EM DEFESA DA DIGNIDADE DO ATEÍSMO, por Slavoj Žižek: “O ateísmo é um legado pelo qual vale a pena lutar”

O ateísmo é um legado pelo qual vale a pena lutar

Por séculos, nos foi dito que sem religião não somos mais do que animais egoístas lutando pelo nosso quinhão, nossa única moralidade a de uma matilha de lobos; apenas a religião, dizem, pode nos elevar a um nível espiritual mais alto. Hoje, quando a religião emerge como a fonte de violência homicida ao redor do mundo, garantias de que fundamentalistas cristãos ou muçulmanos ou hinduístas estão apenas abusando e pervertendo as nobres mensagens espirituais de seus credos soam cada vez mais vazias. Que tal restaurar a dignidade do ateísmo, um dos maiores legados da Europa e talvez nossa única chance de paz?Mais de um século atrás, em Os Irmãos Karamazov e outras obras, Dostoiévski alertava sobre os perigos de um niilismo moral sem deus, defendendo essencialmente que, se Deus não existe, então tudo é permitido. O filósofo francês André Glucksmann até mesmo aplicou a crítica de Dostoiévski do niilismo sem deus ao 11 de setembro, como sugere o título de seu livro, Dostoiévski em Manhattan.

O argumento não poderia estar mais errado: A lição do terrorismo atual é que, se Deus existe, então tudo, incluindo explodir milhares de espectadores inocentes, é permitido – pelo menos àqueles que alegam agir diretamente em nome de Deus, já que, claramente, uma ligação direta com Deus justifica a violação de quaisquer refreamentos e considerações meramente humanos. Resumindo, os fundamentalistas não se tornaram diferentes dos comunistas Stalinistas “sem deus”, para os quais tudo foi permitido, já que viam a si mesmos como instrumentos diretos de sua divindade, a Necessidade Histórica do Progresso em Direção ao Comunismo.

Fundamentalistas fazem o que veem como boas ações de forma a satisfazer o desejo de Deus e ganhar a salvação; ateus o fazem simplesmente porque é a coisa certa a fazer. Não seria essa também nossa experiência mais elementar de moralidade? Quando faço uma boa ação, não a faço visando ganhar um favor de Deus; faço porque, se não fizesse, não poderia me olhar no espelho. Uma atitude moral é por definição sua própria recompensa. David Hume argumentou isso pungentemente quando escreveu que a única maneira de demonstrar verdadeiro respeito a Deus é agir moralmente ignorando sua existência.

Dez anos atrás, Europeus debatiam se o preâmbulo da Constituição Europeia deveria mencionar o cristianismo. Como de costume, um meio termo foi arranjado, uma referência em termos gerais à “herança religiosa” da Europa. Mas onde estava o legado mais precioso da Europa, o do ateísmo? O que faz da Europa moderna única é que ela é a primeira e única civilização em que o ateísmo é uma opção plenamente legítima, e não um obstáculo a qualquer posição pública.

O ateísmo é um legado europeu pelo qual vale a pena lutar, não menos por criar um espaço público seguro para os que creem. Considere o debate que inflamou-se em Ljubljana, a capital da Eslovênia, meu país natal, conforme a controvérsia constitucional fervia: muçulmanos (em sua maioria trabalhadores imigrantes das antigas repúblicas Iugoslavas) devem ter permissão para construir uma mesquita? Enquanto os conservadores opunham-se à mesquita por razões culturais, políticas e até arquitetônicas, a revista semanal liberal Mladina foi consistentemente explícita em seu apoio à mesquita, em continuar com suas preocupações pelos direitos daqueles que vinham de outras antigas repúblicas Iugoslavas.

Não surpreendentemente, dadas as atitudes liberais, Mladina também foi uma das poucas publicações eslovenas a republicar as caricaturas de Maomé. E, reciprocamente, aqueles que demonstraram maior “compreensão” pelos violentos protestos muçulmanos causados por aqueles cartuns foram também aqueles que regularmente expressavam sua preocupação com o futuro do cristianismo na Europa.

Estas alianças estranhas confrontam os muçulmanos da Europa com uma escolha difícil: A única força política que não os reduz a cidadãos de segunda classe e os concede o espaço para expressar sua identidade religiosa são liberais ateus “sem deus”, enquanto aqueles mais próximos a suas práticas religiosas sociais, seu reflexo cristão, são seus maiores inimigos políticos.

O paradoxo é que os únicos verdadeiros aliados dos muçulmanos não são aqueles que primeiramente publicaram as caricaturas para chocar, mas aqueles que, em defesa do ideal da liberdade de expressão, republicaram-nas.

Enquanto um verdadeiro ateu não tem necessidade de apoiar sua própria posição provocando crentes com blasfêmia, ele também se recusa a reduzir o problema das caricaturas de Maomé ao respeito às crenças de outras pessoas. O respeito às crenças dos outros como o valor maior só pode significar uma de duas coisas: Ou tratamos o outro de forma condescendente, evitando magoá-lo para não arruinar suas ilusões, ou adotamos a posição relativista de vários “regimes da verdade”, desqualificando como imposição violenta qualquer posição clara em relação à verdade.

Mas que tal submeter o Islã – junto com todas as outras religiões – a uma respeitosa, mas por isso mesmo não menos implacável, análise crítica? Essa, e apenas essa, é a maneira de mostrar verdadeiro respeito aos muçulmanos: tratá-los como adultos responsáveis por suas crenças.

* Publicado originalmente em inglês no The New York Times em 13 de março de 2006. Reblogado do Blog da Boitempo. O trecho citado também integra um dos capítulos do livro Violência. Acompanhe A Casa de Vidro – www.acasadevidro.com.

CONFIRA TAMBÉM:

Saiba mais sobre o legado histórico do ateísmo na obra de Epicuro e Lucrécio

O FASCISMO EM MARÉ ALTA E O SALUTAR ANTÍDOTO DA RESISTÊNCIA ORGANIZADA – Explorações de um cenário político conturbado

Um dia após o atentado a tiros sofrido pela caravana do ex-presidente Lula no Paraná, sintoma de que caminhamos a passos largos para a barbárie, um grande ato cívico suprapartidário reuniu milhares de pessoas em Curitiba nesta Quarta (28/03/2018).

“Nossas diferenças não vão nos impedir de sentar à mesa para enfrentar o fascismo no Brasil”, declarou Guilherme Boulos, candidato à presidência pelo PSOL 50, que esteve unido também à candidata do PCdoB – Partido Comunista do Brasil, Manuela D’Ávila, neste ato público focado no repúdio à escalada da truculência de extrema-direita no país e também na defesa do direito de Lula – que está disparado no 1º lugar nas intenções de voto do eleitorado brasileiro – de concorrer às eleições de Outubro. 

Contra a pulverização das forças de esquerda, os três principais candidatos à la gauche unem forças de maneira solidária para contestar a ascensão dos brucutus que “argumentam” com tiros, militarismo, criminalização do oponente político, apologia do homicídio, justificações espúrias de execuções políticas, além de relinchantes ofensas em caixas de comentários.

Enquanto Lula, Boulos e Manu sentavam à mesa para forjar unidade, o candidato Bolsonazista fazia apologia ao assassinato em seu comício, em que brincou de dar tiros num boneco inflável com a cara de Lula, numa atitude digna de uma criança com retardamento mental e que acaba de descobrir um video-game de carnificina que a deixa fissurada em matar. E o candidato do Tucanato, Geraldo Alckmin, tomou atitude de “Bolsonaro Gourmet” (para emprestar uma expressão de Verlaine Freitas) e, ao invés de repudiar o atentado contra Lula, disse que ele “colheu o que plantou”.

Já o ocupante ilegal da cadeira de Presidente andou dizendo asneiras que mereceriam entrar para o Febeapá de Stanislaw Ponte Preta. O Vampirão Neoliberalista anda relinchando frases que, de tão mentirosas e canalhas, lembram as atitudes daqueles nazistas que dizem que não houve nenhum Holocausto perpetrado pelo III Reich: segundo o usurpador Michel Temer, “o povo se regozijou” com a “centralização absoluta do poder” iniciada em 1º de Abril de 1964, e além disso é “interessante” a tese de que não houve nenhum golpe militar em 1964.

O “regozijo” do povo brasileiro com 21 anos de chumbo grosso, autoritarismo, censura, tortura, desaparecimentos, exílios e inúmeras tiranias só deve existir na mente lunática e delirante deste velho caduco. Quem se regozijou foi a mesma ínfima elite escravocrata e cruel que hoje esmaga nossos ossos, faz retroceder nossos direitos sociais mais básicos e taca combustível farto na fascistização acelerada de um Brasil que decai cada vez mais na barbárie.

A ruptura constitucional de 2016, com a deposição fraudulenta da presidenta eleita, veio desaguar nesse clima de guerra civil e de eleições que serão convulsionadas pela violência e pela fraude (criminalização via lawfare do candidato predileto pelo povo em um cenário onde, Lula fora do páreo, ficamos lançados ao fascismo Bolsonazista ou ao Tucanato Alckmista). E o sr. Temer pode ter certeza, do alto de seu 2% de popularidade, que nós, os 98%, não estamos nos regozijando nem um pouco com seu desgoverno, seu desmonte dos serviços públicos, sua intervenção militar sanguinolenta e suas declarações relinchantes que mentem sobre a nossa História e passam pano nos crimes dos ditadores e seus cúmplices.

Vale lembrar que a infeliz declaração de Temer ocorre exatamente no marco histórico de 50 anos desde que agentes da Ditadura Civil-Militar, instaurada no Brasil pelo golpe de 1º de Abril de 1964, assassinavam brutalmente o estudante secundarista Edson Luis durante uma manifestação estudantil no restaurante do Calabouço (RJ). O cadáver, resgatado pelos manifestantes, foi velado por uma multidão na Cinelândia e serviu como estopim para grandes manifestações cívicas de repúdio ao regime de exceção que explicitaria seu autoritarismo no fim daquele ano, com a promulgação do AI-5 (que duraria entre 1968 e 1978). Relembre aqueles dias sangrentos de Março de 1968 – que infelizmente guardam muitas semelhanças com os dias sangrentos de Março de 2018 – através de canções emblemáticas de Milton “Bituca” Nascimento (“Menino”) e Sérgio Ricardo (“Calabouço”) – ouça no post de A Casa de Vidro em https://wp.me/pNVMz-4p3.

Com uma direita que sai do armário em toda a sua barbárie e crueldade, é preciso que todos nós que temos o mínimo respeito pela nossa combalida e estuprada Democracia Representativa levantemos a voz e unamos as mãos dizendo: “Eleição Sem Lula É (Mais Um) Golpe!” Que o lema Gramsciano – pessimismo da inteligência, otimismo da vontade – possa nos guiar no labirinto da atualidade, em que não sabemos se há luz ou tiroteio no fim do túnel (para lembrar o verso imortal da Legião Urbana em “Mais do Mesmo”).

O tempo dirá se a voz de Lula irá ser calada pela violência homicida – como ocorreu com figuras históricas similares, de Martin Luther King a Gandhi, de Amílcar Cabral a Patrice Lumumba – ou se o guerreiro sobreviverá para fazer valer o lema que estampa seu novo livro, publicado pela editora Boitempo, no calor da hora, neste março de 2018: A Verdade Vencerá (será?).

Em tempos onde o conceito de Pós-Verdade ganha cada vez mais terreno, com a disseminação desenfreada de fake news (tendo no MBL o seu principal epicentro na Internet brasileira) e o surgimento da série de TV que traveste-se de ficção mas é pura obra-de-facção (caso de O Mecanismo, de José Padilha, mentirosa falsificação da Saga Lava Jato, veiculada pela Netflix, repleta de calúnias contra Lula e Dilma, com o diretor de Tropa de Elite agindo como um trollador), não dá pra botar tanta fé assim num triunfo da verdade, da justiça e da paz. Vamos rumo à convulsão social exacerbada e a um cenário onde nada está garantido, muito menos a realização de eleições legítimas, que restabelecessem um mínimo de democracia no cenário pós-golpeachment…

A imprensa corporativa também tem as mãos sujas de sangue na escalada fascista que vivenciamos, como muito bem argumentado em artigo de Sylvia Debossan Moretzsohn em ObjETHOS:

 

O filósofo Vladimir Pinheiro Safatle, em entrevista à Carta Capital, sublinhou o perigo de nossa barbárie entrar na fase da guerra civil: “Os últimos acontecimentos demonstram claramente que entramos em uma fase cada vez mais explícita de guerra civil. Não falo apenas dos tiros em direção aos ônibus do ex-presidente Lula. O assassinato da Marielle Franco até agora não mereceu nenhum tipo de resposta da parte das autoridades. Não há nenhuma informação, mesmo depois da enorme comoção causada pela morte. Espanta ainda que Geraldo Alckmin, governador do maior estado do País, e outros ocupantes de mandatos naturalizem o atentado contra a caravana do Lula. Praticamente Alckmin disse que o ex-presidente fez por merecer, ignorando completamente a diferença entre a violência simbólica da política e a violência real do extermínio.

(…) Toda vez que aconteceu um retorno autoritário, a esquerda sempre foi a última a abandonar a esperança no Estado Democrático de Direito. Ficava esperando por algo que não existia mais, enquanto os reacionários organizavam a saída autoritária. É evidente que o fantasma paira no ar. No ano passado, o general Hamilton Mourão falou explicitamente em um projeto de golpe militar e não foi desmentido pelos superiores. Cria-se uma situação de tensão cada vez maior. A eleição, sabemos, será uma farsa, digna da República Velha, na qual se tiram os candidatos que não se quer que ganhe. O pacto de democracia mínima no Brasil não existe mais. Não por acaso, Michel Temer acaba de falar que não houve golpe em 1964, mas um movimento consagrado pela população. A declaração, inclusive, é falsa do ponto-de-vista histórico. Pesquisas de opinião da época mostravam que João Goulart seria o mais votado nas eleições presidenciais. É mais uma falácia, na tentativa de transformar em escolha popular uma decisão das elites. Essa declaração laudatória do Temer não é nada estranha.” (SAFATLE)

Mas o auge mesmo da barbárie, da crueldade e da estupidez relinchante saiu da boca “evangélica” do deputado Marco Feliciano, que resolveu comentar a execução da vereadora Marielle Franco com um dos comentários mais asquerosos que a crônica política recente registra: “O cérebro do esquerdista é do tamanho de uma ervilha. Há pouco tempo fiquei sabendo que deram um tiro num esquerdista no Rio de Janeiro e levou uma semana pra morrer porque a bala não achava o cérebro.” A postura sectária e fanática aí se manifesta em toda a sua estupidez, em uma atitude que faz troça de uma tragédia e ainda ofende a memória da vítima de maneira que enche de asco qualquer ser humano que conservou o mínimo de capacidade de reflexão e empatia.

Ao lutar contra aqueles seres humanos que nos parecem monstruosos, temos que ter o cuidado de não nos tornarmos monstros nós mesmos. Quem age de modo desumano conosco não nos deve arrastar para o lodaçal da prática de novas desumanidades. Se é verdade que o fascismo deve ser combatido, que não seja com as mesmas táticas torpes, nem os mesmos meios vis: discordo, e reivindico direito à dissidência, de todos aqueles que dizem que com fascista não se dialoga, que um fascista não é educável, que com fascista a única terapia é meter bala – o uso de tais discursos e a apologia de tais táticas só nos aproxima do fascismo que pensávamos combater e nos lança ao lodaçal de uma guerra civil onde o sangue não tem hora pra parar de correr.

Nosso combate não pode ser bala contra bala, truculência contra truculência, sob o risco de nos tornarmos tão brucutus quanto nossos adversários – o que de fato seria a concretização da descida à barbárie total. Temos que ser a sabedoria contra a estupidez, a esperteza contra a tacanhez, a ternura empática contra o sectarismo, a união na diversidade contra os propugnadores de segregação e discriminação. Hoje como outrora, vale o lema da Rosa Rubra, Socialismo ou Barbárie!, e a palavra-de-ordem da Flora Tristán, A União Trabalhadora!, o que significa que teremos que ser aguerridos e resolutos, fraternos e coligados, mas lutando contra as monstruosidades (humanas, demasiado humanas…) sem disseminar ódio, injustiça, intolerância, fanatismo, nem tantos dos outros males que denunciamos no campo adversário. Lutemos contra os monstros humanos sem nos iludir que possamos ser anjos, mas não regredindo ao status de bestas-feras.

Por Eduardo Carli De Moraes
Ao fim de Março de 2018
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O CINEMA COMO ARMA CRÍTICA: Raoul Peck reaviva os legados de Karl Marx e James Baldwin através de filmes cruciais para a decifração do mundo contemporâneo

O CINEMA COMO ARMA CRÍTICARaoul Peck reaviva os legados de Karl Marx e James Baldwin através de filmes cruciais para a decifração do mundo contemporâneo

Despossuídos do mundo, uni-vos! Vocês nada têm a perder senão as algemas da miséria! Tais poderiam ser bons emblemas para descrever o ímpeto que animava O Jovem Karl Marx, alvo de uma competente cinebiografia realizado pelo artista e ativista haitiano Raoul Peck.

Raoul Peck já atuou como Ministro da Cultura do seu país. Realizou recentemente alguns documentários muito relevantes, como I Am Not Your Negro, sobre a vida e obra de James Baldwin, indicado ao Oscar.

Produziu também um pungente retrato documental da situação do Haiti após o terremoto de 2010 em Assistance Mortelle (Assistência Fatal), filme que denuncia os interesses escusos por trás da ajuda humanitária internacional aos haitianos após a imensa catástrofe sísmica que reduziu grande parte da ilha a escombros.

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Em O Jovem Karl Marx, Raoul Peck inclui detalhes da vida emotiva e amorosa de Karl Marx e sua esposa, Jenny Westphalen, com quem viveu por 32 anos. É um curioso casal composto por uma aristocrata prussiana de família poderosa e aquele que estava destinado a ser reconhecido pela posteridade como um dos maiores pensadores revolucionários de todos os tempos (sobre esta relação, há também livro de Françoise Giroude, Jenny Marx ou A Mulher do Diabo (Ed. Record, 1996, 238 pgs).

Contradições análogas são vivenciadas por Friedrich Engels, filho de um rico industrial de Manchester, que se apaixona pela operária Mary Burns, ex-funcionária de Engels Pai e que, em uma cena do filme, é retratada em pleno ímpeto contestatório contra os abusos patronais e as más condições de trabalho. Eis um episódio que evoca lembranças do excelente filme de Martin Ritt, Norma Rae (1979), em que Sally Field interpreta uma audaz trabalhadora que lidera um movimento sindical e confronta a tirania patronal com inesquecível esplendor.

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O Jovem Karl Marx, apesar de não negligenciar as fofocas sentimentais e enroscos amorosos de seus protagonistas, também se interessa pela História e suas lutas entre classes, seus complôs, seu entrechoque de partidos e movimentos, sua querela imortal entre revolucionários e reacionários.

O filme pode gerar acalorados debates sobre a função do intelectual engajado e que se faz liderança vanguardista de um movimento de massas. Raoul Peck interessa-se há tempos pelo retrato dos grandes homens que arregaçam as mangas para trabalhar em prol da Transformação Histórica, os seres humanos mais entusiasmados pela ação  coletiva transformadora, como foi Patrice Lumumba, líder do movimento independentista do Congo, alvo de uma cinebiografia filmada por Peck em 2000.

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Passado entre Paris, Londres e Bruxelas, O Jovem Marx narra um pouco das efervescências da década de 1840. No começo desta, o jovem Marx escrevia reportagens relevantes – sempre ameaçadas de censura e amordaçamento – em jornais como a “Gazeta Renana” e os “Anais Franco-Prussianos”.

O filme inicia em estado de tensão máxima, com a população pobre da Renânia, em uma floresta onde coletavam madeira, sendo subitamente atacada por uma gangue de fardados. É com os despossuídos apanhando horrivelmente nas mãos da polícia prussiana que o filme decide dar início à saga de seu personagem principal.

Sobre as cenas do massacre perpetrado pelos policiais, Peck evoca trechos da reportagem de Marx, de 1842, sobre a lei sobre o roubo da lenha, um trabalho que a Boitempo Editorial acaba de publicar no Brasil sob o título Os Despossuídos (2017, 150 pgs, compre em Livraria A Casa de Vidro).

Despossuídos
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Neste livro, além da reportagem de Marx na íntegra, o público brasileiro tem acesso ao artigo introdutório de Daniel Bensaïd: “Os despossuídos: Marx, os ladrões de madeira e o direito dos pobres” (páginas 11 a 73). Juntos, constituem uma preciosa fonte de informações sobre o período de formação daquele que era, na época, um jovem de 24 anos, recém-formado em filosofia na Universidade de Jena, onde havia defendido uma tese sobre A Diferença Entre a Filosofia da Natureza de Demócrito e Epicuro (saiba mais).

No caso específico do roubo da madeira, o que interessava ao jovem jornalista e crítico político Marx não era criminalizar o povão, tacar pedras sobre a ralé de bandidos (nada mais distante dele do que o “bandido bom é bandido morto!” que ouve-se hoje em dia na boca de tantos caras-pálidas que flertam com o fascismo e o autoritarismo militar. Marx quer compreender quais os processos de pauperização que explicam o desespero de toda uma classe social, obrigada por suas circunstâncias materiais a violar a lei que proteje a propriedade privada, mas clamando um direito superior, um direito à vida, à sobrevivência. Este embate, este conflito sangrento entre o direito à propriedade e o direito à vida está no foco do jovem Marx quando este se debruça sobre o roubo da madeira e suas implicações sócio-políticas.

“A apropriação de madeira alheia”, um delito classificável como “furto”, é assim problematizada por Marx: “Para apropriar-se de madeira verde é preciso separá-la com violência de sua ligação orgânica. Assim como isso representa um atentado evidente contra a árvore, representa um atentado evidente contra o proprietário da árvore. No caso da madeira caída no chão, em contraposição, nada é tirado da propriedade. Tira-se da propriedade o que já foi tirado dela. O ladrão de madeira profere uma sentença autocrática contra a propriedade. O coletor de madeira seca apenas executa uma sentença já proferida pela própria natureza da propriedade, pois o que se possui é a árvore, mas a árvore já não possui aqueles galhos. Desse modo, ajuntar madeira seca do chão e roubar madeira são coisas essencialmente diferentes.” (MARX, apud Bensaïd, pg. 18)

A noção de “proprietário da árvore”, que Marx utiliza sem ironia, descrevendo uma situação concreta no contexto jurídico da época, aponta para a transformação da Natureza em mercadoria, a mercantilização geral da Phýsis – ainda que Marx não aprofunde na questão da hecatombe sócio-ambiental daí decorrente e hoje tão denunciada, globalmente, pelas incipientes correntes ecossocialistas. O capitalismo não só transforma o mundo natural em commodity, ele no processo produz uma montanha insustentável de trash – lixo, poluição e crises cíclicas devastadoras. Sob as relações de produção capitalistas, as árvores são mercadorias, as florestas têm um preço, e o direito sagrado à propriedade privada inclui o direito de alguns de possuírem árvores e florestas, e de mandarem os soldados e os policiais trucidarem todos aqueles que roubarem madeira de seu “legítimo dono”.

Marx, ainda bem próximo de Proudhon, denuncia a propriedade privada de capital e meios de produção como perversidade íniqua, destinada a sofrer com os movimentos contestatórios e revolucionários dos despossuídos. Não há explícitas injustiças sociais que se manifestam nos direitos à propriedade privada quando imensas frações da população da sociedade padecem com a falta do necessário? O banquete de luxos e supérfluos dos ricos não é um acinte diante da multicor e multifacetada penúria dos espoliados? Uma sociedade assim tão desigual quanto a capitalista não acaba sendo a coveira de si mesma, cavando sua própria cova ao oprimir a massa proletária e camponesa com um jugo que muitas vezes beira o insuportável?

Os artigos sobre o furto da madeira são, portanto, de acordo com Bensaïd, “a primeira incursão de Marx nas controvérsias, que naquele momento chegavam ao auge, sobre a definição e os limites do direito de propriedade. Se O que É a Propriedade?, livro de Proudhon de 1940, é uma das contribuições polêmicas mais famosas, Histoire du droit de propriété foncière en Occident, de Édouard Laboulaye, foi coroado pela Academia Francesa em 1838.”

No filme de Raoul Peck, vemos a camaradagem que nasce entre Marx e Engels – este último, que já havia publicado a obra A Situação da Classe Operária na Inglaterra que tanto impressionou o jovem Marx. O filme mostra os debates intensos que envolvem os epígonos do marxismo com figuras políticas cruciais da época, como o anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), famoso pela tese a propriedade é um roubo, autor criticado pela dupla Marx e Engels na obra “Miséria da Filosofia”.

Acossado pela censura, pelo exílio e pela repressão, o jovem Marx é obrigado a ser uma figura um tanto nômade, mas que não deixa a um só instante de estudar com esmero as obras com as quais terá tão fecundo debate polêmico: os grandes economistas ingleses (Ricardo, Adam Smith, Bentham etc.) e os grandes filósofos da época (como Ludwig Feuerbach, como Max Stirner, como os “hegelianos de esquerda”).

Sem excesso de intelectualismo, a obra de Raoul Peck abre janelas para que o público possa compreender as circunstâncias históricas e o contexto biográfico em que nasceram a Liga dos Justos, depois rebatizada como Liga Comunista. Revela um Marx combativo, amante de um debate fervoroso (como ocorre em seu conflito com Weitling), mas também uma figura que às vezes soa como bon vivant, apesar dos perrengues financeiros que passe.

Já Engels, descrito mais como um dândi, uma ovelha negra de sua família de industriais, um riquinho desgarrado de sua classe de origem, é relegado pelo filme a um certo segundo plano, mas tem sua posição de “mecenas” de Marx frisada, ainda que sua própria vida e obra não seja o foco do filme.

Muito além do interesse que possui para os estudiosos do Marxismo nas múltiplas áreas em que ele marcou a jornada intelectual e emancipatória da humanidade – Filosofia, Economia, História, Direito, Ciência Política etc. -, O Jovem Marx de Raoul Peck serve também como uma espécie de Prolegômenos Para As Revoluções de 1848.

Assistindo-o, podemos ver emergir no palco da História aquele “espectro que assombra a Europa” e que todos os poderes tradicionais, em uma Santa Aliança, unem-se para conjurar: o Comunismo. Estamos diante de Marx e Engels enquanto pensadores-agentes que se colocam no palco da História não apenas como intérpretes do mundo, mas como seus transformadores.

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Aos 100 anos da Revolução Bolchevique, é mais do que oportuna a chegada deste belo filme aos cinemas, reavivando nossa compreensão sobre uma das primeiras encarnações do Comunismo histórico, nos turbulentos anos de 1848, marco-zero também deste documento histórico crucial, dotado ainda de intenso poder de contágio e de imorredoura atualidade, que é o Manifesto Comunista, considerado por muitos como o segundo livro mais lido da História da Humanidade, só perdendo para a Bíblia.

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Mas, como Marx brinca em uma tirinha de Charb, publicada em Marx: Manual de Instruções de Bensaïd, ao menos o Velho Karl poderia virar-se para Jesus de Nazaré, com sua contumaz ironia, e dizer: “Tá, mas meu livro fui eu que escrevi!”

Uma sessão dupla com as duas obras mais recentes de Raoul Peck – O Jovem Marx e Não Sou Seu Negro – certamente revelará um dos cineastas mais relevantes hoje em atividade, capaz de contribuições imensas à formação de nosso senso crítico e de nossa capacidade de mobilização coletiva para a transformação social.

Reavivando os legados de Karl Marx e James Baldwin, Raoul Peck está recolocando no foco de nossas atenções, na ágora global, duas figuras cruciais para a decifração do mundo contemporâneo e para as urgentes transformações sociais que não podem vir senão das insurreições dos despossuídos contra as milenares opressões e espoliações de que prosseguem alvos. O Jovem Marx vem para fazer companhia a Suffragette (de Sarah Gavron) e Ágora (de Alejandro Amenábar) e  como uma das mais interessantes incursões cinematográficas recentes no fecundo terreno da biografia histórica de grandes transformadores sociais e mentes críticas.

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Outubro de 2017

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VEJA TAMBÉM:

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“I AM NOT YOUR NEGRO”

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“ASSISTANCE MORTELLE”

Um filme de Raoul Peck sobre o Haiti após o terremoto de 2010. Sinopse IMDB: “Haitian born filmmaker Raoul Peck takes us on a 2-year journey inside the challenging, contradictory and colossal rebuilding efforts in post-earthquake Haiti.” Saiba mais em Arte.tv.



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MARXISMO SEM DOGMATISMO – Explorações do pensamento de Leandro Konder (1936-2014)

MARXISMO SEM DOGMATISMO: EXPLORAÇÕES DA OBRA DE LEANDRO KONDER
por Eduardo Carli de Moraes

Estou a cada dia mais convicto de que é plenamente possível abordar o marxismo de maneira fecunda, sem qualquer dogmatismo, não fazendo da doutrina um sinônimo de catecismo ou uma verdade absoluta: ao invés de ser a proclamação de verdades indiscutíveis, o legado marxista pode nos convidar ao salutar exercício crítico permanente, na dialética entre a denúncia e o anúncio de que fala Paulo Freire.

Visto deste viés, o marxismo é uma ferramenta de muito valor para uma autêntica “leitura do mundo”, atenta à totalidade e capaz de enxergar os links entre o econômico, o político, o cultural, de modo que, como o filósofo francês Jacques Derrida, será sempre “um erro não ler Marx” – pois então perderíamos a chance de ler corretamente a realidade, que sua obra desvela e revela em toda a sua complexidade.

O real, porém, não está aí apenas para ser “lido”, mas sim para ser refeito, transformado, revolucionado! É o que diz Marx em uma das mais célebres das Teses Contra Feuerbach: não devemos jamais nos limitar a ler e interpretar o mundo, já que isto é apenas a pré-condição para a tarefa da transformação emancipatória do mesmo. 

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Na obra de um pensador como Leandro Konder (1936 – 2014), tenho descoberto um excelente exemplo na intelectualidade brasileira de um marxismo exercido com graça e brilhantismo, sem apego a dogmas, despreocupado com os juízes da ortodoxia que, com seus “marxímetros” em mãos, pretendem bater o martelo sobre as manifestações autênticas ou deturpadas daqueles que seguem as pegadas de Marx. Os artigos breves reunidos no livro O marxismo na batalha das ideias (Ed. Expressão Popular) revelam um autor muito culto, de texto sagaz e cheio de vida, exercitando uma escrita que jamais esquece que a crítica realmente frutífera não pode jamais esquecer do processo permanente de auto-crítica.

O “espírito auto-crítico” que Konder reivindica está presente em algumas das figuras mais importantes que integram o vasto campo do pensamento marxista – como Engels, Gramsci, W. Benjamin, Paulo Freire, dentre tantos outros. O próprio Marx jamais foi um proclamador de peremptórios dogmas a serem aceitos por leitores-cordeiros ou por ativistas-obedientes, e chegou mesmo a declarar que, “se tivesse de adotar um lema, seria a frase latina que recomendava duvidar de tudo: de omnia dubitandum.” (KONDER, op cit, p. 57)

Só através do autoquestionamento radical é que podemos superar tudo o que há de conservadorismo, preconceito de classe, estreiteza de visão e apego identitário irracional em nossas próprias interioridades. Autocrítica, no entanto, é diferente de autodepreciação: Konder não está jamais sugerindo que o sujeito se torture com o cilício, que se recuse a reconhecer seu devido valor, numa mortificação-de-si bem ao gosto do ideal ascético tão fustigado por Nietzsche. Poderíamos até mesmo aproveitar o modelo de Aristóteles na Ética a Nicômaco e dizer que a virtude, no que diz respeito ao amor-próprio, não está nem na arrogância narcísica (vício por excesso) nem na auto-humilhação de quem só sabe fustigar seu próprio self (vício por escassez), mas sim na lúcida apreciação de si e no apreço justo do próprio eu:

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“O apreço por si mesmo é importante para todo ser humano: se não gostar de si mesma, nenhuma pessoa conseguirá gostar saudavelmente de outra; se não acreditar de fato em suas convicções, não conseguirá comunicá-las a outras pessoas, não conseguirá intervir no mundo, contribuindo para melhorá-lo. A partir de um determinado nível, contudo, a auto-estima fica sobrecarregada de narcisismo e acarreta uma atrofia conservadora da autocrítica.

Podemos então deixar de lado as condenações moralistas – inócuas – do narcisismo. Elas são antigas e apresentam escasso interesse teórico. O problema que merece a nossa preocupação é outro: é aquele que se manifesta no efeito conservador da autocomplacência, que coagula o movimento auto-renovador da consciência, enrijecendo-lhe o ímpeto criativo e a abertura para o novo. (…) É provável que a estrutura da mente humana seja muito mais conservadora do que costumamos reconhecer. Renovar-se, reformular suas idéias, modificar seus valores, é operação dolorosa e arriscada.

(…) A verdadeira autocrítica exige uma espécie de “complementação negativa” para o curriculum vitae: depois de apregoar seus êxitos e seus méritos, a pessoa enfrenta o desafio de reconhecer suas frustrações, suas deficiências, seus fracassos, suas fraquezas. Talvez possamos chamar essa reconstituição dolorosa e necessária de curriculum mortis. Os indivíduos mais gravemente contaminados pela ideologia “triunfalista” que se manifesta no curriculum vitae carecem de sensibilidade, de madura lucidez e de coragem intelectual para a elaboração desse curriculum mortis.

Querendo ou não, cada um de nós caminha inexoravelmente para a morte (e o prestidigitador não escapa a esse destino). Reconhecendo francamente nossos fracassos, elaborando nosso curriculum mortis, assumindo autocriticamente os momentos “noturnos” em que vamos morrendo aos poucos, aumentamos as nossas possibilidades de nos conhecermos e de nos aperfeiçoarmos espiritualmente; e, de certo modo, esse talvez seja o único caminho possível de preparação para o fim pessoal inevitável. Quem insiste em se iludir, na realidade, está optando por enfrentar despreparado todas as dores que lhe vão desabar em cima, na hora da desilusão.” (KONDER, 2009, op cit, p-58-59)

Satirizando a ostentação presente em muitos dos atuais currículos profissionaisKonder escreve, em seu saboroso artigo de 1983 “O Curriculum Mortis e a Reabilitação da Autocrítica”

“Para obter um emprego, para conseguir uma promoção, fazer carreira, o sujeito precisa exibir suas qualidades, ostentar seus êxitos. Já existem até manuais que ensinam o cidadão a preparar seu curriculum vitae. A trajetória ascensional de cada um depende dessa peça de literatura, que lembra as antigas epopeias, porque nelas o protagonista – o herói – só enfrenta as dificuldades para poder acumular vitórias. Os obstáculos servem apenas para realçar seu valor. O passado é reconstituído a partir de uma ótica descaradamente “triunfalista”.

Evidentemente, trata-se de uma imagem que não corresponde à realidade. Em sua imensa maioria os seres humanos não são campeões invictos, não são heróis ou semideuses. Se nos examinarmos com suficiente rigor e bastante franqueza, não poderemos deixar de constatar que somos todos marcados por graves derrotas e amargas frustrações. Vivemos uma vida precária e finita, nossas forças são limitadas, o medo e a insegurança nos frequentam; e nada disso aparece no curriculum vitae de cada um de nós.

O curriculum vitae é a ponta do iceberg: ele é o elemento mais ostensivo de uma ideologia que nos envolve e nos educa nos princípios do mercado capitalista; é a expressão de uma ideologia que inculca nas nossas cabeças aquela “mentalidade de cavalo de corrida” a que se refere a escritora Doris Lessing (1919 – 2013). Não devemos confessar o elevado coeficiente de fracasso de nossas existências, porque devemos ser “competitivos”. Camões, o genial Camões, autor de tantos poemas líricos maravilhosos, não poderia colocar em seu curriculum vitae o verso famoso: “Errei todo o discurso dos meus anos”.

A ideologia que se manifesta no curriculum vitae, afinal, aumenta as nossas tensões internas, porque nos dificulta a lucidez e a coragem de assumir o que efetivamente somos; nos obriga a vestir o uniforme do “super-homem”, a afetar superioridades artificiais. Além disso, ela incita à mentira, gera hipocrisia. Por sua monstruosa unilateralidade, a imagem do vitorioso, que ela nos obriga exibir, empobrece o nosso conhecimento de nós mesmos, prejudica gravemente a sinceridade da nossa auto-análise.” (KONDER, 2009, p. 53-54, Leia o artigo na íntegra)

crítica é uma arma que pode e deve incidir tanto sobre o mundo objetivo quanto sobre o âmbito das subjetividades, o que abre um vasto horizonte interdisciplinar: é possível pensar nas interlocuções e interconexões entre psicologia, sociologia, história, filosofia, antropologia, economia, de modo a revelar, no marxismo depurado de dogmatismo, um valioso aliado para o esforço humano rumo à verdade factual, esta complexa e multifacetada entidade que é o télos da busca de qualquer intelectual autêntico. Inspirado por Walter Benjamin, Konder dirá também que não podemos de modo algum depreciar a importância do passado: o que passou continua sendo um campo-de-batalha!

Walter Benjamin“Benjamin tem uma visão agudamente crítica daquilo que a história da  luta de classes ‘cristalizou’ na tradição: o legado que nós recebemos, segundo ele, está profundamente marcado por ‘expurgos’ promovidos pelos opressores, por exigências reprimidas, pelas esperanças dos oprimidos que foram sufocadas. À consciência revolucionária cabe reexaminar o passado, resgatando nele o que foi mutilado; cabe-lhe, como diz Jeanne Marie Gagnebin – ‘arrebatar ao esquecimento a história dos vencidos’. Além de recuperar a memória do que aconteceu, a dialética revolucionária, nas palavras do próprio Benjamin, ‘provoca a explosão da carga de dinamite que ficou depositada no passado.'” (KONDER, op cit, p. 74)

Em outro artigo brilhante, O Novo Conteúdo Político do Direito ao Prazer, Leandro Konder demonstra uma capacidade incrível de ir ao passado distante – por exemplo, à obra dos filósofos materialistas antigos Demócrito e Epicuro, a quem Marx dedicou sua tese de doutorado – para discutir candentes problemas do presente.

Partindo do senso comum, que atribuiu à palavra “epicurismo” uma carga negativa, como se “epicurista” fosse sinônimo de “devasso”, “libertino”, “libidinoso”, alguém que despreza todo tipo de freio moral ou escrúpulo ético em sua busca desenfreada por orgias e bebedeiras, Konder mostra que esta (má) representação é intriga da oposição e difamação. Como Konder aponta com razão:

“Tudo indica que Epicuro foi apenas uma vítima das calúnias de seus adversários. Documentos dignos de fé comprovam que ele era um cidadão sóbrio e recomendava aos discípulos que, antes de procurar satisfazer um desejo, verificassem se valia a pena, quer dizer, se os aborrecimentos não seriam, afinal, maiores do que as vantagens. Segundo Epicuro, os prazeres da inteligência eram, sem dúvida, preferíveis aos prazeres proporcionados pelos sentidos, justamente porque proporcionavam aborrecimentos menores. Epicuro era materialista; por isso, causava irritação entre os filósofos estoicos, seus adversários, inimigos do materialismo. Alguns estoicos mais equilibrados – como o filósofo e dramaturgo Sêneca – reconheciam que Epicuro era pessoalmente um sujeito virtuoso.” (KONDER, op cit, p. 137)

O que Konder revela em seu artigo são os nexos entre esta polêmica antiga – que opôs o ethos materialista-hedonista às doutrinas bem mais ascéticas dos estóicos e dos primeiros cristãos – com uma polêmica bastante atual e da qual os marxistas não podem se esquivar: vivemos hoje em um mundo onde existe, escreve Konder, uma “colossal indústria dos prazeres”, “capaz de alcançar um amplíssimo público consumidor”, e que marca forte presença nas sociedades urbanas e industrializadas do Ocidente atual. “A busca do prazer é habilmente explorada por poderosos mecanismos comerciais. Na corrida ao lucro, se difunde por toda a sociedade um espírito imediatista e hipercompetitivo: todos são incitados a extrair, no menor tempo possível e com o mínimo esforço, o máximo proveito de todas as situações.” (p. 139)

Teria sido o hedonismo completamente cooptado pelo capitalismo globalizado e pela hegemonia das “sociedades de consumo”? Ou ainda é possível fundamentar no prazer uma política radicalmente libertária? Se, por um lado, vivemos em um meio social saturado de iscas para o consumismo, em outdoors e anúncios de TV, por outro será que é legítimo desprezar o “direito ao prazer” como pauta reacionária e reivindicação exclusivamente capitalista-neoliberal? Não seria possível reinventar o hedonismo enquanto ética para desatrelá-lo do consumismo irresponsável e perdulário, recuperando o potencial libertário da obra de autores como Wilhelm Reich e Herbert Marcuse?

“De fato, ao longo da história, até muito recentemente, as teorias de legitimação filosófica do prazer sempre foram aproveitadas pelos setores privilegiados da sociedade, pelas minorias que dispunham dos meios necessários para levar uma vida de prazeres. Na Ideologia Alemã, há uma passagem na qual Marx – em 1846 – escreveu: ‘A filosofia do prazer sempre foi apenas a linguagem espiritual de determinados círculos que, dentro da sociedade, dispunham de condições privilegiadas para a obtenção do prazer.’ O hedonismo, portanto, não passava – a seu ver – de uma ideologia oportunista.” (KONDER, op cit, p. 140)

No entanto, seria uma distorção fazer de Marx uma espécie de rigoroso pregador do ascetismo, cheio de condenações contra aqueles que buscam o prazer: tanto o imenso apreço que Marx possuía por Epicuro quanto o seu ideal de uma sociedade que contribuísse para a formação “onilateral” do ser humano apontam para uma filosofia que não despreza o ingrediente do gozo no complexo emaranhado das condições para a emancipação humana.

Assim como o epicurismo antigo sofreu com a distorção imposta pelas difamações da oposição, é possível que também o marxismo tenha adquirido, para muitos, uma “configuração ascética” que não faz justiça à complexidade de uma visão-de-mundo que procura sim emancipar o prazer, porém realizando uma severa crítica do entrelaçamento sórdido, atualmente não só vigente como agudamente hegemônico, entre o hedonismo e a doutrina capitalista do consumismo individualista competitivista.

“O mercado fabrica egoístas, que se revelam com frequência na cama e na mesa. A sensibilidade deseducada, deformada, passa a atribuir uma importância menor aos prazeres plenamente partilhados e uma importância maior aos prazeres obtidos na contenda com os outros, eventualmente na negação dos prazeres alheios. As condições de competição extremada em que vivemos geram muita insegurança e ansiedade em nossas almas, enfraquecem nossa autoconfiança. O dinheiro relativiza corruptoramente todos os valores.

(…) O prazer é uma dimensão importantíssima da vida; mas a vida não pode ser reduzida a uma só das suas dimensões. Em suas formas superiores, o prazer depende de outras dimensões da realidade humana, como o conhecimento e o amor. O escritor francês Marcel Proust dá o exemplo do homem apaixonado pelo canto dos pássaros: enquanto nós, na floresta, só conseguimos distinguir uns poucos sons, seu ouvido educado se deleita com uma imensa variedade de gorjeios. 

Epicuro já sabia que o prazer é um mundo vastíssimo e bastante diferenciado internamente: há prazeres inteligentes e prazeres burros. Marx, que era um grande admirador de Epicuro, poderia ter retomado essa observação lúcida e materialista; poderia tê-la desenvolvido, à luz da sua concepção do homem, reconhecendo que há prazeres que nos animalizam e prazeres que nos humanizam. ” (KONDER, p. 141)

Decerto que o tema do prazer não é o foco de Marx, tão engajado ele está na tarefa de emancipar os homens da opressão e da exploração que sofrem no mundo do trabalho. Mas não é evidente que o movimento comunista tendia à concretização de uma sociedade onde a abolição da divisão classista conduziria a uma ampliação das possibilidades de gozo na existência já que nos libertaria do trabalho mecânico, especializado, repetitivo?

Marx, com certeza, não era um utopista ingênuo e despejava sarcasmo contra os romantismos de certos socialistas utópicos: “O trabalho, disse Marx, não pode se converter em brincadeira como quer Fourier.” Konder explica: “há no trabalho uma dimensão de disciplina, imposta pelo interesse coletivo da produção, pelas exigências técnicas da produção,  uma dimensão que não se harmoniza e nunca se harmonizará inteiramente com a gratuidade dos movimentos lúdicos individuais. Há algo no trabalho que manifesta uma insuprimível dureza na vida.” (p. 142)

Porém, é óbvio que Marx sempre lutou para “humanizar cada vez mais as condições de trabalho”, inclusive suprimindo a injustiça que consiste na cisão entre uma classe de proprietários de meios de produção, com privilégio do gozo e da preguiça, e uma classe de trabalhadores explorados, espoliados dos frutos de seu labor e obrigados a um cotidiano cinzento onde quase não há oportunidade, no “tempo regulamentar”, para as ações daquilo que Huizinga chama de homo ludens. 

“Por isso, é sobre o encaminhamento de soluções para os problemas do trabalho que precisa se apoiar a política que corresponde aos anseios mais profundos da massa dos trabalhadores, e por isso não tem sentido procurar fundar uma política – isto é, uma ação coletiva, conjugada, visando a efeitos imediatos e efeitos duradouros – sobre o desejo, tal como propõem alguns neoanarquistas contemporâneos. Marx não ignora, contudo, que não basta aos homens desenvolverem suas forças produtivas para se libertarem. No 3º volume d’O Capital, Marx explicou com muita clareza: ‘O reino da liberdade só começa, na realidade, onde deixa de existir o trabalho imposto pela carência, pela necessidade exterior. (…) A redução da jornada de trabalho é a condição fundamental do reino da liberdade.'” (KONDER, p. 143)

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O reino da liberdade, que o movimento comunista procura instaurar, revoluciona o mundo do trabalho também para superar a gritante injustiça vigente também no que tange aos prazeres: na sociedade que terá abolido a divisão classista do trabalho, com a cisão entre, de um lado, a massa proletária, oprimida e fatigada pelo excesso de labor e pelas péssimas condições de vida, e, de outro lado, a minoria de capitalistas vastamente ociosos e que contam cédulas e acumulam capital de “papos pro ar”, emergeria um novo contexto social onde é legítimo esperar uma espécie de “democratização do gozo”.

Konder defende um marxismo que possa ser libertário também no âmbito ético, honrando suas fontes epicuristas antigas, e critica “os marxistas que indulgem em proclamações moralistas e intolerantes” e “chegam a ‘demonizar’ a ‘decadência’ e a aprovar medidas de repressão contra os que manifestam ‘desvios’ (?) de comportamento sexual. Com isso, aplicam em ‘cruzadas’ contra os ‘libertinos’ as energias que deveriam ser empregadas na luta contra os adversários realmente poderosos do processo revolucionário.” (KONDER, p. 142)

A denúncia de uma sociedade que impõe a desumanização e a opressão aos trabalhadores une-se, em Marx, ao anúncio de um outro mundo possível, onde todos os seres humanos possam desenvolver suas potencialidades de modo onilateral, ao invés de serem reduzidos a robôs que realizam tarefas mecânicas e repetitivas. Longe de ser um pregador do ascetismo auto-mortificante, Marx é fiel ao epicurismo que lhe inspirou desde a juventude, porém conecta o hedonismo muito mais a uma ética da partilha e da colaboração do que a uma lógica da competição e da contenda.

A auto-crítica, tão louvada por Konder, deve incidir também sobre nossas tendências, condicionadas pelas ideologias hegemônicas, de caçar o prazer no consumo e nos triunfos dúbios das vitórias individuais (“eu contra todos”).

Assim podemos nos purgar de um hedonismo narcísico e egóico, abraçando um hedonismo solidário, transsubjetivo e autenticamente epicúreo, aquele que tem a sabedoria e a lucidez de preferir os prazeres de partilha, os gozos do conhecimento e os êxtases do amor ao invés de todas as sensaborias vendáveis e quinquilharias estúpidas que se encontram em promoção pelos supermercados de um capitalismo moribundo.

Ousemos, pois, construir uma realidade social, política e econômica que tenha por meta uma felicidade comum e partilhada, um direito ao prazer que não seja privilégio mas direito a todos facultado. Deste modo, um marxismo hedonista libertário é plenamente pensável e possível como antídoto à “colossal indústria de prazeres” que hoje nos deseja como súditos de seus engodos industrializados.

Ousemos gozar os prazeres da solidariedade, os êxtases do engajamento em um destino comum, as delícia dos intercâmbios (intelectuais, artísticos, afetivos, sexuais, festivos…), ao invés de investir neste falido modelo do capitalismo vigente que, como um falso profeta que prega nas propagandas, indica-nos apenas o caminho do abismo da solidão. Para além da massificação da lógica dos indivíduos atomizados e auto-interessados, em competição feroz e ostentação vã, afirmemos uma filosofia, perfeitamente conjugável com o marxismo e o epicurismo, que atente ao fato de que feliz é quem partilha e não quem possui.

“Happiness is only real when shared.”
(McCandless)

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SAIBA MAIS:

BIOGRAFIA (via Boitempo): 

Leandro Konder nasceu em 1936, em Petrópolis (RJ), filho de Valério Konder, médico sanitarista e líder comunista. Formado em Direito, Leandro exilou-se em 1972, após ser preso e torturado pelo regime militar, e morou na Alemanha e depois na França até seu regresso ao Brasil em 1978. Doutorou-se em Filosofia em 1987 no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Foi professor do Departamento de Educação da PUC-RJ e do Departamento de História da UFF. Tem vasta produção como conferencista, articulista de jornais, ensaísta e ficcionista. Em 2002 foi eleito o Intelectual do Ano pelo Fórum do Rio de Janeiro, da UERJ. Um dos maiores estudiosos do marxismo no país, coordenou, em conjunto com , a coleção Marxismo e Literatura, da Boitempo. Konder sofria de Mal de Parkinson e faleceu em sua casa na tarde do dia 12 de novembro de 2014.
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VÍDEOS:

A NECESSIDADE DA FILOSOFIA

Parte 2Parte 3Parte Final

O FILÓSOFO QUE SONHA (UniRio)

A ATUALIDADE DE MARX

ALGUNS LIVROS DO AUTOR EM CATÁLOGO:

ED. BOITEMPO:

9788575590942

EDUCAÇÃO NÃO É MERCADORIA! – O brado das manifestações e ocupações contra a “malvadez neoliberal” (Freire, Mészáros, Savater)

EDUCAÇÃO NÃO É MERCADORIA!

Eduardo Carli de Moraes (Fev/2016)

Nem tudo está à venda! Eis um dos brados que os mercantilizadores-de-tudo estão sendo obrigados a ouvir nas manifestações e ocupações atuais, em várias frentes (do Occupy Wall Street aos Indignados espanhóis, da guerrilha síria em Rojava aos secundaristas-em-luta e passe-livristas em marcha no Brasil). As mobilizações em prol da educação pública também revelam outra das trincheiras de batalha contra os poderes que, como o Rei Midas da mitologia grega, querem transformar tudo o que tocam em ouro, instituindo o império universal daquele que Davi Kopenawa batizou de “o povo da mercadoria” (@ A Queda Do Céu). Vivemos sob o reinado daqueles que, como Oscar Wilde dizia, “sabem o preço de tudo mas não sabem o valor de nada.”

Um de nossos maiores pensadores da educação, Paulo Freire, sempre deixou muito explícita sua recusa daquilo que apelidou de “malvadez neoliberal”. Basta atentar para o que ele diz Pedagogia da Autonomia, onde Freire não deixa margem a dúvidas quanto a seu engajamento e sua “crítica permanentemente presente” à “malvadez neoliberal, ao cinismo de sua ideologia fatalista e a sua recusa inflexível ao sonho e à utopia”:

Paulo FreireEstamos de tal maneira submetidos ao comando da malvadez da ética do mercado que me parece pouco tudo o que façamos na defesa e na prática da ética universal do ser humano. (…) Não é possível ao sujeito ético viver sem estar permanentemente exposto à transgressão da ética. Uma de nossas brigas na história, por isso mesmo, é exatamente esta: fazer tudo o que possamos em favor da eticidade, sem cair no moralismo hipócrita, ao gosto reconhecidamente farisaico. (…) Quando falo da ética universal do ser humano estou falando da ética enquanto marca da natureza humana, enquanto algo absolutamente indispensável à convivência humana.”  (PAULO FREIRE, Primeiras Palavras, p. 16-19) 

Ainda que sua voz soe serena e amorosa em vários trechos de sua obra, Freire confessa que é um “tom de raiva, legítima raiva, que envolve o meu discurso quando me refiro às injustiças a que são submetidos os esfarrapados do mundo. Daí o meu nenhum interesse de assumir um ar de observador imparcial… Quem observa o faz de um certo ponto de vista, o que não situa o observador em erro. O erro na verdade não é ter um certo ponto de vista, mas absolutizá-lo… O meu ponto de vista é o dos ‘condenados da Terra’, o dos excluídos.” (op cit, p. 16)

Freire alia-se a uma decifração-do-real proposta, por exemplo, por Franz Fanon n’Os Condenados da Terraonde a condição existencial e psico-física da legião de oprimidos é o foco de atenção e de compreensão. Contra a absolutização da chamada “ética do mercado”, posta pela ideologia dominante como irremediável e insuperável, Paulo Freire reclama não só a possibilidade, mas a urgente necessidade de instauração coletiva de uma outra ética, ou melhor, de uma eticidade, espraiada pelo cotidiano, que faça frente à hegemonia do capitalismo neoliberal globalizado, no qual a ética é cotidianamente transgredida pois vista apenas como obstáculo no caminho dos lucros (como prova a imensa irresponsabilidade empresarial, o grotesco desrespeito aos direitos humanos e às práticas ecologicamente sustentáveis, envolvidos  na pior tragédia socioambiental da história do Brasil, por cortesia da privatizada Vale e sua subsidiária Samarco, amargas assassinas do Rio Doce).

Vivemos em meio à efervescência das lutas contra o avanço do capitalismo neoliberalizante na educação, com a privatização crescente das escolas e a restrição do educador ao papel limitado (e limitador) daquele que treina seus clientes para que adquiram competências técnicas valorizadas pelo mercado de trabalho capitalista. Uma pedagogia que é convidada a ser serviçal do capital, colocando ainda mais lenha na fogueira de um sistema grotescamente excludente, opressor e desumanizante. Segundo recente pesquisa da Oxfam, a desigualdade social e a concentração de riqueza em poucas mãos são males que não cessa de aumentar: os 62 indivíduos mais ricos do planeta já detêm mais capital que metade da humanidade (3,6 bilhões de pessoas). Meritocracia ou plutocracia?

 

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Camila Vallejo

Uma encarniçada batalha opõe o capitalismo neoliberal – novo Midas que quer privatizar tudo o que toca e pretende gerir e$cola$ como se fossem empre$a$, instituindo a epidemia de universidades que vendem diplomas na base do pagou, passou – às vertentes contra-hegemônicas e de resistência, que demandam a universalização do ensino gratuito e sem fins lucrativos.

Alguns dos capítulos mais interessantes desta História-em-curso foram escritos no continente americano dos últimos anos:

Se há um brado que resume todas essas lutas, ei-lo numa fórmula: educação não é mercadoria!

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Realizou-se em Porto Alegre (RS), julho de 2004, o III Fórum Mundial da Educação, cuja conferência de abertura ficou a cargo do professor István Mészáros, que proferiu ali palavras preciosas para nos guiar rumo a uma Educação Para Além Do Capital (Google Livros). Segundo Ivana Jinkings, fundadora da Editora Boitempo, Mészáros – pensador húngaro nascido em 1930 em Budapeste e que foi assistente de Georg Lúkacs –  “afirma que a educação não é um negócio, é criação; que a educação não deve qualificar para o mercado, mas para a vida.” [1]

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 “Mészáros ensina que pensar a sociedade tendo como parâmetro o ser humano exige a superação da lógica desumanizadora do capital, que tem no individualismo, no lucro e na competição seus fundamentos. Que educar é – citando Gramsci – colocar fim à separação entre Homo faber Homo sapiensé resgatar o sentido estruturante da educação e de sua relação com o trabalho, as suas possibilidades criativas e emancipatórias. E recorda que transformar essas ideias e princípios em práticas concretas é uma tarefa a exigir ações que vão muito além dos espaços das salas de aula, dos gabinetes e dos fóruns acadêmicos. Que a educação não pode ser encerrada no terreno estrito da pedagogia, mas tem de sair às ruas, para os espaços públicos, e se abrir para o mundo.

Ele alerta, porém, que o simples acesso à escola é condição necessária mas não suficiente para tirar das sombras do esquecimento social milhões de pessoas cuja existência só é reconhecida nos quadros estatísticos. (…) O que está em jogo não é apenas a modificação política dos processos educacionais – que praticam e agravam o apartheid social -, mas a reprodução da estrutura de valores que contribui para perpetuar uma concepção de mundo baseada a sociedade mercantil. (…) Pequeno em tamanho, A Educação Para Além do Capital é um livro imenso em esperança e determinação. Nele, o filósofo marxista condena as mentalidades fatalistas que se conformam com a ideia de que não existe alternativa à globalização capitalista.” IVANA JINKINGS (Leia também: Um caminho trilhado pela esquerda, Revista Saraiva) 

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A fotografia que ilustra a capa do livro é de Sebastião Salgado e retrata uma menina do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) que faz os deveres escolares e toma conta dos irmãos enquanto a mãe trabalha.

No reino do capital, tudo é mercadoria, e a educação não escapa a esta infecção: “daí a crise do sistema público de ensino, pressionado pelas demandas do capital e pelo esmagamento dos cortes de recursos dos orçamentos públicos”, lembra Emir Sader. “Talvez nada exemplifique melhor o universo instaurado pelo neoliberalismo, em que tudo se vende, tudo se compra, do que a mercantilização da educação. Uma sociedade que impede a emancipação só pode transformar os espaços educacionais em shopping centers, funcionais à sua lógica do consumo e do lucro.” EMIR SADER

Que o pensamento de Marx e Engels inclui uma dimensão educativa e uma preocupação pedagógica é algo revelado não só por Mészáros, mas também pela “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire ou por estudos como Marx e a Pedagogia Moderna de Mario Manacorda. Certos trechos conhecidíssimos do “cânone” materialista-dialético exploram diretamente o tema, por exemplo:

“a teoria materialista de que os homens são produto das circunstâncias e da educação e de que, portanto, homens modificados são produto de circunstâncias diferentes e de educação modificada, esquece que as circunstâncias são modificadas precisamente pelos homens e que o próprio educador precisa ser educado.” KARL MARX e FRIEDRICH ENGELS 

Aos que pregam que o capitalismo não merece ser extinto e revolucionado, mas só reformado e aprimorado, Mészáros afirma convicto que o capital é “irreformável” e “incorrigível” (p. 27) e que necessitamos mesmo é de uma “radical mudança estrutural” (p. 25). “O sentido da mudança educacional radical não pode ser senão o rasgar da camisa de força da lógica incorrigível do sistema: perseguir de modo planejado e consistente uma estratégia de rompimento do controle exercido pelo capital…” (p. 35).

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István Mészáros

“A educação institucionalizada, especialmente nos últimos 150 anos, serviu – no seu todo – ao propósito de não só fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário à máquina produtiva em expansão do sistema do capital, como também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes… A própria História teve de ser totalmente adulterada, e de fato frequente e grosseiramente falsificada para esse propósito.” (MÉSZÁROS, p. 36)

É bem verdade que, com sua distopia 1984, George Orwell pretendeu denunciar o totalitarismo, e não oferecer um manual de instruções. Porém, a realidade mostra o quanto o romance orwelliano é representação fidedigna dos mecanismos de funcionamento da ideologia, esta arte de inculcar, de condicionar, de fazer acreditar no falso, tão essencial à perpetuação do capitalismo e seu séquito de desigualdades e exclusões.

Apesar de ciente da força dos aparelhos ideológicos, inclusive os (des)educativos e (de)formadores que estão a serviço dos interesses das classes proprietárias, Mézsáros não é pessimista a ponto de propor que seja realizável a distopia de 1984, ou seja, uma sociedade totalitária, gerida por um Grande Irmão ou um führer, reinando inconteste sobre um rebanho de conformistas e submissos, que aceitaram fazer da ideologia a eles “pregada” – papagueada em púlpitos e jornais, em propagandas e teletelas – sua carne e coração.

O pesadelo – ufa! – não pode se realizar por inteiro! Por mais que tenebrosos poderes insistam em transformar salas-de-aula em celas-de-aula, escolas em cadeias, ensino em doutrinação, sabedoria em ideologia, há algo de incontrolável e de anárquico na ânsia de saber do ser humano e que romperá sempre as correntes limitantes que instituições tentem impor.

1984

“O pesadelo em 1984, de Orwell, não é realizável precisamente porque a esmagadora maioria das nossas experiências constitutivas permanece – e permanecerá sempre – fora do âmbito do controle e da coerção institucionais formais. Certamente, muitas escolas podem causar um grande estrago, merecendo portanto, totalmente, as severas críticas de José Martí, que as chamou de ‘formidáveis prisões’. (…) ‘A aprendizagem é a nossa própria vida’, como Paracelso afirmou… Mas para tornar essa verdade algo óbvio, como deveria ser, temos de reivindicar uma educação plena para a vida, para que seja possível colocar em perspectiva a sua parte formal, a fim de instituir, também aí, uma reforma radical.” (MÉSZÁROS)

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EDUCAR PARA A VIDA – ÉTICA & PEDAGOGIA

Quando a educação cessa de servir à emancipação e passa a acorrentar-nos à camisa-de-força de uma ideologia classista, que falsifica a História, degrada a dignidade do presente e aniquila a possibilidade de um futuro melhor (pois aposta somente na continuação do mesmo,) podemos sem dúvida exigir das lutas populares que foquem sua atenção na tarefa de uma educação revolucionada, mas que só o será no interior de uma revolução social mais ampla. Mészáros fornece um bom plano, sintético, para a educação revolucionada de amanhã: ela deve educar para a vida, e não para o mercado.

Daí a importância crucial da ética, ou melhor, de uma educação ética, de uma formação que foque não apenas em fornecer treinamentos técnicos e saberes necessários ao Homo faber de uma certa especialização profissional, mas que enxergue como essencial e incontornável a própria conduta na vida, tanto privada como pública, como quintessencial a qualquer prática pedagógica libertária e sábia. Por essas e outras é que acredito que a filosofia nas escolas é um ingrediente imprescindível pra qualquer educação que seja autenticamente destinada à emancipação e não à opressão. Mas uma filosofia que inclua os rebeldes, os revoltados, os ímpios, os questionadores, os espíritos livres, os injuriados e caluniados (Epicuro, Spinoza, Voltaire, Nietzsche…)!

Desconfiar das idolatrias, pôr em dúvida os dogmatismos, refletir ao invés de se submeter a todos os catecismos, esses são alguns dos efeitos íntimos e psicoafetivos gerados por um contato duradouro com o fogo e o ânimo, irrefreáveis e fecundos, daqueles que podemos chamar de “filósofos rebeldes”, ou de “espíritos livres”. Como ler Nietzsche, deixando-se afetar pela potência de sua linguagem, sem sentir-se transformado em alguém com um senso crítico mais apurado, com um faro para as farsas que se torna aprimorado? Como seguir de joelhos diante da autoridade da moral, da razão, da ciência, após termos sido alertados por Foucault, Adorno, Horkheimer, Hans Jonas, e tantos outros, de todos os pesadelos que foram gerados quando estes ídolos foram sacralizados, quando nos rendemos acriticamente a ele?

Que superstições ignorantes sobrevivem ao benefício gerado por um convívio com Lucrécio, Comte-Sponville, Albert Camus? O perigo, porém, é aquele de transformar a filosofia em um novo ídolo, para em seguida fazer diante dela, de rosto baixo, uma genuflexão submissa e servil. Ao invés de exercitar o pensamento autônomo e ousado com a ajuda, na companhia, no debate, com os filósofos, corremos o risco de nos tornar dogmáticos papagaios do que outros pensaram, e que nós não fazemos senão repetir como um eco, tal qual a ninfa amaldiçoada por Hera e negligenciada por Narciso.

Não me parece ser jamais isso – subserviência e servilismo – aquilo que a filosofia que é digna desse nome demanda daqueles que a praticam. A filosofia não põe à toa entre o seu inventário de virtudes, de excelências humanas, de inestimáveis aretés, os valores e as práticas da justiça, da coragem, da generosidade, da tolerância, da responsabilidade, do amor.

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O leque das “virtudes” filosóficas, que tanto merecem estar no currículo escolar de qualquer instituição educativa que busque educar para a vida e não só para o mercado, foram excelentemente exploradas no já clássico Pequeno Tratado Das Grandes Virtudes, de André Comte-Sponville, obra magistral e preciosa, inspirada nas reflexões de mestres éticos como Jankélévitch, Alain e Simone Weil.

Uma reflexão meramente teórica sobre as virtudes é uma infâmia, já que elas existem para serem postas em prática. Ética: indissolúvel dança, em sintonia, da reflexão e da ação, guiados pela sabedoria possível e pela amizade desejável que norteiam as mentes e as vidas dos filósofos (estes funcionários das forças da Sophia e da Philia). Ao menos é assim que estou tentando compreender, cada vez com mais afinco e mais visceralidade, esta tal de “ética”, que minha atual situação como professor (do ensino público e numa era de tragédias!) obriga-me a confrontar. Em termos mais concretos: não vejo como um professor de filosofia possa se esquivar da ética, dedicando suas aulas a outros assuntos mais “neutros” e supostamente dela desconectados.

Fernando Savater, em seu agradável livrinho Ética Para Meu Filho, sustenta que é imprescindível à pedagogia dos nossos jovens que falemos de ética, pois isto é o mesmo que refletir sobre o sentido da liberdade:

“Deve-se falar em ética no ensino médio? De início parece-me nefasto apresentar uma matéria com esse nome como alternativa à aula de doutrinamento religioso. A pobre ética não veio ao mundo para dedicar-se a escorar ou substituir catecismos… pelo menos não o deveria fazer. Mas não tenho nenhuma certeza de que devam ser evitadas algumas primeiras considerações gerais sobre o sentido da liberdade… A reflexão moral não é apenas um assunto especializado para quem deseja fazer cursos superiores de filosofia, sendo, antes, parte essencial de qualquer educação digna desse nome.”  (SAVATER, 2012) [5]

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REVOLUCIONÁVEIS MANEIRAS DE SER

As maneiras-de-ser são revolucionáveis: eis uma das apostas da ética. Também é uma das esperanças do marxismo. Uma certa leitura reducionista e estreita do marxismo acaba por transformar este num “economicismo”, como se Marx e Engels estivessem sugerindo que a única coisa que importa é revolucionar o sistema de produção capitalista e mais nada, quando é evidente que a revolução envolve uma reestruturação radical também das chamadas “subjetividades”, no sentido da superação da alienação, na vitória sobre os véus ilusórios da ideologia internalizada, além das revoluções simultâneas no âmbito da cultura, das artes, das mídias etc. E “é aqui que a educação – no sentido mais abrangente do termo – desempenha um importante papel”:

“Desde o início o papel da educação é de importância vital para romper com a internalização predominante nas escolhas políticas circunscritas à ‘legitimação constitucional democrática’ do Estado capitalista que defende os seus próprios interesses. (…) A tarefa histórica que temos de enfrentar é incomensuravelmente maior que a negação do capitalismo… Tendo em vista o fato de que o processo de reestruturação radical deve ser orientado pela estratégia de uma reforma concreta e abrangente de todo o sistema no qual se encontram os indivíduos, o desafio que deve ser enfrentado não tem paralelos na história. Pois o cumprimento dessa nova tarefa histórica envolve simultaneamente a mudança qualitativa das condições objetivas de reprodução da sociedade e a transformação progressiva da consciência em resposta às condições necessariamente cambiantes. Portanto, o papel da educação é soberano, tanto para a elaboração de estratégias apropriadas e adequadas para mudar as condições objetivas de reprodução, como para a automudança consciente dos indivíduos chamados a concretizar a criação de uma ordem social metabólica radicalmente diferente.” (MÉSZÁROS, p. 65)

A questão da educação está vinculada, nas sociedades capitalistas, à preparação para o mercado de trabalho, porém sabemos o quão desigual e injusto é todo o “mundo do trabalho” sob o capitalismo globalizado, que permite a coexistência de centenas de bilhões de trabalhadores que ganham salários-de-fome com um punhado de multibilhonários ociosos cujo único labor é apostar nos cassinos das bolsas de valores…

Já tem uma longa história a crítica aos ricos que coçam o saco enquanto os pobres derramam o suor, tanto que Paracelso (1493 – 1541), um dos modelos que inspirou o Fausto de Goethe, “chegou ao ponto de defender a expropriação da fortuna dos ricos ociosos, de forma a compeli-los a ter uma vida produtiva.” (p. 68)

Na verdade, o negócio não é exatamente o contrário do ócio para aqueles que detêm o capital roubado aos trabalhadores. Os produtores das mercadorias, sob o capitalismo, jamais têm seu trabalho pago com justiça: a mais-valia, que está na raiz da propriedade de capital, é em essência um roubo, como Proudhon, antes de Marx, já havia compreendido. O negócio do capitalista é seu pretexto para ficar “de papo pro ar” enquanto seus funcionários fazem os “corres” todos, gastando grande parte dos seus tempos-de-vida nas linhas de montagem frenéticas tão bem satirizadas por Chaplin em Tempos Modernos.

A própria existência de capitalistas é sinal de um mundo do trabalho regido pelo acinte da opressão, da desigualdade imposta pela violência, do apartheid social que fratura o social entre os que não trabalham e gozam com luxos e confortos, por um lado, e os que só trabalham e quase nada tem, por outro lado…  É um pouco o que revela o samba de Elton Medeiros e Paulinho da Viola, “Maioria sem Nenhum”:


“Uns com tanto
Outros tantos com algum
Mas a maioria sem nenhum!”

Diante da urgência do tempo histórico – vivemos, como diz o título do novo livro de Isabelle Stengers, In Catastrophic Times – a educação também precisa colocar-se urgentemente em posição de luta em prol da emancipação, já que a omissão significaria a cumplicidade com as forças da destruição. “É suficiente apontar duas diferenças literalmente vitais que colocam em acentuado relevo a urgência do tempo em nossa própria época”, escreve Mészáros. “Em primeiro lugar, o poder de destruição antes inimaginável que se encontra hoje à disposição da humanidade, pelo qual se pode alcançar facilmente o completo extermínio da espécie humana por meio de uma variedade de meios militares. Isso é gravemente acirrado pelo fato de que testemunhamos, no último século, tanto a escala como a intensidade sempre crescentes de conflagrações mundiais efetivas, incluindo duas guerras mundiais extremamente destrutivas.” (p. 107)

Além da ameaça das armas nucleares que pesam sobre o cérebro dos vivos – apocalipse tecnocrático tão bem retratado e satirizado por Stanley Kubrick em Doutor Fantástico – soma-se hoje uma “segunda condição gravemente ameaçadora”, como também lembra Mészáros, que é “a natureza destrutiva do controle sociometabólico do capital em nosso tempo – manifesta pela predominância cada vez maior da produção destrutiva, em contraste com a mitologia capitalista tradicionalmente autojustificadora da destruição produtiva – e que encontra-se no processo de devastação do ambiente natural, arriscando com isso diretamente as condições elementares da própria existência humana neste planeta.” (p. 108)

Diante da “magnitude sem precedentes das tarefas em jogo e da urgência historicamente única de nosso tempo”, espremidos entre o perigo do militarismo desenfreado, por um lado, e da hecatombe ecológica, por outro, só resta a certeza, pulsante e urgente, da “necessidade de instituir com êxito uma alternativa historicamente sustentável à crescente destrutividade do modo de controle sociorreprodutivo do capital.” (p. 110) Estamos diante da encruzilhada do Antropoceno, na era do duelo épico que, na formulação de Naomi Klein, opõe capitalism vs the climate (o capitalismo versus o clima). Ou, como disse Hubert Reeves, “estamos em guerra contra a natureza: se vencermos, estamos perdidos”.

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a ser continuado…

SIGA VIAGEM:

Leia o artigo de Mészáros:
Educação: o desenvolvimento contínuo da existência socialista

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes Necessários à Prática Educativa. Ed. Paz e Terra.
JINKINGS, Ivana. Apresentação de Educação Para Além Do Capital.
SADER, Emir. Prefácio a Educação Para Além Do Capital.
MARX, K; ENGELS, FTeses sobre Feuerbach.
MÉSZÁROS, István. A Educação Para Além do Capital. Ed. Boitempo.
SAVATER, Fernando. Ética Para Meu Filho. Trad. de Monica Stahel. Ed. Planeta, 2012.
COMTE-SPONVILLE. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. Ed. Martins Fontes.

P.S.  

10 LIVROS CLÁSSICOS E ESSENCIAIS PARA COMPREENDER O BRASIL SEGUNDO ANTONIO CANDIDO

Antonio Candido10 LIVROS CLÁSSICOS E ESSENCIAIS PARA COMPREENDER O BRASIL

Por Antonio Candido

Leia matéria completa no Blog da Boitempo.
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01) O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro
02) Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda
03) Do Império à República (1972), de Sérgio Buarque de Holanda
04) Ser escravo no Brasil (1982), de Kátia de Queirós Mattoso
05) Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre
06) Formação do Brasil contemporâneo (1942), de Caio Prado Júnior
07) Os sertões (1902), de Euclides da Cunha
08) A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim
09) Coronelismo, enxada e voto (1949),  de Vitor Nunes Leal
10) A revolução burguesa no Brasil (1974),  de Florestan Fernandes

Com a palavra, Antonio Candido:

Quando nos pedem para indicar um número muito limitado de livros importantes para conhecer o Brasil, oscilamos entre dois extremos possíveis: de um lado, tentar uma lista dos melhores, os que no consenso geral se situam acima dos demais; de outro lado, indicar os que nos agradam e, por isso, dependem sobretudo do nosso arbítrio e das nossas limitações. Ficarei mais perto da segunda hipótese.

Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.

Por isso, é sempre complicado propor listas reduzidas de leituras fundamentais. Na elaboração da que vou sugerir (a pedido) adotei um critério simples: já que é impossível enumerar todos os livros importantes no caso, e já que as avaliações variam muito, indicarei alguns que abordam pontos a meu ver fundamentais, segundo o meu limitado ângulo de visão. Imagino que esses pontos fundamentais correspondem à curiosidade de um jovem que pretende adquirir boa informação a fim de poder fazer reflexões pertinentes, mas sabendo que se trata de amostra e que, portanto, muita coisa boa fica de fora.

São fundamentais tópicos como os seguintes: os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que domina o país. É claro que estes tópicos não esgotam a matéria, e basta enunciar um deles para ver surgirem ao seu lado muitos outros. Mas penso que, tomados no conjunto, servem para dar uma ideia básica.

Entre parênteses: desobedeço o limite de dez obras que me foi proposto para incluir de contrabando mais uma, porque acho indispensável uma introdução geral, que não se concentre em nenhum dos tópicos enumerados acima, mas abranja em síntese todos eles, ou quase. E como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.

Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, análise inspirada e profunda do que se poderia chamar a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da herança portuguesa, indo desde o traçado das cidades e a atitude em face do trabalho até a organização política e o modo de ser. Nele, temos um estudo de transfusão social e cultural, mostrando como o colonizador esteve presente em nosso destino e não esquecendo a transformação que fez do Brasil contemporâneo uma realidade não mais luso-brasileira, mas, como diz ele, “americana”.

Em relação às populações autóctones, ponho de lado qualquer clássico para indicar uma obra recente que me parece exemplar como concepção e execução:História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas, que nos iniciam no passado remoto por meio da arqueologia, discriminam os grupos linguísticos, mostram o índio ao longo da sua história e em nossos dias, resultando uma introdução sólida e abrangente.

Seria bom se houvesse obra semelhante sobre o negro, e espero que ela apareça quanto antes. Os estudos específicos sobre ele começaram pela etnografia e o folclore, o que é importante, mas limitado. Surgiram depois estudos de valor sobre a escravidão e seus vários aspectos, e só mais recentemente se vem destacando algo essencial: o estudo do negro como agente ativo do processo histórico, inclusive do ângulo da resistência e da rebeldia, ignorado quase sempre pela historiografia tradicional. Nesse tópico resisto à tentação de indicar o clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e deixo de lado alguns estudos contemporâneos, para ficar com a síntese penetrante e clara de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês. Feito para público estrangeiro, é uma excelente visão geral desprovida de aparato erudito, que começa pela raiz africana, passa à escravização e ao tráfico para terminar pelas reações do escravo, desde as tentativas de alforria até a fuga e a rebelião. Naturalmente valeria a pena acrescentar estudos mais especializados, como A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, que estuda em profundidade a exclusão social e econômica do antigo escravo depois da Abolição, o que constitui um dos maiores dramas da história brasileira e um fator permanente de desequilíbrio em nossa sociedade.

Esses três elementos formadores (português, índio, negro) aparecem inter-relacionados em obras que abordam o tópico seguinte, isto é, quais foram as características da sociedade que eles constituíram no Brasil, sob a liderança absoluta do português. A primeira que indicarei é Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.

Sobre o mesmo tópico (a sociedade colonial fundadora) é preciso ler tambémFormação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior, que focaliza a realidade de um ângulo mais econômico do que cultural. É admirável, neste outro clássico, o estudo da expansão demográfica que foi configurando o perfil do território – estudo feito com percepção de geógrafo, que serve de base física para a análise das atividades econômicas (regidas pelo fornecimento de gêneros requeridos pela Europa), sobre as quais Caio Prado Júnior engasta a organização política e social, com articulação muito coerente, que privilegia a dimensão material.

Caracterizada a sociedade colonial, o tema imediato é a independência política, que leva a pensar em dois livros de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil (1909) eO movimento da Independência (1922), sendo que o primeiro é das maiores obras da nossa historiografia. No entanto, prefiro indicar um outro, aparentemente fora do assunto: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim. Nele a independência é de fato o eixo, porque, depois de analisar a brutalidade das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, mostra como elas promoveram a separação política para conservar as coisas como eram e prolongar o seu domínio. Daí (é a maior contribuição do livro) decorre o conservadorismo, marca da política e do pensamento brasileiro, que se multiplica insidiosamente de várias formas e impede a marcha da justiça social. Manuel Bonfim não tinha a envergadura de Oliveira Lima, monarquista e conservador, mas tinha pendores socialistas que lhe permitiram desmascarar o panorama da desigualdade e da opressão no Brasil (e em toda a América Latina).

Instalada a monarquia pelos conservadores, desdobra-se o período imperial, que faz pensar no grande clássico de Joaquim Nabuco: Um estadista do Império(1897). No entanto, este livro gira demais em torno de um só personagem, o pai do autor, de maneira que prefiro indicar outro que tem inclusive a vantagem de traçar o caminho que levou à mudança de regime: Do Império à República(1972), de Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele. Abrangendo a fase 1868-1889, expõe o funcionamento da administração e da vida política, com os dilemas do poder e a natureza peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pela figura-chave de Pedro II.

A seguir, abre-se ante o leitor o período republicano, que tem sido estudado sob diversos aspectos, tornando mais difícil a escolha restrita. Mas penso que três livros são importantes no caso, inclusive como ponto de partida para alargar as leituras.

Um tópico de grande relevo é o isolamento geográfico e cultural que segregava boa parte das populações sertanejas, separando-as da civilização urbana ao ponto de se poder falar em “dois Brasis”, quase alheios um ao outro. As consequências podiam ser dramáticas, traduzindo-se em exclusão econômico-social, com agravamento da miséria, podendo gerar a violência e o conflito. O estudo dessa situação lamentável foi feito a propósito do extermínio do arraial de Canudos por Euclides da Cunha n’Os sertões (1902), livro que se impôs desde a publicação e revelou ao homem das cidades um Brasil desconhecido, que Euclides tornou presente à consciência do leitor graças à ênfase do seu estilo e à imaginação ardente com que acentuou os traços da realidade, lendo-a, por assim dizer, na craveira da tragédia. Misturando observação e indignação social, ele deu um exemplo duradouro de estudo que não evita as avaliações morais e abre caminho para as reivindicações políticas.

Da Proclamação da República até 1930 nas zonas adiantadas, e praticamente até hoje em algumas mais distantes, reinou a oligarquia dos proprietários rurais, assentada sobre a manipulação da política municipal de acordo com as diretrizes de um governo feito para atender aos seus interesses. A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor que tinha expressão nítida na atuação dos chefes políticos locais, os “coronéis”. Um livro que se recomenda por estudar esse estado de coisas (inclusive analisando o lado positivo da atuação dos líderes municipais, à luz do que era possível no estado do país) éCoronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal, análise e interpretação muito segura dos mecanismos políticos da chamada República Velha (1889-1930).

O último tópico é decisivo para nós, hoje em dia, porque se refere à modernização do Brasil, mediante a transferência de liderança da oligarquia de base rural para a burguesia de base industrial, o que corresponde à industrialização e tem como eixo a Revolução de 1930. A partir desta viu-se o operariado assumir a iniciativa política em ritmo cada vez mais intenso (embora tutelado em grande parte pelo governo) e o empresário vir a primeiro plano, mas de modo especial, porque a sua ação se misturou à mentalidade e às práticas da oligarquia. A bibliografia a respeito é vasta e engloba o problema do populismo como mecanismo de ajustamento entre arcaísmo e modernidade. Mas já que é preciso fazer uma escolha, opto pelo livro fundamental de Florestan Fernandes,A revolução burguesa no Brasil (1974). É uma obra de escrita densa e raciocínio cerrado, construída sobre o cruzamento da dimensão histórica com os tipos sociais, para caracterizar uma nova modalidade de liderança econômica e política.

Chegando aqui, verifico que essas sugestões sofrem a limitação das minhas limitações. E verifico, sobretudo, a ausência grave de um tópico: o imigrante. De fato, dei atenção aos três elementos formadores (português, índio, negro), mas não mencionei esse grande elemento transformador, responsável em grande parte pela inflexão que Sérgio Buarque de Holanda denominou “americana” da nossa história contemporânea. Mas não conheço obra geral sobre o assunto, se é que existe, e não as há sobre todos os contingentes. Seria possível mencionar, quanto a dois deles, A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento – mas isso ultrapassaria o limite que me foi dado.

No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc.

* Artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30/09/2000

Antonio Candido é sociólogo, crítico literário e ensaísta.