AMÁVEL MAS INDOMÁVEL – Nota sobre Hilda Hilst

Acusa-de Hilda Hilst​ de “hermética”. Ela seria escritora que escreve difícil e é inacessível à compreensão do comum das gentes. Conexa a esta acusação de hermetismo vem a de certo “elitismo”, já que um texto complexo de decifrar destina-se somente às classes cultas, não só muito bem alfabetizadas mas dotadas também da paciência e do tempo livre que exigem a decifração de escritos que mais parecem hieróglifos.

Se, de fato, há escritos Hilstianos que parecem impenetráveis, temos que rebater aos detratores da escritora que a literatura às vezes ascende a graus de densidade e profundeza que realmente não são passíveis daquela compreensão lépida, apressada, en passant, que é epidêmica na era do Tweet. E que o valor de textos como os de Hilst – alguns deles verdadeiros “palimpsestos selvagens”, para emprestar uma expressão de Beatriz Azevedo​ – também está na possibilidade que eles nos abrem de uma convivência mais demorada, de uma leitura mais ruminante, e daquela arte um pouco esquecida: a da re-leitura, em que voltamos e voltamos ao mesmo texto, re-descobrindo-o a cada nova imersão.

Há um texto de Hilda Hilst que acho particularmente fascinante: “Amável Mas Indomável”, presente no livro “Rútilos” (Ed. Globo, 2003). Aí manifesta-se a potência de uma Hilst altamente lírica e irreverente, capaz de formular interrogações que vão fundo na sondagem das relações do poeta com o poder. Nem hermética, nem apolítica, nem elitista: Hilst revela-se aí alguém de obscena lucidez. Alguém que passou pela escola de Ernest Becker e de Samuel Beckett, re-inventando-os em sua prosa originalíssima.

O protagonista ou eu-lírico de “Amável Mas Indomável” é um poeta: “à noite esperava que a lua habitasse o papel” e “imantado de luar escrevia”. Estas frases, dignas de Olavo Bilac, logo são transtornadas pelo estrondo das perguntas que o tal poeta lançava ao papel, sob uma Debussyana “claire de la lune”:

“É lícito cantar de amor quando o rei é cruel em seu reinado? Se o canto das gentes se juntasse à audácia fremente do meu canto, talvez o rei cruel nem reinasse. E começou a cantar esses versos numa guitarra escura, uns nasais de dentro…” (32)

A questão que não quer calar é a liberdade (ou não) de cantar em uma situação histórica onde reina a crueldade, a tirania, o rei indiferente à miséria geral. Hilda invoca um poeta-cantor, evocando até uma nasalidade Dylanesca, pondo no palco deste escrito uma espécie de personagem folkster que protesta através da audácia de seu canto em sua guitarra escura. O que diz a canção? Irreverências questionativas.

“É rei ainda se na miséria nunca se demora?
É rei se foge de nós?” (p. 32)

O canto dirige-se àqueles que tem a mesa vazia e os estômagos roncando de fome. O poeta-cantante faz-se um pouco didático, pedagógico, ensinando caminhos para cultivar o “fruto-futuro”. O poder da palavra é afirmado como superior ao poder da espada. Idealismo de trabalhador do verbo? Exagero de quem quer crer que versos e cantares podem derrubar tiranos? Ouçamos sem pressa e com empatia:

“…se esse fruto-futuro se colar à tua carne, vão nascer palavras aí de dentro, extensas, pesadas, muitas palavras, construção e muro, e adagas dentro da pedra, sobretudo palavras antes de usares a adaga, metal algum pode brilhar tão horizonte, tão comprido e fundo, metal algum pode cavar mais do que a pá da palavra, e poderás lavrar, corroer ou cinzelar numa medida justa. Tua palavra, a de vocês muitas palavras pode quebrar muitos bastões de ágata, enterra então brilhos antigos, mata também o opressor que te habita, esmaga-o se ele tentar emergir desse fruto de carne, nasce de novo, entrega-te ao outro. Versos de Lu, cantoria e veios velhos da terra renascendo em lava, de Lih, foram escutados longe, nuns esquecidos de mundo, nuns charcos, nuns imundos barrancos, no barraco de esteira e barro de tantos, perguntas com a cor rebrilhosa das estrelas, é rei se foge de nós? é rei se na miséria nunca se demora? e estribilhos novos: é rei se não chora conosco? se não morre com seu povo?” (p. 33)

Se esta linguagem Hilstiana soa esquisita é pois derrama-se sobre o papel como a lava vulcânica de um fluxo de consciência que não é mera permissão para um derrame cerebral, não é mera “escrita automática” onde registra-se tudo o que dá na telha, é mais que isso: é trabalho em prol da intensidade. Hilda Hilst, aprendiz com os grandes compositores, sabe fazer como Tchaikovsky ou Dvórak, ou seja, infunde à sua linguagem altas doses de intensidade.

Sua prosa-poética atinge assim, nos seus melhores momentos, o teor de explosividade de um Rimbaud ou um Lautréamont. E qualquer acusação de hermetismo elitista lançado contra Hilda Hilst esboroa-se diante de frases como “mata também o opressor que te habita, esmaga-o se ele tentar emergir desse fruto de carne”!

Ao fim de “Amável Mas Indomável”, “Lih de todos, no percurso, convidou pássaros e gentes, repartiram arroz e grãos, e uma tarde diante do rei cantaram com a voz das sementes. Mas ao redor de reis há sempre um corpo amedalhado, metais e botas, rigidez e cercados, farpas, facas, e orelhas rasas distorcendo o fundo das palavras, e o canto de Lih ouvido por esse Corpo Tosco se assemelhou a taturanas dentro de um cubo d’água… No fim da tarde, o Tosco espelhou-se no sangue de todos que cantaram. O Tosco, ereto sim, mas eternamente porco. Os ventos trazem a cada ciclo o aroma de Lih junto a essa gente, ensaiam uns nasais de dentro, um murmúrio-memória, exercitam-se duros agora para a grande batalha.” (p. 34)

A crueldade e o derramamento de sangue mostram-se às claras: o rei e seu séquito de toscos servidores põe sua máquina mortífera para aniquilar aqueles que cantam com a voz das sementes. O texto acaba soando como uma manifesto contra os brutos, um lírico protesto contra os brucutus, rasos em seu trato com a palavra e com todos aqueles que lavram o verbo esculpindo beleza. A gente comum, tratada como arraia-miúda ou bucho-de-canhão por aqueles que, no poder, arrumam suas coroas olhando-se em espelhos de sangue, é aquela que precisará não só da fúria das espadas e adagas, mas da solidariedade que também pode ser facilitada e galvanizada pelos poderes da música e da poesia.

A gente precisará do canto comunal, da voz das sementes e da disposição para uma grande batalha. A gente precisará aprender que a bruteza dos cruéis não pode ser confrontada com a mesma bruteza por parte dos oprimidos, mas que teremos que aprender a fazer emergir, de dentro e do fundo, um rugido de leão libertário nascido do peito daqueles que souberam cultivar o fruto-futuro.

Hilda Hilst deu-nos um emblema de si mesma: amável, mas indomável. Sejamos isso – amáveis e indomáveis – em nossos cantares e batalhas?!?

– Eduardo Carli de Moraes​
10/03/2017


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HILDA HILST MUSICADA

Ode descontínua e remota para flauta e oboé de Ariana para Dioniso

Poemas de H. Hilst musicados por Zeca Baleiro. Intérpretes (na ordem das faixas): Rita Ribeiro, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Ângela Ro Ro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Olívia Byinton, Mônica Salmaso, Ângela Maria.

DOWNLOAD DO ÁLBUM COMPLETO


Alice Caymmi declama:

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CACHOEIRAS DE CRIATIVIDADE – Concerto magistral da Filarmônica de Goiás revive Tchaikovsky, Smetana e Dvorak

Gyn Classic

Chovia a cântaros. O que não impediu o público goianiense amante da boa música de preencher as centenas de cadeiras do Teatro Goiânia, nesta última Quinta-Feira, 27 de Novembro, para um concerto de lavar a alma. Não faltaram experiências estéticas sublimes jorrando como temporal sobre a platéia: sob a batuta do maestro israelense Yishai Stekler, regendo a afinadíssima Orquestra Filarmônica de Goiás, ouvimos interpretações magistrais de Smertana, Tchaikovsky e Dvorak. A tempestade lá fora era tão intensa que cheguei a suspeitar que o evento teria que ser cancelado: uma pequena cachoeira de garoa, antes do começo de espetáculo, chovia do teto do teatro justo sobre o spot destinado ao maestro. Com um pouco de improviso, no calor da hora, tudo se arranjou para que o concerto prosseguisse a contento, iniciando com uma impactante interpretação da abertura da ópera “A Noiva Vendida”, do compositor tcheco Smetana (1824-1884).

Apesar da ausência de relâmpagos e trovões lá fora, a presença da chuva fazia-se presente, cúmplice da orquestra, não chegando porém a constituir concorrência à sonoridade poderosa do conjunto de músicos impecavelmente entrosados. A tensão que pairava no ar estava mais alta do que é corriqueiro nos tão solenes e regrados eventos de música erudita, já que a intempérie trouxe a Natureza para dentro do teatro de um modo incomum, exigindo dos músicos que adaptassem-se velozmente a um contexto novo, a que não estão acostumados. O violoncelista alemão Johannes Gramsch, nascido em Düsseldorf, mas radicado no Brasil desde 2003, quando assumiu seu posto na OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), solou um Tchaikovsky com muita graça, tirando de letra, para júbilo geral, as “Variações Sobre Um Tema Rococó Op. 33”. Foi tão aclamado que teve que voltar pro bis.


Tchaikovsky, “Variações Sobre Um Tema Rococó Op. 33”
com Orquestra Sinfônica da UNICAMP, 2012

Foi também sensacional e inesquecível ter testemunhado a Orquestra Filarmônica de Goiás tocando a Nona do Dvorak – “Sinfonia Novo Mundo” – no Teatro Goiás fustigado pela chuvarada. Sempre sonhei em um dia poder conferir ao vivo e a cores em minhas retinas estarrecidas esta peça de uma sublimidade e uma violência que não cessam de me espantar mesmo depois de anos de convivência. Para o meu paladar sônico Dvorak foi nada menos que um gênio do porte de Tchaikovsky, Schubert, Mozart, Beethoven e Bártok. Os “bravos!” ecoaram fortes e autênticos depois da última nota, a platéia transbordante de gratidão depois de tanta potência e graça. Oscar Wilde é que estava certo: “a música é o tipo de arte mais perfeita: nunca revela seu último segredo.”

E enquanto o Dvorak, o Tchaikovsky e o Smetana eram tocados à perfeição, a cachoeira no palco foi uma espécie de participação cenográfica imprevista, gerando um efeito estético inolvidável, pingando belamente sobre os suores dos músicos. Ao invés de empecilho, pedra no caminho, a Cachoeira de Garoa acabou tornando este um dos concertos mais memoráveis que já presenciei. Nesta noite, a OFG, o maestro israelense e o violoncelista alemão fizeram por merecer os aplausos efusivos da platéia: mandaram muito bem na atividade coletiva fantasticamente complexa que é reavivar, com tanta verve, uma obra-prima da história da Música. Parabéns a todos os envolvidos nesta noite musical em que nossos corações e mentes banharam-se em uma tempestade relampejante de belezas sem número!

Relembrem a peça de Dvorak, com Herbert Von Karajan e a Filarmônica de Viena:

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Veja também:

2 horas de B. Smetana (1824-1884), compositor tcheco, em concerto realizado em Praga com a Orchestre Philharmonique de Radio France em 2013. Peça: “Má Vlast”.