EM DEFESA DA DIGNIDADE DO ATEÍSMO, por Slavoj Žižek: “O ateísmo é um legado pelo qual vale a pena lutar”

O ateísmo é um legado pelo qual vale a pena lutar

Por séculos, nos foi dito que sem religião não somos mais do que animais egoístas lutando pelo nosso quinhão, nossa única moralidade a de uma matilha de lobos; apenas a religião, dizem, pode nos elevar a um nível espiritual mais alto. Hoje, quando a religião emerge como a fonte de violência homicida ao redor do mundo, garantias de que fundamentalistas cristãos ou muçulmanos ou hinduístas estão apenas abusando e pervertendo as nobres mensagens espirituais de seus credos soam cada vez mais vazias. Que tal restaurar a dignidade do ateísmo, um dos maiores legados da Europa e talvez nossa única chance de paz?Mais de um século atrás, em Os Irmãos Karamazov e outras obras, Dostoiévski alertava sobre os perigos de um niilismo moral sem deus, defendendo essencialmente que, se Deus não existe, então tudo é permitido. O filósofo francês André Glucksmann até mesmo aplicou a crítica de Dostoiévski do niilismo sem deus ao 11 de setembro, como sugere o título de seu livro, Dostoiévski em Manhattan.

O argumento não poderia estar mais errado: A lição do terrorismo atual é que, se Deus existe, então tudo, incluindo explodir milhares de espectadores inocentes, é permitido – pelo menos àqueles que alegam agir diretamente em nome de Deus, já que, claramente, uma ligação direta com Deus justifica a violação de quaisquer refreamentos e considerações meramente humanos. Resumindo, os fundamentalistas não se tornaram diferentes dos comunistas Stalinistas “sem deus”, para os quais tudo foi permitido, já que viam a si mesmos como instrumentos diretos de sua divindade, a Necessidade Histórica do Progresso em Direção ao Comunismo.

Fundamentalistas fazem o que veem como boas ações de forma a satisfazer o desejo de Deus e ganhar a salvação; ateus o fazem simplesmente porque é a coisa certa a fazer. Não seria essa também nossa experiência mais elementar de moralidade? Quando faço uma boa ação, não a faço visando ganhar um favor de Deus; faço porque, se não fizesse, não poderia me olhar no espelho. Uma atitude moral é por definição sua própria recompensa. David Hume argumentou isso pungentemente quando escreveu que a única maneira de demonstrar verdadeiro respeito a Deus é agir moralmente ignorando sua existência.

Dez anos atrás, Europeus debatiam se o preâmbulo da Constituição Europeia deveria mencionar o cristianismo. Como de costume, um meio termo foi arranjado, uma referência em termos gerais à “herança religiosa” da Europa. Mas onde estava o legado mais precioso da Europa, o do ateísmo? O que faz da Europa moderna única é que ela é a primeira e única civilização em que o ateísmo é uma opção plenamente legítima, e não um obstáculo a qualquer posição pública.

O ateísmo é um legado europeu pelo qual vale a pena lutar, não menos por criar um espaço público seguro para os que creem. Considere o debate que inflamou-se em Ljubljana, a capital da Eslovênia, meu país natal, conforme a controvérsia constitucional fervia: muçulmanos (em sua maioria trabalhadores imigrantes das antigas repúblicas Iugoslavas) devem ter permissão para construir uma mesquita? Enquanto os conservadores opunham-se à mesquita por razões culturais, políticas e até arquitetônicas, a revista semanal liberal Mladina foi consistentemente explícita em seu apoio à mesquita, em continuar com suas preocupações pelos direitos daqueles que vinham de outras antigas repúblicas Iugoslavas.

Não surpreendentemente, dadas as atitudes liberais, Mladina também foi uma das poucas publicações eslovenas a republicar as caricaturas de Maomé. E, reciprocamente, aqueles que demonstraram maior “compreensão” pelos violentos protestos muçulmanos causados por aqueles cartuns foram também aqueles que regularmente expressavam sua preocupação com o futuro do cristianismo na Europa.

Estas alianças estranhas confrontam os muçulmanos da Europa com uma escolha difícil: A única força política que não os reduz a cidadãos de segunda classe e os concede o espaço para expressar sua identidade religiosa são liberais ateus “sem deus”, enquanto aqueles mais próximos a suas práticas religiosas sociais, seu reflexo cristão, são seus maiores inimigos políticos.

O paradoxo é que os únicos verdadeiros aliados dos muçulmanos não são aqueles que primeiramente publicaram as caricaturas para chocar, mas aqueles que, em defesa do ideal da liberdade de expressão, republicaram-nas.

Enquanto um verdadeiro ateu não tem necessidade de apoiar sua própria posição provocando crentes com blasfêmia, ele também se recusa a reduzir o problema das caricaturas de Maomé ao respeito às crenças de outras pessoas. O respeito às crenças dos outros como o valor maior só pode significar uma de duas coisas: Ou tratamos o outro de forma condescendente, evitando magoá-lo para não arruinar suas ilusões, ou adotamos a posição relativista de vários “regimes da verdade”, desqualificando como imposição violenta qualquer posição clara em relação à verdade.

Mas que tal submeter o Islã – junto com todas as outras religiões – a uma respeitosa, mas por isso mesmo não menos implacável, análise crítica? Essa, e apenas essa, é a maneira de mostrar verdadeiro respeito aos muçulmanos: tratá-los como adultos responsáveis por suas crenças.

* Publicado originalmente em inglês no The New York Times em 13 de março de 2006. Reblogado do Blog da Boitempo. O trecho citado também integra um dos capítulos do livro Violência. Acompanhe A Casa de Vidro – www.acasadevidro.com.

CONFIRA TAMBÉM:

Saiba mais sobre o legado histórico do ateísmo na obra de Epicuro e Lucrécio

A PAIXÃO SEGUNDO A REVOLUÇÃO: Leon Trótski (1879 – 1940) biografado por Paulo Leminski (1944 – 1989)

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Haja proteína para lutar pelos famintos, pelos escravos, por todos os que são esmagados pela opressão multiforme! Neste ano de 2017, em que celebra-se o centenário da Revolução Russa, ou seja, aquilo que o autor do Catatau afirmou ser “o máximo acontecimento político do século XX” (p. 263) -, as proteínas literárias não são de se desprezar. Vale muito a pena redescobrir uma obra, cativante e de vasta relevância, que Paulo Leminski publicou, em 1986, sobre Trótski (1879 – 1940).

Graças ao excelente livro Vida (Companhia das Letras, 2013, 390 pgs), hoje o leitor brasileiro tem acesso fácil às imperdíveis biografias que Leminski devotou às vidas de Jesus de Nazaré, Cruz e Souza, Bashô e Trótski. São obras-primas não somente dentro da estreiteza do gênero biográfico, mas dignas de figurarem no cânone da literatura brasileira ou mesmo da ensaística especulativa universal, já que neles Leminski revela-se não só como poeta magistral, mas como livre-pensador dos mais preciosos já nascidos em terra brasilis. 

“Diante da brutalidade milenar da sociedade de classes, para lançar as bases do socialismo, era preciso concentrar séculos de horror em décadas. Os bolcheviques, conforme uma fantasia erótico-heróica de Trótski, em seu ‘Minha Vida’, cultivavam a fantasia de estar vingando Spartacus e todos os escravos da Antiguidade, os servos da Idade Média, os operários ingleses do século 18, todos os oprimidos, os explorados, os diminuídos. Sem saber, perseguiam aquilo do Evangelho: ‘bem-aventurados aqueles que têm sede e fome de justiça, pois eles serão saciados’. Mas não eram as belíssimas abstrações do Sermão da Montanha que os bolcheviques buscavam. Eles queriam a industrialização, a plenitude material, o fim da fome, o fim da ignorância, a vida sem medo nem insegurança, o cessar das guerras, o término da pré-história, a célebre passagem do Reino da Necessidade para o Reino da Liberdade…” (LEMINSKI, p. 326-327)

Por estes trechos já se percebe que o “polaco loco paca” não se limita a falar sobre a vida e a obra de Trótski, mas engaja-se com entusiasmo em debates, mete o bedelho onde não é chamado, sai filosofando sobre os destinos do marxismo-leninismo e da revolução, sempre com ousadia e espírito livre, criticando também os erros nefastos cometidos através da história do bolchevismo, entre eles o que chama de “monopólio do poder” e “unanimidade compulsória”:

Fragmento de um mural de Diego Rivera com retrato do revolucionário bolchevique Vladimir Ilitch “Lênin” ao centro

“O Partido Bolchevique pretendia não apenas o monopólio do poder, dos cargos de mando, da administração do país. Para manter e justificar esse monopólio, teve que assumir o monopólio ideológico, a ortodoxia doutrinária mais severa, sem margens para divergências e contestações. Qualquer diferença em relação às determinações partidárias será, doravante, considerado um gesto contrarrevolucionário. O império da unanimidade compulsória, característica dos tempos de Stálin, começou já nos tempos de Lênin e Trótski.

Filosoficamente, em termos de pensamento, essa ortodoxia manifestou-se na consagração e canonização do pensamento de Marx e Engels, com os acréscimos posteriores das ideias de Lênin e do pensamento de Stálin. Esse estranho amálgama filosófico-ideológico, que acabou se chamando marxismo-leninismo, é, em boa parte da terra, sinônimo de Razão, Verdade absoluta, ‘o saber supremo da nossa época’, como disse Sartre num de seus momentos mais vermelhos. De método vivo de pensar, em Marx, a dialética viria a se transformar numa escolástica congelada e repetitiva: de 1917 pra cá, a URSS não produziu um só pensador original, só comentadores dos clássicos. As reais contribuições a um avanço do pensamento marxista ocorreram fora da URSS: Adorno e Walter Benjamin, Sartre e Marcuse, até hoje gente não grata na Santa Rússia…” (LEMINSKI, p. 318)

O mais célebre dos divergentes e contestadores da unanimidade, que destoou o coro dos contentes na Era Stanilista, que fez ouvir as notas de sua canção dissonante de exilado e de perseguido político, é o próprio Trótski. Leminski busca desvendá-lo munido de excelente companhia. Ilustram o livro algumas gravuras e cartuns da pena de Vladimir Maiakóvski, com seu espevitado gênio poético, que manifestou-se não só em verso mas também de forma gráfica bem punk, proto-Henfilesca.

Leminski também baseia-se em um estudo exaustivo que fez dos livros de Isaac Deutscher (1907 – 1967), que devotou três grossos volumes a Trótski – a trilogia O Profeta Armado, Desarmado e Desterrado. É uma jornada em que Leminski consegue honrar o revolucionário russo com um livro à altura de sua estatura histórica.

Além disso, como ótimo poeta que é, Leminski amplia seu poder de evocação de imagens memoráveis com um arsenal que colhe nos filmes de Eisenstein. O histórico Outubro de 1917 e seus prelúdios no Encouraçado Potemkin de 1905 servem como armazéns inestimáveis de poesia audiovisual sobre aqueles dias que “abalaram o mundo” (John Reed) – e o autor sabe se aproveitar, de maneira interdisciplinar, de múltiplas obras nascidas em conjunção com a revolução.

“Os três principais chefes da Revolução de Outubro e da implantação do comunismo começaram a conspirar desde cedo. Todos conheceram a prisão, a deportação, a fuga, o medo da delação, as reuniões secretas, o uso de documentos falsos, todas as agruras de uma intensa vida de criminosos políticos.

Essa militância clandestina está inscrita no próprio nome com que os conhecemos. Lênin, Trótski e Stálin não são seus nomes. São apelidos, codinomes de militância subversiva, dois deles diretamente ligados a vicissitudes da vida de um criminoso político. Vladimir Ilitch chamou-se Lênin porque esteve preso numa colônia penal no interior da Sibéria, às margens do rio Lena. Quanto a Trótski, era o nome de um dos carcereiros de Liev Davidovitch, em uma de suas inúmeras prisões, e que Liev adotou quando fugiu da prisão, uma vez que seu verdadeiro nome já era conhecido em todas as delegacias da Rússia. Irônico o caso deste obscuro carcereiro cujo nome entrou na história através de um acidente da luta política entre os irmãos Karamázov e o Grande Pai Castrador.

Esse que nós conhecemos como Tróstki era filho de um judeu fazendeiro do sul da Ucrânia, proprietário da fazenda Yanovka… que ficava muito longe de qualquer sinagoga. Liev cresceu, ‘menino de engenho’, entre trabalhos de campo e rudes lavradores ucranianos, livre, como seu pai, das amarras do judaísmo ortodoxo tradicional.

Talvez esteja aí a raiz da extraordinária liberdade de pensamento crítico que sempre lhe foi característica, como teórico, como orador e como homem de ação. Nessa liberdade, seu estilo de pensar tem algo que lembra o pensar de Marx, outro judeu desjudaizado, um pensar de essências e medulas, com a coragem de ir até as últimas consequências do seu movimento inicial, passando por cima de preconceitos, lugares-comuns e verdades estratificadas…

A máquina mental e intelectual de Trótski era mais completa que a de Lênin. Seus interesses eram mais plurais. Suas leituras, mais diversificadas. Seu horizonte, muito mais amplo. Leia-se por exemplo o voo utópico do final do ensaio ‘Arte revolucionária e arte socialista’, capítulo 8 do seu livro Literatura e Revolução. Lênin jamais poderia ter escrito essas páginas de um sopro verdadeiramente épico-utópico sobre o novo homem que o socialismo poderia criar.” (LEMINSKI, p. 264-265)

As relações íntimas e intensas de Trótski com a literatura são um dos temas prediletos de Leminski. Ele nutre veneração tanto pelos talentos trotskianos como crítico literário, quanto por grandes autores da literatura russa que Trótski e Leminski consideram como mestres. Entrando em uma querela sobre o valor das contribuições à compreensão da Rússia, Leminski opõe historiadores a artistas, prestando no tribunal da história seu tributo de artista à sua estirpe de “antenas da raça”, dizendo que julga muito mais valiosos artistas como Dostoiévski do que aqueles historiadores que são “colecionadores de dados e datas”.

Os romances de Dostoiévski, seus dilemas existenciais e éticos, escritos por alguém que sofreu todas as aflições do aprisionamento na Sibéria e do pelotão de fuzilamento, também marcam profundamente a reflexão leminskiana. Rompendo com qualquer dogma sobre a escritura de biografias, Leminski fala ao leitor como se estivesse no boteco, dando conselhos de amigo-sábio aos novatos:

“Se você quer entender a Rússia, não perca tempo lendo manuais de história. Comece logo lendo Os Irmãos Kazamázov, de Dostoiévski. Esse romance, de 1880, é a história de um parricídio, o assassinato do velho Karamázov por um de seus 4 filhos… Os Irmãos Kazamázov não só retrata com perfeição a Rússia passada e presente, em suas estruturas mais profundas, mas ainda prefigura uma Rússia por vir. Quando Dostoiéski escreveu esse romance, Freud apenas engatinhava. Mas nele já se encontra todo o fundamental da teoria freudiana. Para Freud, é o parricídio primordial que funda a civilização. E toda revolução social de grandes proporções é uma luta dos filhos contra a tirania dos pais (pais, padres, patrões, padrões). (…) Quando um dos Karamázov mata o pai, começa a Revolução Russa, esse terremoto histórico, onde Trótski teve um papel decisivo.” (p. 246)

Leminski alça Trótski ao estatuto de herói épico, de uma epopéia revolucionária, que destaca-se também por sua extraordinária capacidade de criação intelectual em meio às batalhas da vida política, o que talvez explica que “envelheceu precocemente: aos 50 anos, parecia ter 70. Lutou contra Stálin e o stalinismo até o último momento. Foragido e perseguido, jamais deixou de denunciar as deformações que Stálin introduzia no socialismo da URSS, que ele tinha ajudado a criar. Sua vasta produção jornalística e literária é um combate contínuo contra a traição da Revolução que ele via no stalinismo triunfante.” (p.  344)

Preocupado com o destino histórico do pensamento de Marx e Engels tal como este encarna-se na história afora, Leminski percebe bem a complexidade do caso de Trótski, que foi líder revolucionário bolchevique e chefe militar supremo durante a Guerra Civil pós-revolucionária, e depois foi transformado por Stálin em pária, inimigo a ser caçado e liquidado, tanto fisicamente (Trótski foi assassinado em 1940, no México, por punhos servindo o stalinismo) quanto historicamente (nas fotografias, antes do Photophop, Trótski foi liquidado, num processo que inspirará George Orwell para retratar o totalitarismo em 1984).

Em 1984, livro publicado em 1949, a noção de um Partido Único, monopolizador de poder, impositor de uma unanimidade ideológica, também busca de maneira visceralmente stalinista manter o Passado sob seu controle. Fabrica uma ficção após outra sobre o que já se passou na fase histórica pregressa, sempre talhando o passado que mais convêm a seus interesses atuais, the past that suits you best. Se em Stalin vemos o protótipo do Grande Irmão, um autêntico Big Brother Bolchevique, em Trótski não é difícil reconhecer a figura do inimigo público número 1, bode expiatório, alvo supremo da perseguição da polícia política, que em Orwell é Emmanuel Wallerstein.

“Dor toda especial para Trótski deve ter sido a obliteração sistemática do seu nome na historiografia soviética, ou simpática a Stálin. Nesse terreno, não há dúvidas: a historiografia soviética sobre a Revolução é uma mentira deslavada, completamente deturpada por Stálin. Quem quiser saber uma opinião contemporânea e isenta leia John Reed em Os 10 Dias Que Abalaram O Mundo, o jornalista americano, comunista, estava lá, em 1917. O nome e a atuação de Trótski estão presentes em todas as páginas, onde Stálin não aparece nenhuma vez. Pois vem: o livro de Reed, com prefácio de Lênin, só pôde ser traduzido e editado na URSS depois da morte de Stálin. Durante sua vida, nenhum historiador russo se atreveria a mencionar sequer o nome de Trótski num trabalho sobre a Revolução. Essa gracinha poderia lhe custar, no mínimo, o emprego e, no máximo, a vida.

Essa institucionalização da mentira não se limitou aos textos. Até de fotografias históricas foi raspada e apagada a imagem de Trótski!  Não há exemplo no mundo moderno de uma conspiração da memória semelhante. O paralelo mais próximo seria a prática dos faraós do antigo Egito que costumavam mandar apagar dos monumentos os nomes dos faraós anteriores, para botar o seu no lugar…” (p. 345)

“Quatro pernas, bom. Duas pernas, ruim.” O lema provisório da fazenda comunista em “A Revolução dos Bichos”. Saiba mais: Capitalismo em Desencanto, A Casa de Vidro.

Este embate entre Stálin e Tróstki, tão determinante nos rumos e descaminhos da Revolução Bolchevique, também marca a alegoria orwelliana de A Revolução dos Bichos (Animal Farm), obra de 1943-1944,onde estes personagens históricos estão representados pelos porcos Napoleão (Stalin) e Bola-de-Neve (Trótski). 

O desenlace final do duelo também ganhou a tela do cinema através de The Assassination of Trotsky (1972), dirigido por Joseph Losey e com Richard Burton no papel principal, onde são revelados detalhes dos últimos dias da vida de Trótski, no México, sob a proteção de Diego Rivera e Frida Kahlo, dentre outros camaradas.

“Escorraçado por toda parte, encontrou precário refúgio no México, onde viveu nos arredores da capital, sempre ameaçado por atentados encomendados por Moscou. Passou seu últimos dias numa verdadeira fortaleza, em Coyocán, nas proximidades da Cidade do México, protegido por partidários leais que funcionavam como uma verdadeira guarda pessoal… Stálin tinha determinado sua eliminação. O fim de Trótski foi tão rocambolesco quanto sua vida. Stálin, através do Partido Comunista Mexicano, conseguiu infiltrar na fortaleza de Coyocán um agente seu, J. Monard, que se fez passar por jornalista de esquerda, interessado nas ideias de Trótski. Um dia, sozinho com Liev, Monard agarrou a pequena picareta que trazia sob o casaco, e a cravou na cabeça do velho líder. Trótski, que era homem vigoroso, ainda conseguiu lutar com o agressor. E só veio a morrer quando levado ao hospital.” (p. 346)

Leminski não canoniza Trótski: não silencia, por exemplo, sobre o episódio do Kronstadt, frequentemente citado como uma prova de que Trótski, que tanto acusou Stálin de ter traído a revolução, teria também praticado uma nefasta traição, afogando em sangue a dissidência através de “métodos brutais”, já que “mandou massacrar a guarnição rebelada de Kronstadt” (p. 334). Sem esconder os erros e contradições do homem, ao refletir sobre o legado de Trótski para a posteridade, ao avaliar sua relevância no âmbito do marxismo e da ação revolucionária, Leminski destaca como elementos cruciais o internacionalismo e a revolução permanente que são marcas do trotskismo, mas as critica com ideias próprias:

“Para Marx e os marxistas do século XIX, a revolução proletária era um fenômeno mundial, transnacional, baseada na igualdade da condição oprimida dos trabalhadores de qualquer latitude. As nações eram artifícios geopolíticos das classes dominantes. Entre um operário inglês e um operário alemão, deveria prevalecer a condição de operário sobre a diferença de nacionalidade. Na realidade, as coisas seriam um pouco diferentes. O ser humano, operário ou não, não é uma entidade genérica, abstrata. É um indivíduo concreto, com certos traços físicos comuns aos seus, falando determinada língua, orgulhoso de seus signos culturais, sua culinária, seu folclore, seus mitos fundantes. A certeza, porém, da iminência de uma revolução proletária em todos os países, a começar pelos mais industrializados, era esperança muito viva nos revolucionários do século XIX e primórdios do XX. Do ouro falso dessa esperança, Trótski forjou sua teoria da revolução permanente: uma vez iniciada num país, a revolução proletária não deveria parar aí, mas se irradiar numa reação em cadeia.

Durante a Revolução Russa, Trótski e os outros esperavam, para qualquer hora, a eclosão da Revolução na Alemanha. No poder, os trabalhadores alemães, mais desenvolvidos que os russos, dariam a mão a seus irmãos do Leste, dando início a uma sucessão de revoluções proletárias, que acabariam tomando conta do mundo todo. Sem essa fé, dificilmente os bolcheviques teriam tido tanta coragem para arrostar as incríveis dificuldades com que começou a Revolução Russa. Mas os fatos quiseram diferente. A incipiente revolução alemã foi facilmente tomada pela classe dominante, Rosa Luxemburgo e Liebknecht, seus líderes, sumariamente executados… Adeus, revolução permanente. Em meados dos anos 1920, Stálin começa a patrocinar a ideia do ‘socialismo num só país’, teorização de uma realidade histórica irremediável.” (p. 337)

Detalhe de um mural de Diego Rivera que retrata Trótski e Marx. Saiba mais.

Em 27 de fevereiro e 03 de Março de 1940, em Coyocán, México, Trótski escreve em seus últimos dias entre os vivos algumas palavras que lhe servem de testamento:

“Nos 43 anos de minha vida consciente, permaneci um revolucionário; durante 42 destes combati sob a bandeira do marxismo. Se tivesse que recomeçar, procuraria evidentemente evitar este ou aquele erro, mas o curso principal de minha vida permaneceria imutável. Morro revolucionário proletário, marxista, partidário do materialismo dialético e, por consequência, ateu irredutível. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é menos ardente; em verdade, ela é hoje mais firme do que foi nos dias de minha juventude… A vida é bela. Que as gerações futuras a limpem de todo o mal, de toda opressão, de toda violência e possam gozá-la plenamente. (…) Sejam quais forem as condições de minha morte, morrerei com uma fé inquebrantável no futuro comunista. Esta fé no homem e em seu futuro dá-me, mesmo agora, uma tal força de resistência como religião alguma poderia me fornecer.” – Leon Trótski

LITERATURA FUNDAMENTAL – SÉRIE DE PROGRAMAS DA TV UNIVESP (30 MIN. CADA) – Baudelaire, Camus, Conrad, Dostoiévski, Homero, Montaigne, Platão, Sartre, T.S. Eliot etc.

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Uma seleção de alguns problemas da série Literatura Fundamental da UNIVESP, na íntegra:

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“O BANQUETE”, de Platão
por ADRIANO RIBEIRO MACHADO

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“A REPÚBLICA”, de Platão
por ROBERTO BOLZANI

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“AS METAMORFOSES” de OVÍDIO (43 a.C.)
por ALEXANDRE HASEGAWA

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“O CORAÇÃO DAS TREVAS”, de Joseph Conrad
por MARCOS CÉSAR SOARES

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“A TERRA DESOLADA”, de T.S. Eliot
por VIVIANA BOSI

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“OS CAMINHOS DA LIBERDADE” (Trilogia), de Jean Paul Sartre
por FRANKLIN LEOPOLDO E SILVA

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“OS ENSAIOS”, de Michel de Montaigne
por SÉRGIO XAVIER GOMES ARAÚJO

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“ILÍADA”, de Homero
por ANDRÉ MALTA

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“ODISSÉIA”, de Homero
por ANDRÉ MALTA

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“AS FLORES DO MAL”, de Baudelaire
por ÁLVARO FALEIRO

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“CRIME E CASTIGO”, de Dostoiévski
por ELENA VÁSSINA

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“O ESTRANGEIRO”, de Albert Camus
por CLÁUDIA AMIGO PINO

O DESEQUILÍBRIO É A NORMALIDADE: uma relembrança d’O Alienista de Machado de Assis

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Que exista a palavra “loucura” no singular talvez seja uma doidice da linguagem. Pois no mundo das gentes, quer parecer-me, só há loucuras no plural, doiduras das mais várias e múltiplas, e quase sempre cada um de nós tem dentro si pelo menos uma meia dúzia.

Quase ninguém é doido igual aos mentecaptos ilustres como Dom Quixote ou Rei Lear. As pessoas sempre dão um jeito de inventar uma loucura bastante singular e própria.

O que não impede que os profissionais da área gastem as pontas de seus lápis e as tintas de suas canetas em intermináveis catalogações, classificações, rotulamentos. Dá para encher um dicionário (e já existem) só contendo termos como histeria, psicose, depressão, megalomania, sadomasoquismo e que tais.

Nenhum dicionário esgota todas as potencialidades de diferenciação das mentecaptices humanas. Há as insânias de amor e as de ódio, há as de ganância e as de frugalidade, as de ascetismo e as de libertinagem. Há os que alucinam que são Napoleões e há aqueles que querem enfiar a cabeça na areia, como avestruzes pudorosos, de tanta vergonha de serem quem são…

(Caro leitor, favor levar a sério as reticências que acabo de antepor a vosso caminho, e pareis para pensar por três segundos, ou até minutos, ou até horas, uma para cada ponto, no tanto de gente doida que você já conheceu…).

Se tivesse escrito somente O Alienista, Machado de Assis já mereceria um lugar de destaque naquela seleta galeria de criadores dotados de alta perspicácia em matéria psicológica – como eram Stendhal e Dostoiévski, segundo a avaliação de Nietzsche – ele, que dizia ter aprendido psicologia sobretudo com os mestres da literatura.

A novela tem algo de Fausto, o Doutor Simão Bacamarte sendo também um obcecado pela ciência, pela leitura, pelo saber alquímico capaz de curar os males d’alma… Mas em Machado não há tanto da soturnidade goethiana, já que o brasileiro faz por todas as páginas dúzias de cabriolas e molequices de deixar até um Mefistófeles sentindo-se careta.

Se fosse mais tenebrosa, a obra poderia até passar por um conto de Hoffman ou Edgar Allan Poe. Mas é leitura leve, aprazível, que convida a uma alegre apreciação das irracionalidades humanas, que passam em desfile nesta carnavalesca procissão de doidos, enquanto a narrativa vai desenrolando uma pergunta destinada a tornar-se pulga atrás da orelha do leitor: “se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?” (2007, pg. 59)

Simão Bacamarte, homem de ciência, de nobreza, nascido em berço d’ouro, servidor de Vossa Majestade em Lisboa, torna-se uma espécie de tirano em Itaguaí ao inaugurar seu hospício, A Casa Verde. Doutor Simão garante que não tem interesses capitalistas ao encerrar tanta gente na casa dos doidos, mas ele enriquece velozmente a ponto de poder mandar a esposa, Dona Evarista, para um passeio ao Rio de Janeiro, de onde ela retorna toda adornada de vestidos de seda e pedras preciosas.

Simão Bacamarte atravessa a obra sendo alguém que julga os outros sem antes ter parado para julgar a si mesmo. O alienista considera-se tão evidente e indubitavelmente são, já que está em plena posse do equilíbrio de suas faculdades mentais, que não questiona quase nunca se realmente é são o bastante para ter o direito de sair trancando gente adoidada no hospício.

E o narrador nos garante: foi uma “coleta desenfreada” a que realizou Doutor Simão, agindo um pouco como se fosse o Poderoso Chefão de uma instituição pública que se assemelha à carrocinha que recolhe cães vira-latas – com a diferença de ser destinada aos humanos. Itaguaí apelida o doidódromo de Simão Bacamarte como “Bastilha” e o equivalente Itaguaiense da Revolução Francesa não tarda a estourar: é o levante dos Canjicas!

O Alienista  retrata um amálgama perigoso entre a psiquiatria e o presídio: na novela, a autoridade em psicologia torna-se o executor de um plano quase kafkiano de totalitarismo em que o encarceramento em massa não tarda a surgir como resultado.

A ironia que Machado despeja sobre esta situação provêm da percepção do artista do quão insana seria uma sociedade onde há mais gente presa detrás de grades do que solta ao ar livre – e tudo em nome da preservação da sanidade e segurança públicas.

Machado de Assis analisa com seu sagaz brilhantismo a figura do “cientista maluco”, no caso um doutor em psicologia que acredita fanaticamente que a austeridade, a impassibilidade, a imperturbabilidade, a condição de ser não-emocionável e imune às paixões, como uma estátua de mármore, é o supra-sumo das virtudes.

Bacamarte considera que normal é aquele que está com o cérebro equilibrado; porém, quanto mais conhece o ser humano, mais convence-se de algo diferente: quase todo mundo é um desequilibrado. Logo, aquele que, como Bacamarte, tem um equilíbrio psíquico que não se perturba… esse aí é o maior dos anormais.

O alienista descobre-se alienado. O déspota faz-se libertador daqueles que havia falsamente condenado à sina de anormalidade, e o sábio, de modo até um pouco socrático, diz algo semelhante ao “só sei que nada sei”: louco devo ser eu, de tão equilibrado que sou!

O Alienista é também o retrato de uma sublevação social, com golpes de Estado e massacres, alianças e traições. A maníaca campanha de aprisionamento dos cidadãos de Itaguaí, posta em marcha por Simão Bacamarte e seus paus-mandados, desperta a resistência e a rebeldia popular.

Em uma cena memorável, a sublevação dos Canjicas vai à Câmara para demandar que o tirano Bacamarte cesse de possuir tamanhos poderes de encarceramento. Uma turba desequilibrada e passional exige que o Doutor pare de enterrar vivos em cubículos todos aqueles que manifestam desequilíbrio emocional e furiosas tempestades psíquicas.

“A irritação dos agitadores foi enorme. O barbeiro declarou que iam dali levantar a bandeira da rebelião, e destruir a Casa Verde; que Itaguaí não podia continuar a servir de cadáver aos estudos e experiências de um déspota; que muitas pessoas estimáveis, algumas distintas, outras humildes mas dignas de apreço, jaziam nos cubículos da Casa Verde; que o despotismo científico do alienista complicava-se do espírito de ganância, visto que os loucos, ou supostos tais, não eram tratados de graça: as famílias, e em falta delas a Câmara, pagavam o alienista…” (pg. 58)

Há quem acuse Machado de ser um pouco misantrópico, ou seja, de ser desses doidos que odeiam a humanidade, já que escreveu frases imorredouras como “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Mas O Alienista me deixa com outro sabor na boca que não é o da misantropia, mas muito mais de uma fascinação bem-humorada diante dos comportamentos e crenças humanos. Para Machado de Assis, o homem é um animal fundamentalmente irracional, e como escritor Machado vincula-se a uma longa genealogia de autores – que inclui Luciano, Horácio, Cervantes, Chamfort, Voltaire, Sterne… – daqueles que  proponho chamar de ironistas das irracionalidades de que a condição humana está repleta.

Não é que gente não preste, é só que entre as gentes quase nunca se encontra alguém que não seja singularmente doido. Olhando de perto, ninguém é normal. Ou melhor, como logo descobre, em um insight quase epifânico, o Doutor Simão Bacamarte:  a loucura é quase universal, e quem não é louco portanto é o mais anormal dos anormais.

A quase universalidade da loucura é o que Machado põe-se a examinar, com todas as ironias bem alertas, narrando-nos um causo que não tem poucas ocasiões que nos fazem rir às bandeiras despregadas. Aqui, quem se pretende são é tanto mais suspeito de ser louco por isso. E quem pretende ser louco pode ser que seja são.

Machado embaralha as categorias rígidas a golpes de poesia e arruaça. Pois esse é um texto tão arruaceiro que pode-se dizer que prenuncia a estética punk em quase um século. Tem até 11 mortos e 45 feridos fornecendo o banho-de-sangue que é sempre necessário para uma obra-de-arte alçar-se aos ouropéis gozados por Macbeth, a Ilíada ou Os Miseráveis.

Sangue em profusão jorra quando a rebelião dos Canjicas choca-se contra os dragões armados da legalidade; lendo esta cena, descobrimos que no Rio de Janeiro de Machado já haviam, guardadas as devidas proporções, um caldeirão de hostilidades e loucuras sempre às beiras de degringolar em chacina.

O gênio de Machado de Assis aparece como que concentrado em O Alienista, uma narrativa que nos conduz por uma montanha-russa de ideias estéticas, éticas, políticas, psicológicas, sócio-econômicas.

Por exemplo, a noção de que aqueles que se distinguem por suas perfeições morais são também um pouco malucos, já que desviantes da norma. O normal é ser moralmente imperfeito, cheio de vícios vários, arrastado por  diversas paixões desequilibrantes, de tal modo que Simão Bacamarte, a certo ponto, escolhe curar aqueles “cruelmente afligidos de moderação e equidade” para “restituí-los ao perfeito desequilíbrio das faculdades” (pg. 78).

Uma vida inteira devotada à ciência, à pesquisa do comportamento, para que o Alienista chegasse à este conclusão (bem-louca!): “se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicas todos os casos em que  aquele equilíbrio fosse ininterrupto.” (pg. 72)

O próprio Machado de Assis, decerto um dos maiores escritores da história da América Latina, figura monumental na Literatura Universal, é grandioso também por causa de sua genial loucura. Simão Bacamarte é um símbolo de uma ironia tão lúcida que beira a insanidade: depois de passar uma vida a analisar o ser humano, descobre que aquilo que de mais certo podemos dizer é que nada é mais normal que o desequilíbrio e a irracionalidade. Todo sábio e todo gênio é tão desviante da norma da mediocridade que periga ser rotulado de doido pela turba insana dos normais.

Por Eduardo Carli de Moraes
Para A Casa de Vidro

Todas as citações: 50 Contos de Machado de Assis, selecionados por John Gledson, São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Nietzsche: Além da Metafísica e do Niilismo…

nietzsche + munch

Nietzsche representado em pintura de Edvard Munch (1863–1944)

Na última sexta-feira, 08 de Novembro, defendi minha tese de mestrado, Além da Metafísica e do Niilismo: a Cosmovisão Trágica de Nietzsche, na Faculdade de Filosofia da UFG (Universidade Federal de Goiás). A banca foi integrada por meu orientador Adriano Correia, pela professora Adriana Delbó, ambos da própria UFG, além da convidada Maria Cristina Franco Ferraz (da UFF – RJ), autora dos livros O Bufão dos Deuses, Nove Variações Sobre Temas Nietzschianos e Homo Deletabilis – Corpo, Percepção e Esquecimento do século XIX ao XXI, dentre outros. Os três foram muito simpáticos, prestativos e generosos em suas falas e realmente me auxiliaram muitíssimo com este feedback sobre meu trabalho. Aproveito para agradecer a presença do público que apareceu para prestigiar esta defesa – valeu mesmo a todo mundo que compareceu! Minhas saudações agradecidas aos amigos Anna Paula Campos, Juliana Damázio, Juliana Marra, Kárita Melo, Lídia Freitas, Ramon Pereira, Éder David Freitas, Walquíria Batista, William Bento, e a meus pais João e Mara.

Pra mim este rito de passagem, coroação dos últimos dois anos de intensos estudos e escritos, foi uma experiência intensa, memorável, enriquecedora. O diálogo com a banca realmente abriu meus olhos para certos defeitos e imperfeições do meu trabalho, mas também me deixou satisfeito com a confirmação de seus méritos e com o reconhecimento de seus valores; e agora é seguir avante, investigando e suspeitando, descobrindo e re-questionando, porque o mergulho no pensamento de Nietzsche jamais foi para mim somente um interesse acadêmico, mas algo que seduz e convoca desde as vísceras – e prossigo com vontade de me aprofundar no contato com esta obra magnífica, perturbadora, urgente, tonificante…

Nada seria menos nietzschiano do que acomodar-se na crença de já conhecer Nietzsche, quando este pensador convida muito mais a que nunca estacionemos ou estagnemos em nenhum degrau do conhecimento, mas prossigamos subindo a aventurosa escada do saber – e do criar.  A superação do atual me parece uma convocação constante do pensamento nietzschiano, que repudia todo comodismo e toda estagnação, convidando-nos a uma postura existencial de procura contínua de superar o dado e criar o novo. E esta escada não leva ao céu, mas sim ao futuro – “a única transcendência do homem sem deus”, como diz Camus. Na sequência, compartilho o meu “discurso de abertura”, tentativa de “síntese” do que procuro explorar em mais detalhe e minúcia na tese, além de uma fotografia da banca, souvenir desta “manhã clara e nietzschiana”…

* * * * * 

Gianni Vattimo (1936 - ), pensador italiano, autor de "Diálogos com Nietzsch" (Ed. Martins Fontes),

Gianni Vattimo (1936 – ), pensador italiano, autor de “Diálogos com Nietzsche” (Ed. Martins Fontes),

Bom dia! Agradeço pela presença de todos. E aproveito para saudar os membros da banca e dizer que me sinto como um aprendiz diante de educadores que contribuíram muito com a minha formação durante este mestrado – e a quem manifesto desde já minha gratidão. Nestes 15 minutos iniciais, vou fazer uma breve introdução sobre minha pesquisa sobre Nietzsche – um pensador que, nas palavras de um de seus comentadores, Gianni Vattimo, é “decisivo para o nosso presente e ainda repleto de futuro.”

 Uma das frases mais célebres de Nietzsche está em Ecce Homo: “Eu não sou um homem, eu sou dinamite” [1]. Já o sub-título de Crepúsculo dos Ídolos traz outra imagem de impacto: “Como filosofar com o martelo”. Estes dois retratos que Nietzsche pinta de si mesmo mostram que o filósofo sabe do potencial explosivo de suas críticas e demolições. Mas não nos esqueçamos que a dinamite não serve apenas para destruir e arruinar, mas também para abrir terreno para novas construções [2]. E também que um martelo, nas mãos de um escultor, serve para transformar um bloco de pedra em uma obra-de-arte, e que um médico, por sua vez, utiliza o martelo como instrumento para um diagnóstico clínico.

Na minha investigação, procurei compreender a filosofia nietzschiana como um empreendimento em que as facetas crítica e a criativa são indissociáveis, em que o destruidor e o criador estão reunidos. Uma máxima de A Gaia Ciência expressa isso muito bem: “Somente enquanto criadores temos o direito de destruir!” [3] Não considero, portanto, que o pensamento de Nietzsche seja motivado por um ímpeto apenas iconoclasta, polêmico e aniquilador. Mas sim que procura contribuir para libertar-nos do jugo de morais autoritárias, valores anti-naturais, superstições daninhas, dogmas inquestionados etc. A sabedoria nietzschiana nos convida à afirmação e à celebração da existência, em prol do desabrochar de potencialidades ainda não efetivadas, em favor de uma vitalidade ascendente e transbordante.

Neste trabalho, procurei mostrar que Nietzsche realiza não apenas uma crítica devastadora dos sistemas filosóficos metafísicos, das religiões instituídas e dos valores morais sacrossantos. Mas que há também um esforço, por parte do filósofo, em compartilhar uma sabedoria cujas características procurei explorar e que inclui uma revalorização do corpo, da sensorialidade, do devir, da multiplicidade, da alteridade, da pluralidade de perspectivas etc.

karamazov

“Se Deus não existisse, tudo seria permitido.” – Ivan Karamázov, personagem de Dostoiévski (1821-1881)

Apesar de muitas vezes referir-se a si mesmo como um “imoralista”, isto não significa, como procurei argumentar, que Nietzsche faça apologia de um vale-tudo moral, onde é abolida toda e qualquer responsabilidade e dever. Seria  simplista e falsificador atribuir a Nietzsche a célebre idéia do personagem de Dostoiévski, Ivan Karamázov, que sustenta que “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. Procurei mostrar que a morte de Deus, em Nietzsche, é vista como acontecimento potencialmente libertador, como ocasião para a emergência de novos valores e estilos-de-vida.

“As consequências mais próximas [da morte de Deus], suas consequências para nós, não são, ao inverso do que talvez se poderia esperar, nada tristes e ensombrecedoras, mas antes são como uma nova espécie, difícil de descrever, de luz, felicidade, facilidade, serenidade, encorajamento, aurora… De fato, nós filósofos e ‘espíritos livres’ sentimo-nos, à notícia de que ‘o velho Deus está morto’, como que iluminados pelos raios de uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, assombro, pressentimento, expectativa – eis que enfim o horizonte nos aparece livre outra vez, posto mesmo que não esteja claro, enfim podemos lançar outra vez a o largo nossos navios, navegar a todo perigo, toda ousadia do conhecedor é outra vez permitida, o mar, o nosso mar, está outra vez aberto, talvez nunca dantes houve tanto ‘mar aberto’…” (A Gaia Ciência, 343)

Procurei destacar a ruptura que Nietzsche realiza com uma das correntes hegemônicas da filosofia ocidental, o platonismo, em especial a cisão do real em dois “mundos” (o Sensível e o Inteligível), o que Nietzsche considera uma “fábula”. A ideia de um mundo metafísico, sobrenatural, suposta morada do absoluto e do imutável, seria, segundo o pensamento nietzschiano, um dos mais duradouros equívocos da história da filosofia. Procurei argumentar que, em Nietzsche, todos os conceitos abstratos da razão, forjados a partir da experiência empírica, permanecem tendo uma existência derivada, como produção de cérebros humanos necessariamente vinculados a corpos animados pela vontade. Procuramos elucidar, portanto, o quanto a filosofia de Nietzsche procura refletir sobre a base fisiológica e psico-somática de onde emergem os conceitos abstratos, os valores morais, as doutrinas religiosas etc. Trata-se, como indica Patrick Wotling, de “denunciar as interpretações falíveis que desde Platão triunfam na tradição filosófica, interpretações idealistas, que esquecem seu estatuto e sua fonte produtora, o corpo.” [4]

Procurei elucidar que Nietzsche se mostra contrário a todas as moralidades baseadas no ideal ascético, ou seja, que negam valor ao corpo, ao desejo, às paixões, ao tempo, à esfera dita “mundana”. A ascese, isto é, o esforço auto-mortificante de purificação, baseia-se em geral na crença em uma alma imortal, que supõe-se destinada a um destino glorioso no além-túmulo. Nietzsche diagnostica neste ideal ascético uma hostilidade contra a vida, uma “calúnia” contra a realidade terrena, um anátema lançado contra o corpo e seus instintos, uma incapacidade de afirmação da existência em sua real finitude e em seus incontornáveis tormentos. Como diz Oswaldo Giacóia, o ideal ascético, como se manifesta por exemplo no platonismo e no cristianismo, “leva a efeito um movimento de completa desvalorização da imanência em proveito da transcendência. (…) Representa, assim, a desvalorização absoluta do ‘mundo’ e da ‘vida’ em proveito de uma vida imaginária, de um ‘além-do-mundo’.”[5]

O esforço de crítica da moral que Nietzsche empreende, portanto, tem como intenção possibilitar uma libertação das energias vitais que foram sufocadas, reprimidas e culpabilizadas por doutrinas morais ascéticas que oprimem os corpos, condenam os prazeres e pregam a hipertrofia de uma razão tirânica contra as paixões. Como diz Tongeren, “mediante uma crítica à moral, Nietzsche pretende abandonar intencionalmente o caminho aplainado e descobrir a abertura para aquilo que é possível para além desse horizonte, a abertura para ‘muitas auroras que ainda não brilharam’.” [6]

* * * *

nietzsche (2)
Em meu trabalho destaco também que Nietzsche confere muita importância ao senso histórico, isto é, a um pensamento filosófico sempre atento ao ininterrupto fluir do tempo. Nietzsche forjou seu método genealógico no intento de compreender como vieram-a-ser as instituições, legislações, valores morais, costumes e crenças com que hoje nos deparamos. Compreender a origem histórica dos valores morais e relacionar seu surgimento a conflitos sociais de classe e jogos de dominação equivale a mostrar quão infundada e ilegítima é a pretensão das morais e das religiões de possuírem uma verdade eterna de fonte divina. Em Humano, Demasiado Humano, por exemplo, Nietzsche critica um defeito de muitos filósofos, que:

“Involuntariamente imaginam o homem como uma verdade eterna, como uma constante em todo o redemoinho, uma medida segura das coisas. Muitos chegam a tomar a configuração mais recente do homem, tal como surgiu sob a pressão de certas religiões e de certos eventos políticos, como a forma fixa de que se deve partir. Não querem aprender que o homem veio a ser, e que mesmo a faculdade de cognição veio a ser…  Tudo veio a ser, não existem fatos eternos, assim como não existem verdades absolutas. – Portanto, o filosofar histórico é doravante necessário, e com ele a virtude da modéstia.” [7]

heraclito

“Tudo flui. Não se entra duas vezes no mesmo rio.” – Heráclito de Éfeso (535 a.C. – 475 a.C.)

Quis mostrar que a filosofia de Nietzsche combate, portanto, a idéia de que existem valores morais, sistemas filosóficos ou doutrinas religiosas de validade eterna, verdade absoluta ou universalidade legítima. A própria Humanidade é concebida como um fenômeno histórico, re-inserida na Natureza que lhe deu origem, de modo que Nietzsche rompe também com a noção criacionista de uma origem sobrenatural para o homem. Por estar “embarcado” na correnteza da história, e por ser uma espécie animal dentre milhões de outras que co-existem no seio da Natureza em fluxo, o homem é inescapavelmente um ser mutante, que integra um cosmos eternamente movediço. Quer aceite este seu destino, quer lute contra ele, cada um de nós, para usar a expressão da canção de Raul Seixas, é uma “metamorfose ambulante”. Procuro compreender o pensamento de Nietzsche, portanto, como fiel ao preceito do filósofo grego Heráclito, que sustentava que “tudo flui” e que “é impossível entrar duas vezes no mesmo rio”.

Considero ainda que Nietzsche jamais sugeriu “fazer tábula rasa do passado”, nunca elogiou o esquecimento da História ou o aniquilamento de seus legados, mas sim uma relação dinâmica e fecunda com o passado: como escreve Karl Jaspers, “em nenhuma parte Nietzsche estima o ato de esquecer o que foi transmitido pela história e recomeçar a partir do nada… Toda sua obra é penetrada por seu intercâmbio com a grandeza do passado, mesmo daquele que ele rejeitou.”[8]

Prova desta relação frutífera com o passado é o modo como Nietzsche reativa a potência do mundo grego pré-socrático, como por exemplo os ritos dionisíacos e a obra dos poetas trágicos (em especial Ésquilo e Sófloces). Nietzsche formulou assim uma sabedoria, que encarna em seu Zaratustra ou nos espíritos livres, cujas características procuramos explorar nessa pesquisa: trata-se de um sujeito afirmador de sua vontade e de seu corpo, criativo e questionador, capaz de superar todo ressentimento através do amor fati, que jamais se acomoda em sua estado atual e procura sempre superar-se, e que age no mundo mais como sátiro do que como santo, mais como dançarino do que como estátua. Em A Gaia Ciência, por exemplo, Nietzsche pinta o retrato do espírito livre, que seria dotado de “uma alegria e uma força de soberania  (…) em que o espírito recusaria toda fé, todo desejo de certeza, tendo prática em manter-se sobre as cordas leves de todas as possibilidades e até mesmo em dançar à beira do abismo. Esse seria o espírito livre por excelência.” [9]

Para Nietzsche, as convicções e os dogmas são inimigos do filósofo e prejudicam-nos em nossa aventura de conhecimento. Quem quer de fato tornar-se amigo da sabedoria tem de ousar libertar-se de certezas apaziguadoras, crenças reconfortantes e tomadas-de-partido inquestionadas. Como diz em Aurora: “A serpente que não pode mudar de pele perece. O mesmo ocorre com os espíritos que se impedem de mudar de opinião; cessam de ser espíritos.” [10] O filósofo autêntico, de acordo com Nietzsche, é uma figura em que se encarna um certo ímpeto heroico de busca pelo saber. Relembremos as palavras de Aurora:

“Nosso impulso ao conhecimento é demasiado forte para que ainda possamos estimar a felicidade sem conhecimento ou a felicidade de uma forte e firme ilusão. (…) A inquietude de descobrir e solucionar tornou-se tão atraente e imprescindível para nós (…) que o conhecimento transformou-se em paixão que não vacila ante nenhum sacrifício e nada teme, no fundo, senão sua própria extinção…” [11]

Um clássico comentário do pensamento de Nietzsche escrito por Karl Jaspers

Um clássico comentário do pensamento de Nietzsche escrito por Karl Jaspers

A filosofia, afinal, não é uma busca interesseira por ideias apaziguadoras ou convicções agradáveis, nem por um cômodo repouso no colo de verdades imutáveis, mas um heróico navegar, em mares perigosos, em busca de um saber sobre o real que nada garante que terá um sabor doce ou que vá nos tornar felizes. O filósofo autêntico, para Nietzsche, segundo nossa interpretação, é aquele que ousa ir à conquista de um saber, ainda que este possa ter um gosto amargo e ainda que acarrete consequências trágicas; é aquele que, como diz Karl Jaspers, tem a coragem de entrar no labirinto, como fez Teseu, mesmo sabendo que terá que defrontar-se com o Senhor Minotauro. [12]

Consideramos que o efeito do convívio com a obra Nietzsche é a de um tônico para a vontade-de-viver. Eis uma filosofia, enfim, onde há muita sabedoria a assimilar, em especial por aqueles que, como diz Giacóia, “não temem fazer dos abismos do sofrimento uma fonte inestimável de conhecimento.” [13]

Em suma: procuramos mostrar o pensamento de Nietzsche como superação tanto da metafísica quanto do niilismo, culminando numa cosmovisão trágica que, longe de ser pessimista, significa uma celebração dionisíaca da existência como ela é, sem exclusão de seus aspectos mais dolorosos e problemáticos. Arqui-inimigo da apatia da vontade, do niilismo desalentador, do ascetismo auto-mortificante, Nietzsche, através de sua obra, canta um hino à vida que inclui um louvor à alegria, aquele afeto que, segundo Spinoza, aumenta nossa potência de existir. Como diz Zaratustra: “Desde que existem homens, o homem se alegrou muito pouco: apenas isso, meus irmãos, é nosso pecado original!” [14] Já em Humano, Demasiado Humano, Nietzsche escreve: “Eis o melhor meio de começar cada dia: perguntar-se ao despertar se nesse dia não podemos dar alegria a pelo menos uma pessoa. Se isso pudesse valer como substituto do hábito religioso da oração, nossos semelhantes se beneficiariam com tal mudança.” [15]

Para concluir este prelúdio, cito mais uma instigante idéia de Nietzsche, que me parece um belo emblema de seu convite à “fidelidade à Terra”, em oposição à idolatria religiosa de ídolos sobrenaturais ou metafísicos: “Não há no mundo amor e bondade suficientes para que tenhamos direito de dá-los a seres imaginários.” [16]

Eduardo Carli de Moraes,
Goiânia – 08/11/2013

* * * * *

REFERÊNCIAS:


[1] NIETZSCHE, Ecce Homo. Por Que Sou um Destino, §01.

[2] É o que aponta Martha Nussbaum: “Indeed, this was the whole purpose of genealogy as Nietzsche, Foucault’s precursor here, introduced it: to destroy idols once deemed necessary, and to clear the way for new possibilities of creation.” Citada por Brobjer, Nietzsche’s Ethics of Character, Pg. 49.

[3] NIETZSCHE. A Gaia Ciência, §58.

[4] Ibid. Pg. 155.

[5] GIACOIA, O. Labirintos da Alma: Nietzsche e a Auto-Supressão da Moral. Pg. 13-38.

[6] TONGEREN, P.V. A Moral da Crítica de Nietzsche à moral. Pg. 43-44.

[7] NIETZSCHE. Humano, Demasiado Humano. Capítulo 1, §2.

[8] JASPERS. Nietzsche: Introduction à sa Philosophie. Pg. 445.

[9] NIETZSCHE. A Gaia Ciência. §347.

[10] NIETZSCHE. Aurora.  §573.

[11] Ibid, §429.

[12] JASPERS. Op Cit. Pg. 231.

[13] GIACOIA. O Humano Como Memória e Como Promessa. Pg. 183.

[14] NIETZSCHE. Assim Falou Zaratustra. Op cit. Livro II, Dos Compassivos. Pg. 84.

[15] NIETZSCHE. Humano Demasiado Humano, §589.

[16] Humano, Demasiado Humano, § 129. Citado a partir de Lou Andreas-Salomé, op cit, Pg. 139: “Il n’y a pas assez d’amour et de bonté dans le monde pour avoir licence d’en rien prodiguer à des êtres imaginaires.”

Souvenir da banca na companhia de Adriana Delbó, Maria Cristina Franco Ferraz e Adriano Correia.

Um souvenir fotográfico da banca – com Adriana Delbó, Maria Cristina Franco Ferraz e Adriano Correia.

P.S. – nos próximos meses, tentarei desmembrar este mestrado em 3 ou 4 artigos, a serem publicados em revistas de filosofia, se possível, ou aqui no blog mesmo, pra “socializar” a pesquisa e “pôr na roda” o conhecimento. Em breve!

Siga viagem…

“PAIS E FILHOS”, de Ivan Turguêniev [1818-1883] (Ed. Cosac & Naify, 2ª Edição, 2011, 361 pgs)

 

“O lugarzinho estreito que ocupo é tão minúsculo em comparação com o espaço onde eu não estou e onde as coisas não me dizem respeito; e a parcela de tempo que me foi dada para viver é tão ínfima ao lado da eternidade, onde não estive e nunca estarei… Mas neste átomo, neste ponto matemático, o sangue circula, o cérebro trabalha, também ele quer alguma coisa… Mas que vergonha! Que disparate!” – BAZÁROV (pg. 195)

pais e filhos

Pais e Filhos vem ao mundo numa época em que “uma Rússia morria e outra Rússia nascia” – como diz a matéria da revista Bravo!. O fim da servidão, em 1861, foi um histórico divisor de águas; no mesmo ano, é criado o movimento Terra e Liberdade, “a primeira de uma série de organizações políticas secretas empenhadas em ações violentas contra autoridades e instituições oficiais” (como relata Figueiredo no prefácio da obra). Iniciava-se uma era turbulenta, repleta de atentados violentos contra o ancien régime, que culminaria, em 1881, com o assassinato do tsar Alexandre II. 

“A polêmica que se seguiu à publicação de Pais e Filhos foi a maior de que se tem notícia na literatura russa”, relata o tradutor Rubens Figueiredo, que verteu o livro para o português direto do russo. “O termo ‘niilista’, usado por Turguêniev para definir seu herói Bazárov, popularizou-se instantaneamente e, como que de propósito, uma sucessão de incêndios criminosos de cunho sabidamente político agitou São Petersburgo. Quando Turguêniev, vindo da Europa, onde sempre passava a maior parte do ano, chegou à capital, ouviu na rua a acusação de um homem indignado: ‘Olhe só o que os seus niilistas estão fazendo: estão pondo São Petersburgo em chamas!’ Turguêniev, homem de índole pacífica e cordial, fora apanhado no meio de um turbilhão…”.

A leitura do romance torna evidente que seu autor não está elogiando, endossando ou recomendando as atitudes niilizadoras de seu protagonista; em outras palavras, Turguêniev está longe de ser ele mesmo um niilista e nada seria mais equívoco do que imputar ao autor uma visão-de-mundo idêntica a de seu personagem. Neste livro, dedicado à memória de Biélinski, elogiado por Herzen e Dostoiévski, Turguêniev  “manifesta contínuo esforço de imparcialidade” (pg. 8) e sua postura fica “longe de qualquer pendor panfletário ou mesmo polêmico” (pg. 14), afirma com propriedade o Rubens Figueiredo. Se Pais e Filhos gerou um bafáfá danado, parece-me que foi a despeito das intenções do artista, que jamais quis inspirar radicais violentos a pôr a Rússia “em chamas” – de modo similar a Goethe, que tampouco desejou, com seu Werther, desencadear na Alemanha uma série de suicídios.

Como Figueiredo destaca com acerto, “a singularidade e a audácia do livro consistiram em investigar, em termos literários, um quadro social novo e potencialmente explosivo no exato instante em que nascia… Turguêniev tinha de caminhar enquanto o solo se deslocava rapidamente sob seus pés.” (pg. 8) A matéria da Bravo! também enfatiza que “o efeito do romance foi o de uma cortina que se abre e deita luz sobre uma cena a desenvolver-se na penumbra.” Esta realidade penumbrosa, ainda inexplorada na literatura até então, este monstro nascente, não é outro senão diagnosticado também por Nietzsche, que foi contemporâneo da eclosão de incendiárias manifestações da niilina russa. 

Segundo Nietzsche, a Europa do século XIX foi invadida por um “hóspede sinistro”: o niilismo. No âmbito da filosofia nietzschiana, este termo se refere àqueles que negam todo valor à existência (a própria, a dos outros e a do mundo), que são incapazes de afirmar a realidade terrena e amar o destino. Para Nietzsche, são niilistas tanto os crentes em um Deus único e transcendente, que concluem de sua fé que devem negar o pecaminoso e corrupto mundo da carne e dos sentidos, quanto aqueles que, como Schopenhauer e os budistas, convidam à negação da vontade ou à extirpação do desejo, baseados na ideia de que o querer é a fonte de todo o sofrer. Contra a disseminação epidêmica destas doutrinas impregnadas de niilina, Nietzsche pôs em ação todo seu ardor intelectual e poder criativo, tendo se tornado talvez o maior dos mestres para aqueles que desejam superar o niilismo, vê-lo abaixo de si…

O livro de Turguêniev celebrizou-se como a primeira obra literária a protagonizar um auto-declarado “niilista”, o médico e estudioso das ciência naturais Bazárov. Na primeira ocorrência do termo no romance, o “niilista” é descrito por Arkádi, o camarada e companheiro de peripécias de Bazárov, como alguém que “considera tudo de um ponto de vista crítico” (pg. 48). Mas nem todo cri-cri é um niilista, claro: muitos críticos são afirmadores de mundivisões, valores e mitos distintos daqueles que se empenham em criticar (o próprio Nietzsche é um excelente exemplo!). Na sequência, Arkádi adiciona outros traços ao retrato de seu amigo: “O niilista é uma pessoa que não se curva diante de nenhuma autoridade, que não admite nenhum princípio aceito sem provas, com base na fé, por mais que esse princípio esteja cercado de respeito.” (pg. 48)

Definição interessante, mas que também caberia a um anarquista ou um punk. E, ao contrário do que julga o senso-comum, estes não são necessariamente niilistas: anarquistas como Kropotkin ou Emma Goldman podem negar com veemência a autoridade do Estado, criticar com insolência o sistema capitalista, criticar severamente a apropriação privada dos frutos do trabalho das massas, mas por outro lado afirmam com ardor valores de solidariedade, fraternidade e igualitarismo, engajam-se na construção de um mundo liberto de autoridades espúrias, exploradoras e parasitas.  “Niilista” e “anarquista”, pois, não são termos sinônimos. Além do mais, a definição de Arkádi, citada no parágrafo anterior, também conviria perfeitamente à figura do cético ou do cínico, aqueles que recusam qualquer tipo de sacralidade dos dogmas e doutrinas, que rejeitam todos os argumentos de autoridade… A essência do “niilismo bazároviano” deve ser buscado mais fundo, pois.

Em uma das cenas mais notáveis do romance, Bazárov dialoga com Ana e lhe confessa ser completamente desprovido de “sentido artístico” (“de fato não existe em mim tal coisa…”). Diante de fotografias de paisagens suíças, ele permanece afetivamente indiferente, incapaz de enxergar qualquer beleza. “Essas paisagens poderiam me interessar do ponto de vista geológico, por exemplo, do ponto de vista da formação das montanhas…” (pg. 133). Esta frieza é uma marca do caráter de Bazárov, que não tem um pingo de gosto pela poesia, pela música ou pela contemplação da Natureza: tudo isso não parece encontrar eco em sua sensibilidade, como se esta estivesse congelada por uma nevasca. O próprio Turguêniev dirá, em suas Reminiscências, que partilha muitas das ideias de seu personagem, que admira em sua criatura o fato de Bazárov ser “soberanamente alheio a tudo que é trivial, vulgar e falso”, mas que não compartilha com ele este vigoroso desdém pela arte e pela beleza.

 Isto se manifesta de modo explícito nas relações humanas de Bazárov, que age quase sempre com rudeza, insolência, falta de gentileza. Ele é  arredio a todo tipo de sentimentalismo e sempre deseja de se livrar do “registro afetivo” sempre que este se manifesta. Ao contrário de um anarquista ou de um punk, por exemplo, Bazárov é um sujeito que não se vincula, que não se une, que permanece ilhado numa solidão anti-social obstinada. O leitor o acompanha em sua marcha niilizadora em que ele aniquila, uma após outras, todas as oportunidades de consumar amores e de amizades.

O romance de Turguêniev, pois, tem acentos trágicos: não descreve um homem afetuoso, bem-sucedido, triunfante, mas alguém que tem a vida desgraçada por seu comportamento sempre niilizador das opiniões e comportamentos do meio social que o rodeia. Ele não suporta nem os mujiques nem os “senhores feudais”; não tem respeito algum seja pelo tsar, seja pelo povo, seja por si mesmo. É bem verdade que esta disposição de espírito misantrópica acaba gerando, vez ou outra, comentários irônicos mordazes que lembram a língua ferina e impiedosa de autores como Heine, Chamfort ou Sade. Mas se vez ou outra Bazárov aparece aos olhos do leitor como espirituoso e inteligente, esta simpatia dificilmente se mantêm nos momentos em que ele que se torna mais bélico – como na cena do duelo de pistolas contra seu desafeto Pável… – ou quando ele se mostra incapaz de tratar uma mulher linda e interessante (como Ana) com o devido carinho e amorosidade.

Vejam, por exemplo, o que ele diz à Ana em um dos primeiros diálogos dos dois:

“- Garanto à senhora que estudar as personalidades individualmente não vale a pena. Todas as pessoas se parecem no corpo e também na alma; todos temos cérebro, baço, coração, pulmões, tudo igualmente constituído; assim também as chamadas qualidades morais são exatamente iguais em todos: pequenas alterações nada significam. Basta um exemplar humano para julgar todos os demais. Pessoas são como árvores na floresta; botânico algum se daria ao trabalho de estudar cada bétula isoladamente…” (pg. 134)

Terrível equívoco, diante de uma mulher com quem o amor é possível, promulgar orgulhosamente, do alto de um púlpito, este discurso niilizador da diferença, que reduz o outro a ser igual a qualquer um! Não surpreenderá a nenhum leitor, pois, que a vida amorosa de Bazárov seja tão insatisfatória: ele explicitamente não valoriza o amor (ele não chega ,es,p a xingar o “romantismo” por não ser nada além de “espalhar açúcar sobre as coisas”?). De modo que fecha as portas a todas as possibilidades de vínculos jubilativos e alegradores da existência. “Bazárov era um grande apreciador das mulheres e da beleza feminina”, escreve Turguêniev, “mas considerava o amor, no sentido ideal ou, conforme ele dizia, romântico, um disparate, uma insensatez imperdoável… ‘Se uma mulher lhe agrada’, dizia ele, ‘tente tirar algum proveito; se não for possível, bem, não importa, dê as costas para ela e pé na estrada: o mundo é grande’…” (pg. 146).

Como se surpreender com o desenlace infeliz da relação entre Bazárov e Ana? Nosso niilista, ao negar qualquer valor a si mesmo, ao tripudiar sobre a auto-estima como se fosse seu dever tratar a si mesmo como um trapo, parece acarretar em sua vida o afastamento dos outros, que descobrem logo que serão pouco ou nada valorizados por alguém que não se valoriza. “Não vale a pena sentir saudades das pessoas, de um modo geral, e de mim, menos ainda…” (pg. 150) – declara Bazárov a Ana.

Os momentos mais comoventes do romance, segundo o meu gosto, são estes em que Turguêniev narra o modo como este vínculo amoroso fracassa. Ana não consegue evitar a sensação de que Bazaróv “a conhece pouco, apesar de crer que todas as pessoas se parecem e que não vale a pena estudá-las individualmente” (pg. 152). Aliás, não seria um sintoma da falta de conhecimento real dos outros esta crença bazaróviana que desdenha das particularidades e que não enxerga ninguém como único? Destaco um diálogo magistral de Ana e Bazárov onde ela força uma conversação sobre o tema da felicidade, sobre a qual nosso niilista conhece tão pouco:

“- Falávamos sobre a felicidade…. Diga-me por que, mesmo quando experimentamos um prazer, por exemplo, com uma música, com uma noite agradável, com uma conversa entre pessoas simpáticas, por que tudo isso parece antes uma alusão a alguma felicidade ilimitada, que existe não se sabe onde, do que uma felicidade real, ou seja, aquela que nós mesmos desfrutamos? Por que é assim? Ou, quem sabe, o senhor não sente nada de parecido?

– A senhora – respondeu-lhe Bazárov – conhece o provérbio: ‘Lugar bom é onde não estamos’…” (pg. 160)

Como seu próprio título já anuncia, Pais e Filhos é também um livro em que Turguêniev explora o tema do conflito entre as gerações. Escrito numa época (entre 1860 e 1862) em que a Rússia começava a se sublevar contra a tirania ancestral do tsarismo, em que a servidão dos camponeses começava a ser questionada e novas formações sociais emergiam, nota-se uma diferença radical entre pais e filhos – explorada no romance através da relação entre o filho Bazárov e seus ímpetos niilistas, de um lado, e seus velhos pais, devotos e tradicionalistas, de outro.

Apesar de dedicar-se ao estudo das ciências naturais e ser praticante da medicina, Bazárov é um sujeito baudelaireano que sofre terrivelmente com o spleen, tédio de viver, a sensaboria de estar-no-mundo e sentir-se insignificante no espaço e no tempo. Sua fala citada na epígrafe é um dos exemplo deste estado de espírito. A certo momento, confessa a seu amigo Arkádi: “Meus pais vivem atarefados e não se incomodam com a própria nulidade, não sentem esse mau cheiro… enquanto eu… sinto apenas enfado e raiva.” (pg. 196)

Bazárov visita raramente seus pais, e quando vai vê-los não permanece por muito tempo; além do mais, quando visita-os, exige que seja respeitada sua “reserva afetiva”: que não lhe incomodem com mimos e carinhos excessivos, que tenha o direito de permanecer só!  Seu pai assim descreve seu rebento: “É inimigo de qualquer expansão de afeto; muitos até o condenam por essa dureza do seu caráter e veem nisso um sinal de orgulho ou de insensibilidade; mas não se pode medir pessoas como ele com o metro comum, não é verdade? Outro, em seu lugar, não deixaria de tirar dos pais todo o dinheiro que pudesse; mas, de nós, acredite-me, ele nunca tomou um copeque além do necessário…” (p. 192).

De fato, Bazárov também é um homem de vida frugal, que não aprecia o luxo, inimigo de uma sociedade hierarquizada e rachada em castas. Uma frase me parece sintetizar bem a personalidade de Bazárov: “ele não gostava dessa pontualidade cadenciada e um pouco solene na vida diária; ‘como rodar sobre trilhos’, sentenciava ele; lacaios de libré e mordomos cerimoniosos insultavam o seu sentimento democrático…” (pg. 144). Ele não pode suportar a vida bem-regrada dos pais, que lhe enche de tédio, mas ao mesmo tempo não consegue se desvincular de fato de seu meio social de origem: uma estranha atração faz com que ele retorne ao seio familiar como um bumerangue. 

Incapaz de apreciar uma vida bem-regrada, com um cotidiano fixo de ações previamente mapeadas, ele deseja lançar-se “para fora dos trilhos” da comodidade e do conforto… “O lado elegante da vida me é inacessível”, confessa à Ana. Mas o curioso é que também este desejo permanece irrealizado e, longe de aventurar-se em peripécias quixotescas ou embarcar em viagens cheias de perigo, Bazárov aferra-se a estes meios sociais que considera tediosos e banais: grande parte do romance narra o modo pouquíssimo aventureiro com que Bazárov, acompanhado por seu escudeiro Arcádin, fica pulando de casa em casa, em visitas aos parentes (os seus e os de seu amigo).

Além do mais, não consegue se libertar de um ideário viril em que crê que “o homem deve ser feroz”, de modo que considera a companhia feminina como um rebaixamento ou uma fraqueza. Além disso, não há nenhum tipo de engajamento político do personagem no romance: Bazárov é um niilista isolacionista, que não luta por nenhum mundo melhor, nem mesmo através das bombas e atentados destinados a “limpar o terreno”. O que torna surpreende os efeitos imputados ao livro de ter influenciado os incendiários terroristas de São Peterbursgo!

Bazárov é de fato um personagem memorável: fechamos o livro com a sensação de que conhecemos uma pessoa que não iremos esquecer mais, apesar de seus equívocos, fraquezas, desventuras. Ele não é um modelo de conduta, um paradigma de virtude, nada se assemelha a um herói ou a um santo; é humano, demasiado humano, e sua vida é narrada por Turguêniev sem idealizações, com a inclusão de seus infortúnios e tragédias.

 Ademais, para os estudiosos de Nietzsche, esta não deixa de ser uma experiência estética altamente válida, não só por oferecer um exemplo literário de niilista encarnado, mas também para mostrar que o niilismo não é uno: há vários modos de ser niilista, sendo Bazárov um tipo particular de existência niilizadora. O que Bazárov nega, sobretudo, além de uma sociedade revoltante e de autoridades indignas de respeito, é a possibilidade humana de vínculo e de transformação. A impressão indelével que me fica é a de que Bazárov só é um niilista consumado pois é um descrente no amor.

A leitura do romance de Turguêniev foi iluminadora, pois, para refletir mais a fundo sobre este tema tão importante para a filosofia dos últimos séculos, em especial no âmbito do nietzschianismo, do niilismo. Decerto que, em Nietzsche, há um vínculo entre niilismo e metafísica – o que Turguêniev não explora. Compreendo o niilismo, segundo Nietzsche, como uma orgia de negação que acomete os espíritos que se desiludem das miragens metafísicas: quando se perde a crença em Deus, ou na bondade da Natureza, ou no final feliz da História, e ainda não se encontrou nenhum substituto para estes ídolos caídos, o sujeito tende a mergulhar numa náusea existencial de completa negatividade.

Os valores metafísicos, as verdades absolutas, os finais-felizes redentores, tudo isso, quando se esboroa no universo interior, quando deixa de ser crível, gera este estado afetivo niilizador em que o sujeito, nostálgico do absoluto, não consegue suportar a relatividade do real, a efemeridade da vida, os antagonismos que povoam a Terra. Para Nietzsche, ademais, o próprio pensamento religioso ou metafísico possui um elemento profundamente niilista na medida em que postula uma dimensão transcendente, morada do Bem e da Verdade, o que acarreta a depreciação da imanência. Em termos mais simples: niilista é aquele que não dá valor nenhum ao aqui-agora (a imanência…) pois só consegue valorizar o alhures (a transcendência).

Depois de aniquilada a crença numa transcendência redentora (Paraíso, Reino de Deus, Imortalidade da Alma, Utopia Realizada…), resta ao homem um novo desafio: o de aprender a amar o real. O niilista é aquele que se mostra incapaz deste amor fati; é o homem que insiste em recusar valor ao que existe; aquele que, diante de tudo, diz “tanto faz” e “tudo dá no mesmo…”. Descrente de tudo, cultuador da indiferença, com fixação mórbida por Tânatos, incapaz de ação criadora, transformadora e colaborativa, congela seus afetos e sua criatividade, sua capacidade de vínculo e sua aptidão para o êxtase, prostrando-se em devoção preguiçosa no altar do Nada.

Como antídotos à esse sinistro hóspede, a obra de Nietzsche fornece muitas sugestões: remeto brevemente à figura de Zaratustra, o anti-niilista por excelência, discípulo de Dionísio, dançarino ornado com sua coroa de flores, santificador do riso, mais sátiro que santo, que está nas antípodas do niilismo. Ou seja, Zaratustra é alguém em quem o poder afirmativo atingiu tal ardor que a existência é jubilosamente celebrada, com tudo o que ela inclui de problemático e terrível, com um “sim!” veemente e incondicional.

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