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O POVO DO MEIO – Uma reportagem amazônica de Eliane Brum (2004)

O POVO DO MEIO

Por Eliane Brum

Raimundo Nonato da Silva não sabe quem é Luiz Inácio Lula da Silva. Entre os dois Silvas, o presidente do Brasil e o brasileiro sem presidente, há um vasto mundo no qual se chamar Raimundo nem é rima nem é solução. Ele vive num país desconhecido pelo próprio Brasil, onde a maioria dos homens atende por Raimundo. Sua república fica no coração da Amazônia e pertence a uma região cujo nome parece ter saído do universo mitológico de J.R.R.Tolkien em O Senhor dos Anéis: Terra do Meio. É um país invisível porque 99% dos habitantes não têm documentos. Oficialmente, os Raimundos e Raimundas não existem. Mas estão lá, insistem em existir, rasos de letras mas gordos de paradoxos. São analfabetos ou, como eles dizem, ”cegos”. Nunca votaram porque fantasmas só se tornam eleitores em currais de fins de mundo. E eles vivem um pouco mais além do fim do mundo. Esse povo pode ser exterminado antes que o país oficial se aperceba dele. Como a floresta em que vive, está ameaçado de extinção.

Descendentes de soldados da borracha, nordestinos levados para os confins da selva pelo governo de Getúlio Vargas durante a Segunda Guerra Mundial, por lá ficaram e multiplicaram-se formando uma só família com menos de 200 pessoas dispostas numa intrincada teia de parentescos. Vivem como os índios viviam antes de terem contato com a civilização. Caçadores e coletores, comem o que a floresta lhes dá. E ela lhes dá muito. Castanha no inverno, caça, pesca e óleo das árvores de copaíba e andiroba o ano todo.

Assim seguiriam com a vida no seu país sem moeda, não fosse terem sido descobertos pelos grileiros. Esses predadores da floresta são velhos conhecidos da Amazônia. Chegam empunhando armas e títulos de terra forjados. Apregoam-se donos de milhares, até milhões de hectares de floresta. O nome, ”grileiro”, surgiu pelo antigo artifício de confinar os títulos falsos numa caixa cheia de grilos: os insetos liberam uma substância que amarela e corrói o papel, dando-lhe uma aparência de velho. Como no tempo do Descobrimento, primeiro os grileiros ofereceram os espelhinhos: no caso, um punhado de reais. Depois, exibiram o cano de uma espingarda calibre 12 de repetição. Hoje, os Raimundos estão jurados de morte.

O empreiteiro Cecílio do Rego Almeida disputa na Justiça uma área que pode chegar a 7 milhões de hectares – um território com o tamanho da Holanda e da Bélgica somadas. Se conseguir, obrigará todo o Povo do Meio a abandonar suas terras. ”Só me arrancam daqui com uma arma na cabeça”, esperneia Raimundo Delmiro, um dos líderes da comunidade, de 39 anos, nove filhos. Ele é um homem quieto, com a coragem de quem faz o que o caráter manda apesar do medo. ”Um dia eu voltei do mato e os homens de fora estavam na minha casa. Depois vieram outros e não pararam mais de chegar. Me ofereceram R$ 10 mil pela minha terra. Eu disse não. Eles começaram a cercar o meu lugar por todos os lados. Passam no rio em rabetas (canoas com motor) cheias de pistoleiros armados. São armas garantidas, de repetição, não como a minha espingarda de caça que tem 23 anos. Querem me botar medo. E conseguem. Sou um homem jurado de morte.”

Raimundo e sua família haviam acordado naquela manhã sem nada para comer. Cada um embrenhou-se num ponto cardeal da mata em busca de alimento. Antes do meio-dia, Fernando, de 13 anos, voltava com uma anta de quase 300 quilos e Francisco, de 14, trazia duas queixadas. ”A floresta é assim, rica de um tudo. Por isso tô marcado pra morrer, mas fico.”

O PAÍS DOS RAIMUNDOS

Raimundo reedita a história de Chico Mendes, promovido a herói nacional depois de um assassinato anunciado que ninguém impediu. Seu mundo, porém, fica ainda mais longe. Com quase 8 milhões de hectares, a Terra do Meio transformou-se numa das derradeiras possibilidades de preservação da Amazônia. Encravada no Estado do Pará, tem esse nome porque fica entrincheirada entre os rios Xingu e Iriri. Cercada por territórios indígenas e florestas nacionais (Flonas), sua localização geográfica acabou protegendo-a por muito tempo da devastação: a oficial, representada pelas várias tentativas desastradas de ocupação da selva, especialmente pelos governos militares, e a privada, protagonizada por predadores disfarçados de empreendedores. Terra de ninguém, é reivindicada por muitos.

Nos anos 90, o assalto dos grileiros a suas fronteiras recrudesceu com a operação da máfia do mogno. Nos últimos meses, a notícia do asfaltamento da Transamazônica e da Cuiabá-Santarém multiplicou a pressão. A sudeste, em torno de São Félix do Xingu, a região já se transformou num faroeste. É de lá que vem boa parte dos flagrantes de trabalho escravo, extração ilegal de madeira e mortes por conflitos de terra que alimentam o noticiário nacional. Na fronteira nordeste, cuja porta é Altamira, a invasão ainda está em curso, em ritmo apressado. É a noroeste, à beira de um igarapé chamado Riozinho do Anfrísio, que vive a população de Raimundos – cada casa a horas de canoa de distância uma da outra.

O nome vem de Anfrísio Nunes, um sergipano que, como outros tantos, recebeu autorização do governo para explorar os seringais da Amazônia. Seus descendentes também reivindicam a posse da terra. ”O Anfrísio levou mais de 200 famílias de arigós do Nordeste para cortar seringa no Riozinho”, conta sua enteada e nora, Vicencia Meirelles Nunes, de 74 anos. ”Naquele tempo os índios dizimavam famílias inteiras de arigós. O Anfrísio criou 18 órfãos de gente morta pelos caiapós e pelos araras.”

Os Raimundos são justamente os descendentes dos ”arigós”. Abandonados à própria sorte quando a borracha deixou de ser lucrativa, moldaram seu destino à revelia do Estado: sem escola, sem saúde, sem registro de nascimento. Não querem a posse da floresta, só querem viver nela. Sua concepção de mundo não inclui cercas.

A TRAVESSIA DE HERCULANO

Para mostrar ao Brasil que seu povo existe, um homem miúdo chamado Herculano Porto, de 60 anos, foi escolhido para empreender uma viagem à cidade de Altamira. Único chefe de família com documento, só ele estava apto a realizar a travessia. Tornou-se o presidente da comunidade. Depois de um dia remando na sua canoa, alcançou a boca do Riozinho do Anfrísio e, de lá, pegou um barco. No caminho, chegou a topar com uma onça que atravessava o rio. ”A gente achou que era um veado e botou o barco por cima.”

Em 7 de setembro, Herculano iniciou a viagem de volta. Havia cumprido sua missão: carregava duas bolas de futebol e um documento elaborado pela Comissão Pastoral da Terra em que a comunidade pedia ao governo federal a criação de uma reserva extrativista. Abaixo da reivindicação, seu povo teria de gravar os polegares para valer como assinatura.

Mas entre Herculano e seu país acessível somente por água estendiam-se 328 quilômetros de rios. Sua saga só terminaria dias mais tarde, ao final de uma trama fluvial que conduz sempre para dentro. Depois do Xingu, o Iriri aprofunda-se na Terra do Meio sobre um labirinto de pedras. É preciso vencer meia dúzia de corredeiras, cada vez desembarcando e subindo a pé para depois içar o barco com cordas em meio à correnteza. Na empreitada, as mãos arrebentam até sangrar.

Homem alfabetizado na língua da água, Herculano não temia as armadilhas do rio. Só era assombrado pelos conselhos do proeiro, Benedito dos Santos, que em 62 anos de vida amazônica foi seringueiro, garimpeiro, cafetão, caçador de onça e jagunço. Não tem história contada por ele em que não morram uns dois ou três. ”Já botei muita gente pra fora de terra pros doutor nesta Amazônia. Tem mais facilidade tomar conta com agressão. Essa história já se repetiu tantas vezes e nunca vi posseiro ganhar. Sempre vai ter essa briga de terra no mundo”, ia desfiando rio afora. ”Homem, vende logo seu pedaço antes que lhe joguem fora.” Herculano esboçava um sorriso falhado de dentes, mas farto de persistência.

Até a boca de sua terra a jornada nos barcos de linha consome sete dias na estação da seca, se tudo correr bem. Muitas vezes, os passageiros são obrigados a acampar numa passagem mais difícil por semanas até conseguir vencê-la. Pelo caminho, homens como Herculano vão sondando o rio e a mata em busca da comida – em especial um tipo de quelônio chamado tracajá. Eles têm a selva por restaurante. Para ganhar tempo, só fazem uma refeição ao final do dia, depois que o sol se deita e as pedras do leito do rio tornam-se invisíveis e fatais. Pernoitam nas ilhas, atando a rede nas árvores.

Nessas noites, o silêncio da selva é feito de ruídos. Herculano Porto conhece cada um deles pelo nome. Tem a floresta dentro da cabeça. Os animais não atacam. Como o ecossistema é equilibrado, há comida para todos e o homem é um predador que nem as onças desafiam sem um motivo forte. Os jacarés limitam-se a manter os amarelos olhos fosforescentes a uma distância regulamentar enquanto os passageiros se banham com a lua alta. O pior inimigo são as arraias, abundantes, que aplicam ferroadas fundas quando se tem o azar de pisar nelas. Às vezes, uma sucuri. Um dia depois que Herculano passou, uma delas matou um homem quando ele nadava. A cobra triturou todos os seus ossos.

Enquanto Herculano singrava os rios de seu mundo primitivo, parte de sua terra era oferecida na internet por R$ 6 milhões pela imobiliária Sofazenda, de Varginha, em Minas Gerais. A oferta anunciava as maravilhas do Riozinho do Anfrísio: ”Dezenas de qualidades de madeiras de lei, em densas florestas, ricas em mogno…”. Assim como ”grande reserva de minério, cassiterita, ouro, diamante e outros”. Na quinta-feira, o corretor Aldamir Rennó Pinto explicou que a área foi tirada do catálogo ”porque estava enrolada”. Ofereceu outra, de 390 mil hectares, por R$ 27 milhões. ”Inclusive, a outra terra estava dentro dessa que estou lhe oferecendo. Ela pertence aos herdeiros do Anfrísio Nunes e já estou com os títulos, tudo certinho.”

Analfabeto, Herculano enfrenta a golpes de dedão o universo da grilagem cibernética. Quando finalmente desembarcou em casa, descobriu que seu castanhal havia sido posto abaixo. Faltava apenas a derrubada das árvores maiores. E depois o fogo. Herculano, também marcado para morrer, havia cumprido sua missão. Mas, quando o documento com as digitais de seu povo alcançar o país oficial em Brasília, ninguém vai ter a dimensão do tamanho da odisséia.

A DISPUTA DAS ALMAS

Até a chegada dos invasores, a Terra do Meio havia girado sem dinheiro. Os grileiros levaram moeda e cobiça. Foram penetrando pelas frestas das almas, dividindo para semear a discórdia. Francisco dos Santos, o homem que mais conhece o rio e suas manhas, foi o primeiro a ser assaltado por tentações. Chico Preto, como é chamado, vendeu-se por R$ 20 ao dia para botar e tirar peão e pistoleiro do interior do Riozinho do Anfrísio. ”Eu luto pela reserva, mas eles pagam em dia e aqui é difícil ganhar dinheiro de outro modo”, diz Chico. ”São pessoas alegres, prestativas, nem parece que matam gente.” Seu enteado, mais um Raimundo, tornou-se o homem de confiança de um grileiro conhecido por Goiano, cujas atrocidades já viraram lenda. Opera na boca do rio o rádio que denuncia a chegada de estranhos. ”É melhor vender a terra porque vão tomar de qualquer jeito. Aí botam a gente pra fora sem nada”, defende esse Raimundo dissidente.

Os grileiros aproveitam-se do abandono para oferecer o que o Estado não dá. ”Quero levar melhorias para aquele povo. Escola e posto de saúde. Já botei um carro à disposição deles”, disse a ÉPOCA Edmilson Teixeira Pires, de 51 anos, que reivindica a posse de algumas dezenas de quilômetros quadrados. Já riscou uma estrada a partir da Transamazônica, onde instalou mais de uma casa e dezenas de peões. Só não chegou ao rio porque encontrou no seu caminho Luiz Augusto Conrado, de 51 anos, conhecido como Manchinha por conta de uma mecha de cabelos brancos que ostenta desde bebê. ”Pode recuar. Na minha terra vocês não entram”, avisou.

Manchinha conhece bem a caridade dos doutores. Antes de casar com Francineide, parteira do Riozinho do Anfrísio, foi escravo em fazendas no Pará por mais de dez anos. Depois virou garimpeiro em Serra Pelada. Viu de tudo, menos ouro o suficiente para mudar a sina. Sabe muito bem de que matéria é feita sua resistência: ”A floresta é o único lugar que tem fartura pra pobre. Os homens vão nos cercando e a gente precisa da castanha, da caça, da pesca. Vão nos matando porque encolhem a terra. Quando uma das estradas, das tantas que tão cortando por aí, chegar ao rio, acaba nós e o mato”.

AMEAÇADOS DE EXTINÇÃO

Se os invasores vencerem essa que é uma das últimas guerras da Amazônia em que ainda é possível ganhar, com a selva desaparecem 346 espécies de árvores, 1.398 tipos de vertebrados, 530 qualidades de peixes. Boa parte dessas variedades são endógenas – ou seja, só existem na Terra do Meio. O mundo fica mais pobre em biodiversidade, que é o tipo de miséria irremediável. Mas, além da perda de milhares de espécies, o planeta fica também menos sortido de gente. O Povo do Meio está entre os últimos de sua estirpe, ceifada junto com a floresta. O isolamento – e o abandono – construiu nos confins do Brasil a extravagância de uma cultura sem imagem que ainda persiste no século XXI.

É por isso que se tornou uma terra de Raimundos. Sem TV, eles nunca batizaram filhos de ”Maicon” ou ”Dienifer” nem ficaram sabendo que João e Maria viraram nomes chiques. São consagrados a São Raimundo Nonato, que, por ter sido extraído do útero da mãe morta, ao tornar-se santo virou protetor das parteiras. Todo o imaginário é costurado de ouvido. As cenas são formadas a partir de fragmentos da Rádio Nacional da Amazônia, o único contato com o Brasil. É assim, por exemplo, que reinventam as jogadas de futebol a partir dos lances escutados – e jamais vistos.

Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho são ídolos sem rosto, cujas façanhas são reinterpretadas na cabeça de cada Raimundo. É no futebol que esses homens da floresta forjam seu RG de brasileiro. A identidade é a bola, trocada por 200 quilos de castanha no Regatão, espécie de shopping fluvial que passa meia dúzia de vezes por ano para o escambo da produção local pelos artigos da cidade.

Raimundo Nonato da Silva, o brasileiro que não sabe quem é Lula, tem um campo de futebol diante de sua casa de pau-a-pique coberta de babaçu. Nos domingos, seus meninos trocam a faquinha da seringa pela bola. É nesse cartório de chão batido que registram seu nascimento. ”Era bom saber o nome do presidente do Brasil por saber, mas diferença não faz”, diz.

Quem não conhece a sina de Raimundo poderia achar que ele é variado das idéias. Desde que nasceu, herdeiro de um soldado da borracha que caiu morto no seringal (”Meu pai se chamava Zuza, sobrenome Zé”), ele viveu uma vida sem Estado. Sabe apenas que para além do rio há um lugar chamado cidade, que ele imagina, enigmaticamente, como ”um tipo de movimento”. Para ele, tanto faz mesmo o nome do presidente. A idéia de país não pertence a seu imaginário. É o Brasil que precisa descobrir Raimundo, antes que seja tarde.

* * * * *

Impressões pessoais da repórter Eliane Brum sobre a viagem à Terra do Meio

VIAGEM AO PAÍS DOS RAIMUNDOS

”A melhor maneira de explicar isso a vocês é dizendo que, por um ou dois segundos, me senti como se em vez de ir para o centro de um continente, estivesse de partida para o centro da Terra.” (Coração das Trevas, Joseph Conrad)

Esse é o sentimento que ecoava, em mim e no Lilo (o fotógrafo Maurilo Clareto), quando penetramos na boca do Riozinho do Anfrísio, que apesar desse nome meigo é um igarapé selvagem. Troncos formavam cavernas sobre a água, um casal de ariranhas mergulhou bem na nossa frente e milhares, milhões talvez, de borboletas amarelas acompanhavam o percurso labiríntico. Parecia que tínhamos sido engolidos, numa piscada de distração, para uma dimensão desconhecida. Sentia como se mergulhasse cada vez mais para dentro e para dentro da terra. Por todo o tempo me ardia no peito a certeza de que, por melhor que eu conseguisse escrever, seria incapaz de alcançar a dimensão do que vi – e vivi.

Essa é uma angústia permanente, a da redução da vida quando é confinada em palavras. Mesmo quando as palavras são exatas, como no caso do trecho do Conrad aí de cima. Como testemunhar a luta de um punhado de brasileiros esquecidos, invisíveis e terrivelmente frágeis muito depois do fim do mundo e contar isso em alguns parágrafos, páginas? Poderia começar assim: “Levamos quatro dias navegando 12 horas por dia e dormindo na floresta para chegar à boca do Riozinho”. É verdade, mas não é nada. Ou: “O povo do Riozinho está ameaçado de morte pelos grileiros que cobiçam o mogno e o ouro da terra”. É um fato e não é nada. Não conta do que significa para aqueles homens e mulheres isolados, dia após dia, estarem ameaçados de perder tudo o que conhecem, inclusive a vida. Essa mesma angústia eu sentia quando as freiras do colégio em que eu me alfabetizei diziam: “Deus fez o mundo em seis dias e no sétimo descansou”. Como assim?!

Primeiro, dizer que fui para a Amazônia é o mesmo que dizer que fui aos anéis de Saturno. Mas qual deles? São muitas florestas, gentes e realidades diferentes dentro de uma mesma convenção geopolítica. O que importa ressalvar aqui é que, seja qual for das Amazônias, é sempre uma jornada de risco. Não falo da dificuldade do transporte, dos índios, dos carapanãs (uns mosquitos que têm o desplante de ignorar repelentes e picam no entardecer e no amanhecer, inclusive através da roupa, abrindo uma trilha de inchaços no corpo). Falo do maior risco para um repórter, que é errar o tom. Nem dá para ser babão e achar que tá no éden perdido, nem dá para ser blasé e achar que é um pouco mais do mesmo. Tem de se deslumbrar sem ser deslumbrado. Uma linha bem estreita.

Por isso fico meio sem graça de sair contando minhas aventuras na primeira pessoa. Não quero que fique parecendo que me acho alguma Indiana Jones. Depois de 10 dias convivendo com o Aldo e com o seu Bené, o piloto e o proeiro da voadeira que nos carregou pelo rio, e em seguida com o povo valente do Riozinho do Anfrísio, sei muito bem que todas as minhas seis viagens a Amazônia não valem um dia deles. Os caras são brilhantes. Conseguem enxergar ovo de tracajá onde eu só vejo areia, pedra pontuda onde eu só enxergo água, chuva onde eu só vejo azul. (Depois de testemunhar o cotidiano desse povo, se eu tivesse alguma pretensão de me sentir uma Crocodila Dundee, tinha afundado no brejo. Eu mal conseguia amarrar a rede num pedaço de pau na hora de dormir…).

O seu Bené, então, que é o legítimo homem amazônico, a quem prometi escrever um livro contando a vida, merecia uma estátua. Vida sofrida, como é a de todos, mas de uma intensidade… Nas suas andanças como seringueiro, mateiro, gateiro, cafetão, garimpeiro, seu Bené espiou mais para dentro do bicho homem do que a sanidade permite. Na última noite da viagem, tivemos de pernoitar num lugar de mata muito fechada porque o motor da voadeira quebrou antes que a gente chegasse no pouso pretendido. Ninguém se apavorou, mas eu confesso que fiquei com vontade de dormir de mão com o Lilo, caso a minha reputação de durona permitisse. Eu olhava aquele barranco de floresta fechada que se erguia sobre a minha pobre rede e ficava imaginando o que diabos havia ali atrás. Deixamos uma velinha acesa quase a noite toda pra dar uma animada.

Mas enquanto esperávamos o peixe cozinhar, seu Bené ia contando uma de suas histórias de garimpo. Dessa vez, foi um avião que caiu numa das pistas clandestinas. Seu Bené ajudou a arrancar os mortos e os vivos dos destroços. Eu achei até que a história estava meio fraca, com míseros dois mortos – na anterior ele tinha despachado uns 40 pro inferno. Mas eu não sabia de nada. “O mecânico queimou todinho. Só uma parte da polpa da bunda ficou assada”, desfiou ele. “Não é que o meu colega comeu a bunda do sujeito?” Nós todos logo pensamos que era um “comer” no sentido bíblico do termo (o que já seria, digamos, um absuuuurdo). Seu Bené esclareceu: “Passou a faca e comeu. Disse que era gostoso. Aquele cabra tinha um estômago que vou te dizer.”

O pior é que quando ele chegou nessa parte eu já estava engolindo a janta-almoço (só fazíamos uma refeição por dia para não perder tempo, depois que o sol se punha). Ajeitei tudo com mais um punhado de farinha. Aliás, viciei naquela farinha grossa, amarela, capaz de quebrar um dente facinho. Eu só entendi meeesmo o espírito da coisa depois da primeira ameaça de tempestade. Uma coisa feia, o rio virando mar, nada em nenhuma das margens parecido com abrigo, o caminho cheio de pedras e as nuvens engordando de escuridão. Eu pensando que os caras tinham um plano B para esse tipo de situação. Quando o céu finalmente caiu roncando sobre o mundo, só ouvi o grito de desespero: “Não deixa molhar a farinha!”. Nessa hora, todas as minhas pretensões de ser tratada como princesa, assim, na condição de única moça do grupo, foram literalmente por água abaixo. Eu que me ensopasse toda, já a farinha…

Tudo o que eu conto como aventura é da vida cotidiana do povo amazônico, ribeirinho. Seria mais ou menos como se o seu Bené viesse a São Paulo e fosse descrever a travessia da Ipiranga com a São João como um épico. A gente, aqui, urbanóide, ia morrer de rir. Bem, é possível que na história dele morresse uma meia dúzia atropelado… Seu Bené é muito melhor contador de histórias do que eu. (E ainda por cima ele me chamava de dona Maria. E o apelido pegou. Se ouvirem falar de uma dona Maria por lá, sou eu.)

Os dois primeiros dias foram os mais complicados pra mim. É como sair de um mundo e entrar num outro, sem escalas. Era muito de tudo: muito sol, muito 40 graus, muito carapanã, muito jacaré, muita arraia, muita aranha, muito mato. E eu estava no primeiro dia de menstruação e comigo tinha mais cinco homens e nenhuma privacidade. (Não vou contar como resolvi isso no meio do mato durante a viagem de ida porque, digamos, não é o momento…) Mas é para lembrar que também tem dessas coisas. Eu só pensava: “Mulher, o que você está fazendo aqui?!”

Mas aí acontece alguma coisa (e sempre me acontece essa coisa) e, no terceiro dia, eu já estava, como se diz em linguagem chique, mais feliz que pinto no lixo. Entendi muitas coisas nessa viagem. Muitas. Entendi, principalmente, porque a Amazônia precisa ser salva. Todas as que ainda dá para salvar. O mundo ia ficar pobre demais (vocês precisam imaginar quanto!) e o Aldo, o seu Bené, o seu Herculano iam desaparecer. Alguns deles reapareceriam em alguma favela ou no cadastro do Fome Zero, mas já seriam outros. Não digo isso porque é politicamente correto ou por caridade cristã, mas por egoísmo mesmo: é um mundo muito grande, muito rico, muito bonito e o povo de lá sabe muita coisa que a gente não sabe. Naquela região tudo é grande, imenso, generoso, mas se focar o olhar é pequeno, cheio de detalhes. De todas as Amazônias que eu conheço, aquela é a mais impressionante, a mais delicada. Ali, é muito mais fácil acreditar em Deus do que em Darwin.

Cada noite, na rede, eu ficava assim, de olho estalado, engasgada de sentimento. Eu tenho uma lanterna daquelas de amarrar na testa, tipo mineiro, para poder ler. Levei On the road, a bíblia beatnik do Jack Kerouac. Mas eu estava vivendo tantas coisas on the river que não cheguei a ficar arrepiada. Só no fim, mas não vou contar. Decorei a seqüência de ruídos de bichos noite afora, sempre a mesma, e então sabia mais ou menos que horas seriam. Quando acordava, tinha dúvidas se havia dormido. Na floresta, a gente fica toda instinto de sobrevivência, então o sono é leve, diferente, na iminência de algo.

Assim foi a viagem de ida e depois a de volta. Medo mesmo, medão, eu só tinha de arraia. Toda noite eu tomava banho no rio e não dava para enxergar o que tinha embaixo. E sempre havia muitas arraias. Basta a gente pisar sem querer, que elas já enfiam o ferrão no pé. Vi o pé de um homem que teve esse azar. O buraco tinha quase cinco centímetros, acho que beirava o osso, e purgava. Me ensinaram a arrastar os pés no fundo do rio. Não aconteceu nada com a gente. Nem malária pegamos.

Quanto ao povo do Riozinho, ainda é difícil contar sobre eles. Quando desembarcávamos em alguma casa na beira do rio, no caminho, as meninas, as mães de família, pensavam que eu era alguma autoridade. Sempre me pediam escola. Nunca vi tanta gente, novo e velho, pedindo para estudar com tanto brilho no olhar, tanta gana. “Aí vou casar com um homem daqui, cego de letras que nem eu, e vamos ser os dois ignorantes nesse mundo”, me disse uma menina chamada Deusa, de 16 anos, na beira do Iriri. Ou a Francineide, parteira do Riozinho, “se botarem uma escola vou aprender a ler mesmo se já tiver velha demais e tiver de ir me arrastando”.

É um povo que quando diz o número de filhos conta os mortos. E quando conta os mortos conta que morreram da febre, da malária. E morreram só porque não há remédio, porque basta remédio para não morrer de malária. Mas esse povo, quando precisa de remédio que não tem no mato, quando precisa de médico e não de benzedeira, tem de ir até o posto de saúde da Cachoeira Seca, a terra indígena mais próxima, a dias de canoa de distância.

Meninas, ainda, meia dúzia de filhos, sempre me rodeavam para perguntar como era possível que eu, já tão velha (bah!), tivesse só uma filha. Descobria então que elas nunca viram uma camisinha. E quando começava a falar de pílula anticoncepcional, sempre aparecia alguém para dizer que “a pessoa toma essa pílula, tá boazinha e de uma hora pra outra amanhece morta”.

Nunca vou esquecer do corpo de passarinho do seu Herculano, um rastro de gente no mundo, resistindo em cima da sua floresta, agarrado à beira do único mundo que conheceu. A gente não mergulha no mundo do outro impunemente. E depois vai embora como se nada tivesse acontecido. Toda viagem é sem volta. E eu ainda estou chegando.

ELIANE BRUM
In: Olho da Rua.
Ed. Globo.

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Leia tb em A CASA DE VIDRO:
A Morte Como Escola
A Guerra do Começo do Mundo
A Loucura dos Normais 
(sobre Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex)

MARXISMO SEM DOGMATISMO – Explorações do pensamento de Leandro Konder (1936-2014)

MARXISMO SEM DOGMATISMO: EXPLORAÇÕES DA OBRA DE LEANDRO KONDER
por Eduardo Carli de Moraes

Estou a cada dia mais convicto de que é plenamente possível abordar o marxismo de maneira fecunda, sem qualquer dogmatismo, não fazendo da doutrina um sinônimo de catecismo ou uma verdade absoluta: ao invés de ser a proclamação de verdades indiscutíveis, o legado marxista pode nos convidar ao salutar exercício crítico permanente, na dialética entre a denúncia e o anúncio de que fala Paulo Freire.

Visto deste viés, o marxismo é uma ferramenta de muito valor para uma autêntica “leitura do mundo”, atenta à totalidade e capaz de enxergar os links entre o econômico, o político, o cultural, de modo que, como o filósofo francês Jacques Derrida, será sempre “um erro não ler Marx” – pois então perderíamos a chance de ler corretamente a realidade, que sua obra desvela e revela em toda a sua complexidade.

O real, porém, não está aí apenas para ser “lido”, mas sim para ser refeito, transformado, revolucionado! É o que diz Marx em uma das mais célebres das Teses Contra Feuerbach: não devemos jamais nos limitar a ler e interpretar o mundo, já que isto é apenas a pré-condição para a tarefa da transformação emancipatória do mesmo. 

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Na obra de um pensador como Leandro Konder (1936 – 2014), tenho descoberto um excelente exemplo na intelectualidade brasileira de um marxismo exercido com graça e brilhantismo, sem apego a dogmas, despreocupado com os juízes da ortodoxia que, com seus “marxímetros” em mãos, pretendem bater o martelo sobre as manifestações autênticas ou deturpadas daqueles que seguem as pegadas de Marx. Os artigos breves reunidos no livro O marxismo na batalha das ideias (Ed. Expressão Popular) revelam um autor muito culto, de texto sagaz e cheio de vida, exercitando uma escrita que jamais esquece que a crítica realmente frutífera não pode jamais esquecer do processo permanente de auto-crítica.

O “espírito auto-crítico” que Konder reivindica está presente em algumas das figuras mais importantes que integram o vasto campo do pensamento marxista – como Engels, Gramsci, W. Benjamin, Paulo Freire, dentre tantos outros. O próprio Marx jamais foi um proclamador de peremptórios dogmas a serem aceitos por leitores-cordeiros ou por ativistas-obedientes, e chegou mesmo a declarar que, “se tivesse de adotar um lema, seria a frase latina que recomendava duvidar de tudo: de omnia dubitandum.” (KONDER, op cit, p. 57)

Só através do autoquestionamento radical é que podemos superar tudo o que há de conservadorismo, preconceito de classe, estreiteza de visão e apego identitário irracional em nossas próprias interioridades. Autocrítica, no entanto, é diferente de autodepreciação: Konder não está jamais sugerindo que o sujeito se torture com o cilício, que se recuse a reconhecer seu devido valor, numa mortificação-de-si bem ao gosto do ideal ascético tão fustigado por Nietzsche. Poderíamos até mesmo aproveitar o modelo de Aristóteles na Ética a Nicômaco e dizer que a virtude, no que diz respeito ao amor-próprio, não está nem na arrogância narcísica (vício por excesso) nem na auto-humilhação de quem só sabe fustigar seu próprio self (vício por escassez), mas sim na lúcida apreciação de si e no apreço justo do próprio eu:

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“O apreço por si mesmo é importante para todo ser humano: se não gostar de si mesma, nenhuma pessoa conseguirá gostar saudavelmente de outra; se não acreditar de fato em suas convicções, não conseguirá comunicá-las a outras pessoas, não conseguirá intervir no mundo, contribuindo para melhorá-lo. A partir de um determinado nível, contudo, a auto-estima fica sobrecarregada de narcisismo e acarreta uma atrofia conservadora da autocrítica.

Podemos então deixar de lado as condenações moralistas – inócuas – do narcisismo. Elas são antigas e apresentam escasso interesse teórico. O problema que merece a nossa preocupação é outro: é aquele que se manifesta no efeito conservador da autocomplacência, que coagula o movimento auto-renovador da consciência, enrijecendo-lhe o ímpeto criativo e a abertura para o novo. (…) É provável que a estrutura da mente humana seja muito mais conservadora do que costumamos reconhecer. Renovar-se, reformular suas idéias, modificar seus valores, é operação dolorosa e arriscada.

(…) A verdadeira autocrítica exige uma espécie de “complementação negativa” para o curriculum vitae: depois de apregoar seus êxitos e seus méritos, a pessoa enfrenta o desafio de reconhecer suas frustrações, suas deficiências, seus fracassos, suas fraquezas. Talvez possamos chamar essa reconstituição dolorosa e necessária de curriculum mortis. Os indivíduos mais gravemente contaminados pela ideologia “triunfalista” que se manifesta no curriculum vitae carecem de sensibilidade, de madura lucidez e de coragem intelectual para a elaboração desse curriculum mortis.

Querendo ou não, cada um de nós caminha inexoravelmente para a morte (e o prestidigitador não escapa a esse destino). Reconhecendo francamente nossos fracassos, elaborando nosso curriculum mortis, assumindo autocriticamente os momentos “noturnos” em que vamos morrendo aos poucos, aumentamos as nossas possibilidades de nos conhecermos e de nos aperfeiçoarmos espiritualmente; e, de certo modo, esse talvez seja o único caminho possível de preparação para o fim pessoal inevitável. Quem insiste em se iludir, na realidade, está optando por enfrentar despreparado todas as dores que lhe vão desabar em cima, na hora da desilusão.” (KONDER, 2009, op cit, p-58-59)

Satirizando a ostentação presente em muitos dos atuais currículos profissionaisKonder escreve, em seu saboroso artigo de 1983 “O Curriculum Mortis e a Reabilitação da Autocrítica”

“Para obter um emprego, para conseguir uma promoção, fazer carreira, o sujeito precisa exibir suas qualidades, ostentar seus êxitos. Já existem até manuais que ensinam o cidadão a preparar seu curriculum vitae. A trajetória ascensional de cada um depende dessa peça de literatura, que lembra as antigas epopeias, porque nelas o protagonista – o herói – só enfrenta as dificuldades para poder acumular vitórias. Os obstáculos servem apenas para realçar seu valor. O passado é reconstituído a partir de uma ótica descaradamente “triunfalista”.

Evidentemente, trata-se de uma imagem que não corresponde à realidade. Em sua imensa maioria os seres humanos não são campeões invictos, não são heróis ou semideuses. Se nos examinarmos com suficiente rigor e bastante franqueza, não poderemos deixar de constatar que somos todos marcados por graves derrotas e amargas frustrações. Vivemos uma vida precária e finita, nossas forças são limitadas, o medo e a insegurança nos frequentam; e nada disso aparece no curriculum vitae de cada um de nós.

O curriculum vitae é a ponta do iceberg: ele é o elemento mais ostensivo de uma ideologia que nos envolve e nos educa nos princípios do mercado capitalista; é a expressão de uma ideologia que inculca nas nossas cabeças aquela “mentalidade de cavalo de corrida” a que se refere a escritora Doris Lessing (1919 – 2013). Não devemos confessar o elevado coeficiente de fracasso de nossas existências, porque devemos ser “competitivos”. Camões, o genial Camões, autor de tantos poemas líricos maravilhosos, não poderia colocar em seu curriculum vitae o verso famoso: “Errei todo o discurso dos meus anos”.

A ideologia que se manifesta no curriculum vitae, afinal, aumenta as nossas tensões internas, porque nos dificulta a lucidez e a coragem de assumir o que efetivamente somos; nos obriga a vestir o uniforme do “super-homem”, a afetar superioridades artificiais. Além disso, ela incita à mentira, gera hipocrisia. Por sua monstruosa unilateralidade, a imagem do vitorioso, que ela nos obriga exibir, empobrece o nosso conhecimento de nós mesmos, prejudica gravemente a sinceridade da nossa auto-análise.” (KONDER, 2009, p. 53-54, Leia o artigo na íntegra)

crítica é uma arma que pode e deve incidir tanto sobre o mundo objetivo quanto sobre o âmbito das subjetividades, o que abre um vasto horizonte interdisciplinar: é possível pensar nas interlocuções e interconexões entre psicologia, sociologia, história, filosofia, antropologia, economia, de modo a revelar, no marxismo depurado de dogmatismo, um valioso aliado para o esforço humano rumo à verdade factual, esta complexa e multifacetada entidade que é o télos da busca de qualquer intelectual autêntico. Inspirado por Walter Benjamin, Konder dirá também que não podemos de modo algum depreciar a importância do passado: o que passou continua sendo um campo-de-batalha!

Walter Benjamin“Benjamin tem uma visão agudamente crítica daquilo que a história da  luta de classes ‘cristalizou’ na tradição: o legado que nós recebemos, segundo ele, está profundamente marcado por ‘expurgos’ promovidos pelos opressores, por exigências reprimidas, pelas esperanças dos oprimidos que foram sufocadas. À consciência revolucionária cabe reexaminar o passado, resgatando nele o que foi mutilado; cabe-lhe, como diz Jeanne Marie Gagnebin – ‘arrebatar ao esquecimento a história dos vencidos’. Além de recuperar a memória do que aconteceu, a dialética revolucionária, nas palavras do próprio Benjamin, ‘provoca a explosão da carga de dinamite que ficou depositada no passado.'” (KONDER, op cit, p. 74)

Em outro artigo brilhante, O Novo Conteúdo Político do Direito ao Prazer, Leandro Konder demonstra uma capacidade incrível de ir ao passado distante – por exemplo, à obra dos filósofos materialistas antigos Demócrito e Epicuro, a quem Marx dedicou sua tese de doutorado – para discutir candentes problemas do presente.

Partindo do senso comum, que atribuiu à palavra “epicurismo” uma carga negativa, como se “epicurista” fosse sinônimo de “devasso”, “libertino”, “libidinoso”, alguém que despreza todo tipo de freio moral ou escrúpulo ético em sua busca desenfreada por orgias e bebedeiras, Konder mostra que esta (má) representação é intriga da oposição e difamação. Como Konder aponta com razão:

“Tudo indica que Epicuro foi apenas uma vítima das calúnias de seus adversários. Documentos dignos de fé comprovam que ele era um cidadão sóbrio e recomendava aos discípulos que, antes de procurar satisfazer um desejo, verificassem se valia a pena, quer dizer, se os aborrecimentos não seriam, afinal, maiores do que as vantagens. Segundo Epicuro, os prazeres da inteligência eram, sem dúvida, preferíveis aos prazeres proporcionados pelos sentidos, justamente porque proporcionavam aborrecimentos menores. Epicuro era materialista; por isso, causava irritação entre os filósofos estoicos, seus adversários, inimigos do materialismo. Alguns estoicos mais equilibrados – como o filósofo e dramaturgo Sêneca – reconheciam que Epicuro era pessoalmente um sujeito virtuoso.” (KONDER, op cit, p. 137)

O que Konder revela em seu artigo são os nexos entre esta polêmica antiga – que opôs o ethos materialista-hedonista às doutrinas bem mais ascéticas dos estóicos e dos primeiros cristãos – com uma polêmica bastante atual e da qual os marxistas não podem se esquivar: vivemos hoje em um mundo onde existe, escreve Konder, uma “colossal indústria dos prazeres”, “capaz de alcançar um amplíssimo público consumidor”, e que marca forte presença nas sociedades urbanas e industrializadas do Ocidente atual. “A busca do prazer é habilmente explorada por poderosos mecanismos comerciais. Na corrida ao lucro, se difunde por toda a sociedade um espírito imediatista e hipercompetitivo: todos são incitados a extrair, no menor tempo possível e com o mínimo esforço, o máximo proveito de todas as situações.” (p. 139)

Teria sido o hedonismo completamente cooptado pelo capitalismo globalizado e pela hegemonia das “sociedades de consumo”? Ou ainda é possível fundamentar no prazer uma política radicalmente libertária? Se, por um lado, vivemos em um meio social saturado de iscas para o consumismo, em outdoors e anúncios de TV, por outro será que é legítimo desprezar o “direito ao prazer” como pauta reacionária e reivindicação exclusivamente capitalista-neoliberal? Não seria possível reinventar o hedonismo enquanto ética para desatrelá-lo do consumismo irresponsável e perdulário, recuperando o potencial libertário da obra de autores como Wilhelm Reich e Herbert Marcuse?

“De fato, ao longo da história, até muito recentemente, as teorias de legitimação filosófica do prazer sempre foram aproveitadas pelos setores privilegiados da sociedade, pelas minorias que dispunham dos meios necessários para levar uma vida de prazeres. Na Ideologia Alemã, há uma passagem na qual Marx – em 1846 – escreveu: ‘A filosofia do prazer sempre foi apenas a linguagem espiritual de determinados círculos que, dentro da sociedade, dispunham de condições privilegiadas para a obtenção do prazer.’ O hedonismo, portanto, não passava – a seu ver – de uma ideologia oportunista.” (KONDER, op cit, p. 140)

No entanto, seria uma distorção fazer de Marx uma espécie de rigoroso pregador do ascetismo, cheio de condenações contra aqueles que buscam o prazer: tanto o imenso apreço que Marx possuía por Epicuro quanto o seu ideal de uma sociedade que contribuísse para a formação “onilateral” do ser humano apontam para uma filosofia que não despreza o ingrediente do gozo no complexo emaranhado das condições para a emancipação humana.

Assim como o epicurismo antigo sofreu com a distorção imposta pelas difamações da oposição, é possível que também o marxismo tenha adquirido, para muitos, uma “configuração ascética” que não faz justiça à complexidade de uma visão-de-mundo que procura sim emancipar o prazer, porém realizando uma severa crítica do entrelaçamento sórdido, atualmente não só vigente como agudamente hegemônico, entre o hedonismo e a doutrina capitalista do consumismo individualista competitivista.

“O mercado fabrica egoístas, que se revelam com frequência na cama e na mesa. A sensibilidade deseducada, deformada, passa a atribuir uma importância menor aos prazeres plenamente partilhados e uma importância maior aos prazeres obtidos na contenda com os outros, eventualmente na negação dos prazeres alheios. As condições de competição extremada em que vivemos geram muita insegurança e ansiedade em nossas almas, enfraquecem nossa autoconfiança. O dinheiro relativiza corruptoramente todos os valores.

(…) O prazer é uma dimensão importantíssima da vida; mas a vida não pode ser reduzida a uma só das suas dimensões. Em suas formas superiores, o prazer depende de outras dimensões da realidade humana, como o conhecimento e o amor. O escritor francês Marcel Proust dá o exemplo do homem apaixonado pelo canto dos pássaros: enquanto nós, na floresta, só conseguimos distinguir uns poucos sons, seu ouvido educado se deleita com uma imensa variedade de gorjeios. 

Epicuro já sabia que o prazer é um mundo vastíssimo e bastante diferenciado internamente: há prazeres inteligentes e prazeres burros. Marx, que era um grande admirador de Epicuro, poderia ter retomado essa observação lúcida e materialista; poderia tê-la desenvolvido, à luz da sua concepção do homem, reconhecendo que há prazeres que nos animalizam e prazeres que nos humanizam. ” (KONDER, p. 141)

Decerto que o tema do prazer não é o foco de Marx, tão engajado ele está na tarefa de emancipar os homens da opressão e da exploração que sofrem no mundo do trabalho. Mas não é evidente que o movimento comunista tendia à concretização de uma sociedade onde a abolição da divisão classista conduziria a uma ampliação das possibilidades de gozo na existência já que nos libertaria do trabalho mecânico, especializado, repetitivo?

Marx, com certeza, não era um utopista ingênuo e despejava sarcasmo contra os romantismos de certos socialistas utópicos: “O trabalho, disse Marx, não pode se converter em brincadeira como quer Fourier.” Konder explica: “há no trabalho uma dimensão de disciplina, imposta pelo interesse coletivo da produção, pelas exigências técnicas da produção,  uma dimensão que não se harmoniza e nunca se harmonizará inteiramente com a gratuidade dos movimentos lúdicos individuais. Há algo no trabalho que manifesta uma insuprimível dureza na vida.” (p. 142)

Porém, é óbvio que Marx sempre lutou para “humanizar cada vez mais as condições de trabalho”, inclusive suprimindo a injustiça que consiste na cisão entre uma classe de proprietários de meios de produção, com privilégio do gozo e da preguiça, e uma classe de trabalhadores explorados, espoliados dos frutos de seu labor e obrigados a um cotidiano cinzento onde quase não há oportunidade, no “tempo regulamentar”, para as ações daquilo que Huizinga chama de homo ludens. 

“Por isso, é sobre o encaminhamento de soluções para os problemas do trabalho que precisa se apoiar a política que corresponde aos anseios mais profundos da massa dos trabalhadores, e por isso não tem sentido procurar fundar uma política – isto é, uma ação coletiva, conjugada, visando a efeitos imediatos e efeitos duradouros – sobre o desejo, tal como propõem alguns neoanarquistas contemporâneos. Marx não ignora, contudo, que não basta aos homens desenvolverem suas forças produtivas para se libertarem. No 3º volume d’O Capital, Marx explicou com muita clareza: ‘O reino da liberdade só começa, na realidade, onde deixa de existir o trabalho imposto pela carência, pela necessidade exterior. (…) A redução da jornada de trabalho é a condição fundamental do reino da liberdade.'” (KONDER, p. 143)

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O reino da liberdade, que o movimento comunista procura instaurar, revoluciona o mundo do trabalho também para superar a gritante injustiça vigente também no que tange aos prazeres: na sociedade que terá abolido a divisão classista do trabalho, com a cisão entre, de um lado, a massa proletária, oprimida e fatigada pelo excesso de labor e pelas péssimas condições de vida, e, de outro lado, a minoria de capitalistas vastamente ociosos e que contam cédulas e acumulam capital de “papos pro ar”, emergeria um novo contexto social onde é legítimo esperar uma espécie de “democratização do gozo”.

Konder defende um marxismo que possa ser libertário também no âmbito ético, honrando suas fontes epicuristas antigas, e critica “os marxistas que indulgem em proclamações moralistas e intolerantes” e “chegam a ‘demonizar’ a ‘decadência’ e a aprovar medidas de repressão contra os que manifestam ‘desvios’ (?) de comportamento sexual. Com isso, aplicam em ‘cruzadas’ contra os ‘libertinos’ as energias que deveriam ser empregadas na luta contra os adversários realmente poderosos do processo revolucionário.” (KONDER, p. 142)

A denúncia de uma sociedade que impõe a desumanização e a opressão aos trabalhadores une-se, em Marx, ao anúncio de um outro mundo possível, onde todos os seres humanos possam desenvolver suas potencialidades de modo onilateral, ao invés de serem reduzidos a robôs que realizam tarefas mecânicas e repetitivas. Longe de ser um pregador do ascetismo auto-mortificante, Marx é fiel ao epicurismo que lhe inspirou desde a juventude, porém conecta o hedonismo muito mais a uma ética da partilha e da colaboração do que a uma lógica da competição e da contenda.

A auto-crítica, tão louvada por Konder, deve incidir também sobre nossas tendências, condicionadas pelas ideologias hegemônicas, de caçar o prazer no consumo e nos triunfos dúbios das vitórias individuais (“eu contra todos”).

Assim podemos nos purgar de um hedonismo narcísico e egóico, abraçando um hedonismo solidário, transsubjetivo e autenticamente epicúreo, aquele que tem a sabedoria e a lucidez de preferir os prazeres de partilha, os gozos do conhecimento e os êxtases do amor ao invés de todas as sensaborias vendáveis e quinquilharias estúpidas que se encontram em promoção pelos supermercados de um capitalismo moribundo.

Ousemos, pois, construir uma realidade social, política e econômica que tenha por meta uma felicidade comum e partilhada, um direito ao prazer que não seja privilégio mas direito a todos facultado. Deste modo, um marxismo hedonista libertário é plenamente pensável e possível como antídoto à “colossal indústria de prazeres” que hoje nos deseja como súditos de seus engodos industrializados.

Ousemos gozar os prazeres da solidariedade, os êxtases do engajamento em um destino comum, as delícia dos intercâmbios (intelectuais, artísticos, afetivos, sexuais, festivos…), ao invés de investir neste falido modelo do capitalismo vigente que, como um falso profeta que prega nas propagandas, indica-nos apenas o caminho do abismo da solidão. Para além da massificação da lógica dos indivíduos atomizados e auto-interessados, em competição feroz e ostentação vã, afirmemos uma filosofia, perfeitamente conjugável com o marxismo e o epicurismo, que atente ao fato de que feliz é quem partilha e não quem possui.

“Happiness is only real when shared.”
(McCandless)

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SAIBA MAIS:

BIOGRAFIA (via Boitempo): 

Leandro Konder nasceu em 1936, em Petrópolis (RJ), filho de Valério Konder, médico sanitarista e líder comunista. Formado em Direito, Leandro exilou-se em 1972, após ser preso e torturado pelo regime militar, e morou na Alemanha e depois na França até seu regresso ao Brasil em 1978. Doutorou-se em Filosofia em 1987 no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Foi professor do Departamento de Educação da PUC-RJ e do Departamento de História da UFF. Tem vasta produção como conferencista, articulista de jornais, ensaísta e ficcionista. Em 2002 foi eleito o Intelectual do Ano pelo Fórum do Rio de Janeiro, da UERJ. Um dos maiores estudiosos do marxismo no país, coordenou, em conjunto com , a coleção Marxismo e Literatura, da Boitempo. Konder sofria de Mal de Parkinson e faleceu em sua casa na tarde do dia 12 de novembro de 2014.
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VÍDEOS:

A NECESSIDADE DA FILOSOFIA

Parte 2Parte 3Parte Final

O FILÓSOFO QUE SONHA (UniRio)

A ATUALIDADE DE MARX

ALGUNS LIVROS DO AUTOR EM CATÁLOGO:

ED. BOITEMPO:

9788575590942