ESTILHAÇOS DE INDIGNAÇÃO E ESPERANÇA – UMA SOCIOLOGIA À ALTURA DE JUNHO, POR RUY BRAGA EM “A PULSÃO PLEBÉIA” (ALAMEDA/FFLCH-USP)

Junho 2013

UMA SOCIOLOGIA À ALTURA DE JUNHO

Por RUY BRAGA em seu livro A PULSÃO PLEBÉIA (Ed. Alameda)

Artigo na íntegra @ Boitempo

Imagem: 17 de Junho de 2013. Congresso ocupado por manifestantes.

Em meados de março de 2013, uma pesquisa realizada pelo instituto Ibope revelou que a popularidade da presidente brasileira Dilma Rousseff havia alcançado um patamar histórico de aprovação: 63% dos entrevistados consideravam seu governo ótimo ou bom e 79% aprovavam seu desempenho pessoal. [http://bit.ly/RfwupJ] Mesmo comparados à aprovação popular de 59% conquistada pelo ex-presidente Lula da Silva no final de seu segundo mandato, os números da presidente eram realmente espetaculares.

No entanto, apenas dois meses após a publicação desta pesquisa, fato inédito na história do país, a popularidade do governo tinha despencado para 30% dos entrevistados [http://glo.bo/1RNeopL]. Ao longo do mês de junho de 2013, em pouco mais de duas semanas de protestos nas ruas, um verdadeiro terremoto social chacoalhou a cena política brasileira, deixando um rastro de destruição da popularidade de inúmeros governos municipais, estaduais, assim como do governo federal.

Contando com 75% de aprovação popular, segundo o Ibope, as “Jornadas de Junho”, como ficou conhecida a onda de protestos inicialmente motivados pelo aumento das tarifas do transporte público, levaram às ruas, em seu ápice, isto é, no dia 17 de junho, mais de dois milhões de pessoas. Sempre segundo o Ibope, protestos foram registrados em 407 cidades, espalhadas por todas as regiões do país.

Junhi

17 de Junho de 2013. Brasília-DF. Congresso Nacional.

Dispensável dizer que os grandes meios de comunicação foram totalmente surpreendidos pela escala monumental deste movimento espontâneo. Em sua maioria, os analistas políticos contemplavam exclusivamente as enquetes de opinião, negligenciando importantes tendências subterrâneas que desde 2008 já afloravam em pequenos sismos.

Imediatamente após o início das grandes passeatas, alguns jornalistas alinhados ao governo federal apressaram-se em sustentar que as Jornadas de Junho não passavam de uma tentativa de golpe de Estado trama da mídia conservadora. O reposicionamento da cobertura jornalística em apoio aos protestos e a presença nas ruas das classes médias tradicionais descontentes com o governo petista confirmariam a suspeita.

No entanto, esta hipótese falhou em explicar tanto a natureza massiva e popular dos protestos, quanto a defesa de investimentos para a educação e para a saúde públicas. Finalmente, os protestos não visavam especificamente o governo federal, mas atingiam praticamente todo o mainstream político brasileiro.

Ciente da fragilidade desta elaboração, a cúpula do PT ajustou o calibre do petardo, transitando do “golpe da direita” para o “sucesso do atual modelo de desenvolvimento”. Segundo a reelaboração petista, as políticas públicas do governo federal teriam redistribuído tanta renda, elevando de tal maneira as expectativas populares em relação à qualidade dos serviços públicos, que a “nova classe média” criada durante os anos 2000 teria ido às ruas exigir ainda mais iniciativas do governo federal.

VEJA TAMBÉM: MARILENA CHAUÍ

Sem entrar na questão da existência ou não de uma “nova classe média” no país, a verdade é que esta hipótese não explica o timing dos protestos. Afinal, o que teria acontecido especificamente no mês de junho para detonar a maior revolta popular da história brasileira? Porque razão uma elevação das expectativas populares desaguaria numa onda de mais de dois milhões de indignados nas ruas?

A terceira hipótese buscou localizar as Jornadas de Junho no mesmo diapasão do ciclo de protestos que enlaçou Espanha (2011), Portugal (2012) e Turquia (2013). Em suma, um enrijecido sistema político hierarquizado, fundamentalmente refratário à participação popular, estaria se chocando com uma vibrante cultura política democrática fermentada desde baixo pelas redes sociais eletrônicas.(Ver Marcos Nobre. Imobilismo em movimento: da abertura democrática ao governo Dilma. São Paulo, Companhia das Letras, 2013.)

Marcos Nobre

Largamente convincente em sua generalidade, a excessiva dependência heurística desta hipótese em relação às metamorfoses da cultura política deixou na penumbra tanto o evento detonador quanto a abrangência nacional das Jornadas de Junho. Afinal, um protesto repentino em larga escala poderia ser compreendido numa chave tão fluida quanto a do amadurecimento de uma cultura política alternativa?

Aos nossos olhos, todas estas hipóteses contém um grão de verdade: sem dúvidas, muitos foram às ruas convocados pela mídia conservadora, as expectativas com os serviços públicos aumentaram no rastro da desconcentração de renda entre os que vivem dos rendimentos do trabalho e uma nova cultura política democrática desenvolveu-se no Brasil na última década.

Cenedic

Desde 2008, o Cenedic – Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania – publicou livros e artigos argumentando, por meio de etnografias de trabalhadores vivendo em bairros populares e periféricos, de análises das modificações recentes da estrutura sócio-ocupacional brasileira e de estudos de caso de trabalhadores precarizados, que, ao invés de consolidar a hegemonia política do Partido dos Trabalhadores (PT), a reprodução do atual modelo de desenvolvimento alimentava um estado mais ou menos permanente de inquietação social capaz de transformar-se em indignação popular. (Ver Robert Cabanes, Isabel Georges, Cibele S. Rizek e Vera da Silva Telles (orgs.). Saídas de emergência: ganhar/perder a vida na periferia de São Paulo. São Paulo, Boitempo, 2011.)

Herdeiro de uma tradição investigativa orientada pelo diálogo crítico com os movimentos sociais urbanos, em especial, o movimento sindical, o Cenedic foi criado em 1995 pelo sociólogo Francisco de Oliveira para estudar os efeitos econômicos, políticos e ideológicos do “desmanche neoliberal” promovido pelo governo de Fernando Henrique Cardoso sobre as classes sociais subalternas brasileiras.

No Cinedic, a articulação totalizante destas dimensões da crítica social vertebrou tanto os diferentes projetos coletivos de pesquisa do centro de estudos levados adiante nestes quase vinte anos de existência – tais como Os sentidos da democracia (1996), A era da indeterminação (2001), Hegemonia às avessas (2005) e Desigual e combinado (2012) –, quanto influenciou a relação politicamente explosiva de Francisco de Oliveira, um dos fundadores do PT e um de seus mais renomados intelectuais, com o partido que ele ajudou a criar.

chico_livro_reprodução

Além disso, este projeto crítico balizou igualmente os vínculosdos pesquisadores com os movimentos sociais, em especial o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), o Movimento Urbano Sem-Teto (MUST), o Movimento dos Trabalhadores da Cultura (MTC) e a Central Sindical e Popular (CSP-Conlutas). O diálogo crítico do Cenedic com os movimentos sociais é um traço constitutivo não apenas da identidade do centro de estudos, como do tipo de investigação realizada por seus pesquisadores.

Talvez por essa razão as Jornadas de Junho tenham surgido para o Cenedic como o resultado bastante previsível de uma situação histórica marcada pela inquietação social dos grupos subalternos com os limites do atual modelo de desenvolvimento. Em 2006, inspirado pelo desafio proposto por Francisco de Oliveira, isto é, investigar as microfundações da macrohegemonia do PT, o Cenedic já havia se lançado à campo, sobretudo, no bairro paulistano de Cidade Tiradentes. Localizado no extremo leste da capital paulista e contando com cerca de 300 mil moradores, a região abriga, além de uma grande favela, um dos maiores conjuntos habitacionais da América Latina.

Em suma, trata-se de um bairro que permite observar o modo de vida dos que conhecem como poucos os reveses do “outro lado” da hegemonia petista. Nas palavras de Francisco de Oliveira, as etnografias realizadas pelos pesquisadores do Cenedic na zona leste de São Paulo revelam, para além da aprovação eleitoral: “o cotidiano de pessoas (kafkianamente) transformadas em insetos na ordem capitalista da metrópole paulistana.

Cidade Tiradentes / SP

Cidade Tiradentes / SP

 

Decifrando o enigma

As vicissitudes cotidianas das famílias trabalhadoras de Cidade Tiradentes, bairro onde 65% dos moradores vivem com uma renda média individual de até US$ 80,00 por mês, revelaram-se abundantemente nas etnografias do trabalho informal, do tráfico de drogas, da subcontratação, da precarização do trabalho doméstico, do comércio ilícito, da violência policial, das ocupações irregulares, da população de rua e das trajetórias das mulheres chefes de família do bairro. Assim, uma miríade de dramas privados foi transformada em fértil matéria-prima para o debate público.

Por meio da descrição etnográfica do cotidiano das famílias do bairro, a pesquisa flagrou a dialética cotidiana entre espaço privado e espaço público movendo-se no sentido da retomada da ação coletiva mediada, não mais pelos sindicatos ou pelos partidos políticos tradicionais, mas pelas igrejas neopentecostais.

(…) Dados colhidos pelo Sistema de Acompanhamento de Greves do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (SAG-DIEESE) mostraram que, em 2012, o país viveu um recorde histórico de greves, inferior apenas aos anos de 1989 e 1990.

Não devemos esquecer que, entre 2003 e 2010, o país criou anualmente 2,1 milhões de empregos formais. No entanto, 94% destes empregos pagam baixíssimos salários (até US$ 430,00). Sem mencionar o fato de que entre 2009 e 2012, o tempo médio de permanência do emprego caiu de 18 para 16 meses, denotando aumento da deterioração das condições de trabalho.[19] Em acréscimo, o estoque de empregos formais diminui ininterruptamente desde 2010, fato este que tende a estressar os jovens que procuram o primeiro emprego formal.

Em suma, desde 2008, o país vive um momento que combina desaceleração econômica, mobilizações grevistas e desgaste de um modelo de desenvolvimento cujos limites redistributivos têm se tornado cada dia mais nítidos. Conforme dados reunidos por André Singer, atual diretor do Cenedic, não foi surpresa descobrir que a maioria dos manifestantes de Junho era formada por uma massa de jovens trabalhadores escolarizados, porém sub-remunerados.

Diferentemente das demais teses a respeito do atual ciclo de revoltas populares, há tempos o Cenedic analisa o “evento detonador” das Jornadas de Junho, isto é, a violência policial militarizada elevada à condição de mecanismo regulador da conflitualidade urbana.

Quer a pretexto da infame guerra às drogas, quer como força de desocupação a serviço das grandes incorporadoras de áreas da cidade ocupadas pelos sem-teto, é notório que a PM brutaliza e mata impunemente, sobretudo, jovens trabalhadores negros e pobres, nas periferias dos grandes centros urbanos do país.

A PM – de todas as instituições criadas pela ditadura civil-militar (1964-1986), a única a permanecer intocada pelo regime democrático – reprimiu com extrema crueldade a manifestação do Movimento Passe Livre (MPL) do dia 13 de junho contra o aumento das tarifas do transporte público na cidade de São Paulo. Inadvertidamente, a violência policial ajudou a transformar um estado latente de inquietação social em uma transbordante onda de indignação popular.

14.05.26_Ruy Braga_junho

Para o Cenedic, não foi difícil concluir que, ao reprimir violentamente o MPL, a polícia comportou-se na Avenida Paulista como faz diuturnamente nos bairros pobres e periféricos de São Paulo. Desnudada pelos jornais, a brutalidade militar exercida sobre uma reivindicação considerada justa pela população despertou na juventude trabalhadora a consciência de “fazer explodir o contínuo da história” (Benjamin).

De protestos contra o aumento das tarifas do transporte urbano, as manifestações passaram a mirar outros alvos, como os gastos com a Copa do Mundo, a qualidade da educação pública e, sobretudo, a precária situação do sistema público de saúde (SUS). Inadvertidamente, os manifestantes insurgiram-se contra a própria estrutura de gastos do governo federal que, por um lado, reserva 42,% do orçamento do Estado para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública e, por outro, apenas 4% para a saúde, 3% para a educação e 1%, para o transporte.

Extrapolando os limites do atual modo de regulação conhecido como “lulismo”, as Jornadas de Junho insurgiram-se contra os fundamentos do regime de acumulação predominantemente financeiro que domina a estrutura social do país. Ao fazê-lo, conquistaram um lugar privilegiado na história das resistências populares do Brasil, passando a exigir uma interpretação à altura de seu legado.

Ruy Braga

* * * * *

VEJA TAMBÉM:

Marilena Chaui – “E agora, PT?”

Marcos Nobre – “As Ruas em Movimento”

Ruy Braga – “A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista” | Debate

Chico de Oliveira – O Ornitorrinco

:: O Centro Está em Toda Parte ::


:: O CENTRO ESTÁ EM TODA PARTE,
O CENTRO NÃO ESTÁ EM PARTE ALGUMA
… ::

Dia desses, em uma de minhas andanças errantes pela USP, deparei com algo que nunca tinha notado em 5 anos como FFLCHiano. Rodeando o monumento central da Praça do Relógio, que fica ilhado no meio de um lago, há uma espécie de calçada circular que margeia a água. Parece um singelo convite arquitetônico para que casaizinhos enamorados passeiem ao redor da obra que simboliza como que o coração do câmpus. Por estar num momento um tanto chatonildo, comecei ralhando, todo utilitarista e funcional: pensei no quão absurda é a idéia de um caminho circular, ou seja, que sempre conduz o babaca do andante ao seu ponto de partida, ao invés de fazê-lo progredir numa trilha que conduza a algum lugar. Não estava pensando como poeta… Depois pensei no quão absurdo é o fato do próprio Planeta Terra estar dançando pelo espaço numa órbita, e me lembrei espantado de que somos tiny tiny mammals, grudados ao solo de uma rochinha perdida nalgum pontículo do Universo, rochinha que gira em círculos ao redor de uma estrelinha fajuta, feito uma mariposa planetária ao redor duma lâmpida irrestivelmente sedutora…

Mas o que realmente me chamou a intenção foi aquilo que estava escrito no chão, em caracteres que acompanham a curvatura da calçada: No universo da cultura o centro está em toda parte. E na hora me voltou à memória a reflexão do Nagel sugerindo que uma “visão objetiva” da realidade teria que partir da admissão básica de que nenhum de nós é o centro da realidade. Quando fazemos de nosso “eu” um ponto-de-apoio absoluto, será que não caímos na alucinatória presunção noção de sermos centrais, quando tudo indica que nosso planeta não tem absolutamente nada de central nem no nosso sistema solar, nem no Universo como um todo? Não é bem mais plausível, até, que estejamos numa espécie de periferia universal, ou mesmo que não haja o mínimo sentido em falar num centro e numa periferia do Universo, que talvez se esparrame por aí sem nada que se possa chamar de um “miolo”, de um marco-zero absoluto?…

Bem, digressões saganianas à parte, para dar sequência a estes tateios em busca de uma compreensão do que seria “objetividade” talvez seja útil pensar agora: afinal de contas, ao que esta tal de “objetividade” se opõe? Ela é o contrário do quê? Contra que “vícios” e “equívocos” ela procura se engajar contra? Como eu entendo este conceito em Nagel, objetividade não se oporia à subjetividade, exatamente. Há uma série de antônimos que eu considero mais adequados: egolatria, solipsismo, delírio narcísico, auto-favoritismo

A busca pella objetividade manifesta-se pelo “cuidado” que alguém tem em não deixar-se cegar por seus interesses, desejos e preferências pessoais a ponto de ver uma realidade “distorcida pela fantasia”. É o contrário do narcisismo, e um dos remédios contra ele. Ao invés da auto-glorificação ou auto-endeusamento, a humildade de tentar reconhecer sua verdadeira posição no conjunto e estar em meio a ele num estado de serena ausculta. É como saber abrir-se para ouvir a música cósmica, por mais dissonante que soe, ao invés de ficar ouvindo só o som que produz a nossa flauta imaginária…

Em resumo: ser “objetivo” é ser capaz de alçar-se acima de seu euzinho e enxergar-se como parte do todo, como uma minúscula criaturinha contida no vasto universo, como um dentre muitos sujeitos sencientes e pensantes num universo cujo “centro” não está em nenhum deles…

Ícaro

Após a superação do teo-centrismo e do criacionismo, ainda faltou à humanidade superar o ego-centrismo! E uma das intenções de Nagel parece ser ofertar ao seu leitor um “método de auto-transcendência”, uma defesa da “possibilidade da ascensão objetiva” (pg. 114). Mas não esperem achar no livro uma espécie de “Manual Para Ícaros Iniciantes Sobre Como Alçar Vôo Para Além da Subjetividade”. Para Nagel, trata-se não de oferecer uma receita fácil para a conquista de uma “objetividade científica perfeita” (ele decerto não acredita nesta possibilidade…), mas antes de mais nada de combater, entre outras coisas, o solipsismo idealista: a lunática crença de que a minha perspectiva corresponderia à “Realidade”, e isto por ser eu o “centro-do-mundo”!

Ascender rumo à objetividade inicia-se com a percepção banal de que o universo não tem como centro nosso querido euzinho… E é decerto muito mais desconfortável e assombroso tentar aperceber-se da imensidão do existente e descobrir-se “como uma simples centelha senciente entre uma miríade de outras”, como diz Nagel (pg. 141). Peca por falta de objetividade todo aquele que deixa-se cegar pelo próprio desejo e por seus interesses pessoais, absolutizando sua perspectiva individual como se ela, ao invés de relativa e limitada, fosse nada menos que “o centro de tudo”.

Ora, se esta “ascensão objetiva” que Nagel nos convida a realizar é tão difícil, isto se deve também ao conforto que sentimos ao pensar que nossa paróquia esgota todo o Universo. É a atitude daquele que, alvo justo de escárnio, acha que o mundo é do tamanho do seu bairro. Ou da sua cabeça.

"Narciso" de Caravaggio

De modo que um dos procedimentos mais básicos nesta trilha rumo à conquista de uma percepção mais objetiva da realidade está no processo de procurar substituir nossas “concepções paroquiais” por concepções mais “universais”.

Se a objetividade é uma conquista tão árdua, acredito, é por ser tão potencialmente letal a tantas de nossas crenças mais caras, que dão sustento à nossa auto-estima e que nos ajudam a embelezar a “figura humana” a nossos próprios olhos.  Mas para a imensa maioria dos humanos, me parece, a felicidade conta mais do que a objetividade. Mais vale crer naquilo que nos consola e conforta do que procurar conhecer uma verdade que nos esmaga e nos humilha.

Estou convencido, aliás, de que as “feridas narcísicas” da humanidade que Freud elencou são todas, de certo modo, fruto de um aprofundamento do nosso conhecimento objetivo a respeito do planeta e do cosmos e de nossa posição no interior deles. A objetividade é uma montanha que escalamos com esforço, quase a contragosto, pois ela exige que larguemos pelo caminho as ilusões agradáveis e as confortáveis crenças com as quais nos munimos para não soçobrar na insignificância.

:: Cidade do Cão ::

Da Suíça à Etiópia,
em um quarteirão.
Cidade do cão.

Um domingo atrás,
fui um aristocrata paulistano
ou em erudito endinheirado
por um dia — estranho dia.

O concerto matinal mensal da OSESP,
gratuito, é uma rara chance pr’um
FFLCHiano des-bolsado e pobretão
banhar seus tímpanos em linda música
Sem ficar 100 contos mais pobre —
Ou seja, próximo da indigência.

Sempre que piso na Sala SP,
sinto como se saísse do Brasil
por uma espécie de mágico portal
e fosse dar em Viena ou Paris,
como as idealizo, sem conhecer.

Adentro o ventre dum
imponente deus de pedra,
onde muito graves e chiques
desfilam as gravatas e paletós
as jóias e os belos vestidos:
Quase uma cena de Proust,
de um luxo que quase não dá nojo.

Quase.

Quase choro de emoção quando a orquestra
com cem simultâneas adagas ataca o silêncio,
agita os ventos e impõe seu império sobre o éter.

A “mesma” obra, ouvida em casa, gravada,
me deixou indiferente.

A “Grande Páscoa Russa”, de Rimsky-Korsakov,
como que me pega pelo colarinho
e me espanca com sua beleza
Até que eu quase vá a nocaute.
Beleza tão excessiva que
quase dá em desmaio.

Penso nos russos e imagino-os trágicos,
doloridos, cheios de rugas e sofrimentos.
Pinto-os na imaginação aguerridos,
catárticos, cheios de lamentos viris,
uivando a dor de viver
pelas frias catacumbas da matéria…

Depois vem Villa-Lobos.
O mais desconhecido das massas
De todos os “orgulhos nacionais”,
ficando bem atrás da Canarinho e do Senna,
quase anônimo frente ao Fausto, o Silva, e o Silvio.

Esta beleza bachiana-tropical me choca menos:
é tranquila, pacífica, harmoniosa,
como se vivéssemos num cosmos,
e não num num caosmos.

A boniteza daquilo
me fede um pouco a otimismo,
viro um pouco o rosto,
chego a sentir sono.

(Há coisas belas que dão sono.)

Sinto falta da ebulição do sangue,
dos jatos sônicos de angústia,
que eu julgo ouvir nos russos,
e que me fizeram sentir,
quando vi, faz uns anos,
a “Sagração da Primavera”,
no coro, debruçado sobre os tambores,
como se uma enxurrada
de força selvagem e primal
se derramasse impolida e incontida
sobre minha pobre e grata carcaça.

Os russos!

Penso, mais uma vez, no quanto a música é mágica.
Relembro uma de minhas frases-de-efeito prediletas,
que guardo como um zap na manga,
aguardando o dia para  lançá-la na mesa de jogo,
para causar grande efeito:
“A música é a redenção da humanidade”.

E ralhem o quanto quiserem contra o Nietzsche;
o fato é que ao menos uma incontestável verdade ele disse:
“Sem música, a vida seria um erro.”

Se alienígenas predadores nos invadissem o planeta,
dispostos a eliminarem a nossa fracassada raça,
para recomeçarem o planeta do zero,
talvez a única chance de sobrevivência,
o único meio de dissuadi-los do genocídio,
seria dar a eles alguma prova indubitável de nosso valor.

Mas para isto não serviriam nossas metrópoles,
tão sujas de miséria e balbúrdia,
nem nossos aviões, tantas vezes usados
como armas de morte por kamizakes e xiitas,
nem mesmo isto que chamamos de História,
tão escabrosamente violenta,
oceano transbordante de sangue.

Creio eu que nossa única salvação seria a música.
O fato de termos inventado coisa tão bela
Nos redimiria, talvez, no juízo dos aliens!
Acho difícil acreditar num Beethoven marciano…

* * * * *

Mas o sonho encantado
de embarcar numa Viena provisória
logo se esvai.

O encantamento não dura mais que hora e meia,
ainda que o vivido e experenciado nesta fração de tempo
seja absolutamente inquantificável,
um pesadelo para a matemática…

Logo dou meus passos para longe do palácio,
e caio direto nas ruas de São Paulo.

Eu, com a alma benta de Bach,
lavada com a água límpida do sublime,
avanço para fora do Castelinho de Música
ousando até, para meu pasmo,
sentir uma terna gratidão
por uma cidade que me proporciona, de graça,
um espetáculo tão lindo,
uma experiência estética tão encantadora….

E aí a realidade abre sua bocarra
e bafeja em mim seu bafo de bêbado.
Vomita carne mau-digerida sobre minhas flores.
Nubla com miséria meus céus azuis.

A poucos metros do Colossal Teatro onde
as melodias mais sublimes me encantaram,
minhas narinas tem a ousadia horrível
de reclamarem do fedor que soltam os
farrapos dos mendigos, maltrapilhos,
mau-lavados, que não vêem banho
faz mês e meio, quem sabe um ano…

A poucos passos da Suíça brasileira,
já se agita a nossa Etiópia.
A Crackolândia já levantou-se
para um novo dia,
indigno de ser vivido,
no qual homens e mulheres
irão atrás do crack nosso de cada dia,
e também do pão,
esta prioridade segunda,
enquanto sonham, talvez,
em serem os novos Ronaldinhos.

Os transeuntes caminham apressados,
indiferentes aos corpos estendidos no passeio,
destes que morrem na contramão
atrapalhando o tráfego.

Aqueles que estão ali,
jogados pelo chão,
tratados como piolhos,
poderiam talvez,
com um punhado oportunidade e incentivo,
se tornar nossos Jimis Hendrix ou Gil-Scott-Herons.

Mas a única música que ouvem
é a que faz seus estômagos que roncam.
Ou no máximo um CD Pirata dos Racionais,
comprado num camelô da Santa Ifigênia,
a ser ouvido em algum MP3 roubado
de algum gringo ou plêiba incauto
que deu bobeira na Rio Branco.

Penso, então, naquilo que chamam de
“o pessimismo de Lars Von Trier”
e volto a achar que não passa de realismo.
Não temos razão para,
terminada a saga de Grace,
nos sentirmos reconfortados,
alegres e saltitantes,
pois moramos em São Paulo.

Dogville é aqui.