A CASA QUE JACK CONSTRUIU – Lars Von Trier nos provoca a pensar sobre Mal e a Carnificina em tempos de Neofascismo

“O truque mais esperto do Diabo é convencer nos de que ele não existe.”
Charles Baudelaire

Nesses tenebrosos tempos de neofascismo, os artistas que estão à altura de seu tempo têm reagido com obras importantes e significativas que nos nos provocam a pensar sobre o Mal e a Carnificina na atualidade.

Lars Von Trier, por exemplo, transforma seu filme de serial killer, um gênero já tão surrado depois de tantas repetições de suas fórmulas, em uma ousada tese fílmica de psicologia social e de sociologia quase-de-boteco. Com pitadas de teologia herética.

Aborda, como Dogville e Manderlay já faziam, os vínculos entre a encarnação atual do fascismo nas Américas (por exemplo, nos EUA de Trump e no Brasil sob a batuta do Bolsoasnismo) e as atrocidades do III Reich hitlerista. Enquanto narra os assassinatos em série cometidos por seu protagonista Jack, Lars Von Trier dá uma aula magna de pensamento crítico em forma de cinema.

Jack (Matt Dillon), que começa o filme massacrando a personagem de Uma Thurman, éum homem branco, um arquiteto ambicioso, todo aprumado em seu terno-e-gravata, com a carteira e a conta bancária repletos de dólares em excesso. Esse riquinho e engomadinho é também um canalha sádico irremediável e nefasto. Um ícone do elitismo agressivo e desumanizador.

Como este cineasta, organizando seu enredo em “5 Incidentes” somados a um epílogo, é também um dramaturgo de muita experiência e fina ironia pontiaguda, The House That Jack Built torna-se uma obra-de-arte das mais significativas e perturbadoras.

É um filme que merece nossa consideração na companhia dos também incríveis Psicopata Americano de Mary Harron; O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme; A Síndrome de Stendhal, de Dario Argento; Onde os Fracos Não Têm Vez dos brothers Coen; das obras-primas de David Fincher: Clube da Luta Seven; dentre outros.

Lars Von Trier é um enfant terrible e sua última diabrura deixará muita gente perturbada. Digo de experiência própria, pois somente 1/3 das pessoas que entraram comigo na sessão no Lumière, no Bougainville / Goiânia, resistiram à sessão e ficaram no cinema até os créditos finais.

Como sabe quem viu outros filmes chocantes de Trier, como Anticristo ou Os Idiotas,este artista não tem pacto com nosso conforto emocional, não tem pudor de impiedosamente esmurrar nosso anseio de consolo.

Trier faz filmes que causam um grau de perturbação que faz com que muitos sujeitos fujam do cinema quase que aos gritos, saturados de tantas atrocidades. É uma espécie de estética do choque, onde ainda pulsa um pouco do espírito transgressor do movimento Dogma 95, que Trier iniciou junto com seu parceiro Thomas Vinterberg.

O cineasta genial, autor dos emocionalmente devastadores dramas Dançando no Escuro Ondas do Destino, irá focar sua atenção sobre a mente perturbada de um assassino serial que, acreditem ou não, é uma espécie de Encarnação do Fascismo.

A Casa Que Jack Construiu demonstra a inesgotável capacidade deste genial cineasta dinamarquês de construir, através de seu cinema perturbador e chocante, enredos que nos comovem e que provocam reflexões filosóficas e estéticas absolutamente mind-blowin’: neste caso,Trier nos convida a pensar a fundo, e radicalmente, sobre os vínculos entre arte e política.

Vejamos, por exemplo, o anseio de beleza que estava neste idealismo psicótico que subjaz à ideologia nazista.

Lars Von Trier hackeia a história das artes plásticas, sobretudo da pintura e da arquitetura, para propor neste seu filme-tese, de ousadia impressionante, algumas reflexões importantes sobre Civilização e Barbárie. Em muitos pontos da obra, ele parece dialogar com as teses de um documentário muito importante na história do cinema de não-ficção: Arquitetura da Destruição, de Peter Coen, narrado por Bruno Ganz (ator que já interpretou HItler em A Queda e que foi encarnou o equivalente do poeta romano Virgílio neste novo filme de Trier).

Hitler era um aspirante a artista, mas foi um fiasco e não concretizou suas aspirações. Hitler era uma espécie de pintor frustrado, que nunca obteve reconhecimento ou glória por suas obras, muitas delas umas kitschy-aquarelas que realmente não chegam nem aos pés de um Van Gogh ou um Delacroix. No poder, os hitleristas iriam perseguir, queimar e incinerar o que consideravam “arte degenerada”. Já a “arte boa” eles iriam saquear de museus por toda a Europa em que conseguiram penetrar com a força bruta de seu militarismo.

É dessa bizarra conjunção entre artista frustrado e líder autoritário, que se encarna em Hitler, que Lars Von Trier parece partir para exercitar seus dons para a dramaturgia provocativa.

Pois o protagonista de A Casa Que Jack Construiu é um arquiteto, mas que fracassa sempre na construção de sua super-casa, sempre demolida para que ele possa recomeçá-la. Um loser na arquitetura, mas também incapaz para o amor e as satisfações sexuais em todas as suas relações. Um caráter cheio de couraças e escudos que o separam das alegrias do encontro, Jack torna-se esta mescla bizonha de homem culto com psicopata agressivo.

Devo dizer que a escrita de Lars Von Trier é impressionante: pela qualidade de seu inglês, este cara nascido na Dinamarca evoca a lembrança do polonês Joseph Conrad, que manejava a pena na língua inglesa com uma maestria muito superior à de 99% dos cidadãos nativos de uma nação que fala inglês. Lars Von Trier também escreve roteiros maravilhosos em inglês, onde usa técnicas e táticas aprendidas com alguns dos mestres supremos da dramaturgia como Ibsen, Strindberg, Brecht, Shakespeare, O’Neil, Arthur Miller, Harold Pinter, dentre outros.

Um exemplo do  hacking cultural que Lars Von Trier pratica a torto e a direito nesta obra é o quadro de Delacroix que retrata Dante e Virgílio na barca para o Inferno, ao início da Divina Comédia. 

Lars Von Trier vai praticar sobre a obra de Delacroix e de Dante Alighieri uma subversão cultural que o fará merecer pelo resto da história das revistas à la Cahiers du Cinéma o epíteto, muito merecido, de enfant terrible supremo da 7ª arte. Em uma versão transgressora, a Divina Comédia e sua representação gráfica por Delacroix são inseridos sem maiores pudores no tecido narrativo.

A visionária cineasta Mary Harron já havia percebido quando filmou Psicopata Americano que o fascista pode tornar-se um serial killer sem nunca abandonar o nimbo de seus privilégios.

No caso de Von Trier, seu protagonista Jack, um cara que sofre de TOC, obcecado com higiene, incapaz de suportar uma manchinha de sangue no carpete, é super skilfull na arte de ocultar cadáveres dentro de um mega-freezer.

Jack é o retrato da branquitude privilegiada que com tanta recorrência fornece quadros aos movimentos fascistas e de extrema-direita. Jack mata mais de 60 pessoas, mas seu terno-e-gravata comprados por milhares de dólares num shopping center onde só circula a casta burguesa está perfeitamente limpo e apurado. Um cidadão-de-bem aos olhos da alta sociedade.

Até mesmo a semelhança física entre os atores – Christian Bale, em American Psyco, e Matt Dillon – acaba por estabelecer uma analogia entre estas duas obras notáveis e os dois protagonistas das obras-irmãs de Harron e Trier. A psicopatia analisada por Trier é colocada no epicentro de um debate muito relevante, o da estetização da política. 

Lars Von Trier esforça-se, em certo momento do filme, para criar o seguinte ícone: a árvore sob a sombra da qual o grande escritor Goethe escreveu algumas de suas obras-primas, agora está dentro do território onde foi erguido o campo de concentração de Buchenwald.

Esta oak tree que deu sombra e guarida para Goethe criar seus poemas, peças e romances acabou sendo “testemunha” vegetal dos horrores de um campo de extermínio em pleno funcionamento. Com as fumaças vomitadas pelas chaminés sendo provenientes não da lenha, como é justo e legítimo, mas da queima de cadáveres de seres humanos que haviam sido deportados, concentrados e exterminados em massa pelo III Reich racista e antisemita em delírio de aplicação da “Solução Final”.

Goethe: o gênio alemão, o artista em todo seu esplendor, o autor de Fausto Werther, mente admirada por toda a Europa civilizada, uma espécie de Übermensch em carne viva (e que pôde inspirar o próprio Friedrich Nietzsche), aparentemente nada tem a ver com Buchenwald, onde o III Reich criou um de seus macabros experimentos na industrialização do assassinato. Mas Von Trier nos pede: pense melhor. Será que (parafraseando Benjamin e seu alerta) em todo monumento da civilização se escondem as marcas das patas sujas da barbárie?

A pátria de Goethe e Beethoven é também aquela cujo Estado, na época nazi, criou a destruição em massa nos campos da morte industrializada espalhados, por exemplo, pela Polônia (ex: Auschwitz). Ter parido Goethe não livrou a Alemanha da desgraça de cometer tais mega atrocidades.

Glenn Gould photographed on Oct. 26, 1965. By Harold Whyte / Toronto Star.

Outro exemplo é o modo como Von Trier se utiliza de vídeos do pianista canadense Glen Gould, um músico prodigioso, um dos intérpretes mais renomados de Bach e Chopin, conectando-o às atrocidades cometidas por seu Jack. A tese de Von Trier, se eu o entendi bem, não é a de que Glen Gould ou Johann Goethe são culpados por associação com aqueles que cometem atrocidades em nome da arte. Não se trata somente, para Trier, de praticar uma tolo jogo de culpabilização geral, um simplório modelo de aplicação do guilty by association. 

O jogo de Lars Von Trier é muito mais pesado. Tanto que ele prepara para o espectador uma espécie de sinistro happy end. Sim: os que ainda não assistiram e não querem saber o fim do filme, que corram do spoiler! Mas é preciso, para apreciar o filme, ler seu último ícone: Jack caindo no mar de fogo do círculo mais baixo do Inferno.

É óbvio que se trata de uma interlocução com Dante Alighieri, como fica óbvio pelo hacking que Von Trier pratica com a Divina Comédia e obras que esta inspirou (Delacroix, dentre outros). Mas no fundo é mais que mera interlocução: o cineasta está trabalhando com os afetos de sua platéia, e neste contexto a condenação ao inferno é quase um alívio que nos permite sair da sala de cinema um tanto quanto reconfortados.

Jack termina queimando no quinto dos infernos e isso, para nós espectadores médios de cinema dentro de shopping, é um consolo afetivo salutar. Ufa! Existe um Deus vigilante que garante as piores penas e punições aos serial killers e dementes psicóticos semelhantes! Ufa! Não há, in the long run, o triunfo da impunidade!

Ora, o grande tema subterrâneo deste genial ironista Von Trier é justamente o triunfo da impunidade por boa parte da trajetória-de-atrocidades de Jack. Por isso o final também deve ser lido numa chave sarcástica.

Numa cena brilhante, em que toda a mordacidade da ironia Lars Von Trieriana se manifesta com maior esplendor, o assassino Jack acabou de arrastar o cadáver de uma mulher recém-assassinada, que ele havia amarrado em sua van, para conduzi-la ao seu freezer. Só ao chegar a seu destino percebe que a cabeça da mulher, arrastada sobre o asfalto por muitos quilômetros, deixou um rastro de sangue na estrada que lhe entregaria de mão beijada para a polícia.

Aí é que – intervenção divina ou deux ex machina filtrados por um diabólico sarcasmo – começa a chover de maneira súbita. De um jeito tão providencial para salvá-loo dos tiros que aquela chuva é lida em chave supersticiosa: a água caindo do céu, que limpa o sangue alheio que ele derramou nas ruas, instiga Jack a sentir-se “abençoado por Deus”.

Tenham muito cuidado com homens, brancos e privilegiados que se acreditem “abençoados por Deus” e superiores ao resto dos humanos por seus dons e méritos artísticos.

No caso de Jack, isso acabou gerando esta monstruosidade-humana de alguém que é caçador-de-pessoas, carniceiro de seus contemporâneos, cujo freezer vai  se tornando, conforme o filme progride, numa espécie de mass grave somado a uma espécie de bunker-nazi em microcosmo.

Afinal de contas, o Jack interpretado por Matt Dillon fracassa tão grotescamente em fazer desabrochar algo de bom com sua existência que sua única obra arquitetônica, sua contribuição artística, seu magnum opus, é uma casinha macabra feita com os cadáveres entrelaçados de suas vítimas.

Vale ressaltar que Jack é um cara que tem TOC e seu transtorno de compulsão tem a ver com higiene. Podemos chamá-lo, provisoriamente, de um fanático higienista. O sangue que ele derrama, ele limpa. São inúmeros os seus crimes de feminicídio, vinculados a sua atitude de machão arrogante, que se acha muito mais esperto do que as mulheres. Ele é de tamanha grosseria e indelicadeza que jamais seria capaz de estabelecer vínculos libidinais satisfatórios, com pleno exercício da Função do Orgasmo tão salutar para os organismos psícofísicos e para as coletividades harmônicas humanas, segundo a teoria de Wilhelm Reich.

Jack é um cara que nunca aprendeu a amar, só sabe odiar. E o contexto cultural ao seu redor contribui para aprofundar sua tragédia ao conceder a ele um mundo econômico repleto de armas de fogo e munições comercializadas, com lobby forte por parte de corporações como a NRA (National Rifle Association), com celebridades lobistas como Charton Herston etc. Jack é descrito como um “doidão” pela caça, e o filme retrata a psicopatologia do caçador humano que mata animais à toa, somente para que tenha troféus de sua capacidade para a atrocidade.

WILLIAM BLAKE: Satan Arousing the Rebel Angels. Saiba mais sobre esta obra.

Von Trier constrói seu personagem explicitamente como figura diabólica. “Você lê William Blake como o Diabo lê a Bíblia”, diz Verge a Jack em uma das frases mais geniais do filme.

Jack chama seu “guia turístico infernal” de Verge, e não de Virgil – o que seu destino final explica. Jack, on the verge of hell, decide por fim tentar dar um golpe no próprio Deus. Vai tentar enganar o pai de todos os enganos e todas as armadilhas. Vai tentar ludibriar o Pai do próprio ex-anjo Lúcifer. Jack, é claro, se fode. No quinto dos infernos.

Alguns sairão do cinema reclamando que Lars Von Trier pode ser um excelente cineasta, mas é um péssimo teólogo. Na verdade, estamos diante de um herege impertinente, um artista profanador.

Para compreender estas diabruras de cineasta, é preciso focar mais ainda num dos mais importantes artistas da história humana, William Blake. No filme, Blake é uma presença recorrente, uma evocação constante. Suas gravuras pululam na tela do cinema e nos obrigam a pensar na representação humana dos deuses, do sagrado, do angelical, do diabólico.

Lars Von Trier, na construção de seus simbolismos, inspira-se muito em Blake, citando explicitamente os dois poemas de Songs of Innocence: “The Lamb” e “The Tyger” (esmiuçado pelo The Guardian), essenciais para a compreensão de cenas-chaves de A Casa Que Jack Construiu.

 

THE LAMB – William Blake

Little Lamb who made thee
Dost thou know who made thee
Gave thee life & bid thee feed.
By the stream & o’er the mead;
Gave thee clothing of delight,
Softest clothing wooly bright;
Gave thee such a tender voice,
Making all the vales rejoice:
Little Lamb who made thee
Dost thou know who made thee

  Little Lamb I’ll tell thee,
Little Lamb I’ll tell thee:
He is called by thy name,
For he calls himself a Lamb:
He is meek & he is mild,
He became a little child:
I a child & thou a lamb,
We are called by his name.
Little Lamb God bless thee.
Little Lamb God bless thee

 

THE TYGER – William Blake

Tyger Tyger. burning bright,
In the forests of the night:
What immortal hand or eye,
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies.
Burnt the fire of thine eyes!
On what wings dare he aspire!
What the hand, dare sieze the fire?

And what shoulder, & what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?
What the hammer? what the chain,
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp,
Dare its deadly terrors clasp!

When the stars threw down their spears
And water’d heaven with their tears:
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?
Tyger, Tyger burning bright,
In the forests of the night:
What immortal hand or eye,
Dare frame thy fearful symmetry?

O horrendo Jack é o veículo de uma metafísica, seus atos tem a ver com uma ideologia religiosa que subjaz às justificativas em que ele crê para as carnificinas que comete. Jack encarna uma espécie de cosmovisão em que crimes são benfeitorias, pois purgam a terra do que não presta. Seus assassínios consequências de uma espécie de higienismo metafísico (mas de efeitos bastante físicos). É a cosmovisão conexa ao extermínio em massa. A cosmovisão do III Reich, da Ku Klux Klan, do Bolsonarismo.

A noção – que é pura Necropolítica, para usar o conceito criado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe – de que pode ser belo você forjar um outro mundo utilizando-se como instrumento da violência fatal imposta a outrem. A muitos outros.

Jack, como Hitler, é um artista fracassado e sua obra arquitetônica é um fiasco. Ele não consegue levantar porra nenhuma e é tão incompetente como arquiteto que jamais seria contratado para exercer a profissão. Como fotógrafo, é também horrendo e de mau-gosto, mas leva fotografias de seus crimes como troféus, imaginando que há ali alguma beleza que sirva como justificativa para o seu injustificável morticínio seriado.

No fim das contas, não é à sabedoria cristã que Lars Von Trier adere de fato, mas sim à sabedoria trágica dos gregos, que este gênio artístico dinamarquês reativa com a potência impressionante e provocadora de seu cinema. Pois o grande ensinamento da história de A Casa Que Jack Construiu é similar aquela transmitida pelos maiores gênios da dramaturgia trágica (Ésquilo, Sófocles, Eurípides): a húbris é sempre punida pela nêmesisLei do cosmos. Lei do Humano.

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 27/11/2018

“CORAÇÕES LIVRES”, um filme de Susanne Bier (Dinamarca/Dogma 95, 2002) #CinephiliaCompulsiva

“CORAÇÕES LIVRES”, de Susanne Bier (Dinamarca, 2002, 109 min), é uma obra vinculada ao movimento Dogma 95, idealizado por Lars von Trier e Thomas Vinterberg em 1995 e inaugurado por filmes como Os Idiotas, Festa de Família O Rei Está Vivo.

Este filme de Susanne Bier prova que a renovação radical proposta por esta vanguarda vai muito além do minimalismo técnico e tem a ver sobretudo com o enfoque temático e a postura “anti-kitsch” intransigente: tudo o que a existência humana tem de absurdo, cruel e problemático não deve ser varrido para baixo do tapete. Muito pelo contrário: a obra cinematográfica deve revelar e desvelar as nossas vidas como elas são, aí incluídos todos os seus horrores, dificuldades, imbróglios afetivos, nós inextricáveis, absurdos nonsense etc.

Cæcilie (Sonja Richter) e Joachim (Nikolaj Lie Kaas) começam o filme na “vibe” dos pombinhos apaixonados que fazem pacto de casamento. Tudo começa com a cena clichê em que o cara estende a aliança para a moça, e esta aceita o pacto, só para que depois eles celebrem o iminente himeneu com uma transa esquentada pela lingerie nova-em-folha… É só o prelúdio da tragédia.

Evocando um clima dramatúrgico similar à de grandes autores do teatro da Escandinávia, como Henrik Ibsen ou August Strindberg, a obra de Susanne Bier logo lança seus personagens a um turbilhão de sofrimento e confusão: de supetão, Joachim é atropelado, tem sua coluna vertebral destroçada, sem chance de reconstrução. Os médicos revelam a péssima notícia: ele nunca voltará a andar; nem nunca sentirá nada de seu corpo, do pescoço pra baixo. Poderia falar e pensar, mas estaria perpetuamente impossibilitado de locomoção.

Lars Von Trier já havia explorado dilemas éticos e afetivos semelhantes em seu brilhante, pungente e inesquecível “Ondas do Destino” (Breaking the Waves), de 1996, com atuação magistral de Emily Watson. Similarmente, Susanne Bier dá sua contribuição às discussões filosófico-existenciais que interessam aos “Dogmáticos”, revelando as peripécias deste casal partido, deste casório cancelado, desta irrupção súbita do absurdo em um cenário que parecia idílico.


A narrativa constrói-se, após o acidente, por uma intrincada teia de relações: o médico Niels (Mads Mikkelsen), casado com aquela que foi responsável pelo atropelamento de Joacchim, põe-se a consolar a pobre Cæcilie, traumatizada e perdida na vida após o choque súbito. Não demora para que pinte um caso extra-conjugal caloroso, apaixonado, entre Niels e Cæcilie, que só torna mais complexo o labirinto inter-relacional da trama.

O filme pode servir de instigador para vários debates interessantes, a começar pela eutanásia ou direito ao suicídio: a situação de Joachim faz-nos pensar no quão cruel pode ser um sistema social que não permite ao sujeito a escolha pela morte voluntária, se ele assim o desejar, obrigando-o a torturas físicas e psíquicas às quais não consegue dar fim caso não encontre um médico que, à la Jack Kevorkian, tope burlar a lei para fornecer uma seringa da misericórdia…

O filme não lida explicitamente com o tema – como fez “Mar Adentro”, de Alejandro Amenábar – mas não deixa de nos colocar diante da vivência hospitalar angustiante. O paciente, por muito tempo, fica preso numa jaula de amargura e raiva impotente, sem ter o consolo de que poderia escolher a porta-de-saída da vida se assim o preferisse.

Outro tema importante está nas mudanças impostas ao amor pela dificultação súbita dos contatos sexuais, da amorosidade propriamente física. As coisas nunca mais serão as mesmas entre Cæcilie e Joachim pois eles jamais conseguirão de volta a plena experiência do contato corporal após o acidente que priva Joachim do tato e do movimento em seu organismo quase inteiro.

É assim que percebemos a farsa da noção de “amor platônico”, isto é, um amor que seria direcionado ao outro considerado quase como um ente intelectual, mental, adorado à distância e sem contato físico. No filme, Cæcilie até tenta esta via, manifesta sua fidelidade ao acidentado, sua disposição de permanecer ao seu lado, de continuar amando-o do mesmo jeito, mas isso é sem esperança, e o Joachim o sabe bem – tanto que seu esforço, que pode parecer cruel, também tem a ver com libertá-la do fardo que ele se tornou.

O amor autêntico, afinal, não é apenas um vínculo inter-subjetivo, uma relação entre mentes, uma relação intelectualista entre criaturas gostam da idéia que tem um do outro, mas inclui de maneira necessária a dimensão inter-corporal, libidinal, voluptuosa. Na ausência da possibilidade de gozo entre os corpos, o amor vê erguer-se diante de si uma barreira dificilmente transponível, e é isso que o caso de Cæcilie com Niels escancara. Na absurdidade que às vezes reina na existência humana, em que tantos casais acabam destruídos por uma fatalidade súbita. que não parece derivar de nenhuma culpa prévia mas da simples falta de sorte, o amor real, bem diferente de certas ilusões adocicadas veiculadas por Hollywood ou por canções pop, é às vezes a necessidade pulsante dos corpos de unirem-se num caldeirão de comunhão.

Ainda que provisória, precária, efêmera e perigosa – Niels, afinal, põe em risco seu casamento, sua família, sua conhecida vida domada, seu porto seguro -, estas vibrantes conjunções afetivas e carnais fornecem o salutar refúgio contra o séquito de absurdos e solidões que nos ronda pelos labirintos da vida.


por Eduardo Carli de Moraes, para a A Casa de Vidro. Título original: Elsker dig for evigt; Título em inglês: Open Hearts. Baixar filme e legenda no Making Off. Conheça a seção Cinephilia Compulsiva – Escritos Sobre Filmes.

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Com “A Caça”, o cinema de Vinterberg atinge a grandeza de Bergman e dialoga com Kafka e Ibsen

a caça

 

#EscritosEstéticosDeUmCinéfiloCompulsivo
por Eduardo Carli de Moraes // www.acasadevidro.com

Dizem que a mentira tem perna curta. Mas aí não se esconde uma crença um tanto otimista? A mentira pode ter perna longa, perdurar por séculos, atravessar milênios… Em A Caça, do enfant terrible dinarmarquês Thomas Vinterberg, a mentira é uma bola-de-neve. O filme explora a disseminação quase epidêmica de uma calúnia e através de uma narrativa vigorosa, que nos lembra de clássicos da literatura como O Processo de Kafka, O Inimigo do Povo de Ibsen e Reparação de Ian McEwan, crava um novo clássico no céu do cinema contemporâneo.

Logo no início do romance kafkiano, em uma primeira sentença memorável na história da literatura, Josef K. acorda de sonos intranquilos e é preso “sem ter feito nada de errado”, concluindo de imediato que alguém o deve ter caluniado. É um despertar quase tão traumático quanto aquele de Gregor Samsa na Metamorfose. No romance esplêndido de McEwan, a pequena Briony, de imaginação fértil, ignorante sobre os jogos carnais luxuriantes dos adultos, lança uma acusação de estupro que terá graves consequências para o futuro dos acusados.

Às vezes não é preciso ser condenado para ser danado por uma acusação. Como pode-se inocentar alguém completamente depois de ter sido maculado pela acusação mesma? Eis um ponto de interrogação, intrigante e inspirador, que parece ser algo comum às três obras, a de Kafka, a de McEwan e ao filme de Vinterberg. Lucas, o protagonista de A Caça, também vê-se engolfado por um processo em que acaba sendo condenado, proscrito e judiado. A acusação parte de alguém presumivelmente inocente, sem mácula: Vinterberg também faz a “acusação” partir de uma criança, como ocorre em McEwan.

A vibe do filme, vibrante de um certo grandeur trágico que Vinterberg consegue comunicar a seu filme, lembra alguns dos filmes mais perturbadores de Ingmar Bergman ou Michael Haneke. A Caça é tão bem narrado, com uma trama tão bem traçada, que torna-se um thriller com uma qualidade narrativa que beira as estratosferas, ou seja, que rivaliza com Ibsen ou Strindberg.

Na peça do grande dramaturgo norueguês Ibsen, O Inimigo do Povo, o protagonista é um médico que descobre em sua comunidade um crime ambiental, uma contaminação das águas, que transforma rios e termas em cursos d’água envenenados com tóxicos, cheios de patogênicos. O “herói” ibseniano, aquele que levanta a voz para denunciar os ecocídios, é isolado da comunidade e taxado como inimigo do povo. Torna-se um pária social. 

Vinterberg, similarmente, também faz seu protagonista Lucas ser escorraçado da comunidade, como se ele próprio fosse um doente, um perverso, um dos leprosos de que Foucault fala, na História da Loucura, e que eram varridos para os leprosários que prenunciaram os hospícios… A Caça é uma meditação sobre a crença na lepra moral. Lucas, que acaba sendo considerado por aqueles ao seu redor como detentor deste mal da lepra moral, torna-se alguém que merece ser lançado para o ermo, que deve ser proibido de conviver em meio aos homens civilizados… Uma reflexão sobre o estigma. 

 Como toda obra-de-arte poderosa e perdurável, A Caça é perturbadora nas perguntas que coloca, intrigante nas respostas que sugere, fascinante pelos silêncios e faltas-de-explicação que permite que permaneçam. O filme é polissêmico e deixa abertas muitas portas para variadas interpretações. Mas é inequívoco e explícito em sua apresentação da inocência do acusado: a câmera de Vinterberg explica com simplicidade pedagógica as ocorrências que levaram ao mau-entendido. A justiça humana aparece em toda a sua capacidade para a lambança, todo sua aptidão a tornar-se corrompida, toda a força das circunstâncias com poder de desencaminhá-la. Justiça humana, demasiado humana, e um bocado imperfeita.

Sob o signo de Saturno, possuído pelos fantasmas de Kafka e Ibsen, Bergman e Strindberg, Vinterberg realizou com a A Caça algo similar à proeza conquistada por seu filme de estréia, Festa de Família (Festen): mostrar que Lars Von Trier não é um gênio solitário no cinema nórdico da atualidade, mas que continua em ótima companhia. Que dois enfant terribles sejam muito mais supimpas para a vitalização da arte do cinema do que um enfant terrible sozinho, quem duvida? Avante, iconoclastas!

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