“Reivindicação dos direitos das mulheres”, clássico iluminista de Mary Wollstonecraft (1759-1797)

Mary Wollstonecraft retratada em pintura de John Opie

por Luis Felipe Miguel

Mary Wollstonecraft (1759-1797) é geralmente considerada – por boas razões – a fundadora do feminismo. Seu pensamento marca a primeira elaboração sistemática de um entendimento das raízes da opressão sofrida pelas mulheres. Sua obra mais importante, Reivindicação dos direitos das mulheres (Editora Boitempo), foi publicada em 1792 e sofreu, também, o influxo da Revolução Francesa.

A autora havia publicado, dois anos antes, Reivindicação dos direitos do homem, como resposta às Considerações sobre a revolução em França, obra antirrevolucionária de Edmund Burke. Portanto, foi também a promessa de emancipação dos homens, pelos republicanos franceses, que levou Wollstonecraft a sistematizar suas reflexões sobre a necessidade de e os obstáculos para a emancipação das mulheres.

“O direito divino dos maridos, tal como o direito divino dos reis, pode, espera-se, nesta era esclarecida, ser contestado sem perigo.” – Wollstonecraft – Comprar livro na Amazon

Wollstonecraft

O programa dessa primeira fase do feminismo tinha como eixos a educação das mulheres, o direito ao voto e a igualdade no casamento, em particular o direito das mulheres casadas a dispor de suas propriedades. Ao colocar, com clareza exemplar, o problema em termos de direitos, Wollstonecraft promove uma inflexão na direção da construção de uma teoria política feminista. Ela é também uma autora singular pela maneira como, ao tratar dessas questões (com o foco voltado particularmente para a primeira delas), combina a adesão (quase inevitável) às ideias dominantes da época com elementos de inusual radicalidade.

É assim, por exemplo, que a demanda por educação tem por objetivo exclusivo permitir o livre desenvolvimento da mulher como ser racional, fortalecendo a virtude por meio do exercício da razão e tornando-a plenamente independente.


WIKIPÉDIA: Sojourner Truth, nascida Isabella Baumfree, foi uma abolicionista afro-americana e ativista dos direitos das mulheres. Fotografia de 1870, Randall Studios.

É evidente que as determinações sobrepostas das desigualdades de gênero, classe e raça não aparecem no feminismo do século XVIII e XIX da forma como foram desenvolvidas por parte das feministas posteriores. O próprio paralelo entre a situação das mulheres e dos escravos revela que as escravas não participavam do coletivo em nome do qual as sufragistas falavam.

Uma feminista de trajetória invulgar como Sojourner Truth (c. 1797-1883), que foi escrava e empregada doméstica antes de se tornar oradora política, mostra que, se não era produzida uma reflexão aprofundada, ao menos havia, em parte do movimento de mulheres da época, uma sensibilidade para entender a condição feminina de forma bem mais complexa. Ela observou, em seu famoso discurso “Ain’t I a woman?”:

“Aquele homem diz que as mulheres precisam ser ajudadas a entrar em carruagens, erguidas para passar sobre valas e receber os melhores lugares em todas as partes. Ninguém nunca me ajudou a entrar em carruagens, a passar por cima de poças de lama nem me deu qualquer bom lugar! E eu não sou uma mulher? Olhem pra mim! Olhem pro meu braço! Tenho arado e plantado e recolhido em celeiros, e nenhum homem poderia me liderar! E eu não sou uma mulher? Posso trabalhar tanto quanto e comer tanto quanto um homem – quando consigo o que comer – e aguentar o chicote também! E eu não sou uma mulher? Dei à luz treze filhos e vi a grande maioria ser vendida para a escravidão, e quando eu chorei com minha dor de mãe, ninguém, exceto Jesus, me ouviu! E eu não sou uma mulher?” SOJOURNER TRUTH

SIGA VIAGEM:

Poeta e romancista Alice Walker, autora de “A Cor Púrpura”, lê o discurso de 1851 de Sojourner Truth. Evento: “Voices of a People’s History of the United States” (Howard Zinn and Anthony Arnove), Nov. 2006, em Berkeley, California.

Por outro lado, o século XIX viu também o surgimento de um feminismo socialista que, por conta da radicalidade de suas propostas, ficou à margem das correntes dominantes do sufragismo. Flora Tristan (1803-1844), figura pública e escritora influente em sua época, fez da situação da mulher trabalhadora um dos eixos centrais de seu tratado socialista utópico sobre a união operária, vinculando opressão de classe e de gênero.

FLORA (2011, 27 min)
Um filme de Lorena Stricker

ASSISTA AO FILME COMPLETO:

Já os escritos de Marx e Engels deixaram um legado ambíguo. Por um lado, fizeram a defesa ardorosa da igualdade entre homens e mulheres, que, com eles, tornou-se parte inextricável do projeto socialista. Por outro, tenderam a ler a dominação masculina como um subproduto da dominação burguesa, anulando a especificidade das questões de gênero que o feminismo sempre buscou destacar. Ainda assim, é impossível negar o impacto que uma obra como A origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Engels, teve para vincular a organização da esfera doméstica à sociedade mais ampla.12

Na passagem do século XIX para o século XX, um corpo plural de pensamento feminista socialista se estabeleceu, incluindo bolcheviques como Clara Zetkin (1857-1933) e Alexandra Kollontai (1872-1952) ou anarquistas como Emma Goldman (1869-1940).

LUIS FELIPE MIGUEL.
LEIA O ARTIGO NA ÍNTEGRA

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Por Diana Assunção

No fim do século XVIII, logo após a França ser palco da maior revolução burguesa da história, que exigia liberdade, igualdade e fraternidade, diversos questionamentos passaram a clamar pela extensão de tais direitos a toda a humanidade, e não apenas aos homens brancos europeus: o primeiro surgiu na colônia francesa no Haiti, que já em 1791 deu início à sua revolução negra; logo em seguida, em 1792, fez-se ouvir o protesto feminista de Mary Wollstonecraft, de Londres, que exigia justiça para as mulheres, excluídas do papel de cidadãs pela Constituição Francesa recém-promulgada.

Foram, portanto, as próprias ideias iluministas que influenciaram Mary a enfrentar grandes nomes como Jean-Jacques Rousseau e Denis Diderot, os quais, apesar de se basearem na razão, guardavam para a mulher um lugar inferior na sociedade. Mary Wollstonecraft sustentava que a dependência econômica das mulheres, bem como sua impossibilidade de acesso à educação racional, transformava-as em seres infantis e resignados.

A obra Reivindicação dos direitos da mulher é considerada uma das precursoras do feminismo, escrita em um momento anterior ao das grandes lutas proletárias, quando a burguesia ainda carregava uma missão revolucionária. As ondas seguintes do feminismo internacional já teriam como palco o mundo capitalista, em que a burguesia não somente deixaria de ter papel revolucionário como conduziria a humanidade aos massacres das duas guerras mundiais, convertendo o mundo em uma suja prisão. Para dar continuidade à obra de Mary Wollstonecraft, hoje o protesto feminista precisa ser também anticapitalista e se ligar à classe trabalhadora, a classe revolucionária da nossa época. É um grande acerto a Boitempo Editorial resgatar essa voz contra a cruel opressão cotidiana, uma voz que continua viva em milhões de mulheres – meninas, negras, indígenas e imigrantes em todo o mundo.

Diana Assunção

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Prefácio por Maria Lygia Quartim de Moraes

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Extraído do primeiro volume antologia de clássicos da literatura universal em quadrinhos Cânone gráfico, organizado por Russ Kick e publicado pelo Barricada, novo selo de HQs da Boitempo

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Para um estudo aprofundado sobre o pensamento feminista socialista do início da virada do século, recomendamos o fundamental Mulher, Estado e a Revolução: política da família Soviética e da vida social entre 1917 e 1936, da historiadora americana Wendy Goldman. Leia também, no Blog da Boitempo “Marx contra a opressão das mulheres“, em que Michael Löwy apresenta uma pequena e quase esquecida obra de Marx que “constitui um protesto apaixonado contra o patriarcado, a sujeição das mulheres – incluídas as “burguesas” – e a natureza opressiva da família burguesa.”

* Este texto integra o livro Feminismo e política: uma introdução, de Luis Felipe Miguel e Flávia Biroli, que reúne em 10 capítulos esquemáticos as principais contribuições da teoria política feminista produzida a partir dos anos 1980 e apresentam os termos em que os debates se colocam dentro do próprio feminismo, mapeando as posições das autoras e correntes atuais.

Confira o Dossiê FEMINISMO E POLÍTICA, no Blog da Boitempo, com artigos, vídeos, resenhas e indicações de leitura de Maria Rita KehlLaerte CoutinhoMichael LöwyLudmila Costhek AbílioFlávia BiroliMaria Lygia Quartim de Moraes, Lincoln SeccoUrariano MotaLuis Felipe MiguelIzaías Almada, Ursula Huws, entre outros!


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“SE LIGA NO SOM!” – RITMO, POESIA & CONTESTAÇÃO: As transformações do rap no Brasil

RITMO, POESIA E CONTESTAÇÃO
Reflexões sobre o livro “Se Liga No Som!” de Ricardo Teperman
por Eduardo Carli de Moraes

“A música está no mundo”, escreve Ricardo Teperman ao princípio de Se Liga No Som – As Transformações do Rap no Brasil (comprar na Livraria A Casa de Vidro). “Nas potentes caixas de som de carros que atravessam a cidade marcando presença no volume máximo; nas esperas telefônicas; nos elevadores dos shopping centers; nos fones dos milhões de pedestres que ouvem músicas em seus celulares e leitores de MP3; numa sala fechada e tratada acusticamente para esse fim, com um grupo de músicos de um lado e um grupo de ouvintes de outro…”.

A quase oni-presença da música, em suas múltiplas formas, nos mais variados espaços sociais,  é um fato facilmente constatável, mas na maior parte das vezes nossa experiência musical ocorre enquanto estamos completamente  esquecidos ou desatentos em relação aos condicionantes sociais da produção musical.

Neste espaço social altamente sonorizado (e cheio de dissonâncias), Teperman busca compreender o que o rap tem de específico: seu ímpeto transformador, sua chama contestatória, seu enraizamento na realidade histórica, sua conexão umbilical com vivências sociais e antagonismos políticos etc. Algo que me traz à mente a tese de Bertolt Brecht sobre a arte: “ela não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para moldá-lo.” 

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Ricardo Teperman é músico e antropólogo. Fez uma dissertação de mestrado sobre batalhas de MCs e atualmente é doutorando no departamento de antropologia social da USP. Em seu livro, o rap emerge como um dos melhores exemplos na cultura global contemporânea de uma “música que está no mundo para transformá-lo, e não apenas para servir de trilha sonora.” (TEPERMAN, 2015, p. 7)

Para compreender a gênese deste fenômeno do rap, “bombadíssimo” no cenário cultural mundo afora, Teperman busca recuperar a genealogia desta “cultura de rua” que viria a ser chamada de hip hop. Oferece explicações etimológicas e históricas que revelam os “mitos de origem” daquilo que constitui hoje uma das mais impressionantes e vivazes manifestações culturais globais e que nasceu, em seus primórdios, como uma das múltiplas encarnações de hibridismo afroamericano vinculado à diáspora pelo Atlântico Negro (tematizada em estudo clássico de Paul Gilroy):

Teperman


Leia um trecho em PDF – Playlist para acompanhar a leitura

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A interpretação consagrada da etimologia da palavra rap é que seria uma sigla para rhythm and poetry [ritmo e poesia]. O mito de origem mais frequente sobre o gênero é que teria surgido no Bronx, bairro pobre de Nova York, no início dos anos 1970. São dois lugares-comuns que, independente de seu conteúdo de verdade, merecem ser estranhados. Alguns preferem dizer que o rap nasceu nas savanas africanas, nas narrativas dos griôs — poetas e cantadores tidos como sábios. Ou ainda, como sugerem alguns rappers e críticos brasileiros, que é uma variante do repente e da embolada nordestinos. Outros MCs brasileiros defendem que rap é a sigla para “Revolução Através das Palavras”, e já foi dito que as três letras poderiam corresponder a “Ritmo, Amor e Poesia”. Mais do que explicações, essas são interpretações, e defender um delas é uma espécie de alinhamento ideológico, que terá impacto no modo como essa música se situará no mundo social.

H Rap BrownA palavra “rap” não era novidade nos anos 1970, pois já constava dos dicionários de inglês havia muitos anos — seu uso como verbo remonta ao século XIV. Entre os sentidos mais comuns, queria dizer algo como “bater” ou “criticar”. Um dos principais líderes dos Panteras Negras, grupo ativista do movimento negro norte-americano dos anos 1960, incorporou a palavra em seu nome: H. Rap Brown. Foi assim que ele assinou sua autobiografia, “Die Nigger Die!” [Morra Preto Morra!], lançada em 1969 — antes de qualquer registro da palavra “rap” associada a uma manifestação musical. No livro, ele conta suas memórias de infância, quando brincava na rua com amigos do bairro. Uma das brincadeiras mais frequentes era um jogo de desafios verbais conhecido como the dozens [as dúzias]. Nele, as crianças se provocavam com os insultos mais odiosos que podiam conceber, muitas vezes envolvendo a mãe do oponente. Mas os insultos deviam ser construídos com rimas, essa era a graça. As dozens são desafios tipo “trava-língua”, com tiradas espirituosas e picantes.

(…) É claro que o fato de que as letras R, A e P componham uma sigla que corresponda a rhythm and poetry é um achado poderoso. E é conveniente que funcione também em línguas latinas como português, espanhol e francês (R para ritmo e P para poesia). Como sigla, o termo reúne um aspecto comumente associado às manifestações musicais africanas — o ritmo — a outro, que tem grande legitimidade nos circuitos culturais “hegêmonicos” — a poesia. Assim, a própria definição da palavra “rap” defende uma ideia: de que as letras de rap são poesia — em oposição a críticos conservadores, que fazem questão de reservar o privilégio da denominação “poeta” para autores que se filiem às tradições literárias canônicas, como William Shakespeare, W. H. Auden ou W. B. Yeats, apenas para ficar com nomes de língua inglesa. Não é pouca coisa, e não é à toa que a etimologia de rap como sigla para ritmo e poesia “colou”. Se non è vero, è ben trovato.

No que diz respeito ao “local de nascimento” do rap, dez entre dez mcs dirão que é o Bronx. Mas, para dar sentido a essa geografia do rap, é preciso considerar pelo menos duas ondas de imigração. Em primeiro lugar, a vinda de centenas de milhares de africanos, das mais diferentes origens, para alimentar o maquinário insaciável dos regimes escravocratas nas Américas. No contato com as tradições musicais europeias, levadas aos Estados Unidos desde a chegada dos primeiros colonos ingleses, esses africanos — descendentes dos hoje conhecidos como afro-americanos — liderariam diversas revoluções na música do mundo, contribuindo de maneira decisiva na criação de gêneros como blues, jazz, rock, soul, reggae, funk, disco e, claro, rap. Para a musicóloga norte-americana Susan McClary, autora de livros importantes sobre música clássica de tradição europeia, essa herança é a principal influência para a produção musical contemporânea, de modo geral.

Uma segunda onda migratória, após o final da Segunda Guerra Mundial, levou largos contingentes de homens e mulheres pobres de ilhas caribenhas como Jamaica, Porto Rico e Cuba para os Estados Unidos, em busca de melhores condições de trabalho. Esses imigrantes tenderam a se estabelecer nas periferias das grandes cidades, onde o custo de vida era relativamente baixo e as ofertas de emprego estavam próximas. Nessas regiões, os novos imigrantes caribenhos passaram a conviver com imigrantes latinos e também com afro-americanos estabelecidos nos Estados Unidos havia várias gerações.

Um desses bairros era o Bronx, no extremo norte da ilha de Manhattan, na cidade de Nova York. No início dos anosm 1970, a região vivia uma situação de degradação e abandono.Com pouca oferta de espaços de esporte, lazer e cultura, os jovens do Bronx estavam expostos à violência urbana crescente e às guerras brutais entre gangues. O bairro era predominantemente negro, e o país ainda trazia abertas as feridas dos violentos conflitos raciais da década de 1960. Em poucas palavras, o Bronx era uma espécie de barril de pólvora.

Conheça um dos primeiros raps da história, lançado em 1979, por Sugarhill Gang:

Nos finais de semana dos meses de verão, alguns desses imigrantes acoplavam poderosos equipamentos de som a carrocerias de caminhões e carros grandes (os chamados sounds systems), tocavam discos de funk, soul e reggae, e com isso criavam um clima de festa nas ruas. Inspirados nos disc jockeys que animavam programas de rádio, se autodenominavam DJs. Além disso, usavam um microfone para “falar” com o público, não só entre as músicas mas também durante a música, como mestres de cerimônia (daí a sigla mc — master of cerimony). Figuras como Kool Herc e Grandmaster Flash, dois dos mais célebres agitadores das festas de rua no Bronx, cumpriam ao mesmo tempo as funções de DJ e de CM.

Em um desses improvisos, o DJ e MC Lovebug Starski teria criado uma espécie de refrão: Hip hop you don’t stop that makes your body rock [quadril, salto, não pare, isso faz seu corpo balançar]. Associar a palavra “hip” [que pode ser traduzida por quadril, mas que também quer dizer “segundo a última moda”] à palavra “hop” [pular ou dançar] era uma maneira graciosa de dizer: não pare de mexer os quadris, não pare de dançar, “essa é a última moda”. A expressão “hip-hop” dava o recado e soava bem.

A competência do DJ e do MC se fazia comprovar pela empolgação da “pista” — mesmo que a festa fosse no meio da rua. Os dançarinos mais animados e talentosos, que criavam coreografias para essa nova música, cheia de breaks, passaram a ser chamados de b-boys (break boys). Apresentando-se um de cada vez ou em pequenas equipes, bem em frente ao DJ, os b-boys faziam demonstrações de virtuosismo coreográfico, por meio das quais competiam. Mais tarde, campeonatos organizados passariam a fomentar essa competição e se disseminariam mundo afora.

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A origem dos movimentos do break também rendeu verdadeiras mitologias. O giro de cabeça, um dos passos mais notáveis, foi muitas vezes descrito como uma imitação das hélices de helicópteros, em menção à Guerra do Vietnã, de onde haviam recentemente regressado muitos jovens afro-americanos — hipótese que valoriza o caráter político da dança. Alguns comentadores sugerem que uma influência importante são as artes marciais, populares nos Estados Unidos graças aos filmes de Bruce Lee — o que reforça o aspecto “combativo” do break. Nos últimos anos, críticos chegaram a sugerir que o movimento teria sido importado da capoeira — argumento que fortalece as origens africanas da dança. Se non è vero…

Nenhuma dessas hipóteses é totalmente convincente — mas tampouco precisam ser descartadas. De todo modo, não são historicamente verificáveis — assim, aquele que esperar uma conclusão definitiva ficará decepcionado. O que é certo é que constroem um discurso que apresenta o break como uma dança politicamente engajada, combativa e bem ancorada em suas raízes africanas.

Vimos como o hip-hop está ligado etimologicamente ao movimento dos quadris, ou seja, à dança, à festa. Se hoje a expressão remete a um movimento cultural no geral bastante politizado, isso foi uma construção posterior. Rap costuma designar apenas a música, enquanto hip-hop se tornou o termo mais geral, que engloba também dança, moda, grafite, estilo de vida e atuação política — muitas vezes se fala em “movimento hip-hop”. Em todo caso, o ponto que interessa destacar é que as dimensões festivas e críticas do rap e do hip-hop não são tão facilmente separáveis, e não é à toa que essa aparente contradição gera frequentemente debates acalorados. (TEPERMAN, 2015, p. 13)

Antes de tornar-se um gênero musical, portanto, o rap já era uma presença cultural marcante nos EUA. Servia para descrever as habilidades verbais utilizadas em jogos de rua e as sábias palavras saídas das bocas dos mestres-griô africanos. Desde os anos 70, manifestações proto-rap pintam por aí em criações de artistas inovadores como Gil Scott-Heron e The Last Poets, figuras que ajudaram a parir a novidade através de suas brilhantes incursões poéticas e musicais.

Inovadores que ajudaram no parto do que vieria a ser o rap foram não só Scott-Heron e os Last Poets, mas figuras como James Brown e o Funkadelic, que muitas vezes abordavam vocais realizando um rapping de suas letras espertas, experimentando os universos sônicos do blues, do funk, do soul, algo sintetizado por “The Revolution Will Not Be Televised” (“A Revolução Não Será Televisionada”).

Se quisermos retornar ainda mais rumo ao passado, na história musical, em busca das sementes do rap, podemos encontrá-las também em Nina Simone, que em canções seminais como “Mississipi Goddam” já havia entrado no tom contestatório e impertinente de um eu-lírico rebelado contra o supremacismo branco e seu terror racial.

Além disso, toda uma tradição de “canto falado” e de criação verbal lúdica atravessa a história da arte musical afroamericana, manifestando-se em figuras como Bo Diddley, Cab Calloway, Langston Hughes, além de oradores explosivos e cheios de “atitude” como Malcolm X ou os Panteras Negras.

Cantoras negras mais vinculadas ao soul e ao rhythm’n’blues foram essenciais para o desenvolvimento do canto sincopado e da dicção característica do rap – caso de Esther Phillips ou Millie Jackson. O rap, mesmo quando ainda não tinha sido batizado, já desenvolvia-se como tática artística de confronto, como arte contestatória e transformadora, em clash com elementos da realidade social e interpessoal sentidos como intoleráveis e revoltantes. Um exemplo:

martin_luther_king_jr_s_economic_dream_still_unfulfilled_42_years_later-850x960Muito antes de existir o rap como estilo musical consagrado, com seus artistas canônicos e suas formas de composição, artistas como Nina Simone foram pioneiras da vibe que animaria o rap.

Na cidade de Birmingham, no Alabama, em 1963, uma igreja batista da comunidade afroamericana é bombardeada pela Klu Klux Klan, com o saldo sinistro de quatro garotinhas mortas.Este crime racista que choca a nação – e que será documentado por um dos grandes cineastas norte-americanos, Spike Lee, em Four Little Girls – gera imensa revolta em Nina Simone, que escreve a canção de protesto “Mississipi Goddam”.

Na canção, que logo torna-se uma espécie de hino dos movimentos pelos direitos civis e das lutas anti-racistas, Nina não se acanha de usar toda a força do palavrão (“God damn!”) para transmitir sua indignação diante do descalabro do ato terrorista. A politização e radicalização de Nina se exacerbaram nos anos seguintes e ela entregou-se de corpo e alma ao Movimento Pelos Direitos Civis dos anos 1960.

Em 1965, na histórica marcha liderada por Martin Luther King entre Selma e Montgomery (cuja crônica cinematográfica foi realizada recentemente pelo filme Selma, de Ava DuVernay), Nina Simone esteve lá, cantando para os manifestantes. Porém, como revelado pelo documentário, Nina Simone não era 100% fiel aos preceitos de Luther King e chegou a dizer, sem papas na língua, ao pacifista e gandhiano Doutor King: “I’m not non-violent!”  (“Eu não sou não-violenta!”)

Poderíamos pois considerar Gil Scott-Heron e Nina Simone como uma espécie de vovô vovó do rap, inovadores revolucionários que deram alguns dos mais importantes ímpetos iniciais ao estilo que depois tomaria conta do mundo. Visto sob esta perspectiva, o rap está enraizado na contracultura afroamericana. Emerge como auto-afirmação identitária e solidarização coletiva para os negros violentados pelo racismo e pela opressão nos guetos da AmériKKKa.

Como eu escrevi no artigo Nina Simone – Rebelde Com Causa, a magnífica Nina foi “influenciada pelo discurso e pelo exemplo de Malcolm X, Angela Davis, Stokely Carmichael, Medgar Evers, do partido dos Panteras Negras (Black Panthers)” e “chegou à conclusão de que não há numa solução pacífica para a guerra racial nos EUA. A libertação social dos negros passa a ser vista por muitas vertentes de ativismo radical como conquistável apenas pela guerrilha armada.

Tal radicalismo pode ser percebido também em figuras como Frantz Fanon ou no grande músico nigeriano Fela Kuti. Neste contexto explosivo, Nina Simone, apesar de nunca ter abraçado uma metralhadora, põe sua música a serviço desta causa libertária. Tanto que, em sua lendária apresentação no Harlem Cultural Festival, em 1969, em plena guerra do Vietnã, chorando ainda o assassinato de Luther King, conclama o povo à Revolução:

Remontando às raízes do rap, descobrimos a importância da concepção de Afrika Bambaataa, que “já em 1977 havia criado a Zulu Nation, tida como a primeira organização comunitária do hip-hop. Bambaataa pretendia combater a violência entre gangues promovendo a competição por meio dos chamados quatro elementos: DJ, MC, break e grafite. Bambaataa passou a defender a existência de um quinto elemento na cultura hip hop: o conhecimento. A ideia é um contraponto à redução do rap a um produto de mercado, reforçando sua potencialidade como instrumento de transformação.” (Teperman, op cit, p. 27).

O quinto elemento – conhecimento – marca presença em alguns dos primeiros raps da história, como “The Message”, de Grandmaster Flash, que “descreve as condições precárias da vida em um bairro pobre na periferia de uma cidade norte-americana” (uma música que impressionaria imensamente um dos rappers brasileiros dos primórdios do estilo no país, Thaíde).



Ouça na íntegra: Thaíde e DJ Hum – Preste Atenção (1996)

Mas “a grande virada foi promovida pelo grupo Public Enemy, cujo primeiro disco foi lançado em 1987, com enorme sucesso de público e crítica. No ano seguinte, o grupo seguiu aprofundando seu posicionamento crítico ao lançar o disco It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back [É preciso uma nação de milhões para nos segurar]. O título já era uma declaração política, que evoca a célebre frase dos Racionais MC’s, incluído no encarte de Sobrevivendo no Inferno, de 1997: “Apoiado por mais de 50 mil manos.”

Convidado pelo cineasta Spike Lee a compor uma música especialmente para a trilha sonora do filme Faça a Coisa Certa / Do The Right Thing, de 1989, o Public Enemy veio com “Fight The Power”, faixa que marcaria para sempre a história do rap. O músico Elvis Presley e o ator John Wayne figuram no panteão dos grandes ídolos norte-americanos, mas na letra do rap do Public Enemy são vistos de maneira crítica, como ídolos para a população branca mas não para os negros” (TEPERMAN, p, 29-30):

Public Enemy – “Fight The Power” (1989)

Elvis was a hero to most
But he never meant shit to me you see
Straight up racist that sucker was
Simple and plain
Mother fuck him and John Wayne
Cause I’m Black and I’m proud
I’m ready and hyped plus I’m amped
Most of my heroes don’t appear on no stamps
Sample a look back you look and find
Nothing but rednecks for 400 years if you check

Link: http://www.vagalume.com.br/public-enemy/fight-the-power-traducao.html#ixzz430SPhYYZ

Estas evidências conduzem à tese, que Teperman defende baseando-se na obra de Paul Gilroy, de que “o rap é uma das manifestações musicais mais significativas do Atlântico negro”, sendo também um dos objetos de estudo e de devoção de alguns dos mais brilhantes intelectuais negros da contemporaneidade, caso de Cornel West e Angela Davis.

Em seu livro Atlântico Negro, Gilroy “reflete sobre a vitalidade que os gêneros da chamada black music ganharam ao redor do mundo” e sustenta que “há um fundo comum de experiências urbanas, pelo efeito de formas similares de segregação racial, bem como pela memória da escravidão, um legado de africanismos e um estoque de experiências religiosas definidas por ambos. Deslocadas de suas condições originais de existência, as trilhas sonoras dessa irradiação cultural africano-americana alimentar uma nova metafísica da negritude…” (GILROY, apud Teperman, p. 28).

* * * * *

II. O RAP NO BRASIL 

“BRAIL COM P” – Um rap de Gog
(inteirinho composto por palavras iniciadas em P!)

“Pesquisa publicada prova
Preferencialmente preto pobre prostituta
Pra polícia prender
Pare, pense: por quê?”

A potência do rap no Brasil começa a expandir de fato a partir da segunda metade dos anos 1980: os Racionais MC’s nascem em 1988 e já chegam ao começo da década de 1990 com alta representatividade: “quando o Public Enemy se apresentou em São Paulo, em 1991, o rap no Brasil já tinha alguma densidade. O público lotou o ginásio do Ibirapuera e, para esquentar a platéia antes da atração internacional, foi convidado um grupo de rap brasileiro que despontava com o mesmo tipo de discurso politizado. O Racionais MC’s já se impunha como o principal grupo do rap nacional” (Teperman, p. 31).

Racionais MC’s – Raio X do Brasil (1993)

Banda Black Rio – Maria Fumaça (1977)

No país, as sementes do rap estão um pouco por toda a parte da cultura popular: nos bailes black das periferias do Rio e de São Paulo, onde despontaram mamutes sônicos do groove denso como a Banda Black Rio; na influência tremenda de Jorge Ben e seu samba-rock afrocêntraico (em LPs como Tábua de Esmeraldas, Força Bruta, Samba Esquema Novo); no soul encorpado e hedonista de um Tim Maia (cujos álbuns Racional são a inspiração para o batismo dos Racionais MC’s) ou do funky DiMelo, dito “O Imorrível”; no samba-malandro de figuras como Bezerra da Silva (inspiração determinante para o Planet Hemp e seus MCs Marcelo D2, BNegão e Black Alien) – antes de existir oficialmente rap, já tínhamos exemplos de letras de malandríssima crítica social e subversão inteligente em canções como “Vítimas da Sociedade” e “Pastor Trambiqueiro”.

Obviamente, o rap no Brasil também sofreu a influência intensa de sua matriz afroamericana na América do Norte: desde os donos-do-groove na história do funk como James Brown e Curtis Mayfield, até os popstars (ídolos-de-massa) dos EUA, que tinham uma penetração violenta em nossas mentes, dada a natureza altamente “colonizada” de nossa mídia burguesa: lá nos “States”, o mainstream já estava “tomado de assalto pelo rap”; aqui no Brasil, muitos começaram a entrar em contato com ele já através de sua versão capitalizada-pelo-aparelho midiático, devidamente “embranquecido” e palatável ao consumidor médio (ver o caso Gabriel O Pensador).

Gabriel O Pensador – Ainda É Só O Começo (2005)

 “O break vinha havia alguns anos se popularizando, reaproveitado por campanhas publicitárias e incorporado nos clipes e shows de Michael Jackson, talvez o artista mais popular do planeta à época. (…) Seguindo o exemplo do filme A Loucura do Ritmo,  os b-boys colocavam pilha em seus aparelhos de som portáteis e vestiam-se com roupas esportivas de marcas como Adidas ou Nike…” (Teperman, p. 34)

A rua Vinte e Quatro de Maio torna-se, junto com a estação do Metrô São Bento de SP, uma espécie de epicentro dos agitos hip hop brasileiros. Algumas figuras carismáticas, como Nelson Triunfo, marcariam época como um dos pais-da-matéria (como Scott-Heron ou Nina Simone foram nos EUA).

O rap floresce nas quebradas, como cultura de resistência, e não cessa de ver-se cercado e violentado por forças de repressão: cegos à exuberante riqueza artística e efervescência cultural que manifestam-se no rap, alguns desmiolados sempre quiseram transformá-lo em caso de polícia.

 “Em funcionamento desde 1988, o Geledés – Instituto da Mulher Negra  [http://www.geledes.org.br/] oferecia um serviço chamado SOS Racismo. Em 1991, jovens rappers procuraram o instituto reclamando que muitas vezes suas apresentações eram interrompidas e interditadas de maneira violenta pela polícia. A partir dessa demanda, o Instituto Geledés criou juntamente com as bandas o projeto Rappers Geledés: os artistas passaram a participar dos Fóruns de Denúncia e Conscientização do Programa de Direitos Humanos do Geledés, e foi criada a revista Pode Crê!, tida como o primeiro veículo segmentado para jovens negros e inspiração para iniciativas como a da revista Raça Brasil.” (Teperman, p. 42)

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PODE CRÊ! É oficialmente a primeira revista brasileira especializada em Hip Hop de que se tem notícia. Em sua primeira edição (fevereiro/março 1993), a revista PODE CRÊ! Trás em sua capa na menos que Mano Brown dos Racionais, no auge dos seus 23 anos.

Racionais

Os Racionais MC’s tiveram de fato um “impacto difícil de dimensionar na juventude das favelas e periferias do Brasil”, aponta Teperman, que enxerga todo o contexto sócio-político que foi o cenário-de-emergência dos discos Holocausto Urbano (1990), Escolha Seu Caminho (1992) e Raio X do Brasil (1993):

“No início da década de 1990, o país vivia uma espécie de ressaca dos anos de ditadura civil-militar. A militância política, ligada ao sindicalismo ou às organizações eclesiásticas de base, muito ativa nas periferias dos grandes centros urbanos (e notadamente no ABC paulista) no final dos anos 1970 e ao longo dos anos 80, arrefecera ou mudara de foco. Os sucessivos episódios de violência policial, que assustavam tanto quanto ou mais que os outros índices de violência urbana, ganharam triste notoriedade com tragédias como as chacinas do presídio do Carandiru, da igreja da Candelária e da favela de Vigário Geral.

Carandiru

Candelária
Vigário GeralFonte: Chacinas no Brasil – Terra

Com a queda do Muro de Berlim e a derrocada dos regimes comunistas, o discurso triunfalista do mercado e as teologias da prosperidade passaram a invadir sem freios todas as esferas da sociabilidade. A redemocratização do Brasil nada teve de tranquila, contradizendo o discurso oficial dos militares e sua promessa de uma abertura ‘lenda, gradual e segura’. (…) Com a abertura política, nesse momento candente, o Racionais surge, captando a experiência brasileira com sua lente original, ‘falando da violência de modo violento’, como bem definiu Walter Garcia. Diante da crueza da realidade das periferias paulistanas, o rap do Racionais preferia o papo reto.

A relação do rap com o poder público sempre carregou uma grande ambiguidade. Se por um lado há momentos de aproximação (como em 1992, quando a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, na gestão Luiza Erundina, reconhecendo a força do movimento, criou o projeto Rapensando a Educação), conflitos com a polícia também são uma marca do gênero. Em novembro de 1994, uma apresentação dos Racionais em palco no vale do Anhangabaú foi interrompida pela polícia militar e os integrantes do grupo foram detidos e levados ao 3º DP… os policiais alegaram que as letras das músicas do grupo ‘incitam a violência’. A detenção ocorreu enquanto o Racionais cantava ‘Homem na Estrada”, que traz o verso: ‘Não acredito na polícia, raça do caralho.’

(…) Anos depois, em 2007, um novo e violento conflito com a polícia interromperia o show do Racionais na praça da Sé durante a primeira edição da Virada Cultural, em São Paulo. Em entrevista à revista Rap Nacional, em 2012, Mano Brown fez declarações elogiosas a Marcola, tido como chefe do PCC (Primeiro Comando da Capital), organização que se entende como o ‘partido do crime’, comparando-o a Carlos Marighella, líder da guerrilha urbana assassinado pela ditadura civil-militar em 1969.

Uma das músicas mais famosas e marcantes de Mano Brown é ‘Diário de um Detento”, sobre o terrível massacre do Carandiru, em que 111 presos foram assassinados pelo batalhão de choque da Polícia Militar durante uma rebelião. O rap foi escrito em parceria com Jocenir, que estava preso na época e presenciou a tragédia. O vigor de ‘Diário de um Detento’ só é explicável por essa proximidade do sujeito que canta com o que é cantado. Como diria Mano Brown em ‘Negro Drama’, lançada em 2002, ‘eu não li, eu não assisti / eu vivo o negro drama / eu sou o negro drama / eu sou o fruto do negro drama.” (Teperman, p. 67-70)

Este “fruto do negro drama” que é o hip hop está definitivamente “no mundo”, e nele age de modo a transformá-lo para melhor, por exemplo através da proliferação de rádios comunitárias, que criam canais de comunicação e solidariedade, como registrado em película no filme Uma Onda no Ar, de Helvécio Ratton, seja através do engajamentos em projetos e movimentos sociais como a Cufa (Central Única das Favelas).

Prova de que a fervilhante cultura do rap não gosta de cercas de arame farpado, mantendo-a cerceada em território lacrado, é o quanto o cinema já foi marcado por ele. No documentário O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas, de Paulo Caldas e Marcelo Luna, “discute-se a violência urbana na capital pernambucana, tendo como fio narrativo a experiência de dois personagens: Garnizé, baterista do grupo de rap Faces do Subúrbio, e Helinho, um presidiário acusado de 65 homicídios.” (Teperman, p. 91)

rap-do-pequeno-principe-poster011O Rap Do Pequeno Príncipe Contra As Almas Sebosas (2000, 90 min)
de Marcelo Luna e Paulo Caldas


Onda no ARUma Onda No Ar (2002, 92 min)
de Helvécio Ratton
DOWNLOAD TORRENT

Não devemos considerar que o rap brasileiro é algo de homogêneo e monolítico, muito pelo contrário: é algo de mutante e de fluido, que ganha novos contornos em cada região do país. Não há uma “mensagem única” mas sim uma multiplicidade de mensagens; não há uma ideologia central que se refrata em todo e qualquer MC ou grupo de rap, mas sim uma miríade ideológica que constitui uma constelação de cintilante diversidade.

Na arte do RAPadura e do Costa a Costa, do Recife, Teperman enxerga uma nova hibridez, uma inovação estética, um

“notável uso de tradições musicais como o mambo, o carimbó e o reggaeton. (…) O rap de Costa a Costa soa menos sisudo que o gangsta rap de São Paulo: é mais dançante e alegre, sem que por isso as letras sejam menos corrosivas. Ao criticar a presença de dinheiro, sexo, drogas e violência ‘de costa a costa’, o grupo dá dimensão nacional (e mesmo continental) a problemas que, na formulação dos Racionais, aparecem apenas em sua versão local (e paulistana).

RAPadura vai mais longe no mergulho nas tradições musicais nordestinas: praticamente todas as bases de seus raps são construídas em cima de ritmos como o baião e o arrasta-pé; são usados dezenas de samples de discos de forró; e a presença de instrumentos como agogô, pandeiro e sanfona é uma constante. (…) RAPadura se veste com chapéu de cangaceiro, evocando Luiz Gonzaga, que nos anos 1950 popularizou nacionalmente o forró.  O gesto do rapper é original e, até certo ponto, desafia as convenções do gênero, como já haviam feito à sua maneira artistas como Potencial 3, Sabotage, Marcelo D2 e Rappin Hood, ao de forma deliberada buscar ‘misturar’ tradições musicais tipicamente brasileiras às batidas de funk, tradicionalmente usadas nas bases de rap.” (Teperman, 1991).

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CONTINUA EM BREVE com Emicida, Criolo e muito mais!

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No final de 2014, foi divulgado o resultado final do Prêmio Cultura Hip Hop da Funarte (Fundação Nacional de Arte do Ministério da Cultura). Foram, ao todo, 164 vencedores – 14 instituições privadas sem fins lucrativos e 150 pessoas físicas e grupos ou coletivos “sem constituição jurídica” -, que ganharam de R$14 mil a R$20 mil cada. Na mesma época, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, anunciou a produção do maior mural de grafite a céu aberto da América Latina, realizado na Avenida 23 de Maio, uma das principais vias da cidade. O projeto contou com a participação de mais de 200 artistas e o mural possui 15 mil metros quadrados. Pouco tempo depois, o grupo Racionais MC’s lançou seu novo disco, “Cores e Valores”, que veio após um hiato de 12 anos desde o último álbum do grupo. O que todos esses acontecimentos têm em comum? Além de sua grandiosidade e consequente visibilidade, o Hip Hop como protagonista. Nos últimos dez anos, a cultura Hip Hop teve um aumento vigoroso do espaço que ocupa na sociedade, tornando-se essencial para definir o que é a cultura brasileira nos dias de hoje. – Hip Hop cultura de transformação, por Lana Ohtani

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O primeiro disco do rap brasileiro:

Hip Hop Cultura De Rua (1988)

01 – Corpo Fechado (Thaide & Dj Hum)
02 – Codigo 13 (Codigo 13)
03 – Centro da Cidade (Mc Jack)
04 – O Credo (O Credo)
05 – Deus A Visão Cega (O Credo)
06 – Homens da Lei (Thaide & Dj Hum)
07 – Gritos do Silencio (Codigo 13)
08 – Calafrio (Melo do Terror) (Mc Jack)
09 – A Minha Banana (Mc Jack)
10 – Vicio (Mc Jack)
11 – Cidade Maldita (Mc Jack)
12 – Loucura (Codigo 13)
13 – Teu Negocio é Grana (Codigo 13)
14 – A Garota da Casa (Codigo 13)

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OUTROS ÁLBUNS BACANAS DO RAP BRASILEIRO

Sabotage – Rap É Compromisso

Marcelo D2 – Eu Tiro É Onda

Cirurgia Moral – Cérebro Assassino

Faces do Subúrbio (1996)

GOG – Das Trevas À Luz (1998)

RZO – Todos São Manos (1999)

Black Alien – Babylon By Gus (Vol. 1)

Faces do Subúrbio – Perito em Rima (2005)

Criolo – Convoque Seu Buda

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TO BE CONTINUED…

BOB MARLEY: Guerreiro Rasta

Daniel Pereira

Um dos muitos méritos desta graphic novel dos argentinos Diego Agrimbau (roteiro) e Dante Ginevra (desenhos) está em sua capacidade de revelar a enorme dimensão social, espiritual e artística de Bob Marley. Nascido em 1945, numa Jamaica que lutava para se libertar do domínio colonial inglês, Bob Marley viveu apenas 36 anos, mas tornou-se uma figura de notoriedade e relevância mundial, a ponto de produzir milhões de seguidores. Isto não se deve somente ao seu talento como cantor, compositor e músico, mas à força e à resiliência de sua mensagem à humanidade.

Estátua no Estádio Nacional de Kingston

Reggae’s most transcendent and iconic figure, Bob Marley was the first Jamaican artist to achieve international superstardom, in the process introducing the music of his native island nation to the far-flung corners of the globe. Marley’s music gave voice to the day-to-day struggles of the Jamaican experience, vividly capturing not only the plight of the country’s impoverished and oppressed but also the devout spirituality that remains their source of strength. His songs of faith, devotion, and revolution created a legacy that continues to live on not only through the music of his extended family but also through generations of artists the world over touched by his genius. – Jason Ankeny

Guerreiro Rasta não começa ao som de ska ou reggae, mas em chave mais trágica, evocando a África, onde as caravelas invasoras do imperialismo europeu vieram sequestrar milhões de seres humanos para o destino horrendo de escravizados. Filhos da diáspora, os afrodescendentes da Jamaica lutavam por independência e autonomia enquanto Bob Marley crescia: é no período entre 1958 e 1962 que a onda descolonizadora do Caribe ganha força e triunfa contra o império inglês, não só na Jamaica, mas também em Trinidad e Tobago.

Na capital da Jamaica, Kingston, os autores evocam de modo impressionante a presença da África, seja através do mega evento cívico que foi  a visita do imperador da Etiópia, Hailê Selassiê, em abril de 1966, seja no próprio cotidiano dos cultuadores de Jah, os rastafáris da sagrada ganja, tão perseguidos pela elite branca e que com tanta frequência tinham seus dreadlocks cortados e tomavam cruéis baculejos policiais.

Bob Marley até tentou migrar para os EUA – onde trabalhou em Delaware como operário da indústria automobilística em uma fábrica da Chrysler – mas retomou o caminho de Trenchtown: em uma das imagens mais memoráveis de Dante Ginevra, o avião de Marley decola nos Estados Unidos, ascendendo rumo a um céu onde paira, cheio de garbo e poder, desenhado pelas nuvens em interação com os raios de sol, um gigantesco Leão de Judá

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 Bob Marley permitiu que a criatividade de um país periférico conquistasse o globo e tornou-se um dos luminares não só da música reggae ou da religião rastafári, mas um ídolo popular em todas as latitudes onde há luta contra a opressão e em prol da paz e do amor. Filho de uma afro-jamaicana com um branco inglês, Bob Marley foi um mulato afroamericano de profundo enraizamento na cultura africana e no sonho de um retorno à África mãe, seja na Etiópia ou na Libéria (este é um ethos ou uma constelação afetiva que assemelha Bob Marley a Nina Simone).

Apesar de estar longe de ser uma figura teórica ou acadêmica, Marley tinha postura política convicta e aliou-se ao movimento do pan-africanismo propugnado por Marcus Garvey, evidente em uma canção como “Africa Unite”. Em sua meteórica carreira musical foi um porta-voz libertário cujo teor ideológico e raio de influência sobre as massas pode ser equiparado ao de figuras como Patrice Lumumba, Malcolm X, Martin Luther King, Fela Kuti etc.

Bob Marley & the Wailers
“Concrete Jungle”
The Old Grey Whistle Test, 1973

Suas letras repletas de crítica social transcenderiam o gueto e iriam muito além das fronteiras do reggae: iriam inspirar artistas do folk, do rock, do punk, da MPB, da world music etc. Não é possível imaginar nem o The Clash, nem Gilberto Gil, nem Manu Chao, sem a seminal influência de Bob Marley. O poder de sua arte é tamanho pois conjuga o anúncio e a denúncia, para lembrar Paulo Freire: Marley fala sobre one love em vibe similar à de John Lennon imaginando a brotherhood of men, mas também denuncia a “selva de concreto” (assista a “Concrete Jungle” assista) e os mais de “400 Years” de opressão imperialista sobre aqueles que foram roubados de sua terra nos “merchant ships” evocados por “Redemption Song”:

“Velhos piratas, sim, eles me roubaram.
Me venderam para os navios mercantes, 
Minutos depois me atiraram
Num buraco sem fundo…”

Guerreiro Rasta é uma leitura rápida mas que deixa rastros na memória; uma biografia em formato graphic novel de 60 e poucas páginas, mas que ensina uma imensidão neste curto intervalo de tempo e espaço. Ganham expressão nestas páginas toda a violência política nas ruas de Kingston e todo o esforço pacifista-diplomático de Marley; toda a trajetória dos Wailers, tendo como coadjuvantes importantes Peter Tosh e Lee Perry, de estrelas musicais locais a popstars idolatrados por Eric Clapton, Mick Jagger, Joe Strummer; toda a epopéia da diáspora, todos os horrores impostos pelo imperialismo racista e supremacista, em contraste com a sabedoria naturalista, cannábica, rasta-pacifista, desse liberador de mentes e encantatório musicista que foi Bob Marley.

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No cinema, sua vida e obra já ganharam belos retratos em filmes como Rebel Music ou na biopic documental de Kevin MacDonald. Porém a linguagem dos quadrinhos, aqui utilizada com maestria pelos hermanos argentinos, fornece uma impressionante oportunidade de imersão no microcosmo Marleyano. Na página 53, por exemplo, evocam-se em 5 míseros quadrinhos e um punhado de frases pungentes o dia em que a Jamaica enterrou Bob Marley. É uma página que não se esquece mais.

Era um “funeral de chefe de estado, com uma cerimônia que misturava as tradições rastafári e católica ortodoxa etíope. O caixão seguiu  um longo trajeto até sua terra natal, Nine Mile. Toda a Jamaica chorou a partida de seu filho pródigo. Em seu túmulo, foram colocados quatro objetos que representavam o que sempre foi importante para ele… o futebol, a música, a fé rastafári e a maconha. Nessa noite, toda a ilha cantou e dançou celebrando sua vida. Foi a melhor festa funerária que um rasta poderia esperar.”

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OUÇA…

burninBURNIN’ (1973)

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“SURVIVAL” (1979)

“Containing what is considered Marley’s most defiant and politically charged statement to date, Survival concerns itself with the expressed solidarity of not only Africa, but of humanity at large. The album was controversial right down to the jacket, which contains a crude schematic of the stowage compartment of a typical transatlantic slave ship. Survival is intended as a wake-up call for everyman to resist and fight oppression in all of its insidious forms. From Tyrone Downie’s opening synthesizer strains on “So Much Trouble in the World” to the keyboard accents emerging throughout “Zimbabwe,” the sounds of Survival are notably modern. The overwhelming influence of contemporary African music is also cited with the incorporation of brass, á la Fela Kuti and his horn-driven Africa ’70. While “Top Rankin’,” “Ride Natty Ride,” and “Wake Up and Live” are the most obvious to benefit from this influence, there are other and often more subtle inspirations scattered throughout. Survival could rightly be considered a concept album. Marley had rarely been so pointed and persistent in his content. The days of the musical parable are more or less replaced by direct and confrontational lyrics. From the subversive “Zimbabwe” — which affirms the calls for the revolution and ultimate liberation of the South African country — to the somewhat more introspective and optimistic “Africa Unite,” the message of this album is clearly a call to arms for those wanting to abolish the subjugation and tyranny of not only Africans, but all humankind. Likewise, Survival reinforces the image of Marley as a folk hero to those suffering from oppression.” – Lindsay Planer, AllMusic [http://www.allmusic.com/album/survival-mw0000194795]

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JOSÉ MARTÍ (1853-1895): Vislumbres da vida e obra desta estrela-guia libertária na luta latinoamericana contra os jugos opressores

josemart1-000JOSÉ MARTÍ (1853-1895)

“Há homens e mulheres que, ao viverem intensamente o seu tempo, transcendem-no e se tornam referência em outros tempos e em outros lugares”, escreve o prof. Danilo R. Streck (Unisinos), “e José Martí é um destes homens.” (STRECK, 2007, p. 13-14)

Tendo vivido por somente 42 anos, transcorridos na segunda metade do século XIX, Martí realizou ditos e feitos impressionantes como pensador, jornalista, poeta e militante político, a ponto de ter sido convertido não só em estátuas e monumentos, mas em um autêntico mito no século seguinte.

Esta travessia de Martí, da carne ao mito, deu-se sobretudo, mas não somente, através do Movimento 26 de Julho, fundado por Fidel Castro, Ernesto ‘Che’ Guevara, Camilo Cienfuegos e outros exilados cubanos no México, em 1955, quando começaram a tecer a mobilização que viria a triunfar contra a ditadura de Fulgencio Batista em 1959.

Vidas como a de Martí transcendem sua época justamente pela devoção existencial intensa e indomável que as move no sentido da transformação da época de que são contemporâneos. Como pontua Streck,  “o preço disso é que a sua pessoa e as suas idéias se fundem em mitos que, como tais, são suscetíveis tanto da idolatria quanto da execração.” (op cit, p. 13)

Pessoa de carne-e-osso, tombada no túmulo precocemente por seu envolvimento nas lutas anticoloniais e independentistas, José Martí transcende sua morte em campo-de-batalha para transformar-se em mito vivo da Hispanoamérica – esta que o Brasil reluta em abraçar como legítima hermana, com a maior parte da população desconhecendo até mesmo as figuras históricas que mais impacto prosseguem tendo sobre a vida do subcontinente (como Bolívar, San Marin, Hidalgo e o próprio Martí, ainda subrepresentados e mal estudados em nossas escolas).

el-ojo-del-canariojose-marti-ojo-del-canario-fernando-perezNascido em Cuba em 28 de Janiero de 1953, José Julian Martí Pérez teve uma excelente crônica cinematográfica filmada sobre seus anos de formação: no filme El Ojo Del Canario (O Olho do Canário), de 2009, o cineasta Fernando Pérez realizou uma espécie de Bildungsroman de Martí em sua infância e adolescência, focando no período entre os 9 e os 16 anos.

Tanto seu pai, Mariano Martí, quanto sua mãe, Leonor Pérez Cabrera, eram espanhóis emigrados para Cuba, ainda sob domínio da Espanha.

José Martí nasce cubano, mas numa Cuba ainda serva da Espanha e onde a abolição da escravidão ainda não havia sido conquistada.

Desde cedo o pequeno Martí, apelidado de “Pepe”, demonstra ser o melhor aluno da escola, o que não o impede de tomar altos safanões, bofetadas e palmatórias de figuras autoritárias e mandonas – como seu professor de matemática, fã de torturar aluno flagrado “colando” na prova, e seu pai, que não tardará em repreendê-lo com dureza quando souber que o adolescente Pepe está escrevendo peças de teatro defendendo “Cuba Libre!”

O filme desvela, sem idealizações mas com convincente capacidade de reconstrução histórica, as relações do Martí niño com as agruras de seu tempo e o sofrimento de seu povo, destacando a importância que teve em sua vida ter sido aprendiz de seu mestre Rafael Mendive (1821-1866) e suas vivências durante a insurreição chefiada por Carlos Manuel de Céspedes (1819 – 1874).

Desde muito cedo, enxerga na imprensa uma arma essencial no debate de idéias e no confronto de ideologias, fundando o periódico Patria Libre – uma iniciativa brutalmente defenestrada por seu pai, que abomina ter um filho dissidente e militante independentista.

As cenas mais impressionantes de O Olho do Canário ocorrem quando o adolescente Martí é envolvido pelo turbilhão da guerra civil em Havana: milícias de soldados fiéis à Coroa Espanhola tocam o terror pelas calles cubanas, fuzilando e prendendo os ativistas que atuam em prol da independência de Cuba; a tensão dramática atinge o auge em uma cena em que Martí e sua mãe são abordados na rua pelos milicos e ele, sob a mira feroz do fuzil, ameaçado de morte súbita, é obrigado a gritar “Viva a Espanha!” ou perder a vida ali mesmo; a mãe, desesperada, berra-lhe que obedeça, cada vez mais transtornada diante da iminência da tragédia, mas o jovem é de um obstinado mutismo.

A cena é um emblema do caráter de Martí, mas também inspiração para fecundas reflexões sobre Resistência e Desobediência Civil. Salvos por um triz de morrerem nas mãos dos milicos sangue-no-zóio, em especial pela intervenção de um velho professor de Martí, mãe e filho saem indelevelmente marcados por esta vivência de clash entre os insurretos e os que defendem com força bruta a manutenção do status quo hispano-imperialista.

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“Mírame, madre, y por tu amor no llores, si esclavo de mi edad y mis doctrinas, tu mártir corazón llene de espinas, piensa que nacen entre espinas flores.” – José Martí, 28 de agosto de 1870. Escultura acima: monumento em Tenerife.

Mãe e filho chegam em casa para encontrar um pai que parece menos um homem que um touro enfurecido diante de um pano vermelho. O pai espanca Martí na cara, impondo seu jugo autoritário, e tenta forçar-lhe a “tirar da cabeça essa porcariada patriótica” e abandonar completamente suas atividades políticas. Mas é tarde demais para um pai tentar conter o ímpeto rebelde de sua cria. Em José Martí já arde a estrela revolucionária que nenhum jugo, por mais duro, é capaz de silenciar e invisibilizar. A estrela que haverá de queimar pelos séculos afora na própria bandeira cubana.

O filme termina com o jovem Martí, aos 16 anos, sendo preso como dissidente, dormindo no piso frio, detrás de grades, pelo crime de lutar pela libertação através de suas idéias, artigos, cartas, poemas, discursos. Mas nenhuma gaiola é capaz de calar por completo o canto do canário, de plumagem amarela mas olhos negros, que seguirá cantando mesmo nas situações mais adversas.

Levado ao tribunal, é condenado a 6 anos de presídio, com trabalho forçado. Vivencia na pele aquilo que havia antes testemunhado junto à população afrodescendente de Cuba: o jugo terrível do trabalho escravo, excessivo e brutal, sem dignidade e indignante, quebrando e carregando pedras com os pés acorrentados. Uma situação que evoca a lembrança daqueles versos da canção “I Fought The Law”, de Bob Fuller, regravada pelo The Clash e pelo Green Day“breaking rock in the hot sun: i fought the law but the law won!”

Em sua introdução ao livro Educação Em Nossa América – Textos Selecionados de José Martí (Ed. Unijuí, 2007), Danilo Streck relembra estes episódios biográficos, narrados em O Olho do Canário, e fornece breves informações sobre o que se seguiu:

“Aos 15 anos, em 1868, Martí se engajou no movimento separatista, que incluía no seu projeto a libertação dos escravos. O movimento foi derrotado e Martí condenado a 6 anos de prisão. Passou os primeiros anos realizando 12 horas diárias de trabalho forçado e conheceu em primeira mão um dos lados mais cruéis do já decadente poder colonial. Dado o seu precário estado de saúde, em 1871 a pena de prisão foi comutada para exílio, passando ele a viver na Espanha. No exílio, Martí continuou seus estudos e obteve o título de licenciado em Filosofia e Letras pela Universidade Central de Madrid. Nesse período amadureceu o seu pensamento político e publicou os primeiros textos: El Presídio Político en Cuba La República Espanhola ante La Revolución Cubana.

Saiu de Madrid em 1874 e peregrinou por vários países, entre eles México e Guatemala, retornando a Cuba em 1878. Desde a chegada estava novamente envolvido em atividades clandestinas pela independência de Cuba, o que lhe custou nova deportação um ano depois. Com rápida passagem por Madrid, seu destino desta vez foi Nova York. Ali teve contato com chefes revolucionários e foi ali que produziu a maior parte de sua obra jornalística e literária. Em Nova York também acompanhou o nascimento das políticas imperialistas dos Estados Unidos, que denunciou com a mesma veemência com que combateu a dominação da Espanha.

Martí percebeu que a verdadeira libertação de Cuba não poderia acontecer sem a união do povo, de todos os setores da sociedade. O Partido Revolucionário Cubano, fundado em 1892, assumiu esta bandeira e Martí foi a sua alma por seus ideais de unidade. O partido teve papel decisivo na luta pela independência, que estourou em 1895. Martí saiu de Nova York para se juntar às tropas comandadas pelo general Máximo Gómez. Em 19 de março daquele ano morreu em combate contra o exército espanhol, em Dos Rios, sem ter concretizado o grande sonho de sua vida.” (STRECK, op cit, p. 16-17)

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El ojo del canario – Um filme de Fernando Pérez (2010)
Leia também: LibertadoresLa Jiribilla


No livro “Versos Libres”, Martí oferta-nos o impressionante e inesquecível poema:

YUGO Y ESTRELLA

Cuando nací, sin sol, mi madre dijo:
– Flor de mi seno, Homagno generoso,
de mí y de la creación suma y reflejo,
pez que en ave y corcel y hombre se torna,
mira estas dos, que con dolor te brindo,
insignias de la vida: ve y escoge.

Éste, es un yugo: quien lo acepta, goza.
Hace de manso buey, y como presta
servicio a los señores, duerme en paja
caliente, y tiene rica y ancha avena.

Ésta, oh misterio que de mí naciste
cual la cumbre nació de la montaña,
esta, que alumbra y mata, es una estrella.
Como que riega luz, los pecadores
huyen de quien la lleva, y en la vida,
cual un monstruo de crímenes cargado,
todo el que lleva luz se queda solo.

Pero el hombre que al buey sin pena imita,
buey torna a ser y en apagado bruto
la escala universal de nuevo empieza.
El que la estrella sin temor se ciñe,
como que crea ¡crece!
¡Cuando al mundo
de su copa el licor vació ya el vivo:
cuando, para manjar de la sangrienta
fiesta humana, sacó contento y grave
su propio corazón; cuando a los vientos
de Norte y Sur virtió su voz sagrada,
la estrella como un manto, en luz lo envuelve,
se enciende como a fiesta, el aire claro,
y el vivo que a vivir no tuvo miedo,
se oye que un paso más sube en la sombra!

– Dame el yugo, oh mi madre, de manera
que puesto en él, de pie, luzca en mi frente
mejor la estrella que ilumina y mata.

MARTÍ

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ASSISTA TAMBÉM:

Educar para la revolución – Maestros de América Latina

Filosofía aquí y ahora – El pensamiento de José Martí (04×05)

ARTIGOS SUGERIDOS:

LEIA TB EM PORTUGUÊS: Dicionário Político – InfoescolaCuba VivaFrei Betto – Vermelho.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

STRECK, Danilo. Educação Em Nossa América – Textos Selecionados de José Mart.  Ijuí (RS): Editora da Unijui, 2007.

MARTÍ. Vibra el aire y retumba (Poesia). Buenos Aires: Editorial Losada, 1997.

Eduardo Carli de Moraes – Janeiro de 2017

A ser continuado…

HEGEL E O HAITI, por Susan Buck-Morss

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HEGEL E O HAITI
por Susan Buck-Morss (*)

RESUMO: O paradoxo entre o discurso da liberdade e a prática da escravidão marcou a ascensão de uma série de nações ocidentais no interior da nascente economia global moderna. O artigo explora o uso da metáfora da escravidão no iluminismo filosófico europeu, e sugere que a “dialética do senhor e do escravo” hegeliana tem raízes mais na história contemporânea – particularmente, nas notícias que chegavam à Europa da Revolução Haitiana de 1791 – do que na tradição herdada pelo filósofo alemão.

Leia o artigo completo

(*) SUSAN BUCK-MORSS é professora de filosofia política e teoria social da Universidade Cornell (EUA).

“No século XVIII, a escravidão havia se tornado a metáfora fundamental da filosofia política ocidental, conotando tudo o que havia de mau nas relações de poder. A liberdade, sua antítese conceitual, era considerada pelos pensadores iluministas o valor político supremo e universal. Mas essa metáfora política começou a deitar raízes justamente no momento em que a prática econômica da escravidão – a sistemática e altamente sofisticada escravização capitalista de não europeus como mão de obra nas colônias – se expandia quantitativamente e se intensificava qualitativamente, ao ponto de, em meados do século XVIII, ter chegado a sustentar o sistema econômico do Ocidente como um todo, facilitando, paradoxalmente, a expansão global dos próprios ideais do Iluminismo que tão frontalmente a contradiziam.

Essa discrepância gritante entre pensamento e prática marcou o período de transformação do capitalismo global de sua forma mercantil para sua modalidade proto-industrial. Seria de se esperar que nenhum pensador racional e “esclarecido” deixaria de percebê-la. Contudo, não era esse o caso.

A exploração de milhões de trabalhadores escravos coloniais era aceita com naturalidade pelos próprios pensadores que proclamavam a liberdade como o estado natural do homem e seu direito inalienável. Mesmo numa época em que proclamações teóricas de liberdade se convertiam em ação revolucionária na esfera política, era possível manter nas sombras a economia colonial escravista que funcionava nos bastidores.

Se esse paradoxo não parecia incomodar a consciência lógica dos contemporâneos, talvez seja mais surpreendente que alguns autores, ainda hoje, se disponham a construir histórias do Ocidente na forma de narrativas coerentes do avanço da liberdade humana….”

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SIGA VIAGEM: Da Escravidão à Emancipação: a Jornada Libertária de Frederick Douglass (1818-1895)

A ESSÊNCIA DO BLUES – “Nobody Knows You When You ‘re Down and Out!”

A ESSÊNCIA DO BLUES / EXPLORAÇÕES DE UM TEMA INESGOTÁVEL
Por Eduardo Carli de Moraes

Algo da essência visceral do blues encontra-se encapsulada para a eternidade nesta maravilha da história da arte que é “Nobody Knows You When You ‘re Down and Out” (ouça no player acima). Minha interpretação predileta, de longe, é a da Bessie Smith, esta cantora de voz sublime e que só tem rivais, em capacidade de comunicar afetos intensos, em figuras como Nina Simone, Billie Holiday e Janis Joplin. O “lamento” que este blues expressa tem a ver, é claro, com uma crise existencial, talvez maníaco-depressiva; a “tônica afetiva” é o estar na fossa, “down and out”. Pois todo blueseiro sabe que o melhor local para tocar um blues é o fundo do poço. Desde que o fundo do poço não seja motivo para suicídio, mas sim ensejo para um lamento musicado que torna o sofrimento sublime e alivia-nos como uma nuvem carregada faz com sua tempestade descarregada… eis o blues, quintessencialmente, ao que parece a este bluephílico.

JLHooker

John Lee Hooker

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Muddy Waters

Digo isso pois já cansei de ler, em livrinhos didáticos para músicos, uma certa explicação reducionista do sentimento que conhecemos por blues, como se houvessem algumas situações bem específicas que gerariam o feeling blue:  o blueseiro (a) chora a perda de seu amor, que se foi e deixou-o só; ou lamenta alguma crocodilagem de alguém que o prejudicou e depois largou-o no chão sem auxílio, sem dó nem piedade, atolado na fossa. Um autor como Sandy Weltman tenta ensinar o que é o blues escrevendo: “Digamos que você acorda uma bela manhã, sozinho e confuso. Dá conta de que há uma nota escrita que dorme no travesseiro a teu lado. Você decifra as palavras e toma consciência de que sua amada (ou amado) abandonou-te durante a madrugada. Você está devastado…”

Enfim: no exemplo vem embutida a tese de que o blues nasce da devastação emocional. Duvido da definição, pois o que me parece mais essencial no blues é justamente a força que nele se manifesta de sair da fossa, ao invés de nela chafurdar. Falo de seu “valor psicoterapêutico”, da cantoria como redentora do pesar íntimo. Penso no fato de que o blueseiro fica empoderado fortalecido pela expressão que realiza de seu estado emocional conturbado. O blues é lindo justamente como expressão de alguém que não se submete em silêncio à devastação, mas, justamente, canta seu blues, transfigurando a sua dor, fazendo da ferida beleza.

Não basta estar emocionalmente devastado para tornar-se por isso “veículo” do blues: quem está devastado pode muito bem cortar os pulsos, pular da janela do prédio ou ir à farmácia comprar Prozac. Se uma espécie de devastação emocional está na origem do blues, este se julga não só pela raiz mas pelos frutos, e o fruto é uma canção em que o sofrimento é trabalhado de modo a tornar-se um elo, uma ponte, que une o ser humano lamentante a seus semelhantes, todos eles mortais sofrentes; o blues é uma devastação emocional que não se cala mas, pelo contrário, se canta, e neste processo congrega o eu solitário que fez de sua ferida um belo cântico.

O mesmo autor citado acima, Sandy Weltman, logo derrapa na banana ao escrever umas abobrinhas sobre “devastação emocional”. Ele exemplifica as situações que gerariam blues citando um certo “Fulano que teve sua BMW novinha ginchada pelo repo man” ou certo “Sicrano que é acordado pela manhã pelo telefonema do patrão dizendo: ‘você já atrasou-se 4 vezes esta semana, dorminhoco! Está despedido, pegue seu cheque e suma!”

Bem, as “derrapadas” aí estão nos exemplos um pouco triviais de pequenas contrariedades cotidianas. Isso pode até dar um bluesinho, mas nunca um  bluesão! Não é matéria tão trivial, mas muito mais sangrenta e visceral, o que move afetivamente clássicos como “Spoonful” (de Willie Dixon, interpretada por Howlin Wolf ou Cream) e “Hey Joe” (do The Jimi Hendrix Experience).


Aqui estamos lidando com crimes passionais, homicídios impulsivos, a hýbris da afetividade humana em todo o esplendor das irracionalidades destravadas! O Joe que pega uma arma (“hey Joe, where are you goin’ with that gun in your hand?”) e mata a mulher infiel (“I’m gonna shoot my lady cause I caught her messin’ round with another man”), isso não é brinquedo, é sangue correndo. Já aquele eu-lírico que implora por uma colher-cheia (a spoonful) de amor, mas logo torna-se bélico e ameaçador, também não tá de brincadeira: “com meu revólver-45 eu te salvo do teu outro homem!” (“It could be a spoonful of water / To save you from the desert sand / But one spoon of lead from my forty-five / I save you from another man”). Não é moleza o tema do blues e tanto é assim que o tal do Joe, narrativa da folktale entoada pelo rapsodo-blueseiro, pode acabar com a cabeça na forca, mandado pra tumba pelo hangman…

RJ

Robert Johnson

Son_House_01

Son House

Weltman não desce ao fundo do poço para sondar o solo de onde fermenta a vegetação tropical extraordinária do blues. Não há pesar digno de um bom blues na histeriazinha miúda de um burguês diante de seu carro-de-elite que foi-lhe provisoriamente tirado! Não é blues o que sente o coxinha que tira selfies com a PM no dia da “Manifestação Patriótica Pelo Impeachment”. Os sentimentos mesquinhos, as “burguesices do coração”, não tem nada a ver com o blues. “São tudo pequenas coisas e tudo deve passar”, como cantou Renato Russo em um verso de altíssimo teor de blues no cancioneiro da Legião. Ainda que a sonoridade de “Meninos e Meninas” deva mais aos Smiths e ao Echo & The Bunnymen, há o sabor, no lirismo que inicia a canção, de um blues sentido: 


“Quero me encontrar mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui…”

A caretice e a covardia não dão bons blues – é, aliás, o que recebe pedrada de Cazuza em seu afiado “Blues da Piedade”! O blues nasce de um pesar autêntico que o sujeito musica e expressa tendo em mira a diminuição de seu fardo, já que ele dividiu-o conosco.


Blues da Piedade
Cazuza

“Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem.”

O que uma canção como “Nobody Knows You When You’re Down and Out” revela tão bem é a natureza desse pesar que o blues expressa. Eu diria que é um pesar multifacetado, mas que tem por fundo o fato do sofrimento subjetivo ser algo que dificilmente encontra abrigo no outro, por exemplo como consolação e escuta. A alteridade é com frequência o locus do desamparo e não do apoio, da solidão duramente experimentada e não da comunhão beatífica de eus que comungam. A música da Bessie Smith expressa muito bem o sentimento recorrente do “nobody to tell your troubles to” que está tão umbilicalmente conectado com o sentimento do blues. O que pesa, enfim, não é só a dor, mas não ter a quem contá-la, no sentido de: não há com quem compartilhá-la, não há quem divida comigo este fardo.

Bessie Smith chora com sua linda voz pela fossa que é “ninguém te conhecer quando você está down-and-out”. A noção, altamente blues, de que o mundo é assim: “ria, e vão rir contigo; chore, e chorarás sozinho!” Os maníaco-depressivos, os melancólicos, os rotulados como “esquizos”, os desviantes e divergentes de toda estirpe, com frequência precisam recorrer, quando dispõem de meios financeiros para tal, aos psicanalistas, estas “orelhas de aluguel” que estão lá, em larga medida, como escutas para um blues que quer ser expressado, um desconforto íntimo que deseja verbalizar-se, compreender-se, exprimir-se.

Ouçam nas palavras que Bessie tão bem entoa que o ex-milionário, que protagoniza este blues maravilhoso, canta, na pobreza, sobre os tempos idos de bonança. É o drama da riqueza perdida, o pesar pela perda de algo maior do que o capital, o que canta-se em “Down and Out”. Em sua versão primorosa da música, o Eric Clapton também soube, com seu tom de voz um tanto aristocrático, very British and very gentleman, destacar esta temática do ex-rico, ou do rico decaído. O que mais dói, o pesar maior que o blueseiro expressa, não é a queda de classe social, a diminuição da bufunfa na conta bancária, mas algo mais: a falta de amizade, a ausência de solidariedade, a descoberta, enfim, de que todos os amigos eram falsos, amigos-da-onça, que só queriam a companhia do rico-feliz, e agora fogem para longe do empobrecido-miserável, que fica restrito à uma solidão lamentada em canção:

“Once I lived the life of a millionaire,
Spent all my money, I just did not care.
Took all my friends out for a good time,
Bought bootleg whiskey, champagne and wine.

Then I began to fall so low,
Lost all my good friends, I did not have nowhere to go.
I get my hands on a dollar again,
I’m gonna hang on to it till that eagle grins.

‘Cause no, no, nobody knows you
When you’re down and out.
In your pocket, not one penny,
And as for friends, you don’t have any.

When you finally get back up on your feet again,
Everybody wants to be your old long-lost friend.
Said it’s mighty strange, without a doubt,
Nobody knows you when you’re down and out.

When you finally get back upon your feet again,
Everybody wants to be your good old long-lost friend.
Said it’s mighty strange,
Nobody knows you,
Nobody knows you,
Nobody knows you when you’re down and out.”

É um clichê onirepetido que o o blues teve um filho rebelde chamado rock’n’roll. As obras de Rolling Stones, Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Cream, Eric Clapton, Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd, são evidências suficientes: de fato, estavam calcadaços no blues estes mamutes rockers da era-de-ouro. Mas será que deixou de ser assim? A vertente prossegue seu caminho histórico e hoje em dia The White Stripes ou The Black Keys, dois novos gigantes da música global, também estão enraizados no blues até o pescoço. Às vezes até a testa! Esta sobrevivência do blues só pode ser explicada pelo afeto que o anima, pois mais que um estilo musical o blues é uma espécie de experiência de mundo. 


blues, diante do pesar, da perda, do luto, da desgraça, da tragédia, oferece como medicina e bálsamo a própria expressão emocionada do sujeito sobre sua condição. Assim inventou-se uma das formas artísticas mais valiosas e duradouras a ser gerada no solo da América do Norte. E não é de surpreender que o blues esteja historicamente conectado com a Diáspora Negra, ou melhor, com o imperialismo europeu em seus ímpetos escravagistas e dominadores e seus efeitos perversos pelo globo e pela história afora. Sem a escravidão, talvez não tivesse nascido o blues, nem pudesse ele ter ganho tamanha força, tamanha representatividade como uma voz incalável da Cultura.

O humano escravizado, arrancado de seu lar pátrio e sua cultura própria em sua casa africana e conduzido por coerção e violência ao trabalho forçado, este sim tem uma razão ontológica radical de cantar seu blues. Por isso, aprendo bem mais sobre o blues lendo Frederick Douglass do que os manuais de “aprenda a tocar blues para dummies”. São lindíssimas as palavras que Fred Douglass dedica ao tema da expressão musical do sofrimento, subjetivamente vivenciado, do povo “de cor”, sofrido, humilhado, espoliado (mas que sempre encontra a fortitude e a coragem venerável para criar, em face dos opressores, monumentos perenes de sua humanidade como são os melhores blues). Uma boa máquina para demolir mentalidades racistas é uma boa vitrola que toque, sem parar, a obra de Howlin Wolf, Ella Fitzgerald, Son House, Muddy Waters, Little Richard, Chuck Berry, Jimi Hendrix, James Brown, Nina Simone, Ray Charles, Robert Johnson, Lauryn Hill, Sarah Vaughan, dentre inumeráveis outros mestrxs…

Quando leio as palavras de Douglass eu sinto que teria sido maravilhoso se ele tivesse nos legado também uns blues, cantados por voz própria, pois eis um escritor que tem uma profunda voz de blueseiro que o leitor sente emanando de suas páginas. O valor histórico delas está no testemunho que trazem de alguém que vivenciou em carne-e-osso a escravidão (algo que o cinema também conseguiu capturar com maestria em obras como Spartacus, de Stanley Kubrick, 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen, ou o clássico brasileiro Abolição, do Zózimo Bulbul).

Douglass revela a condição daqueles que estão sendo tratados, por seus “donos”, como mercadorias, livestock. O racismo institucionalizado pelo imperialismo europeu era bem isso: tratar um irmão humano como se fosse gado. E gado escravizável, como todo gado (é só visitar as atuais “fábricas da carne”, de nossa gloriosa pecuária industrial globalizada, para perceber o tamanho da escravização que o ser humano é capaz de impor a outros seres vivos…).

É estarrecimento, assombro e discórdia o que Douglass sente por aqueles que “falam sobre o canto dos escravos como evidência de seu contentamento e felicidade”:

WAR AND CONFLICT BOOKERA: CIVIL WAR/BACKGROUND: SLAVERY & ABOLITIONISM

Frederick Douglass, autor de “The Narrative of the Life of an American Slave”, um clássico da literatura norte-americana

“I have often been utterly astonished, since I came to the north, to find persons who could speak of the singing, among the slaves, as evidence of their contentment and happiness. It is impossible to conceive a greater mistake. Slaves sing most when they are most unhappy. The songs of the slaves represent the sorrows of his heart; and he is relieved by them, only as an aching heart is relieved by its tears. At least, such is my experience. I have often sung to drown my sorrow, but seldom to express my happiness. Crying for joy, and singing for joy, were alike uncommon to me while in the jaws of slavery. The singing of a man cast away upon a deserted island might be as appropriately considered as evidence of contentment and happiness, as the singing of a slave; the songs of the one and of the other are prompted by the same emotion.” The Narrative of the Life of an American Slave

Outro autor que muito nos esclarece sobre a essência do blues é o “polaco loco paca”, Paulo Leminski, em seu livro devotado ao poeta Cruz e Souza, “O Negro Branco” (publicado em 1983). Nesta obra – que integra o livro Vida recentemente publicado pela Cia das Letras – Leminski sugere que o poeta Cruz e Souza foi uma espécie de proto-blueseiro: “Fosse um negro norte-americano, Cruz e Sousa tinha inventado o blues. Brasileiro, só lhe restou o verso, o soneto e a literatura para construir a expressão da sua pena.” (pg. 22)

Tanta pena cantou o Cruz, que quase inventou o blues!

O blues como gênero musical tem sua história, mas o que interessa a Leminski é analisar outra história: a de sentimentos, intimamente relacionados, apesar de provenientes de diferentes culturas, o blues, banzo, spleen, sabishisa. Para Leminski, o blues caracteriza um modo-de-sentir afro-americano vinculado às penas da escravidão e da opressão; o banzo, similarmente, denota uma nostalgia intensa que faz com que os negros, roubados de sua pátria, adoeçam de saudade e parem de trabalhar, sem que a tortura do chicote ou do ferro em brasa possam retirá-los da letargia; o spleen está mais conectado ao lirismo de poetas que lamentaram o tédio e a sensaboria de viver (como um Byron, um Baudelaire, um Álvares de Azevedo – ou no cinema de Antonioni, Tarkovsky ou Bergman); finalmente, o termo japonês sabishisa, que Leminski descreve como uma tristeza, um “abatimento emocional diante das coisas e do fluxo dos eventos: a tristeza de quem sabe que as coisas passam, nada dura, tudo é fluxo, metamorfose e impermanência, heraclitiano fundamento do budismo em geral. Sabishisa, para os poetas japoneses de haikai, é uma condição para a produção do haikai.” (pg. 23)

Neste contexto dos quatro sentimentos, historicamente determinados, que expressam o mal-estar na existência, Leminski situa o blues como algo que, antes de tornar-se gênero musical, foi “modo-de-sentir”:

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Paulo Leminski

“O fato é que o blues (sentimento) produziu uma das modalidades musicais mais poderosas do século 20. Basta dizer que todo o rock and roll deriva, diretamente, de blues e suas variantes (rhythm-and-blues etc.), traduzidas para um repertório branco e comercializadas (Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones). Musicalmente, tudo resultou de um cruzamento entre a musicalidade natural do negro e o contato com a parafernália instrumental branca.

O próprio jazz resultou da oportunidade que os negros tiveram de conseguir e usar, à sua maneira, os instrumentos de origem européia. Isso se deu, de modo especial, em New Orleans, nos EUA, ponte de conjunção de várias culturas, france, anglo-saxã, africana.

Isso que se entende como blues, gênero musical, não tem data de nascimento: parece se confundir com a própria expressão do sentimento do primeiro negro trazido para a América como escravo.

Quem saberia ouvi-la nos spirituals, os cantos corais das igrejas batistas, anabatistas e presbiterianas da Nova Inglaterra? Ou nas work-songs, canções de trabalho dos negros submetidos à alvamente irônica monocultura do algodão no sul dos Estado Unidos? Ou nos shouts, dos negros berradores, em cabanas à beira do Mississippi, esperando passar o próximo barco, cassino de rodas a vapor, shouting entre sapos, lagartos e outros seres estranhos do pantanal?

Tem blues nas canções anônimas da anômala fauna de New Orleans, putas, seus gigolôs, drogados, ex-penitenciários, homossexuais, crupiês, marginais, mais que isso, negros marginais, destinos cortados, restos de vida, párias do mundo.

Big Bill Broonzy, Leabdbelly, T-Bone Walker.

As grandes damas: Bessie Smith (atropelada, em pleno delirium tremens de gim, não foi socorrida no hospital a que foi levada porque era negra. E essa suprema Billie Holliday, “Lady Day”, que soube tirar tudo que o som tem de dor.”

Voilà a essência do blues!


p.s. – Na abertura do post, lá em cima, o sublime Mississipi John Hurt. Ouça-o e desfrute-o:

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LEIA TAMBÉM @ A CASA DE VIDRO:

A JORNADA LIBERTÁRIA DE FREDERICK DOUGLASS

“O POVO BRASILEIRO” – Série completa, em 10 episódios, baseada na obra de Darcy Ribeiro [1922 – 1997] (com Chico Buarque, Antonio Candido, Tom Zé, Aziz Ab’Saber, Paulo Vanzolini e outros…)

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“O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil”, Darcy Ribeiro (Cia das Letras, 1995) – ACESSE E BAIXE O EBOOK (PDF, 28 MB)

“Darcy Ribeiro é um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve. Não apenas pela alta qualidade do seu trabalho e da sua produção de antropólogo, de educador e de escritor, mas também pela incrível capacidade de viver muitas vidas numa só, enquanto a maioria de nós mal consegue viver uma.” Antonio Candido, Folha de S.Paulo

Orelha: “Por que o Brasil ainda não deu certo? Darcy Ribeiro, ao chegar no exílio, no Uruguai, em abril de 1964, queria é responder a essa pergunta na forma de um livro-painel sobre a formação do povo brasileiro e sobre as configurações que ele foi tomando ao longo dos séculos. Viu logo, porém que essa era uma tarefa impossível, pois só havia o testemunho dos conquistadores. E sobretudo porque nos faltava uma teoria crítica que tornasse explicável o mundo ibérico de que saímos, mesclados com índios e negros. Afundou-se, desde então, na tarefa de produzir seus Estudos de antropologia da civilização, que pretendem ser essa teoria. A propósito deles, Anísio Teixeira observou que “embora um texto introdutório, uma iniciação, não é reprodução de saber convencional, mas visão geral, ousada e de longa perspectiva e alcance. Darcy Ribeiro é realmente uma inteligência-fonte e em livros desse tipo é que se sente à vontade. Considero Darcy a inteligência do Terceiro Mundo mais autônoma de que tenho conhecimento. Nunca lhe senti nada da clássica subordinação mental do subdesenvolvido.”

TODOS OS 10 EPISÓDIOS DA SÉRIE,
DIRIGIDA POR ISA GRINSPUM FERRAZ:

P.S. – Para comprar o BOX com 2 DVDs da série, dê um pulo no Submarino.