NÃO ULTRAPASSE, de Elem Klimov (URSS, 1964) #CinephiliaCompulsiva

NÃO ULTRAPASSE, dirigido por Elem Klimov​ e lançado em 1964, é um dos mais adoráveis filmes soviéticos que conheço. É uma espécie de comédia anárquica que, além de lembrar a graça de humoristas clássicos da sétima arte como Charlie Chaplin (Official)​ e Buster Keaton​, evoca também lembranças do clássico do cinema francês, “Zero de Conduta” de Jean Vigo​. Nos dois casos, a luta entre a autoridade adulta e a anarquia infantil acaba com uma estrondosa vitória dos ingovernáveis.

A história se passa em um acampamento de verão onde estão reunidos, em todo o fervor da meninice, muitos jovens soviéticos que estão sendo instigados à disciplina para a realização de grandes façanhas. Os adultos, em seu altos ideais impostos de cima de tablados, querem que os rapazes e raparigas se tornem grandes esportistas e célebres cosmonautas, encantadores músicos e sublimes dançarinas – os futuros Tolstóis e Gagárins, Tsvetaiévnas e Tchaikovskys.

Mas para isso as autoridades pedagógicas necessitam driblar um desafio. Qual seja: a selvageria infantil, o ímpeto de vida indisciplinável, o gosto e o gozo da baderna.

O protagonista infantil, Kostya Inochkin, é aquele tipo de criança demasiado impertinente – como a Mafalda​ de Quino – e que desrespeita muitos limites impostos de fora. Entra assim em choque contra o diretor do campo, o Tavarish Dynin, camarada que busca por todos meios impor uma sociedade disciplinar em meio ao turbilhão de malandragem mirim.

O duelo entre o menino Kostya e o camarada Dynin rende muitas gargalhadas, mas o filme de Klimov – responsável também pelo clássico e contundente “Vá e Veja” – vai muito além da comédia pastelão.

Atinge a genialidade ao penetrar na subjetividade da criança, ao pintar seu mundo interior, ao filmar seus delírios internos. Como naquela cena em que, após ser expulso da comunidade pelo diretor devido a seu mau-comportamento, Kostya, na estação de trem, imagina as consequências de voltar para casa e dar a notícia de sua punição para a avó.

Evocando o cinema onírico, surrealista, que tem em Luis Buñuel e David Lynch alguns de seus gênios, o que Elem Klimov faz nestas cenas inesquecíveis é do mais estarrecedor brilhantismo: o pequeno Kostya imagina-se causando uma decepção letal à sua pobre avó, que morre de desgosto, desmaiando direto no caixão ao deparar com o neto, expulso pela autoridade disciplinar. É uma cena capaz de fazer o cinéfilo lembrar-se de algumas das melhores cenas de Ingmar Bergman​, mas que possui também um humor tão cáustico quanto o de Mary and Max​,

No funeral (delirado) que o menino está assistindo em seu cinema interior, ele vê dedos acusadores que o apontam, culpabilizando o criminoso involuntário, fazendo-o sentir-se pesadamente culpado pela morte (imaginária) da avó. E aí a procissão fúnebre desenha no território, filmado com maestria por uma câmera em vôo, um gigantesco ponto de interrogação formado por uma centopéia humana, completada pela frase: “Por que você matou sua vovó?”.

O menino, em sua fantasia, faz uma previsão sobre um futuro possível – causar a morte da avó através de sua aparição como figura punida por indisciplina – e resolve re-entrar na cena de onde havia sido expulso. Viverá uma vida clandestina após invadir o recinto que, bem ironicamente, contêm em seus portões os ditos contraditórios: “Seja Bem-Vindo!” e “Não Ultrapasse!”.

O filme pode ser lido com auxílio de Foucault e Wilhelm Reich, de Elisée Reclus e de Herbert Marcuse, como uma espécie de alegoria da sociedade de controle, alertando-nos sobre as consequências do excesso de repressão. O filme mostra a censura de um filme em suas cenas de amor mais quentes, e em outro momento mostra o diretor mandando amordaçar Vladimir Maiakovski​, cujos versos as crianças cantavam alegremente, dizendo que devemos lançar à lata de lixo da história todo esse papo de Adão e Eva…

Apesar de não ser nada fiel a quaisquer princípios do realismo socialista, o filme fornece vislumbres do que deve ter sido a pedagogia soviética, inspirada pelos ideais comunistas tais como eles se manifestavam na URSS dos anos 1960. O filme acaba por sugerir, de maneira impertinente-libertária – muito mais próximo do anarquismo do que do stalinismo! – que há algo na natureza humana que se revolta contra as mordaças e as camisas-de-força impostas pelo poder, por mais bem intencionado que este seja.

Este ímpeto vital, na meninice bastante ingovernável, é o que o processo pedagógico busca domesticar, impondo a ele limites, forjando para ele a jaula das regras e regulamentos, porém ele escapa sempre pelas frestas.

O protagonista, Kostya, é um emblema da pulsão vital, do élan pulsante de uma vida incontenível. Tanto que se rebela contra o pequeno cercadinho que é permitido aos pioneiros utilizarem, na beira da praia, para natação. A muvuca extrema naquele cercadinho de água é aquilo que instiga a rebeldia do pequeno pioneiro. Ele queria nadar como se estivesse livre em pleno oceano. Ele queria explorar as ilhas ao redor. Ele queria ir brincar com outras crianças da comunidade dos arredores, ao invés de ficar preso num círculo de convivência bem limitado, descrito aliás pelas autoridades com o nome militaresco de “tropa”.

Contra a disciplina imposta às crianças como partes de tropas a serem domesticadas, o pequeno rebento libertário que é Kostya utiliza toda a força da solidariedade entre os oprimidos para realizar uma espécie de Levante dos Zero de Comportamento.

Quando o filme se encerra, num desfecho memorável e delirante, surrealisticamente utópico, é como se Elem Klimov estivesse querendo botar pilha na fogueira de nossos ímpetos de ingovernáveis, chamando-nos para tentar até mesmo o que parece impossível: com Kostya, somos convocados ao redespertar da anarco-criança interior que é capaz de saltar por barreiras ditas incontornáveis, pulando por cima de fronteiras excessivas pela repressão edificadas.

Kropotkin, creio eu, aplaudiria.

Por Eduardo Carli de Moraes​ para A Casa de Vidro

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TÍTULO EM INGLÊS: Welcome, Or No Trespassing.

TÍTULO EM RUSSO: Dobro pozhalovat, ili Postoronnim vkhod vospreshchen

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A ÁRVORE DA VIDA NA VIAGEM DO TEMPO – Sobre Ética e Responsabilidade Pela Vida Vindoura

A ÁRVORE DA VIDA NA VIAGEM DO TEMPO

“We did not weave the web of life, we are merely strands in it. Whatever we do to the web we do to ourselves.”
― Chief Seattle

Que a Vida emergiu no seio da Natureza, que inúmeros organismos animados incandescem no pulsante coração da Phýsis, isto é o irrefutável – é o que Hans Jonas chama de o “testemunho do Ser” e que é difícil para qualquer vivente conseguir negar. Mesmo o mais empedernido niilista, o mais pessimista dos misantropos, não conseguiriam negar que a vida existe – podem negar somente que ela tenha algum valor, que seja digna de ser preservada, mas o fato ontológico de seu Ser é aquilo que agarra qualquer indivíduo em seu seio com o abraço magnético das verdades irrefutáveis. Nem mesmo os suicidas conseguem negar o fato vital, ainda que apaguem o élan vital deste minúscula parte do cosmos que é um indivíduo. Mas matar-se é sempre afirmar que a vida, indubitavelmente, existia, e que sobrevivem vidas às mancheias a qualquer cadáver. Todo suicida é sobrevivido por uma profusão de vivos que insistem e resistem.

Respiro, resisto, provo que existo. Para além do racionalismo cartesiano, a evidência irrecusável de que há Vida.

Quer a descrevamos como Árvore, quer como Teia, a Vida é aquilo de que não se pode duvidar sem absurdo: qualquer vivo é prova viva de que não existe, nem atualmente nem nos milhões de anos do passado mais recente, Natureza desprovida de vida. Está ao nosso redor em toda a exuberância que alucinava Williams Blakes e Lucrécios, it’s plain to see and it doesn’t need Belief. 

A Vida, fenômeno dinâmico e mutável, inclui entre as suas potencialidades uma diversidade de formas cambiante, uma biodiversidade que pode ir do mínimo (imaginemos um mundo onde só existem organismos unicelulares) a uma exuberante cornucópia de milhões de espécies diversas. Este colorido da Árvore da Vida, o número de “frutos” diferentes que esta grande árvore consegue nutrir com sua seiva, varia enormemente conforme corre o rio do tempo em sua infindável viagem. Espécies podem ser extintas em massa devido a eventos cataclísmicos como aquele que, há cerca de 65 milhões de anos atrás, varreu os dinossauros da face da Terra. Não temos que enxergar como nossa responsabilidade coletiva, enquanto seres humanos capazes de impactar tremendamente esta Árvore a qual pertencemos, a preservação das condições não só de nossa própria existência específica, mas de algo mais vasto, de todo o conjunto da pluridiversa teia da Vida? E o que fazemos hoje senão, irresponsavelmente, serrar o galho sobre o qual estamos sentados?

O aquecimento global causado pelas excessivas emissões carbônicas que empestam a nossa atmosfera e produzem o Efeito Estufa, os 9 milhões de mortes prematuras causadas pela poluição e a crescente acidificação dos oceanos são algumas das causas atuantes na contemporaneidade que vem causando uma extinção em massa da biodiversidade terrestre que está entre os processos globais mais assustadores hoje em curso. A ética e a política necessitam dar o salto percepcional – vivemos, como diz Fritjof Capra em Ponto de Mutação – uma crise sócio-ambiental global que decorre também de uma disseminada e nefasta crisis of perception.

Ainda há muitos que não perceberam que a Humanidade, com o conjunto de seus meios de produção, tem transformado tão radicalmente toda a biosfera que hoje tornou-se o perigo suprem para a própria Teia da Vida sobre a face da Terra. No Antropoceno, uma forma de vida pode estar causando a extinção de milhares e milhares de espécies vivas, agindo de uma maneira que justifica plenamente as preocupações da Mafaldita, a guria-filósofa de Quino. Muito esperta e afinada com a filosofia de Hans Jonas, Malfada um dia grudou ao mapamúndi o dito: “CUIDADO! IRRESPONSÁVEIS TRABALHANDO!”



É para transcender a irresponsabilidade hoje hegemônica – e que leva, p. ex., fazendeiros acéfalos, cheios de bufunfa mas nulos de sabedoria, a botarem fogo de maneira criminosa na Chapada dos Veadeiros, como fizeram em Outubro de 2017 –  que podemos encontrar muita serventia na filosofia de Hans Jonas. Desde que a conectemos a mais de 25 séculos de reflexão sobre a Phýsis, desde os primeiros pré-socráticos (Tales de Mileto, Empédocles, Xenófanes, Heráclito etc.) até a constituição da primeira teoria científica de explicação da Natureza –  a teoria atômica.

O materialismo, em suas primeiras encarnações históricas, com Demócrito de Abdera, Epicuro de Samos, Lucrécio de Roma, faz a aposta ontológica em uma Natureza integralmente composta de átomos e vazio. Em outros termos: tudo que há compõe-se de Matéria a interagir de maneira dinâmica no interior e na imanência de um espaço imenso. No salão de danças do cosmos, sóis e planetas entretecem suas matérias no fluxo sem fim do Tempo, viagem sem arremate, percurso sem repouso. Everything forever flows.

Como a vida pôde emergir deste fluxo? Como a Natureza foi capaz de parir a primeira centelha de vida? Que forças e contextos fizeram eclodir, em meio à matéria inanimada, a vida animada? Isto faltava ao precursor histórico do materialismo: a filosofia de Demócrito, tal como chegou até nós – mutilada pelo Tempo, censurada pelos adversários… – não parece realizar as devidas distinções entre a matéria animada (viva) e a matéria inanimada (ou inorgânica). Darwin e sua Teoria da Evolução pressupõe uma continuidade entre estes dois “reinos”: eles teriam bem mais do que pontes os conectando, seriam ontologicamente unos, unidos no seio do Ser, irmanados pela matéria comum. Demócrito, sobre isso, calou-se.

O esplendor da diversidade da vida seria algo que o materialismo só saberia cantar com o devido esplendor alguns séculos depois, com Lucrécio, poeta-pagão de verbo incandescente, que legou à Humanidade seu “De Rerum Natura – Da Natureza das Coisas”, obra de amplíssima repercussão histórica (como demonstrado por Greeenblatt em “A Virada”), livro que ajudou a parir o Mundo Moderno e enterrar a Idade das Trevas (Saiba mais:http://wp.me/pNVMz-1QY).

Estamos hoje em pleno Antropoceno – nome da nova era geológica que os antropobichos encontraram para designar isto que estamos vivendo, ou seja, o Planeta Terra sequestrado aos desígnios colonizadores de uma Humanidade com mais de 7 bilhões de membros, endoidecida em seus processos de devastação da Natureza e de destruição da Teia (ou Árvore) da Vida.

Nesta encruzilhada urgente e fatal onde a Humanidade se encontra, a maioria de seus membros talvez ainda não tenha acordado para a plena consciência do que significa o homo sapiens ter se convertido em agente de extinção em massa. Que nós, humanos, possamos estar sendo, aos viventes com quem convivemos, algo equivalente a um cometa cataclísmico capaz de varrer os dinossauros para sempre de estarem “among the living”, é uma notícia que muito humano ainda não teve. Ou preferiu recebê-la fingindo-se de avestruz.



O mito de Narciso, que Freud aplicou à Humanidade como um todo em sua célebre preleção sobre as Três Feridas Narcísicas (o Heliocentrismo, o Evolucionismo, a Psicanálise…), merece ser re-ativado para pensarmos os porquês desta lamentável situação em que nos encontramos enquanto “raça humana” (como se diz na expressão infeliz…).

A Humanidade – o conjunto de todas as pessoas que existem em dado momento da história – ainda prefere o seu velho conhecido, o narcisismo antropocêntrico, àquela desagradável tarefa de honestidade consigo mesma que também é um dos alvos inglórios da Filosofia promover. A Humanidade-Narcisa, a Humanidade-avestruz, no geral apenas se esquiva dos conhecimentos que podem ferir sua auto-imagem positiva e brilhosa.

Os membros da Humanidade com síndrome narcísica não querem nem mesmo pensar na possibilidade de que possamos estar agindo como “espécie daninha” e produzindo alguns dos mais hediondos desequilíbrios ecosistêmicos já perpetrados por qualquer espécie de seres vivos…

É o momento, urgente e inadiável, de refletirmos a fundo sobre a Natureza e sobre a emergência, nela, de nós, que somos a natureza em processo de conscientizar-se sobre si mesma (para lembrar uma bela idéia do geógrafo anarquista Elisée RECLUS).

Gosto de pensar a Vida como uma Árvore que cresce por um período imensamente superior no tempo em comparação com as árvores normais que conhecemos: a Árvore da Vida persevera no ser por bilhões de anos, apesar de cataclismos e extinções, o que traz à mente os poetas que lindamente nos ensinaram, como Pablo Neruda, que “pode-se cortar todas as flores, mas não se pode deter a primavera.” Porém, espécies extintas são perdas irrecuperáveis. São primaveras que foram de fato detidas. O que a Natureza forjou em milhões e milhões de anos de evolução, aniquilamos para sempre.

“Estamos em guerra contra a natureza. Se vencermos, estamos perdidos” – Hubert Reeves


Um dos meus maiores interesses na obra do Hans Jonas, “O Princípio Responsabilidade”, livro magistral e que me vejo tão atraído a estudar mais a fundo, está na capacidade deste autor de filosofar com um enraizamento profundo no solo vital da Vida em Árvore, em seu processo infindável de acontecer.

Hans Jonas sabe que o presente da Vida inclui necessariamente, como testemunhado por nós mesmos, a vida consciente, a vida animada por subjetividade. Esta consciência, esta subjetividade, caso queiramos nos manter em solo monista, na companhia de Réclus e de Spinoza, de Deleuze e de Nietzsche, de Darwin e de Marx, esta vida capaz de consciência e que se qualifica como sujeito do conhecimento e da percepção, tem necessariamente que ter emergido do próprio seio da Matéria natural. A Vida emerge da própria imanência material em certo ponto de sua caminhada histórica. Isto não é apenas fato – impõe certos valores. O que é, por ser, implica-nos num dever-ser.

O axioma de Jonas – não muito distante de um vitalismo Nietzschiano – afirma que a Vida exige que a Vida continue. A Vida é um valor e um fim para a Vida. É o que Hans Jonas vai procurar provar através dos meandros de sua prosa filosófica densa e bem argumentada.

A Vida não está aí à-toa. A Vida trabalha. Rumo ao quê? Qual o alvo que a Vida busca em seus labores milenários? Qual o sentido de haver uma Árvore da Vida nascendo e perseverando no jardim terrestre, na espaçonave Terra? Segundo Hans Jonas, em seu ímpeto de tentar dar resposta a questões filosóficas tão antigas e tão sempiternas, a Vida nos dá como testemunho aquilo que não podemos legitimamente recusar: a Natureza tem sim seus fins, seus objetivos, suas vontades, seus télos, e entre eles está certamente a própria vida.

“A subjetividade é, em certo sentido, uma manifestação superficial da natureza – a ponta visível de um iceberg muito maior -, ela fala também em nome do seu interior mudo. Ou: o fruto revela algo da raiz e do caule dos quais ele proveio. (…) A ciência natural não nos diz tudo sobre a natureza: disso é testemunha mais cabal a sua incapacidade de dar conta do caso mais elementar do sentir (e, portanto, do fenômeno mais bem comprovado de todo o universo!) – exatamente a ponta do iceberg. Essa é uma incapacidade essencial, e não provisória. Um efeito colateral e paradoxal dessa incapacidade é o fato de que a própria ciência natural, como um evento no universo a ser explicado, permanece eternamente excluída daquilo que ela pode explicar.

De todo modo, repetimos, da mesma forma como a subjetividade manifesta (que também é sempre particular) é algo assim como um fenômeno que emerge na superfície da natureza, ela se encontra enraizada nessa natureza e em continuidade essencial com ela, de modo que ambas participam do ‘fim’. À luz do testemunho da vida (que nós, rebentos que nos tornamos capazes de compreender a nós mesmos, deveríamos ser os últimos a negar), afirmamos, portanto, que o fim, de modo geral, tem domicílio na natureza. E podemos dizer algo mais quanto ao conteúdo: ao gerar a vida, a natureza manifesta pelo menos um determinado fim, exatamente a própria vida… Evitamos dizer que a vida seja ‘o’ fim, ou mesmo o principal fim da natureza, pois não temos elementos para fazer tal tipo de suposição; basta dizer: um fim.”

[HANS JONAS, “O Princípio Responsabilidade – Ensaio de uma Ética para a Civilização Tecnológica ” (Das Prinzip Verantwortung – Versuch einer Ethic für die Technologische Zivisilation). Publicado em alemão em 1979 e em inglês em 1984. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2006. P. 136-139.]


Ora, se a Natureza tem por um de seus alvos a Vida, e a Vida está aqui como testemunho da resiliência da Natureza na persecução incansável de seus planos, quem somos nós enquanto Humanidade para violar esta lei natural e rompermos com nossa ação conjunta todo o tecido vital? Isso é modo de tratar nossos con-viventes? O desprezo e a negligência, que manifestam muitos de nossos líderes políticos em posição de poder e decisão no topo de hierarquias econômicas e políticas, pelo FUTURO DA VIDA SOBRE A FACE DA TERRA é algo que deveria nos estarrecer, indignar e revoltar. A leitura de Hans Jonas, acredito, possui um certo potencial inflamável: lê-lo poderia nos ajudar a aumentar a temperatura de nossa ação comum contra todos aqueles que violam a vontade natural de que siga existindo Vida em diversidade e em evolução no seio da Natureza imediata – onde estamos mergulhados e enraizados.

“A natureza cultiva valores”, escreve Jonas, e a expressão me faz pensa no Jardim de Epicuro. Ali, cultivava-se a amizade, ali as flores que se queriam colher tinham o perfume delicioso da amorosidade entre pessoas que buscam sinceramente a verdade e a felicidade. Como propor que a Natureza é “neutra de valores” se temos a prova do contrário em nós mesmos, se temos a evidência suprema em nosso próprio coração, na pulsância mesma de nossas viscerais vontades? Se nós, que estamos na Natureza e somos Natureza, perseguimos fins, temos metas, somos impulsionados por desejos por aquilo que encontra-se ainda no horizonte do possível e do realizável, por que a Natureza seria diferente? É o que Jonas chama de “a imanência dos fins no Ser”.

Seríamos, nós humanos, corpóreos espíritos que manifestam por sua própria existência que o Ser em sua totalidade não poderia jamais ser considerado como isento de fins. A Natureza encontra na Vida seu sentido e não teríamos nós, humanos, o direito de tudo destroçar.

“O mais forte argumento do materialismo”, segundo Jonas, é que “em conformidade com toda experiência humana, existe matéria sem espírito, mas não espírito sem matéria: não se conhece qualquer exemplo de espírito incorpóreo.” Ora, esta união corpo-espírito, que atravessa a história da filosofia, de Demócrito e Epicuro, de Lucrécio e Spinoza, de Bergson a Jonas, é aquilo que justifica a noção de felicidade como fim imanente irrecusável de qualquer ética monista-materialista.

É aí que Jonas e Epicuro podem se unir, através dos abismos do tempo histórico, para dançarem uma ciranda muito solidária sobre a canção entoada pela Felicidade – musa-Vênus que, como élan, em nossos peitos irrefutavelmente pulsa:

“Todos os homens, diz-se, almejam a felicidade. Não se diz isso em virtude de uma comprovação estatística, pois ao dizê-lo acrescentamos a afirmação de que tal busca da felicidade se encontra na sua própria natureza; portanto, fazemos uma constatação sobre sua essência. A universalidade do objetivo de ser feliz, definida dessa forma, a princípio não é mais do que um fato: não parece que seja necessário concordar com o consequente esforço de buscá-la; pode-se desdenhá-lo ou rejeitá-lo.

É preciso reconhecer que a busca da felicidade não é fruto de escolhas voluntárias, e o fato de que ela se encontre enraizada de modo tão universal em nossa natureza provoca no mínimo uma forte presunção de que esta seja uma busca legítima. Se ela não indica uma obrigação, pelo menos indica um direito: se não temos a obrigação, pelo menos temos o direito de buscar a felicidade (desde que respeitemos um certo número de condições). Mas daí, por sua vez, resultaria então a obrigação – ou seja, um dever – de respeitar no outro esse direito, de não impedi-lo, e talvez até de promovê-lo.” (JONAS, p. 143)


O que não temos o direito de fazer, argumenta Jonas, é aniquilar a possibilidade do surgimento de novos seres que, como nós, têm a capacidade da finalidade, o desejo de dignamente buscarem serem felizes. Ser responsável – pôr em prática o Princípio Responsabilidade! – é olhar em direção ao futuro e enxergar que aqueles que não nasceram ainda não podem ser por nós condenados à não-existência sem que com isso nós cometamos o mais tolo, o mais vil, o mais suicida de todos os crimes: o crime contra a Natureza, que equivale a serrarmos o galho onde nós mesmos estamos sentados.

Urge acordarmos para o fato de que não temos nenhum direito a depredar a Árvore da Vida, de meter fogo nela como fazem ruralistas do agrobiz no Cerrado brasileiro, e que ao fazê-lo nos expomos à pérfida posição de inimigos da vida, agentes da morte, laboradores pela extinção – feia e triste coisa de se ser…

Estou com os que afirmam e defendem a Vida, irrefutável não só por sua beleza e diversidade, mas por ser, no seio da Natureza, uma das produções imanentes mais complexas e resilientes que Pachamama já pariu de seu incansável útero grávido de estrelas e células.

Temos o direito de condenar futuras gerações de viventes a uma miséria de vida em meio a um ecosistema desequilibrado, caótico, contaminado? Não é irresponsável legar aos vindouros que viverão um dia uma situação tão desgraçada que eles estejam condenados ao fracasso naquela busca pela felicidade que a Natureza solidamente implantou em suas vísceras e nos recônditos de seus cérebros perpassados pela Pulsão, pelo Impulso, pela Vontade?

“O interesse do Outro, que eu devo respeitar, poderia ter como consequência indireta para mim o dever de também promover a minha própria felicidade, cuja limitação poderia perturbar a felicidade comum…” (JONAS: p. 143)

O Princípio Responsabilidade não é exatamente uma doutrina ética que pregue o ascetismo individual, nem exatamente uma pregação moralista que exige o sacrifício da geração presente em prol da futura. Essencialmente um pensador ético-político, Hans Jonas propõe uma nova governança e uma nova legalidade coletivas para os novos tempos – que ele ainda não chamava de Antropoceno, como será batizado por Paul Crutzen . A ética da responsabilidade pela vida vindoura que Hans Jonas propõe postula a posição de primazia que aquele que ainda vai nascer pede de nós, os hoje-vivos, dada a magnitude da potencialidade humana de aniquilar tecnicamente as condições para a continuação da vida sobre a face da Terra.

Esses vindouros que um dia ainda vão nascer neste nosso Mundo Comum, superando o Outro sempre-contemporâneo das éticas tradicionais, devem ganhar mais espaço em nosso radar moral, os viventes vindouros devem se torna o Outro pelo qual nos responsabilizamos. E quando dizemos vivemos vindouros, queremos incluir aí todas as vidas não-humanas, inserir na ética e logo na responsabilização inclusive este estranho Outro, este Outro que ignoramos tanto e tão irresponsavelmente, que é o Futuro Ser Vivo Não-Humano, que desde já estamos aniquilando em vastíssima escala (conferir Elizabeth Kolbert e seu livro premiado com o Pulitzer, “A Sexta Extinção”: http://wp.me/pNVMz-470).

Novos imperativos categóricos daí decorrem. Aja sempre de modo a não aniquilar a possibilidade de continuação da aventura da Vida na viagem do Tempo. Jamais ponha em risco a capacidade da Natureza em prosseguir produzindo a Vida em sua diversidade e em sua capacidade de diversificação, mutação, inovação.

Procure sempre olhar para além do umbigo do instante imediato e enxergue que Mundo Comum, como ensina Hannah Arendt, é aquilo que adentramos ao nascer, que deixamos ao morrer, que precede em bilhões de anos nossa entrada, que sobreviverá por bilhões de anos após a nossa saída.

A dita Mãe-Natureza, a Espaçonave em que estamos todos embarcados, obriga-nos a percebermos, caso queiramos ser sábios e colaboradores de seus astrofísicos projetos, que “diante dos nossos desejos e opiniões particulares ela detém os privilégios do todo diante das partes, do duradouro diante do transitório, do poderoso diante do ínfimo.” (HANS JONAS, p. 144)

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A UTOPIA COMUNISTA EM QUESTÃO: Hans Jonas comenta a herança marxista

Poderíamos legitimamente atribuir a degradação ambiental do planeta toda ao capitalismo? Como a utopia comunista se coloca, no campo de debates e conflitos, em relação à gestão ambiental? O que o marxismo e as revoluções por ele inspiradas propõe diante da perspectiva da Terra, no Antropoceno, vivenciar algumas das piores catástrofes e crises humanitárias já vivenciadas por qualquer geração humana? Precisamos de fato de uma utopia, como a comunista, para guiar nossas ações rumo a um futuro melhor, ou devemos ser mais modestos e, como propõe Hans Jonas, abandonar utopias para focar na tarefa urgente de tornar este mundo um pouco menos hediondo?

Vejamos, por exemplo, no capítulo V de O Princípio Responsabilidade, o que diz Jonas sobre “os efeitos desmoralizantes da exploração econômica”. Ele parte do “mote da crítica marxista ao capitalismo, segundo a qual as relações de exploração são imorais como tal, sendo seus efeitos igualmente desmoralizantes, tanto para os ganhadores quanto para os perdedores. Os exploradores são culpados pelo simples fato de sê-lo e, além disso, como ninguém é capaz de suportar por muito tempo a consciência da culpa, eles sofrem com a deformação moral da insensibilização e da consciência mentirosa, sem as quais não poderiam continuar a desemprenhar seu papel. (…) A sentença socrática, de que o injusto antes de tudo prejudica a si mesmo, cabe aqui também ao ‘explorador’… o sistema é moralmente prejudicial até para os seus beneficiários.” (p. 275)

O capitalismo só tem perdedores – mesmo aqueles que pensam estar ganhando, ou seja, aqueles que comemoram seus privilégios nos topos de pirâmides econômicas, estão moralmente na lama, no lodaçal da injustiça praticada cotidianamente e recalcada através das invenções psíquicas alienantes e perigosas produzidas pela hipocrisia. O bilionário hipócrita irá colocar a máscara de cidadão caridoso ao doar alguns milhões para uma ONG de combate à desnutrição infantil, mas jamais ousará questionar que a própria fonte de seu capital bilhardário seja de fato um sistema que condena milhões a morrer de fome.

O explorador, ao empobrecer o Outro, ao desrespeitar as dignidades mais básicas que seriam de direito de todos. E isso de acordo não apenas com os Direitos Humanos universais mas de acordo também com muitas pregações religiosas, como as do catolicismo, palavra que literalmente quer dizer universal e que jamais previu um deus como Jeová, particularista em sua escolha do povo eleito; no catolicismo, não há povo eleito senão a humanidade como um todo… ao (menos em teoria, ou melhor em teologia, na prática a coisa sempre foi outra e católicos não conseguiram estender aos partidários de Alá os princípios de seu ímpeto kathólico…).

“Os primeiros tempos do capitalismo industrial nos ensinaram sobre o resultado duradouro e objetivo da exploração econômica: a distribuição injusta dos bens (ou seja, não conforme ao trabalho despendido), que pode conduzir um grande número de despossuídos à degradação da sobrevivência mais elementar, que não deixa espaço para mais nada. Sobre isso, vejam o livro de Friedrich Engels, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. É óbvio que tal situação amesquinha o homem como tal: a pobreza conduz ao empobrecimento também do ponto de vista moral. O que se obtém no despotismo, por meio da violência e do medo, obtém-se aqui pela miséria material e a necessidade bruta… Ecoam as palavras de Bertolt Brecht em nossos ouvidos: ‘Primeiro vem a comida, depois a moral’, ‘mas as circunstâncias não o permitem’.” (Ópera dos Três Vinténs) 

Quando Brecht escreve esta famosa frase, quer dizer de fato que há uma relação de primazia do pão (primeiro a comida!) em relação à moral. O que queremos não é uma sociedade onde riquíssimos senhores, detentores de capitais provenientes da exploração em massa de seus próximos, fiquem em cima de púlpitos, cátedras ou parlamentos fazendo pregações morais sobre a importância da caridade, ou seja, das esmolas. O que queremos é uma sociedade onde a miséria de muitos não sirva de trampolim os privilégios injustos de poucos. Comentando o mote Brechtiano, Hans Jonas diz: “isso significa que os famintos (ameaçados de morrer de fome), bem como aqueles que estão sendo sufocados, são privados das necessidades das necessidades mais básicas da vida e, por isso, mantidos em um estado pré-moral; mas, em seguida, efetivamente vem a moral, que reivindica seu quinhão.” (p. 256)

A teoria ética de Jonas prevê um “dever moral para com terceiros” que consiste em “ajudar a superar uma condição que inviabiliza a moral”, o que significa construir uma “situação justa” que “abriria as portas para a libertação do potencial humano propriamente dito, que até agora estaria obstruído pelas relações injustas de ambos os lados da divisão em classes.” (p. 257) Parece-nos, pois, que Hans Jonas sonda a sério a possibilidade de que a utopia comunista possa participar da solução de nossos problemas, que envolvem também a tarefa monumental de formular novos paradigmas para a ética e para a política com a perspectiva da responsabilidade expandida, que deve abarcar também os que viverão um dia e não só os que vivem agora.

Porém, aquilo que torna Hans Jonas um crítico contundente do marxismo e das utopias políticas a ele vinculadas é o “culto da técnica”. Marxistas seriam idólatras da tecnologia, estariam de joelhos diante do mesmo deus de muitos capitalistas, ou seja, o chamado “progresso técnico-científico”.

“O marxismo é um dos frutos do pensamento baconiano. Ele se compreende, fundamentalmente, como aquele que foi escolhido para ser o seu executor testamentário. Desde o início o marxismo celebrou o poder da técnica, acreditando que a salvação dependesse da união desta com a socialização. Para ele, não se trata de controlar a técnica, mas de liberá-la dos grilhões da propriedade capitalista, pondo-a a serviço da felicidade humana. (…) Aqueles que são bastante idosos para terem testemunhado os primórdios da Rússia soviética se recordam do lema ‘socialismo e eletrificação’, do livro chamado Concreto, do filme de Eisenstein narrando a heroica construção de uma estrada de ferro, da glorificação dos tratores, da comemoração da instalação de cada nova fábrica e de cada progresso na engenharia, saudados como contribuições ao socialismo. Podemos hoje sorrir dessa fase infantil…” (p. 254-255)

A crítica de Jonas ao marxismo dirige-se, pois, à dominação da natureza pelos meios de produção coletivizados, de modo que mesmo na utópica sociedade em classes os humanos seguiriam impondo excessivas espoliações à Phýsis. Não tenho conhecimento suficiente sobre a obra de Francis Bacon para julgar se Jonas tem razão em vincular o pensamento de Marx e Engels a ele. Parece-me estranho, porém, que O Princípio Responsabilidade trace este vínculo Marx-Bacon e nem sequer mencione um vínculo muito mais sólido, firme, explícito, aquele que une Marx ao materialismo filosófico inaugurado por Demócrito e Epicuro. O próprio jovem Marx, em seu doutorado, devotou-se a analisar as filosofias da natureza destes dois filósofos, de modo que a visão Marxiana da Phýsis parece-me muito mais próxima das percepções materialistas (reavivadas no Iluminismo francês, que Marx tão bem conhecia, por Helvétius, Diderot, D’Holbach etc.) do que da tradição Baconiana… Contestável, a tese de Jonas afirma:

“Pode-se dizer que o marxismo, que integra a ingênua fórmula baconiana da dominação da natureza e a transformação radical da sociedade, pode ser hoje considerado seriamente como fonte de uma ética que oriente a ação predominantemente para o futuro, daí extraindo suas normas para o presente. Pode-se dizer que o marxismo pretende colocar os frutos da herança baconiana à disposição da humanidade, realizando a promessa original de um gênero humano superior, promessa que se encontrava em má situação nas mãos do capitalismo. Por isso, podemos dizer que o marxismo é uma escatologia ativa, da qual tanto a previsão quando a vontade são elementos equitativos, e cuja busca se impõe como um dever irrecusável, posta inteiramente sob o signo da esperança.” (p. 239)

Sabe-se que a série de livros de Ernst Bloch, O Princípio Esperança, é aquilo que Hans Jonas busca refutar em seu O Princípio Responsabilidade. Digamos, de modo simplista, que Hans Jonas prefere uma ética do medo a uma ética da esperança. Jonas acha que o medo da catástrofe deve servir como motivação para o nosso agir presente de modo mais determinante do que a esperança de uma mundo melhor. Ao utopismo, ao “melhorismo”, ao progressismo, ele opõe a noção, supostamente realista, de que o melhor que temos a fazer é combater a vinda do pior. Nosso dever é criar obstáculos à barbárie, é resistir aos destruidores de ecosistemas, é evitar que o pior se concretize. Hans Jonas olha para o futuro com olhos cheios de terror e pânico, e depois nos pede: renunciem à utopia! Só precisamos, no real distópico em que estamos afundados, de responsabilidade, não de delírios quiméricos de comunas perfeitas prometidas no futuro radiante…

“A abundância material, produzida pela tecnologia moderna, constitui um elemento essencial do ideal socialista. De fato, em todas as partes onde o socialismo conquistou o poder, acelerar a industrialização foi a marca da sua política efetiva e resoluta. Assim, é válido seguir dizendo que o marxismo ‘progressista’ na origem,nascido sob o signo do ‘princípio da esperança’ e não sobre o ‘princípio do medo’, é tão tributário do ideal baconiano quanto a sua contra-parte capitalista, com a qual ele compete: a lógica que comanda o projeto socialista é igualar e depois ultrapassar o capitalismo na coleta dos frutos obtidos graças à técnica.  Em suma, o marxismo é, quanto à sua origem, um herdeiro da revolução baconiana, compreendendo-se como seu testamenteiro – aliás, como melhor testamenteiro do que o capitalismo, pois mais eficiente.

Resta provar se ele poderá ser superior ao mestre. Nossa resposta é a de que ele só poderá sê-lo caso modifique a forma como interpreta a si mesmo, deixando de ser aquele que traz a salvação para tornar-se aquele que protege do mal, renunciando, portanto, ao seu sopro vital, a utopia. Esse seria um marxismo muito diferente, quase irreconhecível…. Estaria perdido o ideal que o animava (não sabemos se a dor da perda seria ou não salutar). A sociedade sem classes não mais apareceria como a realização do sonho da humanidade, mas, de forma muito sóbria, como a condição para preservar a humanidade diante da era crítica que se anuncia.” (p. 241)

Ora, Hans Jonas insiste que sua obra é escrita na pressuposição de que “vivemos em uma situação apocalíptica, às vésperas de uma catástrofe, caso deixemos que as coisas sigam o curso atual. O perigo decorre da dimensão excessiva da civilização técnico-industrial, baseada nas ciências naturais. O que chamamos de programa baconiano – ou seja, colocar o saber a serviço da dominação da natureza e utilizá-la para melhorar a sorte da humanidade – não contou desde as origens, na sua execução capitalista, com a racionalidade e a retidão que lhe seriam adequadas….” (p. 235) Os excessos de produção e consumo, com as consequentes emissões de poluentes e lixo, trazem para cima de nossas cabeças as nuvens carregadas de tempestade.




Fotografias por Edward Burtynsky – Saiba mais

O Antropoceno é justamente a fase histórica conde estamos “sob perigo do esgotamento dos recursos naturais” que ocorre devido “a um crescimento enorme do intercâmbio metabólico entre o corpo social e o ambiente natural”, somado ao “aumento numérico desse mesmo corpo coletivo metabolizante, ou seja, o crescimento exponencial da população na esfera de influência da civilização técnica, estendendo-se recentemente por todo o planeta.” (p. 235) Esta globalização da civilização técnica-científica-industrial impactou toda a biosfera, e analisando o marxismo Hans Jonas conclui que ele também é, de certa maneira, cúmplice no culto “Baconiano”. Ficamos tentados a dizer que ele fornece arsenal para aqueles que, dissidentes do marxismo até certo ponto, inventam vertentes ecosocialistas e anarcoecologismos. Filia-se também às teses sobre a necessidade de decrescimento, como as de Serge Latouche.

Decerto Hans Jonas se filia àqueles pensadores que criticam severamente a noção de crescimento econômico, tecnológico e industrial infinitos, uma quimera das mais nefastas e que decorre da incapacidade de enxergar que estamos em um mundo finito e que este dito “progresso” vem se dando às custas da dilapidação de recursos naturais não-renováveis. Nossa situação é tão catastrófica pois o aumento da população humana é uma tendência real, a população humana em ascensão é uma verdadeira bomba demográfica que não tarda a inviabilizar a sustentabilidade da biosfera – em breve seremos, segundo as estimativas, cerca de 9 bilhões de humanos.

“Uma população estática poderia em determinado momento dizer “BASTA!”, mas uma população crescente obriga-se a dizer “MAIS!”. Hoje começa a se tornar assustadoramente evidente que o êxito biológico não só coloca em questão o êxito econômico, reconduzindo-nos do efêmero banquete da abundância para o quotidiano crônico da miséria, mas ameaça levar-nos a uma catástrofe aguda da humanidade e da natureza, de proporções gigantescas. A explosão demográfica, compreendida como problema metabólico do planeta, rouba as rédeas da busca de uma melhora no nível de vida, forçando uma humanidade que empobrece, na luta pela sobrevivência mais crua, àquilo que ela poderia fazer ou deixar de fazer em função de sua felicidade: a uma pilhagem cada vez mais brutal do planeta, até que este diga a última palavra, não mais consentindo em sua superexploração. É com pavor que imaginaríamos as mortes e os assassinatos em massa que acompanhariam uma situação como essa. Mantidas por longo tempo fora do jogo, graças à técnica, as leis de equilíbrio da ecologia, que impediam o crescimento excessivo de uma única espécie, se imporão de forma assustadora, na mesma proporção em que se atingiram os limites de sua tolerância. É um grande desafio especular como será possível que aquela parte da humanidade, que restará, seguirá vivendo em uma Terra devastada.” (p. 236)

“PROMETEU ACORRENTADO”, de JORDAENS, Jacob. 1640.

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Eduardo Carli de Moraes, professor de Filosofia do Instituto Federal de Goiás (IFG) – oficial. A comunicação sobre estes temas será realizada durante o III Seminário Nupefil e VII Encontro de Filosofia – IFG, na Segunda-Feira, 30 de Outubro, no câmpus Goiânia, às 13:30. Estão todos convidados.

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Saiba mais em A Casa de Vidro:

  • A CORNUCÓPIA DAS CRISES E AS TAREFAS DA FILOSOFIA – Reflexões após o III Seminário NUPEFIL e VII Encontro de Filosofia no IFG Goiânia >>> https://wp.me/pNVMz-49v.

  • PROMETEU DESACORRENTADO – A responsabilidade pelos viventes vindouros na filosofia de Hans Jonas (1903 – 1993) >>> http://wp.me/pNVMz-2dY

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