“A PÍLULA DA FELICIDADE INSTANTÂNEA”, de Eduardo Giannetti

A PÍLULA DA FELICIDADE INSTANTÂNEA

por Eduardo Giannetti

(Em: Felicidade, Cia das Letras, 2002, pg. 143 a 152)

Na luta pela felicidade, o homem se deu conta de que o mundo natural podia ser transformado e submetido aos seus desígnios. O corpo do animal humano é parte dessa natureza. Ao se perceber e tomar como objeto de si mesmo, o homem descobriu que era possível alterar e manipular a sua natureza orgânica tendo em vista não só o bem-estar objetivo da saúde física, mas também o subjetivo da felicidade. Se “a vida é uma doença incurável”, como declarou o poeta inglês Abraham Cowley no século XVII, então por que não buscar um remédio que alivie os sintomas e o desconforto?

A ideia de alterar estados de consciência por meio da manipulação da química cerebral pode soar moderna, mas o sonho vem de longe. Não é de hoje que se especula, se fantasia e se experimenta em torno de facilitadores químicos e soluções mágicas para vencer o desafio de afastar o sofrimento e ser feliz. A farmacopéia psiquiátrica do animal humano remonta ao ambiente ancestral. Cada tribo guarda o seu segredo. A mais antiga língua escrita de que se tem registro – o idioma sumério praticado na Mesopotâmia desde o terceiro milênio a.C. – continha um ideograma específico denotando a papoula, da qual se extrai o ópio, como “a planta da alegria”.

"Helena e Páris", por Jacques-Louis David, 1788. Museu do Louvre.

“Helena e Páris”, por Jacques-Louis David, 1788. Museu do Louvre.

A bela e cortejada Helena, segundo o relato de Homero na Odisséia (IV, 220-32), possuía o segredo de uma planta egípcia cuja infusão em vinho dissipava a melancolia e fazia esquecer todos os males. O nepentes (do grego nepenthos: anti-preocupações) era tão eficaz contra o sofrimento e a tristeza, esclarece o poeta, que “àquele que o tragasse, depois de misturado ao vinho, não lhe correriam mais, em todo o dia, as lágrimas pela face, nem mesmo se lhe morressem a mãe e o pai ou se lhe matassem com o bronze, na sua presença, o irmão ou o filho”. A poção de Helena de Tróia, provavelmente uma solução de ópio em álcool, adormecia os circuitos da dor psíquica.

W. A. Mozart

W. A. Mozart

Outro exemplo notável vem de A Flauta Mágica de Mozart. A diferença é que o princípio ativo, nesse caso, não era um agente químico, mas um estímulo auditivo. A propagação das ondas sonoras e sua ação sobre os sentidos e o sistema nervoso, vale lembrar, são uma realidade tão impecavelmente física (embora não só isso, é claro) quanto a ingestão de um gole de vinho. A flauta mágica, talhadas das raízes mais profundas de um carvalho milenar em noite trovejante, tinha o dom de transfigurar o humano sofrer. Ao ouvi-la, o tristonho se enche de alegria, a solteirona sonha e o velho solitário se enamora. “Esta flauta”, celebra o coro da ópera, “é mais preciosa do que o ouro e as coroas, pois graças ao seu poder irão crescer o júbilo e o contentamento entre os homens.” Quando o céu da paisagem interna anda cinza, de que bênçãos e reviravoltas o sopro encantado da música não é capaz?

Seria ótimo, não é mesmo? Dispor de um remédio infalível – um recurso como o nepentes homérico ou a flauta mágica – capaz de afastar com um sopro as nuvens negras e as preocupações que assombram a mente, inundando-a suavemente de um bem-estar indizível. Não foi à toa que Francis Bacon, o grande precursor renascentista da ciência a serviço da técnica e do resgate da condição humana, vaticinou que aquele que descobrisse o segredo da “alegria solúvel em sangue” teria encontrado “a chave da vida eterna”. A tecnologia farmacêutica de drogas lícitas e ilícitas é o braço psiquiátrico do projeto iluminista-faustiano da conquista da felicidade por meio da crescente dominação da natureza pelo homem.

“O que hoje está provado ontem era apenas um sonho.” O que parecia distante no tempo vai se tornando visível no horizonte do exeqüível. Os avanços recentes no campo da bioquímica, da neurociência e da neurotecnologia prenunciam a chegada do dia em que o sonhos dos poetas e visionários do passado poderá se tornar realidade. Paralelamente, o apetite do público pelas novidades da indústria farmacêutica parece insaciável. Da calvície à obesidade, da insônia à impotência sexual, da ansiedade à perda de memória – há remédio para tudo. A farmacopéia moderna pode exclamar com o conde de Mirabeau: “Impossível? Nunca me diga essa palavra ridícula!” O caminho do paraíso está pavimentado de fórmulas, prescrições e bulas medicinais.

O alvoroço em torno das possibilidades abertas pelo avanço da tecnologia biomédica dá o que pensar. Boa parte das drogas que vêm empolgando os mercados tem por finalidade não a defesa do organismo contra doenças que ameaçam ou debilitam a saúde, mas sim a expansão da nossa capacidade de desfrutar prazeres, sentir satisfação em sermos quem somos e gozar ativamente a vida… São substâncias que visam à propulsão de vôos mais altos do bem-estar subjetivo – armas químicas na guerra de conquista pela torre da felicidade. (…) O problema, porém, é que o que parecia ser apenas um desafio tecnológico vai se revelando uma complexa e espinhosa questão de escolha moral.

Dahmer

André Dahmer

Suponha, para efeito de raciocínio, que todas as dificuldades técnicas e de ordem prática foram vencidas. A “pílula da felicidade instantânea” – uma nova e revolucionária megadroga testada e aprovada pelos órgãos médicos competentes – aterrisou com um estardalhaço maior que o do Viagra nas prateleiras das farmácias. Diante dela, drogas que viveram os seus 15 minutos de glória, como Zoloft, Paxil e Prozac, ficaram tão obsoletas e limitadas como o lampião a gás, o gramofone de manivela e o cinema mudo. O novo remédio não custa mais do que um picolé, não causa dependência física, não suscita uma escalada de consumo, não gera síndrome de abstinência nem possui efeitos colaterais indesejados…

Agora todos podem prosseguir no seu dia a dia, fazendo exatamente o que sempre fizeram para ganhar a vida, mas imersos numa subjetividade exuberante, entregues a uma suave e arrebatadora euforia, sentindo-se como verdadeiros deuses que, ao baixar à Terra, preferiram o simples disfarce de cidadãos comuns… Como no ideal estóico, o Olimpo subjetivo se liberta por completo das vicissitudes do contexto e das circunstâncias objetivas. Se “a felicidade consiste em querer ser o que se é”, como propõe o poeta latino Marcial, então a pílula matou a charada. A felicidade que ela proporciona pode ser adquirida por uma bagatela e levada no bolso da calça. Nem a superpopulação do Olimpo subjetivo impedirá cada um de viver ao sol perpétuo do seu paraíso artificial privativo…

A pílula está aí. Na condição natural do animal humano, a felicidade é um pássaro caprichoso. Voa quando voa e não quando pretendemos que voe. Podemos perfeitamente marcar de antemão os dias da semana em que desejamos fazer exercício físico ou sair à noite, mas seria absurdo supor que podemos escolher na folhinha as datas e ocasiões em que desejamos nos sentir plenamente felizes. O nosso bem-estar subjetivo é refratário aos ditames, decretos-lei e medidas provisórias da vontade consciente. O advento da pílula, entretanto, altera dramaticamente o quadro.

A primeira escolha é: experimentar ou não? A curiosidade, é plausível supor, leva a melhor. Se não é ilegal e se estão todos tomando, por que não? Depois de conhecê-la, contudo, como aceitar a mesmice de dias insípidos, a velha angústia inexplicável do espírito por nenhuma causa? Tendo visitado o paraíso bioquimicamente determinado em que o tempo se redoura por uma bagatela, em nome do quê abrir mão agora do dia de ouro escondido em cada dia?

Uma primeira questão é saber se o atalho químico da felicidade tem caminho de volta, mesmo na ausência de dependência física. O mais provável é que o recurso à pílula, uma vez testado, se torne tão trivial como o consumo de bebidas e aspirinas hoje em dia.

Mas o problema maior, creio, não é a dependência psicológica da droga. É o que ela acarretaria do ponto de vista da condição moral do homem. Quais seriam as implicações práticas e éticas dessa possibilidade? O que o experimento mental da pílula nos diz sobre o conceito de felicidade e sobre o lugar e o papel do bem-estar subjetivo na melhor vida ao nosso alcance? O que esperar do progresso científico e tecnológico para a solução dos problemas éticos e existenciais da humanidade? Se a felicidade é a finalidade maior da vida – o objetivo derradeiro ao qual tudo o mais se subordina -, então por que não viver em estado de embriaguez extática? Ser feliz é só o que importa?

“DESVENDO O MUNDO” – UM DOCUMENTÁRIO SOBRE O IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL “A EDUCAÇÃO MEDICALIZADA” (SALVADOR/BA, 01 a 04 de SETEMBRO)

“Espero ser uma pessoa quase sã
Pra nunca ter que conhecer o Diazepam.”
DONA ZICA, “O Fio da Comunicação”


Aconteceu em Salvador (BA), entre 01 e 04 de Setembro de 2015, o IV Seminário Internacional “A Educação Medicalizada – Desver o Mundo, Perturbar os Sentidos”. O evento é uma realização do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade [http://medicalizacao.org.br/] e reuniu um coro de vozes de diferentes vertentes que debateram e refletiram sobre vários temas de alta relevância, dentre eles: a “medicalização da vida”, que se manifesta, no Brasil e no mundo, nos altíssimos índices de consumo de Ritalinas, Prozacs, Rivotrils e outros psicofármacos e tarjas-pretas; a Guerra às Drogas (ilícitas) e suas (des)razões; as conexões entre as lutas antiproibicionista, antimanicomial e antimedicalização; dentre outros temas. Foram quatro dias de intenso intercâmbio de ideias e A Casa de Vidro oferece por aqui, aos que lá estiveram e aos que não puderam comparecer, um vídeo-panorama sobre o evento (assista abaixo).

remedios

Esta quarta edição do Seminário contou com a participação de artistas gráficos (como Alex Frechette) e audiovisuais (como Luana Lobo, da Maria Farinha Filmes), midiativistas (como o Rafucko), médicos (Antonio Nery), militantes de várias vertentes (Maria Lucia Silva, Rui Harayama, Célia Chaves etc), pesquisadores e acadêmicos (Marcos Garcia/UFSCAR, Rossano Cabral Lima/UERJ, Lygia Viégas/UFBA), além de convidados internacionais, caso de Alain Goussot (da Universidade de Bologna, na Itália), dentre muitos outros.

O documentário Desvendo O Mundo procura fornecer, em 45 minutos de filme, um pouco do que de melhor rolou por lá, de acordo com meu próprio gosto e juízo subjetivos. Escolhi algumas das falas mais contundentes e provocativas do seminário e montei uma espécie de vídeo-coletânea, experimental e cheio de pequenas imperfeições técnicas, mas que tem a intenção de construir um mosaico ou caleidoscópio do que se passou no evento. Todo o processo de edição e montagem foi realizado um tanto às pressas, para que o filme pudesse ser lançado poucos dias após a realização do evento, com a pauta ainda “quente”. O resultado pode ser conferido no vídeo abaixo, que procura seguir o mantra midiativista celebrado por Rafucko no evento: “não odeie a mídia, torne-se a mídia”:

DESVENDO O MUNDO

(Na trilha sonora: Dona Zica, Apanhador Só, Criolo e Radiohead.)

A conferência internacional de Carl Hart (Universidade de Columbia), “Verdades e Mitos sobre os filhos do Crack – considerações da neurociência”, foi cancelada pois o palestrante não compareceu (ficamos, até agora, sem explicações mais claras dos porquês da ausência de Hart). Sua ausência, porém, gerou uma instigante discussão descentralizada, com microfone aberto, que Desvendo o Mundo também procurou registrar.

Deixo registrado meus parabéns entusiásticos aos organizadores do evento, que contribuiu imensa e intensamente para que eu soubesse e sentisse mais amplamente sobre estes temas contemporâneos de alta relevância. Pela primeira vez em Salvador, “terra-mãe” do Brasil e primeira capital federal, pude realmente desver o mundo e perturbar os sentidos, ao mesmo tempo que conheci um pouco mais da efervescência dos movimentos sociais e das pesquisas acadêmicas que estão rolando atualmente. Em futuros posts, A Casa de Vidro procurará prosseguir tematizando e discutindo muitas das questões ali levantadas.

Abaixo, reproduzo o ótimo texto de apresentação do…

selo_passarinhoIV SEMINÁRIO INTERNACIONAL
“A EDUCAÇÃO MEDICALIZADA”

“Era preciso desver o mundo
para encontrar nas palavras
novas coisas de ver.”
(Manoel de Barros – O menino do mato)

Medicalização é o processo por meio do qual as questões históricas, políticas, culturais, econômicas, sociais e afetivas da vida humana são negadas pela redução de sua complexidade a supostas doenças, transtornos ou distúrbios individuais. Em outras palavras, a medicalização envolve um tipo de racionalidade determinista que vincula características comportamentais a questões biológicas e orgânicas do sujeito, supostamente único responsável pela inadaptação às normas e padrões sociais dominantes. Nesse processo, nossas feridas históricas deixam de ser cuidadas.

No Brasil, a necessidade de criar articulações sobre o tema resultou na organização do I Seminário Internacional, em 2010, ao longo do qual foi fundado o Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade Sociedade. Desde então, diversas foram as ações do Fórum, dentre as quais a realização de eventos locais, regionais e internacionais.

Dando continuidade às edições anteriores, o IV Seminário Internacional “A Educação Medicalizada” tem por objetivos: problematizar os olhares e práticas dominantes em relação às diferenças, aprofundar a construção de propostas de pesquisa/atuação profissional que operem rupturas em relação à lógica medicalizante e consolidar a articulação de profissionais, pesquisadores e ativistas no enfrentamento à medicalização da vida.

Para tanto, foi montada uma programação buscando contemplar a diversidade de áreas interessadas no tema: educação, farmácia, filosofia, fonoaudiologia, história, neurociências, psicologia, psiquiatria, comunicação e artes.

Conheça nossa programação, as normas de apresentação de trabalhos e inscreva-se! O evento é integralmente GRATUITO e emitirá certificado de participação.

DATA: 01 a 04 de setembro de 2015
LOCAL: Senai CIMATEC

Site: http://seminario.medicalizacao.org.br/

Para saber mais sobre o Fórum Sobre Medicalização da Educação e da Sociedade visite o site: http://medicalizacao.org.br/

#DesverOMundo #PertubarOsSentidos#IVSeminárioInternacional #EducaçãoMedicalizada

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ASSISTA:

DESVENDO O MUNDO

URL: https://youtu.be/WGHWrFftGQE

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ALGUMAS FOTOS:

ADRIANA MARCONDES

ADRIANA MARCONDES

ALAIN GOUSSOT (Universidade de Bologna)

ALAIN GOUSSOT (Universidade de Bologna)

CELIA2

APRESENTAÇÃO DE CÉLIA CHAVES

Desconhecida2

MICROFONE ABERTO

Lygia

LYGIA VIÉGAS

RAFUCKO

RAFUCKO E A INTÉRPRETE DE LIBRAS

Rossano Cabral Lima (UERJ)

ROSSANO CABRAL LIMA (UERJ)

RUI HARAYAMA

RUI HARAYAMA

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O PÚBLICO NO SAGUÃO DO IV SEMINÁRIO “A EDUCAÇÃO MEDICALIZADA”

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GISELE TOASSA (PROFESSORA DE PSICOLOGIA / UFG)

Salvador

UMA DAS MESAS DE DEBATE DO EVENTO

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A PLATÉIA

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MESA COM LUANA LOBO, ALEX FRECHETTE, LYGIA VIÉGAS E RAFUCKO

Salvador15

“ESTAMOS CRESCENDO!” – APRESENTAÇÃO DE LYGIA VIÉGAS

Salvador17

BANDEIRA: “SE NÃO POSSO BRINCAR, NÃO É MINHA LUTA!”

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P.S. – Este trabalho também foi publicado na Rede HumanizaSUS
HumanizaSUSLEIA EM: http://www.redehumanizasus.net/92223-desvendo-o-mundo-um-documentario-sobre-o-iv-seminario-internacional-a-educacao-medicalizada