A poesia de Phillis Wheatley (1753-1784), “mulher-escritora-negra-desenraizada” que protagonizou um emblemático julgamento no Século das Luzes

“Uma negra pode ser poeta?” Com esta questão, ofensiva e racista em si mesma, Eleni Varikas inicia em chave irônica seu livro “A Escória do Mundo – Figuras do Pária” (Editora Unesp, 2014), evocando os versos impactantes e profundos desta emblemática “mulher, escritora, negra, desenraizada”, trazida à força da África para a América, onde sofreu em Boston o destino de escrava doméstica. De sua pena saíram versos como os seguintes:

“Should you, my lord, while you peruse my song,
Wonder from whence my love of Freedom sprung,
Whence flow these wishes for the common good,
By feeling hearts alone best understood,

I, young in life, by seeming cruel fate
Was snatch’d from Afric’s fancy’d happy seat:
What pangs excruciating must molest,
What sorrows labour in my parent’s breast?

Steel’d was that soul and by no misery mov’d
That from a father seiz’d his babe belov’d:
Such, such my case. And can I then but pray
Others may never feel tyrannic sway?”

(Leia na íntegra em Poetry Fundation: http://bit.ly/2dOHSK2.)

(TRADUÇÃO: Se, Milorde, ao ler meus versos / Se indagar com surpresa sobre a origem de meu amor pela Liberdade, / De onde fluem meus anseios pelo bem comum, / Apenas compreensível pelos corações sensíveis, / Eu, ainda jovem, por destino cruel / Fui arrancada de minha querida África: / Que dores excruciantes torturaram, / Que tristezas acometeram o coração de meus pais? / Petrificada a alma, intocada pela piedade, / Daquele que subtrai de um pai sua criança amada: / É este, é este meu caso. E o que posso fazer senão rezar / Que outros nunca sejam submetidos a esse domínio tirânico?)

Phillis Wheatley chegou à América em um navio vindo do Senegal e Serra Leoa, desembarcado em Boston em julho de 1761; ela tinha cerca de 7 anos de idade e foi comprada por uma senhora que precisava de uma escrava doméstica. Nua e envolta em trapos sujos, com dentes faltando, ninguém sabia o nome da criatura. Acabou batizada com o nome do navio negreiro (Phillis) e o sobrenome de seus patrões (Wheatley).

“Na casa dos seus senhores, aprendeu inglês muito rapidamente. Um ano e meio após sua chegada, lia e comentava as passagens mais difíceis da Bíblia. Com 12 anos, tinha escrito seu primeiro poema…” (Varikas, p. 2) Corte para o tribunal de Boston onde Phiilis Wheatley, em 1772, é submetida a um “exame oral insólito”, por 18 juízes, em que a “jovem escrava de 19 anos, franzina e tímida”,

“carregava em seus ombros a responsabilidade de ‘provar’ diante dos mais eminentes representantes da cultura – e dos europeus que acompanhavam o caso com interesse acalorado – a racionalidade dos negros e sua capacidade de aceder à escrita literária. Na realidade, o que estava em jogo nessa audiência não era a autenticação de um manuscrito, mas a autenticação da humanidade plena de todo o povo negro e, por isso mesmo, a legitimidade da abolição da escravidão. Porque, como disse Robert Nickol em 1788, nunca se ouviu falar de um orangotango que tivesse composto uma ode.

O atestado do júri confirmou ‘ao mundo’ que os poemas haviam sido de fato escritos por ‘uma negra’ que, pouco tempo antes, ainda era uma ‘bárbara sem cultura’ vinda da África. Wheatley tornou-se, assim, a primeira pessoa de origem africana a publicar um livro, e a primeira poetisa negra norte-americana.” (Varikas, p. 3)

Abrindo caminhos que depois seriam trilhados por outras mulheres escritoras, em insurgência contra o machismo e o racismo do Patriarcado escravista hegemônico, Wheatley foi celebrada com entusiasmo por abolicionistas de vários continentes. Sua obra completa – Complete Writings – hoje faz parte da prestigiosa coleção Penguin Classics. E não é absurdo dizer que as raízes do reconhecimento literário contemporâneo de autoras afroamericanas como Toni Morrisson (vencedora do Prêmio Nobel de Literatura), Alice Walker (autora de “A Cor Púrpura”), Angela Davis (hoje respeitada socióloga e pensadora da geopolítica), estão lá na obra de Phillis Wheatley, destino diante do qual Eleni Varikas pergunta: “que relato das Luzes poderia dar conta dos feitos dessa criança ‘prodígio’, sem ocultar a violenta desumanização que marcou sua elevação ao patamar de humanidade pensante?” (Varikas, p. 5)

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“O Ornitorrinco – Crítica à Razão Dualista” – Francisco de Oliveira #LivrariaACasaDeVidro

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O Ornitorrinco – Crítica à Razão Dualista
de Francisco de Oliveira
COMPRE JÁ NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO! 

Chico de Oliveira é um dos mais importantes sociólogos brasileiros; professor titular de sociologia da USP e autor de vasta obra. Publicado primeiramente como um ensaio, em 1972, com o título “A economia brasileira: crítica à razão dualista”, este clássico da reflexão sobre o Brasil foi transformado em livro em 1973; 30 anos depois, é reeditado pela Boitempo. Inclui “Prefácio com perguntas”, de Roberto Schwarz. Leia entrevista com o autor (por Ridenti e Mendes).

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“Ornitorrinco – Será isso um objeto de desejo?”
Café filosófico com Francisco de Oliveira

“Na sociedade brasileira o mais arcaico convive com o mais moderno. Um país que guarda profundas aberrações, com a mais extrema miséria dividindo a paisagem com condomínios de luxo. Este país é comparado com o ornitorrinco pelo sociólogo Francisco de Oliveira. O ornitorrinco é um fenômeno estranho da natureza, um tipo indefinido entre mamífero e réptil. Um animal que não se definiu na evolução. Para Oliveira, o Brasil é o ornitorrinco. Uma nação onde o atraso tornou-se parte da sua estrutura e passou a ser mesmo parte de seu funcionamento.”

RAÍZES DO BRASIL – Uma Cinebiografia De Sérgio Buarque De Hollanda (Um filme de Nelson Pereira dos Santos, 140 min, 2003) [ASSISTA NA ÍNTEGRA]

RAÍZES DO BRASIL
Uma Cinebiografia De Sérgio Buarque De Hollanda

Um filme de Nelson Pereira dos Santos
(140 min, 2003)

Com Sérgio Buarque de Hollanda, Chico Buarque, Miúcha, Maria Amélia, Cristina Buarque, Zeca Buarque, Ana de Hollanda, Maria do Carmo de Hollanda, Sergito, Alvinho, Antônio Cândido, Paulo Vanzolini, dentre outros.

ASSISTA NA ÍNTEGRA:

Download em torrent: Parte 1 e Parte 2

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AS CILADAS DA CREDULIDADE: Spinoza como crítico da superstição

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Não são poucos os filósofos que pretendem agir como demolidores da superstição: uma das metas explícitas de Lucrécio, em seu poema-tratado Da Natureza, era justamente disseminar as luzes do epicurismo e da atomística materialista de modo a dissipar os terrores vãos e esperanças ilusórias que são a praga da consciência supersticiosa. Nietzsche, por sua vez, também declara-se engajado na causa não só de descrever um Crepúsculo dos Ídolos, mas também de acelerar e catalisar uma renovação de valores que fará as velhas idolatrias caírem por terra (elas têm, afinal, pés-de-barro). Spinoza também se insere nesta tradição e sua filosofia fornece-nos amplos meios para a crítica daqueles que “interpretam a natureza da maneira mais extravagante, como se toda ela delirasse ao mesmo tempo que eles.” (TTP, p. 6)

Spinoza fornece-nos um retrato psicológico do supersticioso em que oferece tanto um diagnóstico quanto uma terapêutica. Comecemos pelo diagnóstico clínico: “a que ponto o medo ensandece os homens!”, escreve Spinoza no Prefácio do TTP. “O medo é a causa que origina, conserva e alimenta a superstição. Os homens só se deixam dominar pela superstição enquanto têm medo; todas essas coisas que já alguma vez foram objeto de um fútil culto religioso não são mais do que fantasmas e delírios de um caráter amedrontado e triste…” (p. 6)

O filósofo não poderia ser mais claro: a causa evidente da superstição é o medo, e sabemos que o medo tem uma irmã siamesa que sempre aparece junto dele, a esperança. Medo e esperança, de mãos dadas, entre fantasmas e delírios, geram esta interpretação extravagante da natureza que Spinoza pretende sanar e curar através de sua Ética tão terapêutica. Abaixo os afetos tristes, os temores opressivos, os medos que nos murcham!

 Aquilo que é superstição no âmbito do indivíduo aparece à Spinoza, quando este considera o espaço mais amplo da sociedade como um todo, como instrumento eficaz para governar as multidões. Religiões institucionalizadas são ferramentas inventadas para manipular superstições, manobrando-as na massa com certos fins às vezes bastante perversos e repletos de barbárie. Exemplo: a escravidão – ato violentador e cruel em vasta escala – que praticavam os europeus da época de Spinoza, branquelos bárbaros que sequestravam na África os seres humanos que punham para labutar escravamente nas colônias americanas; brancos imperialistas e etnocêntricos, não hesitavam em chacinar populações indígenas, tudo isso com pequenos crucifixos nos peitos e muitas palavras bíblicas nos lábios para justificar seus atos tão agradáveis a Deus (afinal de contas, diziam, nem índio nem preto tem alma).

Spinoza viveu na Holanda do século XVII, quando esta era uma das poucas nações européias já em regime republicano, e têm rajadas de críticas contra o Antigo Regime de que foi contemporâneo e que só ganharia de fato este nome – l’ancien régime – na época da Revolução Francesa, em fins do século XVIII. “Se, efetivamente, o grande segredo do regime monárquico e aquilo que acima de tudo lhe interessa é manter os homens enganados e disfarçar, sob o especioso nome de religião, o medo em que devem ser contidos  para que combatam pela servidão como se fosse pela salvação e acreditem que não é vergonhoso, mas sumamente honroso, derramar o sangue e a vida pela vaidade de um só homem…” (p. 8)

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Spinoza não disfarça sua simpatia desabrida pelo republicanismo, que vincula ao secularismo, ou seja, a um regime político em que a laicidade do Estado é plena: o Estado não está à serviço de nenhuma facção religiosa. Ode à Holanda, a terra de Spinoza e Nassau e Van Gogh: “Já que nos coube em sorte essa rara felicidade de viver numa República, onde se concede a cada um inteira liberdade de pensar e de honrar a Deus como lhe aprouver e onde não há nada mais estimado nem mais agradável do que a liberdade…” (p. 8)

A monarquia, que se sustenta na ideologia falaciosa do “direito divino dos reis” e que instaura um regime tirânico, em que a massa da população serve de capacho a um punhado de nobres, aristocratas reinando amontoados na corte real e em suas ramificações eclesiásticas e jurídicas, é dardejada pela crítica de Spinoza, defensor da laicidade, da secularização, da liberdade de crença e opinião. Spinoza entusiasma-se pela república democrática e pluralista onde são hegemônicos os valores invioláveis da liberdade de pensamento, expressão e crença.

Atacar os preconceitos, parece pensar Spinoza, é realizar atos em prol do bem público (Marilena Chauí, creio, concordaria). Pois os preconceitos são danosos e “de racionais transformam os homens em irracionais, os preconceitos tolhem por completo o livre exercício da razão e a capacidade de distinguir o verdadeiro do falso, parecendo expressamente inventados para apagar definitivamente a luz do entendimento!” (p. 10)

Note-se: tais palavras iluminadas são precursoras da maré montante de Iluminismo que começa a erguer-se na Europa, saturada então com conflitos fratricidas entre grupos de diferentes inclinações religiosas e massacres cometidos por facções de crentes contra seus adversários. “A luz natural é não só desprezada mas até condenada por muitos como fonte de impiedade”, reflete Spinoza, que em seu Tratado Teológico-Político trata de pôr em atividade em toda a lucidez esta “luz natural” da razão para que esta batalhe contra os preconceitos e superstições que encerram o mundo no obscurantismo sanguinolento.

Em um contexto de discórdias violentas e conflitos derramadores de tripas, Spinoza propõe-se a empreender um “exame da Escritura” em que assume um compromisso cartesiano: só admitir como verdade aquilo que sua razão puder assim considerar clara e distintamente. Os poderes que só se sustentam sobre a base do obscurantismo que eles assumem e propagam sentem-se temerosos diante de qualquer figura que ouse pôr em questão aquilo que é tradicionalmente santificado como verdadeiro e indubitável. Spinoza será excomungado da comunidade judaica holandesa – assim como Platão havia mandado queimar a obra de Demócrito, sua obra será estigmatizada como algo “forjado no Inferno”, para citar o título do elucidativo estudo escrito por Steven Nadler, A Book Forget In Hell.

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Spinoza (1632-1677), vivente-vidente, polidor de lentes, advogado das alegrias dos entes, entusiasta de tudo que nos liberta das correntes, as de ferro e as da mente! Spinoza foi “o mais puro dos sábios”, segundo Nietzsche, que não tinha o costume da adulação incontida e injustificada – deve ter sentido, pois, que Spinoza de fato merecia tão altos louvores! Na história da filosofia, há poucos pensadores mais “radicais” em sua denúncia das superstições e que tanto tenha feito para libertar a humanidade – tal como haviam tentado Lucrécio e Epicuro antes dele, tal como farão depois Diderot, Nietzsche, Marx ou Freud – das esperanças e temores absurdos a que se aferrolham os apavorados supersticiosos…

Algumas das teses spinozistas mais ousadas, que batiam de frente com as superstições religiosas de sua época, valeram-lhe a excomunhão e a perseguição dos fanáticos: Deleuze conta-nos a curiosa estória de que,  tendo sobrevivido a um atentado (uma tentativa de homicídio) perpetrado por um um fanático, Spinoza guardou o casaco com o furo da facada como um souvenir sinistro do quão pouco alguns homens respeitam o livre pensamento. Já ele, Spinoza, avesso a todos os fanatismos e dogmatismos, prestou um culto ao livre-pensar de uma vitalidade que prossegue até hoje imensa: é um aliado na ampliação atual de nossas potências e na expansão da nossa lucidez!

Na sequência, seguem alguns trechos de Spinoza – Filosofia Prática, em que Deleuze sintetiza muito bem o spinozismo em seu aspecto afirmador, rejubilante, empoderador: uma sabedoria de vida que nos ensina a vencer escravidões e tiranias, tristezas e impotências, temores e esperanças, fazendo-nos compreender que só há expansão de potência na alegria e que nos convida à beatitude dos agentes, ao invés da impotência dos pacientes. Agir ao invés de padecer, amar ao invés de depreciar, “não zombar nem lamentar, mas compreender”: eis alguns dos sábios conselhos spinozistas.

Como o entendo, Spinoza nos diz que Deus não é um velhinho barbudo e furibundo que mora nos céus, de onde lança bolas de fogo para punir os ímpios e de onde prega sermões e promulga leis que, se obedecidas com servilismo, serão recompensadas na Confeitaria Paradisíaca. Isso não passa de um delírio grotesco da imaginação humana, interesseira e ego-cêntrica. Não é preciso subir uma montanha, como fez Moisés, para se comunicar com Ele: para Spinoza, o único Deus concebível é um Deus que está em toda parte já que é a Natureza mesma, um Deus que se confunde com o Universo, um Deus que é idêntico ao Ser-na-Totalidade. A morte da transcendência é o triunfo da mais radical imanência: Deus não existe lá longe, numa nuvem distante, numa dimensão transcendente, num outro mundo qualquer, exilado nas lonjuras inatingíveis. Deus é o nome que damos a esse Todo de que fazemos parte: estamos Nele como os peixes estão no oceano e como os pássaros estão no ar…

Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro

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LEIA TAMBÉM:


DE GILLES DELEUZE
Spinoza – Filosofia Prática
Editora Escuta, São Paulo, 2002
Capítulo I & II

“As principais interrogações do Tratado Teológico Político são: por que o povo é profundamente irracional? Por que ele se orgulha de sua própria escravidão? Por que os homens lutam por sua escravidão como se fosse sua liberdade? Por que é tão difícil não apenas conquistar mas suportar a liberdade? Por que uma religião que reivindica o amor e a alegria inspira a guerra, a intolerância, a malevolência, o ódio, a tristeza e o remorso? É possível fazer da multidão uma coletividade de homens livres, em vez de um ajuntamento de escravos?

Poucos livros suscitaram tantas refutações, anátemas, insultos e maldições: judeus, católicos, calvinistas e luteranos rivalizam em denúncias. […] Um livro explosivo mantem sempre sua carga explosiva: ainda hoje não se pode ler o Tratado sem nele descobrir a função da filosofia como tentativa radical de desmistificação.

Espinosa faz parte dessa estirpe de pensadores que mudam os valores e praticam uma filosofia a marteladas, e não daquela dos ‘professores públicos’, aqueles que, segundo o elogio de Leibniz, não interferem nos sentimentos estabelecidos, na ordem da Moral e na Polícia. (…) Tanto na sua maneira de viver como de pensar, Espinosa oferece uma imagem da vida positiva e afirmativa, em detrimento dos simulacros com os quais os homens se contentam.

Nenhum filósofo foi mais digno do que Espinosa, mas também nenhum outro foi tão injuriado e odiado. […] A grande tese teórica do spinozismo é: há uma única substância que possui uma infinidade de atributos, Deus sive Natura (“Deus, ou seja, a Natureza”), sendo todas as “criaturas” apenas modos desses atributos ou modificações dessa substância. O panteísmo e o ateísmo se conjugam em Espinosa, negando a existência de um Deus moral, criador e transcendente. Há três grandes semelhanças com Nietzsche e elas são as razões pelas quais ele é acusado de materialismo, imoralismo e ateísmo.

 “Não tendemos para uma coisa porque a julgamos boa; mas, ao contrário, julgamos que uma coisa é boa porque tendemos para ela”(Spinoza, Ética, III, 9, esc.) O bom existe quando um corpo compõe diretamente a sua relação com o nosso e, com toda ou com uma parte de sua potência, aumenta a nossa. Por exemplo, um alimento. O mau para nós existe quando um corpo decompõe a relação do nosso corpo… por exemplo, um veneno que decompõe o sangue. Bom e mau têm pois um sentido relativo e parcial: o que convém a nossa natureza e o que não convêm.

Bom e mau tem um segundo sentido, qualificando dois modos de existência do homem: será dito bom (ou livre, ou razoável, ou forte) aquele que se esforça, tanto quanto pode, por organizar os encontros, por se unir ao que convém a sua natureza, por compor a sua relação com relações combináveis e, por esse meio, aumentar sua potência. Pois a bondade tem a ver com o dinamismo, a potência e a composição das potências. Dir-se-á mau, ou escravo, ou fraco, ou insensato, aquele que vive ao acaso dos encontros, que se contenta em sofrer as consequências, pronto a gemer e a acusar toda vez que o efeito sofrido se mostra antagônico e lhe revela a sua própria impotência.

Spinoza, em toda a sua obra, não cessa de denunciar três espécies de personagem: o homem das paixões tristes; o homem que explora essas paixões tristes, que precisa delas para estabelecer o seu poder; enfim, o homem que se entristece com a condição humana e as paixões do homem em geral (que tanto pode zombar como se indignar…). O escravo, o padre, o tirano… trindade moralista.

Nunca, desde Epicuro e Lucrécio, se mostrou melhor o vínculo profundo e implícito entre os tiranos e os escravos: o tirano precisa da tristeza das almas para triunfar, do mesmo modo que as almas tristes precisam de um tirano para se prover e propagar. De qualquer forma, o que os une é o ódio à vida, o ressentimento contra a vida. AÉtica de Spinoza traça o retrato do homem do ressentimento, para quem qualquer tipo de felicidade é uma ofensa e que faz da miséria ou da impotência sua única paixão. “Os que não sabem fortificar os homens mas sim deprimi-los, esses são insuportáveis para si mesmos.” (Spinoza, Ética, IV, apêndice, Cap. 13).

Há efetivamente em Spinoza uma filosofia da “vida”: ela consiste em denunciar tudo o que nos separa da vida, todos esses valores transcendentes que se orientam contra a vida… A vida está envenenada pelas categorias do Bem e do Mal, da falta e do mérito, do pecado e da remissão. O que perverte a vida é o ódio, inclusive o ódio a si mesmo, a culpabilidade. […] Antes de Nietzsche, ele denuncia todas as falsificações da vida, todos os valores em nome dos quais nós depreciamos a vida: nós não vivemos, mantemos apenas uma aparência de vida, pensamos apenas em evitar a morte e toda a nossa vida é um culto à morte.

Essa crítica das paixões tristes está profundamente enraizada na teoria de Spinoza a respeito das afeições. Um indivíduo é antes de mais nada alguém com poder de ser afetado. […] Devemos distinguir dois tipos de afeição: as ações e as paixões. O poder de ser afetado apresenta-se então como potência para agir, na medida em que supõe preenchido por afeições ativas, e apresenta-se como potência para padecer, quando é preenchido por paixões.

O próprio da paixão consiste em preencher a nossa capacidade de sermos afetados, separando-nos ao mesmo tempo de nossa capacidade de agir, mantendo-nos separados desta potência. A paixão triste é sempre impotência. […] Ao contrário, quando encontramos um corpo que convém à nossa natureza e cuja relação se compõe com a nossa, diríamos que sua potência se adiciona à nossa: as paixões que nos afetam são alegria, nossa potência de agir é ampliada ou favorecida.

As paixões tristes representam o grau mais baixo de nossa potência: o momento em que estamos separados ao máximo de nossa potência de agir, altamente alienados, entregues aos fantasmas da superstição e às mistificações do tirano. A Ética de Spinoza é necessariamente uma ética da alegria: somente a alegria é válida, só a alegria nos aproxima da ação e da beatitude da ação.”


GILLES DELEUZE

Spinoza – Filosofia Prática
Editora Escuta, São Paulo, 2002
Capítulo I & II

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Outra das obras mais esclarecedoras e iluminantes sobre o pensamento spinozista é o pequeno livro de Alain, Spinoza (Ed. Gallimard). Abaixo, compartilho alguns trechos dele, no original em francês, infelizmente ainda sem tradução no Brasil:

Alain“Les hommes sont pour la plupart méchants et mal-heureux. Ils sont méchants parce qu’ils mettent leur bonheur dans la possession d’objets qui ne peuvent être à la fois à plusieurs, comme les honneurs et l’argent, et qu’ainsi le bonheur d’autrui les rend malheureux, et qu’ils ne peuvent, em revanche, être heureux qui si leurs semblables souffrent. (…) Ils sont de plus en plus malheureux parce qu’ils s’attachent à des objets dont ils ne sont point les maîtres, à des choses périssables qui ne font qu’apparaître dans l’existence, et que le cours ordinaire des événements suffits à leurs enlever…” (pg. 29)

“Il est facile de voir que les Religions ne sont presque toujours pour l’homme qu’une source nouvelle de crainte et de tristesse. Car ceux qui ont l’habitude de conduire les hommes par la crainte et l’espérance n’ont pas perdu cette occasion de leur représenter que Dieu est un être méchant et redoutable, qui est jaloux de leurs pauvres joies et qui se réjouit de leurs larmes. Et ainsi les hommes, au lieu d’un libérateur, ont trouvé leur maître; et la fausse Religion les fait deux fois esclaves…” (pg. 30)

“Il n’y a point, dans l’âme humaine, de volonté libre. Rien au monde ne peut être indépendant de Dieu, et le cours des événements, qui résulte, nécessairement et selon des lois éternelles, de la nature divine, ne peut pas dépendre des caprices de l’individu. (…) Et assurément cela ne veut point dire qu’il n’y ait pour l’homme aucune puissance ni aucune liberté, c’est-à-dire aucun salut, puisque nous traiterons bientôt de la puissance de l’homme sur ses passions et de la liberté humaine. Cela veut dire seulement que l’homme n’a point de puissance sur les événements, et qu’il doit d’abord les accepter et comprendre que dans l’ordre du fait aucun salut, aucun délivrance, aucun progrès n’est possible. Ce n’est point en modifiant les événements de sa vie que l’homme se sauvera et se libérera, c’est en les appréciant à leur juste valeur, en comprenant que sa vie véritable est autre part, au-dessus des événements qui passent, dans l’éternel. En vain cherchera-t-il à tirer de ses perceptions la moindre vérité; il ne fera jamais que changer une erreur pour une autre; la vérité est d’un autre ordre et dans une autre région; c’est par la déduction des essences qu’on y peut arriver. (…) La puissance de l’homme est d’un autre ordre; elle est non sur le corps ou sur les faits, mais sur les idées, dans l’ordre des essences; elle est dans la Raison. Et la liberté est encore d’un autre ordre; elle est dans la connaissance de tout cela par Dieu et em Dieu, dans la contemplation immédiate du vrai, dans la connaissance du troisième genre.” (p. 61)

“On ne peut rendre responsable aucune volonté libre de l’injustice et de la méchanceté des hommes. Quand on a compris cela, on ne peu plus ni s’indigner, ni blâmer, ni häir, et, en ce sens, on est dèjà meilleur.” (p. 75)

“On comprend très bien, par exemple, qu’un homme s’abstienne de faire du mal à quelqu’un qu’il hait, par crainte d’un mal plus grand. Et c’est ainsi qu’une societé peut s’établir et durer, pourvu qu’elle se charge de punir ceux qui feront tort à leur voisin, et d’établir des lois appuyées sur la menace. (…) Si, de plus, on ajoute à la puissance des lois celle de la superstition, et si l’on ajoute à la crainte des tribunaux et des peines infligées par les hommes, la crainte d’un Dieu cruel qui punira de plus les hommes après leur mort, tout dans cette cité donnera l’image parfaite de la paix, de la concorde, de la bonne foi et de la religion. Et pourtant les passions y seront reines, et toutes ces prétendues vertues résulteront seulement de la crainte que la société tout entière aura su inspirer à chacun de ses membres. C’est ce qu’il faut d’abord comprendre, afin de n’être pas trompé par ce faux bien, cette fausse justice, cette fausse vertu que, s’ils rendent l’homme moins malfaisant, le font deux fois esclave.” (p. 77-78)

“Les superstitions et fausses religions, qui ne cherchent point à rendre réellement les hommes meilleurs, mais seulement à contenir leurs passions dans l’interêt commun, font, de la crainte et de la tristesse, des vertus, comme aussi elles font, de la sécurité et de la joie, des vices, et imaginent un Dieu cruel et jaloux qui se réjouit des larmes et de la terreur des hommes, et qui s’irrite de leurs joies.” (p. 79)

“La joie est toujours un bien, parce qu’elle est le signe certain de notre passage à une plus grand perfection.” (p. 88)

“Seule parmi tous les biens, la verité peut être toute à tous.” (p. 96)

“La plupart des hommes croient qu’ils sont libres quand ils peuvent obéir à leur caprice, et ne cèdent un peu de cette liberté que parce qu’ils attendent un châtiment ou une récompensee dans une autre vie. Ils se disent que s’ils n’avaient pas cette crainte et cette espérance, s’ils ne croyaient ni à Dieu, ni à l’éternité de l’âme, ils s’affranchiraient du joug de la vertu. Mais l’homme raisonable n’a pas besoin d’être ainsi dominé par la crainte et par l’espérance pour être juste et bon. Même lorqu’il croit que Dieu n’est pas, et que l’amê périra avec le corps, il n’en vit moins selon la vraie Religion.” (p. 100)

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OUTRAS LEITURAS RECOMENDADAS

BalibarEtienne Balibar
Spinoza and Politics

Download (pdf, 14 mb):
http://bit.ly/1cZ8O0U

“A rich analysis of Spinoza’s key works within the context of his political, religious and ideological life. With Hobbes and Locke, Spinoza is arguably one of the most important political philosophers of the modern era, a premier theoretician of democracy and mass politics. In this revised and augmented English translation of his 1985 classic, Spinoza et la Politique, Etienne Balibar presents a synoptic account of Spinoza’s major works, admirably demonstrating relevance to his contemporary political life.

Balibar carefully situates Spinoza’s major treatises in the period in which they were written. In successive chapters, he examines the political situation in the United Provinces during Spinoza’s lifetime, Spinoza’s own religious and ideological associations, the concept of democracy developed in the Theologico-Political Treatise, the theory of the state advanced in the Political Treatise and the anthropological basis for politics established in the Ethics.”