OS MELHORES ÁLBUNS DA MÚSICA BRASILEIRA EM 2018: Ouça a todos na íntegra [Seleção A Casa de Vidro]

“Eles querem um preto com arma pra cima
Num clipe na favela, gritando cocaína
Querem que nossa pele seja a pele do crime
Que Pantera Negra só seja um filme
Eu sou a porra do Mississipi em chamas
Eles têm medo pra caralho de um próximo Obama
Racista filha da puta, aqui ninguém te ama
Jerusalém que se foda, eu tô a procura de Wakanda.”
BACO EXU DO BLUES

Tudo junto e misturado, compartilhamos aqui um apanhado geral com alguns dos grandes discos da MPB (sigla considerada no sentido o mais amplo possível) que consideramos os mais significativos da safra 2018. Um ano em que tivemos o retorno de divas e gênios consagrados, como Elza Soares, Gilberto Gil e Gal Costa; tivemos bandas veteranas do cenário manguebeat pernambucano de volta com lançamentos, como Mundo Livre S.A., Eddie e Cordel do Fogo Encantado; tivemos a revelação e consolidação de novos talentos do hip hop (Baco Exu do Blues, Edgar) e no folk-rock (Joe Silhueta, The Baggios, Bemti) etc.

As mulheres arrasaram com discos de alta qualidade: Mulamba, Luiza Lian, Anelis Assumpção, Ava Rocha, Iza, Ceumar, Ana Cañas, Mahmundi, todas marcaram um ano que teve em Deus É Mulher uma de suas obras mais emblemáticas, reafirmando Elza como lenda viva.

Em específico no cenário goiano, que acompanho mais de perto, tivemos a consolidação do Carne Doce com seu terceiro álbum Tônus, o retorno do Cambriana com Manaus Vidaloka e o primoroso álbum de estréia do Ave Eva. Além disso, fortaleceram-se muito no cenário figuras como Adriel Vinícius, Vitor Hugo Lemes (assista ao video-clipe abaixo), Diego Mascate, Pó De Ser – que prometem excelentes lançamentos para 2019.

Além disso, o documentário Novos Goianos (de Isaac Brum) foi lançado, conquistando o prêmio de melhor curta nacional no Lobo Fest de Brasília, uma relevante premiação para um filme dedicado ao novo cenário musical autoral goianiense, encabeçado pelo sucesso de Boogarins, Carne Doce e Diego de Moraes.

Na sequência, aprecie os bons sons destes álbuns magistrais – uma seleção que A Casa de Vidro realizou baseada nas seleções e listas de melhores do ano de Tenho Mais Discos Que Amigos, Rolling Stone Brasil, Multimodo, Miojo Indie, Eu Escuto, dentre outras fontes. Suba o volume pro talo e boa fruição!

Vale mencionar, entre os eventos memoráveis de 2018, também a conturbada turnê brasileira do Roger Waters @ Pink Floyd, que marcou época em seus protestos contra Bolsonaro. Waters pediu resistência, ironizou a censura e aderiu ao movimento#EleNão, a principal mobilização cidadã ocorrida no Brasil em 2018.

Ao mandar no telão frases como Resist The Unholy Alliance of Church and State – Resistam Contra a Ímpia Aliança da Igreja e do Estado – o tiozão tornou-se um emblema de artista engajado na luta contra o fascismo. De lambuja foi entrevistado por Caetano Veloso em um excelente programa da Mídia Ninja (assista abaixo) e estes episódios renderam um dos melhores artigos de reflexão na crítica musical neste ano: Para o duplipensar brasileiro, Roger Waters é uma ameaçade Maurício Angelo na Revista Movin’ Up.

– Por Eduardo Carli de Moraes

ELZA SOARES – Deus é Mulher


GILBERTO GIL – Ok Ok Ok


BACO EXU DO BLUES – Bluesman


ANDRÉ ABUJAMRA – Omindá


MULAMBA


ANELIS ASSUMPÇÃO – Taurina


IZA – Dona de Mim


THE BAGGIOS – Vulcão [DOWNLOAD]


CAMBRIANA – Manaus Vidaloka


TUYO – Pra Curar


MATEUS TORREÃO


EL EFECTO – Memórias do Fogo


BIG PACHA – 11:11 [DOWNLOAD]


ILLY  – Vôo Longe


EDDIE – Mundo Engano


EDGAR – Ultrasom


JOE SILHUETA – Trilhas do Sol


DISASTER CITIES – Lowa


BLACK PANTERA – Agressão


MENORES ATOS – Lapso


CARNE DOCE – Tônus


AVE EVA


MARIA BERALDO – Cavala


LUIZA LIAN – Azul Moderno [DOWNLOAD]


WADO – Precariado [DOWNLOAD]


GAL COSTA – A Pele do Futuro [DOWNLOAD]


PENSE – Realidade, Vida e Fé


DINGO BELLS – Todo Mundo Vai Mudar


ANA CAÑAS – Todxs


MAHMUNDI – Pra Dias Ruins


HAMILTON DE HOLANDA TOCA JACOB DO BANDOLIM


MAURÍCIO PEREIRA – Outono no Sudeste


MUNDO LIVRE S/A – A Dança dos Não Famosos


AVA ROCHA – Trança


VIOLINS – A Era do Vacilo


TATÁ AEROPLANO – Alma de Gato [DOWNLOAD]


JOSYARA – Mansa Fúria [DOWNLOAD]


FELIPE RET – Audaz


INQUÉRITO – Tungstênio


NEGRA LI – Raízes


RODRIGO CAMPOS – 9 Sambas


E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE – Fundação


ADORÁVEL CLICHÊ – O Que Existe Dentro De Mim


CATAVENTO – Ansiedade na Cidade


BEMTI – Era Dois


MARCELO CAMELO – Sinfonia Número 1


MARRAKESH – Cold as a Kitchen Floor


CEUMAR, LUI COIMBRA E PAULO FREIRE – Viola Perfumosa
https://open.spotify.com/embed/album/3QngmgwnfNw5sQhvZ7iW5X


A SER CONTINUADO…
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O TEMPLO DO TEMPO – Sobre um dos grandes álbuns da música brasileira contemporânea: “Cordões Umbilicais”, de Flaira Ferro

“Eu sou o templo do tempo, o tempo acontece em mim”, canta Flaira Ferro em uma das mais belas canções de seu vigoroso álbum de estréia, Cordões Umbilicais (click para ouvir na íntegra o disco de 11 faixas que se estendem por 35 min; se preferir, faça o download).

Eis uma das obras mais magistrais da MPB nos últimos anos. Um disco que podemos habitar por meses e anos, como quem adentra um templo do tempo onde lá dentro podemos vivenciar o incrível poder da arte: ela transfigura a nossa consciência cotidiana, expandindo-a através das magias de todas as suas dinâmicas e fluxos:

“A gente não vê
Mas o ar está cheio de ondas
Um mundo invisível se mexe
E a gente nem se dá conta…

Por isso que olho pra dentro de mim
Buscando a força que existe no amor
Newton já disse em lei universal
Toda ação tem uma reação…”

Lacrando no desrecalque, Flaira segue o conselho de Gonzaguinha e vive a “cantar e cantar e cantar a beleza de ser uma eterna aprendiz”, criando ousadas expressões de empoderamento (individual e coletivo) através de motes como:

“Não tem coisa mais bonita
Nem coisa mais poderosa
Do que uma mulher que brilha
Do que uma mulher que goza…

Toda mulher que deseja
Acende a força erótica que excita a criação
Dê suporte à mulher forte
Quem sabe a gente muda a nossa sorte

Toda mulher que se toca
Instiga a auto estima
Estimula o botão
Mesmo que o mundo se choque
O clitóris é antídoto pra morte

Não me vem com tarja preta
Deixa livre a minha teta!

Cê tá maluco
Ou entorpecido
Pela falsa ideia
De dominação

Cê tá esquecido
Mulher sem libido
Não tem natureza
Vira papelão

Homem de armadura
Constrói prisão bélica
De postura fálica
Perde o coração

Homem de verdade
Enxerga beleza
Na mulher que é dona
Do próprio tesão
Na mulher que é dona
Do próprio não!”

Em sintonia fina com a complexidade da vida social contemporânea, Flaira Ferro também é uma mulher enraizada na ancestralidade. Uma visionária que põe o frevo em sinergia com a era da internet, que faz do folk uma ferramenta de demolição do palavrório do patriarcado, que bota de novo o mangue e seus beats no epicentro do cosmos.

Ela inunda de poesia e filosofia a nossa sempre inventiva e reinventiva MPB. Soma-se a Anelis Assumpção, Larissa Luz, Sara Não Tem Nome, Liniker, Maria Gadu, Tássia Reis, Bia Ferreira, Doralyce, Elza Soares, dentre outras musas, no epicentro deste fenômeno cultural de intensa maravilhosidade – a musicalidade das manas e minas brasileiras.

A Música Popular Brasileira renova-se através da práxis cultural desta cantora, compositora e dançarina que é Flaira Ferro. Ela compõe como quem compartilha sabedoria e com aconselha-se à superação de si. Trolla, delicado, com o ser humano, “bicho homem” que é esquisito, “armadilha de si mesmo”.

Avessa às açucaradas e lucrativas canções clichezentas de amor romântico banal, movidas a fórmulas vendáveis, Flaira sabe expressar melancolias, temores, fúrias, indignações. O colorido dos afetos que animam essas músicas é o que mais torna a arte de Flaira algo de tão impressionante potência.

Em uma comovente participação no TEDx Pernambuco, Flaira rememorou aspectos de sua trajetória biográfica e cantou sua linda canção “Me Curar de Mim” a capella. Quem não se comover com essa cantoria (e essa poesia de lirismo sofisticado) pode pegar na porta-de-saída o seu certificado de coração-de-pedra.

Essa mulher criativa e expressiva, repleta de promessa, maga das belezas múltiplas, falou assim sobre essa obra-prima do neocancioneiro: “Acredito que essa música ‘Me Curar de Mim’ não é mais minha. Ela não pertence mais a uma pessoa só. Eu me vejo muito mais como uma facilitadora de um sentimento que estava no inconsciente coletivo. Porque vivemos uma crise moral e espiritual muito grande. Há guerras por conta de religião, intolerâncias dentro do nosso próprio país. Acho que essa música é uma mensagem para que faça a gente olhar além do nosso umbigo, do alto da nossa responsabilidade” (Correio Brasiliense).

Na canção, esta jovem e sábia artista que floresce no cenário cultural de Pernambuco dá a lição, preciosa escola: “Para me encher do que importa/ Preciso me esvaziar/ Minhas feras encarar/ Me reconhecer hipócrita/ (…) Mas se eu não tiver coragem/ Pra enfrentar os meus defeitos/ De que forma, de que jeito,/ Eu vou me curar de mim?”

SIGA VIAGEM – EXPERENCIE FLAIRA FERRO:

ME CURAR DE MIMPor Flaira Ferro

“Sou a maldade em crise
Tendo que reconhecer
As fraquezas de um lado
Que nem todo mundo vê

Fiz em mim uma faxina e
Encontrei no meu umbigo
O meu próprio inimigo
Que adoece na rotina

Eu quero me curar de mim

O ser humano é esquisito
Armadilha de si mesmo
Fala de amor bonito
E aponta o erro alheio

Vim ao mundo em um só corpo
Esse de um metro e sessenta
Devo a ele estar atenta
Não posso mudar o outro

Eu quero me curar de mim

Vou pequena e pianinho
Fazer minhas orações
Eu me rendo da vaidade
Que destrói as relações

Pra me encher do que importa
Preciso me esvaziar
Minhas feras encarar
Me reconhecer hipócrita

Sou má, sou mentirosa
Vaidosa e invejosa
Sou mesquinha, grão de areia
Boba e preconceituosa

Sou carente, amostrada
Dou sorrisos, sou corrupta
Malandra, fofoqueira
Moralista, interesseira

E dói, dói, dói me expor assim
Dói, dói, dói, despir-se assim

Mas se eu não tiver coragem
Pra enfrentar os meus defeitos
De que forma, de que jeito
Eu vou me curar de mim?

Se é que essa cura há de existir
Não sei… só sei que a busco em mim
Só sei que a busco…
Me curar de mim.”

Flaira Ferro


Do álbum “Cordões Umbilicais”

VEJA TAMBÉM:

“Tristeza mora comigo
Por causa da solidão
Eu pareço andorinha
Querendo fazer verão
Uma gota de água doce
Querendo ser ribeirão
Uma semente caída
Querendo ser plantação
Mas olhando pro deserto
Eu sou apenas um grão de areia…
 
Eu sou um peixe do cardume
No mar da imensidão
Eu sou uma flor do Cerrado
Que nasceu fora da estação
Quero ser bom capoeira
E jogar com o coração
Mas olhando pro deserto
Eu sou apenas um grão de areia…
 
Queria ser o luar
Iluminando o meu sertão
Ou então ser uma estrela
De qualquer constelação
Vou levando minha vida
Com o meu pandeiro na mão
Mas olhando pro deserto

Eu sou apenas um grão…”

1968: A MÚSICA CANTA A HISTÓRIA – Movimento Estudantil vs Ditadura Militar, do Calabouço ao AI-5 (Por Eduardo Carli de Moraes)

1968: A MÚSICA CANTA A HISTÓRIA

“A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá…”
Chico Buarque de Hollanda

Neste turbulento ano 2018, relembrar 1968 torna-se urgente e inadiável. Não apenas pois meio século transcorreu desde então, e a redondeza deste marco – “50 anos depois…” – convida a lembrança a se exercitar, fornecendo pautas memorialistísticas aos jornalistas, documentaristas e historiadores.

Por uma razão melhor que esta, acredito, é que devemos nos debruçar sobre este passado específico: quem não conhece sua História, e não aprende com ela, tende a repetir os equívocos de gerações passadas. Neste sentido, a música pode ser excelente professora, caso saibamos abrir as portas da percepção e da cognição para ouvir seus ensinamentos, melodiosos e rítmicos, cheios de feitiço, com alto potencial de nos conceder benefícios que vão muito além dos deleites estéticos.

Re-ouvindo e re-decodificando aquelas antológicas canções – de Chico Buarque, de Gilberto Gil, de Geraldo Vandré, dos Mutantes, de Caetano Veloso, de Gonzagão e Gonzaguinha, de Milton Nascimento, de Elza Soares, de Tom Zé, de Jards Macalé, de Itamar Assumpção, de Clara Nunes, de Aldir Blanc e João Bosco, de Edu Lobo, de Gal e de Bethânia etc. – temos acesso ao nosso pretérito tal qual foi vivenciado e expressado por nossos maiores e melhores artistas, os mais sensíveis e criativos dentre os cidadãos ativos que sentiram na pele as fúrias e as esperanças da época.

Eles continuam nos ensinando sobre o tamanho do erro grotesco que seria permitir a re-emergência de um regime político autoritário e ditatorial, após tantos horrendos horrores que nos feriram desde o Golpe do 1º de Abril de 1964, início daqueles 21 anos de trevas (1964 – 1985) que até hoje lançam suas sombras sobre nosso presente.

Com a candidatura fascista do boçal Bolsonaro, encarnação do entulho militarista e truculento entre nós, figurando em 2º lugar nas pesquisas de intenção de voto para a presidência da república, só atrás de Lula (que está preso e provavelmente será impedido de disputar o pleito, apesar de ONUs e Papas, apesar de festivais e greves de fome, apesar de manifestações e protestos!), urge que a gente aprenda sobre as cagadas pretéritas. Para que possamos perceber, a tempo, o tamanho obsceno da cagada iminente que talvez façamos em breve, como sociedade, cometendo um crime de lesa-povo que só mesmo poderia perpetrar um bando demasiado vasto de amnésicos.

“1968 foi um ano marcado por grandes protestos estudantis contra a ditadura, por importantes greves operárias e pela rearticulação das forças de oposição”, escreve Franklin Martins. “O ano ficou marcado também pelo recrudescimento da repressão, pelo desencadeamento de atentados terroristas pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e pelo contínuo fortalecimento da linha-dura nos altos comandos das Forças Armadas.” (MARTINS, Quem Foi Que Inventou o Brasil, vol. 2, 2015, pg. 35)

No dia 28 de Março, “estudantes organizaram uma passeata para protestar contra a baixa qualidade das refeições e as péssimas condições de funcionamento do Restaurante Central dos Estudantes, conhecido como Calabouço. A Polícia Militar (PM) já chegou disparando. Vários comensais – assim eram chamados os estudantes que usavam o restaurante, em sua maioria secundaristas pobres – foram feridos à bala. Um deles, o paraense Edson Luís de Lima Souto, de 18 anos, morreu no local.”  (pg. 82)

Milton Nascimento e Ronaldo Bastos: “Menino”

“Quem cala sobre teu corpo
Consente na tua morte
Talhada a ferro e fogo
Nas profundezas do corte
Que a bala riscou no peito
Quem cala morre contigo
Mais morto que estás agora
Relógio no chão da praça
Batendo, avisando a hora
Que a raiva traçou no tempo
No incêndio repetido
O brilho do teu cabelo
Quem grita vive contigo.”

A canção “Menino”, fruto dos acontecimentos de Março de 1968, só seria gravada muitos anos depois e lançada em Geraes, álbum de 1976. Como lembra Ridenti, “a lembrança do enterro de Edson Luís também inspirou Milton Nascimento e Wagner Tiso na composição de “Coração de Estudante”, em 1983, para a trilha sonora do filme Jango, de Silvio Tendler.” (RIDENTI, Em Busca do Povo Brasileiro, p. 56)

“Antes do golpe militar de 1964, o Calabouço – nos tempos do Império, o local havia abrigado uma antiga prisão de escravos – era administrado pela União Metropolitana dos Estudantes (UME). Instaurada a ditadura, o refeitório foi fechado pelas autoridades. Reaberto três meses depois, continuou na mira dos órgãos de segurança, que viam com maus olhos as frequentes assembleias realizadas no local.

Em 1967, o governo demoliu o restaurante sob o pretexto de que era necessário reurbanizar a área para uma reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) a ser realizada no Museu de Arte Moderna (MAM), situado nas proximidades. A pressão estudantil, entretanto, obrigou as autoridades a construir às pressas outro Calabouço, a cerca de 2km do local.

A mudança, porém, foi um desastre. Logo começaram as mobilizações comandadas pela Frente Unida dos Estudantes do Calabouço (Fuec) contra a péssima estrutura do novo restaurante. A resposta da polícia foi imediata: sentou praça no local com o objetivo de intimidar os jovens. Nem bem o ano letivo começou, o restaurante foi invadido pela PM na operação em que Edson Luís morreu com um tiro no peito, dado à queima-roupa.

Temendo que a polícia desaparecesse com o estudante morto, as lideranças do Calabouço levaram o corpo para a Assembleia Legislativa do então estado da Guanabara, na Cinelândia, onde Edson Luís foi velado. Durante toda a noite e a manhã, milhares de estudantes e populares acorreram ao local, que se tornou palco de um prolongado comício contra a ditadura. Na tarde do dia seguinte, dezenas de milhares de pessoas acompanharam o cortejo da Cinelândia ao cemitério São João Batista, onde Edson Luis foi enterrado. No trajeto, a palavra de ordem mais gritada foi MATARAM UM ESTUDANTE, PODIA SER SEU FILHO. O Rio de Janeiro, chocado com a brutalidade policial, parou e vestiu luto.

Marco do acirramento da luta dos estudantes contra a ditadura, a morte de Edson Luis inspirou duas canções importantes – ambas proibidas pela censura: “Menino”, de Milton Nascimento, e “Calabouço” de Sergio Ricardo. Esta última foi proibida em 1968, mas a música circulou entre os estudantes em gravações clandestinas. Nos anos seguintes, foi cantada em shows nas universidades em desafio às autoridades. “Em cada lugar que a apresentava, curiosa e inesperadamente, o refrão de “Calabouço” era repetido efusivamente pela plateia”, contou Sérgio Ricardo. A canção somente foi gravada comercialmente em 1973, graças a um cochilo da turma da tesoura.

Quando as autoridades se deram conta de que tinham levado um frango por debaixo das pernas, convocaram o compositor para prestar depoimento no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), mas já era tarde demais: o LP com a canção estava esgotado. Também em 1973, Sérgio Ricardo cantaria Calabouço na Catedral da Sé, durante a missa de 7ª dua em homenagem a outro jovem assassinado pela ditadura – Alexandre Vannucchi Leme, estudante da USP, torturado e morto pelos órgãos da repressão nas dependências da Oban (Operação Bandeirantes).” (MARTINS, p. 82-83)

Sérgio Ricardo: “Calabouço”

Olho aberto, ouvido atento
E a cabeça no lugar
Cala a boca moço, cala a boca moço
Do canto da boca escorre
Metade do meu cantar
Cala a boca moço, cala a boca moço
Eis o lixo do meu canto
Que é permitido escutar
Cala a boca moço. Fala!

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Cerradas portas do mundo
Cala a boca moço
E decepada a canção
Cala a boca moço
Metade com sete chaves
Cala a boca moço
Nas grades do meu porão
Cala a boca moço
A outra se gangrenando

 Cala a boca moço
Na chaga do meu refrão
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Mulata mula mulambo
Milícia morte e mourão
Cala a boca moço, cala a boca moço
Onde amarro a meia espera
Cercada de assombração
Cala a boca moço, cala a boca moço
Seu meio corpo apoiado
Na muleta da canção
Cala a boca moço. Fala!

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Meia dor, meia alegria
Cala a boca moço
Nem rosa nem flor, botão
Cala a boca moço
Meio pavor, meia euforia
Cala a boca moço
Meia cama, meio caixão
Cala a boca moço
Da cana caiana eu canto
Cala a boca moço
Só o bagaço da canção
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

As paredes de um inseto
Me vestem como a um cabide
Cala a boca moço, cala a boca moço
E na lama de seu corpo
Vou por onde ele decide
Cala a boca moço, cala a boca moço
Metade se esverdeando
No limbo do meu revide
Cala o boca moço. Fala!

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Quem canta traz um motivo
Cala a boca moço
Que se explica no cantar
Cala a boca moço
Meu canto é filho de Aquiles
Cala a boca moço
Também tem seu calcanhar
Cala a boca moço
Por isso o verso é a bílis
Cala a boca moço
Do que eu queria explicar
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço

Olha o vazio nas almas
Olha um brasileiro de alma vazia.

O assassinato de Edson Luis, perpetrado pela PM, foi “um tiro no coração do Brasil”, como tão bem expressa o título do documentário de Carlos Pronzatohttps://youtu.be/ZNRxpfUMwQw (assista na íntegra, 58 min). Poucos dias depois do crime perpetrado pelo terrorismo de Estado, o jornal Correio da Manhã, em 07 de Abril de 1968, publicava um potente texto de Hélio Pellegrino:

“Tombou morto um jovem estudante brasileiro, varado pela bala assassina que o matou… o tempo de sua vida, ao qual tinha direito e do qual foi miseravelmente roubado, ergue-se de súbito diante da nação como uma imensa catedral sagrada, sob cujas abóbadas milhões de vozes deflagraram sua revolta. O tempo de Edson Luís, dilacerado e destruído pela bala homicida que o cortou, tornou-se de repente tempo histórico, tempo brasileiro, tempo de cólera e consciência, tempo de gritar: BASTA! Há instantes privilegiados em que um destino pessoal se dissolve no movimento da história. Nesses instantes, a formidável alquimia da história faz refulgir, com luz imperecível, o destino no qual toca. Edson Luís, assassinado pela polícia, cujos clarões varreram de ponta a ponta a noite reacionária que o poder militar fez desabar sobre o país.” (Citado do livro de Maria Ribeiro do Valle: “1968 – O Diálogo é a Violência – Movimento Estudantil e Ditadura Militar no Brasil”, 2ª ed., Editora UNICAMP, 2016)

É neste contexto que explode a renovação estético-cultural subversiva do Tropicalismo. A novidade tinha a potência de um movimento que, ainda que profundamente inovador, estava bem enraizado no passado: a Antropofagia de Oswald de Andrade, que remetia ao caldeirão do Modernismo dos anos 1920, inspirava ativamente o trampo dos tropicalistas.

Mas era um Oswald que os tropicalistas não respeitavam como um ente sagrado, que não faziam de ídolo intocável: era um Oswald devorado e vomitado pelo Teatro Oficina, onde Zé Celso Martinez Côrrea e sua trupe encenavam O Rei da Vela em meio aos transtornos sócio-políticos daqueles anos danados, de chumbo-grosso e mordaças impostas a todas as canções de protesto contra o regime ilegítimo nascido da derrubada militar do governo João Goulart.

Neste contexto é que surgem três das mais emblemáticas canções de Caetano Veloso – que admitiu sentir-se profundamente transtornado pela experiência estética que teve com a ressurreição de Oswald através do Teatro Oficina. Presente no disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circensis (1968), “Enquanto Seu Lobo Não Vem” é um retrato daquele país que havia entrado em erupção após a morte de Edson Luís, com comícios-relâmpago e protestos estudantis, culminando com grandes manifestações cívicas como a Passeata dos Cem Mil, em Junho. Era uma época em que o movimento estudantil e os trabalhadores organizados puderam sentir muitos artistas e intelectuais aliando-se à luta contra a ditadura.

Que lobo seria este que está para vir, na canção de Caetano? Hoje, com nosso olhar retrospectivo, a canção pode soar profética, como se previsse a chegada do AI-5 e da fase mais brutal do terrorismo de estado. “A canção misturava símbolos da guerrilha – florestas, veredas, cordilheiras – com o dia a dia das manifestações estudantis – passeatas, desfiles, ruas, avenidas, bombas, botas e bandeiras. O lobo, claro, era a repressão policial, com suas garras cada vez mais afiadas e ameaçadoras.

Em breve, advertia Caetano, seria necessário esconder-se debaixo da cama para não ser comido por ele. Para deixar claro de onde vinha o perigo, em boa parte da canção Gal Costa repetia em contraponto o estribilho “os clarins da banda militar”. (MARTINS, pg. 86)

Vamos passear na floresta escondida, meu amor
Vamos passear na avenida
Vamos passear nas veredas, no alto meu amor
Há uma cordilheira sob o asfalto

(Os clarins da banda militar…)
A Estação Primeira da Mangueira passa em ruas largas
(Os clarins da banda militar…)
Passa por debaixo da Avenida Presidente Vargas
(Os clarins da banda militar…)
Presidente Vargas, Presidente Vargas, Presidente Vargas
(Os clarins da banda militar…)

Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil
Vamos passear escondidos
Vamos desfilar pela rua onde Mangueira passou
Vamos por debaixo das ruas

(Os clarins da banda militar…)
Debaixo das bombas, das bandeiras
(Os clarins da banda militar…)
Debaixo das botas
(Os clarins da banda militar…)
Debaixo das rosas, dos jardins
(Os clarins da banda militar…)
Debaixo da lama
(Os clarins da banda militar…)
Debaixo da cama

O lobo já havia devorado muitos companheiros, mundo afora, que haviam se engajado na construção de um mundo menos injusto. Não se compreende as canções de 1968 sem lembrar que ainda era recente, naquele ano, o assassinato de Ernesto Che Guevara ocorrido na Bolívia em 1967. Ocorrência que inspirou pelo menos duas composições: em “Aleluia”, Sérgio Ricardo fez um deslavado panegírico ao médico-guerrilheiro: “Che Guevara não morreu, aleluia!” Celebrando Che como uma espécie de santo laico, dizendo claramente o nome de seu herói, Ricardo se colocava de modo explícito no lado dos apologistas de Guevara e dos que se punham na órbita de influência da Revolução Cubana que triunfara em 1959.

Este procedimento de explicitação da mensagem e de louvor ao revolucionário não foi a escolha de Caetano em sua “Soy Loco Por Ti América”. Nela, em ritmo de mambo cubano, em clima altamente festivo, ele incluiu uma menção à censura, ironizando a turma da tesoura que então amordaçava a arte de protesto e subversão no Brasil: “o nome do homem morto não se pode dizer”.


Antenado com o tempo histórico fora do Brasil, o movimento tropicalista, que seria “abatido em pleno vôo pelo AI-5” (para emprestar uma expressão de Tárik de Souza), trouxe ao país, em 1968, um pouco do clima insurrecional que havia tomado conta de Paris em Maio.

Acompanhado dos Mutantes, Caetano agia sem medo de psicodelizar a MPB de maneira extremada, sem temor da guitarra elétrica e distorcida. Como lembra Martins, Caetano fez É Proibido Proibir inspirado em uma

“frase pichada numa parede de Paris, ao lado de tantas outras palavras de ordem que exigiam o impossível: IL EST INTERDIT D’INTERDIRE. A tradução literal deu nome à composição que ele apresentou no III Festival Internacional da Canção (FIC), em Setembro de 1968.

Com uma montagem quase cinematográfica, semelhante à Alegria, Alegria, a música resgatava a explosão dos movimentos estudantis de 1968 em todo o mundo. Era preciso dizer não ao não, simbolizado pela mãe da virgem, pelo anúncio da televisão, pelo mestre e pelo porteiro, e também derrubar prateleiras, estantes, estátuas, vidraças, louças e livros.

Por sua temática, É Proibido Proibir tinha tudo para fazer sucesso no festival, mas Caetano não estava lá para agradar. Queria mesmo era protestar. Subiu ao palco do Teatro da PUC-SP (Tuca) vestindo um protesto em forma de roupa: camisa de plástico verde, colares de fios elétricos, correntes metálicas com dentes de animais. Entrou em cena rebolando e simulando um ato sexual. Boa parte do público não gostou e reagiu com vaias e gritos de ‘bicha’. Mesmo assim a música se classificou para a rodada decisiva.

Na final, a performance de Caetano – ainda mais forte que a da fase classificatória – foi recebida com vaias e uma saraivada de objetos da plateia. O cantor baiano não conseguiu ir até o fim. Revoltado, explodiu num discurso antológico, sintetizado na pergunta inicial que dirigiu ao público: ‘Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?'” (FRANKLIN MARTINS, pg. 88)

A mãe da virgem diz que não
E o anúncio da televisão
Estava escrito no portão
E o maestro ergueu o dedo
E além da porta
Há o porteiro, sim…

E eu digo não
E eu digo não ao não
Eu digo:
É! — proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir…

Me dê um beijo, meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estantes, as estátuas
As vidraças, louças, livros, sim…

E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo:
É! — proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir…
(falado)
Caí no areal na hora adversa que Deus concede aos seus
para o intervalo em que esteja a alma imersa em sonhos
que são Deus.
Que importa o areal, a morte, a desventura, se com Deus
me guardei
É o que me sonhei, que eterno dura
É esse que regressarei.

Me dê um beijo meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estátuas, as estantes
As vidraças, louças, livros, sim…

E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo: É!
Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir…

Nos palcos do Brasil, em 1968, o regime dos milicos não só mandava proibir, mas fazia vista grossa ou apoio implícito a grupos paramilitares que utilizavam-se da força bruta para silenciar artistas. A canção Roda Viva, de Chico Buarque, composta em 1967, “ganhou nova conotação política ao subir aos palcos em 1968 na peça homônima. O protagonista – um cantor popular chamado Benedito Silva, logo transformado em Ben Silver – era obrigado a mudar constantemente de personalidade para sobreviver na selva dos espetáculos.

A montagem inovadora de Zé Celso provocou muita polêmica. A peça estreou no início de 1968 no Rio. Meses depois chegou a São Paulo. Na noite de 17 de Julho, o Teatro Ruth Escobar, onde a peça era encenada, foi invadido pelo CCC, organização terrorista de extrema-direita. Os agressores destruíram cenários e espancaram atores e técnicos. Chico Buarque, mais tarde, levantou a hipótese de que o CCC, ao atacar Roda Viva, teria errado de alvo. Seu objetivo seria atingir o espetáculo Feira Paulista de Opinião, dirigido por Augusto Boal, apresentado em outra sala do mesmo teatro. Numa das cenas, um capacete militar era usado como penico, o que teria despertado a ira dos terroristas.

Chico Buarque e MPB4: “Roda Viva”

Se o CCC errou de alvo em São Paulo, insistiu no erro em Porto Alegre. No início de outubro, o grupo de extrema-direita atacou o Teatro Leopoldina, onde a peça estava sendo apresentada na capital do Rio Grande do Sul. Atores e atrizes foram agredidos e depois enfiados num ônibus, com ordens expressas para não voltar a pisar em terras gaúchas. O espetáculo, é claro, saiu imediatamente de cartaz.

A violência contra Roda Viva não era um fato isolado – e sim mais um episódio na escalada de violência protagonizada pelo CCC contra estudantes, artistas e intelectuais de oposição. Bombas foram jogadas no Teatro Opinião, na Associação Brasileira de Imprensa, no Correio da Manhã e na editora Civilização Brasileira. Também em outubro, membros do CCC, infiltrados entre os estudantes de direita da Universidade Mackenzie, atacaram a tiros a Faculdade de Filosofia da USO, onde funcionava a União Estadual de Estudantes. Na chamada Batalha da (Rua) Maria Antônia, foi morto com um tiro na cabeça o secundarista José Guimarães, de 20 anos, que defendia a Filosofia.

Trailer do documentário de Renato Tapajós

Atuando em estreita dobradinha com os órgãos de repressão e multiplicando suas ações, o CCC ajudou a preparar o clima para a instauração da ditadura terrorista aberta que viria ao mundo com a edição do AI-5, em 13 de Dezembro de 1968. Mas o CCC não passava de uma linha auxiliar, um grupo de paus-mandados. Era no núcleo do regime militar, cada dia mais dominado pela linha-dura, que o coração da violência batia forte e marcava o ritmo da radicalização.

No segundo semestre, o país assistiu a uma escalada de arbitrariedades e provocações, que desembocaria no AI-5. Em agosto, a UnB foi invadida por tropas. Em outubro, a polícia prendeu cerca de 700 líderes estudantis no XXX Congresso da UNE, em Ibiúna (SP). Em todo o país, os estudantes saíram às ruas pedindo a libertação de seus dirigentes. No Rio, uma manifestação em frente à Faculdade de Ciências Médicas foi dissolvida à bala. Na ação da polícia, o estudante de medicina Luiz Paulo Nunes morreu com um tiro na cabeça.” (Martins, p. 96)

Não há dúvida de que no turbilhão de 1968, artistas fizeram história com sua participação política e com suas canções engajadas (acima, Chico Buarque e Gilberto Gil marcam presença na Passeata dos 100 Mil… 50 anos depois, estariam novamente reunidos no showmício Lula Livre, nos Arcos da Lapa/RJ, que reuniu mais de 50 mil pessoas).

Muito antes do AI-5 ser promulgado em Dezembro, a brutalidade dos milicos já havia se tornado explícita – e o mês de Junho não nos deixa mentir. Na chamada Sexta-Feira Sangrenta, 28 estudantes e trabalhadores foram assassinados nos conflitos de rua entre manifestantes e policiais; centenas de pessoas ficaram feridas; pelo menos 15 viaturas foram incendiadas. Foi esse massacre perpetrado pelos militares que gerou a onda de comoção que culminaria na Passeata dos 100 Mil, quando a maré de participação cívica intimidou a repressão, que permitiu a manifestação sem dissolvê-la no porrete e na escopeta como era de praxe.

Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores, de Geraldo Vandré, também conhecida como Caminhando e Cantando, foi composta em meio a esta tormenta e tornou-se uma das canções mais significativas da história da MPB. Estreou em Setembro no III FIC, onde acabou derrotada por “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, “o que valeu sonoras vaias ao júri. Ao subir ao palco para receber a medalha de prata, Vandré foi saudado aos gritos de “é marmelada”. (…) Em dezembro, quando o AI-5 desabou sobre o Brasil, o compositor teria de deixar o país e partir para o exílio.” (Martins, p. 93)

Que esta canção tão emblemática não tenha vencido o III FIC, apesar do imenso sucesso de público (estava, literalmente, na boca do povo), revela também que as músicas politizadas e engajadas, consideradas pela ditadura como panfletos subversivos e estopins para agitação transgressora, estavam longe de ser unanimidade. O status quo preferia laurear canções mais inofensivas, como “Sabiá”, e compositores como Luiz Gonzaga chegaram a compor canções de protesto contra as canções de protesto (a postura um tanto pró-milico do Rei do Baião é, aliás, uma das muitas razões de atrito entre pai e filho reveladas no filme de Breno Silveira sobre Gonzagão e Gonzaguinha).

Luiz Gonzaga: “Canto Sem Protesto”

Geraldo Vandré: “Caminhando” (Para Não Dizer Que Não Falei De Flores)

Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

1968 termina com uma brutalização da ditadura, o triunfo da linha-dura, a fúria impiedosa do AI-5 (que duraria entre 1968 e 1978): “o Congresso foi fechado por tempo indeterminado. Nas semanas seguintes, foram cassados os mandatos de 55 deputados e 6 senadores. Três ministros do STF foram afastados e perderam seus direitos políticos. Deixou de existir habeas corpus no Brasil. Uma enorme soma de poderes foi concentrada nas mãos do presidente da República. Milhares de opositores foram presos: estudantes, intelectuais, trabalhadores, parlamentares, religiosos, juízes. Para evitar prisões e maus-tratos, muitos foram obrigados a passar para a clandestinidade. Outros buscaram o exílio.

A partir daí, durante os 10 anos seguintes, o Brasil viveria sob o terrorismo de Estado. Abertas as jaulas, os tigres saíram à caça, com passe livre para prender, perseguir, torturar e matar. Todo aquele que não concordasse com as ideias do regime era encarado como uma ameaça à segurança nacional.” (Martins, p. 102)

Logo após a decretação do AI-5, Caetano e GIl são presos. Tiveram seus cabelos raspados. No xilindró, Gil ouvia os soldados se saudarem com a expressão “aquele abraço”, bordão muito popular na época. Após algumas semanas em cana, receberam autorização para deixar o país e se prepararam para rumar na direção de Londres. A canção de Gil é uma “despedida do Brasil”, escreve Martins, e “a primeira das canções de exílio depois do AI-5, escrita ainda terras brasileiras – um sinal de que por um bom tempo nosso povo viveria exilado em seu próprio país. Em meio ao clima de caça às bruxas – o regime via subversivos por toda parte – muitos compositores e cantores, além de Gil e Caetano, partiram para o exterior.” (Martins, p. 102)

Mas não há tirania que dê conta de calar no peito humano a ânsia pela liberdade. Não há ditadura que tenha tanques e tropas suficientes para que impeça um povo de celebrar os “Heróis da Liberdade”, como ocorreu no primeiro carnaval após o AI-5. O samba-enredo da Império Serrano, maior sucesso na avenida no Carnaval de 1969, “foi cantado pelo povo como um hino contra a ditadura militar.”

Dias antes do desfile, a censura da Ditadura Militar havia proibido terminantemente que a letra mencionasse a palavra “Revolução”. Os milicos exigiram que ela fosse substituída por “Evolução”. “Fechado o acordo, o samba foi para a avenida, onde o povo, a plenos pulmões, botou tudo nos devidos lugares e cantou revolução ao invés de evolução.” (Martins, p. 105)

Passava a noite, vinha dia
O sangue do negro corria
Dia a dia
De lamento em lamento
De agonia em agonia
Ele pedia
O fim da tirania
Lá em Vila Rica
Junto ao Largo da Bica
Local da opressão
A fiel maçonaria
Com sabedoria
Deu sua decisão lá, rá, rá
Com flores e alegria veio a abolição
A Independência laureando o seu brasão
Ao longe soldados e tambores
Alunos e professores
Acompanhados de clarim
Cantavam assim:
Já raiou a liberdade
A liberdade já raiou
Esta brisa que ajuventude afaga
Esta chama que o ódio não apaga pelo Universo
É a evolução em sua legítima razão
Samba, oh samba
Tem a sua primazia
De gozar da felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos “Heróis da Liberdade”

Por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

 

 

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

MARTINS, FranklinQuem Foi Que Inventou o Brasil, vol. 2, Ed. Nova Fronteira, 2015.

RIDENTI, Marcelo. Em Busca do Povo Brasileiro. Ed. Unesp, 2016.

VALLE, Maria Ribeiro do. 1968 – O Diálogo é a Violência – Movimento Estudantil e Ditadura Militar no Brasil. 2ª ed., Editora UNICAMP, 2016.

 

DEUS É MULHER – Em seu novo álbum, Elza Soares brilha com repertório político e sonoridades de vanguarda

“E se Deus fosse uma mulher?
Indaga Juan sem pestanejar
Ora, ora se Deus fosse mulher
É possível que agnósticos e ateus
Não disséssemos não com a cabeça
E disséssemos sim com as entranhas

Talvez nos aproximássemos de sua divina nudez
Para beijar seus pés não de bronze,
Seu púbis não de pedra,
Seus peitos não de mármore,
Seus lábios não de gesso.

Se Deus fosse mulher a abraçaríamos
Para arrancá-la de sua distância
E não haveria que jurar
Até que a morte nos separe
Já que seria imortal por antonomásia
E em vez de transmitir-nos Aids ou pânico
Nos contaminaria de sua imortalidade

Se Deus fosse mulher não se instalaria
Solitária no reino dos céus
Mas nos aguardaria no saguão do inferno
Com seus braços não cerrados,
Sua rosa não de plástico,
E seu amor não de anjo

Ai meu Deus, meu Deus
Se até sempre e desde sempre
Fosses uma mulher
Que belo escândalo seria,
Que afortunada, esplêndida, impossível,
Prodigiosa blasfêmia!”

Mario Benedetti

* * * * *

Elza Soares brilha com repertório político perfeito para sua voz

Por Luiz Fernando Vianna na Folha de São Paulo (18.05.2018)

“A Mulher do Fim do Mundo”, de 2015, começava com Elza Soares interpretando a capela versos de Oswald de Andrade alusivos ao tráfico negreiro. Era o ponto de partida de uma viagem pelo Brasil sombrio.

O início de “Deus É Mulher” também tem Elza a capela, mas já cortando o presente: “Mil nações moldaram minha cara/ Minha voz, uso para dizer o que se cala/ O meu país é o meu lugar de fala”.

Canta-se um Brasil que ficou ainda mais sombrio nos últimos três anos. Em vez de abatimento, porém, há vigor. Como as precárias concertações sociais e políticas ruíram, mais do que nunca é preciso dizer o que não deve ser calado.


O reconhecimento público da força do CD de 2015 certamente encorajou Elza e seus parceiros paulistas a dobrarem as apostas.

O núcleo de compositores, músicos e produtores formado por Guilherme Kastrup, Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral, entre outros, ampliou-se e intensificou o caráter político (e nada partidário).

Quanto à sonoridade, há acréscimos, como as percussões das mulheres do Ilú Obá de Min, mas os pilares não mudaram: melodias conduzidas por sintetizadores e guitarras, muitas vezes distorcidas; mistura de sons sujos (sampler, MPC) e limpos (flauta, quarteto de cordas); criação de uma massa que não está a serviço da voz de Elza, mas que se cola a ela, formando um todo rascante, corrosivo.

No que se refere às letras, o verso “O meu país é o meu lugar de fala”, de “O Que se Cala” (Douglas Germano), é uma declaração de princípios. Dá a uma expressão das lutas identitárias (“lugar de fala”) um sentido nacional, esvaziando o tom fratricida que há nela.

Ao longo do CD, miram-se alvos concretos sem deixar de lado a qualidade musical.

Contra a intolerância religiosa e a doutrina Escola sem Partido, vem “Exu nas Escolas” (Kiko Dinucci e Edgar), em que se ensina que “Exu no recreio não é xou da Xuxa” e se propõe “tomar de volta a alcunha roubada”, ressaltando-se o lado positivo da entidade.

A liberdade religiosa é tema de “Credo” (Douglas Germano): “Minha fé quem faz sou eu/ Não preciso que ninguém me guie”. E a sexual, de “Um Olho Aberto” (Mariá Portugal): “Cada um inventa a natureza que melhor lhe caia”.

O par formado por “Língua Solta” (Alice Coutinho e Romulo Fróes) e “Hienas na TV” (Kiko Dinucci e Clima) descarta os falsos consensos. Na segunda, direcionada aos políticos e outros donos dos poderes, Elza canta: “Digo sim pra quem diz não/ E pra quem quiser ouvir/ Eu digo não”.

A primeira, espécie de súmula conceitual do CD, deixa claro: “Nós não temos o mesmo sonho e opinião/ Nosso eco se mistura na canção/ Quero voz e quero o mesmo ar/ Quero mesmo incomodar”.

As mulheres estão no poder em quatro faixas. No par “Banho” (Tulipa Ruiz)/ “Eu Quero Comer Você” (Alice Coutinho e Romulo Fróes), elas são donas de seus corpos, desejos e prazeres.

Em “Dentro de Cada Um” (Pedro Loureiro e Luciano Mello), extraem força das absurdas violências de todos os dias, mas não veem o gênero masculino como um inimigo a ser derrotado. “A mulher vai sair/ E vai sair/ De dentro de quem for/ A mulher é você”.

Almeja-se a vitória absoluta na faixa final, “Deus Há de Ser” (Pedro Luis). É dela o verso-título do CD e outro afim: “Deus é mãe” —o que, convenhamos, faz todo o sentido.

Elza está cantando como nunca porque o repertório é perfeito para a sua voz, para o que viu em mais de 80 anos, para o que viveu, para o que quer dizer e sabe dizer.

Seus discos com a turma paulista são fundamentais não só para a música brasileira mas para a vida do país.

DEUS É MULHER

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ARTISTAS À ALTURA DAS URGÊNCIAS DA HISTÓRIA – Sobre Canções de Empoderamento Feminino e Demolição do Patriarcado

TUDO O QUE NÃO NOS DEFINE

No mundo da música, não faltam hits que gozam dos seus 15 dias de fama e que depois, passada a marola momentânea da moda, submergem no esquecimento e na insignificância. A indústria do pop exige que a fila ande… Já compor uma canção destinada ao status, bem mais duradouro, de Hino – aquele tipo de criação artística que dá voz a uma multidão de corações e mentes, que sentem-se plenamente representados pela obra – é proeza para poucos. A alcunha de Voz de uma Geração é sempre para raros.

Ao ouvi-la cantando no Festival Bananada 2018, tive fortalecida a impressão de que foi esta a façanha realizada pela Juliana Strassacapa, cantora-compositora do Francisco, El Hombre, com “Triste, Louca ou Má”, uma composição que, quanto mais o tempo passa, mais se sedimenta como uma Presença Perene na história recente da música popular brasileira.

As reações que desperta na platéia-partícipe são de um autêntico hino. E só atinge tais cumes pela importância de sua mensagem em tempos de ascensão do conservadorismo e do fascismo. Pois “Triste, Louca ou Má” é um salutar antídoto contra o machismo, a homofobia, a heterossexualidade compulsória, os velhos moldes em que querem seguir encarcerando os novos amores.

Nela, Juliana “expressa sua inquietação diante dos enquadramentos sociais aos quais as mulheres estão submetidas, e dos estereótipos que pesam sobre elas quando decidem rompê-los”, como escreveu Paula Guimarães em Catarinas.

A conjuntura do Bananada, 20ª edição, não podia ser mais propícia: em meio a esta grande celebração da potência dos festivais que resistem no Brasil, a canção do Francisco El Hombre trouxe o necessário momento reflexivo, de dor e luto, de resistência e luta.

A execução brutal de Marielle Franco, evocada no telão através de uma ilustração que entrou em amálgama com o video-clipe da canção, deu um tom dramático e trágico para uma performance vocal tão fenomenal, tão intensamente sentida, tão visceralmente entregue, que ficou a impressão de que aqueles que ali não se comoveram poderiam ir pegar no escritório dos burocratas os seus certificados de corações-de-pedra.

Com sua performance – que, muito além de vocal, é intensamente corporal – Juliana Strassacapa se alça às alturas de Cássia Eller ou de Elis Regina. Uma intérprete de corpo inteiro e de alma à flor da pele. Uma cantora que não realiza a mímese da gravação lançada no álbum (“Soltasbruxa”, de 2016), mas que modifica a melodia, a métrica, a rítmica, ao sabor do momento e seus sentimentos.

O poder das palavras também não é pouca: a letra de “Triste, Louca ou Má” tem méritos imensos, pela sua concisão, por seu desejo de afirmar com simplicidade a incapacidade de certas jaulas nos definirem, por sua poesia a um só tempo densa e acessível, qualidades também encontráveis em outro Hino recente: “Artemísia”, do Carne Doce. Com inúmeros laços e pontos de convergência entre suas propostas estéticas e suas práticas performáticas, Salma Jô e Juliana Strassacapa são hoje duas das forças vulcânicas mais impressionantes da música brasileira. E o Bananada, antenado nisso, fez muito bem em dar voz e vez a estes hinos.

A jornalista Larissa Ibúmi Moreira, que publicou recentemente seu livro “Vozes Transcendentes. Os Novos Gêneros na Música Brasileira” (Editora Hoo, 2018), fornece boas balizas para a compreensão destas novidades no cenário artístico nacional. Através de entrevistas biográficas com artistas como Liniker e os CaramelowsJohnny HookerAs Bahias e a Cozinha MineiraLinn da QuebradaRico DalasamLuana Hansen, dentre outros, a autora aponta para a emergência de uma nova turma de provocativos e ousados artistas que vieram para bagunçar o coreto da classificação binária de gênero e colocar a MPB onde ela deve estar: na confluência das diversidades, na expressão da multiplicidade que somos.

Nesta conjuntura é que “Triste, Louca Ou Má” serve não apenas como emblema, mas como obra de potência inesgotável, sem data de validade, que não vai cessar de nos comover:

“Triste louca ou má
Será qualificada
Ela quem recusar
Seguir receita tal

A receita cultural
Do marido, da família
Cuida, cuida da rotina

Só mesmo rejeita
Bem conhecida receita
Quem não sem dores
Aceita que tudo deve mudar

Que um homem não te define
Sua casa não te define
Sua carne não te define
Você é seu próprio lar

Um homem não te define
Sua casa não te define
Sua carne não te define

Ela desatinou
Desatou nós
Vai viver só

Ela desatinou
Desatou nós
Vai viver só

Eu não me vejo na palavra
Fêmea: Alvo de caça
Conformada vítima

Prefiro queimar o mapa
Traçar de novo a estrada
Ver cores nas cinzas
E a vida reinventar

E um homem não me define
Minha casa não me define
Minha carne não me define
Eu sou meu próprio lar

Ela desatinou
Desatou nós
Vai viver só.”

ASSISTA AO VIDEO-CLIPE OFICIAL:

AO VIVO NO PSICODÁLIA 2018, COM MULAMBA:



LIBERDADE É NÃO TER MEDO

Encarnação exuberante do empoderamento feminino, Larissa Luz agitou com sua música de rebeldia e resistência o Festival Bananada 2018 e o III Encontro de Culturas Negras do Instituto Federal de Goiás (IFG) – oficial, duas ocasiões em que mostrou, em Goiás, o que significa um artista estar à altura das urgências do tempo histórico.

No palco, Larissa Luz brilhava sob as luzes dos holofotes coloridos como uma pantera negra que, evocando Nina Simone, encarnava o lema “liberdade é não ter medo”. Esta definição libertária (“freedom = no fear!”), veiculada no excelente doc What Happened, Miss Simone?, é reativada por Larissa não somente em seu cantar e em seu poetar, mas em toda a expressividade do seu corpo em movimento. Ela discursa contra os retrocessos, puxa um Fora Michel Temer (“e toda sua corja maligna!”) e depois embarca com a carne em chamas na rubra rebeldia de “Território Conquistado” (dê o play e confira!).

Como que possuída pelos orixás do ritmo e enraizada numa densa ancestralidade, ela demoliu com sua atitude afropunk qualquer estereótipo da mulher como “sexo frágil”. Eclética e audaz, Larissa mescla vertentes com despudor, tacando no mesmo liquidificador o axé, o reggae, o soul, o funk, o rock, sempre com uma expressão corporal espantosa, leve e solta como quem não tem nenhuma corrente a lhe prender. Com seu black-maiô todo molhado de suor, com suas afro-tranças balouçando ao vento, ela não só dá a impressão de ser poderosa: ela emana poderio em meio à MunDança em que estamos. Faz-nos pensar no potencial ritualístico que a música desempenha desde tempos imemoriais, quando servia como força invisível a congregar os indivíduos em um mesmo caldeirão de fusão mística com a Cosmovência.

Evoca também a sabedoria valente de Angela Davis, de Bell Hooks, de Maya Angelou, de Carolina Maria de Jesus, de Jovelina Pérola Negra, de Clementina de Jesus, de Dona Ivone Lara, pois Larissa Luz é uma mulher cultíssima e seu show é pura Pedagogia do Oprimido. Ela é enraizamento na ancestralidade e abertura para o futuro a construir. E neste porvir, as aberrações do racismo, do machismo e do classismo vão – oxálá! – ficar enterrados numa história morta, num museu da antiga estupidez humana. Há chão pela frente – e ela prefere lutar dançando. “Nem vem como quem quer fazer de mim ninguém! / Eu sou uma mulher livre da sina e da obsessão / Eu sou o que eu quiser!”

Ela é, dentre as artistas brasileiras contemporâneas, uma das melhores encarnações do empoderamento feminino e da celebração ousada da negritude, que levanta a voz e faz do corpo inteiro uma bandeira que manifesta: “tire seu racismo do caminho que eu vou passar com minha cor”.

Descolonizada, ela adentra o recinto um pouco escondida detrás de um manto negro, um pouco pesado para o clima dos trópicos, e solta a voz poderosa, assustando os tímpanos dos incautos com uma sonzeira de volume ensurdecedor. De modo similar ao BaianaSystem e Russo Passapusso, Larissa sobre o palco é capaz de uma imersão profunda na experiência presente e convida o público a “mergulhar no descontrole”, de modo tão impressionante que estes artistas baianos estão entre as melhores vivências de que se pode participar hoje no Brasil se você frequenta os festivais de música que efervescem pelo território nacional.

Acompanhada por um percussionista e um guitarrista, além de duas dançarinas, Larissa é senhora do processo com tal confiança em si que ficamos com a sensação de esta não é uma mulher que aprendeu a hesitar. Nenhuma subserviência. Só exuberância. África e América de mãos dadas, fazendo música contra a opressão, mas celebrando a existência no interior deste vivo processo de luta e de partilha.

O que o Brasil tem de melhor – sua força mestiça, sua mescla afro-americana-indígena, sua capacidade de reinvenção diante das adversidades extremas, sua ritmicidade supra-racional, sua musicalidade sem limites – aparece encarnado em Larissa Negra-Luz. Ela carrega seu aprendizado pretérito junto ao Ara Ketu, seus muitos carnavais em Salvador já vividos, e chega como uma mulher que vem chaqualhar ainda mais o cenário musical do país. Caldeirão da diversidade, a música brasileira tem hoje em Larissa Luz uma de suas mais emblemáticas e relevantes artistas, capaz de levar rebeldia, resistência e utopia aos ouvidos e cinturas das massas que dançam. Evoé, saravá e axé!

* * * * *

Eduardo Carli de Moraes @ A Casa de Vidro (www.acasadevidro.com).

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Abaixo, espie Larissa Luz na canção “Território Conquistado”, ao vivo no Encontro de Culturas Negras do Instituto Federal de Goiás (IFG) – oficial – um vídeo exclusivo A Casa de Vidro. No texto anexo ao vídeo, faço uma defesa do valor artístico, cultural e político desta excelente artista brasileira – que serve como uma espécie de manifesto em prol de um “empoderamento” que vá para além da pose-pop mercantilizável nos hipermercados informacionais da indústria do hype. Assista no Youtube: https://youtu.be/FQiL_XCc_dk.



Anitta filmando “Vai Malandra” no Vidigal: ícone do “empoderamento feminino” ou exploradora de estereótipos machistas?

 

POP MOVIDO À VÁCUO, TRAVESTIDO DE EMPODERAMENTO – O CASO ANITTA

O mecanismo do hype é uma peste: por um lado, lança todos os holofotes sobre os artistas pop estouradões nas paradas de xuxéxo, como Anitta e Pablo Vittar. De outro, relega às sombras da relativa obscuridade muitos artistas independentes que realmente levam a extremos de radicalidade e significância o tal do “empoderamento” hoje tão em voga, como é o caso de minas geniais como a Larissa Luz e a Tássia Reis, aqui no Brasil, ou Anita Tijoux (Chile) e Rebecca Lane (Guatemala), no contexto latino-americano.

Se vocês nunca ouviram a arte de Larissa e Tássia, mas estão carecas de ouvir os pop-hits de Anitta e Pablo, ei-nos aí diante X do problema: uma indústria cultural que entroniza como ídolos não os artistas mais evidentemente expressivos e relevantes, dotados de sadia rebeldia, veículos de criticidade musicada, vontade libertadora e outras virtudes do “artista engajado”, mas sim os produtos identitários mais facilmente vendáveis e hypáveis, que lucram nas asas sujas dos estereótipos, vomitando clichês mal-reciclados sob a aparência enganosa do novo.

Eis um mundo onde o pop-lixo, descartável e fútil, é rei das paradas, enquanto 99% dos brasileiros nunca escutaram o Metá Metá, onde esplende todo o brilhantismo de Juçara Marçal, e não chegaram a experienciar o choque estético salutar do clipe “P.U.T.A.” do Mulamba:


Anitta rebolando a raba e cantando sobre porra-nenhuma-de-relevância foi um estouro – cerca de 80 milhões de acessos no Youtube em uma semana, o que fez de “Vai Malandra” um dos maiores hits brasileiros na história da música na era da Web. Diante do clipe, a única coisa que consegui pensar em termos de precedente histórico foi o estouro do É o Tchan… Anitta é uma popstar que evoca aquela onda epidêmica do “descendo na boquinha da garrafa”. E o mais curioso de tudo são os debates que Anitta pôde suscitar por ser, supostamente, um ícone de mulher empoderada – quando não passa, isso sim, de uma empresária-de-si-mesma, muito bem adaptada aos parâmetros do empreendedorismo anarco-capitalista aplicado ao cenário musical comercial.

O problema é a estreiteza de horizonte que se apodera de boa parte dos reféns da cultura de massa, que passam às vezes a crer que Anitta é um ícone do “empoderamento feminino” unicamente pois é uma mina bem-sucedida no mercado da música, quando deveríamos distinguir entre estar no top of the pops e realmente representar a causa feminista.  Diante de forças culturais como Tijoux e R. Lane, Anitta parece uma anã, uma títere da indústria cultural, ou uma oportunista que surfa nas ondas do hype. Na real, são Tijoux e Lane – e não Anitta – alguns dos exemplos autênticos de artistas que põe toda a potência exuberante de sua almas de guerreiras latino-americanas a serviço da demolição criativa do Patriarcado machista-opressor:


Ademais, aqui no Brasil, quando contrasto Larissa Luz e Anitta, fico com a impressão de que a primeira é a autêntica revolução estética e comportamental, o emblema da mulher negra empoderada e expressiva, enraizada e exuberante, união sincrônica de postura afropunk e discurso libertário e anti-opressivo, e que a segunda é muito mais uma mercadoria lucrativa para as corporações que a mercadejam, uma mina que pratica um funk-ostentação de mérito artístico quase nulo.

Por mais que eu a admire como pensadora e ativista, não engulo todos os volteios retóricos e intelectuais da Ivana Bentes, na Revista CULT (http://bit.ly/2BTPZiN), para provar a maravilhosidade do sucesso da Anitta, quando me parece que deveríamos é agir como caixas de ressonância e de divulgação de artistas muito mais relevantes. É inaceitável pra mim que grandes intelectuais brasileiros façam apologia à identificação massiva idólatra em relação à Anitta, enquanto temos figuras em atividade que merecem muito mais nossos louvores, mesmo no âmbito da cultura massificada – penso em Pitty, Karol Konká, Elza Soares etc..

Podem questionar: que parâmetros tenho pra julgar “mérito artístico”? E não seriam estes parâmetros culpados de elitismo? Não acho: Anitta e Pablo Vittar tem canções de uma rasidão lírica tão brutal que seria delirante alguém que julgasse que suas letras pudessem ser descritas como “poesia popular”, parecendo muito mais criações de publicitários antenados com o que bomba no baile. São letras tão rasas quanto aquela piscina de borracha na laje onde Anitta exibe-se no clipe bombadão de “Vai Malandra”.

Larissa Luz e Tássia Reis, por outro lado, são poetisas genuínas, com a língua em chamas, mestras da palavra que encanta e provoca, sábias griôs de raízes fincadas em ancestralidades. São o Verbo em estado de graça e a encarnação sublime do rap como Ritmo e Poesia em estado de sublevação.

Celebrar Anitta e passar em silêncio sobre um álbum genial como “Território Conquistado” de Larissa Luz parece-me um dos sintomas de tudo o que está errado com a “lógica do hype” que preside às ações da indústria cultural contemporânea. Idolatrar Anitta e não dar a mínima para o pujante cenário do rap-das-minas, com vários vídeos cypher geniais, também não faz sentido – o que merece o holofote continua na penumbra!


Podem contestar também que uma canção não se julga somente pela letra, e até concordo. Mas a mensagem da canção, se pode ser transmitida também pela expressão corporal, pela dança, pela mímica, pelas imagens do videoclipe, pela atitude ou postura do artista no palco, é sim, em larga medida, dependente  da palavra como veículo.

Não se trata de logocentrismo, ou verbalismo, mas de reconhecer que canção é sobretudo palavra cantada e que boa parte da relevância sócio-política provêm de mensagens expressas nos versos e rimas. E Anitta e Pablo Vittar são uma miséria em termos de palavra cantada – são letras ruins de dar dó. Numa hipotética batalha de MCs, Anitta e Pablo Vittar seriam totalmente trucidadas pela lábia de Larissa e Tássia.


“Vejo pedras preciosas no meio do lamaçal
Muita gente conformada com o serviço braçal
Só conseguem se enxergar na posição de serviçal
Sendo pau mandado de um ser humano boçal
Não é de igual pra igual
Tudo é muito desigual
Que Deus honre e abençoe meus irmão de Senegal
E de todos que estão mal
Vivendo na injustiça
Se afundando cada vez mais nessa areia movediça…”

Acesse a letra de “Da Lama / Afrontamento”

Elika Takimoto, em artigo polêmico publicado em Diário do Centro do Mundo, pôs vários dedos em múltiplas feridas e se perguntou: “o que o cu tem a ver com a causa?” O que Anitta lacrando na laje tem a ver com as lutas mais salutares do feminismo contra os horrores recorrentes da violência contra a mulher, os chocantes índices de feminicídio, a falta de autêntico direito ao aborto etc.? Poucos notaram, aliás, que a letra de “Vai Malandra” – clipe dirigido por um cara acusado de várias agressões sexuais… – inclui um trecho onde um rapper gringo fala, com a agressividade de um macho-alfa, que quer “espancar” a bunda dela; versos antes, havia dito que queria pôr uma taça de bebida sobre aquele bumbum; há necessidade de mais evidências da objetificação do corpo da mulher, reduzido a uma mesa de bar bunduda onde apoiar um copo ou a um bundona que pode ser espancada?

“Booty big, sit a glass on it
See my zipper, put that ass on it
Hypnotized by the way you shake it
I can’t lie, I’m try and see you naked
Anitta, baby, I’m try and spank it
I can give it to you, can you take it?”

Letra de “Vai Malandra”

Já Alceu Castilho escreveu uma crítica muito precisa sobre o tema – e que assino embaixo:

“Passo os olhos nos comentários sobre Anitta e Pablo Vittar e observo uma certa ingenuidade em relação aos meandros da indústria cultural. Como se a incorporação (cínica) de determinadas causas não fosse calculada pelas gravadoras. O entretenimento na era de sua reprodutibilidade identitária.

Ou supostamente identitária, no caso da Anitta, já que é possível ler o clipe a partir da tradição de exportação de estereótipos de sensualidade. Bumbum à brasileira como empoderamento de quem? Da Anitta? Chegamos a 2017 achando que é apenas o indivíduo que está em jogo?

Anitta e Pablo são peças tão descartáveis na indústria do entretenimento como foram outros tantos. Onde está a Carla Peres? Ela também foi “empoderada” há 20 anos? A discussão é velha, bem sei, mas impressiona não termos entendido como funciona o sistema – a indústria.

*
Ou o paraíso possível da classe operária se tornou a ocupação ilusória de espaços cuidadosamente cedidos por executivos oportunistas? Algo como um Cavalo de Troia caminhando para trás, em clipe dirigido pelo (acusado de abusos sexuais) Terry Richardson?

Até as ilusões da indústria do entretenimento já foram objeto da indústria do entretenimento (vejam “Belíssima”, do Luchino Visconti, de 1951), mas seguimos lidando com as escolhas dos tubarões como se estivéssemos assistindo apenas a ascensões heroicas de gente-que-se-empodera.

**
Como aquelas histórias cíclicas na imprensa (irmã siamesa de toda essa farsa) de gente que vendia alguma coisa por 20 centavos e se tornou uma mega empreendedora milionária. Histórias da carochinha capitalista, mais do mesmo da invenção midiática da meritocracia.

Chances dessa indústria estar, de fato, preocupada com revogação de preconceitos e discriminações, de dar visibilidade efetiva à vida nas favelas? Menor que a de ganharmos amanhã na Mega-Sena. Outros pilotos virão. Anitta e Pablo serão sacrificadas na próxima curva do S.

***
O sistema é rude e cruel e não gira em torno de gostos (bons ou ruins), mas de cifras. Qualquer apresentador oriundo do mundo cão que atire bacalhaus na plateia poderá ser alçado à condição de cult, sempre que convenha. Ainda não entendemos nem mesmo Chacrinha e suas chacretes.” ALCEU CASTILHO

O que queremos de verdade é que o pop seja tomado de assalto por artistas que estejam à altura das emergências do tempo histórico, que não se vendam por sucessos fáceis a papaguear os clichês de comprovado potencial mercadológico. O que queremos é mais canções que venham, numa perspectiva intersecional de luta contra todas as formas de opressão, para demolir por infiltração subversiva o império nefasto do machismo, do racismo, do classismo. O que queremos é mais música que nos comova coletivamente, libertando-nos de todas as jaulas que buscam nos aprisionar ao nos definir, abrindo-nos ao céu ilimitado dos que sabem que livres são os que não tem medo.

Gênios da Nossa Música: WILSON DAS NEVES (1936-2017)

WILSON DAS NEVES

O mestre Wilson das Neves (1936-2017) já descansa em paz, longe do escarcéu dos mortais, mas sua música viverá entre nós por inumeráveis amanhãs.

Relembrem:

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“Nascido no Rio de Janeiro, em 1936, o instrumentista, cantor e compositor Wilson das Neves foi iniciado na música aos 14 anos de idade, pelo percussionista Edgar Nunes Rocca, “O Bituca”. Aos 21, tornou-se baterista da Orquestra de Permínio Gonçalves e mais tarde acompanharia o Conjunto Ubirajara Silva, a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Conjunto Ed Lincoln e as orquestras da TV Globo e TV Excelsior.

Em 1968, lançou seu primeiro disco, Juventude 2000. Também fazem parte de sua discografia os discos Som Quente É o Das Neves (1969 e 1976), Samba-Tropi – Até aí Morreu Neves (1970) e O Som Sagrado de Wilson das Neves (1996).

Tocou com alguns dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos, entre eles Elizeth Cardoso, Chico Buarque, Elza Soares, Roberto Carlos, Elis Regina e Wilson Simonal. Em 2004, o selo Quelé (uma parceria entre as gravadoras Biscoito Fino e Acari Records) lança Brasão de Orfeu, que conta com parcerias com Paulo César Pinheiro, Aldyr Blanc e Claudio Jorge, entre outros.”

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O dia em que o morro descer e não for carnaval
(Wilson das Neves / Paulo César Pinheiro)

O dia em que o morro descer e não for carnaval
ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu
vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil
(é a guerra civil)

No dia em que o morro descer e não for carnaval
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
e cada uma ala da escola será uma quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha
e a alegoria um tremendo arsenal
o tema do enredo vai ser a cidade partida
no dia em que o couro comer na avenida
se o morro descer e não for carnaval

O povo virá de cortiço, alagado e favela
mostrando a miséria sobre a passarela
sem a fantasia que sai no jornal
vai ser uma única escola, uma só bateria
quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
que desfile assim não vai ter nada igual

Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga
nem autoridade que compre essa briga
ninguém sabe a força desse pessoal
melhor é o Poder devolver à esse povo a alegria
senão todo mundo vai sambar no dia
em que o morro descer e não for carnaval

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OUÇA OS ÁLBUNS COMPLETOS:

OS IPANEMAS (1964)

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ELZA SOARES + WILSON DAS NEVES (1968)

1- Balanço Zona Sul (Tito Madi)-00:00
2- Deixa Isso Para lá (Alberto Paz / Edson Menezes)-02:18
3- Garota de Ipanema (Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes)-04:51
4- Edmundo(In The Mood) (Andy Razaf – vers. : Aloysio de Oliveira / Joe Garland)-07:19
5- O Pato (Jayme Silva / Neusa Teixeira)-09:18
6- Copacabana (Alberto Ribeiro / João De Barro)-11:04
7- Teleco Teco Nº 2 (Nelsinho / Oldemar Magalhães)-13:36
8- Saudade da Bahia (Dorival Caymmi)-16:08
9- Samba de Verão (Marcos Valle / Paulo Sérgio Valle)-18:26
10- Se Acaso Você Chegasse (Felisberto Martins / Lupicínio Rodrigues)-20:26
11- Mulata assanhada (Ataulfo Alves)-22:17
12- Palhaçada (Haroldo Barbosa / Luiz Reis)-24:19

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JUVENTUDE 2000 (1968)

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SOM QUENTE É O DAS NEVES (1969)

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SAMBATROPI (1970)

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O SOM SAGRADO (1996)

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THE IPANEMAS’ Samba Is Out Gift (2006)

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SAMBA NA GAMBOA (com Emicida):