O IMENSO ESPELHO DO CÉU – Documentário curta-metragem filmado no Salar de Uyuni, em Potosí, Bolívia (2018, 14 min)

EL INMENSO ESPEJO DEL CIELO

 

 

“O que é a História de toda a América senão uma crônica do real-maravilhoso?” Alejo Carpentier

Salar de Uyuni é um dos locais mais deslumbrantes sobre a face da Terra. É o maior e mais alto deserto de sal do mundo: estende-se por 10.582 km quadrados e encontra-se a 3.656 metros acima do nível médio do mar. Está localizado nos estados de Potosí e Oruro, na Bolívia, sendo um dos destinos turísticos mais procurados do país.

Era época de chuvas, quando o salar se transforma em um “Imenso Espelho do Céu” – “El Inmenso Espejo Del Cielo”, título deste documentário curta-metragem, falado em espanhol, em que registro um pouco da travessia maravilhosa que fiz na excelente companhia de Elvis Félix (nosso guia), o peruano Alexander Ccoycca Ccaulla, a holandesa Amanda Sabat, os chilenos Hans Richard Carrasco Jorquera e Carla Ríos Martinez, e o japonês Hiroki Matsubara.

Ali passei algumas das experiências mais extraordinárias que essa existência já me proporcionou. Era o início de 2018 e eu vinha de uma travessia extremamente fascinante pelo Peru – primeiro, por Cuzco e Macchu Picchu, depois em Puno para as festividades folclóricas da Candelária no Lago Tititica. Após deixar para trás a região do Titicaca, chegando em La Paz e seus teleféricos de transe, peguei um vôo doméstico da BOA rumo à Uyuni que foi um dos piores que já tive o desprazer de experimentar: tanta turbulência e tempestade que eu, em meio às taquicardias, já estava me despedindo dos vivos e imaginando que morreria espatifado no chão com a queda daquele teco-teco treme-treme. Chegar vivo em Uyuni foi um alívio tão maravilhoso que me colocou na vibe certa para apreciar cada segundo da jornada.

No vídeo, registro algumas conversas que tive com os companheiros de viagem sobre temas importantes de nossa latinoamericanidade: o que significa que a Bolívia tenha se tornado, na era Evo Morales, um “Estado Plurinacional”? Por que há um “Cemitério de Trens” nas proximidades do salar e para quê finalidades eram utilizados os vagões e trilhos? Que minérios foram extraídos dali no passado, e quais os minérios que hoje fazem crescer os olhos dos mineradores? Por que este é um dos locais mais “fotogênicos” do planeta e por que tanta gente gosta de levar pra lá dinossauros em miniatura?

Este filme, mescla de diário turístico com tentativa de etnografia documental a quente, revela alguns vislumbres das belezas infindas da paisagem natural e humana da Bolívia. Filmagem, montagem e som direto por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro. Trilha sonora com canções queridas do Quilapayun e do Perotá Chingó.

Dále! 

 

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FOTOGRAFIAS:

O BUDA E A SERPENTE – por Heinrich Zimmer

O BUDA E A SERPENTE
por Heinrich Zimmer

“Gautama Siddharta, o Buddha histórico que pregou nos séculos VI e V a.C., era um reformador monástico que, aceitando o contexto da civilização indiana, permaneceu nele inserido. Jamais negou o panteão hindu nem rompeu com o ideal tradicional indiano de libertação através da iluminação (moksa, nirvana). Sua obra específica não consistiu numa refutação, mas numa reformulação; baseou-se em sua profunda vivência pessoal dos atemporais preceitos indianos que instruem sobre a libertação dos laços de maya.

(…) Como todos os santos importantes da Índia, Gautama foi venerado, mesmo enquanto viveu, como veículo humano da Verdade Absoluta. Depois de morto, sua memória foi vestida com as roupagens exemplares do mito. Quando a seita budista expandiu-se… o grande fundador tornou-se cada vez mais um símbolo digno de veneração – representativo do poder redentor da iluminação latente em todo o ser enredado pela ilusão.

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Jardim

Quando o Bem-Aventurado, na última vigília da Noite do Conhecimento, compreendeu o mistério da originação dependente, os dez mil mundos ribombaram ao alcançar ele a onisciência. Por sete dias permaneceu em postura de meditação sob a árvore Bo (ou Bodhi, a “Árvore da Iluminação”), às margens do rio Nairanjana, absorvido na iluminada bem-aventurança.

Refletiu, com a compreensão que viera de adquirir, sobre a servidão de toda a existência individualizada; sobre o poder fatal da ignorância inata que subjuga com seu sortilégio todos os seres vivos; sobre a irracional sede de vida que se segue e que impregna tudo; sobre o círculo infinito de nascimento, sofrimento, declínio, morte e renascimento.

Transcorridos sete dias, ele se ergueu, caminhou um pouco e deteve-se junto a uma grande figueira, sob a qual retomou sua postura de meditante; assim esteve por mais sete dias, mergulhado na bem-aventurança da iluminação. Depois ergueu-se de novo e alcançou outra árvore – a terceira.

Sentando-se outra vez, reverenciou por novos sete dias o estado de excelsa calma. Essa terceira árvore recebeu o nome de “Árvore de Mucalinda, o Rei-Serpente”. Mucalinda, uma serpente prodigiosa, vivia numa cavidade do chão, entre as raízes. Percebeu, assim que Buddha mergulhou em sua bem-aventurança, que uma grande nuvem de tempestade começava a adensar-se, embora não estivessem na estação chuvosa. Saiu no mesmo instante de sua morada escura e envolveu sete vezes, nas espirais de seu corpo, o corpo santo do Iluminado; sob o diâmetro do gigantesco capelo dilatado abrigou, como sob um guarda-chuva, a cabeça sagrada.

Por sete dias choveu e soprou vento frio, mas Buddha permaneceu em meditação. No sétimo, dispersou-se a tempestade extemporânea. Mucalinda despiu-se de suas espirais, transformando-se num jovem de nobre aparência e, levando à testa as mãos unidas, inclinou-se para adorar o salvador do mundo.

A lenda e as imagens de Mucalinda-Buddha representam uma perfeita reconciliação de princípios antagônicos. A serpente, simbolizando a força vital que dá origem a nascimento e renascimento, e o salvador, aquele que vence a cega ânsia de vida, que rompe os laços do nascimento e aponta o caminho da imperecível transcendência, desvendam aqui, em harmoniosa união, uma visão para além de todas as dualidades do pensamento.

Onde quer que encontremos uma sucessão de monumentos budistas que denote uma continuidade razoável, e que se refira aos séculos imediatamente anteriores à nossa era – aqueles que sobreviveram aos rigores do clima indiano e às vicissitudes históricas -, verificamos que as representações dos espíritos ofídicos estão associadas a inúmeros outros protetores divinos da fertilidade, prosperidade e vitalidade terrestre.”

Mucalinda2
ZIMMER, Heinrich. Mitos e Símbolos Na Arte e Civilização da Índia.
Ed. Palas Athena, São Paulo, 1989. Pg. 60 a 62.

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