FARDOS E PRÊMIOS DA SOLIDARIEDADE INTERNACIONALISTA: Cuba acolhe os doentes de Chernobil no filme “O Tradutor” (2018)

OS FARDOS E PRÊMIOS DA SOLIDARIEDADE INTERNACIONALISTA

por Eduardo Carli de Moraes – #CinephiliaCompulsiva @ A Casa de Vidro

O desastre na usina nuclear de Chernobil, no norte da Ucrânia (então pertencente à URSS), no ano de 1986, foi tema d’uma mini-série lançada em 2019 pela HBO e d’um livro da vencedora do Nobel de Literatura Svetlana Alexiévich.

Cerca de 25.000 pessoas, que tiveram graves impactos na saúde ao serem expostas à radiação, foram acolhidas em Cuba para tratamentos médicos gratuitos através de um programa de parceria, criado por Fidel Castro, que se estendeu até o ano de 2011 (reportagens sobre o tema podem ser acessadas em UOL, O Globo, Revista Fórum, Granma etc).

O Ministério da Saúde de Cuba estima que 21.378 crianças, atingidos pela hecatombe nuclear, que receberam cuidados médicos e amparo psicológico na Ilha – que se notabilizou, sobretudo após a revolução comunista de 1959, pela construção de um dos melhores sistemas públicos de saúde do planeta.

Médica cubana posa com uma das chamadas “crianças de Chernobil”, em foto dos Anos 90. Fonte: Revista Fórum.

Em circunstâncias históricas de crise humanitária, Havana acolheu como pôde os doentes de Chernobil, mostrando na prática o que significa o conceito, que muitos permitem que seja apenas teórico (ou nem isso…), de solidariedade internacionalista: “(Este programa) é um exemplo do que pode fazer um povo que, sem ter grandes riquezas materiais, tem a grande riqueza espiritual de haver-se educado na solidariedade”, disse o ministro de Saúde cubano, José Ramón Balaguer, durante cerimônia do projeto em Tarara, a 20 quilômetros de Havana. [O GLOBO]

Ator Rodrigo Santoro e os irmãos que dirigem este filme baseado na trajetória dos próprios pais.

No filme “O Tradutor” (2018), co-produção Cuba-Canadá, realizado pelos irmãos Rodrigo e Sebastián Barriuso, os cineastas contam a história dos próprios pais, Malin e Isona, no fim dos anos 1980. Malin – interpretado por Rodrigo Santoro (Bicho de Sete Cabeças) – é um professor de literatura russa de uma universidade de Havana que assume a responsabilidade de ser tradutor na ala infantil de um hospital que atende crianças adoentadas devido à hecatombe ucraniana. Já sua esposa Isona – interpretada por Yoandra Suárez – é uma curadora de arte, merchant de pinturas, que está grávida do segundo filho do casal. As duas crianças da família – a já nascida e aquela ainda em gestação – crescerão para se tornarem os diretores do filme que o espectador assiste.

O casal, durante o filme, tem vários problemas de incompreensão mútua e de conflitos conjugais que parecem devidos à dificuldade que cada qual tem de traduzir para o companheiro os sentimentos vivenciados em seu respectivo trabalho. Malin está imerso num ofício que, além de novo para ele (como avançar em um território inexplorado e sem mapas prévios), é tremendamente angustiante, doloroso, saturado com a angústia dos pais à beira da cama de seus filhos doentes, alguns agonizantes.

Ao servir de intermediário entre médicos e enfermeiras cubanas, de um lado, e as vítimas ucranianas e russas que batalham contra o câncer e a leucemia, de outro, ele é incapaz de simplesmente fazer o seu serviço como um “técnico” da linguagem. É-lhe impossível a frieza maquínica do Google Tradutor.

O envolvimento afetivo é incontornável, e logo Malin está dominado pela empatia. Acaba servindo também como contista que traduz contos populares cubanos na linguagem das crianças estrangeiras, sendo uma espécie de agente de intercâmbio intercultural. Acaba investindo também numa espécie de arte-terapia, em que incentiva a expressão mirim através de desenhos e poemas. Sem nenhum conhecimento sobre os trabalhos pioneiros de figuras como Nise da Silveira, aplica, a seu modo, a noção de uma terapia pela arte que ajude aquelas crianças a atravessem o inferno na terra que lhes foi dado viver sem que o tenham escolhido.


De tom melancólico, fugindo do melodrama exagerado, o filme foca suas atenções na dureza da lida cotidiana deste tradutor que subitamente se vê lançado a situações que antes não imaginava: ele estava acostumado à cátedra universitária, às suas aulas sobre autores como Gógol e Tolstói, e de súbito uma crise humanitária em outra parte do globo o faz envolver-se com os destinos sofridos dos atingidos pelo desastre nuclear.

Na medida do seu possível, ele fornece sua ajuda amiga – enquanto médicos e enfermeiras administram morfinas, realizam cirurgias ou drenam pulmões, ele também realiza o trabalho importante da comunicação e da construção do sentido. Envolver aquelas crianças num ambiente onde a narratividade e a expressividade são incentivadas é um modo que ele encontra para tentar evitar que todos naufraguem no horrendo abismo do sem-sentido, do absurdo, do “em vão”.

A situação matrimonial de Malin e Isona não é muito harmônica ou satisfatória no decorrer do filme, e isto talvez por um abismo que há entre eles: Malin, que em seu trabalho exercita seus dons de tradutor, indo do russo ao castelhano e vice-versa, parece pouco capaz de traduzir para a esposa as vivências e os afetos que tem vivenciado no hospital, inclusive o luto pelas crianças com quem conviveu e que não sobreviveram.

É só mais para o fim do filme, quando a esposa Isona vai ao hospital e encontra um mural repleto de desenhos da criançada, que ela de fato percebe a densidade das vivências que Malin, no cotidiano doméstico, tratava como incomunicáveis. Há algo mesmo de inefável no sofrimento humano excessivo, sobretudo quando atinge crianças e quando nos dá a clara sensação de ser um sofrimento imerecido.

As crianças da nação euroasiática danificadas pela catástrofe nuclear desfrutam da praia de Tarará como parte de sua reabilitação. Foto: Pedro Beruvides. Fonte: Granma.

Na crítica do Trem do Hype, destaca-se ainda que

“em pleno final dos anos 80, Cuba viveu uma profunda crise social e política. O governo do líder Mikhail Gorbatchev começou a entrar em colapso, com Gorbatchev defendendo o liberalismo econômico na URSS como a única solução para os graves problemas econômicos e sociais. Dessa maneira, as reformas inseridas (chamadas perestroika e glasnost) tiveram o objetivo de traçar caminhos para mudanças estruturais na economia, mas funcionavam como uma crítica aberta ao regime soviético. Logo, o declínio do comunismo provocou uma crise financeira que atingiu toda a população, alterando a vida e rotina das famílias. E dentro disso, o país ainda precisou lidar com as consequências do acidente nuclear de Chernobyl, uma das maiores catástrofes mundiais. Nesse contexto sócio-político que acompanhamos a trama de ‘O Tradutor’.”

De fato, estamos em uma Cuba afetada pela conjuntura internacional, onde há escassez de combustível – os postos fechados exibem cartazes que avisam “no hay gasolina”. Na TV chegam imagens do colapso do Muro de Berlim no início do processo de re-unificação da Alemanha. O ocaso da União Soviética afeta diretamente a realidade cubana, lançando nubladas nuvens de incerteza ao horizonte.

É neste contexto que “O Tradutor”, filme contido, triste, de “temperatura” afetiva tendendo para os tons frios, tem algo de belo e valioso a ensinar: para Malin, o seu trabalho cotidiano não é uma delícia, um deleite, uma festa, mas sim um ofício vivido como duro fardo, difícil de carregar, que pesa em seus ombros. Mas que também tem seus prêmios – colhidos não em ganhos financeiros, mas no que eu chamaria de sabedoria afetiva.

Apesar dos pesares de seu trampo, que é dureza braba e emocionalmente extenuante, Malin é guiado por uma espécie de farol ético que lhe indica seu deve-ser: em uma época marcada pela crise humanitária severa de Chernobil, em que a União Soviética vivia seus estertores e a revolução cubana via-se também ameaçada com a queda do bloco socialista a ela aliado, a solidariedade internacionalista ganha outro sentido. Outra premência. Outro senso de urgência.

Por isso eu diria que o filme fala sobre os fardos e os prêmios de uma solidariedade internacionalista que tem a ver com o compartilhamento de uma tragédia. Uma solidariedade difícil, pesada, que obriga à melancolia e à coragem. Seria muito mais fácil para Malin abandonar-se ao conforto comum do egoísmo; ele, no entanto, escolhe a rota mais difícil, que é a de oferecer os ombros para que outros depositem ali uma parte de seus fardos.

Em artigo sobre o filme, Lisandra Detulio, do site Vertentes do Cinema, enxergou similaridades com “Patch Adams – O Amor é Contagioso”, de Tom Shadyac, e afirmou que “Un Tradutor” é “um filme que busca nos humanizar pela delicadeza”.

De fato delicado e humanizador, o filme também tem importância pedagógica e educativa para os brasileiros. Assistir ao filme em 2020 inevitavelmente fez com que eu me lembrasse de toda a indelicadeza e desumanidade do “Seu Jair”, que em uma de suas primeiras medidas enquanto presidente do Brasil cometeu a atrocidade estúpida de expulsar os médicos cubanos que aqui desenvolviam seus trabalhos, levando cuidados médicos à população que habita em rincões que os médicos brasileiros, formados em uma cultura elitista e aristocrática, não aceitam trabalhar.

Por Vitor Teixeira

A delicadeza do filme, seu clima de empatia (mesmo que dolorida) e de solidariedade (ainda que pesada), contrasta de modo radical com a atrocidade perversa que constitui o cerne da doença coletiva do Bolsonarismo. De modo doentio e desumano, um sujeito infectado por Bolsonarismo é capaz de agir na cegueira sectária mais brutal, como fez o próprio “führer” da seita, a ponto de condenar milhares de brasileiros à ficarem desassistidos e abandonados, chutando a bunda dos profissionais cubanos que foram educados em uma cultura da solidariedade internacionalista (e que aqui a praticavam), como se não passassem de cães pulguentos.

O documentarista e ativista Michael Moore, em seu filme Sicko, já alertou sobre os horrores de um sistema econômico que privilegia as privatizações do que antes eram serviços públicos: nos EUA, a saúde não é direito, mas privilégio acessível por aqueles que puderem pagar por ela (apesar dos esforços de Obama, através do programa Obamacare, os States ainda possuem um sistema de saúde dominado por interesses corporativos e cego aos direitos humanos fundamentais). No Brasil, o estrupício que nos desgoverna desde 2018, com a rasidão de pensamento e a secura de coração que lhe é característica, dentre centenas de exemplos que já deu de sua execrável incapacidade para o discernimento ético e sua completa ausência de empatia, chegou a fazer pose com uma camiseta onde se lia que “direitos humanos são o esterco da vagabundagem”.

Um macho tóxico, racista e elitista, defensor de torturadores e milicianos, sendo sem pudores um escrotildo sorridente em um Tweet de seu filhão Carlos, um dos filhinhos-de-papai que enriqueceu pelas vias sórdidas do nepotismo.

No começo de 2020, o Coiso voltou a cagar pela boca e usar nosso ouvido como privada. Relincha de novo a besta quadrada: o presifake, acostumado a mentir, agora tenta justificar a expulsão dos médicos cubanos do Brasil a partir da lorota absurda de que “havia um montão de terrorista” entre eles. Não é só uma mentira, é uma estupidez. Ao invés de governar, o energúmeno distribui ofensas e coices contra profissionais da saúde que aqui estavam nos ajudando e exercendo a solidariedade internacionalista que é valor basilar da revolução cubana.

As lamentáveis desumanidades perversas de Bolsonaros e Bolsominions – que implicam também o colapso no financiamento do SUS e o aparelhamento do Ministério da Saúde por lobbystas favoráveis aos conglomerados corporativos como a Unimed (o Ministro Mandetta que o diga!) – precisam ser curadas também pela arte. E “O Tradutor” funciona sim, para aqueles que souberem se deixar emocionar e esclarecer por ele, como antídoto contra a queda-sem-fim-no-sadismo que define a seita dos bestificados patriotários que se prestam a serem os imprestáveis seguidores do pseudo-mito.


Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 05/01/2020

TRAILER:

O CINEMA COMO ARTE SUBVERSIVA (Film As a Subversive Art), E-book e Documentário sobre a obra de Amos Vogel

AMOS VOGEL Film As a Subversive Art
DOWNLOAD EBOOK
(PDF, 79 MB. New York: Random House, 1974)

A classic returns. The original edition of Amos Vogel’s seminal book, Film as a Subversive Art was first published in 1974, and has been out of print since 1987. According to Vogel -founder of Cinema 16, North America’s legendary film society – the book details the “accelerating worldwide trend toward a more liberated cinema, in which subjects and forms hitherto considered unthinkable or forbidden are boldly explored.” So ahead of his time was Vogel that the ideas that he penned some 30 years ago are still relevant today, and readily accessible in this classic volume. Accompanied by over 300 rare film stills, Film as a Subversive Art analyzes how aesthetic, sexual, and ideological subversives use one of the most powerful art forms of our day to exchange or manipulate our conscious and unconscious, demystify visual taboos, destroy dated cinematic forms, and undermine existing value systems and institutions. This subversion of form, as well as of content, is placed within the context of the contemporary world view of science, philosophy, and modern art, and is illuminated by a detailed examination of over 500 films, including many banned, rarely seen, or never released works. I think that it must be the most exciting and comprehensive book I’ve seen on avant-garde, underground, and exceptional commercial film. The still pictures are so well chosen that their effect is cumulative and powerful. – Norman Mailer



Film as a Subversive Art: Amos Vogel and Cinema 16(2003) tells the story of Austrian-born film historian and curator Amos Vogel, who in 1947 established Cinema 16, America’s most important film club, and later the New York Film Festival, as well as publishing in 1974 one of the most legendary books on cinema ever, Film as a Subversive Art. When screened at the Viennale in 2004, Vogel was the subject of a retrospective. Watch Film as a Subversive Art here and read the dialogue transcript here. A collection of audio/visual clips about Amos Vogel is here. – THE STICKING PLACE

POR UMA ARTE DE INTERVENÇÃO CONTRA A OPRESSÃO – Reflexões pós “O Estopim” (Brasil, 2014, 80 min), documentário de Rodrigo Mac Niven

Bertolt Brecht diz que a arte não é um espelho pra refletir o mundo, mas um martelo com o qual esculpi-lo. A arte não é mecanismo neutro de “registro” do real, mas sim uma produção do labor criativo humano, surgindo da realidade mas transformando-a por sua própria irrupção. A arte é intervenção no real mais do que sua mera cognição. Por isso considero tão essencial que o filósofo vá à escola com o artista: pois o pensador nunca pode esquecer-se do que ensinava Karl Marx na célebre Tese Contra Feuerbach: até agora os filósofos parecem ter se ocupado somente em compreender o mundo, mas o que importa de fato é transformá-lo. A música, o cinema, a poesia, a escultura, o romance, o grafite, a dança, todas as vertentes da arte, são arma nas mãos da libertação. A arte é ação libertadora e intervenção ativa, ou não merece o nome de arte.

Digo isto sob o impacto do filmaço O Estopim, de Rodrigo McNiven (de Cortina de Fumaça), uma obra de alta qualidade estética e importante intervenção política em um debate radicalmente contemporâneo. A mesma violência que o pescador exerce sobre o peixe, ao fisgá-lo com uma isca, para em seguida puxá-lo com força para extraí-lo da água rumo a um ar irrespirável, é exercida pelos opressores sobre aqueles que parecem ter nascido para “morrer na praia”, de morte precoce, e não de morte morrida mas de morte matada. Interessante expressão do cotidiano: nadar, nadar e nadar, para morrer na praia. Amarildo foi um pouco a encarnação simbólica desta labor mau-pago, de sabor amargo, que tantas centenas de bilhões de oprimidos são coagidos a engolir em nosso planeta.

Amarildo poderia ter entrado como anônimo nas estatísticas obscenas da letalidade policial no Brasil; por sinuosos caminhos da estrada da História, este homem iria se transformar, durante o tsunami de manifestações populares de Junho e Julho de 2013, em símbolo de algo que não cessa de alimentar a indignação das mentes compassivas e lúcidas. Nos morros do Rio, há guerra civil, e como em toda guerra o chão está repleto de cadáveres de crianças de 10 anos, de mães baleadas por balas perdidas, de trabalhadores humildes confundidos com chefes-de-boca…

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Era Julho de 2013 e o Brasil vivia ainda sob o impacto dos eventos grandiosos do mês anterior: as “Jornadas de Junho”. Muitos daqueles que haviam se desesperançado com a política viram seu ânimo revigorado com a fenomenal adesão da população aos protestos que tiveram como estopim o aumento das tarifas públicas do transporte urbano. Os 20 centavos foram a gota d’água que fez transbordar o copo de fúria, mas este copo já havia sido gradativamente enchido. Enchemos o saco depois de tanto descalabro, de tanto descaso com o bem público, de tanta privatização-e-precarização corroendo a nação, de tanta militarização e truculência manifestando-se no morro e no asfalto (com várias diferenças, é claro, já que nas favelas as balas não são de borracha…).

Se o “caso Amarildo” explodiu no cenário público – sendo reivindicado nas ruas e nas redes, no país e no exterior, e recebendo atenção da mídia de massas, que de costume tende a ignorar este tipo de pauta – foi um pouco do mesmo modo: torturado até a morte pela PM, Amarildo foi como a gota d’água que fez transbordar de indignação todos aqueles que sabem da vivência cotidiana de milhões de brasileiros, em especial o esculacho que sofrem os afrodescendentes, no Brasil, por ação de instituições sociais que conservam o ranço do racismo institucionalizado e da ditadura militarizada. Amarildo, morrendo, forneceu um mártir oportuno àqueles que berravam em protesto frente às matanças, às torturas, às práticas ditatorialescas, da Polícia Militar brasileira.

Amarildo era carioca da gema, descendente dos africanos que o colonianismo europeu extraiu da África a fórceps, morador da mega-favela da Rocinha, e  trabalhava duro como auxiliar de pedreiro. Um edificador de lares, um membro de comunidade. Eu duvido muito que Amarildo tenha imaginado, enquanto sofria horrores em seus últimos instantes entre os vivos, ao ser torturado até a morte pela polícia em uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora?), que estaria prestes a entrar para a história. Morrendo, causou um tsunami: o poderio da manifestação popular manifestou-se então com força descomunal.

Sonhos e Urnas

Pois Junho de 2013, na História, foi também um dos ápices, no Brasil contemporâneo, de contestação da militarização que ainda vige, e tanto, em nossa vida cotidiana. Com aplausos, é claro, das elites e de certa fração das classes médias, que parecem realmente acreditar que a violência policial e a expansão do aprisionamento em massa são as soluções para nossa mega-tragédia de (in)segurança pública. É bem sabido e vastamente denunciado o tamanho hipertrofiado do complexo policial e carcerário brasileiro, sem falar em sua ineficiência e desumanidade.

Somos uma pátria encarceradora, que acompanha EUA, China e Rússia na liderança global nos índices de aprisionamento. Muitos julgam que a prisão é instituição que deve servir para proteger-nos contra a violência, mas se esquecem de lembrar o crucial: a prisão é um espaço onde pratica-se uma violência contra o cidadão lançado a ela, verdadeiro “inferno na terra”, que longe de “regenerar-se” e re-aprender as regras de convívio civilizado, fica privado não só da liberdade mas das mínimas condições dignas de existência… Conhece um Estado selvagem e revanchista, que joga gente na jaula após ter fracassado em levar políticas públicas que são direitos constitucionais.

No filme, os entrevistados na Rocinha salientam que as dificuldades da vida no morro ajudam os moradores a perceberem sua força na soma, na comunidade, um aprendizado que é fruto de experiências difíceis vividas por parentes e antepassados: os favelados são aqueles que, devido à sua situação precária de moradia, estão mais vulneráveis a perderem seu abrigo; um temporal mais forte, com grande volume de águas e fúria de ventos, pode derrubar suas casas. Estas vidas, construídas heroicamente sob o terreno movediço de um solo sujeito a periódicos deslizamentos, vão somando forças em busca do ser-mais, vão compondo raps para expressar suas angústias e esperanças, mas sempre antagonizando contra os opressores e seus braços armados.

A operação “Paz Armada”, como de praxe, envolveu muitos esculachos cometidos pela polícia contra os que são “detidos para averiguação”. Amarildo, aos olhos dos fardados, não foi visto como cidadão brasileiro com certos direitos constitucionais e humanos básicos, mas como bandido-em-potencial, e que por isso pode ser interrogado com métodos violentos e requintes de crueldade. O fim – a “averiguação” – justifica os meios – a prisão arbitrária, a tortura, o homicídio legalizado.

A última palavra de A Pedagogia do Oprimido, o clássico livro de Paulo Freire, é “amar”.  Ali ele diz que é preciso inventar, através de nossa práxis (a união indissociável entre ação e reflexão), um mundo onde seja menos difícil amar. Amarildo é também um nome que carrega em seu bojo o amor, ironicamente, pois eis o nome de alguém que morreu nas mãos do ódio institucionalizado: donde o poder do “símbolo” Amarildo como souvenir de um Estado que não ama, de uma polícia que não dialoga, de uma realidade sócio-política, historicamente determinada, que divide e segrega ao invés de somar e unir. O Brasil é um continente repleto de fraturas expostas.

A denúncia dos oprimidos é uma forma de ação que não deve ser menosprezada, já que é uma ativa tomada de voz e uma vitória sobre a doença do silêncio. O documentário de Mac Niven é excelente em sua disponibilidade de ouvir e dar ressonância ao discurso daqueles que viveram com Amarildo e que conhece o cotidiano esculachador imposto pela ocupação militar, Gaza style, vigente atualmente com as UPPs. Um dos protagonistas de Estopim, o “Duda”, encarna esta figura do denuncista que deseja desvelar as práticas desumanizadoras que testemunha, mesmo correndo risco de vida, o que é heróico e louvável.

Por exemplo: denuncia-se a prática policial comum de matar alguém primeiro e depois rotulá-lo como traficante. Como se fosse justificável o assassinato neste caso, o de vitimar uma pessoa que comercializa substâncias químicas que foram tornadas ilegais em um certo momento histórico do Direito… Até onde sei, tráfico de drogas não é crime punível com a pena-de-morte; no entanto, a polícia brasileira pratica a pena-de-morte diariamente contra suspeitos de tráfico. Duda – ecoando a mensagem de Marcelo Freixo (Deputado do PSOL) – denuncia uma polícia miliciada, gangsterizada, fascista, que prende e tortura gente inocente e mata trabalhador desarmado e desvalido…

Maioridade Penal

A morte de Amarildo gerou um debate público amplo; em muitos setores, em especial da mídia corporativa, o problema foi colocado nos seguintes termos: Amarildo era ou não era um traficante? Como se fosse plenamente justificada a tortura e a morte de um homem que fosse traficante de drogas. Ideia perversa, que utiliza a acusação de tráfico como estigma que justifica a ação homicida da polícia. É a mesma lógica vigente no sistema penal, na Guerra às Drogas, como se o problema da segurança pública pudesse ser resolvido na base da violência estatal exercida sobre aqueles que são estigmatizados como inimigos públicos número 1 só pelo fato de que vendem substâncias que o proibicionismo estipulou como ilícitas…

Como diz o juiz João Batista Damasceno, da associação Juízes para a Democracia, há uma “fantasia de que o traficante é alguém que precisa ser exterminado.” (49 min) Ou, como diz Francisco Carlos Teixeira, PhD em Ciência Política, membro do Instituto Tempo Presente, “você está escolhendo pessoas para morrer, e depois que elas estão mortas imediatamente viram traficantes. (…) Ora, mas quem mata criminoso também é criminoso. A Guerra às Drogas é uma cortina de fumaça para esconder um extermínio dos pobres.

Em uma das cenas mais impressionantes do cinema brasileiro no século XIX, O Estopim representa a tortura sofrida por Amarildo sem dourar a pílula, sem suavizar o horror: Toda a barbárie cotidianizada vêm à tona nesta cena onde os policiais-torturadores não poupam nada de seu arsenal bélico para humilhar e ofender Amarildo. A violência não é só física, destinada a alquebrar o corpo da vítima, mas é violência verbal da mais cruel:

Policial-torturador à Amarildo: “- Trabalhador? Todo vagabundo diz que é trabalhador! E você diz me que é trabalhador, seu merda? Só se for trabalhador do tráfico! Vocês são tudo amiguinho de bandido. Tua mulher é uma vagabunda cheiradora-de-pó. E eu vou armar um flagrante pra prender teu filho, Amarildo…”

O discurso policial, no trato com o outro, é o anti-diálogo por excelência. É o que esta cena com Amarildo explicita: a polícia como uma vespa que pica, odienta e sem misericórdia, sendo o supra-sumo do que Paulo Freire chama de “ação antidialógica”. A tortura é o oposto antagônico do diálogo, a encarnação explícita do fascismo cotidianizado. Tese do filme, tal como o compreendi: a polícia que tortura é bárbara e desumana, e Amarildo uma das milhares de vítimas que ela faz de maneira cotidiana.

O amigo do falecido deveria sentir o quê diante de policiais assassinos senão indignação e rebeldia? Uma polícia que planta injustiça vai colher rebelião. Duda expressa-se sobre Amarildo mostrando-se estarrecido que “eles tenham conseguido fazer uma maldade com uma pessoa tão boa” (59 min). Antes de simplesmente descartarmos este testemunho, como se não passasse de uma idealização póstuma que um amigo realiza em seu retrato do amigo-morto, levemos a sério a hipótese de que houve sim maldade, uma injustiça, uma barbárie injustificável. 

E que a Ditadura civil-militar (1964 – 1985) pode até ter sido extinta para dar lugar a este interminável processo de redemocratização, mas a Ditadura continua incrustada em várias instituições, sobretudo as Polícias Militares, e inclusive as UPPs. Moradores acusam as UPPs de serem uma carta branca que é dada para que as polícias dominem o morro, instalem milhares de câmeras de vigilância, dando o passo rumo a transformar o morro do Rio em Gaza. A Palestina – pasmem! – é aqui. E o Big Brother da TV não tem nada a ver com o Big Brother da UPP.

No Big Brother da vida real, soldados podem chutar a porta dos barracos para abri-los, sem aviso prévio. Podem levar presos quaisquer cidadãos que julgem “suspeitos”. Podem expulsar gente dos lares para que sejam construídos trecos “pra inglês ver” na Copa ou nas Olimpíadas. Podem mandar prender, por desacato a autoridade, quem contesta o abuso de poder praticado por milicos fardados. Fala o MC em Estopim: “A UPP é o AI-5 das favelas cariocas… Como era chamado o DOPS? Era a Polícia da Política. O que é uma UPP? É a mesma coisa, só muda o ano! A UPP só daria certo se fosse Unidade de Políticas Públicas”.

A UPP é sintoma de um aumento da militarização, de um Estado que sobe o morro querendo mostrar somente sua faceta repressiva e punitiva, seu ímpeto controlador e dominador. Nas periferias brasileiras, 1968 ainda vive. Esquecemos de desinventar a barbárie militarizada. Ainda falta-nos descobrir que a questão social não é uma questão de polícia, que não se constrói solidariedade com fuzis, e que não é reproduzindo o caso Amarildo que vamos superar estas páginas tão tristes de nossa História – repleta delas.

A arte, para relembrar Brecht e Boal, deve ser intervenção na realidade ao invés de passividade fatalista diante dela. O Estopim faz isso com excelência. Entra para uma história bela e fecunda: a do documentário brasileiro, uma das “coisas” que vai melhor em nosso país. O documentário, no âmbito do cinema, parece-me ser o ápice deste ideal da arte que não deseja só retratar o real, mas também informá-lo para revolucioná-lo. 

O documentário brasileiro é um “campo”  repleto em preciosas obras-primas e gênios justamente venerados – Eduardo Coutinho (Cabra Marcado Pra Morrer, Jogo de Cena, Edifício Master), Silvio Tendler, João Moreira Salles (Santiago, Entreatos), Jorge Bodanzky, José Padilha (Ônibus 174, Garapa), dentre tantos outros. Os filmes de Mc Niven chegaram para integrar uma bela tradição, vivíssima a tal ponto que fica até estranho referir-se a ela usando um nome com tanto ranço de antiguidade quanto “tradição”. Um saravá, pois, ao tão iluminante e tão veraz documentário brasileiro, que desvela realidades com a ousadia de suas destemidas lentes!

E.C.M., Goiânia 29/07/15
@ A Casa de Vidro.com
Shortlink: http://bit.ly/1MVvnCC

10714387_536402499824550_9173944318112282282_o Capturar Diretor Rodrigo Mac Niven e Diretor de Fotografia Neto de Oliveira com o ator Brunno Rodrigues.  Informações do filme:
Gênero: Documentário
Diretor: Rodrigo Mac Niven
Duração: 80 minutos
Ano de Lançamento: 2014
País de Origem: Brasil
Idioma do Áudio: Português
Qualidade de Vídeo: webrip
Vídeo Codec: V_MPEG4/ISO/AVC
Áudio Codec: AAC LC
Tamanho: 1,09 gB
Legendas: Sem Legenda

Link do torrent:
O Estopim (2014)
Via Filmes Brazukas

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P.S.

“Catatau chegou legal no Vidigal
Ia haver uma blitz naquele local
O malandro pinoteou
Pouco antes da hora que a justa chegou
Por onde está, Por onde andou, Ninguém dedou
De repente no beco da grande favela
Um vulto surgiu na viela
O soldado deu voz de prisão com decisão
Do outro lado negro desempregado
Bastante desesperado
Se rende correndo e cai
Mas caiu com a mão na cabeça
Para que ninguém esqueça
O quanto pediu clemência
E não foi ouvido
Por causa da violência
Que fez chorar o soldado
Que muito mal orientado não pode evitar o mal
E nem a sorte daquele inocente lá do Vidigal…”

Rosa Luxemburgo – O Filme (Dir: Margarethe Von Trotta) [Assista na íntegra]



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