repetem, não caem em redundância, mas propõe caminhos diferentes a nós que embarcamos nelas. Apesar de “livremente baseado no livro de Skármeta”, o filme não tem pudores de propor um desfecho radicalmente diferente daquele escrito por Skármeta (atenção: spoilers!). No filme, o carteiro Mario morre no final, após ser agredido pela truculência policial em um comício socialista, e Neruda o sobrevive para relembrá-lo entre lágrimas e evocações de lembranças do convívio.

Já no romance, é o o carteiro quem testemunha, com profunda dor, a morte de Pablo Neruda, ocorrida naquele trágico Setembro de 1973 onde foi derrubado o regime da União Popular (socialista) que havia sido eleito em 1970. Mês cruel como uma ave de rapina, onde o Chile perdeu Allende, Neruda, a democracia – entre outros milhares de mortos massacrados pela Ditadura Pinochet.

A discrepância entre os desfechos de filme e de livro, neste caso, me parece grave. Algo semelhante ocorreu quando John Ford, mestre do western, adaptou para a telona As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. O final do livro de Steinbeck, apesar de ser um dos mais emblemáticos e inesquecíveis desfechos de um livro na história da literatura norte-americana, foi excluído do filme de um modo que sempre me pareceu inexplicável – e pior: mutilador.

John Ford presta um desserviço à obra de Steinbeck ao tesourar da obra um dos ícones que faz de The Grapes of Wrath um magnum opus da literatura universal, tirando de cena os seios da Fraternidade Humana que alimentam a vulnerável e amável Presença do Outro Em Risco. John Ford nos rouba a consolação salutar que Steinbeck nos concedia, deixando aqueles okies, migrados à Califórnia mas afundados no lodaçal de suas frustrações e perrengues, envoltos apenas no pó. Faltou o pólen!

A comparação entre O Carteiro e o Poeta, de Radford, e El Cartero de Neruda, de Skármeta, revela também um caso de traição que o cinema realiza em relação à literatura que o inspirou. O chileno Skármeta localizou sua história integralmente no Chile e os fatos narrados se passam entre 1969 e 1973, justamente a época de ascensão, eleição e posterior derrubada do governo da União Popular.

Já o filme de Radford transplanta a história para uma ilha da Itália, separada da América Latina pela extensão tremenda do Oceano Atlântico, mas também afastada das realidades históricas concretas vividas por Neruda e sua trupe no livro. Neste processo de migrar a história do Chile para a Itália, o filme deixa-se perder, como água entre os dedos, a oportunidade de pôr em debate episódios históricos fundamentais do continente de onde escrevo e onde Skármeta situa seu magistral romance.

Casa de Neruda em Isla Negra – Saiba mais.

No romance, estamos em plena Isla Negra, lá onde Pablo Neruda tinha comprado uma casa em 1939. Já no filme, entra pelas fuças de Neruda uma maresia atlântica, mediterrânea, nada chilena… No romance, o faro fareja os ventos do Pacífico e os ouvidos escutam os estrondos dos balaços e bombas dos militares golpistas que sobem ao poder em 1973 e deixam como cadáveres pelo caminho, naquele ano hediondo, Allendes, Nerudas e Victor Jaras…

Comédia romância agradável, palatável, realizada com delicadezas que costumam merecer os aplausos da Academia que distribui os Oscars, O Carteiro e o Poeta exclui boa parte do contexto sócio-histórico chileno que está bastante presente no livro de Skármeta. Em especial, diminui a estatura do carteiro de Skármeta – que é um sujeito político engajado nas lutas políticas de seu tempo.

Em uma cena que não se verá no filme, o romance relata que, após o golpe de Estado de 1973, o carteiro Mário adentra a agência dos Correios onde trabalha e, diante dos retratos de Allende, Che Guevara e Karl Marx, precisa tomar decisões urgentes sobre o que fazer, estando rodeado pelas escopetas dos militares brutamontes que, com sangue nos olhos, estão loucos para meter bala em subversivos e descer o cacete em comunistas…

Temeroso e prudente, o carteiro tira das paredes os retratos de Che e de Marx, mas permite a permanência de Allende, recém-falecido. “El retrato de Salvador Allende podía permanecer porque mientras no se cambiaran las leyes de Chile seguia siendo el presidente constitucional aunque estuviera muerto, pero la confusa barba de Marx y los ojos ígneos del Che Guevara fueron descolgados y hundidos en la bolsa.” (capítulo 17, pg. 124)

O carteiro, após se livrar das imagens que indicavam os louvores à Che e Marx, agora considerados pelas autoridades golpistas como inimigos públicos de imensa periculosidade, põe seu gorro oficial de carteiro, cobrindo suas melenas bagunçadas à la Beatles, pois “frente al rigor del corte del soldado, le pareció definitivamente clandestina.”

Cito estes trechos de uma cena que está no romance, mas não no filme, para frisar o aspecto político quintessencial à obra e que Radford não soube levar ao cinema – e que ficou restrito ao livro de Skármeta. No filme, o carteiro Mário é descrito como uma figura bastante simplória, apolítica, que não se envolve em quaisquer decisões que transcendam o âmbito das relações pessoais afetivas.

Já o carteiro Mário de Skármeta tem o status de agente histórico, sendo descrito como “partidário de um socialismo utópico” (cap. 15, p. 107). Ele  sofre na pele as crises de abastecimento de alimentos geradas, ainda durante o governo Allende (1970-1973), devido às sabotagens e complôs golpistas que, atravancando a economia a golpes de Doutrina do Choque (catástrofe é oportunidade, fome artificialmente produzida gera um excelente novo ambiente de negócios!). Skármeta descreve os meios utilizados pelos golpistas para desestabilizar o governo democraticamente eleito da União Popular.

Buscaremos em vão no filme qualquer menção ao cenário chileno pré-golpe, exposto em minúcias por Skármeta nos meandros daquele restaurante e hospedaria onde trabalham Beatriz e sua mãe – respectivamente, a amada musa inspiradora e a sogra ranzinza de Mário. Ao transplantar a locação das ocorrência do Chile para a Itália, a produção dirigida por Radford torna impossível o retrato, feito magistralmente por Skármeta, de como foi afetado o negócio gerido por Beatriz e sua mãe. Skármeta, no capítulo 13, descreve a crise econômica, a falta de alimentos básicos, destacando que “el desabastecimiento y el mercado negro eran producidos por la reacción conspiradora que pretendía derrocar a Allende.” (p. 98)

O filme exclui completamente a cena-chave em que um político reacionário, populista, saído de terno-e-gravata das tropas da Direita anti-Allende, faz um discurso em que acusa o governo de incapaz:

“Acusó el gobierno de incapaz, de haber detenido la producción y de provocar el desabastecimiento más grande de la historia del mundo: los pobres soviéticos en la conflagración mundial no pasaban tanta hambre como el heroico pueblo chileno, los raquiticos niños de Etiopía eran donceles vigorosos en comparación con nuestros desnutridos hijos; solo había una posibilidad de salvar a Chile de las garras definitivas y sanguinarias del marxismo: protestar con tal estruendo golpeando las cacerolas que ‘el tirano’ – así designó al presidente Allende – ensordeciera, y paradojalmente, prestara oídos a las quejas de la población y renunciara. Entonces volvería Frei, o Alessandri, o el demócrata que ustedes quieran, y en nuestro país habrá libertad, democracia, carne, pollos y televisión en colores.” (p. 100)

Por essas e outras, o livro de Skármeta é muito mais recomendável para quem quer conhecer mais a fundo o contexto sócio-político que envolve a vida – logo, a criação da obra! – de Pablo Neruda. O que não significa que o filme seja desprezível, que deva ser tacado no lixo e recusado. Longe disso: é uma obra que tem seu mérito e seus múltiplos charmes. E que convida de fato muita gente a explorar a fundo a poesia de Neruda, o que é um convite bem-vindo, e que deve ser celebrado sempre que é aceito por um novo leitor, seduzido assim a se embrenhar na selva dos escritos Nerudianos…

No filme, destacam-se as visitas cotidianas do carteiro Mário ao poeta. O carteiro, driblando sua timidez de homem do povo que treme diante de um colosso das letras, tenta convencer o laureado bardo a auxiliá-lo na conquista da belíssima Beatriz. Este enredo singelo é o motor propulsor no qual Neruda e Mário forjam uma amizade que serve de emblema para o poder – que é pouco, mas não é nulo! – que pode ter a poesia em nossas vidas.

Em uma ilha repleta de analfabetos, o simplório carteiro Mário, como uma laboriosa abelha a sugar o néctar das flores que encontra pelo caminho, conseguirá extrair muito mel de seu convívio breve mas fecundo com Neruda. A ponto de triunfar em seu intento de conquistar Beatrice através do encanto invisível que de seus lábios líricos emana. O filme torna Neruda uma espécie de conselheiro sentimental, um fazedor-de-versos de valor prático-afetivo como propiciador de conquistas, facilitador de transas, mas deixa a outros a tarefa de averiguar quais foram de fatos as relações do poeta chileno com a Itália (tema desta reportagem da TV RAI italiana).

O carteiro Mário é um personagem que parece sintetizar uma visão ingênua, quase infantil, sobre a poesia. Pedalando montanha acima com o correio endereçado ao imenso poeta ali exilado, que aguarda notícias sobre o Prêmio Nobel sueco e sobre o contexto político no Chile, Mário irá aprender, através de breve e frutífero convívio, lições sobre a poesia que irão transformar sua vida para sempre – e que determinarão, sem que ele jamais o suspeite, também a sua morte precoce.

É possível que Mário nunca tenha escrito um poema na vida, talvez jamais tenha lido um livro de poemas. Antes mesmo de qualquer encantamento linguístico com o açúcar das palavras, com o mel nas entrelinhas, ele fica encantado com outra coisa, bem mais palpável que o verbo invisível que a boca dos falantes pronuncia: no filme, o carteiro Mário se encanta é com a glória e suas auréolas, que circundam Neruda, o recém-chegado.

Mário vai ao cinema e assiste a um cine-jornal que revela o quanto o forasteiro Neruda foi acolhido com entusiasmo e efusividade pelos italianos, em especial pelas donnas. A reportagem destaca que os poemas de amor que o poeta comunista escreve e publica às mancheias conquistaram para ele um imenso séquito de admiradoras entre as mulheres. E é aí que Mário interessa-se mais intensamente pelas uvas poéticas que ele nunca soube antes cultivar.

A simplicidade de Mário torna O Carteiro e o Poeta uma obra que emana autenticidade, que deseja comunicar algo sobre a experiência popular em seu trato com o fenômeno da poesia. A princípio, Mário só quer mesmo impressionar as garotas, e tendo isso em mira ele esforça-se para conseguir um autógrafo de Neruda. Caso conquistasse tão ansiada assinatura poderia se gabar, na hora da “cantada”, de ser amigo do grande poeta chileno, cantor do amor e do comunismo…

Mário, com a ingenuidade de seu auto-interesse, movido por seus afetos de homem tímido mas que tem asas fechadas sobre o paletó e que deseja ter mais abertas, para que pudesse alçar vôos para além do ninho confinante de sua timidez, aproxima-se de Neruda como se este fosse uma arca de tesouros e segredos. Tenta destrancar o cofre do poeta para que este lhe ensine o caminho para que a poesia sirva como instrumento eficaz na conquista do amor.

Mário estranha quando escuta o poeta falar palavras estranhas, de sentido desconhecido, como “metáfora”. Mário quer saber que diabos é isso e Neruda, paciente e pedagógico, ensina-lhe através do exemplo: quando dizemos que “o céu está chorando”, ao invés de simplesmente dizer que chove, estamos empregando uma metáfora. Mário adora a descoberta e sai ao mundo à caça destas borboletas esquivas e fugidias que são as metáforas. Mas quer metáforas não para sentir-se bem consigo mesmo enquanto criador de literaturas, mas sim pois metáfora é ótima isca para pescar mulher. Nestas graças o filme de Radford conquista o espectador afeiçoado a uma boa comédia romântica.

Sem intenção precisa, só em virtude do diálogo com Neruda diante das águas do mar, Mário consegue parir sua primeira metáfora: inspirado pelos versos declamados de improviso por Neruda diante do vaivém das ondas, que batem nas pedras do litoral com insistência rítmica e cadenciada, Mário faz nova descoberta. Descobre as relações umbilicais entre o encantamento propiciado pela poesia e a ação do ritmo sobre nossa consciência. Mário diz a Neruda que sentiu-se, ouvindo os versos, como se estivesse sendo balançado como um barco em um mar de palavras... Neruda congratula seu novo amigo pelo parto de sua primeira metáfora.

O carteiro Mário não tem nada de bacharelesco, de acadêmico, de parnasiano – sua visão da poesia é bastante limitada e ele parece enxergá-la, como boa parte do povão faz, como um meio sutil para o conquista dos afetos daqueles cuja afeição desejamos assegurar. Mário vai em busca de tornar-se capaz de falar poesia por interesses afetivos bem explícitos: seu encantamento por Beatriz, re-encarnação da boa e velha musa inspiradora, célebre na história da literatura por ter sido o nome da musa de Dante Alighieri. Vale lembra que a figura histórica que inspirou a personagem-musa de Dante foi Beatriz Portinari (1266 – 1280), representada abaixo em pintura de D. Gabriel Rossetti:

Dante Gabriel Rossetti: Beata Beatrix, ca 1864-70.

Em O Carteiro e o Poeta, estamos bem longe da grandiloquência teológica da Divina Comédia, pois o poetinha Mário – que não é o Quintana, mas decerto amaria os versos daquele que passarinhava na cara dos que estão atravancando o caminho! – quer pôr a poesia a serviço dos anseios de seu singelo coração. Ou melhor, a serviço da conquista da donzela Beatriz.

Mário rouba sem muitos pudores os versos que Neruda havia escrito para Matilde. Depois justifica-se dizendo que a poesia não é posse de quem a escreveu, mas deve ser livre para ser usada. Com ironia, Neruda aprova sentimentos tão “democráticos” e ralha com seu amigo, reclamando com humor que seus versos de amor sejam mobilizados, com seu arsenal de encantatórias metáforas, pelo carteiro Mário em campanha de conquista da mulher adorada.

As relações do carteiro Mário com o poeta Neruda acabam por gerar um curioso e cômico fenômeno de plágio. O carteiro age como pirata diante dos livros de Neruda: saqueia imagens e metáforas das odes para que possa conquistar Beatriz. Não está nem aí para os direitos autorais. Age de modo egoísta e interesseiro, como se a conquista de Beatriz pudesse ser o fim que justifica a utilização de todos os meios. Skármeta descreve lindamente a magistral cena em que Mário enfim junta a coragem para declarar seu amor a Beatriz, ao pôr-do-sol de uma praia em Isla Negra, como uma ocasião onde o carteiro Mário agia quase como um ventríloquo, uma marionete nas mãos de um ausente Neruda:

“Cuando el sol naranja haría las delicias de aprendices de bardos y enamorados, sin darse cuenta que la madre de la muchacha le observaba desde el balcón de su casa, siguió los pasos de Beatriz por la playa y a la altura de los roqueríos, con el corazón en la mandíbula, le habló. Al comienzo con vehemencia, pero luego, como si él fuera una marioneta y Neruda su ventrílocuo, logró una fluidez que permitió a las imágenes tramarse con tal encanto, que la charla, o mejor dicho el recital, duró hasta que la oscuridad fue perfecta.” (SKÁRMETA, p. 51)

Este uso abusivo que o carteiro Mário faz dos versos de Neruda é razão para tensões entre os amigos. Eles não chegam a trocar sopapos, mas tem sim seus desentendimentos, seus debates cheios de antagonismo. O personagem de Neruda  irrita-se que um poema que ele escreveu para sua esposa Matilde tenha ido parar nos seios de Beatriz ao terem sido presenteados por Mário como se fossem de próprio punho. Neruda, um pouco enfurecido, diz ao carteiro:

Neruda com Matilde Urrutia (1912 – 1985)

“- No, señor! Una cosa es que yo te haya regalado un par de mis libros, y otra bien distinta es que te haya autorizado a plagiarlos. Además, le regalaste el poema que yo escribí para Matilde.

– Na poesía no es de quien la escribe, sino de quien la usa!

– Me alegra mucho la frase tan democrática, pero no llevemos la democracia al extremo de someter a votación dentro de la familia quién es el padre.” (p. 72)

Neruda, o autor de magistrais poemas, não está isento de um certo sentimento de posse: sente-se dono de certos versos, por tê-los criado, concebido, escrito, publicado. Mário, em seus roubos de versos poéticos que tem autor, fazendo-se passar pelo poeta que não é, estaria  incorrendo em falsidade e hipocrisia, portando diante de Beatriz a máscara de bardo genial e poeta inspirado, quando de fato é um pirateador da literatura muito mais do que um escritor.

Seria o destino de Neruda, pai de tantos versos, ver seus rebentos sendo contrabandeados e declamados por incontáveis enamorados pelo mundo. Talvez seja o fado inelutável dos poetas-do-amor: terão sempre os baús-de-tesouros de seus livros saqueados e manejados nas guerrilhas, tantas vezes inglórias, que os humanos realizam para as conquistas do coração alheio.

Pintura de Leonid Afremov

A comparação entre livro e filme também revela que o erotismo caliente das páginas de Skármeta é excluído da película de Radford. O filme não explicita a fisicalidade dos amores de Mário e Beatriz, permanecendo uma obra bastante casta, bem longe do espírito da escrita de Skármeta que com frequência descreve cenas quentes de sexo, com a maestria que evoca outros mestres da pintura literária dos amplexos de Eros – como Henry Miller, D. H. Lawrence, Vargas Llosa. O capítulo 15, onde descrevem-se as festas e farras que celebram o Nobel concedido a Neruda, Skármeta conta que Mário uniu-se carnalmente a Beatriz na alta madrugada e “promulgó un orgasmo tan estruendoso, burbujeante, desaforado, bizarro, bárbaro y apocalíptico, que los gallos creyeron que había amanecido y empezaron a cacarear con las crestas inflamadas, que los perros confundieron el aullido con la sirena del nocturno al sur y le ladraron a la luna como siguiendo un incomprensible convenio…” (p. 155)

Esta culminação orgásmica é descrita por Skármeta após a construção de um crescendo: inicialmente admirador platônico de sua musa inspiradora, Mário consegue – declamando versos roubados de Neruda – que a relação com Beatriz se carnalize. As ereções que ele tinha à distância transformam-se quando sua amada está presente, desnuda, entregue:

“Mario supo en ese mismo instante, que la erección con tanta fidelidad sostenida durante meses era una pequeña colina en comparación con la cordillera que emergía desde su pubis, con el volcán de nada metafórica lava que comenzava a desenfrenar su sangre, a turbarle la mirada, y a transformar hasta su saliva en una especie de esperma. Beatriz le indicó que se arrodillara. Aunque el suelo era de tosca madera, le pareció una principesca alfombra, cuando la chica casi levitó hacia él y se puso a su lado. Un ademán de sus manos le ilustró que tenía que poner las suyas en canastilla. Si alguna vez obedecer le había resultado intragable, ahora sólo anhelaba la esclavitud.” (p. 77)

Esse conhecimento carnal está ausente do filme – que nos mostra o rebento de Mário e Beatriz, o chiquito Pablito, sem explicitar o gozoso processo produtivo deste menino batizado em homenagem ao poeta laureado. Em seu discurso na Suécia ao receber o Nobel, Neruda evoca Rimbaud e a noção de uma “ardente impaciência”. Neruda interpreta a expressão de Rimbaud como se expressasse “el entero porvenir”: “sólo con una ardiente paciencia conquistaremos la espléndida ciudad que dará luz, justicia y dignidad a todos los hombres. Así la poesía no habrá cantado en vano.” (p. 112)

Também foi com ardente paciência que Mário pôs a poesia a serviço da conquista de Beatriz – e são as fusões orgásmicas entre os corpos que podem conduzir o carteiro de Neruda a concluir: com o usufruto de tais frutos carnais, com a fruição de tais amplexos e transas, é que se pode bradar que a poesia não cantou em vão!

ASSISTA TAMBÉM: “NERUDA”, um filme de Pablo Larraín, com Gael Garcia Bernal

O filme O Carteiro e o Poeta tem uma delicadeza e uma leveza que o afastam de qualquer vertente estética mais politizada ou panfletária, mas nele marcam presença alguns elementos muito interessantes para a nossa apreciação também do valor sócio-político do legado poético de Neruda. A exemplo de Brecht ou Maiakóvsvy, Neruda quis ser o poeta que dá voz aos oprimidos, que amplifica os sentimentos que a multidão gostaria de expressar, mas que com frequência não encontra os termos adequados.

Em uma cena notável do filme, em que enfim Radford se aproxima mais do espírito que anima o livro de Skármeta, Neruda recebe boas notícias do Chile: o Canto Geral foi publicado na clandestinidade e vem fazendo sucesso, apesar das proibições e anátemas que sobre ele pesam. Neruda explica a Mário:

– Quando eu era Senador da República, fui visitar os pampas, uma região onde chove a cada meio século, onde a vida é inimaginavelmente difícil. Eu queria conhecer as pessoas que votaram em mim. Um dia, em Lota, um homem saiu de dentro de uma mina carvão. Ele tinha uma máscara de pó de carvão e suor. O seu rosto contorcido pelo sofrimento, os olhos vermelhos por causa da poeira. Estendeu-me suas mãos cheias de calos e me disse: ‘Aonde você for, fale sobre este tormento. Fale do seu irmão que vive lá embaixo, no inferno.’ Achei que devia escrever algo sobre a luta dos homens, escrever poesias sobre os oprimidos e mal-tratados. Nasceu daí o Canto General… (O CARTEIRO E O POETA, aos 44 minutos de filme aproximadamente)

Certamente discursos deste teor impactaram o ingênuo Mário a ponto de conquistá-lo não só para a poesia, mas também para o comunismo. No filme, é com adesão ingênua, de coração aberto, que ele se faz aspirante a poeta e participante de comícios comunistas. São os ventos da poesia de Neruda que o empurram para aquele episódio trágico em que, movido pelo anseio de declamar um poema diante dos camaradas comunistas reunidos em praça pública, Mário perderá a vida e terá silenciado todos os poemas devido à truculência da repressão.

A morte de Mário, na ficção cinematográfica, evoca a morte de Neruda, na realidade e no livro de Skármeta. O poeta chileno não sobreviveu aos acontecimentos de 1973, quando o governo da União Popular, presidido por Salvador Allende desde 1970, foi brutalmente derrubado pelo golpe de Estado de 11 de Setembro, que instauraria a Ditadura Pinochet e daria início a tempos tenebrosos, onde as baionetas e os campos de concentração quiseram falar mais alto do que flores e poemas.

Ainda hoje são acirrados os debates sobre a responsabilidade do coup d’état de Setembro de 1973 na morte de Neruda, ocorrida poucos dias depois, mas restam poucas dúvidas de que este mês carniceiro fica na história da Humanidade como triste lembrete das catástrofes que o despotismo político pode acarretar. Setembro de 1973 será um mês que para sempre assombrará a América Latina. Ainda ouvimos os ecos das vozes silenciadas então, sepultadas precocemente pela águia impiedosa do império yankee e dos militares chilenos, vozes e vidas contáveis aos milhares, ainda que a maioria delas não seja tão célebre quanto as dos inesquecíveis Allende, Neruda e Jara.

Lendo o Canto Geral de Neruda, descubri alguns trechos profundamente comovedores sobre grandes os heróis de Nuestra América – dentre os quais hoje contamos Neruda, Allende, Jara… “Além de ser o título mais célebre de Neruda, o Canto Geral é uma obra-prima de poesia telúrica que exalta poderosamente toda a vida do Novo Mundo, que denuncia a impostura dos conquistadores e a tristeza dos povos explorados, expressando um grito de fraternidade através de imagens poderosas” (é  o que leio na introdução a Memorial de Isla Negra, ed. L&PM Pocket).

Os heróis de Nuetra América, no Canto Geral, são celebrados ali por um autor engajado e ciente de ser agente histórico, similar nisto ao herói cubano José Martí. Neruda é culto o bastante para destacar toda a diversidade da América pré-colombiana, suas populações ameríndias e suas múltiplas paisagens geográficas e ecológicas. Talvez seja preciso ler Canto Geral com quadros de Diego Rivera diante dos olhos para poder mergulhar nas fundas águas destes poemas tão impregnados de uma história cujo desenrolar o poeta vai buscar desde séculos antes da invasão européia.

Diego Rivera

No capítulo IV, Los Libertadores, está um de meus trechos prediletos da obra de Neruda. Após lê-lo, rabisquei estes pobres versos que seguem, compartilhados a seguir por influência também desta presença cinematográfica benigna e amiga que é Mário, il postino, que também ousou dizer poesia sob o entusiasmo e o encantamento da sereia nerudiana.

EL ÁRBOL DEL PUEBLO

O poeta é um pintor na tela de nossas mentes
Que não usa aquarelas, nem sons melodiosos ou estridentes,
Mas palavras. Palavras em estado de transe, de loucura, de festa…
Palavras que pintam passados, presentes, porvires.

Pinta-me Neruda uma esplendorosa Árbol del Pueblo:
Os povos de Nuestra América compõe esse arvoredo maravilhoso
Como jamais houve um parecido em todo o jardim terrestre.

As raízes da Árvore do Povo já comeram muito sangue,
Porém seus frutos ainda sabem propagar luz.

Há flores enterradas aos milhões no chão
Que engoliu e devorou todos os mártires,
Mas a luta de libertação, o júbilo da ação coletiva,
Segue rugindo contra a morte da luz,
Segue em revoltas múltiplas  contra
“a lei da desventura,
o trono de ouro ensanguentado,
a liberdade alcoviteira,
a pátria sem abrigo.”
(In: Memorial de Isla Negra, “A Injustiça”)

O correr do trem da História não deixa que se apaguem
As lâmpadas tenaze das resistências de Martís, de Sandinos,
De Guevaras, de Zapatas, de Evos Morales,
De Castros, de Marcos, de Tupacs!

Neruda pinta o quadro da Árvore dos Livres,
Crescida com o adubo salutar
Que foi sangue Heróico, pela Justiça
e pela Fraternidade… Derramado..

Para ter epopéia, Neruda precisou pôr em jogo
Um embate agoniante, um Clash épico
Entre conquistadores e libertadores,
Entre ditadores e guerreiros populares.

Acaba invocando forças telúricas e cósmicas
para as barricadas da revolução:
Neruda, na clandestinidade, faz de seu Canto Geral
Uma ode a todas as lutas libertárias.

Entoa cantos que quer que sejam sementes
Que provem-nos que o chão terrestre não acolhe
Apenas a semente de trigos e de milhos e de quinoas…
Aceita também a semente de Nerudas e Martís,
Mortos no martírio e que…
Germinam ainda… Germinarão além!

Podem cortar todas as flores,
mas não poderiam jamais deter a primavera!

O cadáver de Che na Bolívia em poucos dias foi
Devorado pelos vermes, consumido até a cinza.
Mas o mito em que Che se converteu ainda há
De nos dar muitas colheitas futuras
Em que a Árvore del Pueblo mostrará
Mais uma vez sua resiliência reXistente
Diante das elites cruéis e necrófilas,
diante dos plutocratas tubarões de Wall Street!

“Nadie renasce de su próprio brasero consumido…
Nadie arrebata el crescimiento de la primavera…”
NERUDA, Canto Geral, IV – Los Libertadores.
Pg. 126, Santiago, 2016, editora Pehuen


https://www.facebook.com/blogacasadevidro/posts/2297115753648070

Por Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Janeiro de 2018

CINEPHILIA COMPULSIVA 2018: A Lagosta; Guerra do Paraguay; Viver e Outras Ficções; A Vida Secreta dos Hipopótamos

GUERRA DO PARAGUAY (2015), um filme de Luiz Rosemberg Filho. Baixe a obra completa (em torrent): http://bit.ly/2jF3UBT.

ENTREVISTA COM O CINEASTA

1 – Como e por que um filme sobre a guerra do Paraguay, já que sabemos que foi uma guerra criminosa, como aliás todas as guerras de ontem e de hoje?

R – Não é exatamente um filme preciso sobre essa guerra trágica, vergonhosa e ainda hoje oculta ao saber. O roteiro e o filme partem do Paraguay para chegarmos às guerras de hoje. É uma metáfora poética e pensei em dedicá-lo ao “Dr. Fantástico” do Kubrick e aos “Carabineiros” do Godard. Tento levantar uma discussão ética-criativa sobre essa eterna doença da morte programada hoje por computadores, drones e bombas. Como é possível, em pleno Século XXI, esse massacre entre homens e nações? É pra isso que nos serviu o progresso e a política? É para isso que servem as palavras e os discursos? Por acaso nosso Império estava certo em manchar de sangue a nossa história? Não consigo entender ou aceitar nenhum tipo de guerra, já que somos vendidos como civilizados. Será? Por mais que se ache uma quantidade de heróis aqui e ali, não passam de bufões fantasiados de nobres! Ora, como justificar massacres, mortes de inocentes, medalhas por atos vendidos como heróicos, destruição, intimidação, medos… E tudo banhado de sangue! “O que foi que os Paraguayos nos fizeram?” Esta pergunta está no filme, e todos precisam ver a resposta voltando aos cinemas! E como diria Kafka: “No fundo sou um chinês”. E tendo como única paisagem o silêncio! O silêncio que tenta fazer calar a falta de lucidez, a vulgaridade política e a arrogância que de certo modo reterritorializa a caminhada para o fascismo. Fascismo que odeia todo tipo de saber. Daí as tantas e tantas convulsões e incertezas no atual sistema. Sistema onde o agenciamento das guerras é sempre um bom negócio! Mas para poucos!

PROSSIGA NA LEITURA DA ENTREVISTA: http://zagaiaemrevista.com.br/article/guerra-do-paraguay-de-luiz-rosemberg-filho/

* * * * *

CRÍTICA – Por Fernando Oriente

https://tudovaibem.com/2017/03/07/guerra-do-paraguay-de-luiz-rosemberg-filho/




O LAGOSTA (The Lobster, 2015, 128 min),

um filme de Yorgos Lanthimos.

Com Colin FarrellRachel WeiszLéa Seydoux

#CinephiliaCompulsiva2018

IMDbhttp://www.imdb.com/title/tt3464902/?ref_=ttawd_awd_tt

SINOPSE – Em um futuro próximo, uma lei proíbe que as pessoas fiquem solteiras. Qualquer homem ou mulher que não estiver em um relacionamento é preso e enviado ao Hotel, onde terá 45 dias para encontrar um(a) parceiro(a). Caso não encontrem ninguém, eles são transformados em um animal de sua preferência e soltos no meio da Floresta. Neste contexto, um homem se apaixona em plena floresta – algo proibido, de acordo com o sistema.

CRÍTICAS:

Cinematograficamente Falandohttp://cinematograficamentefalando.blogs.sapo.pt/the-lobster-2015-1583422

Disponível no Fórum Makingoff (só para membros)




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VIVER E OUTRAS FICÇÕES (Vivir y Otras Ficciones) – Um filme de Jo Sol (Espanha, 2016). Torrent: http://bit.ly/2pMiiLt, Legenda em português:http://bit.ly/2zqIlfD.

Resenha de Claudio Alves: http://www.magazine-hd.com/apps/wp/artekino-vivir-y-otras-ficciones-critica/

O corpo enquanto objeto político tem sido um dos temas mais curiosamente prevalentes no panorama do cinema dos últimos dois anos. Mesmo no contexto do festival online ARTE Kino, podemos contar, pelo menos, quatro filmes onde pessoas com deficiências ou enfermidades mentais, motoras e anatómicas veem os seus corpos tornarem-se em símbolos vivos de crises sociais que transcendem a carne do indivíduo. Em “Scarred Hearts”, o realizador romeno Radu Jude perscrutou as sombras da Europa pré-Holocausto através do retrato de um jovem poeta paralisado. No caso de “Godless”, idosos senis e negligenciados e abusados por uma enfermeira toxicodependente tornam-se em sinédoques de toda uma nação num processo de apodrecimento pós-soviético. “The Giant” conta a história de um homem autista e gravemente deformado, traçando, a partir daí, uma dissecação da crueldade e dos limites do estado social sueco.

“Vivir y Otras Ficciones” do espanhol Jo Sol é um exemplo com importantes diferenças no que diz respeito à sua abordagem a este tema, sendo que, para começar, o filme é um documentário. Verdade seja dita, este trata-se de um híbrido um tanto ou quanto simbiótico entre documentário e ficção, construindo-se quase inteiramente a partir de cenas claramente encenadas em que os intervenientes se estão a interpretar a si mesmos. No contexto atual, a membrana porosa que delineia as diferenças entre estes dois tipos de cinema está a ser cada vez mais porosa e irrelevante, mas convém denotar os elementos não fictícios desta obra pois, aquando da sua passagem pelo Queer Lisboa, o filme ganhou uma menção honrosa na competição de documentários.

Independentemente de tais questões de género, “Vivir y Otras Ficciones” é, de facto, um poderoso documento sobre o corpo enquanto objeto político, podendo também ser caracterizado como um grito revolucionário pelo direito ao orgasmo. Pelo menos, presume-se que é assim que o seu protagonista gostaria de se referir ao objeto fílmico. Ele é Antonio, um escritor tetraplégico que decide contratar uma prostituta para poder ter alguma gratificação sexual apesar da sua condição, acabando por agir como um facilitador do mesmo serviço para outros seus conhecidos com problemas físicos semelhantes. A mulher que trabalha para Antonio como empregada e enfermeira mostra-se extremamente ofendida com tais ações, uma reação que é refletida nos amigos não deficientes do escritor.

O mais importante destes amigos é Pepe, uma espécie de coprotagonista do filme e um espelho da solidão e isolamento social sentidos por Antonio. Acabado de sair da prisão e de uma instituição psiquiátrica, ele é um velho cheio de ressentimentos para com a sociedade em geral. Um filho ausente que recentemente voltou a entrar na vida de Pepe serve de talismã humano à solidão venenosa desse homem, cuja moral é, apesar de tudo, ainda muito definida pelas tradições e normas sociais da Espanha católica. Segundo a retórica de Pepe, cada ato de masturbação é um pedaço de inferno e a luta por direitos, se não for feita com o seu ideal de seriedade respeitosa, é somente uma brincadeira.

Muito do filme vive das discussões entre estes dois homens, mas é claro que Jo Sol está do lado de Antonio, mesmo que permita ao espetador encontrar algumas hipocrisias no seu discurso, especialmente nos seus diálogos com a mulher que tanto cuida das suas necessidades. Para o escritor, é difícil para as pessoas “normais” discutirem os problemas da sexualidade dos deficientes pois isso normalizaria demasiado a vida desses doentes. É fácil sentir-se pena pelo outro, mas realmente aceitar as semelhanças, incluindo ao nível de desejos e necessidades, é algo mais difícil. Nas palavras de Antonio, tais ponderações forçam a pessoa “normal” a ver-se a si mesma na posição do necessitado, a interiorizarem mentalmente a fragilidade da sua própria carne. Para os privilegiados que podem escolher ignorar tais realidades, é mais fácil condenar a sexualidade destas pessoas a algo abstrato.

O próprio cinema é culpado desta sistemática assexualização de corpos tidos como imperfeitos. Afinal, qual foi a última vez que se viu um filme lidar com os desejos de pessoas feias, de idosos, de obesos, ou mesmo de pessoas de etnias discriminadas? Nesse sentido, “Vivir Y Otras Ficciones” é um choque tremendo, um filme que tenta espantar e até repugnar o espetador até que dessa estranheza floresça empatia. Quando, perto do final, um clube noturno se torna num cabaret de corpos “anormais” a reclamarem o seu direito a serem vistos como desejáveis e sexuais, sentimos uma genuína vontade de celebrar e participar nas festividades orgásticas. Infelizmente, como modo de calibrar a perspetiva da audiência, o filme acompanha os seus jogos de choque com grandes monólogos, negligenciando o seu esqueleto rítmico.

Tal displicência estrutural resulta num filme que, ocasionalmente, cai em momentos mortos e numa geral falta de energia. Com isso dito, as ambições e retórica política da obra muito compensam essas fragilidades e proporcionam momentos que transcendem mesmo o investimento intelectual do espetador e conseguem ativamente comover. Uma interação entre Antonio e a sua prostituta de eleição torna-se num dos momentos mais belos do filme e os interlúdios musicais são algo do outro mundo, propondo um diálogo entre o verso cantado e as ideias ativistas do escritor ao mesmo tempo que embalam o público com a beleza da voz e melodia em comunhão dançada.”Vivir y Otras Ficciones” é assim um filme importante, inteligente, frágil e portador de ideias incrivelmente urgentes sobre como, quando o nosso corpo é um objeto político, o próprio ato de existir se torna numa manifestação militante.

Cláudio Alves




A VIDA PRIVADA DOS HIPOPÓTAMOS

Gênero: Documentário | Biografia

Diretor: Maíra Bühler, Matias Mariani
Duração: 1h 31 minutos
Ano de Lançamento: 2014
País de Origem: Brasil
Idioma do Áudio: Inglês | Espanhol | Português

O mergulho na escuridão

“A resignação é necessária para quem está à porta do paraíso; não afrontemos o destino que é tão bom connosco (…) Depois… depois querida, queimaremos o Mundo, porque só é verdadeiramente senhor do Mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis.” (Machado de Assis, em ‘Carta a Carolina de Novais’, 1869)

Logo no início, há o testemunho de que Christopher Kirk, um técnico de informática que possivelmente vislumbrava o mundo por demais virtualmente (e quem sabe, até por isso), tem a ingenuidade de um Pinóquio. O enquadramento de sua entrevista impõe um contraste: pelo quadro negro ao fundo, poderia ser uma escola, mas o figurino indica a certeza de uma penitenciária. Kirk fora engolido pelo sistema-baleia ou, malandramente, retorceu as aparências? Seria o caso de um homem se insurgindo dentro de sua aparente e rotineira docilidade?

Essa pergunta queda em banho-maria durante quase todo o corpo do filme, desviando o problema central para sua namorada nipo-colombiana. Fica a impressão de que a suposta culpa necessária para a sua presença na prisão vai ser dela e da ingenuidade do amor que leva à derrocada. A narrativa poderia ser essa, se não fosse, no fundo, a própria idéia de se ater ao gesto de narrar. Maira Bühler e Matias Mariani tinham a idéia de fazer um filme sobre presos no exterior. Acharam um personagem que superou as expectativas e então a coisa se transformou. A princípio, poderia ainda ser um filme sobre um preso (americano) no exterior (Brasil), mas isso já não mais o define. A Vida Privada… é sobre um exímio contador de estórias e sua vontade de expressar um sentido maior para cada conjunção de palavra reverberada; sobre a capacidade de criar uma imersão narrativa a partir de elementos simples e brutos: a palavra falada de Kirk, a escrita proveniente dos chats e as fotos que mais escondem do que mostram para desenvolver um suspense. Kirk cria climas, gera suspense e o filme sabiamente o acompanha. A montagem, não à toa, é conjunta – muito se dá a partir do HD do próprio personagem.

Enquanto absortos nos mistérios de uma Capitu pixelizada, aos poucos entende-se que Kirk, por mais que diga que não aceita fazer parte daquele tipo de casal prenhe de jogos, acaba entrando por curtir desvendar o mistério e, ainda mais profundamente, por estar fazendo parte de uma cadeia de mistérios. O enigma, que sempre fora o de descobrir quem é aquela mulher sem face em meio a tantas viagens, passa, ao fim, meio de supetão, para o eixo que interessa: a partir da relação com a colombiana denominada “V”, desvenda-se a real faceta de um Pinóquio que decidiu conhecer o mundo fora dos limites que seu demiurgo Gepeto havia lhe incumbido.

Se existe um paralelismo entre Gepeto e a vida de Kirk, esta associação não cabe a Deus, mas a uma certa rotina aprisionadora, ao trabalho que nos move, define e restringe, ao labor castrador que nos impele à repetição de atos, afugentando pensamentos rebeldes que se embrutecem e evaporam como feixes de luz numa distante nuvem de mormaço. Se existe um perigo de se esmorecer na barriga da baleia, ficar lá para sempre velho e esquálido, esse esfacelamento vem do ato chapliniano de apertar os parafusos de uma engrenagem mundial sem qualquer inspiração para fazê-lo a não ser a necessidade. Independente dessa sobrevivência persistir necessária, continuamos apertando parafusos sem pensar, no embalo, para o resto de nossa vida útil – termo que associa o tempo de proveito justamente ao tempo de trabalho, da juventude à aposentadoria – e esse ato contínuo gera um automatismo impregnante à ingerência de nossas vidas privadas (o “quit stalling!” gritado pelo chefe no banheiro é justamente a interdição de um momento quando Chaplin poderia parar e pensar sobre seus próprios atos).

O termo “breaking bad” é uma gíria sulista que significa desviar-se do caminho correto. Muitas vezes, esse correto não é o teleologicamente certo a se fazer, mas, paradoxalmente, apenas o carente de correção. Um rumo sem desvios, balizado por um sistema, aquela velha palavrinha imaterial. Segundo o Wikipédia, sistema é um “conjunto de elementos interconectados, de modo a formar um todo organizado”, que, nesse caso, na sua própria formação, também organiza e delimita um norte aos novos elementos que se integram ao sistema. No primeiro episódio da série homônima americana – que adotou a gíria como título, transparecendo a trajetória de seu protagonista – Walter White recebe a notícia de que tem câncer e sua vida passa a ser contada ao avesso, de forma regressiva. A partir desse fato, resolve mudar os parâmetros que sempre o guiaram. Christopher Kirk enxerga o aprisionamento de uma rotina de condutas – regulado primariamente por um sistema de trabalho – que regula sua vida, e assim resolve, como Walter White, quebrar o pacto com o destino premeditado.

Enquanto White vai empreender o que sabe fazer de melhor – ser químico, independente das afeições morais – Kirk se joga no escuro, renegando seu aparente talento em informática em busca de algo ainda mais radical que ainda está para ser desvelado. Vai à Colômbia em busca de uma palpabilidade etérea, de uma transcendência mundana, de experiências concretas ressignificantes, remodeladoras de um olhar, de uma perspectiva, de uma visão de mundo conscientemente claustrofóbica, petrificada pelo seu dia a dia americano. Vai para lá por causa de Pablo Escobar, o grande traficante que, até certa altura da virada dos anos 1980 para os 1990, era um dos homens mais influentes, poderosos e perigosos do mundo e tinha em mãos um exército de soldados e criminosos, mansões por toda a Colômbia e até um zoológico aberto à visitação de toda a população local (para chegar até o zôo, ônibus escolares lotados passavam por debaixo da réplica do avião que carregou o primeiro carregamento de cocaína para os EUA).

Depois de sua morte, tudo foi confiscado, inclusive os animais de seu Jurassic Park privado, com exceção dos hipopótamos, que não cabiam mais em outros zoológicos e acabaram se adaptando perfeitamente ao ambiente local, que era propício à sua perpetuação. Hipopótamos, apesar de parecerem fofinhos e de muitos na região quererem adotá-los, são dos animais mais perigosos trazidos da selva africana. Escobar deixara de legado um novo ecossistema à sua semelhança. Ninguém, na pequena cidade perto de Bogotá onde habitam os hipopótamos, sabe até hoje como lidar com eles – uma mistura de sentimentos que reflete a ambígua relação que os colombianos tinham com o traficante. A faceta de Pinóquio se dissipa na viagem pela América: Kirk parece mesmo um hipopótamo, com um lado meigo que esconde o risco iminente. Mas, muito além da banalização de uma incorporação do mal, Christopher Kirk é o adágio de uma lembrança continuamente perdida: é preciso tomar as próprias rédeas para sentir-se dono de seu caminho. Para o bem ou para o mal.

SE LIGA NO ÁLBUM:

Cantigas Xamânicas de Amaravilhamento Cósmico: Sobre o filme “Biophilia” de Björk

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Se me perguntarem quais foram as experiências estéticas mais impressionantes que já vivenciei, entre as mais fortes eu colocaria a atuação de Björk em Dançando no Escuro, de Lars Von Trier.

Ali no filme descobri, espantado, o enorme talento que a islandesa – que quando novinha era um cubo-de-açúcar cantante, e bem da-pá-virada, à frente do Sugarcubes – possui também como atriz e performer, perpassando tudo com a estranheza encantatória daquela indefinível incógnita: a Björkidade.


Deus does not exist…”

 Björk e sua dancer in the dark puderam comunicar algo de tal magnitude e complexidade que só dá pra descrever apelando para os adjetivos “épico” e “trágico”. Lars Von Trier, tentando ser Brecht, flertando com Ibsen, fazendo suas mímesis de Bergman, acabou gerando algo próximo de Shakespeare…

Depois de “conhecer” a personagem que ela encarnou na sala de cinema, Selma, é impossível não carregar Björk – esta pulsante presença feminina na arte global – na memória como marca indelével. Selma, que vai perdendo a visão e cantando em sua cegueira, pode até ter olhos que vão gradualmente fracassando na percepção do mundo externo, mas em contraste isso parece intensificar o colorido carrossel interior da personagem. E ela segue transformando toda desgraça em opereta.

Canta até mesmo no calabouço. Canta até o fim. Canta até que o cadafalso cale todas as canções. E é talvez o silêncio mais cruel que o enfant terrible Von Trier já nos expôs a sentir: Selma dependurada pelo pescoço, condenada à morte em um mundo de homens que não cantam nem encantam ninguém, e que decidiram pelo assassinato institucionalizado de uma mulher estigmatizada como assassina.

As circunstâncias de seu crime, porém, são bem mais que meramente atenuantes – Selma defendeu-se de um assalto às suas economias, arduamente acumuladas em seu “porquinho” de economias, já que era devotada à causa de salvar seu rebento do destino dela – a cegueira.

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Se evoco aqui a obra-prima do provocador dinamarquês é para relembrar que Björk já tem um tremendo precedente em sua carreira “extra-musical” – e quão raro é que alguém do ramo da música vença um prestigioso prêmio como Melhor Atriz no Festival de Cannes!

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MUSIC FROM LARS VON TRIER’S CONTROVERSIAL DANCER IN THE DARK. Selmasongs features the creative and emotional songs that helped to drive the film. Bjork plays the role of Selma, a Czech factory worker who is going blind but finds hope and refuge in the musicals she watches. Her character comes to life through the music Bjork composed, performed, and produced with conductor/arranger Vincent Mendoza and her longtime collaborators Mark “Spike” Stent and Mark Bell. She duets with Thom Yorke on “I’ve Seen It All,” while “In The Musicals” shows how easy it is for her character to slip into fantasy.





Björk demonstra mais uma vez suas múltiplas habilidades como performer e atriz no filme-concerto Biophilia, um espetáculo grandioso, ambicioso até o limite da megalomania, que demorou 4 anos para ser concretizado, e que merece muito ser visto no telão de um cinema e em volume no talo (tive a chance de vê-lo durante o festival This Film Should Be Player Loud do cinema Hot Docs/Bloor Street de Toronto).

Biophilia – do grego philia (amor) + bíos (vida) – é celebração da força vital, do élan animadora da matéria, através de um espetáculo multi-mídia que congrega teatralidade, coreografia e ritual pagão de adoração a Pan.

Biophilia carrega o “filme musical” a um patamar inaudito onde ele embarca numa onda nova: o show como ritual sagrado, dispositivo místico, destinado a causar a imersão do espectador no seio adorável de Pachamama, deusa-mãe que tudo inclui e dentro da qual estamos contidos. Björk em Biophilia é, em transes dos mais belos, a sacerdotisa de Gaia – aquela dos mais de mil nomes…

Suspeito que é uma obra que deve entrar para a história como um dos mais interessantes “filmes-show” já feitos, juntando-se ao Olimpo que já tem The Last Waltz (Martin Scorcese filmando a The Band) e Stop Making Sense (Jonathan Demme em sintonia com os Talking Heads), dentre outras pérolas do “show-cinema”. São filmes como Biophilia que podem agir como dínamos culturais que ampliam nossos horizontes do que pode e deve ser um show… 

Assemelha-se nisso, por exemplo, aos acessos místicos que nos são propiciados pelas imagens das espetaculares estripulias de Vossa Guitarreidade Suprema, o voodoo child Jimi Hendrix, no Live at Monterey focado pelo filme documental de D. A. Pennebaker.

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HENDRIX AT MONTEREY – Tracklisting: 1. Killing Floor; 2. Foxey Lady; 3. Like A Rolling Stone; 4. Rock Me Baby; 5. Hey Joe; 6. The Wind Cries Mary; 7. Purple Haze; 8. Wild Thing; 9. Stone Free; 10. Like A Rolling Stone.

Expandindo horizontes com a radicalidade de um Hendrix ou um Zappa, a Björk revela-se uma artista de imensa ambição e múltiplos talentos ao construir em Biophilia um retrato sônico, visual e teatral de certas imensidões que não se imagina caberem no espaço restrito de uma canção ou de um palco: galáxias de revirantes corpos celestes, unidos pela força invisível de abraços gravitacionais, são evocados com recorrência durante o concerto, fazendo deste um hino ao cosmos.

“Heaven’s bodies / Whirl around me / Make me wonder…”, canta Björk em “Cosmogony”, como se estivesse em delírio de fascinação diante do dínamo iluminado da noite.

A luz de horizontes distantes que penetra nossas as retinas, emanada de astros que estão há bilhões de anos-luz de distância de nós, tem como equivalente interno, na expressão de Björk, numa verdadeira “nebula interior” – fenômeno psiquíco-cosmológico que ela explora em uma das mais lindas composições do álbum, “Crystalline”:

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O nome do projeto também dá o que pensar: como é evidente, Biophilia tem como proposta colocar a música em um contexto biológico e litúrgico, constituindo uma espécie de culto musical à Vida.

Tanto é assim que o grande naturalista e broadcaster britânico David Attenborough é uma figura importante neste processo. Conhecido pelas mais de 5 décadas de trabalho educativo televisionado, em especial através da rebe pública inglesa BBC, Attenborough viaja o mundo documentando a diversidade da vida para séries consagradas como Life e Planet Earth.

Seu vozeirão à la John Hurt faz o prelúdio à Biophilia, convocando o público a explorar o amor à natureza em todas as suas manifestações. O encontro entre os dois rendeu ainda o instigante documentário “When Attenborough Met Björk” (2013, Direção de Louise Hooper).

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Quando Björk desponta em cena, é em exuberante e exótica fantasia, que deixa aberta a via para múltiplas interpretações: a mim pareceu que ela estava vestida com uma espécie de fantástico animal marítimo, com os cabelões em fogo como uma espécie de Agni animalizada e encarnada com feições asiásticas…

É como se Björk quisesse se desumanizar, mas em um bom sentido: ela tenta identificar-se com animais, plantas, rios, florestas, nuvens, estrelas, em uma espécie de devir-outro em que procura transcender os estreitos antropomorfismos e atingir uma arte que, apesar de humana, procura ser retrato de toda a beleza, força e mistério do inumano. Nada do que não é humano lhe é estranho.

Todos os conceitos que estão por detrás do projeto Biophilia são difíceis de compreender para um espectador que vai “virgem” ao álbum, ao espetáculo ou ao filme, o que é mais uma razão para louvar um documentário como When Attenborough Met Björk, que vai muito além de registrar uma conversação entre o erudito biólogo e a talentosa cantora no interior do Museu de História Natural de Londres.

 O documentário serve como ótimo “aperitivo” para Biophilia e merece ser exibido na sessão de cinema imediatamente anterior, fornecendo o “contexto” que possibilita perceber mais nuances da obra principal.

Attenborough desfila seu vasto conhecimento sobre os animais e os sons que eles produzem para compartilhar uma tese que a alguns pode até soar estranha: a música transcende a humanidade e pode-se inclusive falar, sem cair no ridículo, na “música dos pássaros”, na “música das baleias”, na “música dos macacos”…

Oliver Sacks

Oliver Sacks, o neurologista, com todo o conhecimento adquirido em mais de 80 anos de vida devotada a pesquisas sobre o cérebro humano, revela no documentário suas opiniões sobre o quão importante a música pode ser como “terapia”, relatando um experimento com pacientes idosos, em estado de demência, que só “despertam” de suas letargias ou de seus delírios quando “penetrados” por uma música evocativa, que traz memórias à tona e comunica para além da verbalidade. É o tema do lindo documentário Alive Inside. 

Björk, ela também, procura em sua música ir muito além da verbalidade. É evidente que suas canções tem palavras e que é plenamente possível imprimir suas letras em um encarte ou fazê-las aparecer em legendas. Mas seu trabalho sobre o som é muito mais amplo do que uma mera artesania vocabular.

A arte de Björk cria uma espécie de “atmosfera” em que o ouvinte-espectador pode mergulhar, realizar uma imersão e deixar-se afetar em todos os seus sentidos, para além da razão. Em Biophilia, o filme, as paisagens sonoras, aparecem mais como forças da natureza do que como algo a ser restrito ao âmbito da criatividade humana.

Eis uma arte que não apela somente ao intelecto, mas sim à sensibilidade por inteiro, e quem quiser “entender” Björk unicamente com a cabeça vai fracassar, assim como aquele que é “todo coração” e zero cérebro. Em sua relação com a música dela, só sendo “sentipensantes”, como propugna o escritor uruguaio Eduardo Galeano, é que poderemos apreciar a contento. Seria um crime não sentir as vibes de Biophilia, mas não pensar sobre elas também é via errônea. Quem desligar razão pra ser “só emoção” deixará de apreciar todo o arcabouço conceitual que está por detrás da obra.

A melhor atitude diante de uma obra ousada e excêntrica como essa, creio eu, é ir de cabeça aberta e coração alerta, pronto para o encontro com a estranheza maravilhante e o exotismo exuberante.

E quem quisar dropar um ácido ou intensificar sinapses com uma ganja, pode ir a Biophilia sem medo de bad trip. O único risco, que não é grave, está em ser acometido por experiências intensas de misticismo exacerbado, paganismo panteístico e biophilia desabrida.

Em suma, Biophilia manifesta Björk ensinando-nos a melhor amar a vida ao encenar e cantar seu próprio amaravilhamento cósmico. Acaba fazendo tudo com aquela Exuberância que o poeta William Blake dizia ser sinônimo de Beleza e da Sapiência (“the road of excess leads to wisdom”). Björk é encarnada biophilia: mestra do amor musicado à vida. Listen and learn.

NÃO ULTRAPASSE, de Elem Klimov (URSS, 1964) #CinephiliaCompulsiva

NÃO ULTRAPASSE, dirigido por Elem Klimov​ e lançado em 1964, é um dos mais adoráveis filmes soviéticos que conheço. É uma espécie de comédia anárquica que, além de lembrar a graça de humoristas clássicos da sétima arte como Charlie Chaplin (Official)​ e Buster Keaton​, evoca também lembranças do clássico do cinema francês, “Zero de Conduta” de Jean Vigo​. Nos dois casos, a luta entre a autoridade adulta e a anarquia infantil acaba com uma estrondosa vitória dos ingovernáveis.

A história se passa em um acampamento de verão onde estão reunidos, em todo o fervor da meninice, muitos jovens soviéticos que estão sendo instigados à disciplina para a realização de grandes façanhas. Os adultos, em seu altos ideais impostos de cima de tablados, querem que os rapazes e raparigas se tornem grandes esportistas e célebres cosmonautas, encantadores músicos e sublimes dançarinas – os futuros Tolstóis e Gagárins, Tsvetaiévnas e Tchaikovskys.

Mas para isso as autoridades pedagógicas necessitam driblar um desafio. Qual seja: a selvageria infantil, o ímpeto de vida indisciplinável, o gosto e o gozo da baderna.

O protagonista infantil, Kostya Inochkin, é aquele tipo de criança demasiado impertinente – como a Mafalda​ de Quino – e que desrespeita muitos limites impostos de fora. Entra assim em choque contra o diretor do campo, o Tavarish Dynin, camarada que busca por todos meios impor uma sociedade disciplinar em meio ao turbilhão de malandragem mirim.

O duelo entre o menino Kostya e o camarada Dynin rende muitas gargalhadas, mas o filme de Klimov – responsável também pelo clássico e contundente “Vá e Veja” – vai muito além da comédia pastelão.

Atinge a genialidade ao penetrar na subjetividade da criança, ao pintar seu mundo interior, ao filmar seus delírios internos. Como naquela cena em que, após ser expulso da comunidade pelo diretor devido a seu mau-comportamento, Kostya, na estação de trem, imagina as consequências de voltar para casa e dar a notícia de sua punição para a avó.

Evocando o cinema onírico, surrealista, que tem em Luis Buñuel e David Lynch alguns de seus gênios, o que Elem Klimov faz nestas cenas inesquecíveis é do mais estarrecedor brilhantismo: o pequeno Kostya imagina-se causando uma decepção letal à sua pobre avó, que morre de desgosto, desmaiando direto no caixão ao deparar com o neto, expulso pela autoridade disciplinar. É uma cena capaz de fazer o cinéfilo lembrar-se de algumas das melhores cenas de Ingmar Bergman​, mas que possui também um humor tão cáustico quanto o de Mary and Max​,

No funeral (delirado) que o menino está assistindo em seu cinema interior, ele vê dedos acusadores que o apontam, culpabilizando o criminoso involuntário, fazendo-o sentir-se pesadamente culpado pela morte (imaginária) da avó. E aí a procissão fúnebre desenha no território, filmado com maestria por uma câmera em vôo, um gigantesco ponto de interrogação formado por uma centopéia humana, completada pela frase: “Por que você matou sua vovó?”.

O menino, em sua fantasia, faz uma previsão sobre um futuro possível – causar a morte da avó através de sua aparição como figura punida por indisciplina – e resolve re-entrar na cena de onde havia sido expulso. Viverá uma vida clandestina após invadir o recinto que, bem ironicamente, contêm em seus portões os ditos contraditórios: “Seja Bem-Vindo!” e “Não Ultrapasse!”.

O filme pode ser lido com auxílio de Foucault e Wilhelm Reich, de Elisée Reclus e de Herbert Marcuse, como uma espécie de alegoria da sociedade de controle, alertando-nos sobre as consequências do excesso de repressão. O filme mostra a censura de um filme em suas cenas de amor mais quentes, e em outro momento mostra o diretor mandando amordaçar Vladimir Maiakovski​, cujos versos as crianças cantavam alegremente, dizendo que devemos lançar à lata de lixo da história todo esse papo de Adão e Eva…

Apesar de não ser nada fiel a quaisquer princípios do realismo socialista, o filme fornece vislumbres do que deve ter sido a pedagogia soviética, inspirada pelos ideais comunistas tais como eles se manifestavam na URSS dos anos 1960. O filme acaba por sugerir, de maneira impertinente-libertária – muito mais próximo do anarquismo do que do stalinismo! – que há algo na natureza humana que se revolta contra as mordaças e as camisas-de-força impostas pelo poder, por mais bem intencionado que este seja.

Este ímpeto vital, na meninice bastante ingovernável, é o que o processo pedagógico busca domesticar, impondo a ele limites, forjando para ele a jaula das regras e regulamentos, porém ele escapa sempre pelas frestas.

O protagonista, Kostya, é um emblema da pulsão vital, do élan pulsante de uma vida incontenível. Tanto que se rebela contra o pequeno cercadinho que é permitido aos pioneiros utilizarem, na beira da praia, para natação. A muvuca extrema naquele cercadinho de água é aquilo que instiga a rebeldia do pequeno pioneiro. Ele queria nadar como se estivesse livre em pleno oceano. Ele queria explorar as ilhas ao redor. Ele queria ir brincar com outras crianças da comunidade dos arredores, ao invés de ficar preso num círculo de convivência bem limitado, descrito aliás pelas autoridades com o nome militaresco de “tropa”.

Contra a disciplina imposta às crianças como partes de tropas a serem domesticadas, o pequeno rebento libertário que é Kostya utiliza toda a força da solidariedade entre os oprimidos para realizar uma espécie de Levante dos Zero de Comportamento.

Quando o filme se encerra, num desfecho memorável e delirante, surrealisticamente utópico, é como se Elem Klimov estivesse querendo botar pilha na fogueira de nossos ímpetos de ingovernáveis, chamando-nos para tentar até mesmo o que parece impossível: com Kostya, somos convocados ao redespertar da anarco-criança interior que é capaz de saltar por barreiras ditas incontornáveis, pulando por cima de fronteiras excessivas pela repressão edificadas.

Kropotkin, creio eu, aplaudiria.

Por Eduardo Carli de Moraes​ para A Casa de Vidro

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TÍTULO EM INGLÊS: Welcome, Or No Trespassing.

TÍTULO EM RUSSO: Dobro pozhalovat, ili Postoronnim vkhod vospreshchen

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Bem-vindo à Distopia do Real – Crítica do curta-metragem “2081”, baseado na obra de Kurt Vonnegut

Vivemos em uma era em que nada descreve melhor a sensação de habitar o real do que as distopias. Estamos na aurora de uma nova Era Dourada do sci-fi pesadelo, que manifesta-se em obras-primas da televisão como Black Mirror e The Handmaid’s Tale.

Os romances de Margaret Atwood​ bombam nas livrarias enquanto Blade Runner 2049 (de Denis Villeneuve)​ pousa nos cinemas, reavivando o interesse tanto pelo filmaço de 1982 de Ridley Scott, quanto pela obra de Philip K. Dick, uma das fontes originais do sci-fi cyber-punk. Alguns best-sellers transformados em blockbusters provam também que é altamente lucrativo o negócio das narrativas catastrofistas em um planeta reduzido a uma caótica Devastolância, como provam as trilogias “Jogos Vorazes” (The Hunger Games) e “Divergente” (Divergent), cujos filmes explode-quarteirão levaram às multidões as criações literárias de Suzane Collins​ e Veronica Roth​ (respectivamente).

O curta-metragem “2081” encapsula em 25 minutos de filme muito da potência expressiva da ficção científica distópica no cenário artístico atual. Baseado no conto do genial escritor Kurt Vonnegut​, “2081” se passa nos EUA no fim do século 21, quando reina um governo que promete ter atingido, enfim, a Era da Igualdade.

“O ano era 2081 e todos eram finalmente iguais. Eles não eram iguais somente perante Deus ou e Lei. Eles eram iguais de todas as formas. Ninguém era mais inteligente que ninguém. Ninguém era mais bonito ou forte que ninguém. E toda essa igualdade era devida às 211º, 212º e 213º emendas constitucionais e à vigilância incessante do General Nivelador dos EUA. Os fortes usavam pesos para torná-los mais fracos. Os inteligentes usavam aparelhos no ouvido que os impediam de tirar vantagem injusta do cérebro. Até o belo às vezes usava máscaras em situações onde a beleza podia simplesmente ser… distrativa. Era a Era de Ouro da Igualdade.”

Trata-se de uma igualdade na mediocridade, de uma totalitarismo da imposição de homogeneidade social a partir de controles militares e vigilância hi-tech. Uma sociedade onde reina a imposição de um mesmo modelo medíocre a todos. Todos aqueles que possuem talentos extraordinários ou dons singulares tornam-se vítimas de um Estado que impõe por toda parte as ferramentas de controle e mediocrização – os “handicaps”.

Ou seja, em “2081” um Estado totalitário, gerido por uma Big Sister e não por um Big Brother, faz política de terra arrasada contra a Criatividade humana. O filme nos faz imaginar uma sociedade na qual quem tivesse ouvido absoluto seria obrigado a andar pelo mundo com cera nos ouvidos para ensurdecê-los um pouco. Uma sociedade na qual os inteligentes seriam enviados à força para a mesa de um neurocirurgião para passarem por um processo de dano cerebral que os emburrecesse. Uma sociedade na qual os cantores à la Orfeu, que encantam por seus talentos musicais, teriam suas línguas cortadas. E os poetas que escrevem bem demais têm suas penas quebradas e a publicação proibida.

Em toda parte, imposição autoritária, por parte das autoridades comandadas pela chefe-de-Estado, a “Handicapper” General, de um padrão de mediocridade.

O diretor e roteirista Chandler Tuttle realiza esta pequena obra-prima com uma conjunção rara entre comédia e tragédia. Como alguém que aprendeu com a dramaturgia dos gregos a mesclar o cômico e o trágico, Woody Allen e Shakespeare, Apolo e Dionísio.

A comédia manifesta-se no cenário do filme: a sala-de-estar de um casal de velhinhos que assiste TV, no maior tédio, ele com a latinha de cerveja na mão, ela tricotando sua malha. A tragédia irrompe nesta sala-de-estar quando um prisioneiro de Estado, o anarquista e inimigo-público-número-1 Harrison Bergeron, foge da prisão e invade um teatro – tudo ao vivo para todos os telespectadores acompanharem de olhos colados à Orwelliana teletela.

A velhinha tricotante é a encarnação do conformismo ao regime, da incapacidade de questioná-lo, da futilidade feliz com sua própria rasidão. O velhinho, atônito em seu sofá, provavelmente com os músculos já atrofiados depois de tantos anos de handicaps, é rabugento com a presença da esposa, que considera também uma “handicapper”, uma mutilante-do-outro. Este filme quase-de-terror nos revela uma sociedade tão doente que todo mundo mutila todo mundo e chama isso de “Igualdade”… Neste cenário de pseudo-igualdade, e de real ausência de qualquer estímulo à liberdade e à criatividade, irrompe o anarco-mártir.

Harrison é uma espécie de ativista anarquista, está em levante contra o regime, o sistema, as forças de repressão. Quer hackear a mídia de massas para mandar sua mensagem. É parecido com o herói V, de “V De Vingança”, HQ do gênio-xamâ Alan Moore​ já adaptada para o cinema, tributo ao lendário Guy Fawkes e sua tentativa de destruição do Parlamento Inglês…

Harrison, em “2081”, é anarco, mas não punk: depois de fugir da cadeia, invade um balé e solicita música clássica como acompanhamento para uma memorável performance… Ele diz que instalou uma bomba no teatro e que está com o detonador em suas mãos. Joga xadrez com a Tropa de Choque que está a seu redor, pronta para trucidá-lo. Ensina suas lições à distinta platéia ao seu redor, pregando a divergência, a quebra das correntes impostas pelo regime político handicapante. Faz-se maestro de orquestra e parceiro de dança de uma das bailarinas. Conduz as peças no tabuleiro com maestria, enganando o inimigo até a hora de seu xeque-mate.

Para Harrison, a morte não é o pior dos males, mas sim viver sem liberdade. Inclusive a essencial liberdade de divergir é o que faz a vida digna de ser vivida. Não há democracia digna deste nome senão aquela onde exista o direito à divergência – e eis um ensinamento que podemos tirar tanto do herói anarco de “2081”, quanto da saga da personagem “Tris”, protagonista da trilogia “Divergente”. Em ambos os casos, as obras comunicam uma mensagem libertária: escapar à norma, ao padrão, à divisão em castas ou facções. Resistir ao medíocre paradigma do que deve-se ser, imposto pelos mediocrizadores de tudo, é essencial à ação e à reflexão daqueles que desejam melhorar o mundo através da criação de um outro mundo possível, que supere este que está “dado” mas não finalizado. A criatividade é essencial para que se transcenda as limitações deste estado atual do mundo, e só se cria em um contexto que estimule a irrupção do novo, do extraordinário, do inédito, de preferência aqueles que inaugurem uma reinvenção do que mundo que está sendo, rumo a um ser-outro, um outro-mundo (na Terra, e não no céu; pra aqui, e não para o Além…).

“2081” sugere que pode-se morrer e vencer ao mesmo tempo. Kurt Vonnegut, o grande mestre, conduz Harrison a ser devorado pelos lobos, mas faz com que os lobos queimem seu próprio filme diante do rebanho de ovelhas que assiste a carnificina.

Talvez o grande mérito, tanto do personagem Harrison, quanto do brilhante curta-metragem de Chandler Tuttle cono um todo, seja algo além de prestar um tributo ao brilhantismo de um dos maiores escritores estadunidenses do século 20 (Vonnegut). “2081” quer convocar as ovelhas para fora do rebanho, como fazia o Zaratustra de Friedrich Nietzsche​. “2081” diz, ecoando Rosa Luxemburgo​, que a gente perceba: “quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem.” “2081” nos inspira a ser hackers de um sistema falido, como Assange na empreitada Wikileaks​aks. “2081” mostra que as melhores distopias são aquelas que permitem, pelas frestas do pesadelo, a irrupção utópica de uma contestação libertária.

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Crítica por Eduardo Carli de Moraes​ para A Casa de Vidro​

Assista o filme:

(Áudio em inglês, legendas em espanhol)