SILÊNCIOS QUE BERRAM: Os assassinados Marielle, Moa e Evaldo ainda gritam – e suas ausências denunciam a vigência cruel da Necropolítica.

SILÊNCIOS QUE BERRAM

Brasil: eis um pesadelo de que não conseguimos despertar, similar à definição de História de Stephen Dedalus, o alterego literário de Joyce. Aqui, o real é um pesadelo num “país com um imenso passado pela frente”, como profetizava Millôr, nosso brilhante poeta-dramaturgo-comediante. São tempos em que a Elite do Atraso parece determinada em transformar todo o território numa Sucursal do Inferno – pra relembrar o título de um livro do Izaias Almada. Uma trogloditocracia nos desgoverna – e ao invés de estarmos nas barricadas, nas insurreições pra parir uma realidade menos sórdida, estamos debatendo o terraplanismo, zoando as “opiniões” evanjegues de Damares ou quebrando o pau em controvérsias se Olavo é filósofo, ou apenas astrólogo charlatão…

Diante de fatos recentes como a morte de dois músicos negros, um em Salvador e outro no Rio de Janeiro, não se pode calar as questões: quando o Exército criva um carro de família com 80 balas e mata um cidadão carioca, o músico Evaldo Rosa, e depois o chefe-de-Estado usa a frase “o Exército não matou ninguém” e qualifica o equivocado derramamento de sangue pelas forças armadas a serviço do Estado como apenas um “incidente”, não se torna explícito que estamos diante de alguém que considera, em massa, certa categoria de cidadãos como “ninguéns”, ou seja, como extermináveis?

O SILÊNCIO QUE BERRA – por Carlito Azevedo: “3 planos na foto. No primeiro plano, quase invisível, representando o nadinha de nada que nos isola do absurdo, fica o cordão de isolamento. No meio, a dor indescritível, o silêncio que berra (já aqui a cabeça entra em parafuso). Ao fundo, um pelotão de fuzilamento, nem próximo, nem distante, e 80 balas mais leve.” Foto de Fábio Teixeira.

Quando, em dia de eleição nacional, um eleitor do candidato de extrema-direita apunhalou pelas costas, com 12 facadas, o mestre de capoeira Moa do Katendê, e a resposta do então presidenciável do PSL foi, ao invés de solidarização com a vítima e atitudes de luto, tentar chupar os holofotes para si e para “sua” facada (o que ele queria saber, vocês se lembram, é quem tentou matá-lo em Juiz de Fora…), já não estamos diante da barbárie do empoderamento de um irresponsável?

São episódios em que o sangue escarlate derramado na bandeira já evidencia o erro na postura intolerante e intolerável dos que relinchavam “nossa bandeira jamais será vermelha!” Deixam claro que estamos entregando poder em demasia a um Sinhô incapaz de qualquer empatia com as vítimas das violências odiosas e sectárias que ele próprio disseminou, e que hoje comanda.

Não seria novidade histórica caso, diante das atrocidades que virão, o responsável-mor buscasse se esconder no argumento fácil e clichê da irresponsabilidade, do “não tenho nada a ver com isso”. “Pô, se um eleitor meu dá 12 facadas em alguém, depois de euzinho ter subido no palanque pra falar que tinha que ‘metralhar a petralhada’ e que ‘a ditadura matou pouco’, o que eu tenho a ver com isso?!?” É diante deste tipo de patologia da desresponsabilização que teremos que lidar. O próprio fato de Bolsonaro querer pular fora da responsa já é um sinal inequívoco que estamos diante de um temperamento ou caráter típico de um líder fascista. Pois Eichmann também era assim…

Diante da irresponsabilidade satisfeita-de-si que ostenta Bolsonaro, parecido com um pré-adolescente de 11 anos que ainda não tivesse aprendido qualquer noção de responsabilidade e solidariedade, é preciso lembrar das catástrofes conexas à esta incapacidade do sujeito de assumir a responsa pelo que diz e pelo que faz. O sujeito que alguns (cerca de 57 milhões de eleitores) escolheram para ser o Chefão do Executivo Federal está conduzindo o país a uma tragédia anunciada, e que já se processa em velocidade acelerada. E temos refletido muito pouco, coletivamente, sobre o quanto tudo isso tem a ver com aquele colapso da responsabilização que Erich Fromm e Wilhelm Reich, que Hannah Arendt e Theodor Adorno, nos ensinaram estar vinculada umbilicalmente aos genocídios e atrocidades cometidas por sociedades sob o feitiço maligno de uma liderança fascista.

O Brasil parece estar se afundando cada vez mais no lodaçal desta política irresponsável e sádica que presidiu também à “Solução Final” perpetrada pelo III Reich em seu trato com o “problema judeu”. Em sua “Cruzada por um Brasil Medieval”, como escreveu Sakamoto, o Bolsonarismo depende de suas redes de fake news e disinformação, com suas táticas à la Goebbels de produção da histeria anti-comunista, da mobilização dos ódios antipetista, antipsolista, antifeminista, antiLGBTQ etc.

E assim vamos embarcando no trem de horrores que a extrema-direita neo-fascista, mundo afora, costuma encabeçar e liderar: aquilo que Hannah Arendt chamou de “massacres administrativos”. A desgovernança do Bolsonarismo, este delírio fundamentado na filosofia Olavista, somado à idolatria pela ditadura e suas práticas-de-porão, conduz diretamente a uma política de extermínio, a chamada necropolítica, tão bem analisada pelo pensador camaronês Achille Mbembe.

Assumindo o poder após o golpe parlamentar que destituiu Dilma Rousseff, o traíra Temer (MDB) se referiu à “intervenção militar” que ordenou na cidade do Rio de Janeiro como um “laboratório” do que depois seria expandido para o resto do Brasil. Quando Marielle Franco e seu motorista Anderson foram metralhados em Março de 2018, a expressão de Temer ganhou contornos mais sombrios, uma ironia mais macabra.

Ao calarem com brutalidade a voz de uma representante do povo, eleita a despeito de suas origens pouco convidativas à ascensão aos palacianos espaços de poder, os poderosos mandaram a mensagem de que a execução ali era “laboratorial”. Parte de um experimento mais amplo. Parte de um plano de extermínio. Pois as velhas elites escravocratas, viciadas na mentalidade colonial, viciadas em subserviência em relação a metrópoles, sempre quiseram ver certos estratos da população como os ninguéns e os extermináveis. Na visão de mundo deles, uma mulher negra, nascida na favela da Maré, que ainda por cima comete o pecado de ser socialista e lésbica, é o suprasumo do sujeito aniquilável.

Com a eleição de Bolsonaro, aquele laboratório de aniquilação que foi o assassinato de Marielle Franco tornou-se uma das piores pedras no sapato do governo que, em 4 meses de caos e patifarias, deu a muitos a impressão de ser um governo natimorto, agonizante. Só não devemos subestimar a resiliência do capitalismo agonizante de arrastar-se nas vísceras, no suor e do sangue das pessoas que explora e oprime: é este o pântano predileto para que este monstro nos dê o espetáculo repugnante de seu rastejamento de agonia. O fascismo é como um capitalismo rastejante, já sem forças para pôr uma máscara de civilidade sobre o seu rosto transtornado pelo sadismo e pela perversidade.

Eliane Brum soube compreendê-lo a fundo e tem analisado em minúcias o que significa estarmos hoje sob o domínio dos perversos:

“Estamos sob o jugo de perversos, que corrompem o poder que receberam pelo voto para impedir o exercício da democracia.

Os exemplos são constantes e numerosos. Mas o uso mais impressionante foi a recente ofensiva contra a memória da ditadura militar. Bolsonaro mandou seu porta-voz, justamente um general, dizer que ele havia ordenado que o golpe de 1964, que completou 55 anos em 31 de março, recebesse as “comemorações devidas” pelas Forças Armadas. Era ordem de Bolsonaro, mas quem estava dizendo era um general da ativa, o que potencializa a imagem que interessa a Bolsonaro infiltrar na cabeça dos brasileiros.

Aparentemente, Bolsonaro estava, mais uma vez, enaltecendo os militares e dando seguimento ao seu compromisso de fraudar a história, apagando os crimes do regime de exceção. Na prática, porém, Bolsonaro deu também um golpe na ala militar do seu próprio Governo. Como é notório e escrevi aqui já em janeiro, os militares estão assumindo – e se esforçando para assumir – a posição de adultos da sala ou controladores do caos criado por Bolsonaro e sua corte barulhenta. Estão assumindo a imagem de equilíbrio num Governo de desequilibrados.

Esse papel é bem calculado. A desenvoltura do vice general Hamilton Mourão, porém, tem incomodado a bolsomonarquia. O que pode então ser mais efetivo do que, num momento em que mesmo pessoas da esquerda têm se deixado seduzir pelo “equilíbrio” e “carisma” de Mourão, lembrar ao país que a ditadura dos generais sequestrou, torturou e assassinou civis?

Bolsonaro promoveu a memória dos crimes da ditadura pelo avesso, negando-os e elogiando-os. Poucas vezes a violência do regime autoritário foi tão lembrada e descrita quanto neste 31 de março. Foi Bolsonaro quem menos deixou esquecer os mais de 400 opositores mortos e 8 mil indígenas assassinados, assim como as dezenas de milhares de civis torturados. Para manter os generais no cabresto, Bolsonaro os jogou na fogueira da opinião pública fingindo que os defendia.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro lembrou aos generais que são ele e sua corte aparentemente tresloucada quem faz o serviço sujo de enaltecer torturadores e impedir que pleitos como o da revisão da lei de anistia, que até hoje impediu os agentes do Estado de serem julgados pelos crimes cometidos durante a ditadura, vão adiante. Como berrou o guru do bolsonarismo, o escritor Olavo de Carvalho, em um de seus ataques recentes contra o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, ministro-chefe da Secretaria de Governo da presidência: “Sem mim, Santos Cruz, você estaria levando cusparadas na porta do Clube Militar e baixando a cabeça como tantos de seus colegas de farda”.

A ditadura deixou marcas tão fundas na sociedade brasileira que mesmo perseguidos pelo regime se referem a generais com um respeito temeroso. Nenhum “esquerdista” ousou dizer publicamente o que Olavo de Carvalho disse, ao chamar os generais de “bando de cagões”. Mais uma vez, o ataque, a réplica e a tréplica se passaram dentro do próprio Governo, enquanto a sociedade se mobilizava para impedir “as comemorações devidas”.

A exaltação do golpe militar de 1964 serviu também como balão de ensaio para testar a capacidade das instituições de fazer a lei valer. Mais uma vez, Bolsonaro pôde constatar o quanto as instituições brasileiras são fracas. E alguns de seus personagens, particularmente no judiciário, tremendamente covardes. Não fosse a Defensoria Pública da União, que entrou com uma ação na justiça para impedir as comemorações de crimes contra a humanidade, nada além de “recomendações” para que o Governo não celebrasse o sequestro, a tortura e o assassinato de brasileiros. Patético.

(…) Diante do populismo de extrema direita de Bolsonaro e seus companheiros de outros países, o neoliberalismo é apresentado como a melhor saída para a crise que ele mesmo criou. Mas Bolsonaro e seus semelhantes são os produtos mais recentes do neoliberalismo – e não algo fora dele.

(…) Recente pesquisa do Datafolha mostrou que ele é o presidente pior avaliado num início de governo desde a redemocratização do país. Mas Bolsonaro aposta que é suficiente manter a popularidade entre suas milícias e age para elas. Bolsonaro está dentro, mas ao mesmo tempo está fora, governando com sua corte e seus súditos. Governando contra o Governo. Essa é a única estratégia disponível para Bolsonaro continuar sendo Bolsonaro.

A oposição, assim como a maioria da população, foi condenada à reação, o que bloqueia qualquer possibilidade de ação. Se alguém sempre jogar a bola na sua direção, você sempre terá que rebater a bola. E quando pegar esta e liberar as mãos, outra bola é jogada. Assim, você vai estar sempre de mãos ocupadas, tentando não ser atingido. Todo o seu tempo e energia são gastos em rebater as bolas que jogam em você. Deste modo, você não consegue tomar nenhuma decisão ou fazer qualquer outro movimento. Também não consegue planejar sua vida ou construir um projeto. É uma comparação tosca, mas fácil de entender. É assim que o governo Bolsonaro tem usado o poder para controlar o conteúdo dos dias e impedir a disputa política legítima das ideias e projetos.” – Eliane Brum em EL PAÍS Brasil.

2. Eichmann deve morrer na forca? – A resposta de Hannah Arendt

Neste tristes tempos sombrios em que nos foi dado viver, torna-se crucial questionar o que devemos fazer contra aqueles que, hoje, mostram-se, tal como Eichmann, como agentes da banalidade do mal. Bolsonaro, ao ser eleito, cessou de ser o paspalhão meio cômico, uma espécie de versão fascista do Tiririca, e passou à condição de potencial genocida, já que lhe entregaram poder em demasia de controle do Estado.

De um ridículo velho racista e misógino, celebrado por alguns psicopatas idólatras como “Mito”, ele se alçou a fenômeno de massas, subindo nas asas das fake news, do antipetismo e da venda de soluções fáceis pra problemas complexos. Fazendo arminha à torto e a direita, ensinando crianças os gestos bélicos, denunciando adversários pelas lendárias mamadeiras de pirocas e kits gay, o campo Bolsonarista surfou na onda de ridículo e grotesco que ele criou.

Partícipe e cúmplice do golpe de Estado de 2016, Bolsonaro chegou pra explicitar a face sórdida do golpismo nacional: uma “gente careta e covarde”, como cantava Cazuza, que mobiliza solidariedades somente usando o cimento do ódio. Uma gentalha que dissemina mentiras para assassinar reputações – Manu veste camiseta “Jesus é travesti!”; Jean Wyllys é um pedófilo! Marielle Franco defendia traficantes de entorpecentes! Lula e Dilma são os cabeças do maior esquema de corrupção da História do Mundo!…

Não é nova a noção de que o governo deve construir seu poder sobre a mentira – a pia fraus que, na obra de Platão, já é mobilizada como instrumento do filósofo-rei em seu controle da pólis: na Politéia, Sócrates faz-se o porta-voz de uma espécie de “despotismo esclarecido” que se permite a utilização de uma “fraude pia” para o consumo das massas.

Mas o Bolsonarismo leva a noção de “governo da mentira” a outro patamar, pois quer praticar também o assassinato da memória através de sua re-escritura: assim como há historiadores negacionistas do Holocausto, como David Irving, confrontado brilhantemente por Deborah Lipstadt, há no Brasil os que desejariam escrever a nossa História negando as atrocidades cometidas por agentes do Estado durante a ditadura militar. Ustra será herói nacional, Paulo Freire perderá a posição como Patrono da Educação Brasileira para o tão maior Olavo de Carvalho, o golpe de 1964 terá sido uma revolução nacionalista (nada a ver com os EUA, a CIA, aquilo tudo que está no doc O Dia Que Durou 21 Anos) para nos salvar do vírus comunista que estava nos transformando numa nova Cuba…

O vazio de proposta, a ausência de utopia e a baixa capacidade ética e cognitiva marcam este desgoverno Bolsonarista, mas eles conseguem nos manter “entretidos” por suas patifarias, por sua capacidade infinita de produzir monstruosidades, pois no fundo encenam algo de quixotesco, algo de bastante ridículo. Vocês já notaram o quanto homenzinhos másculos e covardes, belicosos e estúpidos, como Hitler, Franco, Mussolini, Pinochet, Pol Pot, Bolsonaro, são sempre algo ridículos para quem quer que os enxergue com lucidez? São palhaços perigosos, e suas piadas às vezes só tem graça pra uma platéia que é tão chucra quanto eles.

O machista ri da piada machista, o racista da injúria racial fantasiada de anedota. Esta identificação idólatra que leva um sujeito submetido a cair de joelhos e lamber as botas – “meu Mito! meu querido Subjugador!” – só se processa caso não se perceba o ridículo das poses fascistas. Não se segue com subserviência um líder percebido como ridículo, ou seja, só digno de nossa insolência e desobediência! Posudos, posers, cheios de empáfia, atores escrotos de uma peça ruim, assim são os líderes fascistas quando debaixo dos holofotes midiáticos. Só dignos de que os denunciemos em coro por seus atentados contra a dignidade humana, cuja essência está em sua diversidade.

O antídoto contra as atrocidades de que o século XX foi repleto, ensina Arendt, é reflexão, responsabilidade, exercício autônomo do juízo. Em sua reportagem Eichmann em Jerusalém, ela faz um epílogo que ainda tem muito a dizer a nosso tempo. Hannah aí confessa que quis escrever o livro para sondar “em que medida a corte de Jerusalém esteve à altura das exigências da justiça” (p. 322). E um dos aspectos mais interessantes da obra é descobrir que, em seu cerne, cintila o questionamento: “Eichmann deveria mesmo ter morrido na forca? O Tribunal de Jerusalém cumpriu com o dever de Justiça ao condená-lo à morte?”

O debate filosófico sobre a pena de morte possui um dos seus ápices, no século XX, nas interações entre Albert Camus e Arthur Koestler, mas a obra que nasce daí – Reflexões Sobre a Pena Capital -, por mais brilhante que seja, passa ao largo do problema que Arendt decide enfrentar. Pois o Holocausto, a Shoah, é um crime sem precedentes. E os criminosos eram sujeitos diferentes de quaisquer outros criminosos já julgados em um aspecto: pareciam agentes de uma engrenagem que os transcendia. Eichmann, talvez querendo comprar um pouco de crença em sua inocência, dizia que estava só cumprindo ordens. Just a pawn in their game, como cantará Dylan. E, no entanto, Arendt exerce a fundo seu juízo e conclui: sim, há sim boas razões para enforcar Eichmann.

Camus, em O Homem Revoltado, também sondou o abismo da questão: existe um assassinato legítimo, por exemplo no caso de um tiranicídio? O problema de Arendt é outro: temos direito, nós enquanto comunidade de vítimas, enquanto judeus sobreviventes do massacre, condenar à morte um alto funcionário da maquinaria assassina nazista, um perpetrador de “massacres administrativos”? Já sabemos a resposta: Hannah Arendt não se opõe a que o tribunal de Jerusalém condene Eichmann a morte. Assim como outros líderes nazistas haviam sido nos trials de Nuremberg.

O que haveria de surpreendente na atitude da judia alemã que, sobrevivendo ao massacre através de seus exílios, exerce seu juízo ético para justificar a punição capital para um dos agentes supremos da Solução Final? Eichmann, para Arendt, é visto não como irresponsável, mas sim como responsável e punível por ter participado, por sua irreflexão, na cruel engrenagem da banalidade do mal. Se Eichmann pode ser condenado à morte, é pois antes ele foi um agente da condenação em massa de outros à morte, ele foi um agente do extermínio da pluralidade que constitui a essência da humanidade; assim, “o agente é um ofensor à ordem do mundo como tal. Para usar outra das metáforas de Jesus: ele é como a erva daninha, ‘o joio no campo’, com o qual nada se pode fazer exceto destruí-lo, queimá-lo na fogueira” (ARENDT, Crises da República. São Paulo: Perspectiva, 2004, p. 192).

Arendt, ainda que não aplauda a pena capital, neste caso a aceita, justificando sua posição nas palavras que encerram este livro fundamental do século XX. Ela diz: “se é verdade que a justiça não deve ser apenas feita, ela deve ser vista, então a justiça do que foi feito em Jerusalém teria emergido para ser vista por todos se os juízes tivessem a ousadia de se dirigir ao acusado em algo como os seguintes termos”:

Hannah Arendt em 1941. Retrato por Fred Stein (1909-1967)

“Você, Eichmann, admitiu que o crime cometido contra o povo judeu durante a guerra foi o maior crime na história conhecida, e admitiu seu papel nele. Mas afirmou nunca ter agido por motivos baixos, que nunca teve inclinação de matar ninguém, que nunca odiou os judeus, que no entanto não poderia ter agido de outra forma e que não se sente culpado. Achamos isso difícil, mesmo que não inteiramente impossível, de acreditar… Você disse também que seu papel na Solução Final foi acidental e que quase qualquer pessoa poderia ter tomado seu lugar, de forma que potencialmente quase todos os alemães são igualmente culpados.

O que você quis dizer foi que onde todos, ou quase todos, são culpados, ninguém é culpado. Essa é uma conclusão realmente bastante comum, mas que não estamos dispostos a aceitar. E se não entende nossa objeção, recomendaríamos à sua atenção a história de Sodoma e Gomorra, duas cidades bíblicas que foram destruídas pelo fogo do céu porque todo o povo delas havia se tornado igualmente culpado.

Isso, incidentalmente, nada tem a ver com a recém-nascida idéia de ‘culpa coletiva’, segundo a qual as pessoas são culpadas ou se sentem culpadas de coisas feitas em seu nome, mas não por elas — coisas de que não participaram e das quais não auferiram nenhum proveito. Em outras palavras, culpa e inocência diante da lei são de natureza objetiva, e mesmo que 8 milhões de alemães tivessem feito o que você fez, isso não seria desculpa para você.

Felizmente não precisamos ir tão longe. Você próprio não alegou a efetiva, mas apenas a potencial culpa da parte de todos que vivem num Estado cujo principal propósito político se tornou a perpetração de crimes inauditos. E a despeito das vicissitudes exteriores ou interiores que o levaram a se transformar em criminoso, existe um abismo entre a realidade do que você fez e a potencialidade do que os outros poderiam ter feito. Nós nos ocupamos aqui apenas com o que você fez, e não com a natureza possivelmente não criminosa de sua vida interior e de seus motivos, nem as potencialidades criminosas daqueles a sua volta.

Você contou sua história como uma história de dificuldades e, sabendo das circunstâncias, estamos até certo ponto dispostos a admitir que em circunstâncias mais favoráveis é altamente improvável que você tivesse de comparecer perante nós ou perante qualquer outra corte criminal. Suponhamos, hipoteticamente, que foi simplesmente a má sorte que fez de você um instrumento da organização do assassinato em massa; mesmo assim resta ofato de você ter executado, e portanto apoiado ativamente, uma política de assassinato em massa.

Pois política não é um jardim-de-infância; em política, obediência e apoio são a mesma coisa. E, assim como você apoiou e executou uma política de não partilhar a Terra com o povo judeu e com o povo de diversas outras nações — como se você e seus superiores tivessem o direito de determinar quem devia e quem não devia habitar o mundo —, consideramos que ninguém, isto é, nenhum membro da raça humana, haverá de querer partilhar a Terra com você. Esta é a razão, e a única razão, pela qual você deve morrer na forca.”

ARENDT, HannahEichmann Em Jerusalém. Cia das Letras, pg. 300 a 302. Consulte o PDF.

A tarefa de nosso tempo foi sintetizada por Adorno: evitar que Auschwitz se repita. Quem hoje não souber se responsabilizar, assumir o trabalho da reflexão autônoma e do juízo justo, terá as mãos sujas de sangue alheio tanto quanto os carrascos – pois os cúmplices (ainda não aprendemos?) também tem sua responsabilidade nas atrocidades. O que importa é evitar que Bolsonaro se transforme numa espécie de Hitler tropical, praticando a necropolítica do extermínio em suas ações contra pretos, mulheres, petralhas, gays, sem-terras, sem-teto, professores esquerdistas, paulo-freirianos, gramscianos, marxistas, que poluem o mundo com sua escória e agora serão varridos pela ação profilática da Raça Neo-Ariana.

É a velharia velhaca da pretensa supremacia branca de volta com todo seu racismo explícito. É a velha macheza patriarcal que subjaz, como atmosfera afetiva, aos feminicídios e aos homicídios homofóbicos. É a velhíssima crueldade das elites econômicas contra a massa espoliada. É a velha submissão ao capital estrangeiro e às seduções do conforto conformista de se submeter a ser teleguiado de fora, pela metrópole rica e sábia… Só que não: Trump não passa de outro fascistinha com dinheiro demais no banco. E o capitalismo neoliberal afunda-se no pântano sem fundo de sua própria catástrofe, coveiro de si mesmo como já previam Marx e Engels.

O que estamos vendo é o processo infindável do capitalismo a cavar sua própria cova. Ele consegue sempre que o buraco seja mais embaixo. Nosso buraco se chama Bolsonaro, mas também ele, como indivíduo, vai passar. Em algumas décadas o cadáver de Bolsonaro já estará decomposto. O que nos importa agora é lidar com o legado que ele vai deixar. É nossa tarefa histórica impedir que seja um legado de estrago. E a tudo estragar ele e sua trupe estão determinados. Não será fácil, como nunca foi, para aqueles que Brecht diz que “lutam a vida toda” e são por isso os “imprescindíveis”. Responsabilidade, afinal, é aquilo que é imprescindível para a experiência autêntica da ética vivida, é estar acordado para o fato de que “ninguém vive só nem para si” – como já dizia o poeta William Blake.

“Toda geração”, escreve Arendt, “em virtude de ter nascido num continuum histórico, recebe a carga dos pecados dos pais assim como é abençoada com os feitos dos ancestrais” (Eichmann em Jerusalém, p. 321). Um pensamento similar também se expressa nos textos fundadores do marxismo: “a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.”

Não há dúvida que, entre nós, a ideologia Bolsonarista e suas atrozes práticas conexas representam o que de pior nos legou a nossa sacrossanta tradição. Em Bolsonaro, como pústulas pululam as tradições nacionais: machismo patriarcal, homofobia violenta, supremacismo racista, elitismo anti-massas, economia ultracapitalista neoliberal ligada a caretice nos costumes, autoritarismo mandonista, aniquilação da alteridade e da diversidade (tanto a humana, quanto a de fauna e flora; é epistemicídio, etnocídio e genocídio no mesmo pacote com a hecatombe ambiental).

Talvez esta seja, na terra brasilis circa-2019, a melhor encarnação contemporânea da necropolítica e suas ânsias de extermínio (não tenham dúvidas: “o sonho ideal” dos Bolsonaristas é um mundo purgado, pela violência das armas, das hordas bárbaras de petistas, psolistas, esquerdistas, mariguellistas, guevaristas, marxistas etc…).

Muito do que tenho escrito reflete minhas angústias diante da questão que não quer calar: como podem os filósofos contribuir não só para a compreensão disso de que somos contemporâneos, mas também para a transformação sábia da existência que é a indestrutível missão secular da filosofia? Em outros termos, será que os filósofos não podem justamente ajudar a coletividade a perceber os perigos que perpassam o colapso da reflexão, da autonomia, da responsabilidade?

A lição de Arendt que poucos tiveram a coragem de ouvir é a de que não se deve tolerar os intolerantes, nem perdoar os genocidas. Nem encontrar desculpas no “meio” ou nas “circunstâncias” para lidar com misericórdia e complacência aqueles que são perpetradores e cúmplices das barbaridades praticadas pelas engrenagens que banalizam o mal.

Quem está com o fascismo, está com a morte cruel imposta às massas de colorida alteridade, marcadas como indigna de viver por pertenças de raça, classe ou gênero (o eixo articulador da Opressão, ensinam as teóricas da Interseccionalidade, é o tripé do opressor: racismo, classismo, sexismo). Sob o fascismo, a Diversidade é o “cabra marcado pra morrer”.

Quem é cúmplice do extermínio da pluralidade constitutiva do mundo não merece, daqueles que em carne viva compõe a teia vivente desta pluralidade humana, nenhuma complacência, mas sim toda resistência ativa e combativa, toda ação por mudança (inclusive de mentes alheias). Pois queremos um mundo onde caibam todos os mundos. Todas as cores e ritmos. Todas as peles e ideias. Menos as que aniquilam a própria diversidade.

Responsáveis agem; ovelhas passivas obedecem – ainda que o pastor esteja ordenando que se taquem de cabeça no abismo. Responsáveis seremos apenas quando assumirmos a ação coletiva, no mundo comum, coordenada e baseada nos Kropotkinianos preceitos da ajuda mútua, em que expressaremos que não toleraremos tal grau de intolerância, que nosso neo-iluminismo não deixará quieta esta nova maré alta do obscurantismo, que com todo nosso amor ao mundo e a nós dentro dele, em nosso colorido multidiverso, batalharemos com todo o nosso alento e ímpeto para que cessem de triunfar os exterminadores da diversidade e os silenciadores dos dissensos.

Democracia é a sábia permissão ao dissenso dialogado no horizonte de uma reflexão coletiva sobre o bem comum; Ditadura é a imposição, de cima pra baixo, dos valores, normas e hierarquias de uma minoria minúscula que trabalha pelo extermínio da diversidade. De que lado você está? Com os que se levantam juntos por um possível melhor futuro, ou com os que se ajoelham sobre as poças de sangue que derramaram em gangue?

-Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 16/04/2019

 

EPÍLOGO: UMA SÁBIA CANÇÃO RECÉM-NASCIDA DE CEUMAR

 

SIGA EXPLORANDO:

A HUMANIDADE DESPEDAÇADA – Lições de Dilaceramento no filme “Em Pedaços”, de Fatih Akin (Alemanha, 2017, 1h46min)

“A desumanidade terá um grande futuro.”
Paul Valéry

Não há porque temer o desaparecimento do despedaçamento humano: prosseguimos divididos e nos matando como se fôssemos feras ferozes. O foco principal do perturbador Em Pedaços (título original em alemão: Auf Der Nichts; título em inglês: In The Fade), do cineasta turco-alemão Fatih Akin (o mesmo de Contra a Parede), é o cruel dilaceramento de uma mãe e esposa vê seu marido e filho serem reduzidos a pedaços por um ato terrorista neonazi.

Nascido de pais turcos em Hamburgo, no ano de 1973, o diretor Akin sedia em sua cidade natal este seu denso conto de desumanização, incompreensão e desatamento incontrolável de violências. Explora a geopolítica européia contemporânea, em especial a re-ascensão de movimentos de extrema-direita xenófoba, em um filme pungente que revela as profundezas abissais do sofrimento humano enquanto denuncia a onda de islamofobia e de crimes conexos à intolerância racista.

A esplêndida interpretação da atriz alemã Diane Kruger, premiada no Festival de Cannes, não permite a nenhum espectador ficar frio e indiferente diante das atribulações da protagonista Kátia. Ela tem sua existência transtornada subitamente e tirada de órbita pela bomba que explode na frente do escritório de seu marido Nuri Sekerci, matando-o junto com o filho do casal.

O filme mergulha em toda a aflição do trauma que se abate sobre esta mulher, repentinamente privada dos amores de sua vida em um crime cujos mistérios o filme tratará de decifrar. Do drama privado em que poderia ter ficado atolado, o filme se alça às alturas de uma tragédia grega adaptada à Alemanha contemporânea. Pinta um retrato de uma Hamburgo onde o supremacismo racista dos neonazis produz monstruosidades que a Justiça, aburguesada e pusilânime, fracassa em punir.

No momento histórico em que a crise dos refugiados está em seu estado mais grave deste a 2ª Guerra Mundial (segundo estudo da Anistia Internacional e da ACNUR), em que as polêmicas sobre políticas de imigração são intensas e as ações segregacionistas da direita se assanham (como ocorre com o discurso encabeçado por Le Pen na França, ou com as crianças-separadas-dos-pais durante a gestão Trump nos EUA), o filme é de imensa atualidade. Pode nos ajudar a debater os rumos futuros da belicosidade humana, do etnocentrismo alterofóbico e das ações extremistas contra imigrantes.

A grande questão que o filme nos faz talvez seja esta: quando aqueles que juraram defender a Justiça, e tem este dever por ofício, fracassam em seus trampos, permitindo a impunidade aos mais atrozes criminosos, temos o direito de agir em prol da punição dos mesmos por fora das instituições? Através da descrição crível do ímpeto emocional e das atividades indignadas desta mãe, que viu seu filho e seu marido terem seus corpos explodidos até não restarem senão pedaços incinerados do que antes foram pessoas vivas e amadas, a questão do filme tem a ver com aquela velha indagação ética-jurídica: tem-se o direito de “fazer Justiça com as próprias mãos” quando as autoridades competentes mostram-se incompetentes?

Triturando todos os estereótipos racistas sobre a figura do terrorista e do delinquente, o filme nos coloca diante do crime horrendo cometido por aquela Cara Gente Branca que é alfinetada no filme e na série Dear White People. Vocês realmente precisam ser tão estúpidos e bestiais, caros espécimens da Cara Gente Branca, a ponto de explodir vidas apenas por serem turcas ou curdas, afegãs ou iraquianas? E vocês realmente querem se vender ao mundo como aqueles que vão ensinar ao “Terceiro Mundo” como se deve comportar no tabuleiro geopolítico, forçando-nos a frequentar sua magnífica Escola Ocidental de Humanitarismo?…

O cineasta Fatih Akin em ação no set de filmagens de “Em Pedaços”, vestindo uma camiseta do álbum “…and Justice for All” do Metallica

O atentado foi perpetrado por um casal de neonazistas, os Möeller, que idolatram Adolf Hitler. As investigações policiais indicam que eles explodiram a bomba caseira em um bairro turco por motivos conexos à xenofobia, ao racismo, ao ódio anti-islâmico etc. Isso acaba se confirmando quando, no tribunal, um grego afiliado ao partido neonazista grego Aurora Dourada (A.D.) testemunha a favor dos réus, procurando fornecer aos juízes um álibi que provaria a inocência dos acusados. Como poderiam eles ter perpetrado o atentado se estavam numa colônia de férias na Grécia?

O advogado de acusação, aliado de Kátia, logo aponta que este grego, militante neonazi, com sua cara carrancuda de pouquíssimos amigos, publicou fotos em suas mídias sociais em um ato em que aparece empunhando a bandeira com a suástica da A.D. em um post curtido pelos assassinos. O advogado mostra evidências das tenebrosas conexões entre a testemunha e os réus, frisa a natureza forjada do pseudo-álibi.

Ainda que dentro da grande tradição dos filmes sobre vingança, Fatih Akin não trilha sendas já exploradas com maestria por antecessores ilustres como Sergio Leone, Sam Peckinpah, Quentin Tarantino ou Chan Wook Park (Oldboy). Constrói sua protagonista, de modo similar à Beatrix Kiddo de Kill Bill, como vítima de injustiças em série; mas Fatih Akin, ao contrário de Tarantino, não tem predileção pela caricatura e pelo humor de HQ, preferindo um tom mais trágico, soturno, com certos acentos punk.

Kátia encarna uma vingatividade justiceira que, no âmbito ético e filosófico, poderia ser compreendida como ação violenta justificável diante da falência do Estado burguês em punir os assassinos. Cansada de não ter saciada sua ânsia por Justiça, ela decide agarrar o problema em suas próprias mãos, já que o Estado se mostrou ineficiente em coibir o crime: ao invés de punição, o casal de assassinos é libertado e absolvido, e logo após o julgamento vai para uma colônia de férias na Grécia, o que só faz o ímpeto vingativo-justiceiro em Kátia se exacerbar.

Que ela tem o direito de tomar o problema da punição dos assassinos em suas próprias mãos é algo que Kátia percebe não no nível da verbosidade sociológica de um linguajar acadêmico, mas em suas próprias vísceras de mãe e de esposa que teve amputados de seu corpo estes outros que constituíam, para ela, um ninho de calor e sentido.

O filme explicita também os mecanismos que buscam culpar a vítima para assim melhor absolver os perpetradores de atrocidades. Tanto Kátia quanto seu marido morto tem suas vidas devassadas pela polícia, suas reputações colocadas em cheque, tanto pelos antecedentes criminais do marido enquanto traficante de drogas ilícitas, quanto pelo uso de drogas variadas que Kátia usa em seu luto para amainar a dor de sua súbita perda.

O advogado dos réus precisa atacar Kátia, acusando-a de ser uma drogada. Levanta dúvidas sobre a capacidade de testemunhar por parte daquela junkie desequilibrada, criando assim uma teia de desconfiança em relação à mulher dilacerada. São cenas angustiantes em que o espectador que se identifica com o infortúnio da protagonista sofre horrores com ela. Encurralada naquela jaula-tribunal, ela subitamente se transmuta de vítima da opressão homicida da extrema-direita em acusada. Contra ela levantam-se os dedos cretinos destinados a humilhá-la e desacreditá-la, o que só favorece a impunidade do casal neonazi perpetrador do crime.

Assim, o tribunal dilacera ainda mais aquela mulher cuja resiliência o filme, de maneira subliminar, descreve e celebra. Não estamos diante de uma mulher frágil, que fosse quebrável com a facilidade do cristal. Estamos sim diante de uma crumbling fortress, uma fortaleza que se desfaz em pó, mas que neste processo prepara-se para sair do mundo dos vivos através de um ato de sacrifício supremo.

O tema do sacrifício, que recebeu de Andrei Tarkovsky uma densa meditação em seus últimos filmes Nostalghia e O Sacrifício (vide a excelente análise de Slavoj Zizek em Lacrimae Rerum), passa por inúmeras variações na obra de Fatih Akin. Ainda no primeiro ato do filme, ela tenta o suicídio, este auto-sacrifício de um sujeito que perdeu o gosto de viver após ser privado de seus vínculos afetivos mais amados. Um suicídio que ela quase consuma: após cortar os pulsos e deitar-se na banheira, cuja água vai rapidamente se tingindo com o escarlate do seu sangue, ela enfim se agarra à última corda que a prendia aos vivos, a mensagem de seu advogado que anuncia a descoberta da autoria do crime – “foram os nazistas, a polícia os prendeu!”.

A sede de Justiça talvez tenha sido a força que a fez levantar daquela banheira onde, alguns minutos depois, estaria afogada e morta. Quando esta ânsia de Justiça é malograda e os réus ganham sua absolvição, ela perde todo o esteio nas instituições jurídicas. A mulher dilacerada, que aprendeu amargas lições na escola do sofrimento recente que o destino lhe impôs, agora é impelida, no terceiro ato do filme, a um processo de vingança que para ela já tornou-se visceralmente inextricável de uma fome de justiça.

Fatih Akin e Diane Kruger

Nesta fome de justiça que transcende a própria racionalidade e torna-se um vulcão de afetos imperiosos está a beleza do ímpeto violento de Kátia. Nisso está a chave para compreender porque o cinema de Fatih Akin é mais profundo, cheio de compaixão e empatia, repleto de compreensão ampla da condição humana, do que o cinema frequentemente raso e pipoquento do Tarantino – que cometeu Bastardos Inglórios, Django Livre e os Kill Bills, fortes referências na produção fílmica recente sobre o tema da Justiça e da Vingança, sempre transformando as cataratas de sangue jorrado numa espécie de lucrativa commodity.

violência animada pela ética, ou a vingança entremesclada com a fome de justiça, aparece de modo muito forte em Aos Pedaços, um filme que atinge alturas que Tarantino nunca soube explorar. O filme também é interessantíssimo quando adere ao “drama de tribunal”, na melhor tradição de Sidney Lumet (Doze Homens e Uma Sentença), Otto Preminger (Julgamento em Nuremberg) e Stanley Kramer (O Vento Será Sua Herança).

A irrupção de ódio de Kátia, no tribunal, após ouvir a médica legista relatar suas experiências no IML com o cadáver da criança explodida pela bomba, é compreensível ainda que tenha prejudicado a causa de Kátia. Quando esta mãe em luto parte pra cima da assassina, pra descer o cacete na neonazi Möller, isto é certamente uma irrupção selvagem naquele ambiente controlado e esfriado do tribunal, uma quebra de protocolo que as mentalidades protocolares não aceitam com facilidade. Mas de todo modo é difícil não se identificar com a justeza do ato em que a indignação represada rompe os diques e se manifesta aos urros.

É esta selvagem irrupção do afeto indignado que se comunica ao espectador e torna esta obra um daqueles raros casos em que a arte é a escola do sentimento, a universidade da ética. Foi assim também com a personagem magnífica interpretada por Rachel Weiss na subestimada obra-prima de Fernando Meirelles, O Jardineiro Fiel (2005), em que Tessa, que no filme é vítima de uma morte injusta, tem sua vida e obra reanimadas pelo ímpeto de seu viúvo dilacerado, o constant gardener do título, que celebra uma vida arrefecida replantando as sementes das lutas que animaram a vida de ativista de Tessa. 

A atuação de Diane Kruger, evocando a linda interpretação de Weiss no filmaço de Meirelles, também transmite muito bem a noção de uma mulher que, rompendo com as correntes do comportamento apropriado, deixa sua emotividade e seu radar ético, sentimentalmente carregado até o talo, guiá-la no sangrento labirinto do mundo.

Não há dúvida de que haverá quem queira tacar pedras condenatórias no comportamento de Kátia no 3º ato do filme: ela estaria sendo louca, incivilizada e aderindo à Lei de Talião. Ela estaria recusando o caminho apropriado concedido pela justiça burguesa, que seria entrar com recursos e apelações contra a absolvição dos assassinos. Não estou entre estes espectadores que sacam as pedras para atirá-las a uma mulher já demasiado dilacerada; é verdade que ela adere à lógica da retaliação, que quer pagar aos assassinos na mesma moeda, que inclusive fabrica uma bomba caseira idêntica à que o casal neonazi usou no atentado.

Mas dois elementos que o filme de Fatih Akin apresenta tornam o quadro bem mais complexo do que o simplismo de julgar que uma Kátia tresloucada, indignada com o veredito baseado no in dubio pro réu (na dúvida, a favor do réu), simplesmente decidiu-se pelo ancestral “olho por olho, dente por dente”.

O primeiro elemento é a belíssima cena em que ela coloca a bomba debaixo do trailer dos assassinos, afasta-se para aguardar que retornem do cooper, quando planeja explodi-los através de um controle remoto. A súbita aparição de um belo pássaro, pousando no retrovisor do veículo, fazendo suas inocentes doçuras aladas na brisa da manhã, faz com que um insight se acenda em Kátia: suponho que ela tenha pensado que aquele beija-flor inocente não tinha nada a ver com os descalabros humanos e que não era justo explodi-lo junto com os alvos de seu atentato vingativo-justiceiro. Ela decide adiar seu ataque e mudar de plano.

O segundo elemento é a conclusão do enredo através do sacrifício supremo, da atitude kamikaze, que enfim Kátia consuma. Isto estabelece uma diferença radical entre os dois atos de bombardeio: quando o casal Möller perpetrou o atentado que matou pai e filho e lançou Kátia à condição de viúva amputada de sua criança, eles permaneceram ilesos e imunes, sem ferimentos. Assassinaram sem que seus corpos tenham sido sequer arranhados. Kátia, de modo contrastante, decide-se por colocar um ponto final em sua existência cuja dor, angústia, solidão e dilaceramento nenhuma droga neste mundo seria capaz de aplacar. E assim, abraçada à mochila que aninha a bomba, decide encarar pela última vez os algozes de sua família, num gesto bastante curioso para uma mulher de aparência em tudo similar ao estereótipo da “ariana”-germânica: é o ato do suicide bomber, terrorista suicida, que costumamos conectar ao soldado jihadista muçulmano.

É um desenlace que, de certo modo, evoca o final de Dogville (Lars Von Trier), quando Grace, após todas as opressões que sofreu naquela Cidade do Cão em que foi abusada sexualmente e escravizada brutalmente, decide decretar: “Se há alguma cidade que, excluída do mapa, deixa como resultado um mundo melhor, é esta aqui.” Grace, utilizando o poder que lhe concede o poderoso gangster que é seu pai, decide-se pelo genocídio e pela limpeza étnica, numa irrupção de vingança cuja única gota de misericórdia se manifesta pelo cachorro, que ela permite que fique vivo.

Já Kátia, com o seu sacrifício supremo, seu suicídio kamikaze, a um só tempo liberta-se da dor intolerável que tornou-se o tema in ritornello de sua dolorida e insuportável existência de dilacerada. Ela também conduz os corpos vivos dos algozes neo-nazis a se tornarem também pedaços incinerados. Talvez seja verdade que na base do olho por olho e do dente por dente terminaremos todos cegos e banguelas. Talvez tenha uma dose de razão quem queira julgar que Kátia agiu de modo errado, do ponto de vista ético e jurídico, na última atividade de sua vida. Mas volto a dizer: nesta personagem, após testemunhar com empatia seus dilaceramentos, eu não ousaria tacar pedras.

Hannah Arendt em 1941. Fotografia de Fred Stein (1909-1967).

Num dos trechos mais surpreendentes de Eichmann em Jerusalém, Hannah Arendt argumentou em favor da pena capital que terminou por ser aplicada ao criminoso nazista pelo tribunal israelense. Arendt, reativando um argumento semelhante a “não devemos ser tolerantes com os intolerantes”, disse que ao ter se envolvido, durante anos, em atos de extermínio em massa de pessoas com quem convivia no mundo comum, Eichmann tornou-se veículo da banalidade do mal que massifica e dissemina a atitude tóxica do “não permito que você viva no mesmo mundo que eu”.

São justamente as pessoas que são incapazes de conviver com a pluralidade intrínseca à condição humana, que não sabem respeitar a diversidade que constitui o múltiplo colorido da humanidade, que assassinam este colorido por razões racistas e supremacistas, que tornam-se assim indignas de viver.

Acredito que, sem filosofias, mas com os atos éticos nascidos de suas vísceras dilaceradas e de sua psique transtornada por sofrimentos em demasia, Kátia tenha chegado a uma conclusão semelhante e tenha, com o fim de sua vida, expressado o que Arendt expressou: em tempos sombrios, os exterminadores da diversidade e os propagadores das intolerâncias, que agem pela “limpeza étnica” e pela diminuição da pluralidade do mundo, são os únicos que merecem ser exterminados e os únicos indignos de nossa tolerância. Porém, Kátia sabe também que, ao assassinar os assassinos, torna-se ela mesma uma assassina, e talvez não conseguiria viver consigo mesma na mescla insuportável de luto e culpa. Por isto, o sacrifício supremo de si no ato de sacrificar os outros.

Eduardo Carli de Moraes, jornalista e filósofo, professor do IFG.
Artigo escrito em 11 de Abril de 2019 para a sessão de crítica cinematográfica
Cinephilia Compulsiva de A Casa de Vidro (www.acasadevidro.com).

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Leia também: Resenha de Aníbal Santiago
Descubra outros filmes: Sobre Dogville de Lars Von Trier >>>

“A Banalidade do Mal e sua tenebrosa atualidade” – Reflexões na companhia de Hannah Arendt, Zygmunt Bauman, Stanley Milgram, G. Agamben, Márcia Tiburi, entre outros

“O fato de que o homem é capaz de agir significa que se pode esperar dele o inesperado, que ele é capaz de realizar o infinitamente improvável. E isto, por sua vez, só é possível porque cada homem é singular, de sorte que, a cada nascimento, vem ao mundo algo singularmente novo.” – HANNAH ARENDT, “A Condição Humana”

 

Arendt Foto 2Julgo que Hannah Arendt legou à humanidade uma obra de mérito imenso, tanto para a elucidação de nossos (des)caminhos históricos e de nossas recorrentes atrocidades e tragédias, quanto para reacender o lume de uma sabedoria, hoje em eclipse, baseada numa vida ativa, devotada ao bem público, ao senso crítico, à reflexão aprofundada e ao conhecimento bem-fundamentado, sem os quais o convívio humano corre o risco de degringolar em banalização do mal e infindos morticínios. 

 Arendt é uma luz de lucidez que ilumina os tempos sombrios de que infelizmente seguimos contemporâneos, e no qual o estrondo das bombas e dos exércitos continua a falar mais alto do que a paciência da razão, a benevolência da vontade ou a solidariedade de destino.

A filosofia do século XX teve figuras maravilhosamente lúcidas e cheias de empatia pelos mortais-sofrentes – dentre as quais eu destacaria a obra de Albert Camus, Simone Weil, Vladimir Jankélévitch, Hans Jonas, André Comte-Sponville, dentre outros – que puseram seus poderes mentais e emocionais em ação, em defesa da dignidade humana e em prol de um sentido possível para que escapemos de existir no absurdo. Arendt soma-se a uma longa linhagem de seres humanos particularmente sensíveis a toda dor injusta que se pode cometer, que se pode testemunhar sendo infligida, e que também se pode sofrer como vítima, neste “curto circuito de luz entre duas imensidões de trevas” que é a vida segundo Nabokov.

Da leitura da obra de Arent o leitor emerge fortalecido em sua lucidez e seu senso crítico, mas um tanto melancolizado por enxergar, através dos olhos de Hannah, com o auxílio de seus relatos minuciosos, uma realidade toda corrompida pela banalidade do mal, esta ocorrência tenebrosamente cotidiana da crueldade institucionalizada.

Eis uma obra que traz um diagnóstico crucial dos sistemas totalitários que, em sua ânsia de dominação mundial, produzem descalabros desumanos, de Holocaustos e Inquisições a bombardeios atômicos e genocídios teleguiados. O que impressiona no texto de Hannah Arendt é a coragem com a qual ela ousou encarar o real, com tudo o que há nele de problemático, para compreendê-lo como é de fato, sempre atenta aos antagonismos e às alianças, sem que ela fique virando o rosto, ou fechando os olhos, para evitar a evidência incontornável de sofrimento em toda parte.

ENSAIO-SOBRE-A-CEGUEIRAHoje ainda vivemos sob a tirania de “ismos”, com pretensões ao absolutismo, como o neo-liberalismo, que em sua tentativa de aniquilar para sempre a esfera pública vai criando uma devastadora sociedade de indivíduos atomizados, auto-centrados, que só sabem correr atrás de interesses privados, caindo vítimas dum colapso moral que José Saramago tratou de modo emblemático em Ensaio Sobre a Cegueira, depois filmado por Fernando Meirelles.

Hoje, ainda vivenciamos o ataque à pluralidade, desrespeito à diferença, por poderes que querem impor a norma através da força violenta, punindo drasticamente todos os desviantes… Desse modo, sob tais podres poderes control-freak, a singularidade de cada um é imolada nos altares da padronização, da doutrinação, da “moldagem”, das forças tirânicas do “paradigma absoluto” que devemos acatar – ou padecer com as punições reservadas aos transgressores.

O totalitarismo hoje veste a túnica de um capitalismo desenfreado e transnacional que globalizou sua hegemonia e pretende moldar toda à biosfera à sua imagem e semelhança, como um Rei Midas que deseja metamorfosear tudo o que existe em mercadoria. E que deseja transformar-nos, de cidadãos ativos e co-partícipes de um destino comum coletivo, em meros consumidores-em-competição, zumbizando pelos shoppings para ver se esquecem de seu pavor da morte.

Hannah Arendt, apesar de seu trabalho tão crítico, não fecha totalmente as portas para a utopia, para a possibilidade de um outro mundo possível, onde a novidade de cada recém-nascido não seja mais aniquilada por um sistema que se obstina em fazer com que morramos cópias após termos nascido originais.

Copias e Originais

A banalidade do mal está espraiada em toda parte de nossa história e do nosso tempo presente, e o valor de Arendt enquanto intérprete dos males da época não cessa de ser reafirmado e rediscutido, gerando uma ampla fortuna crítica (Julia Kristeva, Elisabeth Young-Bruehl, Nadia TaïbiCelso Lafer, Adriano Correia etc.) e inspirando a criação de obras cinematográficas, desde o biopic de Margaret Von Trotta (Hannah Arendt)  ao documentário (Vita Activa, de Ada Ushpiz, Zeitgeist Films, 2016).

Vita Ativa
Pensar é perigoso.
Não pensar é mais perigoso ainda…

young arendtUma inovação notável que Hannah Arendt opera na história das reflexões éticas e políticas consiste em conectar o conformismo às atrozes ocorrências vinculadas aos sistemas totalitários do século XX. Os genocídios e expurgos não foram cometidos por pessoas insubordinadas e rebeldes – muito pelo contrário: os maiores criminosos eram os que estavam bem-integrados ao sistema e realizavam com competência suas funções especializadas.

Julgado pelos judeus em Jerusalém, em 1961, um dos maiores criminosos do século, “arquiteto do Holocausto”, Eichmann só profere clichês de burocrata medíocre em sua gaiola de vidro no tribunal. Ali dentro talvez nem mesmo pudesse sentir o peso dos 6 milhões de pessoas assassinadas que o apontavam com seus dedos, do além-túmulo, um formidável j’accuse coletivo. Arendt percebe o perigo de que Israel confunda justiça com vingança. Arendt sabe que não existe reparação possível para crimes de tal magnitude, de tão ineditismo catastrófico, que nem mesmo estavam previstos nas constituições nacionais (genocídio, limpeza étnica, holocausto...).

 Em sua defesa, Eichmann só sabe argumentar coisas deste teor: “foram as ordens que recebi e elas tinham que ser executadas”; muito diferente do monstro satânico e sanguinário, cheio de ódio e racismo, que alguns esperavam encontrar em Eichmann, o que se revela, através do relato de Arendt, é um funcionário competente de uma burocracia estatal, um mero intermediário numa cadeia de comando.

Eichmann1
“Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do Führer; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetiu insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também obedecia à lei. (…) Terminou frisando alternativamente as virtudes e os vícios da obediência cega, ou a ‘obediência cadavérica’, (kadavergehorsam), como ele próprio a chamou”. HANNAH ARENDT, Eichmann em Jerusalém – Um Relato Sobre a Banalidade do Mal. Ed. Companhia das Letras.

Comentando esta que é uma das mais célebres reportagens filosóficas já escritas, Elisabeth Young-Bruehl destaca algumas das peculiares reflexões de Arendt em Eichmann em Jerusalém: 

Young-Bruel“After listening to Eichmann at his trial and reading the pretrial interviews with him, she concluded that he had no criminal motives but only motives – not criminal in themselves – related to his own advancement in the Nazi hierarchy. (…) He was a man who, conforming to the prevailing norms and his Führer’s will, failed altogether to grasp the meaning of what he was doing. He was not diabolical, he was thoughtless. The word “thoughtlessness” is used by Arendt for a mental condition reflecting remoteness from reality, inability to grasp a reality that stares you in the face – a failure of imagination and judgment. (…) No deep-rooted or radical evil was necessary to make the trains to Auschwitz run on time.” (YOUNG-BRUEL, p. 108)

“Thoughtlessness – the headless recklessness or hopeless confusion or complacent repetition of ‘truths’ which have become trivial and empty – seems to me among the outstanding characteristics of our time.” (ARENDT, The Human Condition, Prologue).

O acabrunhante nisso tudo é que tanta gente tenha se conformado a ser um mero “funcionário” do sistema, quando este sistema estava obviamente demenciado e construía, como se banalidade fosse, os campos de extermínio, as câmaras de gás, as gulags de trabalhos forçados. O mais difícil de entender não é que haja um punhado de psicopatas com muito poder, como Hitler ou Stalin, como George W. Bush ou Netanyahu, como Pinochet e Pol Pot; o mistério maior reside em compreender como é possível que tantas massas sigam tais líderes com devoção e subserviência?

De onde vem o conformismo, que forças psíquicas e sociais o determinam, quais são suas consequências individuais e coletivas? Através do conformismo, o que se pratica senão uma negação da autonomia, uma recusa da responsabilidade, uma capitulação perante o dever de pensar com a própria cabeça? É preciso averiguar mais a fundo porque tanta gente esteja recusando a sábia recomendação de Krishnamurti: “não é sinal de saúde estar bem-adaptado a uma sociedade profundamente doente.”

A questão não é nova: Spinoza já havia se perguntando, no Teológico-Político, porque as pessoas tinham tamanha tendência à obedecer e se conformar aos decretos das autoridades civis e religiosas, como Deleuze bem apontou:

Monumento a Spinoza em Amsterdam

Monumento a Spinoza em Amsterdam

“As principais interrogações do Tratado Teológico Político são: por que o povo é profundamente irracional? Por que ele se orgulha de sua própria escravidão? Por que os homens lutam por sua escravidão como se fosse sua liberdade? Por que é tão difícil não apenas conquistar mas suportar a liberdade? Por que uma religião que reivindica o amor e a alegria inspira a guerra, a intolerância, a malevolência, o ódio, a tristeza e o remorso? É possível fazer da multidão uma coletividade de homens livres, em vez de um ajuntamento de escravos?” – GILLES DELEUZE, Spinoza – Filosofia Prática (Editora Escuta, São Paulo, 2002, Capítulo I & II)

La Boétie, amigo de Montaigne, formulará uma série de reflexões sobre o fenômeno da Servidão Voluntária; mais recentemente, toda uma constelação de clássicos da psicologia social surge para tentar responder a isso: algumas dessas obras são o Psicologia de Massas do Fascismo, de Wilhelm Reich, O Medo À Liberdade, de Erich Fromm, Massa e Poder, de Elias Cannetti, e Obediência à Autoridade, de Stanley Milgram. A contribuição de Hannah Arendt a este debate é de mérito inestimável. Procurarei aqui, sabendo dos limites de meu conhecimento e na posição confessa de aprendiz da obra de Arendt, explorar alguns temas da obra dela que me parecem dignos de serem iluminados por holofotes mais fortes.

O conformismo provêm do medo à solidão? Pertencer a uma massa – ser um “animal de rebanho”, como dizia Nietzsche – é um desejo que nasce de um certo pavor do isolamento social? Há algo que o ser humano sente como insuportável no fato de não pertencer a um grupo? Arendt explora uma força psíquica humana fundamental: nossa condição de seres finitos e mortais, que convivem mal com a ideia de que morrerão e serão esquecidos. A própria existência da esfera pública é explicada por Arendt, em A Condição Humana, como conectada à nossa angústia da mortalidade, conexa ao terror que nos inspira o esquecimento:

Arendt Foto 4

“Durante muitas eras antes de nós – mas já não agora – os homens ingressavam na esfera pública por desejarem que algo seu, ou algo que tinham em comum com outros, fosse mais permanente que as suas vidas terrenas. Assim, a desgraça da escravidão consistia não só no fato de que o indivíduo era privado de sua liberdade, mas também no medo desses mesmos indivíduos ‘de que, por serem obscuros, morreriam sem deixar vestígio algum de terem existido’ (BARROW, Slavery in the Roman Empire). A pólis deveria multiplicar as oportunidades de conquistar ‘fama imortal’, ou seja, multiplicar para cada homem as possibilidades de distinguir-se, de revelar em atos e palavras sua identidade singular e distinta. Uma das razões, senão a principal, do incrível desenvolvimento do talento e do gênio em Atenas, bem como do rápido e não menos surpreendente declínio da cidade-estado, foi precisamente que, do começo ao fim, o principal objetivo da polis era fazer do extraordinário uma ocorrência comum e cotidiana.

A segunda função da polis (…) era remediar a futilidade da ação e do discurso; pois não era muito grande a possibilidade de que um ato digno de fama fosse realmente lembrado e ‘imortalizado’. Homero não foi somente um brilhante exemplo da função política do poeta e, portanto, o ‘educador de toda a Hélade’; o próprio fato de que um empreendimento grandioso como a Guerra de Tróia pudesse ter sido esquecido sem um poeta que o imortalizasse centenas de anos depois era um lembrete do que poderia ocorrer com a grandeza humana se esta dependesse apenas dos poetas para garantir sua permanência. (…) A polis era uma garantia aos que haviam convertido mares e terras no cenário do seu destemor de que não ficariam sem testemunho e não dependeriam do louvor de Homero nem de outro artista da palavra; sem a ajuda de terceiros, os que agiam podiam estabelecer juntos a memória eterna de suas ações, boas ou más, e de inspirar a admiração dos contemporâneos e da posteridade.”  (ARENDT, A Condição Humana, p. 191, 210)

Este é um elemento essencial do diagnóstico psicológico que Arendt procura fornecer desta figura do conformista. Ele é um indivíduo que tem horror ao isolamento social, e deseja se integrar a um movimento coletivo, pois sente o peso de seu anonimato. Movimentos de massa com líderes totalitários fornecem uma oportunidade, aos anônimos e invisíveis, uma espécie de porta-de-acesso à História. Nos relatos históricos, os zé-ninguéns, a ralé, muitas vezes nem são mencionados.

Os excluídos da história, porém, são, tanto quanto qualquer um, mortais sedentos de uma fama que empreste às suas vidas o essencial fulgor do sentido. É uma farsa aristocrática pretender que há uma classe de homens especiais e heróicos, como Aquiles ou Hércules ou Enéias ou outro herói épico semelhante, que são movidos pela ânsia de realizarem feitos tremendos que ecoem na posteridade, enquanto as classes mais baixas estariam perfeitamente contentes com destinos apagados, invisíveis, fadados ao oblívio.

Parece-me muito significativo que Arendt destaque que a “desgraça da escravidão” consistia, em adição a todos os tormentos físicos, numa constelação de torturas psíquicas, entre elas a angústia diante da perspectiva de que morreriam sem deixar vestígios. Aqueles a quem é recusado o poder, a quem não se permite que participem da esfera pública, acabam opondo resistência à sua atomização, à sua expulsão da pólis. Acredito que a noção de negação da morte, explorada brilhantemente por Ernest Becker, possa iluminar também as concepções adendtianas sobre as motivações psíquicas por trás de fenômenos como a adesão das massas aos movimentos totalitários como o III Reich alemão ou o Stalinismo russo.

O “submundo” daqueles que haviam sido “excluídos da História”, todo aquele numeroso contingente populacional que não recebe nomes nos livros de História, teriam agido motivados por um desejo de participar de algo grandioso e histórico, mesmo que o preço a pagar fosse imensa destruição. “Aqueles que haviam sido excluídos injustamente da civilização, no passado, agora penetravam nela à força”, escreve Arendt em Origens do Totalitarismo. “Estavam convencidos de que a historiografia tradicional era, de qualquer forma, uma fraude, pois havia excluído da memória da humanidade os subprivilegiados e os oprimidos.” (p. 465)

As massas que aderiram às ideologias totalitárias, segundo Arendt, sofriam com a condição de desenraizamento atomização que Karl Marx ou Simone Weil já haviam diagnosticado nas classes trabalhadoras européias. Uma aflitiva sensação de superfluidade – a pessoa que trabalha numa fábrica e pensa: “se eu morrer, eles põe outro operário em meu lugar” – torna-se uma incômoda força psíquica que motiva a adesão ao discurso daqueles líderes que prometem um destino glorioso àqueles que participarem do movimento. A megalomania de Hitler era muito notória: ele se referia ao Reich como algo que deveria durar 1.000 anos (acabou durando apenas 12). Seus slogans seduziam as massas prometendo que, longe de supérfluas e fadadas ao esquecimento, elas podiam entrar para a História, desde que participassem da luta contra a conspiração mundial dos judeus, este fantasma inteiramente fictício, mas com espantosos efeitos efetivos. A ficção é um poder histórico. A mentira também move o mundo.

67f9b413bf501144b9219b027dd79293-dA lealdade burra e acrítica conduz a catástrofes, aponta Hannah Arendt, que soube bem destacar o quão demencial foi o quadro social de massas enfeitiçadas por um führer, fazendo-se de títeres nas mãos de um partido racista e genocida, disposto a praticar a limpeza étnica com um horrendo cientificismo nos lábios, como se fossem os cumes da genética e os purificadores da raça contra os “vírus” contaminantes (de judeus a ciganos, de doentes mentais a metidos-a-revolucionários…). No prefácio à terceira seção de As Origens do Totalitarismo, ela chama aquela estrutura grotesca de culto à personalidade, que alçou figuras como Hitler ou Stalin para uma posição autenticamente messiânica, de “Fürher-principle”, ou seja, o Princípio-Führer.

Do mesmo modo que Theodor Adorno definiu como uma das mais essenciais tarefas da educação evitar que Auschwitz se repita, Hannah Arendt parece conceder à filosofia uma monumental missão histórica, a de confrontar todas as submissões cegas e subserviências sórdidas aos Führers por aí com a força ativa e crítica de nosso pensamento, de nossa sensibilidade, alertas e lúcidas faculdades que compreendem as causas para a banalidade do mal – para que possam melhor confrontá-las, re-instaurando um mundo comum onde a esfera pública, a dimensão participativa, não é negada aos “excluídos da história”.

Sobre o conceito de EXCLUÍDOS DA HISTÓRIA, como aqui o compreendo, ele tem a ver com aqueles bilhões cujos nomes e feitos não foram julgados dignos de registro. Nenhum historiador ou cronista social, nenhum viajante que escrevia memórias, nenhum biógrafo ou jornalista, achou que merecessem ter sua vida narrada. Hannah Arendt chega inclusive a explicar o fascínio duradouro exercido pelo marxismo pelo esforço que teria movido Karl Marx e Friedrich Engels a introduzir na História, como agentes essenciais dela, as forças produtoras, laboriosas, trabalhadoras, que são a energia viva que anima a produção material humana: “A tentativa de Marx de reescrever a história do mundo em termos de luta de classes fascinou até mesmo aqueles que não acreditavam na correção de sua tese, dada a intenção original de encontrar um meio de introduzir à força na lembrança da posteridade os destinos daqueles que haviam sido excluídos da história.” (O.T., p. 465)

2. OBEDIÊNCIA À AUTORIDADE: O EXPERIMENTO DE STANLEY MILGRAM

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Milgram

Milgram obedience-to-authority-milgramlink entre a obra de Hannah Arendt e a de Stanley Milgram é este último mesmo que fornece, em seu livro Obediência à Autoridade, em que comenta os experimentos de psicologia social que realizou checando até que ponto indivíduos “normais” são capazes de dar choques elétricos de voltagem crescente em “cobaias” humanas de um laboratório científico. Milgram escreve:

“Foi demonstrado de modo convincente que, de 1933 a 1945, milhões de pessoas inocentes foram sistematicamente mortas por pessoas que cumpriam ordens. Câmaras de gás foram construídas, campos de extermínio eram vigiados, cotas diárias de cadáveres eram cumpridas com a mesma eficiência que se tem na fabricação de mercadorias. Essa política desumana pode ter se originado na mente de uma só pessoa, mas só poderia ter sido executada em larga escala se um grande número de pessoas obedecesse às ordens.

A pessoa que, por convicção, odeia roubar e matar pode ver-se executando algum desses atos com relativa facilidade ao cumprir as ordens de uma autoridade. O comportamento que é inimaginável numa pessoa que esteja agindo por conta própria pode ser executado sem hesitação quando feito sob ordens. O dilema inerente na obediência à autoridade é antigo, tão velho quanto a história de Abraão.” – STANLEY MILGRAM

2 Sacrifícios

O experimento de Milgram consistia em checar quão longe as pessoas estavam dispostas a obedecer ordens. A “cobaia”, recrutada por anúncios de jornal que ofereciam 4 dólares (e uma passagem de ônibus), era colocada diante de uma máquina de aplicar choques, de 15 volts a 450 volts. Os pesquisadores de Yale explicavam que estavam realizando um estudo sobre a memória e o processo de aprendizagem: queriam checar, na prática, se o aluno de fato memoriza melhor os conteúdos se for utilizada com ele uma pedagogia-da-palmatória, como aquela utilizada pelo professor de matemática que espanca seus pupilos a cada vez que erram a tabuada. Na verdade, a cobaia do experimento não era a pessoa sentada à “cadeira elétrica” – na verdade, um ator, que trabalhava na equipe de Milgram – mas sim aquele que foi designado na função de “professor” e a quem foi ordenado que aumentasse em 15 volts a punição contra o aluno, a cada equívoco cometido.

Milgram comparou prognósticos de pessoas entrevistadas fora do laboratório – apenas 1 entre 1.000 pessoas, havia sido previsto, iriam dar o choque máximo no “aluno” – com as suas observações empíricas da conduta humana durante seus experimentos. A conclusão foi chocante e estarrecedora: cerca de 65% das pessoas, diante do dilema ético em que se viam, davam mais peso à obediência do que à compaixão; preferiam prosseguir o experimento, sob comando, do que permitir que sua empatia pelo sofrimento alheio levasse a abandonar o experimento. A imensa maioria dos pesquisados por Milgram pareciam ter uma tendência fortíssima, mais poderosa que o senso moral, de obediência à autoridade, que muitas vezes prosseguia ainda que a “vítima”, no quarto ao lado, berrasse, gemesse, esperneasse, pedisse pra parar; a maioria não parava, nem se a “vítima” dissesse que estava com dor no coração  ou silenciasse como um morto. (A vida e obra de Milgram virou o excelente filme The Experimenter, de Michael Almereyda, já disponível para assistir com legendas em português).

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Aqueles que aplicavam os choques elétricos no aluno a cada erro de memorização estavam num contexto que os des-responsabilizava e podiam sempre desculpar-se dizendo que apenas obedeciam ordens; os verdadeiros responsáveis eram os criadores do experimento e aqueles funcionários de jaleco na universidade de Yale. A dificuldade, tão comum, que temos de assumir a responsa indica que o senso moral é muitas vezes experimentado como um incômodo, talvez até mesmo como um obstáculo para a felicidade: seria mais fácil e cômodo não ter escrúpulos.

Muitas vezes julgamos desagradável aquele “inquilino íntimo” de que fala a Mafalda, na tirinha do Quinho acima, e que fica apontando um dedo acusador e culpabilizante quando fazemos, pensamos ou desejamos algo de errado, de injusto, de canalha, de egocêntrico. A moral obriga e exige, feito um patrão mandão. Preferiríamos, espontaneamente, estar mais à vontade, at ease, sem tantos freios e tabus limitando nossos movimentos e desejos.

Os pensadores da ética têm fama – no caso de Kant, muito merecida! – de serem rigorosos pregadores do dever moral, o que soa de fato como uma tarefa árdua, difícil, que dá preguiça. Diante do texto da Crítica da Razão Prática, muitos aspirantes à virtude e à sabedoria podem acabar por desistir da busca por uma vida ética por julgarem que ela demanda um exercício do pensamento demasiado intenso e alerta, que em nossa languidez apática às vezes preferimos recusar.

Porém, a recusa da responsabilidade (“estou apenas seguindo ordens”), a preguiça de pensar (“deixarei meu líder pensar por mim”), o colapso da capacidade de reflexão ética (“bem e mal é aquilo que o Führer diz que é”), tudo isso conduz à catástrofe. Numa espécie de diálogo com Arendt, Stanley Milgram escreve:

“Eichmann ficava abatido ao visitar os campos de concentração, mas para participar de assassinatos em massa precisava apenas sentar-se em seu gabinete e mexer em seus papéis. Por sua vez, o homem do campo que acionava as câmaras de gás podia justificar a sua conduta dizendo que estava apenas cumprindo ordens superiores. A pessoa que assume total responsabilidade pelo ato evaporou-se. Talvez seja esta a mais comum característica do mal, socialmente organizado, da sociedade moderna.“ STANLEY MILGRAM, Obediência à Autoridade, p. 28.

Arendt, longe de encarar Eichmann como a encarnação de Satanás, tenta percebê-los como sintoma de um sistema – e um sistema que infelizmente produz muita gente como ele: um burocrata medíocre, não muito inteligente, muito respeitador das hierarquias, e que sentia satisfação profissional caso desempenhasse bens suas funções, mesmo que estas funções fossem coisas como fazer com que os trens para Auschwitz saíssem na hora ou garantir a entrega de X judeus a serem exterminados no mês corrente do cronograma administrativo. Ele não parece sentir-se responsável, nem dá amostras de remorso ou arrependimento, pois diz que era apenas um cúmplice obediente do mega-sistema, a mere cog in the machine. 

Eichmann não pode ser julgado como um indivíduo isolado, e não temos o consolo de considerá-lo uma monstruosidade excepcional: o conceito de “banalidade do mal”, como Márcia Tiburi enxergou bem, significa que qualquer um de nós pode tornar-se “veículo” ou “oficial” do mal, que ninguém é santo, que a possibilidade da crueldade, do trato desumano com o outro, está entre os potenciais de cada um. Para alistar-se no fascismo, banalizador do mal, o que basta é seguir com lealdade acrítica os ditames dos superiores hierárquicos, rejeitar a autonomia de pensamento e pôr-se de joelhos diante da força que não perde tempo refletindo sobre ética.

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00marcia-tiburi-credito-para-divulgacao“Foi em torno do nazista chamado Eichmann que a expressão ‘vazio de pensamento’ surgiu para caracterizar o nosso tempo. (…) Adolf Eichmann era um funcionário do governo, do alto escalão do partido de Hitler e, como viemos a perceber por seu próprio testemunho, um de seus funcionários mais dedicados e competentes, daqueles que cumpriam seu papel, daqueles que vestiam a camisa da empresa nazista… No fim da guerra, com a derrota da Alemanha, ele fugiu para a América do Sul, sendo capturado na Argentina em 1961. Julgado em Jerusalém, Eichmann tornou-se uma espécie de troféu da justiça contra o que muitos chamaram de holocausto e que, na verdade, diz mais propriamente respeito a um radical assassinato em massa. O termo ‘genocídio’, cunhado por Raphael Lemkin, expressa muito melhor a destruição de um povo (genos) com o fito de estabelecer ‘o padrão nacional do opressor’ no lugar do ‘padrão nacional do oprimido’. Arendt, no entanto, preferirá a expressão ‘assassinato administrativo’ para caracterizar o crime nazista… Eichmann era o representante do poder encarnado no tipo comum, na pessoa ordinária. (…) Não se via nele o louco, o sujeito maligno e cruel que se esperava que fosse. Antes, ele impressionava por uma frieza monótona e uma racionalidade despreocupada…

[Eichmann] era uma espécie de carrasco de gabinete, um carrasco racional que não se envolvia com a sanguinolência do crime na prática do cotidiano. Até porque, como ele sabia, o que ele fazia, do ponto de vista da lei do Estado naquele momento, não era crime. Crime contra a humanidade, sim, mas não crime juridicamente punível pelo Estado, já que era um crime em nome do Estado. Eichmann nunca dera um tiro em uma pessoa. Ele calculava a morte de todos, é verdade, para que acontecesse do modo mais racional e econômico possível… Para ele, aquele era apenas o trabalho a fazer, a tarefa assumida e por cumprir… Foi justamente a postura de Eichmann que permitiu a Arendt cunhar a ideia tão curiosa e, ao mesmo tempo, tão crítica relatava à banalidade do mal… A desumanidade de Eichmann era, infelizmente, humaníssima. Eichmann não era extraordinário. Era ordinário, era como quase todos somos, sempre afeitos a seguir a tendência dominante. O problema da subjetividade de Eichmann, que defendia seu emprego e posição dentro da empresa nazista, colocava em cena um tipo de subjetividade muito comum. Aquela de qualquer cidadão que, em seu contexto específico, também defende seu emprego, seu cargo, as necessidades da firma… 

Todos os regimes políticos e econômicos que de modo sutil calculam sobre a vida das pessoas, sobretudo as mais excluídas, como em geral os regimes devotos do capitalismo que praticamente programam a morte dos mais fracos, são em medidas diversas comparáveis ao nazismo. (…) O que Arendt percebeu foi aquilo que Adorno e Horkheimer, outros teóricos judeus exilados nos EUA na década de 40, chamaram de ‘racionalidade instrumental’. A ‘racionalidade instrumental’ é servil, ela caracteriza um modo de pensar e agir que Eichmann partilhava com vários cidadãos do mundo que, como ele, queriam apenas ser promovidos dentro de um plano de carreira. O que ele queria era o que queria a grande maioria. E ainda hoje. Curioso, portanto, e estarrecedor, no argumento de Arendt, é que Eichmann fosse tão parecido com as pessoas comuns, que lembrasse os homens mais corretos, os simples cidadãos de bem…” (MÁRCIA TIBURI, Filosofia Prática, ed. Record, p. 35 a 39)

Contra a banalização deste servilismo estúpido do “cidadão de bem”, pronto a seguir os ditames de genocidas sanguinários se isso lhe permite “subir” na carreira, é preciso que estejamos sempre alertas quanto ao perigo de fascismo que há em abdicarmos de nossa autonomia e de recusarmos o peso da responsabilidade. Ao fim do filme The Experimenter, de Michael Almereyda, o Stanley Milgram (interpretado por Peter Saarsgard) revela sua convicção da necessidade de desenvolvermos uma virtude que ele chama awareness. Temos que ser conscientes e alertas, lúcidos e vigilantes, críticos e autônomos, se não quisermos soçobrar à obediência vil à autoridades pérfidas. Pois o que se trata de evitar são também os Hitlers e os Stalins do futuro… Pois o que garante que o totalitarismo ficou no museu do passado?

Heidegger, em uma cena do filme de M. Von Trotta, diz à sua pupila Hannah que “pensar é um ato solitário”; Hannah talvez preferisse dizer que pensar é um ato de autonomia, não de subserviência, e isto cada um tem que fazer por si, por suas próprias forças, ainda que a ação efetiva só possa se dar no coletivo, na mobilização-com-outros, in concert. 

3. BANALIDADE DO MAL ou A MULTITUDE DOS QUE SE PRESTAM A SEREM INSTRUMENTOS DA MÁQUINA DE CARNIFICINA

O fato de que Arendt, em sua radiografia das Origens do Totalitarismo, foca sua atenção em regimes totalitários específicos, como o III Reich nazista ou a URSS da Era Stalinista, isto de modo algum significa que a “banalidade do mal” seja específica de uma nação, e que haveriam, por exemplo, aquelas pátrias imunes a este tipo de fenômeno. O experimento de Stanley Milgram é decisivo para mostrar que não se trata de um problema (somente) europeu: nos EUA, mesmo na comunidade aparentemente tão sã de New Haven, no cenário social que rodeia a Universidade de Yale, encontramos com relativa facilidade muitos Eichmanns. Ou seja: há uma multidão daqueles que se prestam a agirem como instrumentos de uma máquina de carnificina, criada e gerida por outros, aos quais obedecem com servil conformismo e cega lealdade.

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Paul Tibbets acenando da janela do cockpit do Enola Gay, em 6 de agosto de 1945, antes de partir para Hiroshima.

Que a “banalidade do mal” é também um problema histórico dos EUA pode ser escancarado pelo exemplo do piloto de avião Paul Tibbets, que lançou a bomba atômica sobre Hiroshima em 6 de agosto de 1945. “Tibbets escolheu pessoalmente um quadrimotor B-29 que foi denominado Enola Gay, em homenagem à mãe dele. (…) Até o fim de sua vida, Tibbets acreditou ter feito o necessário para acabar com a guerra e não demonstrou arrependimento pela bomba por ele lançada ser responsável pela morte de mais de 119 mil pessoas, no primeiro ataque nuclear contra seres humanos na história.” (Wikipedia)

Como é possível que Tibbets, mesmo sendo uma força tão determinante no assassinato súbito de 120.000 seres humanos, possa viver até os 92 anos de idade? A pergunta que não quer calar é: como esse sujeito conseguia dormir à noite? Como pôde não ser completamente assolado por culpa, remorso, arrependimento, horror e auto-derrisão diante da atrocidade desumana que foi o cogumelo atômico de Hiroshima? Ele de fato pôde se livrar do peso íntimo do ato e conviver bem consigo mesmo? Uma informação talvez aclare estes mistérios: Tibbets não se sentiu tão responsável assim pelo crime pois, afinal de contas, estava apenas “seguindo ordens vindas de cima”, ou seja, o real responsável era Harry Truman.

“O presidente Harry Truman, que ordenou o ataque, teria dito à tripulação, depois do retorno aos Estados Unidos: “Não percam o sono por terem cumprido essa missão; a decisão foi minha, vocês não podiam escolher”. – WIKIPEDIA

O homem responsável por ordenar o bombardeio nuclear do Japão, em Agosto de 1945: Harry S. Truman (1884 - 1972).

O homem responsável por ordenar o bombardeio nuclear do Japão, em Agosto de 1945: Harry S. Truman (1884 – 1972).

Truman assumiu toda a responsa, vêem? Exatamente o que o führer fazia na Alemanha: qualquer soldado da SS podia cometer a atrocidade que fosse, a responsabilidade era sempre, todinha, de Hitler. Hannah Arendt revela isso com recorrentes exemplos em As Origens do Totalitarismo: o princípio de des-responsabilização, envolvido no fenômeno das massas leais a um líder que assume toda a responsabilidade, está diretamente conectado com horrores tremendos, e de certo modo análogos, como a “Solução Final” dos nazistas e o bombardeio nuclear ordenado por Washington.

Podemos nos perguntar, é claro, como é que Hitler, Stalin ou Truman conseguiam dormir à noite, tendo assumido responsabilidade pelos crimes coletivos cometidos pelas massas por eles enfeitiçados, em especial pela classe militar e policial, historicamente constituída de indivíduos com senso moral embrutecido, capazes de lealdades e cumplicidades às autoridades mais sórdidas e aos ditames mais nefastos. O militarismo é um câncer da humanidade e a banalidade do mal, como Hannah Arendt revela, é também uma patologia diretamente conectada com o “mundo militar”.

Talvez a “formação militar” seja a deformação mais sórdida que se possa impor aos seres humanos em um processo pedagógico; no mundo, a militarização da educação prossegue nossa contemporânea. Escrevo de Goiás, sob o Tucanato, indignado com o fato de que à dúzias de escolas públicas do Estado está sendo imposta uma bárbara educação militarizada, que só (des)educa para a truculência e a disciplina acéfala, sem nem suspeitar que planta somente a semente de novos fascismos (como criticado por Vladimir Safatle e Guilherme Boulos em artigos para a Folha de S. Paulo). Como se a geração mais jovem tivesse que ser recrutada pelos fascistas da velha-guarda, para integrar a nova edição dum horror feito a Juventude Hitlerista…

Não temos, portanto, o consolo de pensar que os males diagnosticamos por Hannah Arendt ficaram no passado. A banalidade do mal está entre nós – e não sou otimista o bastante para prognosticar que a banalidade do mal possa ausentar-se totalmente do nosso futuro próximo. Valéry: “A desumanidade terá um longo futuro…” Talvez um futuro tão longo quanto o nosso, o futuro (talvez mais curto do que pensamos) da humanidade?

Ela, a banalidade do mal, está lá nas torturas perpetradas nos presídios Yankees, por exemplo em Abu Ghraib ou Guantanamo Bay. Ó ela lá, banal malevolência cotidianizada, na conduta daqueles soldados sorridentes, com pose de Rambos, portando star spangled banners, que tiram selfies diante dos corpos humilhados e subjugados dos milhares de detidos na “Guerra Contra o Terror…

Em um impressionante documentário, Errol Morris demonstrou a falsidade da desculpa de muitas autoridades de Washington D.C. diante do escândalo que foi a revelação das torturas infligidas a cidadãos que muitas vezes não tem nem a mais remota participação ou colaboração com organizações jihadistas. Tentaram dizer que os responsáveis pela torturação eram just a few bad apples”, ou seja, “apenas algumas maçãs podres”. Era lorota. Se havia algo de podre, não eram apenas algumas maçãs, mas a própria macieira do supremacismo imperialista Yankee.

Standard

No filme de Morris, Procedimento Operacional Padrão (Standard Operating Procedure, 2008), um dos grandes mestres do cinema vérité norte-americano revelou de modo enfático, contra a farsa edulcorada das autoridades federais, que a tortura que os EUA pratica contra aqueles que encarcerou, após sua invasão militar do Afeganistão e do Iraque, é disseminada, banalizada, widespread. Uma face atual da banalidade do mal.

Ela está lá, também, nos check-points militarizados, institucionalização do apartheid-na-Terra Santa: o que é Israel, hoje, além do mais explícito exemplo vivo do que significa um sistema social de segregação? incapacidade de convivência mútua está escancarada nas muralhas e cercas elétricas destinadas a manter judeus e muçulmanos apartados, separados, hostis. Os periódicos bombardeios hi-tech, com os quais o sionismo israelita aniquila a população civil da Palestina, e sem sinais de misericórdia pelos bebês, pelas crianças, pelos doentes nos hospitais, manifestam a acabrunhante possibilidade, que Arendt já havia frisado, de que mesmo aqueles que foram vítimas de atrocidades (como os judeus diante da “solução final” promulgada pelo III Reich alemão) não estão de modo algum a salvo de cometê-las.

Quando Arendt esteve em Israel para o julgamento de Eichmann – condenado à morte, como os outros dirigentes nazistas, que já haviam tido penas capitais decretadas pelo tribunal de Nuremberg – o “problema palestino” não é de modo algum um tema forte ou central da reportagem – e é de se supor que a revista New Yorker tenha orientado Arendt a fim de centrar o foco no acerto-de-contas dos judeus com o seu passado, de modo que ela quase não trata do desacerto do presente, que opunha então (e continua a opor hoje) a paz na região. A legitimidade da fundação do Estado de Israel, logo após a 2ª Guerra Mundial, é algo que não parece “entrar em questão”.

Para Arendt, Eichmann é um homenzinho de “chocante mediocridade”, o que significa que ele está na média, que ele não é exatamente uma anomalia, que não há escassez de Eichmanns neste mundo. Talvez esta seja uma das mais chocantes das concepções de Arendt, e talvez seja um dos fatores mais fortes para explicar a controvérsia tremenda que se seguiu à publicação do livro: Arendt está afirmando que qualquer um de nós tem o potencial de tornar-se um “agente do mal”. E às vezes o que basta para isto é seguirmos as ordens de nossos superiores hierárquicos de modo acrítico e cegamente obediente.

No filme de Margaret Von Trotta, vemos um comitê de 3 professores universitários aconselhando que ela peça demissão de seu posto de professora na universidade, já que as idéias veiculadas por Eichmann em Jerusalém tinham “pegado mal” (ousar questionar a posição dos judeus como pobres vítimas inocentes, pias e puras vítimas da satânica máquina de carnificina germânica, e ousar sugerir que muitos líderes judeus colaboraram com  carrascos anti-semitas e burocratas genocidas, que imperdoável sortilégio!). Hannah Arendt não acaba a sugestão de demitir-se: na sequência, em uma das melhores cenas da película, vemos Hannah engajada na tarefa de explicar de modo lúcido os seus intentos, dissipando as “reações histéricas a seu relatório”.

A banalidade do mal está entre nós, tão banal que para alguns certos males são “naturais” e eles devemos nos resignar. Ela está lá, quando o soldado fardado espanca estudantes e professores que estão se manifestando em prol da saúde pública, da educação de qualidade e gratuita, dos direitos civis e da participação democrática direta. Está lá quando o aviador despeja bombas sobre um território que sobrevoa lá de cima, incapaz de enxergar as pessoas que irá carbonizar ou as vidas que irá dilacerar com seu napalm. Está lá no cara que controla os drones que, sob pretexto de combater o fanatismo islâmico, causam crianças mortas e Neo-Guernicas devastadas como “efeitos colaterais” de um mau cálculo de precisão do míssil.

É possível dizer também que a banalidade do mal se manifesta nas missões suicidas de soldados-de-Deus em jihad. Nas cartas de despedida que deixam para trás, antes de embarcarem em suas missões-kamizake, muitas vezes essas pessoas declaram-se nada além de “instrumentos de um poder maior” (ó lá o Alá, aplaudindo-o do Céu, prometendo um paraíso de bem-aventuranças, aos mártires da guerra santa…).

O conceito de “banalidade do mal” prossegue sendo hoje um dos mais preciosos dos dispositivos que temos para a análise e decifração do mundo contemporâneo. Arendt forjou a noção de “banalidade do mal” num contexto específico – o julgamento de Eichmann em Jerusalém – mas cada vez mais torna-se cristalino o fato de que os nazistas estão longe de terem sido os únicos exemplares de um sistema totalitário que transforma seres humanos em meros instrumento de uma máquina de carnificina.

A coragem de pensar criticamente, a responsabilidade de entender a realidade, a incontornável necessidade de exercitar o julgamento e a responsabilidade, são todas virtudes que Arendt não só prega: ela pratica. O seu exercício constante da autonomia, da reflexão atenta, parece-me também revelar um salutar grau de independência de espírito e de rebeldia contra o autoritarismo. Por isso creio – e é o que quero explorar num próximo texto – que Arendt também pode auxiliar a pensar os temas da desobediência civil, tal como explorados por figuras como Henry David Thoreau, Martin Luther King Jr., Peter Singer, Howard Zinn. Este último, por exemplo, de palavras de teor e sabor bastante Arendtianos e Milgramianos:

Howard Zin (1922-2010)

Our problem is civil obedience. Our problem is the numbers of people all over the world who have obeyed the dictates of the leaders of their government and have gone to war, and millions have been killed because of this obedience. And our problem is that scene in All Quiet on the Western Front where the schoolboys march off dutifully in a line to war. Our problem is that people are obedient all over the world, in the face of poverty and starvation and stupidity, and war and cruelty. Our problem is that people are obedient while the jails are full of petty thieves, and all the while the grand thieves are running the country. That’s our problem. We recognize this for Nazi Germany. We know that the problem there was obedience, that the people obeyed Hitler. People obeyed; that was wrong. They should have challenged, and they should have resisted; and if we were only there, we would have showed them. Even in Stalin’s Russia we can understand that; people are obedient, all these herdlike people…

Howard Zinn (1922-2010). Here.

A banalidade do mal atravessa a história, talvez se possa dizer até que constitui a face do inimigo para todos os movimentos coletivos engajados na construção daquele mítico “mundo melhor”. É um mega obstáculo no caminho daqueles que trilham as estradas utópicas. Diante da banalidade do mal, ficamos tentados a afirmar que a maldade nunca foi excepcional, que a crueldade é cotidiana desde tempos imemoriais, e que no entanto isso é um acinte ético, uma razão para profunda indignação íntima e insurreição coletiva. Este é o reinado de uma malvadez hegemônica que não permite o desmonte, o desmanche, a revolução e a refundação da atual maquinaria-de-carnificina.

Só se vence esse monstrão com a superação de nossas cataratas psíquicas que fazem com que entre em eclipse e fique invisível o mundo comum. Falta a superação da cegueira Saramaguiana, que nos impede de ver a solidariedade de condição que nos irmana, enquanto nos apegamos aos muros artificiais e fratricídios de imposição piramidal, alistando-nos nos exércitos de ideologias racistas, sectárias, segregacionistas. Nascemos para começar o novo, para expressar nossa singularidade, para agir in concert num mundo comum, espaço trans-geracional e trans-individual que, para cada indivíduo, é aquele que ele adentra quando nasce e abandona quando morre, que subsiste à chegada e à partidas dos viventes efêmeros, sendo o único plausível palco de nosso drama de finitude, ânsia de sentido, angústia de mortalidade, sede de vida, aptidão para ação e sabedoria.

“Mundo comum é aquilo que adentramos ao nascer e que deixamos para trás quando morremos. Transcende a duração de nossa vida tanto no passado quanto no futuro: preexistia à nossa chegada e sobreviverá à nossa breve permanência. É isto o que temos em comum não só com aqueles que vivem conosco, mas também com aqueles que aqui estiveram antes e aqueles que virão depois de nós.

Mas esse mundo comum só pode sobreviver ao advento e à partida das gerações na medida em que tem uma presença pública. É o caráter público da esfera pública que é capaz de absorver e dar brilho através dos séculos a tudo o que os homens venham a preservar da ruína natural do tempo. Durante muitas eras antes de nós – mas já não agora – os homens ingressavam na esfera pública por desejarem que algo seu, ou algo que tinham em comum com outros, fosse mais permanente que as suas vidas terrenas.

Entregues a si mesmos, os negócios humanos só podem seguir a lei da mortalidade, que é a única lei segura de uma vida limitada entre o nascimento e a morte. O que interfere com essa lei é a faculdade de agir, uma vez que interrompe o curso inexorável e automático da vida cotidiana que, por sua vez, interrompe e interfere com o ciclo do processo da vida biológica. Fluindo na direção da morte, a vida do homem arrastaria consigo, inevitavelmente, todas as coisas humanas para a ruína e a destruição, se não fosse a faculdade humana de interrompê-las e iniciar algo novo, faculdade inerente à ação como perene advertência de que os homens, embora devam morrer, não nascem para morrer, mas para começar.”

HANNAH ARENDT, A Condição Humana

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por Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Fevereiro de 2015



A BANALIZAÇÃO DO MAL E A ESPERANÇA EM TEMPOS DE RENOVAÇÃO

Podemos concordar com relativa facilidade que a banalização do mal têm conexão com a forte tendência psíquica que leva a maior parte dos indivíduos no rumo da obediência à autoridade, exposta pelos experimentos de Stanley Milgram. O respeito servil pelos ditames do führer por parte de milhares de alemães, funcionários obedientes dos morticínios ordenados pelo Partido Nazi, é culpável sim – teria sido muito melhor a desobediência civil generalizada, erodindo a legitimidade e a eficácia dos comandos provindos do topo da pirâmide autoritária do III Reich. A obediência massificada ao führer constituiu parte importante da tragédia. Mas ainda resta por compreender melhor como se cria um povo-pária, uma parcela da humanidade que é tratada como escória do mundo (título do excelente estudo de Eleni Varikas), um processo em que coletivos perdem seu direito à cidadania, não tendo mais o direito a ter direitos.

Porém, basta pregar a desobediência a toda e qualquer autoridade como antídoto à banalidade do mal? Isso seria uma espécie de ingenuidade adolescente conectada a uma compreensão apressada do significado do anarquismo. Seria sábio não emprestar ouvidos e obediência a um médico que nos receita um tratamento para nossa doença, com o pretexto de que ele é uma figura de autoridade respaldada por seu diploma de universidade gabaritada, e que sobre isso o anarquista não deve fazer nada a não ser cuspir? Seria louvável recusar atenção a todo e qualquer professor, investido com a autoridade de um cargo numa instituição como uma Universidade ou Instituto Federal, com o argumento de que é preciso recusar toda autoridade estatal?

Uma noção rasa do anarquismo como “contra todo tipo de Estado e estatismo” pode acabar fazendo o jogo do capitalismo neoliberal mais selvagem – aquilo que mereceria ser chamado de anarcocapitalismo. Acho seguro dizer que para Arendt este tipo de anarquismo não é panacéia nenhuma – pois não basta que eu, enquanto indivíduo ou membro de um pequeno coletivo, negue o poder, recuse a arkhê, já que isso não será nunca suficiente para evitar as cataratas do mal de despencarem sobre a cabeça dos esmagados pelo poder e sua violência institucionalizada. É evidente que parte do antídoto contra a banalidade do mal está na desobediência civil – ilustrados nas atitudes de um Thoreau, Gandhi, Luther King, Rosa Parks, Sophie Scholl, dentre tantos outros – mas não podemos cair na ingenuidade de achar que o “não obedeço a nada nem ninguém” possa servir como certificado de pureza moral. Celso Lafer ensina:

“Hannah Arendt entende que, em situações-limite – uma categoria de inspiração Jasperiana, importante na sua reflexão -, a desobediência civil é legítima e pode ser bem-sucedida na resistência à opressão. Este foi o caso, por ela comentado em Eichmann em Jerusalém – Um Relato sobre a Banalidade do Mal, da resistência dos dinamarqueses, através da desobediência civil, à política antissemita do invasor nazista. Este também foi o caso da luta contra a segregação racial e da resistência à guerra do Vietnã… De fato, nesses casos a desobediência civil, sendo a expressão de um empenho político coletivo na resistência à opressão, não se constitui como rejeição da obrigação política, mas sim como a sua reafirmação.” (LAFER, In: A Reconstrução dos Direitos Humanos – Um diálogo com Arendt, Cia das Letras, p. 39)

Não se trata de recusar o poder, mas de criar um contra-poder; não se trata de dizer não a toda autoridade, mas buscar superar as formas autoritárias, tirânicas, despóticas e plutocráticas de autoridade abusiva; não se trata de pular fora da comunidade política, mas entrar mais fundo nela através do aprofundamento da participação cidadã de todos na determinação das escolhas coletivas. O antídoto para a banalidade do mal está numa educação crítica que forme indivíduos autônomos e cidadãos colaborativos, excelentemente delineada por Paulo Freire e a Pedagogia do Oprimido. É imprescindível que a reflexão seja fomentada, pois quando ela dorme ou atrofia, pululam os monstros. E os monstros, ao contrário do que se pensa no senso comum, pulam de dentro das pessoas mais normais…

O que marca a persona de um Eichmann, segundo Arendt, é sua irreflexão, sua burrice, sua inteligência débil, sua capacidade atrofiada para o juízo ético – no que ele é de uma atordoante normalidade:

“Meia dúzia de psiquiatras o classificou como normal. ‘Mais normal, de qualquer modo, do que fiquei depois de examiná-lo’, teria exclamado um deles, enquanto outro descobrira que seu perfil psicológico geral, sua atitude em relação à mulher, aos filhos, ao pai e à mãe, irmãos, irmãs e amigos era ‘não somente normal, porém a mais desejável… O problema de Eichmann era precisamente o fato de muitos serem como ele, e de esses muitos não serem pervertidos nem sádicos, mas gente que era, e ainda é, terrível e assustadoramente normal. Do ponto de vista de nossas instituições jurídicas e nossos padrões morais de avaliação, essa normalidade era muito mais aterrorizante que todas as atrocidades em conjunto.” (ARENDT, Eichmann em Jerusalém)

A irreflexão é a regra, a vita ativa filosófica é a exceção. Um gênio é algo de anormal – não nascem cinco ou seis Shakespeares ou Einsteins por dia! – mas idiotas e cretinos são entidades que encontramos às mancheias neste mundo. Talvez Arendt não esteja muito longe da noção de uma democratização da filosofia como autêntico antídoto contra o totalitarismo e a repetição de seus horrores. Zygmunt Bauman, no artigo “Uma História Natural do Mal” de Danos Colaterais, destaca elementos do veredicto arendtiano sobre a banalidade do mal, frisando que

“monstruosidades não precisam de monstros, atrocidades não precisam de personagens atrozes, e o problema de Eichmann estava no fato de que, segundo as avaliações dos luminares supremos da psicologia e da psiquiatria, ele (juntamente com tantos de seus companheiros de crimes) não era um monstro nem um sádico, mas escandalosa, terrível, assustadoramente “normal”. Adolf Eichmann, que controlava as ferramentas e os procedimentos da “solução final” para o “problema judaico” e dava ordens a seus operadores, e ficara do lado dos perdedores, foi capturado pelos vitoriosos e levado a tribunal. Houve então a oportunidade de submeter a “hipótese do monstro” a um exame cuidadoso e detalhado, feito pelos mais distintos profissionais da psicologia e da psiquiatria. (…) Deve ter sido a mais assustadora das descobertas: se não são bichos-papões, mas pessoas normais (fico tentado a acrescentar: “caras como você e eu”), que cometem atrocidades e são capazes de agir como sádicos e pervertidos, então todos os filtros que inventamos e pusemos para funcionar com a finalidade de separar os portadores de desumanidade do restante da espécie humana são mal-operados ou malconcebidos desde o início – e com toda a certeza ineficazes. E assim estamos, resumindo uma longa história, desprotegidos (fica-se tentado a dizer: “sem defesas contra nossa capacidade mórbida comum”). (…) Se Eichmann era “normal”, então ninguém está a priori isento de suspeita – nenhum de nossos amigos e conhecidos encantadoramente normais; nem nós mesmos.” (BAUMAN: 2013)

Só uma comunidade que incentive e fomente a reflexão sobre ética, cidadania, responsabilidade, convivência, direitos humanos, tolerância em relação a diferenças ideológicas e fenotípicas, tem chance de escapar ao tenebroso pesadelo da banalização do mal.

Este cultivo da inteligência, da reflexão, do senso crítico –  e Arendt não está sozinha em levantar esta bandeira: Karl Jaspers, Paulo Freire, Bell Hooks, dentre outros, também emprestam a força de seus braços para fazê-la tremular nos ares – é aquilo que possibilita a emergência de comunidades de indivíduos autônomos, dialogantes, colaborativos.

Uma comuna de espíritos livres – aqueles que Nietzsche tinha plena noção, durante sua vida, de não passarem de prefigurações de algo ainda por vir! – que vivem sem subserviência a senhores, sem jurar obediência cega a nenhum rei, presidente, papa, aiatolá, imperador, guru, ideologia ou seita. Desobedecer aos ditames dos perpetradores de injustiças e desumanizações é para eles um artigo de honra. Combater, resolutos mas sem ódio cegante, aos disseminadores de fúrias racistas, xenófobas, patriarcalistas, imperialistas, supremacistas, será tarefa comum dos cidadãos inconclusos e perfectíveis que, na esfera pública, atuam juntos pelo melhoramento do Lar Comum, do common oikos. 

A esperança, me parece, passa perto de Pachamama, esta entidade pan-andina que simboliza e conceitua a Mãe Terra. Pois, depois da farsa já tão desacreditada do “somos todos filhos do mesmo deus”, noção que jamais nos levou pra próximo da paz e da fraternidade universal, talvez já seja o tempo de buscar um novo universalismo, anti-teológico, realmente englobante, a noção muito mais sã de que somos filhos da mesma mãe – Natura Creatrix, como diria o poeta latino Lucrécio – e estamos todos no mesmo barco. Terráqueos na espaçonave terra, embarcamos num mundo comum que pré-existe ao nosso nascimento e sobreviverá à nossa morte, e que constitui o objeto supremo de nossas responsabilidades (Cf. Hans Jonas, Michel Serres).

Lendo o Homo Sacer de Agamben, penso que a vida nua que era a vítima dos morticínios totalitários (uma zoé despida de bíos, para recuperar os termos gregos como faz Agamben). Ora, qual foi a “roupa” (num sentido mais simbólico do que literal) que os nazistas tiveram que rasgar do corpo de suas vítimas senão a cidadania? Os judeus, os ciganos, os que foram considerados “retardados mentais incuráveis”, dentre outras categorias estigmatizadas como subhumanas e reduzidos ao status de escória do mundo, eram primeiro despidos do status de cidadãos para que assim se tornassem mais impunemente matáveis. Des-nacionalizados, sub-cidadanizados, eles não tinham mais sobre si o guarda-chuvas protetor contra as tempestades da tirania que é a pertença a um Estado de Direito enquanto cidadão que integra o corpo real de uma nação, de um povo num território.

A Solução Final aplica-se a judeus e ciganos com mais chance de eficácia no morticínio pois estes eram povos transnacionais, com tendência ao cosmopolitismo, espalhados pelo mundo e sem pertença dogmático a um Estado-nação específico (Israel, afinal, ainda não nascera como estado dos judeus: é fruto do pós 2ª GM). Despir de cidadania uma vida-bíos – a existência de alguém singular, sobre quem pode-se escrever uma bíos-grafia – é lançá-la ao risco extremo que acossa a “vida nua”, a do homo sacer, vida-zoé (reduzida à sua animalidade) e que no direito romano podia ser livremente assassinada sem que isso constituísse delito, sem que o assassino fosse responsabilizado pelo homicídio. No caso do III Reich, a noção de vidas matáveis vinculava-se às noções eugenistas e racistas encampadas pelos nazistas – os delírios sobre a necessidade de purificação da humanidade em relação àqueles que eram nódoas genéticas, raças decadentes e impuras etc.

Porém seria um grave equívoco considerar como uma “doença alemã” (somente e exclusivamente alemã) os fenômenos catastróficos que caracterizam a banalidade do mal e suas cascatas de tirania e crueldade. Agamben nos lembra que há precedentes históricos para os campos de concentração – não se trata de uma invenção de alemão – nos “campos de concentraciones criados pelos espanhóis em Cuba, em 1896, para reprimir a insurreição da população da colônia, e nos concentration camps nos quais os ingleses no início do século XX amontoaram os bôeres da África do Sul.” (AGAMBEN: UFMG, 2010, p. 162).

Se Eichmann virou exemplo icônico do “eu só cumpria ordens superiores”, isto não deveria nos fazer concluir que o mesmíssimo problema ocorreu também do lado dos aliados: o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, também integra o rol dos horrores do século que só se explicam pela servilidade daqueles que obedeceram às ordens emanadas de Washington para destroçar na hecatombe nuclear um Japão que já estava praticamente vencido. Bauman explica (cf. Danos Colaterais, cap. 9).

Nos séculos precedentes à “era dos Extremos” – nomeação de Hobsbawm – também não faltaram banalidades do mal na forma de imperialismo escravagista europeu, impondo aos povos conquistados uma violência institucionalizada. O sociólogo brasileiro Jessé Souza utiliza o conceito de “construção social da subcidadania” como essencial para a decifração dos mecanismos institucionais que despem alguém de sua plena cidadania e de seu direito a ter direitos (Arendt) – e foi o que o III Reich fez, tratando os judeus como excluídos de qualquer cidadania, depenados de seus bens e riquezas, roubados até mesmo de seus cabelos e roupas, deportados de seus lares, para morrerem como moscas nas fábricas da morte como Auschwitz, Treblinka e Dachau, onde os instrumentos costumeiros da pena-de-morte individualizada (forca, guilhotina, cadeira elétrica) foram substituídas pela morte em escala industrial nas câmaras de gás. O morticínio dependeu da subserviência servil de um exército de funcionários e burocratas, é verdade, mas também dependeu da brutal des-cidadanização das futuras vítimas.

A cidadania, pois, é uma espécie de roupa que veste a vida nua, e isso para que ela esteja vestida não para o desfile de gala dos privilégios hereditárias das castas dominantes, mas sim para a participação social na aventura política que decorre da aparição de cada um de nós, pelo nascimento, no mundo comum que nos precedeu e nos sucederá. Apelando novamente à mitologia andina, eu diria: nascemos em Pachamama, que já estava aqui antes de nosso advento e que ainda estará aqui quando estivermos mortos, e esta pachamâmica pertença transcende quaisquer pátrias e reativa o cínico Diógenes, provável inventor histórico do cosmopolitismo. Não sou súdito de nenhuma pátria, sou cidadão do Cosmos, sou bio-célula no organismo de Pachamama.

Um nazista poderia cagar e andar sobre isso tudo, argumentando que há cânceres no corpo de Pachamama que é preciso extirpar através da tanato-terapia dos lager… Porém, Pachamama é constituída por diversidade biológica e pluralidade étnico-cultural: atentar contra a “pluralidade que é a lei da terra” (Arendt) será sempre um delito político e ético, uma irresponsabilidade em relação ao que é e ao que está porvir. Há esperança promissora somente num mundo onde todos tenham o “direito a ter direitos” que só se efetiva com o reconhecimento de uma cidadania – outrora nacional, e que quiçá num futuro, não sei se próximo ou utópico, possa se transformar em planetária ou cósmica. Cidadania Pachamâmica para confrontar o Império Tenebroso de Mammon.

E.C.M. – Fevereiro de 2018

 

BIBLIOGRAFIA

AGAMBEN, G. Homo Sacer. UFMG, 2010

ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém; Origens do Totalitarismo; Entre Passado e Futuro. 

BAUMAN, Z. Danos Colaterais. RJ: Zahar, 2013

JASPERS, K. A Questão da Culpa: a Alemanha e o Nazismo. SP: Todavia, 2018.

LAFER, C. A Reconstrução dos Direitos Humanos – Um diálogo com Arendt. SP: Cia das Letras.

MILGRAM, S. Obediência à Autoridade. 

SABATO, E. El Uno y el Universo.

TIBURI, Márcia. Filosofia Prática. Ed. Record.

TODOROV. Diante do Extremo. 

ZINN, Howard. “The Problem is Civil Obedience”.

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Hannah3
Hannah4


Hannah Arendt (1906-1975)
Um filme de Margarethe von Trotta
Estrelado por Barbara Sukowa
DOWNLOAD TORRENT (BluRay, 5 gb)

Leia, sobre o filme, a ótima matéria do The Mantle. Abaixo, um excerto:

The banality of evil operates along the same lines of Elie Wiesel’s quotation, “The opposite of love is not hate. It’s indifference.” As Arendt stated in the film, “Once the trains were transported, [Eichmann] felt his work was done.” And what the film ingeniously offers to the discussion is a point Arendt made, at the end, about the difference between the radical and the extreme: “Only good can be profound and radical.” Evil is only extreme and overwhelmingly banal. To do good takes courage to act against the extremely distorted dynamics that are endemic to modern society. Modernity’s greatest evils transform innovation into industries—and action into labor—integrating the functions they demand and the people they employ into a framework that absolves its constituents from the greater picture…” – THE MANTLE

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Neste Domingo (25/2/18), no Bolshoi Pub (Goiânia):
97ª Ed. Café Filosófico A Banalização do Mal

UMA HISTÓRIA NATURAL DO MAL – Por Zygmunt Bauman no livro “Danos Colaterais – Desigualdades Sociais Numa Era Global”

UMA HISTÓRIA NATURAL DO MAL
Por Zygmunt Bauman (1925 – 2017)

Os esforços para romper o mistério que (talvez mais que qualquer outro) mantém os filósofos da ética acordados à noite, o mistério do unde malum (“de onde vem o mal?”), e, mais específica e urgentemente, de “como as pessoas boas se tornam más?” (ou o segredo da misteriosa transmutação de pessoas cuidadosas com a família, amistosas e generosas em monstros), foram desencadeados e receberam um primeiro impulso poderoso com a maré montante do totalitarismo do século XX, colocados em fervilhante movimento pelas revelações do Holocausto e ainda mais acelerados pela crescente evidência de uma semelhança cada vez mais notável entre o mundo pós-Holocausto e um campo minado, no qual uma explosão deve ocorrer mais cedo ou mais tarde, embora ninguém saiba onde nem quando.

Desde o início, os esforços para romper o mencionado mistério seguiram três caminhos diferentes; com toda probabilidade, continuarão a segui-los por longo tempo, já que nenhuma das três trajetórias parece ter uma estação final onde os exploradores possam repousar satisfeitos por ter alcançado o destino desejado…

O primeiro caminho (mais recentemente assumido, ao que parece, por Jonathan Littell em seu livro The Kindly Ones) leva a uma investigação e compreensão das peculiaridades físicas (ou sedimentos físicos de peculiaridades biográficas) descobertas ou supostas em indivíduos conhecidos por terem cometido atos cruéis ou que tenham sido apanhados em flagrante, dos quais se presume, portanto, que tenham superado os indivíduos médios em sua inclinação e avidez por cometer atrocidades quanto tentados ou comandados nesse sentido.

Esse caminho foi aberto antes mesmo de os monstruosos atos humanos da era pós-Holocausto terem revelado todo o horror da escala potencial do problema. Foi aberto pelo estudo de Theodor Adorno, altamente influente e memorável, acerca da “personalidade autoritária”, promovendo a ideia, por assim dizer, da autosseleção dos malfeitores – e sugerindo que essa autosseleção é determinada por predisposições naturais, e não artificialmente criadas, do caráter individual.

Outro caminho (talvez o mais amplo e mais percorrido) foi construído segundo a linha do condicionamento comportamental e levou a uma investigação dos tipos de posicionamentos ou situações sociais que poderiam estimular indivíduos – “normais” em circunstâncias “habituais” ou mais comuns – a se unir na perpetração de ações malévolas; ou, expressando-o de outra maneira, condições capazes de despertar predisposições malévolas que, sob diferentes circunstâncias, poderiam ficar adormecidas.

Para os intelectuais que seguiram esse caminho, era certo tipo de sociedade, e não determinadas características individuais, que devia estar no banco dos réus. Siegrief Kracauer, por exemplo, como Hans Speier, procurou na irresistível multuplicação de categorias dos Angestellte (funcionários de escritório) a fonte da atmosfera de degradação moral que favoreceu o recrutamento para o exército do mal. Essa atmosfera malcheirosa, moralmente venenosa, foi logo depois atribuída por Hannah Arendt às predisposições “protototalitárias” dos burgueses, ou ao caráter filistino e vulgar das classes forçadamente transformadas em massas (seguindo o princípio do “Primeiro vem o estômago, depois a moralidade”, como Brecht definiu de modo sucinto).

Hannah Arendt, talvez a porta-voz mais importante desse tipo de pensamento, opondo-se de modo radical e inflexível à redução de fenômenos sociais à psique individual, observou que o verdadeiro gênio entre os sedutores nazistas foi Himmler… ele “organizou as massas num sistema de dominação total”, graças à sua pressuposição (correta!) de que, em sua decisiva maioria, os homens não são vampiros nem sádicos, mas apegados a seus empregos e provedores de suas famílias. Sabemos onde essa observação acabou por levá-la no livro Eichmann em Jerusalém.

Das conclusões de Arendt, a mais citada foi seu sucinto veredicto sobre a banalidade do mal. O que ela queria dizer ao pronunciar esse veredicto é que monstruosidades não precisam de monstros, atrocidades não precisam de personagens atrozes, e o problema de Eichmann estava no fato de que, segundo as avaliações dos luminares supremos da psicologia e da psiquiatria, ele (juntamente com tantos de seus companheiros de crimes) não era um monstro nem um sádico, mas escandalosa, terrível, assustadoramente “normal”.

Littell, ao menos em parte, seguiria a conclusão de Arendt em sua insistência em que Eichmann era apenas “um robô sem face e sem alma”. Entre os mais recentes estudos dessa linha, The Lucifer Effect, de P. Zimbardo, publicado em 2007, é um aterrador e angustiante estudo de uma série de rapazes e moças americanos, bons, comuns, simpáticos e populares, mas que se transformaram em monstros; eles foram transportados a uma espécie de “lugar nenhum”, ao longínquo Iraque, e encarregados de cuidar de prisioneiros acusados de má intenção e suspeitos de pertencer a um ramo inferior da humanidade, ou talvez de serem menos que humanos.

Como o mundo seria confortável, aconchegante e amigável se fossem os monstros, e apenas os monstros, os responsáveis pelos atos monstruosos. Contra os monstros estamos razoavelmente protegidos, podemos estar garantidos contra os feitos malévolos que são capazes de cometer e que ameaçam perpetrar. Temos psicólogos para identificar psicopatas e sociopatas; sociólogos pra nos dizer onde é provável que eles se propaguem e se congreguem; juízes para condená-los à prisão e ao isolamento; e policiais e psiquiatras para assegurar que eles lá permaneçam.

Por infortúnio, os bons moços e moças americanos, comuns, simpáticos, não eram monstros nem pervertidos. Não tivessem sido encarregados de dominar os internos de Abu Ghraib, jamais teríamos conhecido (conjecturado, adivinhado, imaginado, fantasiado) as coisas terríveis que foram capazes de realizar. A nenhum de nós ocorreria que a garota sorridente do balcão, uma vez em missão no ultramar, pudesse distinguir-se por projetar truques cada vez mais inteligentes, extravagantes, maldosos e perversos para atormentar, molestar, torturar e humilhar as pessoas sob sua guarda. Nas cidades natais dela e de seus companheiros, os vizinhos até hoje se recusam a acreditar que esses moços e moças encantadores que conhecem desde a infância sejam os monstros que aparecem nas fotos das câmaras de tortura de Abu Ghraib. Mas são.

(…) O inquérito sobre o ultraje em Abu Ghraib jamais atingiu os altos escalões do comando militar americano; para que as pessoas situadas no topo da hierarquia, aquelas que dão as ordens, fossem responsabilizadas e julgadas por crimes de guerra, teriam primeiro de estar do lado dos perdedores – o que não foi o caso. Mas Adolf Eichmann, que controlava as ferramentas e os procedimentos da “solução final” para o “problema judaico” e dava ordens a seus operadores, e ficara do lado dos perdedores, foi capturado pelos vitoriosos e levado a tribunal. Houve então a oportunidade de submeter a “hipótese do monstro” a um exame cuidadoso e detalhado, feito pelos mais distintos profissionais da psicologia e da psiquiatria. A conclusão final dessa pesquisa tão profunda e fidedigna foi tudo, menos ambígua. Aqui está ela, tal como transmitida por Arendt:

“Meia dúzia de psiquiatras o classificou como normal. ‘Mais normal, de qualquer modo, do que fiquei depois de examiná-lo’, teria exclamado um deles, enquanto outro descobrira que seu perfil psicológico geral, sua atitude em relação à mulher, aos filhos, ao pai e à mãe, irmãos, irmãs e amigos era ‘não somente normal, porém a mais desejável… O problema de Eichmann era precisamente o fato de muitos serem como ele, e de esses muitos não serem pervertidos nem sádicos, mas gente que era, e ainda é, terrível e assustadoramente normal. Do ponto de vista de nossas instituições jurídicas e nossos padrões morais de avaliação, essa normalidade era muito mais aterrorizante que todas as atrocidades em conjunto.” (ARENDT, Eichmann em Jerusalém)

Deve ter sido a mais assustadora das descobertas: se não são bichos-papões, mas pessoas normais (fico tentado a acrescentar: “caras como você e eu”), que cometem atrocidades e são capazes de agir como sádicos e pervertidos, então todos os filtros que inventamos e pusemos para funcionar com a finalidade de separar os portadores de desumanidade do restante da espécie humana são mal-operados ou malconcebidos desde o início – e com toda a certeza ineficazes. E assim estamos, resumindo uma longa história, desprotegidos (fica-se tentado a dizer: “sem defesas contra nossa capacidade mórbida comum”).

(…) Se Eichmann era “normal”, então ninguém está a priori isento de suspeita – nenhum de nossos amigos e conhecidos encantadoramente normais; nem nós mesmos. Os Chip Frederick e os Adolf Eichmann andam por nossas ruas plenamente visíveis, fazem fila conosco nas caixas das mesmas lojas, enchem cinemas e estádios de futebol, viajam de trem ou de ônibus urbanos ou ficam presos junto conosco nos engarrafamentos. Podem morar ao nosso lado, ou mesmo sentar-se à nossa mesa para o jantar. Todos eles poderiam fazer, dadas as circunstâncias, o mesmo que Chip Frederick e Adolf Eichmann fizeram.

BAUMAN. Capítulo 9 de Danos Colaterais. Editora Zahar, 2013.



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Da Escravidão à Emancipação: a Jornada Libertária de Frederick Douglass (1818-1895)

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Frederick Douglass (1818-1895)

12 YearsSeria razão para comemoração se a escravidão tivesse ficado para a História, confinada ao passado, mero item de museu, a ser eventualmente revivida e relembrada em obras de historiadores ou em épicos cinematográficos (como o clássico de Stanley Kubrick Spartacus).

Execravelmente, no entanto, a escravidão prossegue fortemente presente no mundo atual: segundo dados da ONU, citados pelo cineasta Steve McQueen ao receber o Oscar de Melhor Filme por 12 Years a Slave (premiada adaptação do livro de Solomon Northup), existem cerca de 21 milhões de pessoas que hoje vivem em regime de escravidão (leia a reportagem da BBC). China, Nigéria, Paquistão e Índia são os 4 países com maior número de pessoas oprimidas sob regimes de trabalho forçado.

Engana-se quem pensa que no Brasil este problema não existe. Basta assistir ao perturbador documentário Nas Terras do Bem-Virá (2007, 110 min), de Alexandre Rampazzo, para descobrir a chocante realidade da escravidão na Amazônia: ali, “anualmente são destruídos centenas de milhares de hectares de floresta. Para realizar este desmatamento, são utilizados milhares de trabalhadores em regime de escravidão, aliciados principalmente nas cidades pobres do nordeste.”

Uma das mais memoráveis teses de Walter Benjamin afirma que “todo monumento da civilização é um monumento da barbárie”. Para compreender o que Benjamin queria dizer com esta provocativa e profunda formulação, é só pensar, por exemplo, na conexão umbilical entre o florescimento artístico e intelectual do mundo greco-romano e o sistema econômico calcado no escravismo. Todas as elevadíssimas e grandiosas construções culturais – como estátuas lindamente esculpidas, edifícios belamente arquitetados, obras de filosofia e poesia compostas com todo o esmero… – vinham à luz em uma sociedade escravocrata e elitista, cujo status quo era defendido desavergonhadamente até por filósofos, poetas e literatos que hoje carregam auras de reputação gloriosa. O próprio Platão, por exemplo, era dono de escravos; e Aristóteles, preceptor de Alexandre o Grande, já inicia seu livro dedicado à Política em um tom escravocrata, machista e patriarcal:

“Alguns seres, ao nascer, se veem destinados a obedecer; outros, a mandar. (…) O macho é mais perfeito e governa; a fêmea o é menos, e obedece. (…) Há na espécie humana indivíduos tão inferiores a outros como o corpo o é em relação à alma, ou a fera ao homem; são os homens no qual o emprego da força física é o melhor que deles se obtém. Partindo dos nossos princípios, tais indivíduos são destinados, por natureza, à escravidão; porque, para eles, nada é mais fácil do que obedecer. (…) A utilidade dos escravos é mais ou menos a mesma dos animais domésticos: ajudam-nos com sua força física em nossas necessidades cotidianas. (…) O escravo é completamente privado da faculdade de querer; a mulher a tem, mas fraca; a do filho é incompleta…”

ARISTÓTELES. Política.
Trad. Nestor Silveira Chaves.
Ed. Saraiva de Bolso, Livro I, Capítulo 2 e 4, pgs. 26, 27 e 42.

9781598533514Como antídoto contra argumentos tão vis, em defesa do escravagismo, quanto estes que Aristóteles sustenta em sua Política, é crucial ler a obra e conhecer a vida desta figura histórica tão significativa que foi Frederick Douglass (1818-1895). Para um retrato autêntico da experiência-de-vida concreta de escravos e senhores, de escravizados e escravizadores, o discurso frequentemente abstrato, generalista e descarnado dos filósofos faz bem em deixar-se informar e iluminar por obras que carregam e comunicam a vida em carne-e-osso: caso de Os Danados Da Terra (The Wretched of The Earth), de Franz Fanon, Os Jacobinos Negros – Toussaint L’Ouverture e a revolução de São Domingos, de C. L. R. James, ou os escritos de Frederick Douglass.

Publicado em 1845, a clássica autobiografia Narrative of the Life of Frederick Douglass, An American Slave retrata de modo vívido e memorável a situação dos escravos nos EUA na época que precedeu à Guerra Civil (1861-1865). O livro exala a autenticidade que só é capaz de atingir alguém que narra algo que vivenciou em sua carne torturada pelo labor, pelo cansaço, pela fome, pelo desconforto, pela constante opressão. Douglass conta-nos sobre experiências que carrega marcadas indelevelmente em sua memória pois são indissociáveis das cicatrizes deixadas em seu corpo pelo chicote de seus senhores. Sua prosa derrama-se na página como que inflamada pelo fervor da indignação. A eloquência de Douglass empresta boa parte de sua chama de uma revolta contra esta instituição abominável da escravidão, que reduz uma parcela da humanidade ao status de bestas-de-carga. Os comerciantes de carne humana são descritos em toda a diversidade de suas ações desumanas, cruéis e sádicas pela pena libertária de Frederick Douglass, cujo discurso tem um teor e um sabor bem assemelhado àquele que posteriormente teriam figuras como Malcolm X, Martin Luther King e Angela Davis.

Douglass nasceu escravo no estado sulista de Maryland, filho de uma escrava negra e um senhor branco. Logo no primeiro capítulo, descreve uma das desumanizações impostas à criança nascida em regime de escravidão: o recém-nascido é logo separado de sua mãe e Douglass relata que a convivência afetuosa entre a mãe e sua cria não era permitida aos escravos. Ele só encontrou-se com a mãe 4 ou 5 vezes durante a vida; ao tornar-se órfão aos sete anos de idade, Douglass relembra com impressionante sinceridade seus sentimentos diante do falecimento desta mulher que os senhores haviam-no impedido de conhecer e amar como seria natural: “I was not allowed to be present during her illness, at her death, or burial. She was gone long before I knew any thing about it. Never having enjoyed, to any considerable extent, her soothing presence, her tender and watchful care, I received the tidings of her death with much the same emotions I should have probably felt at the death of a stranger.” (CHAPTER I, p. 19)

Descrevendo o trabalho nas plantações, Douglass relembra da abundância de frutas nos pomares, constantes tentações para aqueles obrigados a trabalhar esfomeados e subnutridos na colheita. Com frequência, não podendo resistir à tentação, os escravos devoravam uma maçã aqui, uma laranja acolá, crime pelo qual eram severamente punidos pelos senhores-chicoteadores: “Scarcely a day passed, during the summer, but that some slave had to take the lash for stealing fruit.” (III, p. 29)

WAR AND CONFLICT BOOK ERA:  CIVIL WAR/BACKGROUND: SLAVERY & ABOLITIONISM

Um dos maiores líderes do movimento Abolicionista dos EUA no séc. XIX, o escravo libertado e militante dos direitos humanos Frederick Douglass

Em um episódio perturbador do livro, Douglass descreve os tormentos sofridos em comum pelos escravos sob o jugo de um certo Mr. Gore (que nome apropriado!). Este branquelo sangue-nos-olhos trabalha na função de overseer, ou seja, é o responsável pela vigilância e pela imposição da disciplinada à “negada” que labuta nos campos. Na hierarquia social, Mr. Gore não é nem elite, nem base – é classe média. Mas é aquele tipo de classe média que quer subir na pirâmide social, galgar degraus na escada do poder, e por isto é servil aos interesses da elite – no caso, os latifundiários escravocratas e lords do agrobusiness. Enfim, Mr. Gore é aquele tipo de fascista torturador que justifica seus crimes dizendo: “eu estava somente seguindo ordens”. O III Reich alemão estava repleto destas figuras: funcionários e burocratas que participam de atrocidades e defendem-se depois com o argumento da servilidade, como o Eichmann tão bem descrito pelo livro-reportagem Hannah Arendt sobre o julgamento do nazista em Jerusalém (Eichmann em Jerusalém).

Mr. Gore aparece aos olhos dos negros que foram sequestrados e roubados de seus lares da África, para serem escravizados nos Estados Unidos da América, como um demônio tão abominável quanto eram para os judeus, vítimas do Holocausto hitlerista, figuras como Himmler ou Goebbels ou Hitler. Douglass, quando descreve Mr. Gore, atinge tal gênio literário que lembrei-me de experiências estéticas semelhantes vivenciadas com Shakespeare e seu Macbeth, Conrad e o Coronel Kurtz de Coração das Trevas, Milton e seu Satã (anjo caído e rebelde) em Paraíso Perdido. Frederick Douglass escreveu páginas clássicas nos anais da descrição verbal da Vilania (aqui representada pelos vícios da gravidade, do autoritarismo, da crueldade, do sadismo), incluindo uma descrição de homicídio que está entre as mais impressionantes de toda a literatura norte-americana:

Fotografia de 1863 revela as cicatrizes de flagelação portadas por homens escravizados na Louisiana. Imagens assim foram eram distribuídas nas campanhas de militância do movimento Abolicionista que Frederick Douglass integrou e iluminou com suas ações e obras..

Fotografia de 1863 revela as cicatrizes de flagelação portadas por homens escravizados na Louisiana. Imagens assim foram eram distribuídas nas campanhas de militância do movimento Abolicionista que Frederick Douglass integrou e iluminou com suas ações e obras. Fonte da fotografia: Wikipédia.

“Mr. Gore was proud enough to demand the most debasing homage of the slave, and quite servile enough to crouch, himself, at the feet of the master. (…) He was cruel enough to inflict the severest punishment, artful enough to descend to the lowest trickery, and obdurate enough to be insensible to the voice of a reproving conscience. (…) Mr. Gore was a grave man… he indulged in no jokes, said no funny words, and his looks were in perfect keeping with his words. He spoke but to command, and commanded to be obeyed; he dealt sparingly with his words, and bountifully with his whip, never using the former where the latter would answer as well. When he whipped, he seemed to do so from a sense of duty, and feared no consequences… He was, in a word, a man of the most inflexible firmness and stone-like coldness. His savage barbarity was equalled only by the consummate coolness with which he committed the grossest and most savage dees upon the slaves under his charge. Mr. Gore once undertook to whip one of Colonel Lloyd’s slaves, by the name of Demby. He had given Demby but few stripes, when, to get rid of the scourging, he ran and plunged himself into a creek, and stood there at the depth of his shoulders, refusing to come out. Mr. Gore told him that he would give him 3 calls, and that, if he did not come out at the third call, he would shoot him… The first call was given. Demby made no response, but stood his ground. The second and third calls were given with the same result. Mr. Gore […] raised his musket to his face, taking deadly aim at his standing victim, and in an instant poor Demby was no more. His mangled body sank out of sight, and blood and brains marked the water where he had stood.” – FREDERICK DOUGLASS, Chapter IV, pg. 36

Nas páginas dos filósofos raramente encontramos algo de tão intensa concretude, uma cena tão vívida que parece escrita por uma poeta trágico grego: quase como um Ésquilo mulato, Douglass pinta-nos uma cena destinada a encher-nos de piedade pelo infortúnio de “pobre Demby”, assassinado à queima-roupa por Mr. Gore. Se Mr. Gore pode cometer este morticínio é pois está prometida à impunidade toda morte perpetrada por um branco sobre um negro. O racismo institucionalizado manifestava-se na brutalidade cotidiana exercida pela elite contra aqueles coagidos por ela a trabalharem por nada e serem espoliados de tudo. Mr. Gore encarna uma mentalidade – que poderíamos até batizar de fascismo-de-branquelo-racista – que prossegue assombrando-nos: vejam o caso Ferguson e o quanto ele trouxe à tona, mais uma vez, a tragédia social ainda não superada do racismo institucionalizado. Por isso a obra de Douglass parece-me ter valor histórico não só como uma espécie de grande-reportagem, ao mesmo tempo denuncista revoltada, mas plena de grandiosas conclamações à fraternidade, à solidariedade, à liberdade – valorizadas tão intensamente por aqueles que disto estão privados, vivendo à sombra de doídas ausências.

Uma ausência que dói em Douglass é a de instrução, de conhecimento, de sabedoria: suas páginas queimam com a chama de uma vida que queria intensamente informar-se, descobrir a verdade, a despeito dos impedimentos exteriores e placas de proibido. Frederick Douglass teve a sorte de ter aprendido o ABC, o bê-á-bá da linguagem, com uma das senhoras – que desrespeitou assim a lei, então instituída, que tornava proibido alfabetizar um escravo. As instituições educativas estavam todas de portas fechadas às “pessoas de cor” e seria tratado no chicote qualquer negão que fosse pego aprendendo a ler-e-escrever. Os senhores – os fascistas branquelos como Mr. Gore – seguem a seguinte doutrina: “A nigger should know nothing but to obey his master – to do as he is told to do. Learning would spoil the best nigger in the world. If you teach a nigger how to read, there’s no keeping him. It would forever unfit him to be a slave. He would at once become unmanageable…” (VI, p. 45)

Vê-se bem que o Iluminismo ainda não raiou na mente destes branquelos escravocratas, delirantes de ganância e doentes de etnocêntrico racismo. Eles não desejam espalhar as Luzes do Saber: é mais lucrativo e mais seguro manter os escravos na ignorância. Deve-se batalhar contra qualquer tendência de busca-de-instrução por parte daqueles que estão destinados ao labor físico brutal imposto pelo chicote e pelas ameaças terroristas constantes. Ouvindo o discurso de seus senhores, Frederick Douglass aprende num insight, momento quase epifânico, que o caminho para sua libertação estava justamente em fazer aquilo que os opressores desaconselhavam. Douglass rebela-se contra os que proíbem-no de aprender e de ensinar: cria escolas clandestinas onde ensina o ABC aos companheiros-de-destino; com o aumento de suas capacidades de expressão e de seu repertório retórico, vai forjando-se um líder de massas capaz de mobilizar com seu Verbo o coração apaixonado das massas; Douglass enfim aparece ao leitor como uma figura de grandeza ética refulgente em sua batalha contra a “depravação” que há em encerrar alguém na “escuridão mental”. Frederick Douglass aparece então como um mulado iluminista afro-americano que ergue-se como potência pedagógica em seu tempo, ensinando seus compatriotas, inclusive a elite de senhores escravocratas, quão infundado e desmiolado era o racismo que presumia uma inferioridade nata dos negros, em relação ao respeito, no que diz respeito a capacidades intelectuais, artísticas, morais etc.

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“The more I read, the more I was led to abhor and detest my enslavers. I could regard them in no other light than a band of successful robbers, who had left their homes, and gone to Africa, and stolen us from our homes, and in a strange land reduced us to slavery. I loathed them as being the meanest as well as the most wicked of men. (…) I would at times feel that learning to read had been a curse rather than a blessing. It had given me a view of my wretched condition, without the remedy. It opened my eyes to the horrible pit, but no ladder upon which to get out. In moments of agony, I envied my fellow-slaves for their stupidity.  (…) It was this everlasting thinking of my condition that tormented me. There was no getting rid of it. It was pressed upon me by every object within sight or hearing, animate or inanimate. The silver trump of freedom had roused my soul to eternal wakefulness.”  DOUGLASS (VII, pg. 50)

Um Verbo assim tão poético, elevado, eloquente, quanto o de Fred Douglass em algumas de suas melhores páginas, é por si um fenômeno muito significativo e de importância histórica: os talentos de Douglass com a linguagem serviram para derrubar alguns dos preconceitos e apartheids daquela época em que você seria um fora-de-lei se ensinasse um escravo a ler-e-escrever. O professor de Harvard Kwame Anthony Appaiah aponta que esta lei tornou-se forte após algumas tentativas de insurreição das populações escravizadas, como o levante liderado por Gabriel Prosser em 1800, de modo que a obra de Frederick Douglass brota como um fruto proibido na árvore da América – republicana e independente desde a Guerra de Independência contra o Império Britânico culminada com a proclamação da república dos EUA em 1776, mas ainda escravocrata e dividida. Um escravo, na época em que Douglass ousou escrever, não tinha direito algum a expressar-se, tanto que seus senhores faziam tudo para impedi-los de alfabetizarem-se; poderia ir pro chicote qualquer nigger pego no flagra cometendo o crime terrível de ler os jornais. Eis porque são tão relevantes as obras escritas de próprio punho pelos escravos, descrevendo suas vivências, experiências, sonhos, planos, medos, traumas, raivas – enfim, toda a amplitude de sua humanidade:

“For much of the 18th century, and even during the height of the Enlightenment in Europe and America, it was widely agreed – among both opponents and defenders of slavery – that Africans, people of the Negro race, were constitutionally incapable of making contributions to arts and letters. (…) This alleged inferiority in matters intellectual was on the main weapons in the armory of those who defended slavery. How could white people treat Negroes as equals, if black people were simply incapable of comprehending the highest gifts of the human spirit?

Against this background, the slave narrative was more than a testimony to the evils of slavery; it was also evidence of the full humanity of black people. (…) The authors had experienced the horrors recounted at first hand; it also demonstrated that black people could write real literature. To achieve the first goal, it had only to be truthful, but to achieve this second goal, it had to display rhetorical brilliance. And no slave narrative achieved this double aim more successfully thatn Frederick Douglass’s Narrative of the Life of Frederick Douglass, an American Slave, Written By Himself, published in 1845.

By 1845, he was already widely known in the North as a powerful orator in the antislavery cause, a speaker whose evident rhetorical gifts were buttressed by his status as a fugitive slave. (…) He was not only a famous orator, but also a crusading journalist… He was an activist in the cause of women’s suffrage, an important voice urging the recruitment of African-Americans in the Union army, and a campaigner against lynching. He was also among the first African-Americans to hold significant Federal appointments, serving as the United States diplomat in Haiti and the Dominican Republic.

The slave narrative is the first African-American literary genre: it is, like so much of African-American culture, a powerful creative response to America’s racial tragedy. Not only did these narratives contribute to the struggle for abolition, they demonstrated the power of the black imagination, the ability to rise above the level of plain narration and speak to the mind and heart of a society scarred by slavery.”

Kwame Anthony Appaiah (1954 – )

Se o livro de Frederick Douglass é tão importante historicamente com certeza isto se deve ao poder de persuasão espantoso que emanam destas palavras, repletas de vida e humanidade, e com a força de um leão que põe-se por inteiro na tarefa de quebrar as correntes de ferro e as grades da jaula que mantêm-no cativo no inferno terrestre da escravidão. O livro não é só uma auto-biografia que quer fornecer a crônica de ocorrências passadas, é também um brado orgulhoso, prenunciador do Black Power, com uma voz que imagino de blueseiro, celebrando um triunfo. Douglass descreve uma jornada da escravidão à emancipação; não recomenda a servilidade, mas a insurreição; não prega a aceitação fatalista da opressão, mas a construção coletiva de resistências e alternativas. Por tudo isso, Frederick Douglass prossegue tendo muito a nos dizer, já que apesar da escassez de diplomas, doutorou-se na Escola da Vida, através do sofrimento, a denunciar e tentar derrubar a fraudulenta, torturadora e genocida instituição histórica (infelizmente ainda longe de estar extinta) da escravatura.

A conquista da liberdade é gradativa, difícil, entravada por mil obstáculos e perigos. Mas Douglass é empurrado pelo destino à sina de jamais conformar-se com a condição desumanizada a que outros o condenaram. Sabe que, tentando fugir, arrisca-se a ser pego e barbaramente torturado. “On the one hand, there stood slavery, a stern reality, glaring frightfully upon us, its robes already crimsoned with the blood of millions, and even now feasting itself greedily upon our own flesh. On the other hand, away back in the dim distance, under the flickering light of the north star, behind some craggy hill or snow-covered mountain, stood a doubtful freedom – half frozen – beckoning us to come and share its hospitality.” (X, p. 87)

Frederick Douglass conhece muito bem a tendência dos escravos ao fatalismo e à resignação, estados de espírito tão úteis aos senhores desejosos de permanecer impunes por seus crimes de escravização, espoliação, expropriação; citando o Hamlet de Shakespeare, Douglass descreve seus irmãos de infortúnio como frequentemente mais propensos a “aguentar os males que temos mais do que voar ao encontro de males que não conhecemos”. Douglass exorta os escravos a jamais acostumarem-se com os males de que são vítimas a ponto de desistirem de demandar justiça. Afinal de contas, aquilo que mais anima estas páginas é justamente a presença forte de um afeto: solidariedade com outros que vivenciam um destino comum – em uma palavra, fraternidade. 

Daria pano para manga uma longa investigação sobre esta idéia de Família Humana, tal como ela aparece nas páginas de Frederick Douglass. Limito-me a apontar uma impressão forte que me ficou da leitura: o ideal de Fraternidade que Douglass nutre foi forjado principalmente em oposição ao crime ou pecado de fratricídio que era cometido com frequência e abundância ao seu redor; assim como seu ideal de Liberdade é construído por um homem acorrentado, privado dos direitos mais básicos; Mr. Gore tem licença para torturar e matar impunemente, mas Frederick Douglass pode ser pisoteado, espancado, chicoteado, esfolado e destroçado em carne-viva se comer uma maçã no pomar. Tão obscena é a discrepância entre o ideal da Fraternidade – aquilo que John Lennon chamará em “Imagine” de the brotherhood of man – e a realidade brutal das relações violentas e sádicas,  que Douglass sente-se compelido à revolta – e não por destrutividade niilista, mas como defensor do que acredita ser uma ordem ética superior. Neste sentido, Douglass tem algo de Gandhi ou de Thoreau.

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Detail of the masthead from William Lloyd Garrison’s abolitionist newspaper, The Liberator. Its motto was “No Union With Slaveholders.”

Depois de escapar da escravidão, rumando para a região de Nova York, Douglass tornou-se um ativista abolicionista, leitor entusiástico dos jornais e panfletos do movimento, cada vez mais borbulhante, que pedia a extinção da escravidão nos EUA. O preço a pagar pelo impasse entre Norte e Sul foi, como sabemos, uma das guerras mais fratricidas do século XIX, um dos episódios mais sanguinolentos da história universal naquela década de 1860. Douglass estava muito clara e convictamente posicionado neste debate, como é revelado por suas reações à leitura do jornal abolicionista Liberator: “Its sympathy for my brethren in bonds, its scathing denunciations of slaveholders, its faithful exposures of slavery – and its powerful attacks upon the upholders of the institution, sent a thrill of joy through my soul, such as I had never felt before! I had long been a reader of the Liberator before I got a pretty correct idea of principles, measures and spirit of the anti-slavery reform. I took right hold of the cause. I could do but little; but what I could, I did with a joyful heart, and never felt happier than when in an anti-slavery meeting. (…) From that time until now, I have been engaged in pleading the cause of my brethren.” (XI, p. 112)

É quase impossível, quando chegamos ao último ponto final, não sentir que acabou de falar um espírito livre. Que mostra-nos que livre não se nasce; livre a gente se torna. Frederick Douglass, professor de liberdade pois libertou-se, profundo conhecedor da fraternidade por ter sentido em sua carne, tantas vezes, este valor ser tripudiado e ofendido, é um destes autores cujas palavras têm o dom de influir sobre as vidas dos leitores a ponto de fazer valer o lema: os livros não fazem história, os livros fazem os homens, e estes fazem história. Sem este livro, talvez houvesse demorado ainda mais a chegar o dia da libertação coletiva (ainda que relativa),“the glad day of deliverance to the millions of my brethren in bonds” (Apêndice, pg. 119).

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Congress approves DC statue of Frederick Douglass in Capitol complex

“If there is no struggle, there is no progress. Those who profess to favor freedom, and yet depreciate agitation, are men who want crops without plowing up the ground. They want rain without thunder and lightning. They want the ocean without the awful roar of its many waters. This struggle may be a moral one; or it may be a physical one; or it may be both moral and physical; but it must be a struggle. Power concedes nothing without a demand. It never did and it never will.” Frederick Douglass, Civil Rights Activist (c. 1818–1895) [READ IT ALL]

Ensaio por Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 22 de Janeiro de 2015 d.C.

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BIOGRAPHY.COM: Abolitionist leader Frederick Douglass was born into slavery in Talbot County, Maryland. He became one of the most famous intellectuals of his time, advising presidents and lecturing to thousands on a range of causes, including women’s rights and Irish home rule. Among Douglass’ writings are several autobiographies eloquently describing his experiences in slavery and his life after the Civil War.

Douglass wrote and published his first autobiography, Narrative of the Life of Frederick Douglass, an American Slave, in 1845. The book was a bestseller in the United States and was translated into several European languages. Although the book garnered Douglass many fans, some critics expressed doubt that a former slave with no formal education could have produced such elegant prose. Douglass published three versions of his autobiography during his lifetime, revising and expanding on his work each time. My Bondage and My Freedom appeared in 1855. In 1881, Douglass published Life and Times of Frederick Douglass, which he revised in 1892.

Fame had its drawbacks for a runaway slave. Following the publication of his autobiography, Douglass departed for Ireland to evade recapture. Douglass set sail for Liverpool on August 16, 1845, arriving in Ireland as the Irish Potato Famine was beginning. He remained in Ireland and Britain for two years, speaking to large crowds on the evils of slavery. During this time, Douglass’ British supporters gathered funds to purchase his legal freedom. In 1847, Douglass returned to the United States a free man…” [READ ON]

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